A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O QUINTO “EU”

Por meio das grandes e velozes mudanças no mundo tecnológico é possível afirmar que nos tempos atuais emerge nas redes sociais, um novo eu, uma nova persona digital

A cada ano que passa a internet se torna cada vez mais presente em nossa vida. Com a evolução tecnológica, tudo que fazemos, de certa forma, está atrelado ao seu uso, tal como nos negócios, na família e em toda comunicação de um modo geral. Em termos de usabilidade, o telefone celular está substituindo o tradicional computador, tanto no seu uso profissional quanto no pessoal.

Estudos mostram que utilizamos o celular para acessarmos mensagens de WhatsApp e redes sociais mais de 100 vezes ao dia.

No campo familiar, por exemplo, parentes distantes conseguem se comunicar, efetivamente, através de smartphones cada vez mais modernos; no campo das vendas, o e-commerce se encontra em praticamente todas as plataformas de web, com faturamento em vendas de bilhões de reais, no Brasil e no mundo; nas artes, músicos, atores, pintores, dentre outros artistas, podem mostrar seus trabalhos com uma escalabilidade nunca possível antes.

Na política, principalmente no Brasil, a internet tem sido um marco histórico. Políticos podem apresentar, em tempo real, suas propostas e projetos. Ainda coexistem, neste campo, flagrantes polêmicos, que são filmados por cinegrafistas amadores o tempo todo.

Em um contexto global, outros flagrantes, em demais áreas sociais, ainda são diariamente publicados, com centenas de postagens, supostamente, de interesse público. Dentre essas publicações, surgem as chamadas fake news, que, na prática, sempre existiram nos veículos convencionais.

A internet apenas fomentou a possibilidade do que for verdadeiro ser publicado rapidamente ou em tempo real. Por outro lado, facilitou a inserção de publicações inverídicas com a mesma velocidade. Mas, mesmo com o grande volume de fake news, o acréscimo de postagens de vídeos relativos a flagrantes nas redes, tanto políticos quanto sociais, ratifica, em maior escala, o poder que a internet tem de nos fornecer o que é verdadeiro sobre o que é falso em uma composição bastante superior às mídias convencionais.

Nesse contexto, as redes sociais imperam na audiência, que antes era objeto soberano da televisão e de outras mídias tradicionais. Mas, além dos campos citados acima, familiar, vendas, política, dentre outros, a atmosfera anônima ganhou um espaço midiático inédito através da rede, e, atualmente, qualquer pessoa, seja qual for o seu perfil, pode deixar sua mensagem para um número gigantesco de pessoas.

Embora haja, progressivamente, um gigantesco e veloz desenvolvimento tecnológico, tanto de hardware quanto de software, ao mesmo tempo, paralelo a tais avanços, acontece um vertiginoso fenômeno humano nas redes sociais, em que fica claro, novamente, que todos os campos sociais citados presumem uma competência de comunicação humana sem precedentes.

Na prática, isso quer dizer que seja você um político ou um economista, um empresário ou um artista, que queira se comunicar ou vender algum produto/serviço na internet, seja qual for sua posição na rede, é preciso ter performance, com persuasão, assim como, igualmente, sempre foi necessário na esfera física comum. O talento humano, mais do que nunca, através da internet, tem a possibilidade de penetrar nas redes e na vida das pessoas, fazendo a diferença.

HUMANIZAÇÃO

Em outras palavras, estamos em uma geração tecnológica e digital, mas a humanização de tais processos digitais é inevitável. Atualmente, é perceptível uma grande mudança nos formatos de comunicação, que transcendem do modelo tradicional para uma nova forma mais humanizada, mesmo dentro de uma área virtual. O desafio hoje para qualquer um de nós que queira estar na web é o de humanizar nosso perfil digital. Um vendedor, por exemplo, que comercialize seu produto/serviço, precisa humanizar sua comunicação nas telas, ao máximo que lhe for possível, para seduzir seu público-alvo.

Outrossim, imaginemos a seguinte situação: um corretor de imóveis anuncia a venda de um apartamento em sua rede social, com o formato tradicional de propaganda (fotos, metragem, mensagens em destaque, informações de preço/pagamentos); já outro corretor anuncia esse mesmo imóvel fazendo uma transmissão ao vivo de seu celular, dentro do apartamento, com seu rosto enquadrado no canto da tela, circulando com a câmera e anunciando as mesmas informações contidas na propaganda do primeiro corretor. Certamente o segundo profissional conseguirá mais visitas nesse imóvel e, consequentemente, mais possibilidade de venda.

O mesmo fenômeno acontece na política. A sociedade não quer mais assistir uma propaganda eleitoral produzida por grandes agências de publicidade, com trilhas sonoras, focos estratégicos, dentre outras técnicas de sedução, mas sim um candidato olhando nos olhos de seus eleitores e falando de forma objetiva suas propostas e projetos.

A percepção de um a comunicação espontânea e humanizada cresce fortemente nas redes, em centenas de áreas de atuação.

Estamos na era da humanização da geração digital. Não queremos mais ver indicações escritas) por exemplo, de um alimento saudável. Queremos assistir a um nutricionista sugerindo, preparando e consumindo o alimento indicado. Estamos na era da verdade, da transparência, da objetividade. A era é digital, mas, assim como no mundo físico tradicional, o ser humano é quem faz toda a diferença. E,ao que parece, quanto mais digital nos tornamos, mais carecemos de presença e verdade humana nesses multiformatos.

Essa transformação está influenciando e redesenhando todos os processos de marketing, dentro e fora das redes. Cada vez mais o consumidor deseja receber mensagens verdadeiras, sem ilusões estéticas ou propagandas enganosas. Não queremos mais modelos de anúncios, com montagens e retoques de imagem feitos em programas de correção estética. Queremos, por exemplo, propagandas realistas, modelos com rugas, com sua cor de olhos como realmente é. E essas características já estão acontecendo em todo o meio publicitário. A cada dia, desejamos e praticamos a vida como ela é, sem enganações, sem manipulações. A internet democratizou o acesso à informação, e, agora, queremos também manifestar nossos valores na rede, através de nossa personalidade.

Esse processo de humanização, principalmente na camada de pessoas anônimas, na internet cresceu muito com o advento da ferramenta chamada “Stories”, das redes sociais Instagram e Facebook. Através do “Stories”, todos podemos mostrar quem somos, tal como nosso dia a dia, na dosagem que desejarmos. Dessa forma, conforme vimos nos exemplos acima, o ser humano está presente na era digital como nunca.

Foi uma evolução lenta, mas constante, e agora tanto pessoas públicas quanto anônimas se comunicam efetivamente nas redes. Até mesmo uma celebridade tem como primeira ferramenta de comunicação com seu público sua rede social. E, assim como antes acontecia formalmente na televisão, o fenômeno de nos tomarmos fãs de uma celebridade que não conhecíamos, e que também não nos conhecia, agora nessa nova era digital e humanizada da internet nos torna fãs de anônimos que não conhecemos, contudo de maneira mais informal, espontânea e intimista, ao mesmo tempo com maior escalabilidade do que na televisão.

NOVA PERSONA DIGITAL

Com base em todas essas considerações, é correto afirmar que nos tempos atuais emerge, efetivamente, na internet, mas principalmente nas redes socais, um novo eu, uma nova persona digital. Uma versão humana nas redes.

Por outro lado, não somos obrigados a viver nesse mundo virtual, e, principalmente, a vestirmos uma persona digital. É possível estar fora, opcionalmente, sem nenhum tipo de dano. Ao contrário, estudos mostram que o excesso de permanência nas redes tem aumentado os sintomas de ansiedade e depressão em diversos usuários, no Brasil e no mundo. Mas para aqueles que desejam estar e, ainda, vender algum produto/serviço no espectro digital, é preciso ter consciência de que é inevitável o reconhecimento coletivo de um Eu digital.

Outra questão que vem sendo muito comentada na própria rede é a crítica sobre a maioria dos internautas só postar coisas boas, e, sobretudo, a máxima de que estamos sempre todos felizes nas publicações. Embora isso seja uma realidade, existem muitas personas digitais contradizendo essas correntes de opinião, através de diversas postagens espontâneas, como, por exemplo, pessoas que se apresentam nos stories de sua rede social descabeladas, sem nenhuma produção. Muitos gravam vídeos sem roteiros, dentro de seus carros, até mesmo na cama, antes de dormir ou logo após acordar, dentre outras conveniências, livres de preocupações estéticas, mas sim com os aspectos verdadeiros de realidade que buscamos em nossa sociedade atualmente.

O Eu digital não para de ganhar vida na rede: consegue persuadir a quem não conhece; consegue vender para quem não pensava em comprar, e, sobretudo, consegue trazer uma realidade, uma simplicidade e uma efetividade que antes não havia nos veículos e em publicidades de mídia tradicionais.

Através do Eu digital, pesquisamos e escolhemos melhor nossos clientes, parceiros, amigos, assim como também somos encontrados de forma mais precisa. Através do Eu digital, ao contrário do que muitos pensam, estamos tendo mais acesso a um “eu pessoal” do outro, ou um “eu real” ou, ainda, a um “eu profissional”, a quem durante toda uma vida não tivemos acesso.

Os sites de relacionamento, como o consagrado Tinder, dentre outros, são uma explanação totalitária da busca de um Eu real através de um Eu digital. O que são as redes profissionais de carreira e negócios, como o LinkedIn, se não uma busca de um Eu profissional através de um Eu digital?

Em pouco tempo, o Eu digital mostra, claramente, quem é quem e nos exibe e nos desnuda na medida em que, gradualmente, nos mostramos na rede. O Eu digital surge, conceitualmente, como um quinto Eu.

Historicamente, nos campos da Psicologia, existe o consagrado estudo Janela de Johari, publicado pelos pesquisadores Joseph Luft e Harry Ingham. Esse trabalho indica que o ser humano incorpora em sua vida quatro eus: o Eu aberto, o Eu cego, o Eu secreto e o Eu desconhecido. Vamos conhecê-los:

EU ABERTO – Está relacionado ao nosso Eu social, do ego, da persona; é racional e consciente. Demonstra, ao campo social, apenas uma parte do que somos.

EU SECRETO – Está relacionado ao nosso Eu pessoal, que somente quem convive no ambiente íntimo/ familiar consegue perceber, e ao qual as pessoas do convívio social não têm acesso.

EU CEGO – Está relacionado ao nosso Eu que não reconhecemos em nós mesmos, mas que tanto as pessoas de nosso ambiente social quanto as do nosso ambiente íntimo/familiar podem perceber. EU DESCONHECIDO – É inconsciente. Nosso ego não tem acesso. O Eu desconhecido está relacionado ao campo da psicologia freudiana, mas também à junguiana, como o nosso Self, que é a atmosfera mais profunda e mais sábia de nossa mente, tanto desconhecida por nós quanto por quem convive conosco em todos os nossos ambientes.

Com base em todos os aspectos analisados dessa nova era digital, é improvável não consideramos um Eu digital ou um quinto Eu, que, surpreendentemente, revela ao mundo um pouco do nosso Eu secreto, através das publicações mais intimistas que ocorrem atualmente nas redes, conforme vimos. Mas pode revelar, também, os eus aberto e cego, já que, na medida em que nos apresentamos abertamente, na internet, também ocorre de nos mostrarmos até mais do que pretendíamos, e, muitas vezes, nem percebemos. Ou seja, o que acontecia no mundo físico tradicional se repete no mundo digital.

Nesse espectro digital continua preservado o Eu desconhecido, por se tratar de uma esfera muito profunda e inconsciente de nossa psique. Mas, frequentemente, todos os outros “eus” podem se revelar nas redes, como um Eu único. Nesse caso, outro fator que conceitua o Eu digital como um Eu único é o índice de pessoas que possuem dois perfis nas redes sociais, um profissional e outro pessoal, em uma tentativa de gerar dois eus digitais.

Entretanto, especialistas já citaram a ilusão em torno dessa estratégia. Uma vez que se tenha uma mesma pessoa em diferentes perfis, na mente de um mesmo seguidor, a nossa imagem é sempre uma, independentemente de quantos perfis se tenha.

Ainda nesse raciocínio é preciso levar também em consideração uma determinada congruência entre o que somos dentro e o que somos fora da rede, para que o Eu digital tenha credibilidade. O que antes os estudos da neurolinguística apresentavam como congruência entre linguagem verbal e corporal, agora, por analogia, o Eu digital nos confere congruência entre quem somos na rede e no mundo real.

O Eu digital, ou quinto Eu, pode ser uma expressão clara de quem realmente somos. Uma espécie de soma de todos os eus, sintetizados em uma versão, que, no mínimo, expresse de maneira congruente quem somos, e, no máximo, o quanto podemos ser ainda melhores: nossa persona, nossa personalidade, nossa persuasão e, sobretudo, nossa humanidade. O Eu digital é, de fato, um quinto Eu, que tende a expressar cada vez mais o nosso Eu real.

Boa sorte e boas conexões!

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.