OUTROS OLHARES

ATÉ QUANDO?

Há imensa ansiedade para a volta à normalidade possível – as predições científicas e matemáticas indicam pelo menos mais um mês, desde que o isolamento seja respeitado à risca

Parece uma eternidade, e não se passaram mais de vinte dias desde que o governo do Estado de São Paulo decretou, pioneiramente no Brasil, severas medidas de distanciamento social para combater a pandemia de Covid-19. A partir daí, o país parou, com algumas distinções em cada região – congelamento necessário, imposto pelo mantra que atravessa o mundo, ancorado em três palavrinhas mandatórias: fique em casa. E é para ficar mesmo. Mas até quando teremos de estar confinados? Ou, em outros termos: quando conseguiremos retomar o cotidiano de modo relativamente normal, sem riscos para a saúde, mas em ritmo que autorize ar respirável e luz para a economia? Não há, evidentemente, urna resposta clara, muito menos única.

No entanto, a curva de casos, mortes e, sobretudo, recuperações em países que chegaram antes ao drama além de vastos estudos de epidemiologia e projeções matemáticas, oferece um cauteloso – cauteloso, insista-se – otimismo. Um modo inaugural de enxergar alguma saída é olhar para a região de Hubei, na China, epicentro do espraiamento do coronavírus, identificado pela primeira vez logo depois do natal de 2019, então como “uma pneumonia atípica de causa desconhecida” e que, na quinta-feira 2, tinha alcançado a triste marca de mais de 1 milhão de casos, 8.000 deles no Brasil. Em 23 de janeiro, a cidade mais populosa do condado chinês – Wuhan – entrou em um processo chamado de “isolamento sanitário”. Tudo fechou – ruas, escolas, estabelecimentos comerciais. Em 24 de março, depois de exatos dois meses, a pétrea decisão foi levantada.

Aos poucos, os meios de transporte público em Wuhan começam a funcionar, com usuários de máscara, e as aulas são retomadas gradativamente (embora as salas de cinema permaneçam com cadeados). Vive­ se, enfim, fora do enclausuramento – ainda que com receio permanente. Tudo somado, eis uma perspectiva, empírica, baseada no exemplo da China: temos ainda pelo menos outro mês de quarentena no Brasil. Se o cálculo levar em conta a eclosão do primeiro caso, aplicando-se a toada por aqui, o prazo se estenderá por mais trinta dias. Seria plausível, portanto, o restabelecimento da normalidade a partir do fim de maio, início de junho. Mas não para todos ao mesmo tempo. O provável, segundo expectativa de técnicos do Ministério da Saúde, não revelada oficialmente: a normalidade mesmo só voltará em setembro. Diz Dimas Covas, diretor do Instituto Butantan, em São Paulo, uma das vozes mais respeitadas do país quando se fala de vacinas, interlocutor preferencial das autoridades de saúde: “Se seguirmos rigorosamente a orientação de afastamento, evitando a circulação de pessoas, poderemos ter um quadro positivo lá na frente”. Por ora, não – e espera-se um salto de internações nos próximos quinze dias.

A experiência chinesa, em que pese a possibilidade de um segundo e até mesmo um terceiro surto, representa uma janela de horizonte. Embora seja compulsório registrar as diferenças: a ditadura mandou prender quem ousasse abrir a porta para a rua; havia testes em profusão, separando sãos de enfermos; e deu-se, sempre bom sublinhar, uma exibição da extraordinária capacidade de movimentação oriental, que ergueu em apenas dez dias um hospital com 1.600 leitos. Ainda assim, apesar das evidentes discrepâncias, trata-se de um bom espelho.

Outros cenários, baseados em levantamentos rigorosos, entregam diferentes alternativas – bem mais sinistras. Há, grosso modo, duas perspectivas fundamentais no campo dos estudos de respeitadas instituições sobre o Brasil – uma em relação ao tempo de quarentena e a outra relativa ao número de óbitos. A primeira, desenhada por grupos como o da Universidade Simon Fraser, do Canadá, ao medir o vaivém virótico de uma cidade grande, Vancouver, adverte que são necessários ainda seis meses de vigília no Brasil, dado o tipo de quarentena costurado por aqui (algo em torno de 60% das pessoas com restrição de circulação). Detalhe: se isso for verdade, pulverizará nossa economia. O outro trabalho, dos cientistas do Imperial College, de Londres, ao focar a régua de mortes, sobretudo, e menos a linha temporal, é ainda mais assustador. Para eles, sem distanciamento social, haveria mais de 1 milhão de falecimentos no Brasil. Com restrições à locomoção de 45% da população, o pico iria a 627.000. Isolando-se 60% dos idosos, a 529.000. Com 75% em casa e aplicação massiva de testes, seriam 44.000 mortos.

Eis a chave, fundamental para chegarmos ao melhor cenário: ampliar os testes, como fizeram a Alemanha e a Coreia do Sul, que frearam a letalidade. Na Alemanha, país com um dos menores índices de mortalidade em decorrência da Covid-19, de 1,3% (no Brasil, a média é de 3,8%), são realizados 2.023 exames de detecção por milhão de habitantes. No Brasil, apenas catorze por milhão. A Coreia do Sul, com índice de mortes semelhante ao alemão, começou a produzir testes para coronavírus desde o princípio. Quando o surto despontou, ela tinha capacidade de realizar mais de 10.000 exames por dia. Hoje, o país, que chegou a ser o segundo mais atingido pela pandemia, tem um dos melhores controles do surto e baixa taxa de letalidade. Foi debruçado nesse pacote de informações científicas, além de em permanente atualização probabilística apoiada em estudos da Universidade Stanford e da Fiocruz, que o governo do Estado de São Paulo montou um comitê de crise liderado por infectologistas e com o apoio de uma consultoria internacional. Eles também, é óbvio, se indagam: até quando?

O quando depende do agora, do imediato – e também do que foi feito anteriormente. A decisão paulista de aplicar a quarentena foi dura e erroneamente criticada pelo governo federal nos primeiros dias. Mas, se há alguma possibilidade de normalização entre trinta e sessenta dias, ela acontece em razão dessa medida. “Foi uma iniciativa fundamental, que consideraram prematura, mas os dias mostraram que estava certa”, diz o infectologista Marcos Boulos, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), integrante do time de emergência. Um de seus pares, também da USP, Esper Kallás, afirma que o exagerado zelo na largada é imperioso em situações inéditas como a do surto atual. “Faltavam-nos dados precisos, e as referências, como as da China, poderiam não se aplicar ao Brasil”, explica ele.

O bom resultado da agressividade sanitária das autoridades de São Paulo: a transmissão do vírus no estado, que no início era de um doente para seis pessoas, caiu de um para apenas duas. Com taxa de contaminação mais lenta, ganha-se o tempo necessário para evitar a explosão do sistema público de saúde, cuja salvação podem ser os hospitais de campanha como o do Estádio do Pacaembu, na capital paulista, e o que está sendo erguido no Maracanã. Um levantamento do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde mostrou que em 72% das regiões do Brasil o número de leitos de UTI está abaixo da média recomendada – dez a trinta leitos para cada 100.000 habitantes. Por isso, reafirme-se, sair do isolamento é considerado um jogo de xadrez intrincado. Para o biólogo Atila Iamarino, doutor em microbiologia pela USP, “quanto mais severa for a quarentena, mais rápido ela poderá ser retirada”. Outro modo de freá-la, de mãos dadas com o enclausuramento, é controlar o contato dos doentes com os não doentes.Não por acaso, adequadamente, o Ministério da Saúde anunciou – à falta de testes, que precisam ser importados – um serviço de ligações telefônicas, alimentadas por inteligência artificial, de modo a distinguir as ditas “zonas quentes” de outras menos ameaçadoras. Desde 1º de abril, 125 milhões de brasileiros estão recebendo chamadas telefônicas com perguntas sobre a existência (ou não) de sintomas. Um colossal banco de dado indicará onde serão necessárias ações incisivas de equipes de saúde para evitar que o vírus se espalhe (ainda) mais. É a aposta do lado consciente do governo federal. E é boa.

O nome do jogo é cautela – ou, na citação do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, bebendo de Paulinho da Viola, “faça como um velho marinheiro, que durante o nevoeiro leva o barco devagar”. Na abertura de portas, dentro de dois meses, será crucial novamente, copiar os exemplos bem-sucedidos. Além de Hubei, Hong Kong e Singapura, que adotaram medidas fortes de isolamento, começam a voltar ao dia a dia com cuidados como a manutenção do distanciamento, o uso massivo de máscaras, a evitação de aglomerações e a adoção do home office, para quem pode trabalhar de casa sem prejuízo. Eis o novo normal de um mundo que terá de conviver com o coronavírus, mesmo depois da criação de vacina e remédios comprovadamente eficazes, algo que não acontecerá antes de um ano.

Em futuro breve, a Covid-19 pode se tornar o que é a gripe hoje – um flagelo controlável, recorrente no inverno. Se tivéssemos permitido que a pandemia seguisse seu curso natural, sem intervenção, ela acabaria, talvez definitivamente, em cerca de doze meses, mas deixaria milhões de mortos, como aconteceu quando da gripe espanhola, que ceifou 50 milhões de vidas em 1918. Ninguém deseja esse cenário – e o preço, que fere a economia global, mergulhada na pior crise desde a II Guerra, é ficar em casa. Calmamente, como um velho marinheiro.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 6 DE ABRIL

RECONCILIAÇÃO – RESTAURANDO RELACIONAMENTOS

Acautelai-vos. Se teu irmão pecar contra ti, repreende-o; se ele se arrepender, perdoa-lhe (Lucas 17.3).

O lar muitas vezes é palco de conflitos e tensões. Floresce nesse canteiro não apenas o amor, mas também a erva daninha do ressentimento. Feridas emocionais são abertas, batalhas inglórias são travadas, e o saldo dessas rusgas é a decepção e a quebra da comunhão. Há cônjuges magoados uns com os outros; há filhos tristes com os pais; há pais que não conversam mais com os filhos; há irmãos que parecem inimigos dentro da mesma casa. Nesse cenário cinzento de amargura, a reconciliação é uma necessidade vital. A Bíblia fala sobre Jacó e Esaú. Eram irmãos gêmeos, mas viviam em disputas e querelas. Até o dia em que Jacó traiu Esaú. Este passou a odiá-lo e decidiu matá-lo. Jacó precisou fugir de casa, e essa fuga durou mais de vinte anos. O tempo não foi suficiente para curar aquela ferida. Jacó voltou rico e com numerosa família, mas temeu encontrar o irmão. Por providência divina, Deus salvou Jacó no caminho da volta para sua terra e mudou o coração de Esaú. Aquele encontro, que poderia ser trágico, foi transformado numa festa de reconciliação. Eles se abraçaram e restauraram a relação quebrada havia mais de vinte anos. Você também pode fazer o mesmo. Hoje é tempo de perdão. Hoje é o dia da reconciliação!

GESTÃO E CARREIRA

COMO O TRABALHO REMOTO PODE AFETAR SEU RELACIONAMENTO

Uma pesquisa do site de carreiras Flex Jobs mostrou que a maioria dos profissionais acha que um emprego flexível pode melhorar a vida amorosa. Mas a pilha de louça pode atrapalhar

Uma pesquisa do site americano de carreiras Flex Jobs mostrou que a maioria dos profissionais acha que ter um emprego flexível pode melhorar sua vida amorosa. Cerca de 64% dos 3.900 entrevistados afirmaram que trabalhar em casa beneficiaria seu relacionamento. Além disso, 80% deles também disseram que o trabalho remoto os tornariam mais atentos ao parceiro.

Segundo uma reportagem do site Business Insider, trabalhar remotamente pode trazer tanto mudanças positivas quanto negativas quando se trata da vida pessoal. O home office pode significar mais tempo para estar com o parceiro, participar da reunião de pais na escola do filho ou marcar um encontro amoroso de última hora.

Mas para o psicólogo Ramani Durvasula, um problema comum entre esses casais é quando o parceiro que trabalha remotamente assume todas as tarefas domésticas. Isso pode causar estresse no relacionamento e levar a conflitos, segundo ele.

O mesmo acontece para o profissional que está em home office, mas não assume as tarefas domésticas. “Isso pode criar a ilusão de que o trabalhador remoto está se esquivando, porque, ao estar em casa, ele poderia cuidar do filho, fazer compras ou limpar a casa, mas isso pode não ser possível”, disse Durvasula em entrevista ao Business Insider.

Outro problema é a questão da solidão. O profissional remoto pode se sentir mais solitário do que o parceiro que trabalha em escritório. Além disso, pode querer sair de casa no final do dia, enquanto o parceiro que trabalha no escritório pode se sentir cansado depois de um longo trajeto ou reuniões extensas.

Segundo o terapeuta, situações como essa também podem levar à desconfiança no relacionamento, pois quem trabalha em casa pode sair com mais frequência.

Então, o que o casal deve fazer para que o trabalho home office não prejudique o relacionamento? Entre as principais dicas, Durvasula recomenda programar uma agenda e reservar um tempo específico dedicado ao trabalho e outro para o parceiro e família.

Além disso, é fundamental discutir e dividir as tarefas domésticas e dispor de uma área específica da casa para o trabalho, de modo que o trabalho não ocupe totalmente a vida do profissional, física e mentalmente. 

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O QUINTO “EU”

Por meio das grandes e velozes mudanças no mundo tecnológico é possível afirmar que nos tempos atuais emerge nas redes sociais, um novo eu, uma nova persona digital

A cada ano que passa a internet se torna cada vez mais presente em nossa vida. Com a evolução tecnológica, tudo que fazemos, de certa forma, está atrelado ao seu uso, tal como nos negócios, na família e em toda comunicação de um modo geral. Em termos de usabilidade, o telefone celular está substituindo o tradicional computador, tanto no seu uso profissional quanto no pessoal.

Estudos mostram que utilizamos o celular para acessarmos mensagens de WhatsApp e redes sociais mais de 100 vezes ao dia.

No campo familiar, por exemplo, parentes distantes conseguem se comunicar, efetivamente, através de smartphones cada vez mais modernos; no campo das vendas, o e-commerce se encontra em praticamente todas as plataformas de web, com faturamento em vendas de bilhões de reais, no Brasil e no mundo; nas artes, músicos, atores, pintores, dentre outros artistas, podem mostrar seus trabalhos com uma escalabilidade nunca possível antes.

Na política, principalmente no Brasil, a internet tem sido um marco histórico. Políticos podem apresentar, em tempo real, suas propostas e projetos. Ainda coexistem, neste campo, flagrantes polêmicos, que são filmados por cinegrafistas amadores o tempo todo.

Em um contexto global, outros flagrantes, em demais áreas sociais, ainda são diariamente publicados, com centenas de postagens, supostamente, de interesse público. Dentre essas publicações, surgem as chamadas fake news, que, na prática, sempre existiram nos veículos convencionais.

A internet apenas fomentou a possibilidade do que for verdadeiro ser publicado rapidamente ou em tempo real. Por outro lado, facilitou a inserção de publicações inverídicas com a mesma velocidade. Mas, mesmo com o grande volume de fake news, o acréscimo de postagens de vídeos relativos a flagrantes nas redes, tanto políticos quanto sociais, ratifica, em maior escala, o poder que a internet tem de nos fornecer o que é verdadeiro sobre o que é falso em uma composição bastante superior às mídias convencionais.

Nesse contexto, as redes sociais imperam na audiência, que antes era objeto soberano da televisão e de outras mídias tradicionais. Mas, além dos campos citados acima, familiar, vendas, política, dentre outros, a atmosfera anônima ganhou um espaço midiático inédito através da rede, e, atualmente, qualquer pessoa, seja qual for o seu perfil, pode deixar sua mensagem para um número gigantesco de pessoas.

Embora haja, progressivamente, um gigantesco e veloz desenvolvimento tecnológico, tanto de hardware quanto de software, ao mesmo tempo, paralelo a tais avanços, acontece um vertiginoso fenômeno humano nas redes sociais, em que fica claro, novamente, que todos os campos sociais citados presumem uma competência de comunicação humana sem precedentes.

Na prática, isso quer dizer que seja você um político ou um economista, um empresário ou um artista, que queira se comunicar ou vender algum produto/serviço na internet, seja qual for sua posição na rede, é preciso ter performance, com persuasão, assim como, igualmente, sempre foi necessário na esfera física comum. O talento humano, mais do que nunca, através da internet, tem a possibilidade de penetrar nas redes e na vida das pessoas, fazendo a diferença.

HUMANIZAÇÃO

Em outras palavras, estamos em uma geração tecnológica e digital, mas a humanização de tais processos digitais é inevitável. Atualmente, é perceptível uma grande mudança nos formatos de comunicação, que transcendem do modelo tradicional para uma nova forma mais humanizada, mesmo dentro de uma área virtual. O desafio hoje para qualquer um de nós que queira estar na web é o de humanizar nosso perfil digital. Um vendedor, por exemplo, que comercialize seu produto/serviço, precisa humanizar sua comunicação nas telas, ao máximo que lhe for possível, para seduzir seu público-alvo.

Outrossim, imaginemos a seguinte situação: um corretor de imóveis anuncia a venda de um apartamento em sua rede social, com o formato tradicional de propaganda (fotos, metragem, mensagens em destaque, informações de preço/pagamentos); já outro corretor anuncia esse mesmo imóvel fazendo uma transmissão ao vivo de seu celular, dentro do apartamento, com seu rosto enquadrado no canto da tela, circulando com a câmera e anunciando as mesmas informações contidas na propaganda do primeiro corretor. Certamente o segundo profissional conseguirá mais visitas nesse imóvel e, consequentemente, mais possibilidade de venda.

O mesmo fenômeno acontece na política. A sociedade não quer mais assistir uma propaganda eleitoral produzida por grandes agências de publicidade, com trilhas sonoras, focos estratégicos, dentre outras técnicas de sedução, mas sim um candidato olhando nos olhos de seus eleitores e falando de forma objetiva suas propostas e projetos.

A percepção de um a comunicação espontânea e humanizada cresce fortemente nas redes, em centenas de áreas de atuação.

Estamos na era da humanização da geração digital. Não queremos mais ver indicações escritas) por exemplo, de um alimento saudável. Queremos assistir a um nutricionista sugerindo, preparando e consumindo o alimento indicado. Estamos na era da verdade, da transparência, da objetividade. A era é digital, mas, assim como no mundo físico tradicional, o ser humano é quem faz toda a diferença. E,ao que parece, quanto mais digital nos tornamos, mais carecemos de presença e verdade humana nesses multiformatos.

Essa transformação está influenciando e redesenhando todos os processos de marketing, dentro e fora das redes. Cada vez mais o consumidor deseja receber mensagens verdadeiras, sem ilusões estéticas ou propagandas enganosas. Não queremos mais modelos de anúncios, com montagens e retoques de imagem feitos em programas de correção estética. Queremos, por exemplo, propagandas realistas, modelos com rugas, com sua cor de olhos como realmente é. E essas características já estão acontecendo em todo o meio publicitário. A cada dia, desejamos e praticamos a vida como ela é, sem enganações, sem manipulações. A internet democratizou o acesso à informação, e, agora, queremos também manifestar nossos valores na rede, através de nossa personalidade.

Esse processo de humanização, principalmente na camada de pessoas anônimas, na internet cresceu muito com o advento da ferramenta chamada “Stories”, das redes sociais Instagram e Facebook. Através do “Stories”, todos podemos mostrar quem somos, tal como nosso dia a dia, na dosagem que desejarmos. Dessa forma, conforme vimos nos exemplos acima, o ser humano está presente na era digital como nunca.

Foi uma evolução lenta, mas constante, e agora tanto pessoas públicas quanto anônimas se comunicam efetivamente nas redes. Até mesmo uma celebridade tem como primeira ferramenta de comunicação com seu público sua rede social. E, assim como antes acontecia formalmente na televisão, o fenômeno de nos tomarmos fãs de uma celebridade que não conhecíamos, e que também não nos conhecia, agora nessa nova era digital e humanizada da internet nos torna fãs de anônimos que não conhecemos, contudo de maneira mais informal, espontânea e intimista, ao mesmo tempo com maior escalabilidade do que na televisão.

NOVA PERSONA DIGITAL

Com base em todas essas considerações, é correto afirmar que nos tempos atuais emerge, efetivamente, na internet, mas principalmente nas redes socais, um novo eu, uma nova persona digital. Uma versão humana nas redes.

Por outro lado, não somos obrigados a viver nesse mundo virtual, e, principalmente, a vestirmos uma persona digital. É possível estar fora, opcionalmente, sem nenhum tipo de dano. Ao contrário, estudos mostram que o excesso de permanência nas redes tem aumentado os sintomas de ansiedade e depressão em diversos usuários, no Brasil e no mundo. Mas para aqueles que desejam estar e, ainda, vender algum produto/serviço no espectro digital, é preciso ter consciência de que é inevitável o reconhecimento coletivo de um Eu digital.

Outra questão que vem sendo muito comentada na própria rede é a crítica sobre a maioria dos internautas só postar coisas boas, e, sobretudo, a máxima de que estamos sempre todos felizes nas publicações. Embora isso seja uma realidade, existem muitas personas digitais contradizendo essas correntes de opinião, através de diversas postagens espontâneas, como, por exemplo, pessoas que se apresentam nos stories de sua rede social descabeladas, sem nenhuma produção. Muitos gravam vídeos sem roteiros, dentro de seus carros, até mesmo na cama, antes de dormir ou logo após acordar, dentre outras conveniências, livres de preocupações estéticas, mas sim com os aspectos verdadeiros de realidade que buscamos em nossa sociedade atualmente.

O Eu digital não para de ganhar vida na rede: consegue persuadir a quem não conhece; consegue vender para quem não pensava em comprar, e, sobretudo, consegue trazer uma realidade, uma simplicidade e uma efetividade que antes não havia nos veículos e em publicidades de mídia tradicionais.

Através do Eu digital, pesquisamos e escolhemos melhor nossos clientes, parceiros, amigos, assim como também somos encontrados de forma mais precisa. Através do Eu digital, ao contrário do que muitos pensam, estamos tendo mais acesso a um “eu pessoal” do outro, ou um “eu real” ou, ainda, a um “eu profissional”, a quem durante toda uma vida não tivemos acesso.

Os sites de relacionamento, como o consagrado Tinder, dentre outros, são uma explanação totalitária da busca de um Eu real através de um Eu digital. O que são as redes profissionais de carreira e negócios, como o LinkedIn, se não uma busca de um Eu profissional através de um Eu digital?

Em pouco tempo, o Eu digital mostra, claramente, quem é quem e nos exibe e nos desnuda na medida em que, gradualmente, nos mostramos na rede. O Eu digital surge, conceitualmente, como um quinto Eu.

Historicamente, nos campos da Psicologia, existe o consagrado estudo Janela de Johari, publicado pelos pesquisadores Joseph Luft e Harry Ingham. Esse trabalho indica que o ser humano incorpora em sua vida quatro eus: o Eu aberto, o Eu cego, o Eu secreto e o Eu desconhecido. Vamos conhecê-los:

EU ABERTO – Está relacionado ao nosso Eu social, do ego, da persona; é racional e consciente. Demonstra, ao campo social, apenas uma parte do que somos.

EU SECRETO – Está relacionado ao nosso Eu pessoal, que somente quem convive no ambiente íntimo/ familiar consegue perceber, e ao qual as pessoas do convívio social não têm acesso.

EU CEGO – Está relacionado ao nosso Eu que não reconhecemos em nós mesmos, mas que tanto as pessoas de nosso ambiente social quanto as do nosso ambiente íntimo/familiar podem perceber. EU DESCONHECIDO – É inconsciente. Nosso ego não tem acesso. O Eu desconhecido está relacionado ao campo da psicologia freudiana, mas também à junguiana, como o nosso Self, que é a atmosfera mais profunda e mais sábia de nossa mente, tanto desconhecida por nós quanto por quem convive conosco em todos os nossos ambientes.

Com base em todos os aspectos analisados dessa nova era digital, é improvável não consideramos um Eu digital ou um quinto Eu, que, surpreendentemente, revela ao mundo um pouco do nosso Eu secreto, através das publicações mais intimistas que ocorrem atualmente nas redes, conforme vimos. Mas pode revelar, também, os eus aberto e cego, já que, na medida em que nos apresentamos abertamente, na internet, também ocorre de nos mostrarmos até mais do que pretendíamos, e, muitas vezes, nem percebemos. Ou seja, o que acontecia no mundo físico tradicional se repete no mundo digital.

Nesse espectro digital continua preservado o Eu desconhecido, por se tratar de uma esfera muito profunda e inconsciente de nossa psique. Mas, frequentemente, todos os outros “eus” podem se revelar nas redes, como um Eu único. Nesse caso, outro fator que conceitua o Eu digital como um Eu único é o índice de pessoas que possuem dois perfis nas redes sociais, um profissional e outro pessoal, em uma tentativa de gerar dois eus digitais.

Entretanto, especialistas já citaram a ilusão em torno dessa estratégia. Uma vez que se tenha uma mesma pessoa em diferentes perfis, na mente de um mesmo seguidor, a nossa imagem é sempre uma, independentemente de quantos perfis se tenha.

Ainda nesse raciocínio é preciso levar também em consideração uma determinada congruência entre o que somos dentro e o que somos fora da rede, para que o Eu digital tenha credibilidade. O que antes os estudos da neurolinguística apresentavam como congruência entre linguagem verbal e corporal, agora, por analogia, o Eu digital nos confere congruência entre quem somos na rede e no mundo real.

O Eu digital, ou quinto Eu, pode ser uma expressão clara de quem realmente somos. Uma espécie de soma de todos os eus, sintetizados em uma versão, que, no mínimo, expresse de maneira congruente quem somos, e, no máximo, o quanto podemos ser ainda melhores: nossa persona, nossa personalidade, nossa persuasão e, sobretudo, nossa humanidade. O Eu digital é, de fato, um quinto Eu, que tende a expressar cada vez mais o nosso Eu real.

Boa sorte e boas conexões!