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Videoconferências em home office expõem estantes e rotina familiar, provocam constrangimentos e levam empresas a criar “códigos de conduta”.

Há três anos, o professor Robert Kelly tornou-se acidentalmente um fenômeno na internet quando uma entrevista sua para a BBC, realizada no escritório de casa, na Coreia do Sul, foi interrompida por seus dois filhos pequenos, Marion e James. Vista por mais de 30 milhões de pessoas no YouTube, a hilária tentativa do cientista político de falar da situação do impeachment da ex-presidente sul-coreana Park Geun-hye enquanto as crianças invadiam o quadro da câmera e sua mulher se esforçava desesperadamente para tirá-las do lugar passou a ser lembrada de lá para cá como exemplo do desafio de conciliar a rotina profissional e doméstica no mesmo espaço. Com a pandemia da Covid-19, calcula-se que um terço da população mundial esteja agora na mesma situação, em meio às medidas de quarentena adotadas por países de todas as regiões do planeta. Tanto que Kelly voltou a ser entrevistado pela BBC na semana passada, dessa vez ao lado dos filhos, devidamente autorizados, e da mulher, Jung-a Kim, para falar da mudança no cotidiano com as restrições à circulação no país.

Assim como o cientista político, muitos profissionais passaram a usar a videoconferência como ferramenta de comunicação, seja para o contato com clientes e fornecedores, seja para as reuniões entre as próprias equipes, aprendendo na prática uma nova dinâmica para substituir os compromissos presenciais. Não demoraram a surgir outros conteúdos virais (neste caso, digitais) com gafes de usuários, a exemplo da americana Jennifer Miles, que esqueceu a câmera do laptop ligada em um chat pela plataforma Zoom enquanto ia ao banheiro, diante dos rostos surpresos de seus dez colegas de trabalho. O vídeo já soma mais de 3 milhões de visualizações e a hashtag #PoorJennifer, criada a partir do comentário “pobre Jennifer”, feito no vídeo por uma colega, ficou entre os assuntos mais comentados do Twitter.

No Brasil, onde as medidas de isolamento dos que podem ficar em casa começaram a ser adotadas em alguns estados a partir de 13 de março, as situações mais inusitadas nas videoconferências não se restringem aos ambientes corporativos. Com as votações das casas parlamentares transformadas em sessões remotas, alguns membros dos Legislativos também passaram por pequenos incidentes. Em um deles, o deputado paranaense Nelson Justus (DEM) esqueceu que seu microfone estava aberto e comentou “Pus no c* do Romanelli”, após uma questão de ordem solicitada por ele e atendida pelo vice-presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Casa, Mareio Pacheco (PDT). O Romanelli em questão é o deputado Luiz Claudio Romanelli (PSB), primeiro-secretário da Assembleia Legislativa do Paraná, mas que não integra a CCJ e queria participar da reunião – a solicitação de Justus era que apenas membros da comissão debatessem remotamente. A gafe, transmitida ao vivo pela TV Assembleia no dia 23 de março, depois compartilhada pelas redes sociais, provocou risos entre todos os deputados presentes.

Na Assembleia Legislativa da Bahia, a primeira votação virtual, realizada no dia 23 de março, também foi marcada pela informalidade de alguns membros da casa, que participaram vestindo bermuda e regata ou ao lado de animais de estimação. Alguns deputados reclamaram com o presidente da Assembleia, Nelson Leal (Progressistas), que o comportamento poderia prejudicar a imagem da Casa baiana. Na última segunda-feira 30, o deputado Marcell Moraes (PSDB) rebateu as críticas em sua conta no Instagram por ter aparecido na votação remota ao lado de seu macaco Alcebíades. Defensor dos direitos dos animais, Moraes escreveu que seu “filho” vai ficar onde quiser durante as sessões. “Em minha casa animais são bem-vindos sempre (…) Para evitar a informalidade excessiva nas reuniões profissionais à distância, algumas empresas começaram a elaborar guias de conduta para os funcionários em home office, evitando assim situações embaraçosas no contato entre os colegas e clientes. Na semana passada, um desses casos chegou a ganhar destaque na imprensa, quando foi divulgado um comunicado interno enviado pelo tributarista Luiz Gustavo Bichara, sócio do escritório Bichara Advogados, reclamando da postura de profissionais que fizeram reunião com “pijama verde-bandeira” e o “olho remelento”, reforçando à equipe que “em home office não estamos de férias”. Cuidados pessoais à parte, para o consultor André Brik, especialista em trabalho remoto do Instituto Trabalho Portátil, é preciso levar em conta que a rotina profissional de um enorme contingente de pessoas mudou repentinamente e que nem todos vão ter em casa as condições ideais para desempenhar suas funções da mesma forma. “O mundo corporativo já vinha seguindo uma tendência de trabalho flexível. Há menos rejeição e uma maior compreensão de que ter uma rotina total ou parcialmente remota traz benefícios para a empresa, os funcionários e o meio ambiente. O que o novo coronavírus fez foi acelerar essa realidade em algumas décadas, e agora precisamos nos adaptar para fazer o melhor.”

Publicitário de formação, Brik adotou o trabalho à distância em 2003, quando, ao lado da mulher, a jornalista Marina Sell Brik, fundou a GoHome, consultoria para soluções em home office, em Curitiba, Paraná. O principal neste momento, ele entende, é estabelecer uma rotina de trabalho e estudo entre companheiros e filhos, e, se possível, delimitar um local da casa como espaço de trabalho. “O ruído doméstico vai estar presente, não tem como eliminá-lo completamente, porque os membros da família passam a conviver o tempo todo em casa. Por isso é importante combinar os horários em que será necessário fazer mais silêncio. No caso de uma call ou videoconferência, é possível pedir para que as crianças maiores fiquem um pouco no quarto e que ninguém use aparelhos que façam barulho, como o aspirador de pó, observou Brik, autor dos livros Trabalho portátil e As 100 dicas do home office, co escritos com sua mulher.

O consultor ressalta que algumas orientações para melhorar a produtividade em home office também podem ser adotadas durante a quarentena. “A escolha da roupa é importante. Você cria um ritual quando tira o pijama e veste uma roupa de trabalho, se sente mais capaz de executar as tarefas. Ninguém espera que trabalhe de terno o tempo todo em casa, mas para uma videoconferência é recomendável ao menos uma camisa social ou polo, se a rotina de trabalho normal já exigir uma vestimenta mais formal”, comentou Brik. “É bom testar links e programas com antecedência, e não deixar para fazer isso cinco minutos antes de começar. O restante da equipe acaba esperando a pessoa que falta entrar para iniciar, é como se você estivesse chegando atrasado a uma reunião presencial”.

Outro conselho de Brik é, na medida do possível, escolher um lugar da casa com fundo neutro e uma boa iluminação, para não ter sombras projetadas no rosto durante as videoconferências. Um fundo que vem aparecendo cada vez mais, e não só nas transmissões de jornalistas trabalhando de casa, é o da estante de livros. Nesse caso, vale um pente-fino nas publicações que ficarão à vista, já que os outros passam a reparar nas lombadas dos livros.

“A estante como fundo para vídeos é uma escolha sábia. É melhor do que voltar a câmera do computador para uma porta, que sempre corre o risco de ser aberta por alguém”, destacou Micaela Góes, apresentadora do programa Santa ajuda, do GNT, e fundadora do centro de cursos de organização A Casa com Vida. “É importante lembrar que a estante é uma expressão de nosso mundo interior. Ela indica o que somos, nossos gostos, o que nos compõe. Claro que não dá para julgar ninguém por sua estante, mas é preciso estar atento à imagem que se quer passar, porque ela revela isso.”

A apresentadora não aponta uma maneira mais eficiente de organizar o espaço dos livros, já que é uma decisão de caráter pessoal. “Não é preciso reproduzir o padrão da biblioteca em casa, cada um deve optar para a forma mais fácil e rápida de encontrar o que quer. Geralmente, os livros são separados por gênero e autores, mas isso não precisa ser uma regra. Meu pai (Fred Góes) é professor universitário, então organiza os livros de acordo com suas disciplinas. Tem gente com uma preocupação mais estética, que separa os livros por tamanho. Não existe certo ou errado nesse sentido.”

Para quem vê a nova rotina do home office e das videoconferências como uma preocupação extra advinda da pandemia da Covid-19, a consultora de moda e etiqueta Gloria Kalil traz uma mensagem de conforto. Autora de Chic profissional circulando e trabalhando num mundo conectado, entre outros livros sobre o tema, ela acredita que todos precisam ser mais flexíveis no auge de mudanças tão repentinas e que os códigos de conduta terão de se adaptar à nova realidade. “Estamos no meio de uma turbulência, tudo é perdoável. Se uma criança entrar no vídeo no meio de uma reunião, tudo certo. É até uma oportunidade para revelarmos mais o lado humano por trás do profissional. A etiqueta é uma solução que a sociedade cria para uma questão que ela mesmo causa. Ainda estamos desenvolvendo este contrato, enquanto tentamos entender o novo momento.”

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 5 DE ABRIL

JESUS CURA O HOMEM DA MÃO MIRRADA

… [Jesus] disse ao homem [da mão ressequida]: Estende a mão. Estendeu-a, e a mão lhe foi restaurada (Marcos 3.5b).

Os lugares religiosos abrigam ovelhas e lobos. Nem sempre é fácil distingui-los. Jesus estava na sinagoga de Cafarnaum. Os fariseus também estavam ali para verificar se ele curaria no sábado a fim de acusá-lo. No meio do povo havia um homem com a mão direita ressequida, em busca de um milagre. Jesus dá a esse homem três ordens: Levanta-te, vem para o meio, estende a mão (v. 3,5, ARC). Antes de receber a cura, aquele homem precisava sair do anonimato e admitir publicamente seu problema. Diante da ordem expressa de Jesus para estender a mão, aquele que sempre vira a sua destra sem vigor e mirrada, observa, admirado, seus nervos e músculos se esticando e a cura acontecendo milagrosamente. Os fariseus, cegos espiritualmente, pensaram que Jesus estivesse transgredindo a lei, curando no sábado, mas nem se aperceberam que eram eles os transgressores, pois saíram dali para tramarem com os herodianos a morte de Jesus. Talvez haja em sua vida alguma área mirrada. Hoje Jesus pode fazer um milagre em sua vida e trazer restauração à sua alma. Para ele não existe causa perdida, problema insolúvel ou vida irrecuperável. Entregue seu caminho ao Senhor, confie nele e o mais ele fará!

GESTÃO E CARREIRA

ONDE INVESTIR EM MEIO À CRISE

Especialistas cautelosos recomendam a migração da bolsa para a renda fixa, enquanto outros veem boas oportunidades em ações. A decisão depende do risco que cada um está disposto a assumir

Nas últimas semanas, o mercado de capitais também adoeceu com o coronavírus. A pandemia contamina a população aos poucos e as ações da B3, aos sustos. Em um mês, o Ibovespa caiu 35,3% — de 115 mil pontos em fevereiro para 68 mil em março. Em apenas duas semanas, a B3 acionou seis vezes o circuit breaker, mecanismo que interrompe as negociações quando o Ibovespa cai excessivamente. A notícia é péssima para os que já possuíam ações e reverte um ciclo de bonança que a B3 comemorava desde 2016, quando o Ibovespa cresceu e o número de investidores também, passando de 564 mil para 1,95 milhão, em 2019. Com a queda da taxa Selic, que torna os investimentos em Renda Fixa menos rentáveis em relação aos de maior risco, a atratividade da bolsa cresceu e os brasileiros se renderam às ações. Agora, o cenário mudou.

“O momento é de cautela e de tomar todos os cuidados possíveis, não só com a saúde, mas também com os investimentos”, diz Erick Scott Hood, gestor da corretora Guide Investimentos. “Quem estava em fundos de renda fixa atrelado à inflação perdeu dinheiro também. É hora de atenção para quem aplicou em ativos de risco como bolsa, fundo imobiliário e fundos multimercados. Os mercados caíram bastante e os ativos sofreram mais que os outros”, diz. Recentemente, muitos investidores assustados com a volatilidade da bolsa decidiram manter seus investimentos e aguardar que ela se recupere. Afinal, resgatar os ativos nesse momento significa perder muito dinheiro. Para quem possui mais liquidez, Erick recomenda que se aproveite o momento de baixa para buscar oportunidades, como ações ligadas ao petróleo ou de empresas que sofreram mais com o coronavírus. “Para quem aceita um pouco de risco, é uma boa hora para começar a comprar, mas não tudo de uma vez. Um pouco hoje, um pouco depois”, afirma. Além disso, é importante diversificar para não colocar tudo a perder. Nesse momento, para o investidor de perfil moderado, Erick recomenda colocar 20% em renda fixa com liquidez quase imediata, entre eles fundos DI, títulos públicos e CDBs, e 10% em títulos atrelados à inflação. “Hoje a renda fixa pós-fixada atrelada à Selic tem rendimento baixo e talvez o governo a corte ainda mais. A pré-fixada ou atrelada à inflação está mais interessante”, diz. Sua recomendação é colocar 5% do patrimônio em renda variável, 5% em fundo imobiliário, 35% em fundos multimercados e 25% em ativos de crédito privado, como LCI, LCA, debêntures e CRI/CRA.

CUIDADOS

Já a recomendação de carteira da XP Investimentos para esse mesmo perfil de investidor, moderado, é aplicar 48,6% do patrimônio em renda fixa, sendo 27% pós-fixado, 5,4% prefixado e 16,2% ligado à inflação. Em multimercado, a indicação é de 30,7%, além de 11% em renda variável e 9,7% em internacional. Essa carteira possui fatia reduzida de renda variável em relação às anteriores da XP, por isso é recomendada apenas para quem pensa em comprar novas ações. “O investidor que já perseguia a carteira recomendada deve permanecer com sua alocação inalterada”, diz o relatório da instituição publicado na última quarta-feira 18. “Para os clientes que estão começando agora, ou abaixo do percentual alvo ajustado, nossa recomendação para renda variável é implementar novas posições ao longo de 6 meses”, completa o documento.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

AMOR E SEXO CONFINADOS

Com solteiros receosos de se relacionar com desconhecidos e casados estressados pela convivência, a pandemia atingiu em cheio a vida (e a libido) de todos.

Mais necessidades e menos desejos. Assim decretou a Covid-19, provocando um terremoto nos relacionamentos amorosos de todos, dos solteiros aos comprometidos. Para a primeira turma, fecharam-se abruptamente as portas e as perspectivas de novos encontros. Diante de ruas semi desertas e dos incessantes alertas sobre distanciamento social, o doce jogo do flerte amoroso virou modalidade em via de extinção, mesmo com o anabolizante de possibilidades das ferramentas digitais de paquera. Apanhadas em meio a esse deserto estão pessoas como o publicitário paulista Bruno Pavan, de 32 anos. Com o aplicativo Tinder, ele sempre teve facilidade para conhecer na vida real a garota em quem havia dado “match” no mundo virtual. Em algumas ocasiões, Pavan somava mais de um “date” na agenda por semana. Tudo mudou. Estar disponível no mercado e ser jovem não significa mais nada. ”A Covid acabou com a vida sexual do solteiro”, lamenta.

Como sair de casa implica aumentar o risco de contaminação, as pessoas ficam apenas conversando nos aplicativos de encontros e pouquíssimas se aventuram a deixar o ambiente virtual. A maioria precisa se contentar com o flerte pelo celular, sonhando com o dia em que os desejos possam se concretizar ao vivo. “Se o mundo digital era uma alternativa à realidade física, agora virou o único recurso para os solteiros”, afirma Carmita Abdo, coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade do Hospital das Clínicas de São Paulo. Com 340 milhões de downloads no mundo, o Tinder mudou regras para impulsionar a paquera virtual na era da Covid. O app liberou há duas semanas o recurso “passaporte”, quando o usuário pode escolher teclar com pessoas de qualquer localidade do mundo – não apenas ao redor de sua casa. Até então, ele estava disponível para os assinantes dos pacotes Plus e Gold, com mensalidades de até 30 reais.

A quarentena afetou também o DNA do concorrente Happn, cujo diferencial é permitir a geolocalização em um raio de até 250 metros, o que facilita o encontro com crushes no trabalho, na faculdade e em outros lugares da rotina. Como pouca gente tem saído à rua, o modus operandi precisou ser reinventado. “Ampliamos o raio de encontros de 250 metros para 90 quilômetros. O objetivo é preservar a interação durante o isolamento”, disse o francês Didier Rappaport, presidente do aplicativo. “Desde a chegada do coronavírus ao Brasil, observamos um aumento de 18% nas trocas de mensagens pelo aplicativo entre nossos usuários.” Uma enquete do Happn feita na semana passada com 430 pessoas mostrou que 75% delas consideram que o confinamento forçado permite aprofundar mais a conversa. Ironia das ironias, o que surgiu para apressar e facilitar, uma espécie de fast-food do flerte customizado onde o cliente pode escolher na prateleira as opções que se adequam mais ao seu gosto, virou o canal para um lento ritual de conhecimento mútuo no qual a troca de ideias e experiências pode provocar a combustão de uma química amorosa real e, quiçá, menos efêmera. Diante dos infortúnios dos solteiros, surgiram memes e piadas na internet sobre uma suposta vingança dos casados – agora, só eles desfrutariam uma vida sexual ativa. Não é bem assim. Enquanto os solteiros passam sufoco diante da dificuldade de viabilizar seus desejos, quem leva a vida a dois experimenta dificuldades por ter de ficar o tempo todo sob o mesmo teto. A convivência forçada e sem respiro pode ter efeitos devastadores. Prova disso é a China, que viveu por alguns meses o confinamento agora enfrentado pelo Brasil. As cidades de Xiam e Xangai viram explodir os divórcios no começo de março, quando as regras de restrições ficaram mais frouxas: um aumento de 25% em relação aos tempos pré- coronavírus. “A convivência extrema pode causar a saturação. Maridos e mulheres correm o risco de perceber que os laços que os uniam são frágeis”, diz o psicanalista Pedro de Santi. O contrário também pode acontecer.” Na dor do confinamento, há quem descubra novos valores na pessoa com quem divide a cama.” Nem todo casal encara a quarentena da mesma forma. Famílias grandes e sem espaço físico sofrem com a falta de privacidade. “Estar perto, mas rodeado de gente, impede o surgimento de qualquer intimidade”, diz o psicanalista.

O vírus invisível levou também à lona o mercado de sexo pago. Por medidas sanitárias, o famoso Red Light District, em Amsterdã, está às moscas. As mulheres que se exibiam em vitrines de casas centenárias desapareceram. Fechadas e sem arejamento, tais cabines são perfeitas para o acúmulo e a transmissão do Covid-19. A prefeitura da capital holandesa interditou esses estabelecimentos, e o sindicato das garotas de programa do país está negociando um desconto no aluguel dos pontos. No Brasil, as casas de sexo estão todas com as portas fechadas. Há três semanas, estivemos no Bahamas, boate frequentada por garotas de programa de luxo em São Paulo, onde as profissionais cobram em média 500 reais pelos encontros. O cenário era devastador. Havia por lá apenas dezesseis mulheres, cerca de 20% da frequência habitual. Ao todo, somente três clientes. Com o avanço da pandemia agora a boate encontra-se fechada. Segundo o Sinthoresp, sindicato que contempla a categoria dos motéis, ao menos 50% desses estabelecimentos fecharam por tempo indefinido diante da fuga de clientes, presos em casa com suas famílias.

Se a diversão ao vivo ficou impossibilitada, cresceu a busca pelos serviços das cam girls, como são chamadas as mulheres que fazem strip-tease na internet. No Brasil, existem dois sites especializados nesses serviços: o Câmera Prive, com 4.000 perfis ativos, e o Câmera Hot, com 800. “Meu trabalho aumentou com a quarentena. Os caras, além de prazer, buscam uma companhia para conversar”, diz Juliana Villejas, de 25 anos. O serviço funciona mediante pagamento. O cache sobe conforme a modelo fica com menos roupa. Nas transmissões mais longas, a conta pode chegar a 300 reais. As profissionais do ramo, não necessariamente garotas de programa, viram aumentar as solicitações para que se fantasiem de enfermeiras. Alguns homens têm fetiche relacionado ao caos: pedem que elas usem máscara e luvas cirúrgicas enquanto tocam as partes intimas. De olho no crescimento da demanda, os sites têm recrutado mais mão de obra para rechear seus catálogos prometendo rendimento de 10.000 reais por mês. Para a doutora em semiótica pela PUC, Priscila Magossi, fundadora do projeto New Camming Perspective, trata-se de uma ilusão. “No começo do confinamento, o homem fica sozinho em casa e quer alguém para extravasar a tensão. Mas, à medida que passa mais tempo trancado, a libido tende a desaparecer”, avalia.

É difícil mesmo pensar naquilo com tanta tensão e receio no ar. Um estudo feito pela médica Laurie Mintz, da Universidade da Flórida, mostra que a vida sexual é afetada diretamente pelo cortisol, hormônio liberado pelo stress. O impacto dessa química foi comprovado em catástrofes anteriores. O International Journal of Disaster Risk Science quantificou a queda do apetite sexual entre as mulheres afetadas pelo terremoto de Sichuan, em 2008, que provocou a morte de 87.000 pessoas. Antes do abalo sísmico, 67% das casadas transavam de duas a quatro vezes por semana. Depois, o índice despencou para 4%. Passado o terremoto da Covid-19, especialistas temem o risco de a experiência de prazer virtual aflorada pelo confinamento se tornar preponderante na vida de algumas pessoas ou desencadear transtornos materializados em excesso de higiene e medo de germes em geral, a fim de evitar contato físico e beijos. “Nada substitui o calor e o toque da pele”, lembra o psicanalista Pedro de Santi. Para o bem da deliciosa e milenar arte dos beijos, abraços e carícias, que esta crise de saúde passe o mais rápido possível sem deixar tantos traumas e cicatrizes. Amar é preciso.