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AS LIÇÕES DE WUHAN

A experiência da primeira cidade afetada pelo novo coronavírus sinaliza ao mundo as lições para combatê-lo e o difícil caminho para a retomada da vida normal

Wuhan, a cidade chinesa de 11 milhões de habitantes onde surgiram os primeiros casos do novo coronavírus, tem muito a ensinar, não só para o Brasil mas para todas as nações. Dois terços dos 80 mil casos reportados no país aconteceram na cidade. Uma importante lição de Wuhan ao mundo ser refere à importância da transparência. O maior símbolo é um herói: o médico Li Wenliang, oftalmologista que trabalhava no Hospital Central da cidade. Em dezembro, ele fez um alerta aos colegas sobre o surgimento de um novo coronavírus na cidade, semelhante ao causador da Síndrome Respiratório Aguda Grave (SARS). Foi reprimido pela polícia e, contaminado, faleceu em janeiro. Protestos da população contra o abafamento da notícia foram rapidamente apagados pelo governo das redes sociais. Caso o episódio tivesse sido tratado com rapidez, a história teria sido outra. Providências teriam sido tomadas mais cedo para isolar os infectados. Wuhan é um importante ponto de conexão entre cidades da China e também do mundo. Ou seja, ali começou a propagação do vírus para o mundo. Outra lição a ser aprendida por Wuhan é o amplo uso de máscaras pela população, assim como o isolamento da cidade.

Apesar de tardiamente, no dia 23 de janeiro, a China adotou a quarentena de cidades inteiras, o fechamento de comércio e de serviços não essenciais, além de restrição de viagens aéreas. “Para conter qualquer epidemia, ao menos um de três fatores precisam ser controlados: a fonte de infecção, a via de transmissão ou a população suscetível”, diz a médica Tânia Vergara, presidente da Sociedade de Infectologia do Estado do Rio de Janeiro. O isolamento é, portanto, uma forma comprovada de reduzir a transmissão.

Um aprendizado valioso se refere ao uso de equipamentos de proteção individual (EPIs) e à necessidade de ter um sistema hospitalar preparado para o grande número de pacientes. Na cidade, a demanda era tão grande que muitos profissionais pulavam refeições para não terem de retirar os EPIs, e até usavam fraldas por não dar tempo de ir ao banheiro. Além disso, foi importante treinar exaustivamente a equipe médica sobre a correta forma de manuseio dos EPIs, principalmente ao retirá-los, para evitar infecções. Antes de aplicar essas medidas, houve grande índice de contaminação. Em fevereiro, quase 2 mil trabalhadores da linha de frente tinham contraído a Covid-19. O governo rapidamente reagiu para atender o número crescente de pacientes e inspirou o mundo a fazer o mesmo: ginásios, escolas e centros de exposição foram utilizados para receber as vítimas e, em 12 dias, a China construiu 11 hospitais temporários. Por último e de maior importância está o erro de comercializar animais vivos. No país, mercados de animais silvestres são comuns. Ambientes como esse facilitam a transmissão, e foi assim que se deu a ponte de animais para humanos de vírus como HIV e Ebola, uma vez que seus hospedeiros selvagens foram colocados em ambientes urbanos. A mais importante mensagem que o novo coronavírus dá ao mundo é a necessidade de uma campanha massiva que proíba a realização dessas vendas em todo o mundo.

QUARENTENA FOI ENCERRADA

Após 76 dias de confinamento, no dia 8 de abril Wuhan começou a retomar a rotina. Mas nada é como antes e ainda levará tempo para a cidade se restabelecer. Mais de 90% das companhias voltaram à atividade, mas o consumo de eletricidade ainda é 20% inferior ao mesmo período do ano passado. As pequenas empresas são as mais afetadas, e não devem recontratar os funcionários demitidos com facilidade. As pessoas ainda são aconselhadas a permanecer em casa o máximo possível. Aos poucos o tráfego de carros volta às ruas, mas as escolas estão com os portões fechados, sem previsão para a volta das aulas presenciais. O mesmo acontece com teatros, cinemas, ginásios esportivos e restaurantes, cujo serviço se limita a refeições para viagem — este é um dos segmentados mais afetados. Lojas agora vendem mercadorias preferencialmente em balcões voltados para rua. Os táxis voltaram a levar passageiros, assim como linhas de trem e balsas que trafegam pelo grande rio Yangtzé. O controle, porém, é rigoroso: para entrar em escritórios comerciais e estações de trem, é preciso medir a temperatura e mostrar o aplicativo oficial de celular que sinaliza se o cidadão tem sintomas da Covid-19 ou esteve perto de algum caso confirmado. Para viajar de Wuhan a Pequim é preciso superar uma grande burocracia. Além de se submeter a testes do vírus em ambas as localidades, é preciso aguardar autorizações do governo e ainda conseguir uma vaga no limite diário de mil viagens por dia. Os comércios já estão abertos, mas com controle do número de pessoas dentro dos estabelecimentos e recorrente inspeção de policiais sobre a disposição das mercadorias. As pessoas ainda têm medo, principalmente que a epidemia volte a explodir. Ninguém no mundo conhece melhor os efeitos da doença do que os habitantes da cidade.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 30 DE ABRIL

REVESTIMENTO DE PODER

Mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo… (Atos 1.8a).

Depois da Ressurreição e antes da Ascensão, Jesus deu uma ordem aos discípulos: … permanecei na cidade até que do alto sejais revestidos de poder (Lucas 24.49a). A capacitação precede a ação. Antes de sairmos a campo para realizarmos a obra, precisamos ser revestidos com o poder do Espírito Santo. Essa capacitação não vem de técnicas engendradas pelo homem. Não encontramos esse poder nos reservatórios humanos. Ele não vem do homem, vem de Deus; não vem da terra, vem do céu. Há três verdades que precisam ser aqui destacadas:

1) O LUGAR DO FRACASSO PRECISA SER O PALCO DA RESTAURAÇÃO. Os discípulos se acovardaram em Jerusalém. Fugiram quando Jesus foi preso. Dispersaram quando o Pastor foi ferido. Seria mais cômodo reiniciar o ministério noutras plagas, mas Jesus os ordena a recomeçar exatamente ali, onde haviam fracassado.

2) A BUSCA PELO PODER PRECISARIA SER FEITA COM SENSO DE PERSEVERANÇA. Os discípulos deveriam permanecer na cidade até que. Não tinham autorização para interromperem essa busca até que fossem capacitados de forma sobrenatural. Eles não aguardaram inativos esse revestimento, mas em unânime e perseverante oração.

3) ELES DEVERIAM TER EXPECTATIVA DE ALGO GRANDIOSO, A CAPACITAÇÃO DE PODER, CAPAZ DE SUPERAR SEUS FRACASSOS. Ainda hoje, precisamos desse revestimento. Nossas fraquezas não podem ser superadas por nossos próprios recursos. Precisamos do poder que vem do alto!

GESTÃO E CARREIRA

UMA HISTÓRIA SEM FINAL FELIZ

As redes de livrarias Cultura e Saraiva, ambas em recuperação judicial, podem fechar de vez caso não consigam novos acordos com credores

Desde a semana passada, a seção de livros mais vendidos ilustra um fenômeno sem precedentes na história do mercado editorial brasileiro: pela primeira vez, a venda de títulos em livrarias físicas praticamente desapareceu do levantamento; somente o comércio on-line está representado naquela que tem sido uma bússola dos humores desse setor. E a tendência é que o movimento não só continue como se aprofunde por semanas (ou meses) a fio. A culpa, claro, é do coronavírus. Assim como ocorre com a indústria do cinema ou o negócio bilionário dos shows e festivais, a pandemia teve um efeito avassalador sobre a vida de livrarias, editoras e autores. Nesse caso, porém, o estrago das inevitáveis medidas de restrição social se soma a uma crise crônica que se arrasta no mundo editorial há coisa de cinco anos e ameaça levar de roldão as principais redes do país. O coronavírus surge como um catalisador capaz de acelerar as profundas mudanças no segmento.

Com a quarentena decorrente da Covid-19, as livrarias fecharam suas portas e viram a margem de lucros no setor em geral, que era de aproximadamente 4%, transformar-se em imenso prejuízo. As primeiras consequências surgiram por volta de 11 de março, quando a OMS declarou que o mundo vivia uma pandemia. Atendendo a pedidos, a Yandeh/Bookinfo, empresa de tecnologia que monitora os números desse mercado com base na movimentação na boca do caixa de 250 pontos de venda de livros no país, mediu os efeitos devastadores. O faturamento desse conjunto de livrarias, que ficava na casa de 13,6 milhões de reais na semana anterior à decretação da pandemia, registrou uma queda dramática de quase 92% na semana de 23 a 29 de março. Como esperado, o volume de mercadorias vendidas também acompanhou a queda, registrando um tombo de 80% se comparado aos números da semana que precedeu o confinamento.

O recrudescimento da crise piorou a situação de duas redes tradicionais que já viviam dias complicados. Com alguns percalços no caminho, a Cultura e a Saraiva haviam conseguido aprovar seus planos de recuperação judicial no ano passado. A Cultura o fez em abril. Já a Saraiva, em agosto, quando acatou uma das exigências dos credores: o afastamento de Jorge Saraiva Neto do comando da operação. Arelação muitas vezes conflituosa entre a maior varejista do mercado livreiro e as editoras esboçava, assim, uma distensão. Mas o frágil equilíbrio foi rompido quando a empresa viu suas 74 operações ser fechadas em todo o país devido à Covid-19. Logo a Saraiva emitiu um comunicado às editoras com teor de calote explícito. “Diante deste cenário de crise sem precedentes e falta de visibilidade das vendas futuras, adotaremos uma medida austera, masnecessária, de suspensão imediata de todos os pagamentos por prazo indefinido”, diz a mensagem, assinada pelo então diretor comercial, Deric Degasperi Guilhen. Dias depois, a empresa entrou com uma petição na Justiça para revisar seu plano de recuperação. As editoras ficaram ressabiadas. “O varejo em geral procurou as editoras para renegociar os pagamentos. A Saraiva, não”, ressalta Marcos da Veiga Pereira, presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) e sócio fundador da editora Sextante. Na sequência do anúncio da suspensão de pagamentos, Luís Mario Bilenky, CEO contratado pela Saraiva em janeiro, pediu demissão – e Guilhen assumiu seu posto.

O coronavírus tornou aguda a necessidade urgente de readequação do setor – na verdade, quase uma imposição darwinista na nova atmosfera dos negócios. Desde meados dos anos 1990,as grandes redes, com Saraiva e Cultura à frente, investiram numa política de expansão desenfreada inaugurando megastores em shopping centers pelo país afora, pagando aluguéis a peso de ouro. Como, ao mesmo tempo, a ascensão do mercado de vendas on-line ia dilapidando as vendas em lojas físicas, tal expansão não demorou a se revelar insustentável.

Apesar da frágil situação das duas empresas, a pandemia cria uma condição de exceção para a maioria das companhias que dependem de vendas em pontos físicos. Assim como bancos ou proprietários de imóveis renegociaram seus contratos com comerciantes dos mais variados matizes, os credores também precisam pensar na manutenção do ecossistema, e não apenas nos valores previstos para os próximos três meses. Até por isso mesmo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) editou uma portaria que flexibiliza as regras da recuperação judicial, permitindo uma renegociação em caso de impossibilidade do cumprimento das obrigações. As novas orientações valem para todas as empresas brasileiras que se encontram nessa situação, desde a Saraiva até a Odebrecht – dona do maior plano de reestruturação corporativa do Brasil.

Asdificuldades das livrarias são o primeiro e um claro exemplo de como pode ser devastador o efeito dominó que recai sobre todo o setor. “Mesmo como retorno das atividades, muita gente terá perdido o emprego. As pessoas estarão sem dinheiro e com medo de frequentar lugares fechados. Nós não vamos voltar a vender como antes”, prevê o empresário Alexandre Martins Fontes, que gerencia duas livrarias físicas em São Paulo e a editora que leva seu sobrenome. “Nas últimas três semanas, nosso faturamento total caiu 57%, mas as vendas on-line subiram 23%”, informa ele. O gigante do varejo digital Amazon surge como o óbvio beneficiado pelo ocaso das livrarias físicas – no conjunto dos 100 principais títulos da lista de Mais Vendidos, sua participação no volume total passou de quase 30% para 73% desde o início da pandemia. Entretanto, se examinados com Lupa, os números mostram que as vendas da própria Amazon, sob esse mesmo critério, subiram num primeiro momento, mas depois também sofreram queda.

Em decorrência da crise, as editoras tiveram de buscar novos caminhos para se reinventar. Enquanto algumas resolveram apostar em marketplaces, espécie de shoppings virtuais, para mitigar a dependência das grandes livrarias, outras viram os clubes de assinatura como uma oportunidade. Eles ganharam milhares de adeptos e abarcam empresas de diversos tamanhos, como a gaúcha TAG e a Leiturinha, voltada ao público infantil. Mas editoras como Companhia das Letras, Record e Intrínseca também já fazem parte deste coletivo. Além disso, uma aposta promissora no ambiente virtual são os audiolivros e os chamados instant books, muito utilizados por pessoas que querem devorar uma obra rapidamente. Para as livrarias, uma visão menos romântica seria a adoção de outro modelo que tem ganhado força em países da Europa: o da impressão sob demanda. “Talvez o futuro da livraria seja tornar-se uma loja de conveniência, com a impressão no ato. Mas eu ainda a vejo com uma função de extrema importância, de um encontro com a civilização”, afirma Bernardo Gurbanov, presidente da Associação Nacional de Livrarias (ANL). Que o drama circunstancial do coronavírus traga luzes a esse setor tão essencial.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O QUE AS SELFIES DIZEM SOBRE A PERSONALIDADE?

Recente pesquisa aponta que a postagem de fotos de si mesmo nas redes sociais revela aspectos da personalidade que fazem parte da tríade sombria de traços negativos

A postagem de fotos em redes sociais certamente traz informações sobre aspectos de nossa personalidade, mas só mais recentemente pesquisas têm sido realizadas para investigar cientificamente a questão. Uma das medidas mais em alta sobre os traços de personalidade é a chamada dark triad ou tríade sombria, que envolve três componentes: narcisismo, psicopatia e maquiavelismo.

Estudos recentes têm relacionado a postagem de selfies com as medidas de personalidade, inclusive com a tríade sombria. Homens que postam mais frequentemente selfies em sites de mídia social como Facebook têm maior probabilidade de apresentar traços de personalidade narcisista e antissocial (psicopatia).

Os homens que postam uma série de fotos de si mesmos e gastam mais tempo editando-as são mais narcisistas, segundo o estudo. Aqueles que editam selfies previamente tiveram maior pontuação do que a média em medidas de narcisismo. Narcisistas tipicamente pensam muito favoravelmente sobre si mesmos, que são mais inteligentes ou mais atraentes do que os outros, enquanto que aqueles com tendências psicopáticas tendem a ser mais impulsivos e exibir uma falta de preocupação com os sentimentos dos outros.

Uma das descobertas mais interessantes é a de que esses sujeitos que postam mais selfies têm alta pontuação em outros traços de personalidade antissocial, como tendência à psicopatia e à auto- objetificação. Claro que isso não significa que homens que postam selfies são psicopatas narcisistas, mas esses traços são mais altos do que a média nesses sujeitos da amostra. Para o estudo, 800 homens completaram um questionário com perguntas sobre seus hábitos de postagens de fotos em redes sociais, e depois responderam a inventários sobre traços de personalidade e auto- objetificação. Quanto mais esses homens editavam as fotos antes de postar, maior sua pontuação em narcisismo, mas não havia ligação desse comportamento da edição das fotos com a psicopatia.

Esse resultado faz sentido porque a psicopatia é caracterizada pela impulsividade. Os sujeitos mais impulsivos tiram fotos e as postam imediatamente. Já o gasto de tempo editando as fotos antes de postá-las está ligado à auto- objetificação, que é a tendência de colocar mais valor na sua aparência do que em suas qualidades pessoais. Essa tendência de mais preocupação com sua aparência cresceu muito com o uso de redes sociais, ou seja, temos cada vez mais inclinação à auto- objetificação na sociedade contemporânea. Embora o estudo tenha sido feito com amostra masculina, outros estudos confirmam as mesmas tendências para mulheres, com exceção da presença de psicopatia.

Outro estudo, também com homens, traçou correlações diretas entre maior pontuação em narcisismo e o tempo gasto em redes sociais. Ou seja, homens com inclinações narcisistas ficam mais tempo em redes sociais. Quanto mais pontuação em narcisismo e psicopatia, maior o número de selfies postada em redes sociais. Já os traços de narcisismo e auto- objetificação estavam relacionados a mais tempo editando as fotos antes de postá-las em sites de redes sociais. De fato, nosso comportamento em mídias sociais expressa características de nossa personalidade, tanto positivas como negativas, como revelam as investigações.

MARCO CALLEGARO – é psicólogo, mestre em Neurociências e Comportamento, diretor do Instituto Catarinense de Terapia Cognitiva (ICTC) e do Instituto Paranaense de Terapia Cognitiva (IPTC). Autor do livro premiado O Novo Inconsciente: como a Terapia Cognitiva e as Neurociências Revolucionaram o Modelo do Processamento Mental (Artmed. 2011).

OUTROS OLHARES

EM QUE MUNDO VIVEM?

Em busca de likes e de afagos no ego, influenciadores causam repulsa ao mostrar profundo descompasso com a realidade de medo e recessão causada pelo coronavírus.

Com curvas e lábios estonteantes, a influenciadora de moda e beleza Flavia Pavanelli vem enfrentando a quarentena em ritmo de expediente atribulado. Em sua casa, na cidade de São Paulo, faz fotos e vídeos da rotina para 17 milhões de seguidores, como se o mundo estivesse em curso natural: tem troca de roupa ao lado de seu stylist particular, presença em confraternizações para assistir a lives de cantores pelo YouTube e tutorial de maquiagem para realçar seu rosto esculpido pelo DNA e aprimorado por preenchimentos. E dá-lhe os famigerados looks do dia com roupas de grifes caras, como Balenciaga. Considerando-se o drama do planeta por causa da Covid-19, não é de espantar que o negócio tenha lhe rendido inúmeras críticas, a ponto de a moça precisar se explicar. As confraternizações regadas a lives rolaram apenas na companhia de familiares e do personal stylist, que se mudou para a mansão de Flavia (ah, o mundo dos ricos…).

Embora não tenha mudado ainda o vício das estrelas das redes sociais nos likes e a necessidade permanente de afagos no ego, a pandemia acertou em cheio o lucrativo mercado das influenciadoras, que, ao fazer de sua vida um produto, passaram a faturar muito dinheiro com publicidade. Na era pré-crise, um post pago de blogueiras de moda com mais de 3 milhões de seguidores girava em torno de 50.000 reais. Em 2019, a propaganda veiculada por essa turma movimentou 8 bilhões de dólares só nos Estados Unidos, segundo um estudo da Business Insider Intelligence. Mas o isolamento social veio e cortou a raiz que faz com que uma celebridade digital seja interessante aos olhos dos internautas ávidos por acompanhar tudo pela tela do celular: a rotina. Não há mais viagens ao exterior, tampouco primeiras filas de desfiles em Paris, noitadas em festas de amigos famosos e mesas fartas em restaurantes da moda. Resta criar conteúdo na quarentena, dentro de casa. Não bastasse o nonsense desse tipo de produção em tempos de coronavírus, o negócio tem efeito prático nulo. Quem vai se inspirar afinal em um look do dia sem poder sair?

Parece óbvio, mas não custa lembrar: isolamento social e ostentação não combinam. A nova etiqueta das redes não tem perdoado escorregões como o da pouco sorridente Thássia Naves, com 3,6 milhões de seguidores no Instagram. Ela aproveita parte do tempo para fazer vídeos no aplicativo TikTok tendo as prateleiras de seu estupendo closet como pano de fundo. Ao som de Funkytown, da banda Lipps Inc, troca de roupa e sapatos com dezenas de exemplares de bolsas Hermes, Dior e Prada como cenário. Nem o fato de Thássia ser promotora de um grande bazar beneficente anual aliviou o tropeço. Outra que causa espanto é a bilionária Sarah Mattar. Com 327.000 seguidores, a filha de Salim Mattar, dono da Localiza e secretário de Desestatização, Desenvolvimento e Mercados do governo de Jair Bolsonaro, posta cenas do cotidiano em que aparece cuidando de seu filho ambientadas na fazenda da família, ornada de uma piscina com cachoeira particular e verde a perder de vista. Em um passado recente, esses posts tinham muito apelo e, com isso, ajudavam a alavancar a popularidade na internet e a gerar faturamento. Mas o jogo mudou e tentar criar uma bolha da fantasia em meio à ameaça da Covid é mau negócio. “Quem não tiver um pé na realidade ficará fora do mercado”, diz Pedro Tourinho, publicitário e autor do livro Eu, Eu Mesmo e Minha Selfie.

A dificuldade de adaptação não acontece apenas no Brasil. A apresentadora americana Ellen DeGeneres disse que a quarentena a fez sentir-se em uma prisão – pois não sai de casa e veste a mesma roupa por dias seguidos. Ocorre que a “prisão” dela tem sido sua mansão de Montecito, na Califórnia, avaliada em 27 milhões de dólares e dentro de um terreno de 33.000 metros quadrados com academia, piscina e um jardim de cactos. Kylie Jenner, irmã de Kim Kardashian, postou seus cafoníssimos hashis da Louis Vuitton. David Geffen, fundador da DreamWorks e o homem mais rico de Hollywood, publicou uma imagem de seu iate de 138 metros ao falar de cumprir a quarentena singrando o Mar do Caribe. Geffen e Kylie foram criticados pelo descompasso total com o momento. Não parece que vivem no mesmo país em que mais de 45.000 pessoas já morreram em decorrência do coronavírus.

Enquanto uma parte dos influenciadores sofre para entender o novo mundo, há casos que podem ser classificados como autênticos exemplares de darwinismo das redes sociais. A italiana Chiara Ferragni é a Gisele Bündchen das blogueiras: a número 1.

Com o agravamento da Covid na Itália, ela doou do próprio bolso 100.000 euros e fez uma vaquinha virtual em prol de hospitais públicos do país. Até a semana passada, a iniciativa havia arrecadado 4,4 milhões de euros. Como efeito colateral, Chiara amealhou novos 2 milhões de seguidores em sua conta no Instagram, hoje com 19,6 milhões de fãs. Chiara, note-se, não deixou de postar fotos na frente do espelho usando bolsa Chanel nem de vender sua coleção de roupas, agora de moletom ou de academia. Apenas diversificou o que já fazia, adaptando-se ao momento atual. Deu certo.

A mudança de dinâmica na rede social não afeta apenas famosos. Há muitas pessoas saindo para correr na orla da praia ou nas ruas, mas, no momento, sem postar nada pelo receio de ser criticadas por romper o isolamento social. A hashtag look do dia caiu mais de 90% em popularidade desde o início da crise. Por outro lado, a hashtag TBT, de throwback thursday, dedicada às postagens de fotos antigas, cresceu mais de 1000%. A #TBT virou a única forma de publicar fotos de viagens antigas e de lugares ao ar livre, funcionando como um escapismo em tempos de isolamento social.

Ironicamente, a quarentena aumentou o público disponível para quem vive de aparecer na internet – a questão é acertar o tom. Plugada no celular, a audiência tem ficado um tempo 30% maior vendo os vídeos no Stories do Instagram. Mas o que as pessoas rejeitam é o conteúdo repleto de ostentação, quando a vida se mostra dura e cruel. Estar confinado significa não poder fazer propaganda pelo Instagram? Não, afinal esse é o ganha-pão de influenciadores e de inúmeras empresas. “Anunciar serviços de delivery e de streaming é pertinente ao momento”, afirma o publicitário Pedro Tourinho. “Só não dá para postar look do dia na mansão com a hashtag fique em casa. Parece deboche.” O desafio para muitas influenciadoras será trocar os excessos e a falta de noção característicos de boa parte da classe por uma dose emergencial de bom senso, ainda que isso possa ser a chave para a sobrevivência. No caso da blogueira Flavia Pavanelli, o maior castigo para o descompasso entre seus posts e a realidade veio na forma de um resultado positivo para o teste da Covid-19. Passado o susto, a modelo conta estar recuperada – e pronta para mais um look do dia.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 29 DE ABRIL

AJUNTE OS SEUS GRAVETOS

Tendo Paulo ajuntado e atirado à fogueira um feixe de gravetos, uma víbora, fugindo do calor, prendeu-se- lhe à mão (Atos 28.3).

Paulo estava de viagem para Roma. Esse era o seu sonho, depois de plantar igrejas nas províncias da Galácia, Macedônia, Acaia e Ásia Menor. Deus também queria Paulo em Roma. Mas sua viagem à capital do império foi marcada por muitas tensões e um traumático naufrágio. Depois de perder toda a carga da embarcação e ver o próprio navio ser destruído pela fúria das ondas, Paulo e os demais passageiros chegaram à ilha de Malta, onde foram recebidos com urbanidade pelos bárbaros. Molhados e transidos de frio, encontraram uma fogueira acesa e calor para se aquecerem. Além do capitão, do mestre do navio, dos marinheiros e da tripulação, havia naquele navio alexandrino mais duzentos passageiros. Todos chegaram à Malta como náufragos. Mas somente Paulo tomou a iniciativa para manter a fogueira acesa. Apenas Paulo ajuntou gravetos para lançá-los no fogo. Talvez alguém argumente: O que é um punhado de gravetos numa fogueira? O que é uma gota d’água no oceano? O que é um gesto de amor num mundo de tanta indiferença? A lição que Paulo nos ensina é que você precisa fazer a sua parte. Mesmo que ninguém o acompanhe nessa nobre atitude, faça a sua parte. Mesmo que ninguém colabore, faça a sua parte. Mesmo que todos ao seu redor estejam desanimados, faça a sua parte. Mesmo que todos o acusem por ter sido mordido por uma víbora, faça a sua parte. Mesmo que todos à sua volta estejam entrando no esquema do mundo e retrocedendo na fé, faça a sua parte. Ajunte os seus gravetos!

GESTÃO E CARREIRA

ABRACE A VULNERABILIDADE

Aceitar que temos nossos medos e limites é essencial para estimular a coragem. Aprenda a fazer isso no ambiente profissional

Durante anos, a pesquisadora americana Brené Brown se debruçou sobre o tema da vergonha – ela queria entender o que está por trás desse fenômeno e por que é tão difícil para alguns lidar com esse sentimento. Ao longo desses estudos, ela deparou com dois grupos de pessoas: as que têm um forte senso em relação ao próprio valor e as que estão constantemente se questionando. A pergunta, para Brené, passou então a ser: qual o segredo por trás desse grupo mais seguro de si? O que ela encontrou em comum entre essas pessoas é que elas abraçam a vulnerabilidade e a entendem corno algo necessário e parte natural da vida. “Elas falavam da disposição de fazer algo para o qual não há garantias. Viam isso como fundamental”, diz Brené em seu TED Talk O Poder da Vulnerabilidade, de 2010.

A vulnerabilidade é definida como aquilo que experimentamos em momentos de incerteza, risco e exposição. Ela nos deixa ansiosos e com medo. O problema, segundo Brené, é quando evitamos situações e relações porque provocarão esse sentimento. Ter coragem para arriscar, viver experiências novas, dizer coisas importantes, tudo isso implica abraçar a vulnerabilidade.

FALTA DE CONFIANÇA

Os líderes que evitam se sentir vulneráveis também evitam conversas difíceis, inclusive o feedback honesto e produtivo. Eles deixam de reconhecer e de lidar com medos e sentimentos que surgem durante momentos de crise ou mudança.

“Muitas vezes as pessoas tendem a fugir daquilo que seria o assunto mais espinhoso e que é o conflito de fato”, diz Ronaldo Coelho, psicólogo e psicanalista em São Paulo, dono do canal Conversa Psi, no YouTube. Essa tendência, especialmente no mundo corporativo, levaria a um ambiente de pouca confiança. “É como se criasse uma relação na qual não se fala de coisas importantes”, diz. O resultado é urna comunicação falha, propensa a mal-entendidos e com pouco espaço para a sinceridade.

O medo de ser ridicularizado ou de falhar também impede que muitas ideias potenciais sejam implantadas, por receio de se expor e de ser julgado em uma cultura que prioriza os que parecem fortes e infalíveis. Ser um líder arrojado exige saber lidar com a vulnerabilidade, tanto a própria quanto a dos outros. Só assim esse gestor poderá, de fato, abrir espaço para a inovação e para o desenvolvimento das pessoas. ”Nossa capacidade de ser líderes ousados nunca será maior do que nossa capacidade para a vulnerabilidade”, escreve Brené em Coragem para Liderar (Best Seller, 39,90 reais).

DIFICULDADE CULTURAL

O problema é que, de forma geral, não lidamos bem com o que parece fraqueza. “Há um pressuposto de que mostrar sua vulnerabilidade é n1ostrar para o outro onde ele pode atacar”, diz o psicólogo Ronaldo. Ele usa uma metáfora para explicar os tipos de relação que podemos ter. Ou jogamos frescobol, no qual o objetivo é não deixar a bola cair, e os joga­ dores se ajudam para cumpri-lo; ou jogamos tênis, no qual o objetivo é fazer com o que o outro não consiga pegar a bolinha. “No primeiro caso, quando identifico fragilidade no outro, tento corrigir minha jogada para que ele consiga pegar a bola”, diz Ronaldo. Já no segundo, a fraqueza do outro é usada para derrubá-lo.

Desse modo, problemas e ideias deixam de ser compartilhados – assim como possíveis soluções e esforços de ajuda. “Temos a ideia de que a emoção não pertence ao trabalho – ela é ligada à instabilidade e à perda de controle”, diz Ana Carolina Souza, neurocientista e sócia da Nêmesis, consultoria de educação e neurociência. “Idealizamos um comportamento absolutamente racional, o que é impossível.” Segundo ela, as emoções estão sempre por trás de nossas decisões, mesmo que não nos damos conta disso.

Para Mônica Barroso, diretora de aprendizagem na The School of Life, falta em muitas organizações um ambiente psicologicamente seguro para as pessoas agirem de maneira mais vulnerável. “Essa questão ainda está muito no discurso”, diz. “Existe um desejo de mudança por parte das empresas, mas a cultura no dia a dia não acolhe de fato isso.” Se é possível que em algumas equipes esse clima de conexão aconteça mais facilmente, é preciso um esforço por parte das companhias para que isso seja a norma, e não a exceção.

PARADOXOS

A situação é complexa. Se por um lado temos cada vez mais popularizada a ideia de uma cultura ágil, na qual devemos “errar mais e mais rápido” e ter feedbacks constantes e sinceros, por outro, não é tão fácil exigir isso quando o ambiente não é exatamente o mais seguro. Punições e reações agressivas quando ocorrem erros, atitudes intolerantes com ideias novas ou fora do comum e competição exagerada são exemplos do que contribui para um ambiente inseguro – fora o medo de ser demitido em momentos de crise.

“É uma cultura bem predatória em algumas empresas que buscam resultado a qualquer custo e em detrimento das pessoas”, diz João Mareio Souza, CEO da Talenses Executive, empresa de recrutamento.

Mas algumas companhias já começam a cuidar dessa situação. Foi por uma iniciativa da empresa que César Augusto Pezzotti, de 41 anos, gerente corporativo de controladoria na Santa Helena, em Ribeirão Preto, conseguiu perceber quanto ele estava tentando vestir uma máscara no trabalho. Em 2018, César foi um dos participantes de um curso de gestão emocional. Eram encontros com um terapeuta, em uma chácara no interior de São Paulo, focados em aprender a lidar com medos e desafios e a desenvolver o autoconhecimento. Para o profissional, esse foi um ponto de virada. “Consegui aceitar que podemos ter problemas e que eles não ficam em casa quando vamos ao trabalho”, diz. ”Antes eu tinha a ideia de que na empresa você deveria esquecer tudo e só produzir, produzir e estar sempre sorrindo”, diz.

No começo, César sentia muita insegurança em simplesmente falar sobre o assunto. O processo não foi imediato – e na verdade continua, mesmo depois de cinco meses de acompanhamento. Mas a experiência já mudou a forma como ele encara a liderança. “Minha visão era que minha equipe tinha de ser muito próxima do meu perfil, parecida comigo no jeito de falar e agir – e acabei vendo que não é assim”, afirma. “Quanto mais diferentes as pessoas, quanto mais posturas diversas, mais eu cresço como gestor.” Isso o ajudou até a lidar com os próprios chefes. “Hoje ouço de forma mais genuína. Quando meus superiores vêm falar comigo, pratico a empatia e consigo entender melhor algumas situações.” Com sua equipe, ele busca reproduzir o que aprendeu lá atrás, convidando-a para reflexões e conversas fora do escritório.

ESFORÇO INDIVIDUAL

A mudança pode – e deve – partir do indivíduo. O RH e a liderança têm papel importante, mas é preciso também que cada um trabalhe a própria vulnerabilidade. Esse gesto, inclusive, ajudaria a ter mais clareza sobre as próprias motivações e escolhas profissionais. “As pessoas vão acumulando dor atrás de dor caladas, sofrem continuamente, até que um dia têm burnout”, diz Nélio Bilate, coach e fundador da consultoria NB Heart. Um dos primeiros passos é procurar entender a própria relação com a vulnerabilidade. Aprendemos com nossas experiências desde cedo e nem sempre nos damos conta de como agimos e pensamos. Uma forma de fazer isso é parar para analisar situações nas quais ficamos muito irritados ou frustrados e tentar entender os pontos em comum entre elas. Compreendendo melhor as próprias motivações, fica mais fácil definir o que nos atinge em cada situação e aceitar nossas emoções – e, portanto, ser menos reféns do medo de enfrentá-las.

Isso passa também pela forma como lidamos com as próprias falhas. “Muitas vezes, a pessoa se torna adversária dela mesma e começa a se maltratar. Ela gasta energia se punindo, e a parte que está sendo punida não consegue resolver o problema”, diz Ronaldo, psicólogo. Observar como agimos com os outros em momentos de vulnerabilidade também é útil. Quando alguém ao nosso lado chora ou demonstra alguma emoção, como reagimos? Podemos ficar irritados, constrangidos, chateados. Podemos ter dificuldade de dar apoio e mesmo de ter empatia pela pessoa. Para Wesley Barbosa, de 33 anos, sócio e diretor de comportamento do consumidor na XP Inc, empresa de investimentos, encontrar um ambiente que soubesse acolher sua vulnerabilidade foi fundamental. Nascido em uma favela na periferia de Maceió (AL), as dificuldades surgiram cedo. “Sempre busquei sair daquela situação, com uma mãe solteira e sem um pai que tenha me criado”, diz. Desde o primeiro emprego, em um call center, ele começou a juntar dinheiro para ir para fora do Brasil. Em paralelo, estudava marketing e neurociência. Para ele, aceitar a vulnerabilidade e o risco foi uma necessidade, mas também o que lhe permitiu chegar aonde chegou. Isso o tornava, segundo ele, uma pessoa mais emotiva e transparente. “Eu sempre fui o tipo de cara que chora e não conseguia fazer politicagem”, diz.

Essa postura de demonstrar emoções já trouxe problemas – e Wesley até foi demitido por causa disso. Quando aconteceu, ele decidiu anunciar para colegas e amigos sua situação. A experiência o fez perceber que precisava de um lugar onde pudesse ser quem era. “Se você omite toda a sua vulnerabilidade, como é que as pessoas vão ajudá-lo?” Como líder, ele tenta estimular isso em sua equipe. “Meu trabalho é identificar pessoas que não estão felizes, perguntar como estão se sentindo”, diz. Até porque foi sua relação com a própria vulnerabilidade que o ajudou a suportar os momentos mais difíceis. “Quando vem a insegurança, eu respeito, lembro de quais sãos meus valores e pelo que já passei”, diz.

O NASCIMENTO DA CORAGEM

Não é à toa que a vulnerabilidade está ligada à coragem – senão aceitamos as falhas e ficamos só buscando culpados em nós mesmos ou nos outros), fica difícil assumir riscos e se desenvolver. “Aprender é nos fragilizar ao assumir que não dominamos algo”, diz Nélio, da NB Heart. “É preciso coragem para aceitar isso.” Nessas situações perdemos o controle que imaginamos ter sobre as coisas. Por isso mesmo, essa pode ser outra forma de praticar a vulnerabilidade: colocar-se na posição de aprendiz com mais frequência.

“Um bom exercício é fazer perguntas para as quais não se sabe a resposta”, diz Mônica, da The School of Life. Segundo ela, é comum adotarmos em conversas a postura de apenas buscar dos outros a confirmação para algo que já sabemos. “Em vez de se manter na zona de conforto, perguntar algo cuja resposta você não saiba abre um espaço criativo e o obriga a agir de forma mais humilde, aberto para algo novo”, diz. Adotar a vulnerabilidade também envolve escutar mais o que os outros têm a dizer- sem tentar impor nossas ideias e julgamentos enquanto ouvimos.

E é importante saber escolher as pessoas com quem você tentará se abrir mais. “Se a empresa não está num estágio tão maduro, tente eleger pessoas com quem já tenha proximidade e fale de forma particular, numa relação de confiança”, diz João Marcio, da Talenses. “Esse tema deve ser levado a sério e de forma profissional.” Aliás, um dos pontos reforçados por Brené Brown é que a vulnerabilidade não pode ser vista como uma atitude confessional exagerada. Abraçar a vulnerabilidade não quer dizer se abrir para todo mundo independentemente das consequências. Parte importante dela é justamente entender quais são seus limites: até onde você está disposto a ir, o que é importante para você e quais são os momentos em que, ele fato, você precisa se proteger mais.

SEIS MITOS SOBRE A VULNERABILIDADE

No livro Coragem para Liderar, a americana Brené Brown elenca alguns equívocos sobre ser vulnerável. Veja quais são eles

MITO 1: VULNERABILIDADE É FRAQUEZA

Ser vulnerável é um a condição de todos nós, e assumi-la nos torna mais fortes.

MITO 2: EU NÃO SOU VULNERÁVEL

É impossível não ser vulnerável: ou você admite e lida com a vulnerabilidade, ou os medos que estão por trás o dominam.

MITO 3: POSSO LIDAR COM ISSO SOZINHO

“Precisamos de conexão”, escreve Brené. É importante encontrar apoio – seja nas pessoas a nossa volta, seja em acompanhamento profissional, com um terapeuta.

MITO 4: POSSO “GERENCIAR” A INCERTEZA E O DESCONFORTO DA VULNERABILIDADE

Não podemos confundir lidar com a vulnerabilidade com tirar o desconforto e mitigar os riscos de todas as situações. É o contrário: devemos aceitar essas incertezas como parte de nossas relações.

MITO 5: CONFIANÇA VEM ANTES DE VULNERABILIDADE

Às vezes, é necessário se arriscar e confiar para ser vulnerável – essa é a base de relações de confiança.

MITO 6: VULNERABILIDADE É CONFISSÃO

Não é para fazer revelações indiscriminadas ou fingir ter vulnerabilidade. É preciso estabelecer limites e não confundir a postura com arroubos de confissões, manipulação emocional ou desespero.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

CIBERCONDRIA E ANSIEDADE

A internet revolucionou os modelos de comunicação, permitindo novas formas de entretenimento, e o acesso à saúde foi reformulado para novos padrões

Atualmente é difícil imaginar a extinção das redes sociais da nossa prática diária de comunicação, modelo praticamente impossível de ser retrocedido. A world wide web remodelou também os antigos padrões de relacionamento, seja através das redes sociais, fóruns ou programas de interação em tempo real. Não apenas essas modificações foram provocadas pelo avanço da cibercultura, o acesso à saúde foi reformulado para novos padrões. Atualmente é possível, por exemplo, verificar resultados de exames de sangue no endereço eletrônico do laboratório, acessar endereços eletrônicos sobre saúde mental e de planos de saúde sem sair de casa. Facilidades estas que são consideradas de uso contínuo para as próximas décadas, ou seja, cada vez mais os recursos tecnológicos serão utilizados para esses e outros fins. A era da cibernética é real.

Apesar dos diversos benefícios da internet para a saúde humana, outra manifestação psicopatológica (vinculada ao campo eletrônico) vem sendo discutida, além do transtorno do jogo pela internet, a dependência de internet, de sexo virtual e a de celular: a cibercondria. O nome é um neologismo dos termos ciber e hipocondria. A hipocondria refere-se, de forma sucinta, a uma busca constante de reasseguramentos por informações sobre possíveis adoecimentos orgânicos, dúvidas essas que raramente cessam quando o sujeito encontra a possível resposta às suas indagações. E como pensar nesse fenômeno com a proliferação das buscas em relação à sua saúde na internet?

A procura de informações sobre sintomas e doenças na internet é comum e, muitas vezes, serve a propósitos úteis. De acordo com Aiken e Kirwan (2012), a internet é um valioso recurso na busca de informações médicas e continuará sendo por muitos anos. Porém, a web possui, em paralelo, um poder potencial de aumentar a ansiedade dos sujeitos que não tiveram treinamento médico, no momento em que estejam buscando diagnósticos em websites. Dessa forma, contemporaneamente, pessoas que são excessivamente angustiadas ou muito preocupadas com a sua saúde realizam pesquisas constantes na internet, porém             apenas se tornam mais ansiosas ou amedrontadas. Pense por um momento e, em sua reflexão, responda a si se nunca foi feita uma busca na internet após receber seu exame de sangue ou o surgimento de uma mancha em alguma região do seu corpo. Esse tipo de comportamento é bem frequente, porém apenas uma minoria apresenta uma manifestação patológica (cibercondríaca) desse funcionamento.

Fergus (2013) realizou um estudo com 512 participantes nos Estados Unidos; a média de idade foi de 33,4 anos, sendo 55,3% do sexo feminino. O objetivo do seu trabalho foi verificar o efeito da intolerância à incerteza na relação entre a frequência de buscas por informações médicas na web e a ansiedade com a saúde. Para essa pesquisa foram aplicados os seguintes instrumentos: a lntolerance of Uncertainty Scale 12 Item Version (IUS -12), a Short Health Anxiety lnventary (SHAI) e a Positive and Negative Affect Schedule (PANAS). Além disso, foram considerados outros dois pontos: a relação entre a ansiedade com a saúde como um resultado de buscas por informações médicas na internet e a frequência com que esse usuário busca por esse serviço.

De acordo com o autor, é comum que as pessoas encontrem e busquem esse tipo de informação na internet, entretanto são desconhecidos os motivos que levam uma parcela da população a desenvolver a cibercondria. O estudo em questão, então, seria uma forma de preencher essa lacuna na literatura científica. A pesquisa demonstrou que quanto maior o nível de intolerância à incerteza, maior a chance de o indivíduo experienciar a cibercondria. Essa ansiedade pode se tornar ainda maior devido ao fato de a internet oferecer diversas informações para o mesmo problema, confundindo o usuário na identificação do seu problema sintomatológico. Além disso, nem todos os usuários são habilidosos em encontrar endereços eletrônicos confiáveis.

Dessa forma, cogite por um momento se tantas informações disponíveis na internet são fontes de relaxamento após a sua visita ao endereço eletrônico ou se esse ato gera ainda mais ansiedade? É comum, por exemplo, pacientes chegarem no consultório de Psicologia com diagnósticos já estabelecidos por buscas que fizeram na internet. Resultado: muitas vezes a informação é incorreta ou mal interpretada. Nunca deixe o profissional da saúde em segundo plano, priorize-o na busca por informações sobre o seu corpo.

IGOR LINS LEMOS – é doutor em Neuropsiquiatria e Ciências do Comportamento pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental Avançada pela Universidade de Pernambuco (UPE). É psicoterapeuta cognitivo-comportamental, palestrante e pesquisador das dependências tecnológicas.

E-mail: igorlemos87@hotmail.com

OUTROS OLHARES

A TENTAÇÃO DA QUARENTENA

Happy hours virtuais regadas a álcool crescem como alternativa de relaxamento. Mas é sempre bom seguir aquela conhecida recomendação: beba com moderação

Bares, casas noturnas e restaurantes estão fechados em todo o mundo, e até a sagrada Oktoberfest de Munique, o maior festival de cerveja do planeta, foi cancelada em razão do coronavírus. Dentro de casa, uma alternativa ao isolamento social têm sido as reuniões de amigos via video­conferência. Não há regras pré estabelecidas, é claro, mas a maioria das happy hours virtuais acaba regada a bebidas diversas. Seja com vinho, seja com cerveja ou destilados – há nas redes as mais variadas receitas -, pegou a moda dos “quarentinis”, como foram apelidados os refrescos alcoólicos que ajudam a fazer a pandemia passar, digamos, de forma mais suave. “Faço pelo menos uma reunião virtual por semana. Não substitui um encontro presencial, mas é legal. Até me arrumei para a última, porque era um aniversário, mas cheguei atrasado”, diz o coordenador de marketing paulistano Leonel de França, de 30 anos. “Geralmente tomo cerveja, mas dessa vez programamos que cada um prepararia um drinque e elegemos o melhor, que levava gim, café e suco de tangerina.”

Em tempos de incerteza, o álcool pode ser tanto uma válvula de escape – “O uísque é o melhor amigo do homem, o cachorro engarrafado”, na espirituosa definição de Vinicius de Moraes – quanto um enorme perigo, a depender do número de doses. Não por acaso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou um ruidoso alerta sobre os riscos da bebedeira durante o confinamento. Eles existem, sempre existiram, e por isso houve quem identificasse algum exagero oportunista na postura urgente das autoridades (embora a embriaguez, não raro, resulte em inaceitável violência). Cautela é sempre bom, a moderação é compulsória, mas não dá para dizer, agora, que saborear um vinho no fim do dia tenha se tornado um problema associado à quarentena. Beber, enfim, pouco e com prazer é como comer bem – sinônimo de convivência, atalho para o bem-estar.

Tomar umas e outras depois de um dia estressante não é novidade, insista­ se. Na Finlândia, por exemplo, é um costume nacional que ganhou até nome próprio: kalsarikiinnit (beber em casa sozinho, em roupa de baixo). Mas há, hoje, algo de especial – corno se a dificuldade de enxergar o futuro próximo impusesse alguma pressa em transportar para a sala de estar o que antes só se fazia na rua. Há um mês, quando os primeiros pubs baixaram as portas na Inglaterra, houve corrida aos mercados para garantir estoques particulares. Em outros países, caso da Austrália e dos Estados Unidos, as chamadas liquor stores, estabelecimentos especializados em artigos para drinques, foram consideradas pelas autoridades essenciais, tal qual farmácias e supermercados. “Em Nova York, há até filas em algumas lojas”, contou o engenheiro ambiental brasileiro Eduardo Nepomuceno, que vive há três anos na cidade mais atingida pela pandemia em todo o planeta. O ato administrativo evoca a famosa frase do ex-presidente Franklin Delano Roosevelt (1882-1945). “O que os Estados Unidos precisam agora é de um drinque”, disse FDR ao pôr fim à Lei Seca, em 1933. Banir o álcool provocou graves efeitos colaterais na economia e na segurança pública americanas, uma vez que a produção e o contrabando ilegal de bebidas causaram mortes por intoxicação e enriqueceram gângsteres como AI Capone.

Não há, ainda, estatística que meça nitidamente a mudança comportamental em torno dos copos no Brasil. Mas existem indícios que ajudam a iluminar esse novo tempo, um interregno de vida, impositivo, mas necessário. O Grupo Pão de Açúcar registrou alta de quase 30% nas vendas de vinho durante o feriado da Páscoa, em suas lojas físicas e no e-commerce, na comparação com o mesmo período de 2019. A preferência pelo vinho traz algo minimamente saudável – é uma bebida de compartilha mento, em que vale mais a companhia do que a qualidade do tinto ou do branco. Em um artigo para o The New York Times, o crítico Eric Asimov fez uma interessante reflexão ao se debruçar sobre a condição dos solitários, agora realmente sozinhos.

Para ele, como jocosamente intuiu Vinicius com um destilado, embora Vinicius bebesse demais, o vinho pode representar o conforto possível, e não seria correto apenas iluminar o problema (real) do exagero. Assim escreveu Asimov, ancorado em uma máxima muito conhecida da atriz sueca Greta Garbo: “Gostar de um bom vinho, nos dizem, requer um parceiro. A alegria, o senso de descoberta ocorrem quando são coletivos. Não sei como Garbo se sentiu em relação ao vinho, mas ao abrir uma garrafa você não quer ficar sozinho”.

Talvez por não querer ficar sozinho é que o cantor sertanejo Gusttavo Lima apareceu em cena numa live (ah, as lives!) bebendo muito, embora tenha se mantido firme, cantando e fazendo piada, além de doar milhares de reais a obras de caridade. O Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) não gostou e abriu uma representação ética contra as transmissões. O músico se disse “censurado” por não poder extravasar – “tirar o lençol do palhaço”, em seu vocabulário. “Acho que uma live engessada e politicamente correta não tem graça”, desabafou. “O bom são as brincadeiras, levar alegria e alto-astral às pessoas que estão agoniadas neste momento.” Até o presidente Jair Bolsonaro se pronunciou sobre o evento, dizendo que o cantor foi “injusta e covardemente atacado”. Houve mesmo extrapolação no ataque e na defesa ao ídolo popular – mas convém evitar, de fato, outro excesso: o de álcool. E, para isso, a rigor não é preciso realmente outro alerta da OMS, como se a pandemia tivesse deflagrado uma nova ordem de problemas no consumo. Talvez não. Mas convém ficar atento a um trecho particular do comunicado da OMS. A entidade fez questão de desmentir a tese, que grassou como fake news, segundo a qual bebidas com alto teor alcoólico poderiam matar o coronavírus, tal qual o álcool em gel na superfície das mãos. Diz Leonardo Weissmann, infectologista do Instituto de Infectologia Emílio Ribas (SP): “O uso excessivo é um fator de risco para a síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA), uma das complicações mais graves da Covid-19″. Isso posto, cuidado. De resto, vale zelar cautelosamente pelo paladar.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 28 DE ABRIL

TEMPERATURA ESPIRITUAL

… Quem dera fosses frio ou quente! Assim, porque és morno e nem és quente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da minha boca (Apocalipse 3.15b,16).

Jesus deu ordens ao apóstolo João para enviar cartas às sete igrejas da Ásia. Duas dessas igrejas – Esmirna e Filadélfia – só receberam elogios. Quatro igrejas – Éfeso, Pérgamo, Tiatira e Sardes – receberam elogios e censuras. Mas a igreja de Laodiceia recebeu apenas censuras e nenhum elogio. Jesus acusou Laodiceia de ser uma igreja morna. Por isso, estava a ponto de vomitá-la de sua boca. A igreja de Laodiceia tinha um alto conceito de si mesma e se considerava rica e abastada. A cidade de Laodiceia era um grande centro bancário da Ásia Menor, mas a igreja era espiritualmente pobre. A cidade era o maior centro oftalmológico da Ásia, mas a igreja estava espiritualmente cega. A cidade era um dos maiores polos têxteis do mundo, mas a igreja estava espiritualmente nua. Aos olhos de um observador desatento, Laodiceia era um portento. Não havia naquela igreja falsas doutrinas nem perseguição. Não havia pobreza material nem imoralidade. Mas Jesus, que anda no meio da igreja e conhece suas obras, observou que ela era como água morna, que provoca náuseas. Em vez de rejeitar essa igreja, Jesus oferece vestes alvas para cobrir sua nudez, colírio para ungir seus olhos e ouro depurado para enriquecê-la. Jesus está do lado de fora dessa igreja, mas bate à porta para entrar e cear com ela. Depois da comunhão íntima, Jesus promete aos vencedores reinado público. Aqueles que se assentarem com Jesus à mesa assentar-se-ão com ele no trono.

GESTÃO E CARREIRA

UM ALÍVIO DE US$ 14 BILHÕES

Membros do G20 oferecem moratória bilionária, mas pode ser pouco para turbinar a economia de países mais pobres. O FMI também vai ajudar.

Muito além de transformar as economias domésticas, os impactos da Covid-19 precisam ser pensados e planejados em escala global. Pelo menos é o que entendem os líderes que formam o G20, grupo composto pelas 20 maiores economias do mundo – entre elas, o Brasil. Em um encontro virtual que aconteceu na última semana, a opinião dos representantes de países como Alemanha, Canadá, China, EUA e Japão é de que é necessário aliviar as economias de países mais pobres, por meio de uma moratória imediata. O pensamento, que vem ao encontro das premissas apontadas como essenciais para a economia global defendidas pelo Banco Mundial e Fundo Monetário Internacional (FMI), serviria para dar fôlego aos países endividados, ainda que seja pouco para resolver os problemas que virão.

A estimativa é de que a ajuda do G20 envolveria US$ 14 bilhões em dívidas postergadas, ainda que não tenha sido detalhado quais países seriam beneficiados ou quais são os credores. O objetivo de congelar dívidas públicas, por um período que gira entre seis e nove meses, podendo chegar até 2021, visa um empurrão maior na economia mundial a partir do segundo semestre do ano que vem. A medida se soma ao anúncio de FMI, também na semana passada, de liberar recursos para 25 países pobres investirem no combate da pandemia. Entre os beneficiados, quase todos africanos, estão Congo, Gâmbia, Guiné-Bissau e países de língua portuguesa, como São Tomé e Príncipe e Moçambique.

Na iniciativa do G20, a Alemanha se colocou como o arauto do alívio, movimento que foi rapidamente aderido por outros países europeus. “Com a recessão global cravada, o plano precisa ser de médio prazo e focar em como será reativada a economia”, avalia Carl Studart, consultor do FMI para América Latina. “A conta é simples: você posterga dívidas agora para eliminar a pandemia o mais rápido possível e ajuda esses países na retomada econômica mundial”, afirmou à DINHEIRO. Apesar do valor bilionário, Studart afirma que as nações endividadas precisarão correr atrás de outras negociações. “Elas terão de negociar diretamente com seus credores internacionais. Há uma abertura mundial para renegociações”, observa. Assim, conta ele, os países conseguirão reunir esforços para necessidades imediatas e não ficar a serviço de uma dívida que leva o recurso para outra nação.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, diz que as medidas anunciadas em escala global é pouco. “Estamos longe de ter um pacote global para ajudar o mundo em desenvolvimento a criar condições para suprimir a doença e enfrentar as dramáticas consequências em suas populações”, disse. Para ele, é necessário “uma resposta multilateral de larga escala, coordenada e abrangente, que atinja pelo menos 10% do PIB global”, valor que giraria em torno de US$ 8,6 trilhões.

Apoio Em uma conferência virtual, a diretora-gerente do FMI, Kristalina Georgieva, traçou um cenário sombrio para a economia mundial, em função da pandemia. Para ela, é necessário que, além das medidas de contenção da doença, os países ricos assumam a responsabilidade de socorrer e ajudar também os emergentes. “Precisa ficar claro que acabar com o isolamento de forma prematura não fará com que a atividade econômica se recupere mais rápido, pelo contrário”, disse. Para ela, “não há recuperação forte sem uma contenção forte”. Na avaliação da dirigente, em uma estimativa conservadora, serão necessários investimentos da ordem de US$ 2,5 trilhões para ajudar as nações emergentes neste momento. “É claro que entramos em uma recessão”, disse Georgieva.

De acordo com as previsões do FMI, o tombo será maior entre as economias emergentes, grupo no qual o Brasil se encontra. A estimativa do Fundo é de que as nações em desenvolvimento registraram um êxodo de capital de mais de US$ 83 bilhões nas últimas semanas, com o PIB podendo cair até 5,3% em 2020. “Muitos deles já estavam fortemente endividados. Por isso, 80 países pediram ajuda de emergência ao FMI”, afirmou.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

NOMOFOBIA É UM TRANSTORNO

Esse tipo de dependência é identificado como fobia ligada a recompensa dos objetos de desejo

Você já parou para pensar por quanto tempo consegue ficar sem acessar uma tecnologia? Essa é uma avaliação importante para identificar se não está sofrendo de um transtorno da era moderna: a nomofobia. Ela é caracterizada pela dependência do computador, internet, redes sociais, telefone celular. Na ausência desses dispositivos, o sujeito assume um comportamento inseguro, se sentindo ameaçado.

Segundo King e Nardi o termo originou-se na Inglaterra a partir da expressão no-mobile, que   significa sem celular. Essa expressão uniu-se à palavra fobos, do grego, que significa fobia, medo. Surge, então, o termo nomofobia.

A sociedade moderna sofre de nomofobia. Essa nomenclatura específica representa os sentimentos e sensações do indivíduo de não conseguir viver sem as novas tecnologias.

A nomofobia está relacionada aos possíveis transtornos que poderão vir a ser identificados como os ligados à recompensa dos objetos de desejo – compra de telefones celulares, computadores, ao consumo excessivo de dispositivos das novas tecnologias.

A nomofobia segue o mesmo princípio de qualquer outra fobia. O indivíduo com um transtorno ansioso costuma desenvolver dependência patológica de uma determinada tecnologia (computador ou telefone celular como forma de minimizar as suas dificuldades, pois esses dispositivos costumam trazer a sensação de segurança, bem-estar e confiança, reduzindo o estresse em muitas situações do cotidiano.

O indivíduo com transtorno ansioso de nomofobia quando se vê impedido de se comunicar por alguma tecnologia, ao invés de segurança e confiança que poderia adquirir, sente-se ameaçado como se estivesse em perigo. Essa ideia construída de maneira equivocada faz com que a impossibilidade de se comunicar seja considerada, e isso é o bastante para disparar os sintomas indesejados.

Em relação ao telefone celular, podemos observar indivíduos que apresentam sentimentos de ausência e vazio relacionados à falta do aparelho. Mesmo com o dispositivo nas mãos, dão a falsa impressão de se sentirem acompanhados como se estivessem com uma pessoa do lado.

A pessoa que tem esse transtorno ansioso de nomofobia é capaz de dormir com o telefone celular ligado por 24 horas e, quando não é possível permanecer assim, o mantém no modo vibrador, sempre por perto e visível. O que precisa ser observado é que a insegurança e a baixa auto- estima contribuem para que ela se sinta rejeitada quando não recebe ligações ou quando verifica que seus amigos recebem mais ligações do que ela.

O comportamento nomofóbico que leva o indivíduo a depender do telefone celular dá apenas um alerta da existência de um transtorno primário que deve ser investigado e tratado de forma eficaz, pois trata-se de um transtorno real e que pode trazer prejuízos ao longo da vida.

MARTA RELVAS – é membro da Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento. Docente da Universidade Candido Mendes/AVM Educacional e da Universidade Estácio de Sá. Docente colaboradora da UFRJ. Docente convidada do Instituto de Neurociências Aplicadas (INA).

OUTROS OLHARES

 A LIÇÃO DE QUEM SE CUROU

Os recuperados da infecção pelo coronavírus, que já passam de 500.000 no mundo, têm papel crucial no desenvolvimento de novos tratamentos

Apenas na terça-feira 14, quase dois meses depois do primeiro diagnóstico de Covid-19 no Brasil, os números de pacientes recuperados da doença foram finalmente calculados – e divulgados pelo Ministério da Saúde. A taxa estimada de curados representa 50% dos infectados, porcentual superior aos índices globais. Muito em breve ela deverá cair, ressalve-se, já que o país não atingiu o pico da epidemia e, consequentemente, não esgotou os recursos do sistema de saúde, público ou privado. A revelação estatística de curados, para além de representar algum conforto, e muita esperança, é também uma estrada para desenhar com mais precisão a evolução de uma enfermidade ainda desconhecida. Trata-se, enfim, de contribuição para a ciência. Diz Fernando Gatti, infectologista do Hospital Albert Einstein, em São Paulo: “Na falta de pesquisas consolidadas, como é o caso agora, os curados são peça-chave para entendermos a ação do vírus no organismo e desenvolvermos mais rapidamente tratamentos eficazes”.

Aos 57 anos, a corretora de imóveis Celina Freire não pertence ao grupo de maior risco, o de idosos. Absolutamente saudável, nunca tinha sido internada, tampouco tido sequer uma gripe na vida, até ser diagnosticada com Co­ vid-19. Os primeiros sintomas da doença não passaram de cansaço e dor nos olhos. O avanço do microrganismo, no entanto, foi espantoso. Quatro dias depois do teste positivo, ela foi internada na UTI do hospital Beneficência Portuguesa, em São Paulo, com a sensação de ter um peso em cima do peito e muita dificuldade para respirar. Era uma pneumonia nos dois pulmões. “Lembro que estava no quinto dia de internação e já não suportava ficar sem lavar o cabelo”, conta, com alívio. “Pedi às enfermeiras que me dessem um banho comum. Fui levada por elas e quase não me movimentei. Mesmo assim, quando voltei para a cama, estava tão sem fôlego que parecia ter corrido uma maratona.” Depois de uma semana de UTI e mais sete no quarto do hospital, Celina estava firme e forte, sã.

Os estudos com pessoas que reagiram à Covid-19, como a brasileira Celina, permitiram a descoberta, há menos de um mês, dos mecanismos do sistema imunológico no combate à infecção pelo novo coronavírus. A pesquisa, publicada na Nature Medicine, é resultado das reações de uma mulher de 47 anos de Wuhan, na China. Três dias antes da melhora, anticorpos específicos semelhantes aos do vírus da influenza, apareceram em seu corpo. A descoberta é um passo decisivo para encurtar o desenvolvimento de vacinas. Enquanto não chega um imunizante ou um remédio eficaz, os cuidados com a doença têm incluído sobretudo três tipos de medicamento – anti-inflamatórios, anticoagulantes e a cloroquina, composto usado como moeda pelo governo federal brasileiro. Indicada originalmente para malária, ela age tanto na entrada do vírus nas células como em sua multiplicação dentro delas. A substância, no entanto, tem efeitos colaterais drásticos, como problemas visuais e arritmia cardíaca, sintomas que podem ser controlados com assistência médica. Pesquisa conduzida pela Fiocruz, contudo, começa a mostrar que a taxa de morte de doentes graves com Covid-19 tratados com cloroquina é equivalente à de pacientes também infectados que não usaram a droga.

Não há, evidentemente, mágica. O que vale é a observação clínica, o comportamento do organismo de quem foi à sombra e voltou. Desde casos graves, que exigem internação, até os mais controlados. O empresário do mercado financeiro Christian Bojlesen, de 45 anos, foi infectado durante as férias em Andorra, no início de março. Ele antecipou a volta ao Brasil quando desconfiou estar doente: de uma hora para outra teve febre baixa, cansaço e um pouco de dificuldade para respirar. Os sintomas nunca passaram disso. Bojlesen ficou isolado em casa por duas semanas, sem precisar de medicação. Recuperado, candidatou-se como voluntário de um estudo promissor com um tratamento baseado na transfusão do plasma do sangue de pessoas curadas para casos preocupantes da doença. O trabalho conduzido pelo Hospital Albert Einstein, Sírio-Libanês e Hospital das Clínicas, começou há uma semana. O plasma é a parte incolor e líquida do sangue, composta de água, proteínas e anticorpos criados no contato com diversos vírus. Seu uso não é novo na história da medicina. A estratégia já foi empregada durante a pandemia de gripe espanhola, em 1918, e de Sars, em 2003. Dados de uma pesquisa publicada no periódico científico JAMA são animadores. Das cinco pessoas que estavam ligadas a respiradores e receberam a transfusão, três tiveram alta e duas permaneceram estáveis.

No universo de recuperados da Covid-19 (são mais de 500.000 no mundo), há uma indagação crucial ainda sem resposta definitiva da ciência: esses pacientes estão de fato imunes? Recentemente, as autoridades sul-coreanas anunciaram 116 registros de pessoas que testaram positivo para o vírus novamente. Os casos estão sendo analisados pela OMS. Há nuances. O resultado nos exames positivos pode ser tanto em razão de uma nova infecção como de fragmentos que restam nas células mesmo depois da morte do vírus, o que não seria suficiente para causar a doença. Um segundo estudo, conduzido por pesquisadores da Universidade de Fudan, em Xangai, foi além: após serem avaliadas 130 pessoas recuperadas da doença, constatou-se que cerca de 8% delas não haviam criado defesas contra um novo contágio. Ou seja, era como se não tivessem se infectado e corriam risco semelhante ao de pessoas que não adoeceram.

Há ainda muitas dúvidas, e seria irresponsabilidade buscar atalhos inexistentes. Mas histórias de reviravolta devem ser celebradas por iluminar possibilidades, sinônimo de chances de vida diante de tanta incerteza. Convém acompanhar a trajetória de Gina dai Coletto, de Santos, no litoral de São Paulo. Aos 97 anos, ela se livrou da Covid-19 depois de ficar onze dias na UTI do Hospital Vila Nova Star, em São Paulo. Gina foi infectada pela filha, Maria Helena, que a visitou sem saber que estava doente. Ela foi tratada desde o início com anti-inflamatórios e antibióticos, mas teve um salto apenas no terceiro dia, quando passou a contar com a companhia de Maria Helena no quarto do hospital. Os médicos liberaram sua permanência pelo fato de ela ter sido infectada anteriormente – e já estar curada. Diz a senhora, um sorriso no rosto: “Recuperei a vontade de viver só de ter minha filha por perto”.

UMA BOA NOTÍCIA

O Brasil ainda tem uma porcentagem de recuperados maior do que a registrada em boa parte do mundo – mas muito semelhante à da Suíça, com número de casos de Covid-19 equivalente (dados até a última quarta-feira, 15de abril)

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 27 DE ABRIL

UM CLAMOR PELA RESTAURAÇÃO ESPIRITUAL

Restaura, SENHOR, a nossa sorte, como as torrentes no Neguebe (Salmos 126.4).

O Salmo 126 retrata a alegria do povo de Israel pelo retorno do cativeiro babilônico. Os três primeiros versículos olham para o passado com gratidão pelo livramento de Deus. Os dois últimos olham para o futuro, entendendo que precisamos semear, ainda que com lágrimas, para voltarmos com júbilo trazendo abundantes feixes. Mas o v. 4 olha para o presente e faz um forte clamor: Restaura, SENHOR, a nossa sorte como as torrentes do Neguebe. Três verdades são destacadas aqui:

1) AS VITÓRIAS DO PASSADO NÃO SÃO GARANTIAS DE SUCESSO HOJE. O povo se alegrara com o livramento do cativeiro, mas agora, mesmo de volta à sua terra, estava vivendo um tempo de sequidão e marasmo.

2) EM TEMPOS DE CRISE, PRECISAMOS BUSCAR A DEUS EM ORAÇÃO. A crise nunca impediu que a mão de Deus agisse. Os grandes avivamentos nasceram do ventre da crise. É quando reconhecemos nossa sequidão que clamamos pelas torrentes restauradoras de Deus.

3) PRECISAMOS SABER QUE SOMENTE DEUS PODE MUDAR A NOSSA SORTE. Muitos buscam novos métodos, embarcam em novas doutrinas e correm atrás de novidades no mercado da fé para revitalizarem a igreja. Mas somente Deus pode restaurar a sorte do seu povo. Somente Deus pode trazer vida num cenário em que a morte mostra sua carranca. Assim como Deus faz brotar torrentes de águas no deserto do Neguebe, também irrompe com vida abundante na sequidão da nossa alma.

GESTÃO E CARREIRA

OPERAÇÃO MÃOS LIMPAS

Prestes a completar 70 anos, ypê cria fórmula de álcool gel exclusiva para distribuir gratuitamente e doa mais de 100 toneladas de sabão em barra para comunidades carentes.

Motivos para comemorar não faltam. O momento é que não está propício a festividades. Com o isolamento social adotado como estratégia para conter o avanço da pandemia causada pelo novo coronavírus, os 70 anos da fabricante de produtos de higiene e limpeza Ypê só serão celebrados depois que os efeitos da Covid-19 tiverem se dissipado. Até lá, a prioridade do atual presidente, Waldir Beira Júnior, de 55 anos, filho do fundador, é manter o compromisso socioambiental que está no DNA da empresa desde a fundação, quando ela ainda se chamava Química Amparo. “Meu pai sempre esteve ligado a causas sociais. Atuava no terceiro setor antes de existir o que hoje chamamos de ONG. Minha mãe está à frente de uma delas há 45 anos”, diz Júnior, referindo-se à Sepi, entidade assistencial sem fins lucrativos que atende crianças e adolescentes em três municípios paulistas e que desde 2019 faz parte de uma ação educativa realizada em parceria da Ypê com o Instituto Akatu. “Temos uma ligação histórica com a questão filantrópica”.

Nas últimas semanas, a dedicação familiar ao cuidado com os outros se materializou em uma decisão industrial. Ao perceber que a demanda por álcool gel havia explodido a ponto de não poder ser atendida pelos fornecedores tradicionais, Júnior teve a ideia de incluir o item em sua linha de produção. “Entramos em contato com empresas do setor químico que já são nossas parceiras, caso da alemã Basf, e em três dias desenvolvemos uma fórmula. No quarto dia, começamos a fabricar”, conta. Cerca de 1,5 milhão de frascos estão sendo distribuídos gratuitamente para secretarias de saúde e não há planos de vender o produto, ainda que ele tenha exigido adaptar a fábrica da cidade de Amparo (SP) com a interrupção temporária de uma das linhas de detergente líquido. “Fizemos a opção de apenas doar, por entender que o álcool gel se tornou um ícone no combate ao coronavírus”, declara Júnior.

No caso do sabão em barra, item no qual a participação da Ypê é de cerca de 50% no País, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria Saboeira (Abisa), a empresa já distribuiu mais de 100 toneladas, o que equivale a 500 mil unidades. Foram escolhidas quatro comunidades, duas em São Paulo (Paraisópolis e Heliópolis) e duas no Rio de Janeiro (Complexo do Alemão e Vila Kennedy). A empresa ainda não calculou o quanto será investido nas duas iniciativas, mas já sabe que o percentual que anualmente dedica a ações sociais deverá crescer entre quatro e cinco vezes este ano — mesmo com o envolvimento de parceiros que também abriram mão de parte da receita. “Conseguimos muita doação. A Raízen doou boa parte do álcool que estamos usando”, diz Júnior. Até para distribuir os produtos nas comunidades foram feitas parcerias com transportadoras, que também ofereceram seus caminhões sem cobrar nada.

A adesão de outras empresas às iniciativas da Ypê tem muito a ver com a forma pela qual ela é percebida no mercado. Presente em 91% dos lares brasileiros, segundo levantamento da consultoria Kantar, a Ypê conquistou, em 2019, pelo 13º ano consecutivo, o prêmio “Top of Mind em Meio Ambiente”, realizado pelo jornal Folha de São Paulo com base em pesquisas do instituto DataFolha. A percepção do consumidor tem fundamento. Desde 2007, a empresa mantém, em parceria com a SOS Mata Atlântica, o Projeto Florestas Ypê, que promove o plantio de mudas de árvores nativas em regiões de mata ciliar, com o objetivo de preservar os mananciais para garantir a disponibilidade de água. No ano passado, foram plantadas 850 mil mudas em todo o País. Para este ano, a iniciativa será ampliada em 150 mil mudas de espécies nativas da Mata Atlântica. Elas irão para Áreas de Preservação Permanente (APPs) e de Reserva Legal. Outra parceria com a SOS Mata Atlântica é o Observando os Rios, iniciado em 1991 com uma campanha que reuniu 1,2 milhão de assinaturas em prol da recuperação do Rio Tietê e originou o primeiro projeto de monitoramento da qualidade da água por voluntários. Desde então, outras bacias hidrográficas foram agregadas. Hoje, 3,5 mil pessoas monitoram 230 rios, nos 17 estados com Mata Atlântica. Água e sabão é o que todos precisam agora para manter as mãos limpas e evitar o contágio pelo novo coronavírus.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

INGREDIENTE PARA BONS RELACIONAMENTOS

A empatia é um conceito amplo que está presente em várias áreas de estudo como psicologia, sociologia e filosofia. Em qualquer relação, seja profissional ou afetiva, espera-se que haja uma troca

desenvolveu uma nova abordagem em psicoterapia chamada “aconselhamento centrado   na pessoa”. Essa abordagem se propõe a fornecer um clima adequado, um ambiente de total aceitação, em que o terapeuta coloca com autenticidade seus sentimentos e pensamentos. A partir do conceito de Rogers, vários autores estudaram esse tema, criando métodos para avaliar o grau de empatia nas pessoas e pensando formas para desenvolvê-la.

O pesquisador M. H. Davis, criador de escalas para avaliar o grau de empatia dos indivíduos, define o conceito em um d e seus artigos de 1990 como: “uma habilidade de comunicação” que inclui 3 componentes:

(1) COMPONENTE cognitivo: a capacidade de compreender acuradamente emoções e sentimentos na perspectiva de outra pessoa;

(2) COMPONENTE AFETIVO: identificado por sentimentos de compaixão e simpatia por outra pessoa, além da preocupação com o bem desta;

(3) COMPONENTE COMPORTAMENTAL: que consiste em transmitir um sentimento explícito do sentimento e da perspectiva de outra pessoa, de tal maneira que ela se sinta profundamente compreendida”.

A empatia é um elemento imprescindível para os profissionais da área de saúde mental. Através dela podem-se aumentar a autoestima do paciente e favorecer a adesão ao tratamento. Não é a simples tradução do que o indivíduo está dizendo ou sentindo, é a capacidade de sentir o que o outro está sentindo. Vem de dentro e só aí pode ser expressada.

Vários estudos acreditam que é uma habilidade que pode ser desenvolvida por meio de treinamento adequado. Entretanto, cada uma das pessoas deve contribuir para que a relação aconteça.

Para muitos pesquisadores, a deficiência empática é responsável por promover graves estressores, como conflitos conjugais e divórcio. Muitos estudos têm avaliado a relação direta entre capacidade empática com satisfação conjugal. Se a empatia, a consideração e a preocupação com o outro estão comprometidas é improvável desenvolver relacionamentos satisfatórios.

Um trabalho dos psicólogos Maria das Graças Oliveira, Elyane Falconi e Rodolfo Ribas publicado em 2009 sobre o tema ressalta: “As consequências decorrentes de má comunicação conjugal estão entre os maiores estressores da vida, levando a transtornos como depressão e ansiedade. Além disso, estudos apontam que a insatisfação conjugal aumenta em 35% as chances de uma pessoa adoecer, podendo até mesmo encurtar a sua vida em cerca de quatro anos. Tais consequências podem ser explicadas pela sensação de irritação crônica decorrente da insatisfação, com decréscimo do nível de funcionamento do   sistema imunológico, favorecendo a aparecimento de enfermidades físicas tais como hipertensão e doenças cardíacas, além de problemas psicossociais como depressão, psicose, abuso de substâncias químicas, suicídio e homicídio.

Segundo o psicólogo Edward Hoffman, a empatia está diretamente relacionada ao desenvolvimento de um senso cognitivo sobre a existência de outras pessoas, o qual por sua vez, se encontra ligado ao processo de diferenciação do self. Vários estudos acreditam que é uma habilidade que pode ser desenvolvida por meio de treinamento adequado. Já outras linhas, como a psicanálise, postulam que as bases do desenvolvimento emocional são responsáveis pela capacidade empática, então, não é algo que se desenvolva verdadeiramente através de treinamento e sim, de tratamento. A visão psicanalítica é mais profunda e considera a constituição psíquica e de desenvolvimento do indivíduo como responsável pelo grau de sua capacidade empática.

O psicanalista inglês Donald Winnicott desenvolveu um conceito complexo e importante que ao meu ver é o que possibilita as condições para o indivíduo desenvolver a empatia: o conceito de concernimento. Do inglês concerni, que corresponde à capacidade de se preocupar. A evolução físico/emocional do bebê nos primeiros meses de vida depende de condições ambientais favoráveis, além dos cuidados físicos, que ele possa contar com a mãe ou uma figura substituta.

O fato de o indivíduo adquirir ou não em tenra infância a capacidade de considerar o outro e se responsabilizar por suas ações impactará muito a forma como ele vai se relacionar no futuro. Do ponto de vista da teoria do amadurecimento de Winnicott, essa limitação poderá ser tratada no processo psicoterapêutico. Será necessário para isso, que o terapeuta crie um ambiente facilitador que permita, a partir da relação com o paciente, fornecer condições para que esse estágio se desenvolva.

ELAINE CRISTINA SIERVO – é psicóloga, pós-graduada na área Sistêmica – Psicoterapia de Família e Casal pela PUC -SP. Participa do Núcleo de Psicodinâmica e Estudos Transdisciplinares da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica – SBPA. Atuou na área de dependência de álcool e drogas com indivíduos, grupos e famílias.

OUTROS OLHARES

NEM TUDO É DESGRAÇA

As grandes crises quebram resistências e tabus

No turbilhão das redes sociais, citou-se Einstein: “A crise é a maior bênção que pode acontecer com as pessoas e países…”. De fato, pesquisas mostram que as crises quebram resistências. O impossível torna-se possível. Na correria para evitar o caos, quebram-se barreiras e tabus. Ao fim da crise, muito voltará ao que era. Restaurantes voltarão a abrir e muitos trabalharão nos escritórios. Mas nem tudo!

TELECOMPRAS. A senha? O cartão foi recusado? Vencidas essas batalhas, serão entregues as compras? Acabaremos nos acostumando. Mas, quando terminar isso tudo, em vez de carregar as compras pela rua afora, por que não continuar recebendo em casa? Mas, vá lá, gostamos de apalpar o queijinho e tamborilar no melão.

HOME OFFICE. Sempre houve gente trabalhando em casa. Agora não é mais o desfastio de alguns. Aos trancos e barrancos, 60% da força de trabalho já opera de pijama e economiza o tempo para chegar ao escritório. Em muitos casos, nem pensar em voltar ao velho sistema. E as empresas, felizes com menos gente nos escritórios — e menos custos.

TELEMEDICINA. Faz poucos meses, as associações médicas confirmaram a proibição do atendimento a distância. Hoje, qual médico não quer cuidar do seu paciente bem de longe? E assim acontece, aumentando a produtividade do sistema, reduzindo a contaminação e abrindo portas para outras revoluções. A evidência suíça sugere 80% de resolução. Haverá força política para a burrice de voltar atrás? Contudo, será temporária a flexibilização dos protocolos de autorização de novos medicamentos. Há boas razões para voltarem a ser rigorosos e demorados.

EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA. O ensino por correspondência apareceu, na Inglaterra, em meados do século XIX. Discretamente, vai crescendo. No início do século XX, foi criado o primeiro curso superior a distância, conhecido pela sigla EAD. Porém, emblemática da suspeição, falhou a tentativa de operar a Open University de Oxford e Cambridge. Ao longo dos anos, sobrevivem ceticismo e rejeição. Mas, para quem acredita na ciência, pesquisas recentes mostraram que, em cursos comparáveis, os resultados são equivalentes. No Brasil, o Enade permite verificar que, bons ou ruins, as diferenças são pequenas entre presencial e EAD. As faculdades mais ágeis estão a pleno vapor, cada uma com sua solução. Os aplicativos de comunicação ganham clientes, aos milhões. Contudo, algumas universidades públicas estão paralisadas. É crível a desculpa de haver alunos que não têm computador? E se emprestassem os que estão parados nos laboratórios?

No ensino básico, o desafio é assustador e a pressa, muita. Secretários estaduais estão ativamente preparando-se para a via digital. Alguns já começaram. Abre-se um gigantesco leque de usos para novas tecnologias. Oxalá não percamos essa janela de possibilidades de sair do artesanato.

É inverossímil imaginar que tudo voltará ao que era antes. Muitas soluções, antes heréticas, se revelarão melhores que as velhas. Algo de bom trará a crise. Nem tudo é desgraceira. A hora é de brigar para a legislação não dar marcha a ré.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 26 DE ABRIL

O QUE FAZER QUANDO NÃO SABEMOS O QUE FAZER

… e não sabemos nós o que fazer; porém os nossos olhos estão postos em ti (2 Crônicas 20.12c).

Josafá, rei de Judá, estava encurralado por uma confederação de inimigos. A cidade de Jerusalém estava cercada por numeroso exército pronto para atacá-la. Não havia tempo para esboçar reação. A derrota esmagadora parecia iminente e inevitável. Nesse momento, Josafá teve medo e caiu de joelhos em oração e jejum. Conclamou toda a nação a buscar a Deus. Confessou não ter forças nem estratégias para enfrentar o adversário, mas reafirmou sua confiança em Deus, a despeito das circunstâncias adversas. Sua oração foi ouvida. Deus lhe disse que pelejaria pelo povo e, que em vez de empunhar armas, deveriam formar um coral para exaltá-lo. Tendo eles começado a cantar e a dar louvores em alta voz, Deus emboscou os inimigos e os desbaratou. O louvor é arma de guerra e brado de vitória. Não é o resultado, mas a causa da vitória. Devemos louvar para triunfar sobre o inimigo. Quando louvamos a Deus, ele mesmo desbarata nossos inimigos. Quando louvamos a Deus, ele mesmo luta nossas guerras. Quando louvamos a Deus, ele mesmo transforma nossas arenas de conflito em vales de bênçãos. Na jornada da vida, quando chegarmos aos momentos difíceis sem saber o que fazer, devemos louvar a Deus, e ele nos abrirá uma porta de escape e nos conduzirá pelos caminhos do triunfo. A vitória não vem pela força do nosso braço; a vitória vem de Deus, por intermédio do louvor!

GESTÃO E CARREIRA

O NEGÓCIO DA NOSTALGIA

Para conquistar os adultos com saudade da infância e da adolescência, o mercado resgata itens que fizeram sucesso em décadas passadas. Saiba quais oportunidades podem surgir com esse movimento

“Klift-kloft-still, a porta se abriu!” Foi com a famosa frase que o boneco porteiro do Castelo Rá-Tim­Bum recepcionou os mais de 460.000 visitantes que passaram pela exposição do programa no Museu da Imagem e do Som (MIS), em 2014) em São Paulo. A mostra sobre a série infantil que narrava as aventuras de Pedro (Luciano Amaral), Biba (Cinthya Rachel) e Zequinha (Fredy Allan) junto com o garoto de mais de 300 anos) Nino (Cássio Scapin), foi um fenômeno e fez milhares de pessoas passar horas em filas que dobravam quarteirões. Por causa do alto volume de público, o MIS foi obrigado a ampliar os horários de atendimento e a disponibilizar a compra antecipada de ingressos online. O êxito da exposição foi tanto que, apenas três anos depois, ela foi reexibida no Museu da América Latina, também em São Paulo, recebendo outras 860.000 pessoas. Os números expressivos da mostra sobre o Castelo Rá-Tim-Bum são exemplos de uma tendência que invadiu diversos segmentos: o resgate ou o relançamento de produtos que foram sucesso em décadas passadas. Em 2019, clássicos como MIB: Homens de Preto, O Rei Leão e O Exterminador do Futuro ocuparam as telas dos cinemas e nos levaram de volta para os anos 80 e 90. Artistas como Sandy e Júnior, Backstreet Boys e Spice Girls retornaram aos palcos e arrebataram multidões. E programas como She-Ra e Perdidos no Espaço estrearam, vejam só, nas plataformas de streaming. O movimento de reviver o passado, entretanto, não é uma ferramenta nova do mercado, mas tem relação coma geração que hoje é economicamente ativa – os chamados millennials (nascidos entre 1982 e meados de 1990). “E assim que a indústria de marketing determina o que deve voltar ou não, de acordo com as mudanças de gerações”, afirma Helder Haddad, professor de publicidade e propaganda na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).

Segundo Juliana Breschigliari, psicoterapeuta e mestre em desenvolvimento humano pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, ter sensibilidade para entender o que vai tocar (ou não) os adultos de hoje é a chave para os negócios baseados em nostalgia. “É preciso saber explorar os pontos que levam as pessoas a querer retomar as lembranças do que viveram há 20, 30 anos”, afirma.

MEMÓRIA AFETIVA

A produtora Caselúdico, responsável pelas cenografias da exposição Castelo Rá-Tim -Bum, soube aproveitar esse movimento. Criada em 2009 pelos sócios Bruno Ogura, Eduardo Tranquilini, Marcelo Jackow e Claudio Guimarães, durante cinco anos a empresa se especializou em ambientar eventos corporativos, como lançamentos de produtos, estandes de vendas e feiras. Contudo, o foco do negócio mudou em 2014, quando foram contratados pelo MIS para produzir a mostra do cantor David Bowie, morto em 2016, que teve seu auge nos anos 70 e 80. “Já éramos conhecidos pela cenografia de outros projetos grandes, mas todos voltados para a área empresarial, não cultural”, afirma Marcelo.

A exposição de Bowie durou 71 dias e recebeu cerca de 80.000 pessoas – o que fez a empresa ganhar destaque no segmento. Meses depois, quando a Fundação Padre Anchieta, mantenedora da TV Cultura e dona dos direitos autorais do Castelo Rá-Tim -Bum, abriu edital para a concessão da exposição sobre o programa, a Caselúdico conquistou o projeto. Para montar os dez ambientes, reproduzidos em detalhes, a companhia levou cerca de oito meses e Marcelo assistiu a todos os 90 episódios da série. “É na nostalgia que conseguimos acertar em cheio as pessoas, já que elas se lembram dos temas com emoção. Para isso, entretanto, é preciso muito estudo de acervo e do público para reproduzir experiências fiéis”, diz Marcelo. Com o sucesso, a produtora dominou o mercado de mostras sobre temas que mexem com a memória afetiva do público. Além de Castelo Rá-Ti m-Bum, a Caselúdico produziu as exposições Quadrinhos (2019), que recebeu 120.000 pessoas, Mickey 90 Anos (2019), por onde passaram 110.000 visitantes, e O Mundo de Tim Burton, (2016), com público de 260.000 pessoas. Atualmente, está em exibição com Batman 80, no Memorial da América Latina, que até dezembro já havia contado com aproximadamente 90.000 visitantes. Embora a produtora não tenha deixado de lado o ramo corporativo, Marcelo admite que agora o foco são as exposições, que correspondem a mais de 55% do faturamento anual da empresa. “A nostalgia é o que tem feito nosso sucesso. Por isso tratamos cada tema com carinho”, diz Marcelo. Outro profissional que pegou carona no revival do programa da TV Cultura foi o jornalista Bruno Capelas, de 27 anos. Cinco anos depois de realizar seu trabalho de conclusão de curso sobre o Castelo Rá-Tim-Bum, em 2014, Bruno conseguiu publicar um livro sobre o assunto. Batizada de Raios e Trovões: a História do Fenômeno Castelo Rá-Tim-Bum (Summus, 79,80 reais), a obra chegou às livrarias em dezembro de 2019 com tiragem de 3.000 exemplares. E uma nova tiragem estava prevista para janeiro de 2020. “Senti que precisava compartilhar meu trabalho com todos os fãs que, assim como eu, estavam envolvidos pelas lembranças do programa”, afirma.

SAUDADES DO QUE NÃO VIVI

Mas nem sempre a nostalgia foi encarada com um sorriso nos lábios. Quando surgiu, o termo tinha uma conotação pesada. Quem o criou, em 1688, foi o médico suíço Johannes Hoffer. Ele estudava os sintomas psicológicos dos soldados de guerra e empregou a palavra “nostalgia” para descrever a saudade que os militares sentiam de casa e suas possíveis consequências para a saúde mental. No limite, o vocábulo era usado para designar desordens psíquicas, e desse modo permaneceu através dos séculos. Porém, desde o início dos anos 2000, uma série de estudos do professor de psicologia Constantine Sedikides, da Universidade de Southampton, na Inglaterra, mostrou que, na verdade, a nostalgia se trata de um sentimento universal, experimentado desde a infância, e que nos ajuda a neutralizar emoções negativas. Na prática, isso quer dizer que, quando rememoramos momentos felizes do passado, nos sentimos mais preparados para lidar com as adversidades do presente e do futuro.

Em tempos de excesso de informações e de transformações aceleradas por causa da tecnologia, o sentimento de segurança que a nostalgia traz nunca foi tão útil – e com potencial para ser explorado por publicitários e empreendedores. Esse movimento, inclusive, foi batizado pelo guru do marketing e inovação Rohit Bhargava como “RetroTrust”. O especialista, que desde 2014 publica, como ele mesmo diz, “tendências não óbvias nos negócios”, incluiu o conceito em sua lista de projeções para 2019. “Quando olhamos para consumidores adotando videogames e brinquedos retrô, relançando programas de entretenimento antigos ou produtos artesanais, fica claro que estamos gravitando em direção a produtos com uma história ou com os quais tivemos um envolvimento. O passado que conhecemos é seguro. A RetroTrust está crescendo porque confiar em produtos que reconhecemos ou com os quais temos experiência anterior nos ajuda a tomar decisões sobre em que prestar atenção ou o que comprar”, escreveu Rohit no livro Non-Obvious 2019 (sem edição em português).

A necessidade de resgatar itens que foram lançados mesmo antes de nascermos também tem a ver com a vontade do ser humano em se conectar com a história. “Assim como queremos deixar nossa marca no mundo, também gostaríamos de resgatar o que foi vivido em outra época”, afirma Juliana, da USP.

Isso pode explicar, por exemplo, por que produtos como máquinas de escrever e discos de vinil estão em alta mesmo entre os jovens. No caso dos vinis, esse resgate foi responsável, inclusive, por reaquecer uma indústria praticamente extinta.

Criado há mais de 60 anos, o auge dos discos foi entre os anos 70 e 80 e durou até o surgimento do CD, em 1990, quando as vendas de LPs caíram vertiginosamente. Entretanto, com a onda retrô, a busca pelos bolachões voltou a crescer. De acordo com a Federação Internacional da Indústria Fonográfica, no mundo os vinis têm apresentado crescimento de 6% ao ano desde 2006. Em 2018, esses produtos já correspondiam a 3,6% do mercado fonográfico mundial, representando cerca de 687,6 milhões de dólares vendidos.

O potencial de negócio nesse túnel do tempo foi percebido pelos sócios Márcio Sartorello e Carlos Rodrigues, da Casa Elefante, mistura de café e loja no centro de São Paulo. “Os fãs do vinil sempre foram muito fiéis, com colecionadores que possuíam conhecimento profundo sobre os itens. Entretanto, o que mudou foi o interesse crescente do público mais jovem”, afirma Márcio. Mas, para atrair esse novo público, só os vinis não bastavam. Por isso, em 2015 os sócios investiram 70.000 reais para criar um local que unisse café, discos e brechó. “Nos demos conta de que precisávamos diversificar para alcançar os dois públicos. Agora as pessoas nos buscam pelo ambiente retrô, pelos produtos e pela troca de conhecimento que permite descobrir coisas novas”, diz Márcio. Hoje, a Casa Elefante fatura aproximadamente 120.000 reais por ano por meio do brechó, do aluguel do espaço para saraus, além de vender aproximadamente 180 itens por mês.

O VELHO E O NOVO

Outra empresa que está apostando em tendências do passado para continuar relevante é a fabricante de brinquedos Estrela. A companhia, criada em 1937, tem no portfólio atual mais de 30 itens que foram lançados originalmente antes dos anos 2000 – e que fizeram parte da infância de muitos adultos que estão hoje na casa dos 30 e 40 anos.

E esse pessoal adora um revival. “Recebemos mais de 1.000 ligações por mês em nosso serviço de atendimento ao cliente e cerca de 15% são referentes a sugestões de relançamentos de brinquedos”, afirma Aires José Leal Fernandes, diretor de marketing da marca. Por isso, clássicos como Pogobol (1987), Ferrorama (1979) e os bonecos Topo Gigio (1960) e Falcon (1977) voltaram às prateleiras das lojas, para felicidade dos saudosos.

De acordo com Aires, de cinco anos para cá a procura pelos brinquedos antigos tem aumentado. Para ele, isso se deve ao fato de que a geração que era criança no auge do sucesso dos produtos (e cuja, família nem sempre podia dar os brinquedos de presente) agora tem poder aquisitivo para comprá-los. A teoria é compartilhada por Juliana, da USP. “Quando crianças, não temos controle financeiro do que consumimos, e os pais podem se recusar a comprar o que queremos. Quando crescemos, é o momento de realizar esses sonhos de infância”, afirma a psicoterapeuta.

Atualmente, o relançamento de brinquedos representa de 15% a 20% do faturamento da Estrela, que foi de 174,4 milhões de reais em 2018. E, para que os objetos não fiquem restritos aos adultos e mantenham um apelo com as crianças de hoje, a fabricante tem incrementado as versões originais – principalmente quando se trata dos jogos de tabuleiro.

Por isso, agora o Banco Imobiliário tem cartão de crédito, o Detetive tem um aplicativo que envia pistas ao celular dos jogadores e o Pula Pirata ganhou óculos de realidade aumentada. “As novas edições trabalham na convergência entre o digital e o físico para alcançar a geração atual, que vive no mundo tecnológico. Porém, o sucesso vem do aval dos pais que conheceram o tradicional”, diz Aires. No fim, não se trata de uma disputa para definir se uma época é superior a outra, mas de uma tentativa de entender como as memórias constroem o que somos hoje ou seremos amanhã. E, se essa busca render negócios lucrativos, tanto melhor para as empresas e para quem quer atuar nesse segmento.

DIRETO DO TÚNEL DO TEMPO

Os produtos de décadas passadas que foram relançados nos últimos anos

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

MAL DISFRAÇADO DE BEM

O mal assusta, afasta e, ao mesmo tempo, atrai como se fosse um feitiço, pois é poderoso, intenso, invasor e parece estar vencendo o bem. Como entender e sobreviver a relacionamentos tóxicos e destrutivos com psicopatas

O assunto do mal é muito difícil de ser abordado na nossa cultura e na nossa sociedade. O mal assusta, o mal afasta e, ao mesmo tempo, atrai como se fosse um feitiço, pois o mal é poderoso, intenso, invasor e dá a impressão de estar vencendo o bem.

A atração do mal parece algo esquisito. É sintomático que durante a Inquisição as mulheres que tivessem conhecimento de ervas e poções eram consideradas bruxas e condenadas à fogueira. Bastava um homem sonhar com uma mulher que desejava, que podia denunciá­la às autoridades dizendo-se vítima de bruxaria.

Aqui, o mal e a atração estão misturados. Ainda hoje encontramos indícios da caça às bruxas, imputando à mulher a culpa por ter sido estuprada, por exemplo, ou por sofrer violência doméstica, uma situação muito mais frequente na nossa sociedade brasileira do que gostaríamos de admitir.

As nossas batalhas diárias para sobreviver, para nos protegermos, conseguir uma subsistência digna, sermos respeitados como indivíduos únicos nos nossos direitos que deveriam ser iguais (mas não são) podem nos levar ao desânimo e à desistência. Mas o ser humano tem também uma capacidade de resiliência, uma força interna de persistir na luta, e insiste sempre em esperar por dias melhores, acre­ ditar que vencerá, que a bondade, a integridade, o respeito, a responsabilidade e o amor finalmente prevalecerão e construirão um mundo bom para todos.

No entanto, existe um tipo de criatura que parece ser humano, mas carece dessas qualidades acima citadas, e está entre nós na porcentagem entre 1% e 3%. Alguns pesquisadores chegam a 5%. Esses indivíduos trabalham pelo objetivo oposto. São a força destrutiva e cruel no meio de nós.

Costumamos cair na armadilha de um psicopata por vários motivos, os quais enumero e explico em meu livro. Entre eles: acreditamos na bondade inata em cada ser humano; não sabemos que seres como os psicopatas existem entre nós; temos a imagem hollywoodiana do serial killer e achamos que só esses são psicopatas, e estes acabam nas prisões; os psicopatas usam charme, sedução, eloquência, como ferramentas predatórias; os psicopatas usam o afeto como gancho para capturar e controlar suas vítimas; o assunto não é conhecido da maioria dos profissionais (na área da saúde, jurídica, social, educacional) que lidam com os psicopatas e suas vítimas; os psicopatas são detentores de uma capacidade extraordinária de manipular, mentir e controlar os outros.

Assumir responsabilidade pelo mal que está dentro de cada um de nós normalmente ninguém quer, ou nem vê. Por isso, projetamos a nossa agressividade, o nosso lado sombrio, destrutivo e mau, nos outros ou nas circunstâncias: “Não fui eu”. No entanto, quando essa atitude se torna constante, deve acender um alerta para quem estiver atento.

Muitos pesquisadores afirmam que psicopata já nasce psicopata. Não é produto do meio em que cresceu, pois muitos vêm de famílias bem estruturadas, amorosas. O psicopata já nasce com um cérebro incapaz de sentir emoções humanas. Num exame de PetScan, que fornece a imagem do cérebro em funcionamento, é visível a disfunção da área orbitofrontal, responsável por processar emoções como empatia, afetividade, responsabilidade, respeito, compaixão.

CRIANÇAS PSICOPATAS

Os pesquisadores costumam encontrar evidências de traços muito expressivos de transtorno de personalidade em idades precoces. Existe a polêmica de diagnóstico precoce, que pode levar a uma rotulação, exclusão social, estigmatização e a implicações jurídicas e sociais significativas.

Prefere-se considerar que o diagnóstico só pode ser feito após a adolescência. No entanto, os comportamentos desviantes nos aspectos afetivos e relacionais, que podem revelar uma psicopatia incipiente, devem ser considerados e precisam de uma abordagem ou educativa ou de contenção. Tais medidas podem reprimir ou diminuir o agravamento da criminalidade no jovem e no adulto, e/ou restringir ou até prevenir o dano social e relacional que essa criança certamente provocará ao longo de sua vida.

Como o psicopata tem medo de ser descoberto e cerceado, medidas disciplinares e de   monitoramento funcionam tanto para crianças e adolescentes como para adultos. Na Inglaterra já existe um monitoramento feito por assistência social dos indivíduos diagnosticados psicopatas, que não cometeram crimes hediondos, mas manifestaram conduta lesiva nos ambientes de trabalho e nos relacionamentos familiares e sociais.

Um programa disciplinar inegociável, com consequências claras que atingem sua gratificação, mantém a criança sob controle, já que o psicopata não aprende com o erro nem com incentivos positivos para se emendar. Tem baixa tolerância à frustração e não consegue retardar a gratificação. “Eu quero, e quero agora.” Maus-tratos e torturas em animais são sinais graves de alerta, pois, segundo estudos do FBI, na sua grande maioria (cerca de 8%), os psicopatas começam a carreira matando animais. Monitorar esses indivíduos representa uma medida preventiva de proteção não só dos animais como de toda a sociedade.

No entanto, a grande maioria não chega a praticar atos criminosos como esses. Aprende desde cedo a sutilizar suas torturas usando táticas psicológicas. Crianças psicopatas costumam ocasionar discórdia e confusão na sua família de origem, com chantagens emocionais com os irmãos, aterrorizando, explorando inclusive sexualmente, colocando o pai contra a mãe, usando máscaras diferentes para um e para o outro, a ponto de parecer que os progenitores não estejam falando da mesma criança. Há relatos de causar o divórcio do casal. Um filme que retratou de forma eficiente essa situação é Precisamos Falar sobre o Kevin. Os pais costumam entrar em desespero, pois nenhuma medida educativa normal tem efeito com essas crianças.

Um psicopata já na infância apresenta falta de noção do perigo. Não sente medo em ocasiões em que outras crianças sentiriam e acaba se metendo em situações perigosas. Essa imagem de indômito e corajoso é falsa. Quando encurrala­ do, o psicopata recua, acovardado. Adora o jogo de gato e rato.

Na escola apresenta os mesmos problemas que em casa, e costuma ser um bully. Mas atenção, nem todo bully é um psicopata, mas todo psicopata acaba fazendo bullying, pois isso lhe dá imenso prazer. Os professores saberem como identificar um possível psicopata entre seus alunos é primordial para evitar sofrimento ou situações perigosas para os outros alunos. Uma vez levantada a suspeita, recomendar aos pais ou cuidadores que busquem ajuda de um profissional que entenda do assunto, que saiba diagnosticar e indicar a conduta adequada.

É muito importante distinguir a conduta psicopática própria do ser da criança e a conduta psicopática adquirida por maus-tratos sofridos, abusos, negligência, espancamentos. Uma criança aprende a tratar os outros como ela foi tratada. Esse foi seu primeiro modelo de ser humano. Com tratamento adequado e muito amor ela poderá se curar. A criança psicopata, no entanto, não tem cura conhecida até hoje.

MULHERES PSICOPATAS

Muitos homens sofrem com mulheres traiçoeiras, dominadoras, manipuladoras, que se divertem em diminuir e humilhar seus parceiros. Aproveitam-se de seu charme e sedução sexual para manter o parceiro sob controle, fazendo-o acreditar que amam para explorar, fazê-lo trabalhar para elas e mantê­-lo no cabresto. Os homens não gostam de admitir essa situação e se escondem por trás da imagem de que amam essa mulher, ou então são tão manipulados por ela que estão cegos para a realidade.

Pois de fato amam. Mas essa mulher, com absoluta certeza, não. Cuidado, esse homem pode estar nas mãos de uma psicopata, precisa abrir os olhos o quanto antes e traçar uma rota de saída enquanto ainda tiver forças para isso. Homem, assuma o comando da sua vida. Saiba distinguir o verdadeiro amor. Junte provas, você com certeza precisará delas para se defender.

PAIS PSICOPATAS

Outra situação é o pai ou a mãe serem psicopatas. No meu livro há um relato de um menino que cresceu num lar em que a mãe perversa controlava toda a família. O pai não via como sair da situação, e acabou morrendo cedo. O menino saiu de casa e construiu sua vida, mas até hoje é assolado por essa família de origem. Pois além da mãe, a avó era psicopata e o irmão também é.

Há muitas histórias assim. Uma mãe psicopata deixa uma marca no filho para a vida inteira. Aquela que deveria proteger e nutrir a criança em formação não tem interesse algum em fazer isso, e usa a criança para explorar o parceiro, extorquir dinheiro, divertir-se com o sofrimento que causa nele maltratando o filho. Isso tudo é possível porque uma mãe psicopata não tem vínculo afetivo com o filho nem com ninguém.

A justiça precisa urgentemente reconhecer esses casos e imediatamente tirar das garras dessa mãe essa criança, que corre perigo inclusive de vida. Considerações normais em processos de disputa pela guarda de um filho não se aplicam de jeito algum a um caso em que um dos progenitores é psicopata. Não vamos esperar essa criança ser gravemente lesada para agir, não é?

Portanto, advogados, quando receberem um caso no mínimo suspeito de um dos pais ser psicopata, investiguem. Prestem atenção naquele pai ou naquela mãe que parece perfeita, bem­ educada, amorosa e dedicada, e o outro confuso e desequilibrado, pois o primeiro pode ser exatamente o pai ou a mãe psicopata fingindo ser o que não é. Uma psicopata interessada em ganhar a causa é capaz de apresentar provas falsificadas, mentir, fazer-se de vítima, convencer pessoas a darem testemunhos manipulados por ela, aterrorizar o filho para falar a favor dela, enganar o advogado e tentar ludibriar até o Juiz.

A justiça pode incorrer no equívoco de afastar a criança justamente do progenitor verdadeiramente amoroso e psiquicamente saudável, capaz de dar-lhe um lar. Na guarda compartilhada a criança estará vivendo numa corda bamba, exposta a manipulações, jogos e distorções de sua saúde psíquica e emocional. No caso de ganhar a guarda, acontece amiúde o progenitor psicopata instigar o filho contra o outro progenitor, chegando a isolá-lo, a ponto de o filho ficar anos e anos sem ter contato com esse progenitor.

Há casos em que após anos de afastamento, agora o jovem obtém a liberdade de decidir e vai procurar o progenitor perdido, para resgatar o relacionamento que lhe foi negado. Essa reconstrução nem sempre é bem-sucedida, pois o estrago pode ter sido bem profundo e irreparável. Essa situação pode ter adoecido o progenitor lesado, injustiçado e profundamente entristecido.

Também há situações em que o filho sofreu muito, pois sabia o tempo todo quem era quem entre os pais, e mal via a hora de chegar à maioridade para escapar do jugo do psicopata. O progenitor normal precisa tomar o seu caso em suas próprias mãos, porque só ele sabe realmente quem o outro é; usar todos os recursos judiciários disponíveis; não aceitar ser desacreditado. Já assisti ao desespero da mãe ou do pai que não consegue mostrar às autoridades a realidade.

Um pai psicopata costuma ser autoritário, cruel e aterrorizante, a começar com a esposa, que mantém refém do casamento. Ela pode depender dele para sobreviver, assim como os filhos, e fica dentro do casamento por não ver saída, aceitando o inaceitável, justificando as atitudes do marido, imaginando que assim não corre perigo. Como o psicopata não tem vínculo afetivo com ninguém, pode manter a situação familiar para oferecer à sociedade uma imagem de respeitabilidade, enquanto na intimidade a situação é outra.

Pode ter várias famílias e uma não saber da existência da outra. Há casos em que o psicopata é o padrasto, uma situação bem mais perigosa, pois costuma atacar sexualmente a filha da esposa, e ainda a obriga, sob ameaças, a manter segredo do ocorrido. Muitas vezes acontece que essa filha não tem a quem recorrer, nem mesmo à mãe, que prefere não acreditar na história dela. A família tampouco confia devido à fachada de bondade e respeitabilidade que o padrasto apresenta.

Uma mãe ou um pai psicopata podem estabelecer tal terrorismo numa família, fazendo dos filhos seus serviçais, sem direito às suas vidas nem a dedicação ao seu crescimento, que aborta qualquer desenvolvimento normal ao qual um ser humano tem direito. Os direitos da criança e do adolescente estão sendo violados diariamente de forma oculta entre quatro paredes e a justiça raramente vê e não tem como interferir. Se o assunto da psicopatia for de conhecimento público, os vizinhos, os professores podem notar sinais suspeitos e dar o alerta.

Por isso a necessidade urgente de formar redes de divulgação da informação no país inteiro, capacitar profissionais na área da saúde, na área jurídica e na educação, agir de forma a prevenir novas vítimas e a ajudar as vítimas existentes, que são em número espantoso, a reconquistar a integridade psíquica, física e financeira.

RELAÇÃO ENTRE BULLYING E TRAÇOS DE PSICOPATIA EM ADOLESCENTES

Escala Multidimensional Peer Victimization Scale; Inventário de Psicopatia para a Adolescência – YPL. Amostra: 428 adolescentes, entre 12 e 17 anos. Escolas de ensino regular: 342; profissional: 86. Gênero feminino: 230; gênero masculino: 192. Bullying verbal: 36,7%. Vítimas físicas sistemáticas: rapazes = 17,7%. Prevalência de vitimização física = 14 a 16 anos de idade = 15,5% e 16,4%. Menor prevalência: 12 anos de idade = 9,4%. Ensino regular: 14,6%; ensino profissional: 12,8%. Proporção de agressores: superior no sexo masculino (agressão física, social, verbal e ataque à propriedade). Entre o grandioso manipulativo e o frio não emocional: pontuação mais elevada para os indivíduos apenas agressores, com maiores traços de psicopatia. Maior média no total dos apenas agressores, seguido por indivíduos vítimas e agressores simultaneamente.

MAPA DO GRAU DE PSICOPATIA DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES

Já está traduzido para a língua portuguesa do Brasil; o PCL, que é um instrumento de avaliação da psicopatia de crianças e adolescentes. Dados importantes revelados: histórico precoce de delírios mais graves e repetitivos apresenta pontuações mais elevadas; meninos apresentam mais reincidência criminal, violenta ou não do que as meninas. Outros estudos utilizando WISC – Escola de Inteligência Wechsler para Crianças evidenciaram limitações com o significado emocional das palavras, visão de conjunto, flexibilização de estratégias, percepção da conexão entre elementos e proporções. A técnica de Rorschach apresentou vazio de respostas de agressão, ausência de vínculos, alta taxa de egocentrismo, maior grau de grandiosidade e menos taxa de ansiedade, o que leva à desvalorização dos afetos alheios e à exploração emocional. Como traços de psicopatia podem ser confundidos com outros transtornos comuns a essa faixa etária, os autores reafirmam que a essência da psicopatia se manifesta nos aspectos afetivos e interpessoais muito mais do que nos comportamentos transgressores.

NA TELONA

Um dos filmes que retratam bem a questão do psicopata é Precisamos Falar sobre o Kevin. Conta a história de Eva (Tilda Swinton) que mora sozinha e teve sua casa e carro pintados de vermelho. Ela tenta recomeçar a vida com um novo emprego e vive temerosa. O motivo vem da época em que era casada com Franklin (John C Reilly) com quem teve dois filhos Kevin (Jasper Newell/Ezra Miller) e Lucy (Ursula Parker) Seu relacionamento com o primogênito Kevin, sempre foi complicado. Com o tempo a situação foi se agravando e Eva jamais imaginaria o que ele seria capaz de fazer

OUTROS OLHARES

O TRABALHO PELA ESPERANÇA

O abnegado esforço de uma série de brasileiros, voluntários e profissionais, que estão ajudando na travessia da tormenta

opção própria ou dever profissional, há um enorme e forte cordão de brasileiros que atuam solidariamente no corpo a corpo, dando parte de seu tempo e de sua alma no combate ao coronavírus. Eles salvam vidas ao dar de comer aos pobres, ao abrir um sorriso aos fregueses no fim das compras em um supermercado ou, como médicos e profissionais da saúde de outros setores, ao socorrerem os doentes. Todos os dias, dão o seu melhor para que, no fim, o turbilhão de emoções possa, em algum momento, ser acalentado e tenha o seu vazio preenchido. Nunca foi tão atual o revolucionário verso do saudoso João Cabral de Melo Neto: “Um galo sozinho não tece uma manhã: ele precisará sempre de outros galos. De um apanhe que apanhe esse grito que ele e o lance a outro (…)”.

São onze horas da manhã de uma quarta-feira ensolarada. Assim que os quatro carros entram na Praça Ramos e estacionam na lateral do Theatro Municipal, no centro velho de São Paulo, forma-se uma fila que chega a virar a esquina. “Maluco manda bem na cozinha, aquele careca ali”, solta Emerson. O “careca ali” é Henrique Fogaça, chefe de cozinha e um dos proprietários do sofisticado restaurante Jamile. Há 20 dias, quando a pandemia ganhou força no Brasil, uma ideia veio à cabeça dos donos. “Os caras na rua vão morrer de fome”, diz Anuar Tacach Filho, um dos sócios. Quando as 200 marmitas começam a ser distribuídas, os que aguardam pela comida estão descalços, com as mãos sujas e com os cobertores nos pescoços. Mas há um sorriso nos lábios. “Vamos bater uma xepa?”, grita Fogaça, anunciando o início da distribuição do almoço. Ao redor, o centro está vazio. E o silêncio ensurdecedor chega a pulsar: quem sempre esteve à margem, agora está em um vazio completo.

Aos poucos, as embalagens são abertas e a fome acalmada. O prato tem macarrão, legumes, carne com molho pesto e de tomate e até uma generosa fatia de queijo burrata. Ivanildo Santos opina: “Essa comida está ótima”. Antes da refeição chegar ali, uma equipe de dez pessoas trabalha cotidianamente. Bruno Plisson Petri, chef de cozinha do Jamile, comanda a produção: “Às vezes a gente chega em casa preocupado, mas a satisfação alivia”. O projeto ganhou forma e nome, “Marmitas do Bem”, depois da divulgação em redes sociais.

São necessários poucos minutos de caminhada da Praça Ramos até uma outra conhecida praça de São Paulo, dessa vez, a do Patriarca. Ali, sete pessoas em situação de rua dormiam no chão e o estômago parecia roncar mais forte quando perceberam a pouca movimentação ao redor. Para completar, a barraca onde eles dormiam queimou e foi aí que Erica Matusita entrou em cena. Já habituada com o trabalho voluntário desde 2016, quando fundou a ONG Fogão na Rua. Assim que a pandemia chegou, ela entendeu que não poderia abandonar os mais necessitados. Praticamente adotou esse grupo de pessoas — formado por seis homens e uma mulher. “O que eu faço é uma gota no oceano”, diz ela, que, em cada ação mensal, distribui 400 kits com uma refeição completa, garrafas de água, bolachas, produtos de higiene pessoal, álcool em gel e máscara. Sem a ajuda o grupo tinha maior medo: dormir de estômago vazio e acordar sem a possibilidade de poder pedir um café e um pão para ninguém, devido à quarentena.

PIZZAS PARA OS MÉDICOS E OS POBRES

É aos gritos que Paulo Roberto Faria tenta organizar a multidão formada na frente da Companhia Luz do Faroeste, localizada no bairro paulistano da Luz. Ele, que comanda o teatro há vinte anos, não conseguiu ficar de braços cruzados quando viu os moradores da região implorando pelo mínimo: “Montamos um programa chamado Fome Zero Luz e vamos distribuir produtos de necessidades básicas para mais de mil famílias”. Sentada na calçada em frente ao teatro, Neusa Isabel segura a mão do filho pequeno e conta que, depois da doação, a última refeição do dia está resolvida: será arroz, feijão e ovo. A movimentação do trabalho voluntário no combate à pandemia acontece em território nacional. Só a Central Única de Favelas mobilizou vinte e quatro estados brasileiros. Um impacto que seguirá no presente, e continuará no futuro.

Um dos restaurantes mais tradicionais de São Paulo, o Jardim Di Napoli, localizado no bairro nobre de Higienópolis, também aderiu ao voluntariado, mas voltou o olhar para os profissionais da linha de frente. Juntos, os sócios e familiares, Chico, Ana e Rosana Buonerba organizaram uma distribuição de pizzas, três vezes por semana para médicos e pessoas em situação de rua. “Hoje em dia, estou vendo uma mobilização enorme não só de indivíduos, como de muitas empresas e instituições financeiras que estão ajudando o país”, diz Chico. O Banco Itaú Unibanco, por exemplo, está nessa lista. A Instituição doou R$ 1 bilhão para potencializar o combate à doença. O valor será revertido em equipamentos hospitalares, produção de remédios e materiais de proteção, como máscaras e luvas. “Não basta ter só dinheiro, é importante conseguir alocá-lo”, disse Candido Botelho Bracher, presidente do banco. Além disso, o Bradesco também se uniu à causa, ajudando na importação de testes rápidos e monitores de UTI.

Os garis, em constante movimento para a retirada do lixo das calçadas, não deixam o distanciamento social silenciá-los. Enquanto o caminhão de lixo passa a voz dos trabalhadores se sobressai e um pouco de agrado entra em nossos lares. “Está passando o lixeiro! Bom dia! Bom dia! Bom dia!”, dizem em coro. Vez ou outra, as pessoas deixam o sofá e correm para os portões, a fim de estabelecerem uma relação de cumplicidade: engordam um pouco o salário dos responsáveis pela limpeza da cidade. São coveiros, médicos, enfermeiros, lixeiros, caixas de supermercado, profissionais dos Correios, farmacêuticos, cozinheiros, entre outros, aqueles que por obrigação profissional fazem, diariamente, a cidade girar.

“EU ME VI EM UM FILME DE FICÇÃO”

Na emoção de Nicolle Queiroz, médica cardiologista que há oito anos trabalha na Unidade de Terapia Intensiva do Hospital São Luiz, em São Paulo, atuar em um desses causa uma explosão de sentimentos. Quando a Covid-19 chegou ao Brasil, nem hesitou em estar no front: “Uma coisa é ver a morte do ponto de vista matemático, mas eu sou uma pessoa que não vive de números. Eu vivo de emoção”. Ela perde algumas horas de sono para maquiar o rosto: uma maneira dos doentes perceberem que alguém se arruma para eles. Um trabalho muito além do que é previsto por qualquer protocolo médico.

Após doze horas de plantão, também na UTI do Hospital São Luiz, Antônio Caetano Junior exibe em sua fisionomia bastante cansaço, que não apaga o constante no sorriso. “De repente eu me vi em um filme de ficção científica, mas no filme o final é sempre legal. Agora, na vida, não temos o controle”, diz o enfermeiro. Quando o assunto é perder aqueles a que mais se ama, o enfermeiro Antônio é sincero e diz que não está preparado. Na verdade, não é só ele. Há hoje no País toda uma população amedrontada — e, pode até ser, que do ponto de vista psicanalítico, ser voluntário ou seguir atuando na indispensável área da saúde alivie tal medo. Isso não importa; importa, sim, o que eles fazem e nutrem de empatia, diminuindo o desconforto e presenteando com esperança aqueles que dela precisam.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 25 DE ABRIL

AMANHÃ O SENHOR FARÁ MARAVILHAS NO MEIO DE VÓS

… Santificai-vos, porque amanhã o SENHOR fará maravilhas no meio de vós (Josué 3.5b).

O povo de Israel acabara de entrar na terra prometida. O deserto havia ficado para trás, mas ainda havia inimigos à frente. Diante deles estavam cidades fortificadas e gigantes experimentados na guerra. Não lograriam êxito senão por intermédio de uma ação sobrenatural de Deus. Então, o Senhor lhes diz: Santificai-vos, porque amanhã o SENHOR fará maravilhas no meio de vós. Este texto nos ensina três verdades:

1) A SANTIDADE É A CAUSA DA VITÓRIA. O pecado levou a geração que saiu do Egito a perecer no deserto, mas a santificação levaria a nova geração a conquistar a terra prometida. Quando nos consagramos a Deus, ele toma em suas mãos a nossa causa. A vitória vem de Deus!

2) A SANTIDADE precede a vitória. Primeiro o povo se santifica, depois vem a vitória. Primeiro, colocamos nossa vida no altar, depois Deus se manifesta em nosso favor.

3) A SANTIDADE ABRE O CAMINHO PARA AS MARAVILHAS DIVINAS. Se o pecado provoca a ira de Deus, a santidade abre o caminho para sua intervenção sobrenatural. Quando buscamos a Deus e santificamos nossa vida, os céus se manifestam em nosso favor. Deus desalojou os adversários e conduziu seu povo à terra da promessa. Deus lhes deu fartura e os fez prosperar. É assim ainda hoje. Se quisermos ver as maravilhas divinas, precisaremos buscar a Deus e santificar nossa vida. A santidade é o portal das maravilhas divinas!

GESTÃO E CARREIRA

 SEM TRABALHO INFANTIL

É difícil encontrar alguém que não goste de chocolate. Mas há um problema por trás de sua produção que muita gente não imagina. A principal matéria-prima, o cacau é produzida por centenas de milhares de pequenas fazendas familiares e, em certos casos, envolve trabalho infantil ou de adultos com salários extremamente baixos, que em nada contribuem para a dignidade de quem planta, rega e colhe o fruto. Em 2012, a Hershey’s se comprometeu a comprar 100% de cacau certificado até 2020 e agora a companhia anuncia ter atingido sua meta. Os selos de certificação, emitidos pela Rainforest/UTZ, já podem ser vistos nas embalagens de alguns chocolates e em breve estarão em toda a linha de produtos. “É uma certificação que garante a total sustentabilidade, seja ambiental, ao evitar desmatamentos, seja social, ao respeitar aqueles que trabalham na cadeia de produção. Somos a primeira companhia global a atingir a meta de comprar 100% de cacau certificado”, diz Marcel Sacco, diretor geral da Hershey’s no Brasil e América Latina. O executivo afirma que a meta agora é comprar apenas açúcar certificado até o fim do ano.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

É MENINO OU MENINA?

 Diferenciação entre o padrão sexual feminino ou masculino ocorre entre 3° e 4° mês de gestação, quando a testosterona, ao alcançar o cérebro, masculiniza o embrião

Ao se perguntar a uma grávida nos dias atuais: “é menino ou menina”? é comum ouvir uma resposta direta, que não deixa dúvidas, já que hoje os exames de neuroimagem e clínicos superam em muito tudo que foi sonhado 30 ou 40 anos atrás, quando essas mesmas gestantes estavam para nascer e os recursos para se saber com certeza o sexo do bebê eram restritos. A sociedade mudou rapidamente em inúmeros aspectos. As informações se tornaram muito mais acessíveis com a chegada da tecnologia e da internet, enquanto os conhecimentos científicos estão mais próximos de uma boa parcela da população. Isso trouxe a compreensão de fatos que antes eram tabus ou ainda não estavam devidamente esclarecidos. Entre esses assuntos está a reflexão sobre questões ligadas ao sexo.

O gênero é uma área de diferenciação cerebral, biológica e complexa. Vários estudiosos comprovaram as diferenças no cérebro dos homens e das mulheres. Alguns pontos são:

1) há uma variação no tamanho do cérebro feminino e masculino;

2) os esquemas de desenvolvimento variam nos meninos e meninas;

3) há diferenças nas conexões entre os hemisférios dos cérebros;

4) existem diferenças nas áreas linguísticas do cérebro.

Mas também importantes são as questões relativas à sexualidade, sempre muito delicadas pela complexidade que apresentam não apenas para a pessoa, mas para a maneira como esta convive na sociedade.

Homens e mulheres são indiscutivelmente iguais diante da lei, dos seus direitos e obrigações jurídicas, sociais, éticas. As possibilidades de aquisição de conhecimentos, de formação acadêmica e de sucesso na vida profissional já vêm se confirmando sobejamente na vida prática há décadas, e cada vez se ampliam mais, portanto, indiscutivelmente, homens e mulheres ainda que possuam diferenças quanto a preferências e condutas emocionais, por exemplo, os aspectos referentes a sua capacidade intelectual e cognitiva são iguais.

Mas há diferenças marcantes e complexas quando se fala de sexo genético da criança. Sabe-se, por exemplo, que é na concepção do embrião que isso se decide geneticamente, ou seja, que se vai determinar o desenvolvimento gonodal: se a dotação cromossômica for XX, o embrião desenvolverá ovários. Se for XY desenvolverá testículos. A princípio, simples de se entender.

A diferenciação entre o padrão sexual feminino ou masculino ocorre em relação ao cérebro. Por exemplo, é o hormônio sexual testosterona (aliás, o principal hormônio testicular) que determina a diferenciação do padrão cerebral masculino. Isso ocorre entre 3° e 4° mês de gestação, quando o testículo fabrica e lança no sangue uma quantidade marcante de testosterona, que, ao alcançar o cérebro, masculiniza o embrião.

Assim, resumidamente, é o sexo genético que dirige a formação de ovários ou testículos, e em seguida a testosterona fabricada por estes vai configurar sexualmente o cérebro e influir no comportamento, ou seja, nos desejos e motivações. Por isso, há certa preferência dos meninos por brinquedos que reportem a brincadeiras mais agressivas e as meninas gostam frequentemente de outros tipos de brinquedos e brincadeiras, embora entenda-se que se trata de preferência e não exclusividade. Ou seja, o menino pode gostar de brincar com as bonecas da irmã, mas também de bola, de guerra, de luta. O mesmo pode ocorrer com meninas que preferem às vezes uma brincadeira com carrinhos, mas gostam muito de se enfeitar e brincar de casinha. Hoje essa diferenciação não é tão importante, já que no dia a dia as crianças veem seus pais lavando louça, trocando fraldas dos irmãozinhos e a mãe consertando torneiras, trabalhando fora etc.

Entretanto, as coisas não são assim tão simples quando se trata de sexo: existe sexo       cromossômico, sexo gonadal, sexo hormonal, sexo genital interno e eterno, sexo cerebral, identidade de gênero (psicológico) e sexo fenotípico. E como nem sempre esses aspectos corroboram entre si formando uma identidade, temos na prática uma variedade grande de possibilidades que não apenas influenciam na vida da criança e do jovem, como na sua família e na sua vida em sociedade.

Por exemplo, existe orientação sexual e identidade sexual. A orientação sexual corresponde à atração erótica por um ou outro sexo e pode ser heterossexual, homossexual ou bissexual. Mas identidade sexual é outra coisa, diz respeito à identificação psicológica com um ou o outro sexo, se estabelece antes dos 4 anos de idade e é muito resistente a mudanças.

Há muitos casos difíceis nessa delicada questão. Por exemplo, nos casos de transexualidade, quando a criança ou o jovem se sentem mulher, apesar de terem órgãos sexuais masculinos ou vice-versa. Essas identificações são complexas e podem gerar muito sofrimento, comprometendo o desenvolvimento escolar, familiar, psicológico, profissional etc.

O conhecimento científico, o combate a preconceitos e tabus, por parte dos adultos, podem ser decisivos na vida de muitas crianças.

A presença de adultos capazes de aceitar as diferenças e permitir um desenvolvimento equilibrado é o ideal em todos os casos.

MARIA IRENE MALUF – é especialista em Psicopedagogia, Educação Especial e Neuroaprendizagem. Foi presidente nacional da Associação Brasileira de Psicopedagogia – ABPp (gestão 2005/07). É autora de artigos em publicações nacionais e internacionais. Coordena curso de especialização em Neuroaprendizagem.

 irenemaluf@uol.com.br

OUTROS OLHARES

A ERA PÓS-VIAGRA

A quebra da última patente do remédio, em abril de 2020, abrirá as portas para uma nova leva de medicamentos contra a disfunção erétil

Desde o lançamento do Viagra, em 1998, a farmacêutica Pfizer acumulou cifras estratosféricas – de lá para cá, foram vendidos 3 bilhões de unidades da drágea em forma de losango destinada à disfunção erétil. No Brasil, o número chegou a 130 milhões. Nenhum medicamento, ao longo da história, teve tanto sucesso em seus três primeiros meses de vida, dadas as milagrosas e alcançadas promessas – mais até do que a aspirina e as estatinas para o controle do colesterol. Foi uma revolução comportamental e de mercado que atinge, agora, outro patamar. O mundo cor-de-rosa da pílula azul está chegando ao fim. Em abril de 2020 expira a última patente que autorizou a exploração exclusiva. O resultado será uma leva de novos tratamentos para um mercado global de 300 milhões de homens preocupados com o desempenho sexual.

“Inauguraremos, pela primeira vez desde o surgimento do Viagra, uma avenida de terapias inovadoras”, diz a psiquiatra Carmita Abdo, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade do Hospital das Clínicas. No grupo de métodos noviços há cirurgias, injeções de compostos, produtos tópicos e até choques elétricos. Um dos mais curiosos e promissores é um gel à base do veneno da aranha-armadeira, muito comum no Brasil, capaz de induzir a ereção em poucos minutos (veja o quadro abaixo). Produzido pela Universidade Federal de Minas Gerais e por técnicos da Fundação Ezequiel Dias, de Belo Horizonte, em parceria com a empresa de desenvolvimento de medicamentos Biozeus, o gel é inspirado em um mecanismo natural. A picada do aracnídeo pode provocar o priapismo, ereção involuntária e dolorosa que, quando não é tratada, se torna um atalho para a necrose do pênis. Os pesquisadores conseguiram reproduzir uma molécula com base na toxina, mas sem toxicidade.

Há um ponto comum a unir as recentes tentativas – elas driblam, ou ao menos tentam driblar, as reações indesejadas do Viagra. Agem localmente e não causam dor de cabeça, enjoo ou ondas de calor, efeitos colaterais conhecidos do remédio que nasceu como um vasodilatador para problemas cardíacos. O uso do Viagra, ressalve-se, é desaconselhado a doentes graves do coração ou do fígado e homens com pressão baixa. Outro aspecto positivo das versões que começam a aparecer: elas não precisam ser aplicadas logo antes das relações sexuais. Algumas das medicações em estudo permitem que o paciente se submeta a cuidados esporadicamente.

O alcance da pulverização de novas maneiras para combater um genuíno drama masculino pode ser ainda mais amplo que o do Viagra. Estudos recentes mostraram que em 30% dos casos de disfunção erétil o comprimido não é indicado – e é esse espaço que será ocupado. Além disso, as alternativas que não pressupõem a ingestão química podem vir a reduzir um fenômeno paralelo, evidentemente ruim: com o tempo, marmanjos saudáveis de 20 e poucos anos, no início da vida sexual, e não pessoas já de meia-idade, adotaram o santo graal anil para melhorar o desempenho na cama, no chamado uso recreativo da droga. Para essa turma, as soluções da era pós-Viagra podem ser mais adequadas. Diz Flavio Trigo, presidente da Sociedade Brasileira de Urologia de São Paulo: “Prolongar uma ereção normal à custa do remédio pode prejudicar o tecido peniano e tornar essas pessoas de fato dependentes do medicamento”.

Não haverá, contudo, apesar de todos os avanços científicos, nenhum mecanismo capaz de provocar a estrondosa revisão de comportamento acelerada pelo Viagra, com sua riqueza de aspectos positivos e negativos. Ao lidar com a ereção como quem combate uma dor de cabeça, a Pfizer deflagrou um diálogo que vivia à sombra, calado. O orgulho masculino impedia qualquer tipo de conversa sobre impotência – com as companheiras, sem dúvida, mas também com os médicos. Isso mudou, e os efeitos transbordaram. Na última década, em parte diante da real possibilidade de aplacar a disfunção sexual, homens e mulheres se sentiram autorizados a procurar novos parceiros, e o número de divórcios aumentou 126,9% no mundo todo. Estudo publicado no reputado Annals of Internal Medicine mostrou ainda que senhores na maturidade que usam remédios contra a impotência sexual como o Viagra correm mais risco de contrair doenças sexualmente transmissíveis, em comparação com os que não utilizam esses medicamentos. Nos Estados Unidos, de acordo com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças, havia, no lançamento do Viagra, três novos casos de doenças ligadas ao sexo para cada 10.000 homens acima de 40 anos. Hoje, o número é o dobro. A pílula azul, evidentemente, não pode ser responsabilizada por todas as mudanças. Mas sua influência é incontestável. Um sinônimo de liberdade que pode ser comparado àquela promovida pela pílula anticoncepcional feminina. Diz a psiquiatra Carmita Abdo: “O Viagra modificou a postura sexual masculina nos anos 2000 de modo semelhante ao que fez o contraceptivo na década de 60 com as mulheres”. Que venha a próxima revolução.

ANTES E DEPOIS DA PÍLULA AZUL

As mudanças provocadas na rotina sexual dos brasileiros de 18 a 70 anos na última década – sob a influência do Viagra

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 24 DE ABRIL

A FELICIDADE DE SERMOS CRIADOS POR DEUS

Mas agora, assim diz o SENHOR, que te criou… (Isaias 43.1a).

O centro do universo não é o homem; é Deus. O universo gira em torno de Deus, e não do homem. Encontramos a razão da nossa vida quando conhecemos a Deus. Ao longo dos séculos, várias perguntas inquietaram a alma humana: Qual é a origem da vida? De onde viemos? Quem somos? Por que estamos aqui? Para onde estamos indo? Estas são as grandes questões filosóficas que intrigam o homem. Afirmamos, com convicção, que viemos de Deus. Somos feitura de Deus. Fomos criados à imagem e semelhança de Deus. Estamos aqui para glorificarmos a Deus. Nossa vida só encontra sentido e propósito em Deus. Estamos indo para a bem-aventurança preparada por Deus. Encontramos a verdadeira felicidade pelo fato de termos sido criados por Deus para um propósito sublime. Não somos uma lasca flutuante no mar da vida. Não somos como uma folha arrebatada pelo vento. A vida tem um propósito, um propósito sublime. Viemos de Deus. Somos de Deus. Vivemos para o deleite de Deus. E voltaremos para Deus. Ele é a fonte e o destino da existência. Nele vivemos e existimos. Dele fruímos o verdadeiro sentido da vida. O sentido da própria vida eterna é conhecer a Deus e a seu Filho Jesus Cristo. Nisso consiste nossa maior e mais completa felicidade.

GESTÃO E CARREIRA

NEGÓCIO NA REDE

Aprenda as dicas de quem entende e faça da sua plataforma social uma ferramenta de empreender

Mesmo com pequena melhora no nível de desemprego – 11;6% no trimestre que fechou em outubro de 2019 – ainda existem 12,4 milhões de pessoas sem emprego no País, além de um crescente aumento nos trabalhos sem carteira assinada, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Nessa hora, a criatividade toma conta e todas as opções passam a ser cogitadas. É o caso da professora Euzinete Vieira. Hoje ela complementa renda como tutora em aulas específicas de duas universidades, e faz bolos caseiros para vender. ”Logo eu vi que não dava só para fazer boca a boca com as vendas. Agora, estou desenvolvendo uma identidade visual para as redes sociais e pensando em cadastrar em plataformas como o iFood. Com uma foto mais bonita que coloquei no Facebook, já recebi várias encomendas. Sem isso, o negócio simplesmente não anda”, conta.

É fato que o marketing digital acabou se tornando um dos investimentos mais importantes de qualquer negócio. Mas é possível ir além e fazer da rede social o próprio negócio? É o caso dos influenciadores digitais, que conseguem engajar milhares de pessoas apenas postando sobre um produto. A questão maior é por onde começar tudo isso. “Os passos são muitos, mas é essencial criar um planejamento anual com agenda de postagens, desenvolvidas por um time que tenha envolvimento real com o tema e que seja consumidor de redes sociais. É muito fácil errar e criar um perfil que mais atrapalha do que ajuda. Às vezes, é uma boa pedir um planejamento semipronto com algum influenciador de sucesso que faça consultoria”, sugere Marimoon, que, além de ser uma das pioneiras no ramo, é apresentadora de TV e já passou por programas de sucesso como Acesso MTV.

Ela começou em 2002, com uma loja on-line para vender produtos relacionados à moda e cultura japonesa. A maneira assertiva como entendeu seu público e seu espaço rendeu uma carreira de sucesso. Hoje, além de seguir com seu trabalho nas redes, está em processo de desenvolvimento de outros novos projetos, um para a televisão e sobre saúde mental e outros para a internet falando sobre viagem e tecnologia, mostrando que estar sempre um passo à frente no quesito tendências é essencial para a área. “Na época que iniciei, por ser um assunto m1uito novo, havia muitas entrevistas sobre o tema e eu virei uma referência presente nessas matérias, sendo até capa da Folha de SP e de revistas que iam de Jovens Empreendedores a Capricho. Acabei indo bem cedo para a grande mídia e saindo da bolha da internet, que na época era um universo ainda bem restrito (é ‘tudo mato’ que fala, né?), até que a MTV me contratou e aí a coisa tomou proporções ainda maiores”, lembra.

Hoje, estar no lugar certo e na hora certa não precisa ser exatamente uma coincidência. O primeiro passo é identificar uma necessidade, um problema que você acredite que possa resolver para alguém, como em qualquer novo negócio. Uma pesquisa de campo sempre é importante, para verificar se a lacuna que você observou de fato faz sentido para um público. O grande pulo é saber se resolver essa questão pelas redes sociais faz sentido,

entendendo se o seu público de fato está ali e engaja o bastante. Sabe-se, por exemplo, que fotos bem feitas de belos pratos de comida engajam bem – o que significa que você, enquanto chef de cozinha, pode ter um bom público no Instagram. Já dicas sobre videogames são um ótimo mote para criar conteúdo no YouTube, e assim por diante. Identificar o objetivo, saber onde está o público, estudar a concorrência e criar conteúdo de qualidade são mais do que dicas, são passos essenciais para um negócio on-line.

SE DANDO BEM NA REDE

O Donuts Damari é uma amostra do que pode ser feito. A loja on-line é 100% baseada no Instagram e foi criada pelas empresárias Carolina Vascen e Mariana Pavesca em 2016, quando elas perceberam que havia um gap no mercado de donuts no Brasil. “O diferencial é um item imprescindível na criação de um novo negócio em um momento em que tudo pode ser feito pela internet, ter algo que o destaque da multidão faz toda a diferença no momento de compra para o consumidor. Além disso, é importante criar uma conexão real entre cliente e marca, onde os dois fiquem do mesmo lado e não se distanciem como se fossem duas coisas opostas”, afirmam.

Nessa fase do comércio digital, elas dizem que a conexão importa como nunca antes, as pessoas que pessoalmente preferem espaço para fazer suas compras, no on-line querem proximidade – até mesmo intimidade com a marca. “Um exemplo muito legal é quando postamos stories sobre nossa produção. Algo que para nós é tão comum deixa os clientes extremamente empolgados e engajados, é como se eles se sentissem parte da empresa, e essa é a chave do sucesso”, revela o casal.

Mesmo assim, ainda há desafios na caminhada. Marimoon atenta que o tal do “fazer sucesso” nos tempos atuais acabou ficando mais complexo – seja pela demanda de concorrência, seja pelas mudanças nas próprias plataformas. “Tem o algoritmo, que é praticamente um jogo cheio de regras que mudam o tempo todo. Saber como ele funciona é um game changer. Tem alguns nichos que, se ainda inexplorados, costumam ser uma boa aposta por render muito engajamento. Às vezes, algo dá certo por que está ligado a temas do momento, mas o uso do tema sem envolvimento real pode virar um tiro no pé, como rola com o pink money (marcas que usam a temática LGBTQ+ para faturar com esse público, mas não estão realmente engajadas na causa). O que me leva à questão da veracidade, que na minha opinião é a mais importante. O público está cada vez mais esperto e consegue sacar quem é autêntico e quem é fake. Trabalhar um tema, associar-se a alguma causa, estar atrelado a questões com significado e importância reais é um diferencial que gera o respeito do público”, completa.

No fim das contas, apesar de fatores como qualidade de imagem, identidade visual bem desenvolvida, análise de público, planejamento de conteúdo e cronograma impactarem diretamente o engajamento dessas plataformas, um conteúdo vazio de personalidade pode derrubar todos os outros tópicos na hora do relatório final. Prova disso é que os micro -influenciadores – aqueles com uma média de dez mil seguidores – conseguem gerar mais conversão de resultados para uma marca do que aqueles com números de muitos dígitos. A pesquisa Influencer Marketing 2019: Benchmark Report mostrou ainda que o Instagram segue como a rede que cresce mais rápido em 2019, além de liberar cada vez mais novas atualizações que permitem um conteúdo diversificado e interativo com diferentes públicos.

Outra plataforma para ficar de olho é o Tik Tok, que permite conteúdos em vídeo e já ultrapassou o próprio Instagram e Facebook em número de downloads.

“Acredito na força dos relacionamentos. Não se vendem mais produtos e serviços. As pessoas consomem sonhos e transformações. O empreendedor precisa conhecer seu público, e a melhor maneira é se relacionando com ele. É necessário criar laços, gerar empatia, credibilidade, e o resultado dessa relação é somente positivo”, reflete a idealizadora do Bellas & Empreendedoras, projeto social de economia colaborativa realizado no bairro da Mooca, em São Paulo, Marcella Porta.

De acordo com ela, digamos que você precise comprar um vestido para ser madrinha de casamento. Pode ir ao shopping, ir à rua de lojas especializadas ou ter uma empreendedora que mora no seu bairro e, às vezes, se encontram na padaria perto de casa, aproveitam e tomam um cafezinho. Ela conta sobre sua loja de vestidos de festas, é sempre muito alegre, gentil, vocês se divertem por alguns minutos e seguem seus caminhos. “Mas de quem você vai se lembrar de consultar sobre o vestido que precisa? Esta é a fórmula do sucesso: construir relacionamentos de verdade, integridade, troca de boas energias, conhecimento e credibilidade. A realização é a consequência. As redes sociais? São as ferramentas que lhe possibilitam tomar o ‘cafezinho’ com milhares de pessoas ao mesmo tempo”, demonstra.

SUA LOJA VAI VENDER MAIS

Engajar é bom. Vender, melhor ainda. As dicas de Marimoon incluem atentar a datas e tendências (assuntos que estão pipocando nas redes e nos grupos), ter uma identidade forte, comunicar com clareza e de modo sucinto suas novidades, fazer uso das ferramentas das plataformas (enquetes, IGTV, chats e outros), responder à clientela com muita agilidade e inteligência (veja a Netflix como um bom exemplo), fazer colaborações com perfis que tenham sintonia com o empreendimento e o público-alvo. Acredito que um dos maiores segredos é agradar o seu público oferecendo algo que seja bom e útil para ele. Por exemplo, patrocinar um projeto que seja do interesse deles, apoiar uma ONG de que eles gostem, patrocinar uma web série de um influenciador que eles acompanhem, criar um evento físico”, elucida.

O instrutor de desenvolvimento de negócios na Udemy, André Bernardo de Oliveira, lembra que é uma pessoa real que está do outro lado da rede social, com anseios, medos, desejos e emoções. “Primeiro, captamos a emoção. Depois, racionalizamos a opção de compra. Dizem que o marketing bem-feito nem parece marketing. Esse é o segredo. Entreter e gerar valor. Um tiro no pé seria querer vender antes de conquistar – falar o tempo todo apenas da sua empresa e do seu produto”, conta.

As empresárias do Donuts Damari concordam, ressaltando que número de seguidores não significa número de clientes. ”É importante ter em mente que você precisa criar uma comunidade em torno do seu negócio, onde você não somente venda seu produto, mas o que ele representa. Quem é o seu cliente ideal? O que ele gosta de fazer, como ele se veste? Crie e trabalhe em cima de uma persona para que não seja mais um na multidão de marcas, e sim conhecido pela essência dela”, explicam.

Criar uma persona não é uma dica metafórica. No seu planejamento, enxergue sua marca como um personagem e coloque as características dele. É fofo? Engraçado? Sério? Quantos anos ele tem? Se ele fosse uma mistura de personalidades conhecidas, quem seriam elas? Visualizar a sua pessoa/ marca faz total diferença.

COMO COMEÇAR

Buscar referencial? é sempre um primeiro passo importante. Além disso, se possível, tenha uma equipe para auxiliar nos planejamentos diários e relatórios de análise. Ter um conteúdo guardado para emergências também é importante, para que a rotina não tenha “buracos”. “Mas a chave de quase todo sucesso on-line é a collab. Fazer parceria com perfis que tenham a ver com o seu projeto é sempre bom por gerar awareness, prestígio, agregar valores e causar mais impacto. Muitos perfis, inclusive, estão buscando parceiros para realizar coisas em conjunto – e um investimento em algo que já está meio caminho andado e que lhe dá acesso a um público que faz sentido pode ser bem mais interessante e custar mais barato do que “contratar uma agência”, acrescenta Marimoon.

Saber para quem você quer vender é outro aspecto importante do processo. A partir daí, realizar pesquisas de público e concorrência, criando uma audiência fiel para quem você consegue gerar valor com consistência e autenticidade. Escolha a rede social que mais atende a suas necessidades, lembrando que a comunicação para cada plataforma é diferente, indo de LinkedIn a Tik Tok. Você até pode reaproveitar conteúdos em cada rede, mas é preciso lapidá-los para cada situação. “Outro passo é elaborar uma estratégia de produção de conteúdo e seguir essa estratégia, formando uma audiência. Vale também separar verba para impulsionar seus melhores conteúdos todos os meses com campanhas de ADs. Isso ajuda a dar mais tração e atingir pessoas que o orgânico ainda não alcançou”, completa Oliveira.

Como qualquer negócio, é preciso equilibrar expectativa e realidade, além de fazer funcionar com estratégia e trabalho.  “Vejo muitas marcas temerosas, comprando, por exemplo, uma foto no feed e três stories dos influenciadores ao invés de se envolver ou patrocinar um projeto legal que ele já tenha embaixo do braço, pronto para funcionar. Há muita gente na internet com projetos ótimos, mas que estão engavetados por falta de orçamento. Custam mais caro do que uma sequência pequena de postagens, mas geram impacto e engajamento bem maior. Sinto que as marcas, especialmente pelo momento econômico que vivemos, têm muito receio de investir. Mas, neste momento em que todos estão na internet, vai se sobressair quem for esperto e souber investir”, comenta Marimoon.

As tendências ficam por conta de projetos com propósitos reais e úteis para a sociedade, principalmente relacionadas à sustentabilidade – sempre respeitando a veracidade do tema para os valores da empresa e tomando cuidado com temas e palavras mal colocados. Oliveira ressalta ainda que conteúdos como podcasts e audiobooks têm ganhado bastante espaço, além das buscas por voz.

“Quando começamos a Donuts Damari, pegamos R$100 e fomos ao mercado comprar os ingredientes necessários para produzir. Esse valor retornou praticamente meio milhão ao ano. Financeiramente, comece algo que não vá levar você à falência, faça testes. Se não der certo, tenta de novo e por aí vai. Qualquer negócio que você investe muito dinheiro e não sabe nem o que está fazendo não anda para a frente. Na área comercial, o que realmente importa é você investir em algo que saiba fazer e faça com vontade”, completam as sócias da marca.

FAÇA DAR CERTO

São três os pilares que auxiliam o empreendedor:

1. AGREGAR MUITO VALOR. Não adianta só postar por postar. Tem que entender realmente o que sua empresa pode entregar de melhor para ajudar as outras pessoas de forma gratuita. Sem colocar foco na intenção de venda.

2. POSTAR PERIODICAMENTE E COM CONSISTÊNCIA. Garantir volume de conteúdo, garantir que sua audiência saiba o que esperar da sua empresa.

3. QUEBRAR O PADRÃO, POSTAR CONTEÚDO DIFERENCIADO. Tem muita distração nas redes sociais. A melhor alternativa para ser visto é fazer algo bem diferente da concorrência. Ser engraçado, inusitado, apelar para o emocional.

ANOTA AÍ

•  SEJA CLARO EM RELAÇÃO AO QUE VOCÊ VENDE. Repita nos seus posts e stories sobre seu processo de compra e como funciona a logística. Não é tão simples fazer com que todo mundo entenda tudo logo de cara.

•  TENHA CONEXÃO. Seja uma marca acessível, converse com seus clientes, compartilhe seus processos.

•  PUBLIQUE BOAS FOTOS. Se você trabalha com roupas, mostre pessoas usando, se com doce, poste coberturas e recheios – transmita a essência da sua marca. Mas lembre­ se: utilizar fotos de produtos que não são seus diminui a credibilidade e pode causar problemas legais

•  SEJA GENUÍNO E VERDADEIRO. O perfil precisa inspirar confiança.                         

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

TER OU NÃO TER FILHOS, EIS A QUESTÃO

Uma decisão que depende de vários fatores e que somente as pessoas envolvidas podem avaliar se estão preparadas psicologicamente para essa tarefa

Sou procurada frequentemente por mulheres que se questionam sobre ter ou não ter filhos. Perguntam: “vale a pena?” E a única resposta que consigo dar é: “depende”. Dúbia resposta, sei disso, porém mais dúbia é a questão. Afinal, não há uma receita, não há códigos nem regras. Há o acaso e a meta que cada uma quer seguir.

Há casais que se entendem perfeitamente, e quando nasce um filho se desestruturam. Há outros que não se entendem, e ao terem filhos acabam se unindo mais.

Há casos em que os casais se entendem maravilhosamente em meio a muitos filhos, outros que constroem seus mundos em torno de um único filho como tábua de salvação. Há os que vivem intensamente a vida toda (e a dois) sem sequer questionar o fato de ter um filho.

Há os que nunca se entenderam, continuam se desentendendo diante dos filhos e criando jovens desequilibrados por uma relação familiar totalmente desestruturada. Há até mulheres que querem tanto ser mães que dispensam o ato sexual com o marido ou homem conhecido e fazem uma produção independente, às vezes até com inseminação artificial heteróloga (quando o espermatozoide utilizado é de um doador desconhecido da mulher).

Resumindo: somente a própria pessoa pode saber o que espera da vida e do filho. Aliás, essa deve ser a pergunta-chave: “o que espero da vida e do filho que eu vier a ter?” Saliento que a resposta será diferente para cada mulher que se fizer essa pergunta. Dependerá de muitos fatores que, para cada uma, terão pesos diferentes. E, em meio a essa reflexão, algumas questões devem ser frisadas.

Um comentário que sempre faço é: filho não faz companhia a ninguém. Não pode haver maior erro do que conceber um filho para “ter companhia” e, infelizmente, esse parece ser um motivo forte para muitas mulheres. É preciso entender que o filho é um ser independente que viverá em simbiose com a mãe durante seus primeiros meses e passará para outras fases a partir de um ano e meio aproximadamente (cito aproximadamente porque cada criança tem sua própria fase de amadurecimento e a idade varia).

Pois bem, é preciso ter consciência de que o filho vai amadurecer, afastando-se gradativamente e, em algum momento, buscará sua vida de forma individual, provavelmente trabalhando, tornando-se independente financeiramente, morando sozinho, alguns até mudando de cidade ou país ou se casando e passando a dedicar-se mais à sua família (seus cônjuges e filhos).

Enfim, em algum momento o filho ou filha deixará de sê-lo em período integral para assumir-se como profissional, marido/ esposa, mãe/ pai… E a tão sonhada companhia do filho passará a ser apenas uma boa lembrança. Então, ter um filho apenas para se fazer companhia é um dos piores motivos e deve ser descartado.

Os filhos, muitas vezes, seguem caminhos que não incluem os pais e é uma grande bobagem qt1erer ter um filho para ter companhia.

Outras questões precisam ser respondidas pelas interessadas em ter filhos. Quem será o pai? É alguém que eu amo e que dividirá as responsabilidades comigo? Ou é apenas alguém que vai me engravidar e deixar toda a responsabilidade comigo? Tenho o perfil ideal da mulher que faz produção independente? Saberei assumir minha decisão e lidar bem com ela para sempre? (Afinal, filho é decisão irreversível.) Estarei sempre disposta a cuidar, amparar, orientar meu filho? Tenho condições financeiras e psicológicas de assumir meu filho sozinha caso o pai falte? Ou não o assuma desde o início?

São muitas as questões e não poderia enumerar todas neste artigo. Mas o importante é que cada mulher reflita sozinha e analise seu caso isoladamente sem se deixar influenciar por nada nem por ninguém. Afinal, cada mulher é única, tem uma vivência e um entendimento particular de tudo o que já viveu e sabe (ou deveria saber) o que espera da vida, no presente e no futuro que, incluindo ou não um filho, deve ser, preferencialmente, feliz.

E essa felicidade deve estar presente e ser autêntica também às mulheres que optam em não ser mães. Há mulheres que, por diversos motivos, escolhem não ter filhos e acabam sofrendo pressão da sociedade e, em especial, da família, por parecer estranho que uma mulher não queira ser mãe. Porém, a mulher moderna tem diversas funções como profissional, inclusive em cargos de chefia, busca atividades de lazer, tem um cotidiano bem diferente das mulheres que, no passado, eram criadas apenas para casar e ter filhos. Natural que, em tempos atuais, essa mulher queira se realizar por si mesma.

Aliás, tendo ou não filhos, a realização ideal é a que vem por si mesma, sem depender de nenhum fator externo. Essa é a verdadeira realização.

LOU DE OLIVIER – é multiterapeuta, psicopedagoga, psicoterapeuta, especialista em Medicina Comportamental. Criadora do método Multiterapia do Equilíbrio Total/ Universal, defensora da dislexia adquirida no Brasil e exterior. Dramaturga e escritora, é autora de 10 livros didáticos, diversos romances, 20 e-books, diversos artigos científicos internacionais. Portal Lou de Olivier: http://www.loudeolivier.com

OUTROS OLHARES

MÁSCARAS EM FALTA

Medo do coronavírus faz com que máscaras hospitalares desapareçam das prateleiras. Apesar disso, o uso não garante a proteção

Em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Brasília e até no Japão, conforme mais casos de coronavírus vão sendo confirmados, a procura por máscaras hospitalares aumenta. Em todos esses lugares, há relatos de dificuldade para encontrar estes itens de proteção. Mesmo na China, país que concentra a maior parte dos casos, fabricantes recorrem a distribuidores internacionais para suprir a demanda pelo equipamento de segurança – em falta também por lá.

A máscara é comumente associada com o isolamento do organismo do mundo exterior, e usá-la é uma das primeiras atitudes de quem tem o receio de se contaminar com uma doença que é transmitida pelo ar. Mesmo no Brasil, não tem sido difícil encontrar alguém usando o equipamento na rua, algo que deixa quem está ao redor em estado de alerta.

FUNCIONA MESMO?

A professora da Unifesp e consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia Nancy Bellei afirma que ainda não há estudos comparando a eficácia da máscara na prevenção ao coronavírus, por causa das particularidades do microorganismo, mas que enquanto não se sabe, usá-la faz parte das precauções padrão. “A máscara é um passo a mais nas precauções, que envolvem lavar sempre as mãos. Só usar a máscara e não fazer as outras coisas não vai te proteger”, afirma, mencionando manter a distância de pessoas desconhecidas como outra medida necessária. Nesse sentido, a eficácia da máscara no transporte público não é das maiores, visto que no contexto brasileiro ela envolve aglomeração de pessoas e não é possível lavar as mãos após contato com as barras de apoio de ônibus e metrô, por exemplo.

Uma curiosidade é que no Brasil a máscara não é tão eficiente por motivos culturais, visto que nos cumprimentamos com apertos de mãos e beijos no rosto, atitudes ausentes nos cumprimentos na cultura japonesa. “Muito dos asiáticos usam para não contaminar os outros, é algo comportamental, não é para proteção individual, mas geralmente para não tossir ou espirrar nos outros”, diz Nancy. Enquanto não se sabe muito sobre o coronavírus, a proteção é bem-vinda, mas está longe de ser totalmente eficaz.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 23 DE ABRIL

SÊ FORTE E CORAJOSO

Sê forte e corajoso, porque tu farás este povo herdar a terra que, sob juramento, prometi dar a seus pais (Josué 1.6).

A peregrinação no deserto durou quarenta anos. O que poderia ser feito em quarenta dias estendeu-se por todo esse tempo. Aquela geração que saiu do cativeiro egípcio tombou no deserto, vítima da incredulidade. O próprio líder Moisés estava morto. A nova geração estava ainda no deserto, mas no limiar da terra prometida. Nesse momento, Deus levanta o jovem Josué para conduzir o povo à terra da promessa. Era uma tarefa gigantesca, humanamente impossível. Mas Deus encorajou Josué dizendo-lhe: Não to mandei eu? Sê forte e corajoso (v. 6). Quando Deus nos comissiona, também nos capacita. Fazemos sua obra não estribados em nosso próprio entendimento nem fiados em nossa própria força, mas confiantes em seu poder. Não somos fortes quando confiamos em nós mesmos; somos fortes quando confiamos em Deus, seguimos seus preceitos e andamos pela fé. Somos fortes quando Deus é a nossa força. Somos fortes quando o braço do Onipotente luta nossas guerras. Somos fortes quando Deus vai à nossa frente, abrindo caminhos e desbaratando nossos inimigos. Nossa coragem não decorre da autoconfiança, mas da fé no Deus vivo. Porque Deus está conosco, podemos ser alimentados pela coragem, e não pelo medo. Porque Deus nos conduz em triunfo, podemos avançar com desassombro, a despeito dos gigantes que se interpõem em nosso caminho. Porque é Deus quem nos dá a vitória, podemos empunhar as armas de combate, certos de que sairemos dessa batalha mais que vencedores.

GESTÃO E CARREIRA

“AQUI ESTÁ A CHAVE DA EMPRESA”

A sucessão de um fundador sempre causa preocupação. Mas a empresa de software Totvs mais que dobrou de valor desde a saída de Laércio Cosentino em 2018. O sucessor, Dennis Herszkowicz, manteve o que funciona – e já deu sua cara ao negócio

Há pouco mais de um ano, o fundador da desenvolvedora de software Totvs, Laércio Cosentino, hoje com 59 anos, pegou um molho de chaves, colocou sobre a mesa e disse ao executivo Dennis Herszkowicz: “Aqui está a chave da companhia”. O gesto em clima de brincadeira simbolizou o fim de uma era na empresa de tecnologia baseada na zona norte de São Paulo. Em novembro de 2018, Cosentino deixou a presidência da companhia que fundou há 36 anos e passou a ocupar o cargo de presidente do conselho de administração. Em seu lugar deixou Herszkowicz, que tem no currículo 15 anos de experiência na Linx, concorrente da Totvs. Passado pouco mais de um ano, os resultados mostram que o processo de sucessão, que costuma ser traumático em empresas tão identificadas com seu presidente quanto é a Totvs, foi bem-sucedido. Pelo menos nos números. O lucro praticamente dobrou em 12 meses e a ação subiu 140% desde a mudança no comando, ante uma valorização de 30% do Ibovespa, principal índice da bolsa B3. Em 35 anos, Cosentino fez da Totvs uma empresa de 4,5 bilhões de reais; em um ano, Herszkowicz levou o valor de mercado a 13 bilhões. Mérito dos dois.

Os bons ventos chegam depois de a empresa estagnar por alguns anos. De 2015 a 2018, o lucro caiu de 195 milhões de reais para 61 milhões, tolhido em parte pela crise econômica. Nos 12 meses de outubro de 2018 a setembro de 2019, o resultado subiu para 115 milhões de reais. Os números consolidados do ano passado ainda não foram divulgados. Para virar o jogo, Herszkowicz, de 45 anos, acelerou projetos em gestação e implementou um estilo de gestão que inclui testar produtos de forma rápida e ser mais tolerante ao erro. “Tudo que foi implementado já estava aqui em estado embrionário. O que aconteceu foi que esses projetos desabrocharam. Foi um ano mágico”, afirma Herszkowicz. Entre as principais iniciativas do ano estão maior foco em produtos que gerem receita recorrente e o olhar para novos mercados. Hoje, 76% da receita é recorrente; ante 66% de um ano atrás. Outra decisão que estava na gaveta e foi acelerada por Herszkowicz foi vender a fatia de hardware da Bematech (empresa de tecnologia para o varejo comprada pela Totvs em 2015). O negócio, que dava mais trabalho do que resultado, era visto como pouco estratégico para a Totvs, que tem voltado seus esforços para o desenvolvimento de software. A venda foi finalizada em outubro, por 25 milhões de reais. A parte de software da Bematech continua com a Totvs.

Com mais de 30.000 clientes pelo Brasil e uma receita anual de mais de 2 bilhões de reais, a Totvs conquistou seu tamanho atual oferecendo principalmente softwares de gestão a pequenas e médias empresas. Agora tem buscado outras frentes para lucrar, entre elas a de serviços financeiros para pequenas e médias empresas. Em maio de 2019, seis meses após a troca de comando, a Totvs levantou 1,1 bilhão de reais no mercado com o objetivo de fazer aquisições. A primeira delas foi a da Supplier, financeira que oferece crédito a pessoas jurídicas, cujo controle foi comprado por 455 milhões de reais. A jogada foi bem recebida pelo mercado. “Vemos fortes sinergias entre os dois negócios, e um grande potencial para a Supplier alavancar a base de clientes da Totvs”, afirmou o banco Credit Suisse em relatório. O foco da Totvs em aquisições deve continuar em 2020. No início de janeiro, a empresa anunciou nova compra, desta vez da Consinco, que fornece sistemas de gestão ao varejo, por 197 milhões de reais. A companhia ainda tem mais de 400 milhões em caixa e algumas dezenas de empresas na mira. A estratégia é considerada chave para crescer em seu segmento de atuação. Isso porque, para uma empresa, é custoso e demorado trocar seu software de gestão, e isso torna mais difícil o trabalho de atrair um cliente da concorrência. As aquisições são um atalho valioso.

Mais do que expandir a base de clientes, o foco é oferecer serviços complementares para quem já tem os sistemas da Totvs e aprofundar sua presença em setores de mercado específicos, como o varejo. Em breve, a companhia deve colocar no ar uma campanha de marketing para reforçar sua marca. “Estamos saudáveis financeiramente, fizemos um esforço para melhorar nossos produtos. Agora temos tranquilidade para colocar a cara para fora e dizer: ‘Venham até nós'”, afirma Herszkowicz.

Ter participado de processos de fusão e aquisição era um dos requisitos fundamentais para ser o novo presidente da Totvs. Ter participado de abertura de capital e de oferta subsequente de ações (o follow-on) também estava na lista de características desejadas, além de idade entre 40 e 50 anos. “Tínhamos tantos requisitos que a soma dava conjunto vazio”, afirma Cosentino. Mas o empresário foi paciente. O processo de sucessão durou cerca de três anos e veio após uma tentativa frustrada. Em 2015, Cosentino deixou a presidência da Totvs para dar lugar ao executivo Rodrigo Kede, ex- IBM. Kede ficou apenas oito meses no cargo e voltou para a multinacional, onde hoje é diretor-geral de tecnologia na América do Norte. Kede não deu entrevista. Entre os fatores que dificultaram a passagem de bastão estavam falhas na condução do processo. “Não era o momento certo porque não havia a disposição necessária para a transição dentro da Totvs”, diz uma pessoa próxima à empresa. Lição aprendida. O processo que culminou na chegada de Herszkowicz teve maior participação do conselho de administração. Desta vez, Cosentino também deu mais autonomia ao novo presidente.

Conduzir um processo de sucessão não é simples, ainda mais quando a pessoa a ser substituída é o próprio fundador. “Esse é um dos maiores desafios das empresas. Fundador e empresa têm uma ligação simbiótica”, afirma Luiz Marcatti, presidente da consultoria de governança Mesa Corporate. Segundo uma pesquisa da consultoria PwC, 44% das empresas familiares no mundo não têm plano de sucessão. Nos Estados Unidos, investidores aguardam há anos para saber quem será o substituto do bilionário Warren Buffett, de 89 anos, no comando de sua empresa de investimentos, a Berkshire Hathaway. Mesmo planos bem desenhados no papel podem dar errado. A General Electric, uma das maiores corporações dos Estados Unidos e incensada por seu modelo de gestão, teve problemas recentes com a substituição do presidente. John Flannery, executivo que assumiu o comando da GE em 2017, renunciou ao cargo pouco mais de um ano depois.

Na Totvs, a mudança trouxe um pouco mais de flexibilidade. Uma das primeiras medidas de Herszkowicz foi acabar com um encontro quinzenal dos executivos, que ocorria às 7 horas da manhã. “Tenho filho pequeno, seria complicado chegar ao escritório tão cedo. Consultei os vice-presidentes e eles disseram: se há possibilidade de não ser às 7 horas, preferimos. “O encontro passou a ocorrer no horário do almoço. A perspectiva de que agora a cadeira de presidente é um cargo a almejar tem incentivado a produtividade. A mudança na gestão foi ainda um passo na profissionalização da companhia. Coincidentemente, no início do mês a Totvs passou a integrar o Ibovespa. Sem a dedicação exclusiva à Totvs, Cosentino tem dado atenção a outros investimentos, com foco em tecnologia, saúde e construção. Assim como a Totvs em seus primórdios, em 1983, as demais empresas em que ele investe estão começando. “Gosto de investir no que dá lucro”, diz Cosentino. A nova rotina envolve uma visita semanal à Totvs. “A empresa não pode depender de quem a criou.” Até aqui, os investidores não poderiam concordar mais.

NOVO IMPULSO

A mudança no comando e os ajustes no negócio fizeram crescer o lucro e o valor de mercado da Totvs

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

COMO LIDAR COM FINAIS NEM TÃO FELIZES?

Pessoas e vínculos não são para sempre. Essa é uma verdade tão óbvia quanto difícil de aceitar. Eu, você e tudo o que construímos possui um prazo de validade. Mas, ainda que saibamos que nada é eterno, costumamos sofrer quando encaramos os finais, seja de um relacionamento, de um trabalho, de uma viagem, seja de uma vida. A dor costuma ser grande quando perdemos algo ou alguém que não estávamos dispostos a deixar para trás.

Quando ciclos terminam, normalmente sentimos um vazio interno. O tamanho desse vazio depende da situação e do impacto que ele tem sobre nós. Fins inesperados, como a morte prematura de alguém querido ou uma demissão repentina, costumam ser choques maiores. Fins esperados, como o término de um curso no exterior ou a chegada da aposentadoria podem ser planejados, e o vazio, amenizado. Porém, mesmo diante de fins “conhecidos”, nem todos se preparam. Se a situação presente estiver confortável, é comum adiar o pensamento sobre o depois. A tendência humana é agir como se o momento presente fosse eterno.

Os vazios que sentimos têm relação direta com os papéis que representamos na sociedade e que, a cada fim de ciclo, deixamos de interpretar. Imagine que, ontem, você era o CEO de uma grande empresa, marido de alguém que amava, dono de uma casa na praia e de um carro importado. E, de repente, por algum motivo fora de seu controle, deixa de ter algum – ou alguns – desses títulos. Ao perdermos papéis que nos qualificam, muitas vezes, perdemos também o rumo.

O que considero um problema é viver sempre em busca de qualificações externas, ou seja, dependendo daquilo que independe de você. Estar atrás de um emprego, um parceiro, um carro ou uma casa melhores. Essa é uma corrida infindável, porque, mesmo que consiga suprir os desejos que vão surgindo, provavelmente um dia tudo isso perderá o sentido. E aí nos deparamos com o vazio do lado de dentro.

É muito comum as pessoas não se darem conta disso até o momento em que vivem uma situação-limite, como uma doença grave. Quando o sofrimento acaba, passam a refletir: “Por que eu quero um carro do ano? Para que eu trabalho 12 horas por dia e não vejo meus filhos?”. A relação custo-benefício pode ganhar novas perspectivas.

O que poderia, então, completar esse buraco que cresce dentro de nós se as conquistas externas não têm o poder de nos satisfazer por completo? O que costumo sugerir aos meus pacientes é uma reflexão profunda sobre o que os move. Por que você levanta da cama de manhã? Não é um exercício simples – e, por isso mesmo, muitas pessoas procuram auxílio para atravessar momentos de mudança.

A psicologia incentiva as pessoas a viverem seu sofrimento e o divide em algumas fases. pelas quais a maioria das pessoas passa, nesta ordem: culpar alguém pelo fim, seja ele mesmo ou o outro; resistir ao término; negar a realidade, criando fantasias; ter dificuldade para ver sentido na vida; e, finalmente, uma fase de levantar a cabeça e dizer: “Bom, aconteceu, sofri, mas e agora? Vou começar tudo de novo”.

Depois dessa experiência de altos e baixos, vale fazer um balanço do que sobrou da experiência em você: boas lembranças, mágoas, ensinamentos? Mas a ideia não é remoer o passado com amargura e culpa. O exercício é avaliar o que aconteceu, o que poderia ter sido feito melhor, sem culpa. É a partir dessa auto avaliação que se pode extrair aprendizados e perceber o que sobrou, o que formará essa nova pessoa, agora pronta para outros ciclos.

OUTROS OLHARES

O TESTE DE FOGO

A caminho do auge da pandemia, o Brasil segue o exemplo de outros países e começa a promover a testagem da população – o passaporte mais eficiente para a volta à normalidade

Chamando a atenção de quem chega ao Rio de Janeiro pela Avenida Brasil, o castelo em estilo mourisco fincado no alto de um morro sedia a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), um complexo de laboratórios que são referência internacional em pesquisa de saúde pública. Ali, no 5º andar de um prédio moderno com ares de ficção científica, enfileiram-se os tubinhos mais falados do momento: testes para a detecção do novo coronavírus, dos quais a Fiocruz é o maior produtor nacional, responsável por abastecer toda a rede pública de saúde. Acompanhamos uma manhã de trabalho na “fábrica” e testemunhamos o excepcional esforço da equipe que organiza o mais ambicioso salto da história da instituição: nos próximos dias, a produção semanal vai decuplicar, passando de 20.000 para 200.000 kits. A iniciativa, espetacular, ainda está longe de suprir a demanda que o combate à pandemia requer, mas segue corretamente na direção que o Brasil precisa. A experiência em outras nações mostrou que testar, testar e testar, na definição da OMS, é a chave para exercer algum controle na fase de subida para o pico da curva da doença e, no momento seguinte, para ter um mínimo de segurança no processo de volta à vida normal. Hoje, ainda apresentamos números modestos na distribuição do teste que salva. Mas, com produção local e importações feitas por empresas públicas e privadas, esse panorama começa a mudar.

Atualmente, o Brasil figura em 12º lugar entre os quinze países com maior número de casos confirmados, na casa dos 30.000, aparecendo em último no quesito testes aplicados (veja o gráfico no fim da matéria). Nos primeiros quarenta dias de epidemia, foram 3.800 exames por dia, para uma população de 209 milhões. Hoje, segundo o Ministério da Saúde, são 7.500. A título de comparação, a Coreia do Sul, com 51 milhões de habitantes, faz o dobro de testes por dia, e a Alemanha, com 83 milhões, tem 70.000 diagnósticos diários. Com as iniciativas que estão sendo realizadas agora, a ideia é que pelo menos 10% da população brasileira seja testada até julho, algo que ajudaria a tomar medidas mais eficazes para controlar a doença. Se depender do empenho dos cientistas da Fiocruz, tal objetivo será atingido. A todo o vapor, a linha de produção da fundação está instalada em um labirinto de salas com luz fria e piso emborrachado, entremeado de longos corredores. Em ambiente asséptico, sob temperatura e pressão controladas, um time de 32 profissionais paramentados com macacões especiais, luvas, toucas e máscaras trabalha sem parar, sem fim de semana nem feriado. Num sistema de enorme segurança, ali o mantra é um só: “Testes, testes, testes”.

Existem dois tipos básicos de exames aplicados na pandemia de Covid-19: o PCR e o sorológico. Pessoas que já passaram da fase de incubação e são internadas com sintomas relevantes submetem-se ao PCR, o mais preciso, destinado a confirmar ou não se o paciente carrega o vírus por meio da análise de secreção das cavidades nasais e da garganta. Em laboratórios particulares, custa entre 250 e 470 reais, e o resultado normalmente sairia em quatro a seis horas, mas vem demorando alguns dias por causa do acúmulo de demanda. Já o sorológico, ou teste rápido, feito a partir de uma gota de sangue, não identifica a presença do vírus, mas sim os anticorpos produzidos pelo sistema imunológico para combatê-lo – e por isso é mais usado para pessoas que não apresentaram sintomas, mas tiveram contato com alguém cujo caso foi confirmado. Detectar anticorpos significa que o indivíduo contraiu o vírus, o organismo o debelou e o sujeito está imunizado, pelo menos até a próxima mutação do Sars-CoV-2. O preço varia de 280 a 800 reais, com o resultado em poucas horas. Uma versão simplificada, que está sendo fabricada no Brasil, promete diagnóstico em vinte minutos.

Em toda guerra que se trava, a obtenção de dados precisos, sem achismos nem intuições, é fundamental para alcançar a vitória. Na batalha contra a Covid-19, não é diferente. Informações acuradas sobre os contaminados – o que possibilita a separação de imunes e não imunes – fazem toda a diferença no esforço para frear a propagação do novo coronavírus. Tais dados permitem monitorar a ascensão da curva daqueles que foram afetados, identificar os temíveis clusters (concentrações de alta contaminação), canalizar recursos com eficiência e, a partir daí, definir medidas de isolamento que impeçam o contágio de todas as pessoas ao mesmo tempo – cenário em que nenhum sistema de saúde teria capacidade de prestar atendimento. Um levantamento da revista Science mostrou que 86% dos infectados são assintomáticos ou têm sintomas muito leves – sem testar, jamais se saberá que podem contaminar outros. A boa notícia é que essa é uma batalha que pode – e vai – ser vencida. Em diversos países, a testagem massiva e continuada tem sido a ponte para a saída gradual do isolamento social e a volta à normalidade.

Evidentemente, não se trata de um caminho sem percalços. Como muitas outras nações seguem na mesma direção, o Brasil está tendo de encarar uma desenfreada corrida mundial não só por exames, mas também por reagentes e enzimas que compõem o kit. Resultado: atrasos na entrega de mais da metade dos 22,9 milhões de testes encomendados na China, Coreia do Sul e Estados Unidos, entre outros. Outra dificuldade é a ausência de velocidade na consolidação das informações. Só em São Paulo há uma fila de 13.000 amostras do tipo PCR que aguardam o processamento nos laboratórios estaduais. Pacientes com sintomas da Covid-19 morrem e são enterrados antes de a confirmação do diagnóstico chegar, o que, além de aprofundar o sofrimento das famílias, abre um rombo nas estatísticas. “Os dados oficiais olham para o passado. O presente se perde na falta de notificações precisas”, diz a pesquisadora Laura de Freitas, doutora em biociências da Universidade de São Paulo. Essa deficiência, porém, será mitigada. Forças-tarefa formadas por institutos, laboratórios e universidades estão capacitando voluntários para um mutirão de processamento de amostras retidas em todo o país.

Diante da urgência da situação, empresas públicas e privadas vêm colaborando com atuação exemplar. Num notável gesto de grandeza, a mineradora Vale encomendou 5 milhões de testes rápidos na China, e 1 milhão já foi entregue ao governo para ser aplicado prioritariamente em profissionais de saúde e forças de segurança e pesquisa. A Petrobras doou ao SUS um lote de 300.000 exames do tipo PCR, metade dos 600.000 comprados nos Estados Unidos. Nesta semana, o Instituto Butantã recebeu 726.000 testes PCR, de uma encomenda de 1,3 milhão feita na Coreia do Sul para reforçar a testagem em São Paulo, o estado com o maior número de casos confirmados e mortes. Apenas com a chegada desse material, o governo paulista estima que os testes passem de 2.000 para 8.000 por dia. A própria Fiocruz tem como meta fornecer 3 milhões de testes PCR ao Ministério da Saúde até julho, mas depende da importação dos insumos necessários. Se não der, um plano B já foi pensado. “Qualificamos mais fornecedores locais e vamos produzir alguns itens aqui”, afirma Marco Krieger, vice-presidente de produção e inovação em saúde da fundação, que negocia ainda a importação de componentes de testes rápidos para montar em seus laboratórios.

Em paralelo, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária aprovou 33 pedidos de registro de testes sorológicos que ficam prontos em minutos – outros 49 estão sendo analisados. Na Santa Casa de Santos, no litoral de São Paulo, eles já são aplicados a pessoas dentro do carro, ao custo de 250 reais. Até em farmácias são encontrados, embora a venda seja irregular. O principal problema que ronda esse tipo de “teste a jato” é a confiabilidade. Dois lotes produzidos na China foram rejeitados pelo Reino Unido (3,5 milhões) e pela Espanha (58.000), por causa de defeito de fabricação. Nesses casos, o diagnóstico de imunidade fica comprometido. “Esses testes têm sensibilidade inferior e maior risco de resultado falso negativo”, alerta Tania Mouço, presidente do Conselho Regional de Farmácia do Rio de Janeiro. Há relatos de sul-coreanos e chineses que “voltaram a se infectar”, o que pode indicar alguma falha na detecção do vírus.

Sem vacina nem medicamento comprovadamente eficaz – a incensada e polêmica cloroquina ainda está em fase de estudos -, o aprendizado para conter a pandemia vem acontecendo na prática. Berço da Covid-19, a China atualmente tenta impedir uma segunda onda de contaminações monitorando a população – assunto em que é especialista. Os chineses trazem no celular um aplicativo com QR code individual. A cor verde libera a circulação por espaços públicos de quem não tem a doença; a vermelha restringe os contaminados; e a amarela aponta quem teve contato com algum deles. A Coreia do Sul, seguidora de primeira hora da testagem em massa, popularizou a coleta de amostras sem sair do carro. A Alemanha, exemplar no rastreamento de casos, isolamento social e testes em escala, apresenta uma taxa de letalidade extremamente reduzida, de 2,7%. “O governo direcionou investimentos com base na ciência e na racionalidade”, diz Dietrich Rothenbacher, diretor da Sociedade Alemã de Epidemiologia. A caminho do pico da pandemia, o Brasil se prepara agora para uma etapa importante: mapear o grau de contágio e a velocidade de propagação do vírus por meio de uma pesquisa por amostragem, aplicando um total de 100.000 testes rápidos em todos os estados. Trata-se de um primeiro, louvável e obrigatório passo para que o país e os brasileiros voltem à normalidade.

ARMA POTENTE

Os países que mais testam seus cidadãos são os que registram a menor mortalidade pelo novo coronavírus, enquanto os outros, incluindo o Brasil, veem a taxa disparar

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 22 DE ABRIL

NÓS SOMOS A MORADA DE DEUS

… porque o santuário de Deus, que sois vós, é sagrado (1Coríntios 3.17b).

Quando o povo de Israel saiu do Egito, o próprio Deus o conduziu pelo deserto, dando-lhe, durante o dia, uma coluna de nuvem para protegê-lo do calor e, durante a noite, uma coluna de fogo para guiá-lo e aquecê-lo. Mais tarde, porém, Deus disse a Moisés: E me farão um santuário para que eu possa habitar no meio deles (Êxodo 25.8). Moisés deveria construir o santuário de acordo com a prescrição divina. Aquele santuário seria um símbolo da igreja. Dentro do santuário, no santo dos santos, ficava a arca da aliança, símbolo de Cristo. Cristo está na igreja, e a igreja é a morada do Altíssimo. Deus escolheu habitar na igreja. Mesmo frágeis vasos de barro, somos o tabernáculo da morada de Deus. Nosso corpo é o templo do Espírito Santo. Deus habita em nós. Na verdade, devemos ser tomados de toda a plenitude de Deus Pai, devemos ser cheios da plenitude de Deus Filho e devemos ser cheios da plenitude do Espírito Santo. Em nós habita a própria Trindade Excelsa. O Deus transcendente que não habita em casas feitas por mãos e que nem o céu dos céus pode conter, esse Deus escolheu habitar em nós. Na consumação dos séculos, quando todas as coisas forem restauradas e estivermos na presença do Pai, com um corpo glorificado, ouviremos uma voz: Eis o tabernáculo de Deus com os homens. Deus mesmo habitará com eles (Apocalipse 21.3b). Aqui, Deus habita em nós; lá nós habitaremos com Deus, por toda a eternidade.

GESTÃO E CARREIRA

AIRBNB LUTA PARA NÃO ENCOLHER

Depois de queda de 70% em suas reservas em mercados como Ásia e Europa, plataforma registra crescimento da procura por estadias de longo prazo de quem busca isolamento.

Foi a partir de uma crise que o Airbnb nasceu. No colapso financeiro global de 2008, os proprietários de imóveis colocaram seus quartos, suas casas ou seus apartamentos para alugar e assim obter uma renda extra. Os viajantes, que queriam pagar menos pelas estadias, gostaram e assim a plataforma que juntou as duas pontas e deu segurança financeira às transações decolou. E se tornou sinônimo de hospedagem e experiências de viagem. São 7 milhões de opções de endereços, em mais de 50 mil cidades de 200 países. Agora, no entanto, outra crise ameaça a operação: o coronavírus, que praticamente estrangulou o trânsito de pessoas na maior parte do planeta. Os primeiros setores afetados foram o de aviação, hotelaria e turismo. A empresa sentiu o golpe. Com a Covid-19, o número de reservas caiu mais de 70% em mercados como Ásia e Europa, segundo a consultoria AirDNA, que coleta dados sobre a plataforma.

Para quem nasceu numa crise, a saída estará obrigatoriamente em outra crise. A companhia observou, no Brasil, principalmente nos centros urbanos, uma mudança no perfil das estadias. Houve aumento de 24% (na comparação entre março de 2019 e o mesmo mês deste ano) na demanda por hospedagens mais longas (acima de 28 dias), nos mesmos municípios em que os interessados moram. A avaliação da empresa é de que o objetivo desses clientes é preservar a saúde das pessoas que fazem parte do grupo de maior risco para a Covid-19.

De acordo com a plataforma, também foram observadas reduções de valor por anfitriões para reservas nesse perfil. No mundo todo, cerca de 80% das pessoas que oferecem espaços para locação na plataforma estão aceitando receber menos pelas reservas. E metade das acomodações do Airbnb agora tem descontos para períodos de permanência de um mês ou mais. Entre os perfis de hóspedes, predominam idosos, famílias em busca de mais espaço para que as crianças possam fazer suas tarefas enquanto os pais trabalham de casa e estudantes universitários que precisam se acomodar enquanto escolas estão fechadas. Se essa tendência for mantida após a quarentena, o Airbnb tende a fazer mais investimentos nesse modelo, que é mais parecido com o de imobiliária virtual.

Com uma diferença. Sem burocracias de comprovantes, fiadores e contratos para as permanências das pessoas nos imóveis dos anfitriões. Uma briga que a plataforma deve encarar com o mercado imobiliário, depois de se desentender com o setor hoteleiro, que a acusa de concorrência desleal e desproporcional. “A ampliação dos segmentos de atuação da empresa é um processo natural, em um mercado que está em clara transformação”, afirma a economista Ana Paula Campello, especialista em mercado imobiliário da Universidade Federal Fluminense.

Mesmo diante de um cenário de incertezas, o Airbnb acaba de captar US$ 1 bilhão em investimento dos fundos Silver Lake e Sixth Street Partners. A rodada é um desafogo importante para a empresa socorrer a comunidade de anfitriões, muitos dependentes da receita gerada pela plataforma. O CEO e cofundador do Airbnb, Brian Chesky, disse em comunicado que o desejo de explorar, conectar, ter novas experiências e um lugar confortável para chamar de lar é universal e duradouro. “E nosso compromisso de criar um senso maior de pertencimento, para todos, em qualquer lugar, nunca vai mudar”, afirmou, em comunicado. O executivo não tem concedido entrevistas, assim como o presidente do Airbnb no Brasil, Leo Tristão. A estratégia de comunicação global da empresa é se pronunciar apenas por notas oficiais.

FUNDOS DE AJUDA

Parte dos recursos investidos pelo Silver Lake e pelo Sixth Street Partners, US$ 5 milhões, será destinada pelo Airbnb como aporte adicional ao fundo de ajuda aos chamados superhosts, anfitriões mais experientes e bem avaliados da plataforma. Esse montante chega agora a US$ 17 milhões. Outra parte, de US$ 250 milhões, vai ser disponibilizada para ajudar os anfitriões a cobrir custos dos cancelamentos relacionados à pandemia contemplados na Política de Causas de Força Maior – a companhia deixou de cobrar as taxas de serviço em cancelamentos. O dinheiro dos dois fundos vem na hora certa, ainda mais se for levado em conta que o check-in do coronavírus nos negócios do Airbnb também contaminou a intenção da companhia de estrear no mercado de ações em 2020. O plano de abrir o capital (IPO) só deve voltar à pauta em 2021, avaliam especialistas. De acordo com estimativas do mercado, a companhia tinha valor de US$ 31 bilhões no ano passado.

Outra medida tomada pela plataforma para minimizar as consequências da pandemia é a vertente de Experiências On-line, que permite que hóspedes viajem sem sair de casa e, dessa forma, mantenham a renda extra no fim do mês dos anfitriões. É possível, por exemplo, reunir on-line amigos para acompanhar um concerto de Tango com indicados ao Grammy Latino (Buenos Aires, Argentina), fazer meditação guiada com ovelhas sonolentas (Loch Lomond, Reino Unido), ter aulas de café com um juiz certificado pelo Judge Certification (Cidade do México, México) ou aprender culinária com uma família marroquina (Marraquexe, Marrocos), entre outras atrações. As atividades ocorrem por meio do aplicativo de videoconferência Zoom, com acesso oferecido gratuitamente aos anfitriões. Aos clientes, os preços variam entre US$ 1 e US$ 40.

“A conexão humana está na nossa essência”, disse Catherine Powell, chefe global de experiências do Airbnb, em nota. “Com tantas pessoas precisando ficar dentro de casa, queremos oferecer uma oportunidade de anfitriões e hóspedes se conectarem da única maneira possível neste momento: on-line.”

RESILIÊNCIA

Nesta fase, estão disponíveis mais de 50 opções de experiências e, segundo a startup, milhares de outras serão incluídas nos próximos meses. Porém, ainda não há nenhuma atividade do Brasil que faça parte do roteiro virtual. Apesar das tentativas de manter vivo seu ecossistema neste momento delicado, o Airbnb admite que haverá consequências no segmento de viagens e turismo globalmente.

Os dados mais recentes mostram que, só no Brasil, a empresa gerou um impacto econômico de R$ 7,7 bilhões em 2018, considerando toda a cadeia que envolve o turismo, como restaurantes e comércio locais, não apenas hospedagem. No mundo, uma equação similar eleva a conta a superar U$ 100 bilhões. A plataforma aposta em seu segmento. De toda forma, a retomada só acontecerá quando o hóspede indesejado fizer seu checkout. E isso não tem data para ocorrer. Mas o Airbnb segue otimista: “O desejo de viajar e ter novas experiências é permanente. E isso faz dessa indústria uma das maiores e mais resilientes do mundo.”

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

UMA BOA NOITE

Não é de hoje que pais e educadores se preocupam com o sono das crianças, jovens e dos próprios adultos, pois, além da preocupação com a saúde, há questões como os transtornos na vida familiar

Todos precisam de uma boa noite de sono para poder estudar e trabalhar no dia seguinte. O sono é um dos principais processos fisiológicos para a vida. A sua expressão, alternada com a vigília, é circadiana e sofre influência de fatores endógenos, sociais e ambientais.

Mesmo sem informações científicas detalhadas, esse tema relevante já foi muito tratado em diversos manuais de educação infantil de outras gerações e assunto de inúmeros artigos e discussões, até porque uma criança que não dorme bem sempre sinaliza durante o dia as consequências do descanso entrecortado e incompleto, que chama a atenção da família e professores. É uma questão fisiológica que envolve problemas comportamentais e, portanto, educacionais em boa parte dos casos.

Não é de hoje que se percebem os efeitos negativos (de curto e longo prazo) para a saúde física e mental infantil e que afetam diretamente a aprendizagem em qualquer idade: a atenção fica mais oscilante, a memória, menos operativa, a energia física, depauperada, o humor varia, os acidentes são mais constantes devido à falta do necessário controle de impulsos. Na idade escolar, vemos crianças sonolentas ou muito irritadiças na sala de aula, com péssimo relacionamento social, dificuldade de acompanhar ou produzir adequadamente como seus pares.

Durante o sono, há um processo ativo de consolidação da memória e reelaboração das experiências vivenciadas, assim como a organização cerebral, que elimina o não necessário, consolida aprendizados e prepara o sistema nervoso para as novas aquisições.

Durante a primeira década de vida, as chamadas ondas lentas do sono são cerca de 40% mais presentes do que na adolescência e diminuem naturalmente ainda mais nos adultos, provando a importância de as famílias observarem com igual responsabilidade os horários do sono e a alimentação e higiene infantil.

Por outro lado, observam-se entre crianças com comportamentos como déficit atencional (TDA) uma marcante relação com relatos familiares de dificuldades no dormir, na qualidade do sono.

As necessidades de sono são individuais, dependem de fatores diversos, se modificam durante a vida, mas, dentro de um padrão cientificamente aceito como saudável, podemos dizer que:

1) Bebês até os 3 meses devem dormir de 16 a 18 horas ao dia;

2) De 1 a 2 anos devem dormir de 13 a 14 horas por dia;

3) De 3 a 5 anos, 11 a 13 horas diariamente são necessárias;

4) A partir dos 6 anos, de 10 a 11 horas;

5) Entre 12 e 18 anos, uma média de 9h30 ao dia;

6) Adultos: de 7 a 9 horas costumam ser suficientes.

Sabe-se que boa parte do comportamento infantil durante o dia, na escola ou no convívio familiar, está ligada à qualidade do seu sono. Infelizmente, hoje estima-se que 30% das crianças com idade até 12 anos apresentam distúrbios do sono. Inclusive, cerca de 40% dos bebês não dormem bem, comprometendo seu desenvolvimento nessa fase tão importante, quando isso ocorre com complicações mais sérias.

Nos cinco primeiros anos de vida há mudanças na duração, na distribuição e no caráter do sono, e vários fatores podem afetar a criança: medicações, doenças sistêmicas, condições ambientais.

A insônia é a disfunção de sono mais relevante, conforme a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Consiste em uma dificuldade de início ou manutenção do sono, despertar mais cedo que o desejado ou dificuldade em iniciar o adormecer sem intervenção dos pais ou cuidadores.

A rotina de sono pode ajudar muito a evitar problemas do sono e deve estabelecer-se precocemente e basear-se em medidas de higiene do sono e condutas educativas:

1) Estabelecer horário, rotinas e rituais consistentes para o sono;

2) Não barganhar a hora de dormir, nem ser condescendente de modo exagerado em finais de semana ou mesmo férias: o sono é um hábito biológico que precisa de rotina para se manter;

3) Evitar estimulação física, mental ou emocional perto da hora de dormir;

4) Ler uma história curta, falar carinhosamente com a criança;

5) Evitar oferecer alimentação durante a noite;

6) Evitar dormir com alguma fonte luminosa durante toda a noite;

7) Habituar a criança a adormecer sozinha, sem a presença física do cuidador, especialmente nessa época em que câmeras são de fácil instalação e podem tranquilizar os pais;

8) Não permitir que a criança durma na cama dos pais e sim preferencialmente no seu quarto;

9) Eletrônicos, telinhas de modo geral não devem ficar no quarto das crianças.

Interessante lembrar que estudos da década de 1990, da Comissão Nacional de Pesquisas em Distúrbios do Sono, nos Estados Unidos, já detectavam que os transtornos do sono eram pouco   diagnosticados nas consultas pediátricas. E, infelizmente, quando a intervenção ocorre de maneira tardia, o problema pode persistir por anos, tornando-se um problema de difícil solução e múltiplas consequências. Por isso cabe ao pediatra reconhecer os transtornos e buscar o melhor tratamento para curá-los ou, ao menos, minimizá-los, e cabe aos pais a responsabilidade sobre esse aspecto tão importante quanto a alimentação, higiene e educação de seus filhos.

MARIA IRENE MALUF – é Especialista em Psicopedagogia, Educação Especial e Neuroaprendizagem Dr. h.c. em Educação. Membro do conselho vitalício e da diretoria executiva da Associação Brasileira de Psicopedagogia Nacional ABPp, coordenadora dos cursos de Especialização em Neuroaprendizagem, Cognição, Psicomotricidade, Psicopedagogia do Grupo Saber Cultura/FTP/FIP e perita judicial.

OUTROS OLHARES

MINHA JANELA, MINHA VIDA

Presas em apartamentos por causa da pandemia, as pessoas ocupam varandas e balcões, onde cantam, batem palmas, exercitam-se e, assim, reinventam o convívio social

Para a enorme parcela da população planetária que está trancada dentro de apartamentos, no esforço coletivo para conter o avanço do novo coronavírus, o contato olho no olho com o mundo lá fora ficou restrito a um espaço doméstico do qual os moradores raramente chegavam perto: as janelas da casa. E nelas, e também em varandas e balcões, que vizinhos que mal se cumprimentavam trocam agora acenos, formam corais, exercitam-se em mutirão e até celebram aniversários. A moda começou na Itália, fechada há mais de um mês, onde a cantoria improvisada nos balcões foi parar nas redes e, de lá, ganhou o mundo, inclusive o Brasil, impulsionada pelo pendor local para o bom e velho bate-papo. Descobriu-se então que se debruçar no parapeito é uma maneira de aplacar a angústia da separação e reinventar o convívio social, ainda que só com quem mora por perto. “Em uma sociedade em que o individualismo dominava, o vírus trouxe de volta a vontade de ficar junto, e a ideia de que estamos todos no mesmo buraco amplifica isso”, explica o antropólogo Roberto Da Matta.

A música tem sido a forma mais usada para romper o silêncio das ruas e unir a vizinhança. No bairro do Flamengo, na Zona Sul do Rio de Janeiro, a soprano Fernanda Schleder, de 41 anos, e o barítono Frederico de Assis, de 51, ambos do coro do Theatro Municipal (fechado, é claro), apresentam há quatro domingos, da varanda de seu apartamento, uma seleção de músicas que vão do lírico ao popular. “Cantamos para não enlouquecer e ainda levamos um pouco de alento e carinho aos que estão à nossa volta”, diz Fernanda. Com a caixa de som ligada, a voz da dupla ecoa pelo bairro, às vezes acompanhada dado filho Pietro, de 6 anos, entoando árias, canções infantis e, para finalizar, Cidade Maravilhosa. “Mais de 100 pessoas saem à janela todas as vezes e cantam com a gente”, comemora Assis. “Mal via meus vizinhos antes. Agora a gente se comunica por aplicativo tanto sobre as medidas tomadas pelo prédio quanto sobre o canto de Fernanda e Fred. Sinto que nos tornamos amigos”, relata a aposentada Vera Maria Gusmão, que mora no edifício e não sai de casa há mais de um mês.

A falta de contato humano tem sido uma preocupação da comunidade médica durante a pandemia, já que o stress do isolamento prolongado aumenta a predisposição para transtornos de ansiedade e comportamentos depressivos. “Todos podem ser atingidos. Crianças, adolescentes, idosos e pessoas com doença psiquiátrica preexistente apresentam mais riscos”, alerta o psiquiatra Alexandre Karam J. Mousfi, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie do Paraná. Vem daí o efeito salutar do bolo de aniversário na sacada, enquanto o prédio todo canta Parabéns, do companheirismo da turma que toma sol na varanda e até da união de quem, batendo panela, protesta na janela contra Bolsonaro – hábito que a quarentena ajudou a propagar. A ginástica na varanda, contagiante, ocorre em prédios de Nantes, no oeste da França, a Brasília, onde o projeto Movimente-se em Casa leva atividades físicas a 35 condomínios: todo dia, professores voluntários, no térreo, executam exercícios e passos de dança acompanhados por moradores de todos os andares.

Os momentos de camaradagem nos edifícios são uma reedição, em tempos de coronavírus, do antigo costume nas cidades pequenas de, depois do jantar, sem televisão, as pessoas se postarem na janela para bater papo com quem passava na calçada. As possibilidades são inesgotáveis. Em Paris, toda noite, às 19 horas, a população abre a vidraça para bater palmas para os trabalhadores do setor de saúde, outro gesto cada vez mais internacional. Na Itália, a Alicenella Città, mostra paralela do Festival de Cinema de Roma, incentiva quem tem o equipamento necessário a, de sua janela, projetar trechos de filmes famosos nas fachadas. Na Espanha, Polônia, Venezuela, Estados Unidos, em toda parte, cantores, instrumentistas e até DJs aderiram ao velho novo costume e passaram a fazer de seus balcões um palco para sua arte.

Na Nova Zelândia, muitas casas agora têm na janela um ursinho de pelúcia em pose divertida –   parte da brincadeira de “caça ao urso”, em que as crianças saem a pé, onde for seguro, ou de carro, com os pais, para procurar o brinquedo. Até a primeira-ministra Jacinda Ardern acomodou um ursinho na janela da residência oficial, em Wellington, onde está isolada com o marido e a filha de 1 ano. Bom será se essa cordialidade sobreviver e se mantiver acesa no mundo pós-pandemia.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 21 DE ABRIL

NÃO DEIXE DE SONHAR, MESMO NO CATIVEIRO

E a mulher concebeu e deu à luz um filho… (Êxodo 2.2a).

Joquebede nasceu no cativeiro e sua família estava debaixo de opressão. Seu povo amassava barro, debaixo da chibata dos soldados de Faraó. Não bastasse a escassez de pão, o trabalho forçado e os rigores do castigo físico, agora Faraó ordena que todos os meninos hebreus, nascidos no Egito, sejam passados ao fio da espada ou jogados no Nilo para alimentarem os crocodilos. É nesse cenário de opressão que Joquebede fica grávida. Mesmo no cativeiro, Joquebede não deixa de sonhar. Nos nove meses de gravidez, traça um plano para salvar seu filho. Sua convicção é que não havia gerado um filho para a morte. Deus honrou a atitude de Joquebede. O Nilo, que deveria ser a sepultura de seu filho, tornou-se o instrumento do seu livramento. Em vez de ser devorado pelos crocodilos, foi adotado pela filha de Faraó. Em vez de cair sob a espada do adversário, foi parar nos braços de sua mãe. Em vez de ser oprimido pelos seus inimigos, tornou-se o libertador de seu povo. O nascimento de Moisés não estava apenas nos planos de seus pais, mas sobretudo nos propósitos de Deus. Aquele menino cresceu e se fortaleceu. Aprendeu todas as ciências do Egito. Depois vivenciou todas as agruras do deserto. Finalmente, enfrentou com um cajado na mão todo o poder do Egito e dali libertou o povo hebreu da dura escravidão. Deus ainda opera maravilhas na vida daqueles que ousam sonhar, mesmo que o mundo à sua volta lhes mostre a carranca da opressão.

GESTÃO E CARREIRA

AS MELHORES AÇÕES EM TEMPOS DE PANDEMIA

Em um cenário catastrófico de queda de valor por toda a B3, setores com grande potencial exportador, como frigoríficos, de papel e celulose e de mineração, são as melhores apostas para quem deseja reverter os prejuízos acumulados no ano. O Dólar alto e a volta da China às compras são os maiores estímulos.

O novo coronavírus gerou uma crise global inédita e de efeitos ainda incertos. As bolsas de valores do mundo todo foram afetadas a ponto de o período ser chamado de “banho de sangue” por investidores e analistas de mercado. No Brasil, até a terça-feira 14, o índice Ibovespa acumulava desvalorização de 30% no ano, mesmo após uma recuperação de quase 10% só nos últimos sete dias. Empresas de todos os setores listadas na B3 foram impactadas pelos efeitos da pandemia e acumularam perdas (ver tabela). As projeções do Ibovespa para 2020 chegaram a cair até 41%, no comparativo entre dezembro e abril, segundo levantamento do buscador de investimentos Yubb. O Bank of America traçou o pior cenário para o fim deste ano, baixando a previsão de 130 mil para 76 mil pontos. A mais otimista das sete casas analisadas foi a Guide, com queda de 28%, para 96 mil pontos. O que fazer quando as perdas parecem inevitáveis?

De acordo com analistas de mercado consultados, o ideal no momento é ter cautela e buscar papéis de empresas ligadas a setores mais resilientes da economia. Nesse contexto, as companhias exportadoras estão entre as mais citadas. Elas se beneficiam do real desvalorizado, o que torna seus produtos mais competitivos no mercado internacional. Entram nesse grupo empresas de papel e celulose como a Suzano, de mineração, como a Vale, frigoríficos como a JBS, e fabricantes de equipamentos, caso da Weg, que até o começo da semana passada era a única do Ibovespa que ainda estava com ações no azul em 2020.

“Além do fator dólar, a China já saiu da quarentena e é uma grande compradora”, afirma o estrategista da Genial Investimentos, Filipe Villegas. Na análise setor por setor, o de papel e celulose tem a seu favor o fato de o Brasil ser muito competitivo no mercado externo. Além disso, como há uma grande demanda por produtos como papel higiênico e insumos médico-hospitalares, essa indústria sofreu impacto menor. Segundo Carolina Ujikawa, analista da Mauá Capital, no começo do ano a celulose era comercializada ao preço de US$ 1 mil a tonelada, mas, desde então, a queda foi vertiginosa. Chegou a cerca de R$ 400, mas voltou a subir com o retorno às atividades da China e está cotada em R$ 464. “Com o dólar no patamar que está, essa indústria tende a ter bom desempenho”, diz a especialista.

Empresas do ramo frigorífico também estão sendo recomendadas. Principalmente, os papeis da JBS, porque a compra de alimentos na China impacta positivamente seus negócios. “Não houve queda na demanda por carne até porque em época de epidemia se alimentar bem é importante”, afirma Carolina Ujikawa. “Além disso, empresas como JBS e BRF se beneficiam do fato de a China ter perdido 60% de seu rebanho suíno no ano passado. Não dá para recuperar isso de uma hora para outra e parte da necessidade está sendo substituída por carne bovina e de frango.”

E DEPOIS?

Se neste primeiro momento as empresas exportadoras são vistas como as melhores opções, no longo prazo outros setores podem render bons ganhos para os investidores. Para Villegas, da Genial, também são promissores papéis de companhias com menor nível de alavancagem, assim como aquelas envolvidas com tecnologia, incluindo o e-commerce. “A digitalização já era uma tendência, mas a pandemia acelerou isso. Toda empresa que já investiu bastante ou tem parte de seu negócio atrelado à tecnologia deve chamar mais a atenção do mercado”, diz. E, pensando no pós-pandemia, o analista da Necton Investimentos, Glauco Legat, inclui até empresas do setor de varejo, que eram as vedetes do mercado antes da crise, mas que sofreram grande impacto nas vendas por conta do fechamento de lojas físicas. “As ações da Via Varejo caíram de cerca de R$ 16 para R$ 4. Se depois que o problema passar a recuperação for rápida, tende a ser um dos papéis que vão ter melhor desempenho”, afirma.

A expectativa geral é de que o pior já tenha passado nas bolsas, mas os analistas ainda avaliam com cautela o cenário, já que existe a possibilidade de uma segunda onda de contágios, o que poderia atrasar a recuperação econômica. Evitada essa possibilidade, a opinião é de que os preços já atingiram o fundo do poço. “Antes da crise havia margens para queda. O patamar médio de desvalorização está em torno de 40%. Na pior das hipóteses, as empresas vão perder um ano de lucro”, afirma Sales, lembrando que o Ibovespa iniciou 2020 com 115 mil pontos e chegou a baixar para 61,7 mil. “Já chegamos ao fundo do poço, mas isso não significa que daqui para frente será um mar de rosas”. Por isso, conhecer os setores mais bem protegidos de impactos inesperados ainda pode ser bastante importante para o investidor.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DESAFIO NO AMOR

A modalidade de ciúme retrospectivo tem crescido muito, especialmente com o advento das redes sociais, que, frequentemente, abalam a suposta estabilidade das relações amorosas

Relacionar-se na sociedade contemporânea tornou-se ainda mais desafiador quando a internet e as redes sociais impuseram a necessidade de entendermos os comportamentos on-line de nossos crushes e parceiros(as). Com a mudança de paradigmas do que é público e privado e mais acesso à vida de nossos(as) parceiros(as), uma simples interpretação equivocada de uma foto ou comentário pode criar uma insegurança devastadora no ser humano. O ciúme torna-se uma tentativa de controle para manter a sensação de segurança, ainda que ilusória, e pode ser também retrospectivo.

É consenso que a tecnologia digital inaugurou uma nova era para os relacionamentos amorosos de forma revolucionária. Inicialmente foram os sites de relacionamento. Posteriormente, as redes sociais ganharam destaque: originalmente criadas para conectar amigos e familiares, ou mesmo criar novas amizades a partir de interesses em comum, possibilitavam buscar relações amorosas também, com uma abordagem diferente daqueles sites.

Essa nova possibilidade de se relacionar abalou a suposta estabilidade das relações amorosas, visto que permite ampliar o número de possíveis pares amorosos. Assim, o ciúme passou a ser ingrediente presente mesmo em casais que, na era analógica, não teriam insegurança. Afinal, você está atento à qualidade do seu relacionamento hoje e o que este lhe proporciona de satisfação e alegria? Tem medo do passado amoroso ou sexual do(a) parceiro(a)?

PARA QUE SERVE?

O ciúme é uma emoção polêmica e divide tanto os pesquisadores como também os leigos. Alguns estudiosos apontam uma função importante do ciúme na sobrevivência da espécie. Já os leigos podem achar legítimo, como um “ingrediente” para o amor, devido ao contexto cultural. É sabido que o ciúme combina em si outras emoções – como raiva, medo e tristeza -, podendo ser particularmente prejudicial ao relacionamento amoroso, dependendo de sua intensidade. Essas emoções relacionadas ao ciúme (muitas vezes, infundado) eventualmente causam separações ou divórcios e predispõem a comportamentos agressivos e violentos.

Obras famosas como Otelo, de Shakespeare (talvez o exemplo mais citado nos estudos sobre o tema, de um ciúme infundado, totalmente criado na mente do personagem título), bem como músicas populares tratam dessa emoção e podem contribuir para a romantização do ciúme. Porém, cada vez mais, por causa dos riscos que traz, o ciúme é criticado, e serve como sinal de alerta sobre a toxicidade do relacionamento, já que está presente em muitos relacionamentos abusivos. Nas redes sociais, circulam mais campanhas de conscientização sobre relações abusivas, para que as pessoas se afastem de parceiros(as) que ponham sua vida em risco.

Em Psicologia podemos definir ciúme amoroso, resumidamente, como um conjunto de pensamentos, emoções e comportamentos que se seguem a uma ameaça (imaginária ou real) ou perda concreta de um relacionamento importante.

Para a pessoa ciumenta, vigiar seu par assegura a manutenção do relacionamento amoroso. Ela procura evitar a traição a qualquer custo, pois, em nível mais profundo, o maior medo, o mais apavorante, é o abandono. Muitas vezes, esse temor vem de experiências pessoais prévias, traumáticas; outras vezes tem origem em padrões familiares. Além disso, a simples observação da instabilidade das relações amorosas na contemporaneidade acaba sendo um importante reforçador de insegurança.

O PASSADO CONDENA?

Roland Barthes, em seu Fragmentos de um Discurso Amoroso, descreve os sentimentos ambivalentes acerca de seu próprio ciúme: “Como ciumento sofro quatro vezes: porque sou ciumento, porque me reprovo de se- lo, porque temo que meu… ciúme machuque o outro, porque me deixo dominar por uma banalidade: sofro por ser excluído, por ser agressivo, por ser louco e por ser comum”. Pessoas enciumadas não apenas sofrem: também se envergonham dessa emoção.

O ciúme retrospectivo também é conhecido como síndrome de Rebeca, termo que faz referência ao filme Rebeca (1940), de Alfred Hitchcock que, por sua vez, é inspirado no romance Rebeca, a Mulher Inesquecível, de Daphne du Maurier (1938). A obra conta a história de uma mulher atormentada pelas lembranças da primeira esposa do seu marido, já falecida, que inspirou uma telenovela exibida pela rede Globo, entre 1978 e 1979: A Sucessora.

Quem sofre desse tipo de ciúme tem pensamentos obsessivos sobre ex-parceiros(as) de seu(sua.) parceiro(a) atual. Tais pensamentos podem gerar medo e raiva, fazendo com que a pessoa com ciúme retrospectivo sofra alterações de humor e apresente comportamentos ansiosos ou paranoicos. É comum fazer perguntas recorrentes, averiguando detalhes da relação anterior, tentando, de alguma forma, conhecer a “verdade” sobre o seu par amoroso. Porém, ao querer estabelecer comparações, sofre imaginando um relacionamento mais valorizado do que o que tem hoje. Muitas vezes, insiste em falar do passado sexual do outro e, quando se descobre uma forte ligação sexual, o temor de que haja uma “recaída” ou “reviva” é grande.

Facebook e Instagram tornam­ se ferramentas tentadoras, fáceis e eficientes para checagem de perfis da pessoa amada e de seus contatos. Além dos contatos em comum, têm histórico de posts, comentários e fotos do passado. Em pouco tempo, a vida do casal se converte em um trio, no mínimo, no qual a sombra do(s) relacionamento(s) anterior(es) está sempre presente.

Ao contrário do comportamento de olhar o celular ou o e-mail do(a) parceiro(a) sem sua permissão, monitorar uma pessoa on-line pode ser considerado por algumas pessoas como socialmente mais aceitável, já que as informações que estão nas redes sociais são, de certa forma, públicas. Além disso, investigar o Facebook ou o Instagram de alguém pode ser feito de modo sigiloso e o risco de ser descoberto(a) é praticamente inexistente.

A era digital trouxe o medo de ser traído(a) publicamente, enquanto na era analógica a traição podia ser mantida como um segredo do casal. A pessoa traída era mais livre para optar em manter ou não o relacionamento. Hoje em dia, há praticamente um tribunal on-line, com as pessoas assistindo à vida dos outros, em tempo real, emitindo opiniões e julgamentos.

No caso do ciúme retrospectivo, a vigilância maior será sobre ex-namorados (as), ex-cônjuges ou mesmo sobre casos passageiros. Qualquer atividade pode ser interpretada de forma catastrófica, dependendo do nível de desconfiança da pessoa enciumada. Uma estratégia bastante comum de controle é criar uma conta “fake” para poder monitorar a pessoa amada – tanto no Instagram quanto no Facebook.

GATILHOS

Cada rede social tem uma particularidade. Como dito anteriormente, no Facebook, usar cuidadosamente os recursos de configuração de privacidade pode levantar suspeitas e desconfianças – muitas vezes totalmente infundadas. Postar muitas selfies, no Instagram pode levar a pessoa ciumenta à conclusão de que seu par deseja chamar atenção de outras pessoas, com intuito amoroso.

Quanto maior o uso das redes, mais a pessoa ciumenta acreditará que está sujeita a perder quem ama, intensificando, assim, suas estratégias de controle. Dessa forma, passará mais tempo on-line, monitorando e buscando informações que contradigam seus medos. O comportamento excessivamente vigilante é capaz de provocar justamente o que mais se teme: o rompimento do vínculo amoroso, pelo excesso de desconfiança.

Vale frisar que nem todas as interpretações que se fazem sobre o material encontrado on-line são acuradas. Podem estar atravessadas pelos filtros mentais da pessoa enciumada, sendo, portanto, passíveis de erros cognitivos. Erros de interpretação são bastante comuns, porque o que foi postado pode estar sendo entendido fora do contexto e ser mesmo ambíguo para quem observa externamente.

DIFERENÇAS

Praticamente todas as pesquisas apontam que mulheres jovens tendem a ser mais ciumentas – on­line e off-line – do que homens. Isto se deve ao fato de as redes sociais facilitarem sobremaneira a infidelidade emocional. A infidelidade emocional pode conduzir à infidelidade física, o que leva muitas pessoas a terminar o relacionamento. Afinal, a infidelidade é considerada uma infração gravíssima, de quebra de confiança, rompendo o ideal de relacionamento monogâmico característico da sociedade ocidental contemporânea.

Essas mesmas pesquisas apontam diferenças qualitativas no uso das redes sociais por homens e mulheres. Estas utilizam as redes sociais mais para manter contato com antigos ou familiares. Homens tendem a usar as redes com o intuito de compartilhar informações – posts de matérias informativas ou notícias – ou para parabenizarem pessoas conhecidas, servindo quase como agenda. E também para buscarem um contato com alguém que julgam atraente (previamente conhecido ou não), podendo, a partir daí, desenvolver novos relacionamentos amorosos em potencial.

Além do gênero, pessoas com baixa autoestima, com necessidade de serem populares, com dificuldade em confiarem nos outros, e, em relacionamentos recentes (com menos de três anos de duração) ou a distância, tendem a ser mais ciumentas. De acordo com outros estudos, o fato do(a) parceiro(a) divulgar informações pessoais para um grande número de pessoas faz com que a pessoa ciumenta se sinta “apenas mais uma” e não alguém “especial”. Esse sentimento fica particularmente evidente no caso do ciúme retrospectivo.

IMPACTOS NA CLÍNICA

Com a tecnologia cada vez mais presente em nossas vidas, alguns casais se adaptaram muito bem, usando-a a seu favor. Estudos consultados relatam que, em casais bem ajustados, a comunicação virtual pode ser usada para aproximar indivíduos, de forma atenta e carinhosa. Assim, casais que precisam se afastar, em viagens a trabalho, por exemplo, podem usar recursos como chamadas de vídeo via Skype, ou outros. Aplicativos de mensagens – como o WhatsApp ou Messenger – também podem tornar a comunicação mais ágil. A dinâmica on-line do casal impacta diretamente na sua satisfação com o relacionamento – assim como o que faz na vida presencial.

Casais com habilidades de comunicação bem desenvolvidas provavelmente se desentenderão menos sobre o uso da tecnologia ou sobre sua linguagem. Porém, casais que se encontram com problemas podem correr mais riscos, com a expansão dos aplicativos e sites de relacionamento amoroso. Queixas de uso excessivo de tecnologia, para a manutenção de relacionamentos paralelos, têm surgido cada vez mais nos consultórios de Psicologia. Profissionais da área precisam entender a linguagem digital e os comportamentos que surgem a partir dela, como, por exemplo, sexting e cybersexo.

Muitas vezes, as queixas relativas ao ciúme colocarão profissionais em situações antes impensáveis. Vários clientes trazem prints de tela ou áudios de conversas, pedindo uma opinião profissional, como um aconselhamento ou uma sentença a partir da constatação de uma possível traição. Questões éticas também se apresentam, em relação à vigilância e quebra de privacidade: não são raros relatos de violação de privacidade, como o já normalizado “fuxicar” do celular do(a) parceiro(a) quando surge a oportunidade.

COMO A TERAPIA AJUDA

É importante saber diferenciar o que é “normal” ou “saudável” do que é “patológico”. Tentaremos descrever algumas situações. Por exemplo, acompanhar as atualizações do(a) parceiro(a) nas redes sociais pode ser bem aceito. Porém, ficar vigiando e monitorando para ver se a pessoa amada está disponível on-line ou não a ponto de perder o foco na própria vida e comprometer sua saúde e trabalho não é saudável. Em situações mais graves, o ciúme on-line pode se correlacionar com baixos níveis de satisfação com o relacionamento, assim como abuso psicológico e físico, incluindo a perseguição persistente (stalking) de ex-namorados(as), tanto no ambiente virtual quanto na vida real.

Cada vez mais parece impossível viver exclusivamente off-line. Talvez só sobrevivam os relacionamentos amorosos onde haja flexibilidade, capacidade de negociação, respeito e empatia. É indicado, sim, partilhar com o(a) parceiro(a) o quanto se fica insegura (o) com seu comportamento on-line. Ou seja, entrar em contato com essa emoção, expressá-la, pode ser a melhor forma de conseguir uma mudança de comportamento – espontaneamente.

Dessa forma, há um trabalho a ser feito individualmente, como, por exemplo, investigar por que dar tanta importância a algo que está na rede ao invés de aproveitar o que está perto e acontecendo. Que emoções foram acionadas com o comportamento dele ou dela? Medo do abandono, sensação de fracasso, vergonha de ser traído (a)?

Já em terapia de casal, o maior desafio é aprender a expor suas vulnerabilidades. O treino de habilidades de comunicação permitirá que a pessoa solicite ao par a mudança de comportamento. É preciso coragem, e abertura, mas esse é o caminho para melhorar a qualidade do relacionamento.

Para que o relacionamento seja satisfatório, é muito importante que cada uma das pessoas envolvidas olhe para seus traumas emocionais pessoais. Assim, é possível separar o que pertence a si do que é mera imaginação, projetada em outra pessoa – que, muitas vezes, não faz ideia do sofrimento causado. Ou que pode ter um histórico amoroso diferente, ou apenas valores diferentes, prezando mais a sua própria liberdade, mas sem nenhuma intenção de ter outro(s) relacionamento(s) amoroso(s) em paralelo.

É possível perceber, mesmo nas consultas individuais, a partir do histórico do (a) cliente, eventuais distorções cognitivas, descritas pela terapia cognitiva; elas surgem de experiências anteriores, nada tendo a ver com a realidade atual. Um comportamento do(a) parceiro(a) on-line pode ativar memórias de experiências traumáticas de outros relacionamentos, gerando comportamentos desproporcionais. Quem já foi traído (a), ou já viu isso acontecer em relacionamentos próximos, pode generalizar, fazer inferências arbitrárias e ter um raciocínio emocional.

DICAS

A comunicação sempre será o melhor caminho para estabelecer o que é aceitável ou não, o que é permitido ou não. Algumas questões: expor ou não o status do relacionamento no Facebook pode ser um problema a ser discutido. Há casais que fazem questão de que essa informação seja pública, por variadas razões, outros optam por deixar indefinido. Não há certo ou errado, há o que serve para aquele casal específico. Que tipo de fotos pessoais devem ser postadas? Selfies incomodam?

Como a antropóloga Ellen Fisher apontou, as nossas necessidades emocionais são as mesmas da era analógica. Queremos conexão, pertencimento, nos sentirmos valorizados. Ou seja, a tecnologia não mudou as pessoas – porém, há um grande temor de se expor, de mostrar vulnerabilidade. E,assim, muitas pessoas adotam comportamentos que acabam levando a rompimentos. Como dito anteriormente, muitas vezes o(a) parceiro(a) não faz ideia do que um post pode causar de sofrimento.

Alguns casais adotam caminhos mais radicais, por assim dizer, criando perfis conjuntos ou trocando senhas entre si, mas outros acham esse tipo de acordo impensável, como se estabelecesse, de antemão, que a outra pessoa não merece confiança. Vale lembrar que tudo pode ser burlado, e, por esse motivo, independentemente do que o casal decida fazer, o importante é conversar sobre o tema, buscando entender o ponto de vista do(a) parceiro(a), desenvolver flexibilidade psicológica e cognitiva, podendo respeitar os desejos e expectativas de cada um.

COMO LIDAR?

De acordo com nossa experiência clínica, no início de uma terapia cuja queixa central é o ciúme retrospectivo, as seguintes informações precisam ser transmitidas:

1- Qualquer pessoa pode sofrer de ciúme retrospectivo, não importando gênero, idade ou orientação sexual;

2- O passado não pode ser modificado, portanto, sofrer por algo que não podemos controlar é desperdício de tempo e energia;

3- Todas as pessoas possuem passado e nossas experiências de vida foram importantes para nos tornar quem somos hoje;

4- Redes sociais e aplicativos de mensagens são combustíveis para o ciúme e seu uso deve ser limitado;

5- Deve-se trabalhar em prol do relacionamento, construindo junto com seu (sua) parceiro (a) uma nova história, no presente.

Por último, o (a) paciente deve ser lembrado (a) de que relações amorosas saudáveis são baseadas em transparência e em valores como respeito, sinceridade, compreensão e confiança.

OUTROS OLHARES

LAVA ROUPA TODO DIA

O isolamento obriga as famílias a se virar sem empregada. Além de tomar conta das redes sociais, a mudança abre uma reflexão sobre as relações servis no Brasil

Entre as muitas mudanças inimagináveis que o planeta vem enfrentando em consequência da pandemia de Covid-19, uma afeta diretamente o Brasil: pela primeira vez desde o descobrimento, praticamente, boa parte das famílias está tendo de se virar sem “secretárias”, “assistentes”, ”ajudantes” ou o nome que se dê hoje em dia às empregadas que cuidam do trabalho doméstico. Morando longe, convivendo com um grande número de pessoas e tendo de pegar transporte público, as domésticas se tornaram um risco para seus patrões – e eles para elas, é claro – e foram dispensadas, ao menos temporariamente, o que obrigou muita gente a pegar no pesado pela primeira vez na vida. Espelho (um tanto distorcido) do cotidiano, as redes sociais viraram palco de uma espécie de reality show da faxina, em que anônimos e famosos – muitos, muitos famosos – se exibem lavando louça, varrendo a casa e desvendando os mistérios do aspirador de pó. São imagens que refletem o momento, sem dúvida, mas nem por isso deixam de abrir uma fresta para a reflexão sobre as relações servis tão enraizadas na cultura nacional. “A pandemia está jogando luz sobre uma realidade brasileira que remete ao período escravista”, aponta a historiadora Mary Del Priore.

A estranheza que todo mundo sente ficando dentro de sua residência o dia inteiro se amplia quando a família tem de dar conta da casa, comida e roupa lavada, um conjunto de atividades que a população mais favorecida quase sempre terceirizou. Estudos mostram que o Brasil tem o maior contingente de domésticas do mundo: segundo levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), são mais de 6 milhões de pessoas trabalhando em casas de família, 92% delas mulheres, a maioria negra. “Isso ainda é reflexo da transição do trabalho escravo para o ofício doméstico remunerado, uma demonstração de que a dinâmica servil e a prevalência de afrodescendentes se mantiveram”, ressalta a historiadora Lorena Féres Telles, autora de um livro sobre o tema. Enquanto na Europa e nos Estados Unidos – outro país de passado escravagista – contratar pessoas para cuidar dos afazeres da casa atualmente é exclusividade dos muito ricos, no Brasil o hábito permanece entranhado, alimentado por um sistema de dependência de parte a parte. “Além do legado histórico, a desigualdade social e a falta de qualificação criam um círculo vicioso”, observa o filósofo Luiz Felipe Pondé. Por isso mesmo, ele não tem esperança de que a mudança se sustente para além da pandemia. “Não tenho dúvida de que essa experiência de igualdade é temporária. As domésticas voltarão”, afirma.

Enquanto isso, na falta de viagens glamourosas, festas de arromba e comprinhas que precisam ser compartilhadas, uma infinidade de fotos e vídeos postados nas redes sociais pelos isolados sociais estampa mãe, pai, filha e filho empenhados em alguma atividade do lar que, até pouco tempo atrás, só conheciam de ouvir falar. Com benefícios extras, inclusive. A atriz Juliana Paes publicou nos stories do Instagram µm vídeo em que passa a vassoura na casa e filosofa: “Cheguei à conclusão de que varrer pode ser muito terapêutico. Uma coisa meio de ficar meditando”. Flavia, mulher do cantor Luciano Camargo, mostrou o marido lavando panos (não muito) sujos notam que ele aproveitou para exaltar seu caráter: com ele não tem “mi-mi-mi ou ego”. Moradora de um apartamento de 800 metros quadrados em Higienópolis, bairro nobre de São Paulo, a apresentadora Adriane Galisteu exibiu nas redes sociais bolhas e rachaduras nos dedos após limpar o banheiro. “Não fazia uma faxina havia dez anos”, disse. ”Estou só com um dos meus cinco ajudantes e dedico cada dia a deixar brilhando uma parte da casa: já limpei a academia, a sala de brinquedos. Estou até querendo consertar uns rejuntes”, brinca.

No caso das celebridades, fica sempre a pulga atrás da orelha: é verdade ou só pose? “É o tipo de postagem que humaniza, cria empatia e uma identificação maior da pessoa com o público. Funciona bem como marketing”, diz Igor Fidalgo, da agência Neon Mind, especializada em branding digital. A atriz Maitê Proença, de 62 anos muito bem conservados, também desempenha seu papel no show da limpeza nas redes e concorda que pode parecer forçado. Mas garante que ela, de fato, dispensou os empregados. E admite que sim, está estreando na faxina. Maitê já publicou vídeo em que dança, animada, com um rodo, e outro em que aparece passando o aspirador de pó (“Se você é como eu, está fazendo isso pela primeira vez, recomendações: troque apoio de perna, alongue”). Conta com orgulho que também domou o “bicho de alta complexidade” que é a máquina de lavar roupa e está se arriscando na cozinha. “Essa doença nos nivelou abruptamente”, reflete. Nos lares brasileiros movidos a domésticas, é um avanço – pelo menos enquanto durar.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 20 DE ABRIL

MORRER SE PRECISO FOR, PECAR NUNCA

Se o nosso Deus, a quem servimos, quer livrar-nos, ele nos livrará da fornalha de fogo ardente… (Daniel 3.17a).

O pecado é o pior de todos os males. O pecado é pior que a própria morte. O pecado é filho da cobiça e mãe da morte. A morte não pode separar-nos do amor de Deus, mas o pecado pode lançar o homem no inferno. O pecado é maligníssimo e enganador. Apresenta-se vestido com roupagens finas, mas seus trajes verdadeiros não passam de um trapo nojento. Sua voz é macia e sedutora, mas ele esconde atrás dessa fala sedosa o anzol da morte. Promete mundos e fundos, mas quem se rende a seus encantos acaba arruinado. Oferece taças transbordantes de prazeres, mas em seu banquete só existe o licor da morte. Felizes são aqueles que preferem a morte ao pecado, pois é melhor morrer em santidade que viver como escravo do pecado. José preferiu ir para a cadeia a deitar-se na cama do adultério. Preferiu a liberdade de consciência na prisão a viver na cama de sua patroa com a consciência prisioneira da culpa. Preferiu deixar sua defesa nas mãos de Deus a tentar arrancar sua túnica das mãos de uma adúltera. Nesse mundo em que os valores morais são tão vilipendiados, o adultério é incentivado e a fidelidade conjugal é ridicularizada, precisamos aprender com o exemplo de José do Egito. Não vale a pena curtir um momento de prazer e ter nosso testemunho manchado pelas gerações pósteras. Não vale a pena ceder à pressão ou à sedução do pecado e depois viver prisioneiro da culpa. Nosso lema deve ser: Morrer se preciso for, pecar nunca!

GESTÃO E CARREIRA

ISOLAMENTO QUE DÁ LUCRO

Por trás da paralisia de parte da economia, há negócios e empresas que aceleram suas vendas e resultados. E as mudanças nos hábitos de consumo impostas pelo distanciamento social criam oportunidades para inovar e crescer.

Há quase dois séculos, desde que o frade austríaco Gregor Johann Mendel (1822-1884) documentou seus estudos sobre a mutação genética de plantas e animais, milhares de cientistas, biólogos e geneticistas se dedicam a pesquisar e compreender a complexidade da intensa metamorfose da vida na Terra. Até agora, o consenso é de que a tão temida capacidade de genes, DNAs e cromossomos de se reinventar e lutar pela sobrevivência é a resposta para a longevidade da própria existência. Essa mesma lógica microscópica da adaptação das espécies rege o mundo da economia e dos negócios — fenômeno que, muitas vezes invisível, fica mais evidente na hostilidade do ambiente de pandemia. Nas últimas semanas, enquanto empresários de todos os portes e setores suam frio diante das incertezas geradas pela Covid-19 e da inevitável recessão global, inúmeras atividades têm observado uma explosão de demanda. Atividades como ensino a distância (EAD), telemedicina, delivery de todo tipo, e-commerce de alimentos e bebidas, além de serviços relacionados à saúde estão remando contra a maré das preocupações — e, evidentemente, adaptando-se às novas necessidades dos clientes em um cenário de isolamento social.

Muitos desses negócios são nutridos pelo instinto de sobrevivência. Tanto é que carioca MAG Seguros (antes chamada de Mongeral), empresa bicentenária com faturamento de R$ 1,4 bilhão em 2019, registrou no primeiro trimestre deste ano um crescimento de 17% nas receitas em relação ao mesmo período do ano passado. Para o CEO da companhia, Helder Molina, a expansão vem sendo puxada pela Covid-19. “As pessoas passaram a se preocupar mais em como deixar a família assistida caso aconteça algo pior nesse momento. Pensar na morte está começando a deixar de ser um tabu”, diz Molina. “Dez em cada dez corretores nossos ouve, todos os dias, a mesma pergunta: ‘o seguro cobre coronavírus?’”, afirma o executivo, que destaca uma visível mudança de visão dos consumidores. Pelos cálculos do Banco Mundial e da seguradora Swiss Re Sigma, o segmento de seguros de vida movimenta o equivalente a apenas 0,2% do PIB brasileiro. Nos EUA, o índice é 1,8%. No Reino Unido, 3,5%.

O setor de seguros é um dos que cresce na contramão da maioria das empresas, mas está longe de ser o único. Estudo realizado pela consultoria americana Bain & Company estratificou em quatro faixas como os principais segmentos econômicos enfrentaram as primeiras semanas pós-pandemia em todo o mundo. No topo estão os que tiveram explosão de demanda e que devem manter a alta no longo prazo (além de companhias de seguro, estão planos de saúde, ensino a distância, entretenimento on-line, ferramentas para trabalho remoto, telemedicina e nutrição e saúde); seguido por setores em que a demanda explodiu, mas deve se estabilizar no longo prazo (como alimentação e produtos de limpeza); o que tiveram forte queda na crise, mas podem apresentar pico no pós-quarentena (eletrodomésticos, serviços de beleza e roupas e acessórios), e o que caíram muito e devem ter recuperação lenta (academias, eventos, restaurantes, hotéis e setor de viagens). Em fase final de produção, o recorte brasileiro da pesquisa deve apontar movimento semelhante ao resto do mundo. Na avaliação da sócia da unidade brasileira da Bain & Company, Luciana Batista, o comportamento do brasileiro, no momento, se concentra em consumo de bens essenciais e segmentos na área de tecnologia. “Mesmo com empresas de setores de vestuário, bares e restaurantes terem se adaptado à crise com serviços on-line, vai levar tempo para o digital cobrir as perdas por conta da queda drástica”, diz.

O que já se sabe, diante da necessidade de ficar em casa, é que a tecnologia se tornou uma importante aliada da quarentena. Um levantamento realizado pela Catho Educação mostra que houve, entre 21 de março e 6 de abril, um aumento de 68% em matrículas para cursos de ensino a distância (EAD) ou semipresenciais. Ainda de acordo com o levantamento, as primeiras semanas de isolamento já apontaram crescimento. Entre a semana de 3 e 20 de março, a plataforma já havia registrado acréscimo 44% na procura por cursos a distância. Entre as disciplinas mais buscadas estão Administração, Gestão de RH, Biomedicina, Ciências Contábeis e Logística. “Além do baixo custo, em comparação aos modelos tradicionais de ensino, os cursos EAD têm sua metodologia de enfoque maior na prática profissional, ideal para uma aprendizagem à distância”, garante Fernando Gaiofatto, diretor da Catho Educação. “No atual cenário, o ensino pode ser encarado também como oportunidade, não só de qualificação mas também de adaptação às circunstâncias”, afirma. O mesmo levantamento constata que, assim como os trabalhadores, o mercado de trabalho está mais aberto em relação a candidatos com cursos a distância: 79% dos recrutadores participantes da pesquisa disseram que formação EAD ou presencial deixaram de ser critério determinante de avaliação para recrutar profissionais.

A escola de idiomas Babbel, que atua 100% na plataforma on-line, detectou aumento de 25% entre a segunda quinzena de março e o começo de abril. Para Vivianne Ianagui, gerente de mercados da Babbel para América Latina e países ibéricos, há potencial para mais crescimento a partir dessa situação de isolamento. “Março foi o mês que registrou maior número de assinaturas desde que a empresa foi criada, há 12 anos. Em comparação ao mesmo mês do ano passado, a alta global foi de 50%”, diz. “E acredito que até o fim do mês o Brasil alcance esse patamar”. Seguindo a companhia, o aplicativo de ensino de idiomas é baixado, em todo mundo, cerca de 120 mil vezes ao dia, o que significa que, desde 2008, já participam por algum curso da empresa mais de 500 milhões de usuários. “Quando ficam em casa, as pessoas buscam o que fazer e há oportunidade de aprender algo. A gente observou esse movimento nesse período de pandemia e o que sempre foi muito forte na Europa e nos Estados Unidos começa a ser percebido no Brasil, que ainda tem uma cultura de ensino mais off-line”, diz a executiva, que é brasileira e atua na Alemanha, sede da empresa. Com faturamento global de € 100 milhões por ano, a Babbel estuda ampliar ainda mais sua presença de mercado no período de quarentena. A empresa lançou cursos gratuitos de um mês para estudantes de Ensino Médio e universitários. Desde o dia 8 deste mês, 1,9 mil pessoas aderiram aos cursos. “Entendemos que essa é uma forma de contribuir com a sociedade nesse período de dificuldade enfrentado por pessoas no mundo todo”, afirma.

Na esteira da utilização de novas tecnologias no cotidiano dos brasileiros poucos tem se beneficiado tanto quanto o e-commerce. Cálculos da Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm) apontam que nas últimas duas semanas os supermercados on-line registraram aumento de mais de 180% nas transações. “As principais altas foram contabilizadas nas categorias ‘alimentos e bebidas’ e ‘beleza e saúde’”, afirma Mauricio Salvador, presidente da entidade. Um dos maiores sites de vendas de vinhos pela internet no País, a Evino testemunha o milagre da multiplicação das vendas. A empresa, que diz responder por metade do e-commerce da bebida no Brasil, registrou aumento de 38% nas vendas entre os dias 20 e 27 de março, primeira semana da quarentena registrada pela maioria dos Estados brasileiros. Comparando fevereiro e março deste ano com o mesmo período de 2019, a empresa viu a quantidade de pedidos disparar 72% — a despeito da alta do dólar e das dificuldades logísticas geradas pela restrição de circulação em cidades e rodovias, além da suspensão das atividades de companhias aéreas. Em dois meses, com 1,2 milhão de clientes, a empresa importou 1,3 milhão de garrafas. “Em meio à pandemia, estamos apertando as margens para não repassar ao consumidor final e também renegociando com parceiros e fornecedores, ampliando prazos”, diz o cofundador da Evino, Ari Gorestein. “O crescimento de 20% previsto para 2020 será muito maior em razão da pandemia.”

Para quem prefere manter a forma por meio de uma alimentação saudável, o isolamento também trouxe mais opções. Uma das principais redes do segmento no País, a Mr. Fit, com 130 unidades em 17 estados, registrou uma alta de 10% nas vendas em abril, segundo a presidente Camila Miglhorini. Com faturamento de R$ 45 milhões, a empresa notou uma migração de clientes de fast food para cardápios mais fitness. “As pessoas, sem poder manter a rotina de exercícios, começaram a se preocupar mais com a alimentação”, diz Camila. “Além disso, pesquisas recentes mostram a importância de se manter saudável para aumentar a imunidade e consequentemente, se defender do vírus.”

Não há como ignorar o gigantesco mercado de consumo que se criou com a pandemia, em paralelo à agonia de diversos outros setores, como bares, restaurantes, hotelaria e turismo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), hoje um terço da população mundial está em quarentena. Isso significa que pelo menos 2,6 bilhões de pessoas no planeta estão dentro de suas casas há pelo menos três semanas (em alguns lugares, já passa de um mês) e precisam, ainda que de forma adaptada, retomar suas rotinas, comprar comida, bebida, remédio, ver televisão e consumir. Do sofá de casa. A comodidade, contudo, gera outro problema: o sedentarismo. A falta de atividades físicas preocupa quem já está assustado com a ameaça do novo coronavírus. E até isso é uma oportunidade de negócio.

SAÚDE

O segmento de planos de saúde está entre os que apontam crescimento no período da pandemia, com possibilidade de manutenção da curva para cima. Diante dessa realidade, muitas empresas estão acelerando os investimentos. Um exemplo disso é operadora Hapvida, companhia com sede em Fortaleza e que tem forte atuação nas regiões Norte e Nordeste. A empresa, que mantém hoje uma carteira de 6 milhões de clientes e faturou R$ 5,6 bilhões no ano passado, aumentou de R$ 30 milhões para R$ 40 milhões seu plano de investimento em modernização e expansão da rede, no ritmo do aumento da procura por planos de saúde. “Temos feito investimentos em call center, chats, telemedicina e compra de respiradores e equipamentos de proteção aos nossos colaboradores”, afirma o diretor-superintendente Bruno Cals de Oliveira. “Temos plano de implementar mais sete hospitais nos próximos três anos”, completa. O presidente da companhia, Jorge Pinheiro, testou positivo para a Covid-19.

A telemedicina é, indiscutivelmente, uma das frentes mais promissoras do mundo pós-pandemia. Na quinta-feira 16, o presidente Jair Bolsonaro sancionou a lei que regulamenta a atividade no País. Ela estabelece que por telemedicina deve ser considerado “o exercício da medicina mediado por tecnologias para fins de assistência, pesquisa, prevenção de doenças e lesões e promoção de saúde”. Segundo o texto, que já está em vigor, os médicos que optarem pelas consultas à distância devem informar os pacientes sobre as limitações da prática.

Antes mesmo da canetada presidencial, o segmento já havia se tornado uma realidade no Brasil. A empresa catarinense Wishbox Technologies, especializada em impressoras 3D e robôs de telepresença, está trazendo, com exclusividade para o País, robôs fabricados pela americana Double Robot, embalado pela disparada das encomendas de grandes hospitais e clínicas médicas em São Paulo. “O uso desta tecnologia está em forte crescimento. Com o sinal verde da lei, as pessoas sentem mais confiança no uso dos robôs, principalmente agora devido à pandemia”, afirma o diretor Tiago Marin. Ele explica que o Double Robot é um robô que se locomove sobre duas rodas e um iPad como cérebro para realizar videoconferência, sendo possível compartilhar a tela com até cinco pessoas. O rosto de quem o controla é transmitido no display, permitindo que os usuários vejam os demais participantes. A autonomia é de oito horas. A rede Notre Dame, o hospital Moinho de Ventos e o Instituto Paulo Niemeyer estão entre os principais clientes.

Outras empresas de tecnologia voltadas à saúde também estão surfando da onda dos novos tempos. A plataforma Conexa Saúde conseguiu nos 31 dias de março o que era esperado para o ano todo em captação de novos clientes, segundo o CEO Guilherme Weigert. “Como a procura foi impressionante, tivemos até que parar de buscar novos clientes. Estamos somente no receptivo”, diz. No mesmo ritmo, a startup BoaConsulta, voltada a consultas médicas a preços populares, superou a marca de 1,5 milhão de pacientes cadastrados. “Com a telemedicina, vamos fechar 2020 com crescimento de 100% no faturamento”, afirma o CEO da empresa, Adriano Fontana. Nos últimos meses, a empresa levantou R$ 15 milhões em investimentos vindos de fundos como Valor Capital Group, 500 Startups, Koolen Partners e Performa Investimentos. Fenômeno semelhante vem passando a plataforma Dandelin, que nos últimos dois meses teve aumento de 200% entre agendamento de consultas e novos cadastros, com faturamento no período equivalente a 71% de 2019. “Estamos registrando a maior demanda de nossa história com a pandemia”, diz o CEO Felipe Burattini.

ENTRETENIMENTO

Nem só de preocupação vive o brasileiro que está em quarentena. Com o inevitável cancelamento de eventos culturais, shows, peças teatrais e cinemas, os serviços de streaming vêm registrando explosão no número de acessos, que vão desde liberação de canais fechados, a sites de filmes e programas, de infantis a adultos. Portal JustWatch, que é um guia que indica onde usuários podem assistir programação on-line, mostrou aumento de tráfego de dados no Brasil, entre 9 e 17 de março, saltou 37%. Na Itália, foi de 76% e, entre os espanhóis, o aumento na procura foi de 85%.

Contra a monotonia do isolamento, milhões de pessoas têm buscado todo tipo de entretenimento na internet. Diversas operadoras de TV por assinatura e plataformas de conteúdo sob demanda começaram a liberar o sinal de alguns canais, a oferecer assinaturas gratuitas e a promover descontos. Na Itália, até mesmo o site pornô Pornhub liberou seus vídeos premium. Embora não queriam associar o sucesso de audiência a uma crise sanitária global, é evidente que a demanda nunca foi tão alta. Tanto é que os órgãos de regulação das telecomunicações da União Europeia, temendo um colapso do tráfego de dados de internet, pediriam à Netflix que reduza a qualidade de resolução dos seus filmes e séries. A empresa americana acatou o pedido por 30 dias. Uma decisão necessária para se adaptar — e sobreviver — em tempos de pandemia.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DESQUALIFICAÇÃO E DESEQUILÍBRIO

Os atos de alienação parental se manifestam principalmente após rupturas da conjugalidade e que implicam em influências psicológicas relevantes em todos os envolvidos, não apenas nos filhos

A alienação parental, definida como a rejeição injustificada de uma criança por um dos genitores como resposta ao conflito entre os pais e questões de lealdade, não é um problema novo. Porém, esse fenômeno tornou-se objeto de atenção e estudo à medida que os papéis parentais se tornaram mais equitativos.

Com as mudanças nos contratos sociais de matrimônio e nas questões de gênero quanto aos afazeres domésticos e cuidados dos filhos, cresceu o número de disputas entre os genitores pela guarda dos mesmos.

Na década de 1980, Richard Gardner criou o termo síndrome da alienação parental (SAP) para descrever comportamentos que as crianças exibiam quando eram manipuladas por um pai para rejeitar o outro. Percebe-se com frequência nos casos de disputa de guarda e separação litigiosa, em que os pais entram em um ciclo recorrente de ataque/defesa/contra-ataque, e a forma mais eficaz de atingir o outro é afetando diretamente o seu vínculo com o(s) filho(s).

Os atos de alienação parental, que difamam e desqualificam um genitor perante os olhos de uma criança, podem acontecer de forma não intencional, decorrentes de mágoas e de sentimentos de raiva pontuais que adultos costumam manifestar, principalmente após rupturas da conjugalidade.

Não deixam de ser danosos e trazer consequências para os indivíduos, porém não necessariamente quebram os vínculos afetivos existentes. Entretanto, quando se tornam repetitivos, intensos e frequentes, podem levar a criança a um conflito de lealdade.

A criança sente que deve lealdade incondicional a um de seus pais, e, por medo da perda do amor daquele genitor a quem é fortemente vinculada e por quem é manipulada, passa a excluir o outro de sua vida e de sua convivência, independentemente da boa relação prévia existente.

Considerável angústia pode ser induzida na criança contra o genitor alienado (possibilidade de dano físico, sexual ou psicológico), fazendo a criança se apegar ao alienador. A criança aprisionada nessa situação fica sujeita a um alto nível de estresse, podendo apresentar ansiedade de separação.

Não apenas permanece alinhada com o genitor guardião, como teme pela sua segurança, passando a apresentar dificuldades em se afastar de sua presença, como, por exemplo, recusando-se a ir à escola ou temendo sair de casa. Algumas desenvolvem hipocondria, sintomas psicossomáticos, transtornos do sono, transtornos alimentares e sintomas depressivos.

Na alienação parental denominada leve, a criança apresenta, na presença do alienador, alguma dificuldade para ir com o outro genitor, a qual desaparece após algum tempo de permanência a sós com este. O vínculo afetivo permanece inalterado.

Na alienação moderada, a programação por parte do alienador costuma ser intensa e este pode se utilizar de várias estratégias de exclusão. Enquanto nos casos leves a transição nos momentos de visita costuma ocorrer de forma imperturbada, nos casos moderados pode haver grandes dificuldades no momento de ir com o outro genitor. Apesar disso, a criança aceita ir com o genitor e após algum tempo se acalma, baixa a guarda, apresenta-se mais colaborativa e se envolve de forma benevolente com o genitor alienado. Comportamentos fóbicos e de ansiedade podem aparecer, mas o comportamento não é tão agressivo como nos casos graves.

Na alienação grave, a programação é extrema e contínua no tempo e no espaço. A criança na categoria grave tem atitudes extremistas. As expressões de agressividade, gritos, estados de pânico e explosões de raiva podem ser tão intensas que impossibilitam a visitação. Se colocada forçosamente junto ao outro genitor pode fugir, paralisar-se ou colocar-se tão provocadora e destrutiva que se requer que retorne ao genitor guardião. Apresenta comportamento agressivo em relação ao alienado para tranquilizar o alienador. Nesses casos a criança se funde com o alienador, a luta dele passa ser a sua luta e não raro passa a fazer uma campanha de difamação e rejeição ainda mais contundente que o próprio alienador.

O genitor rejeitado fica alijado da convivência com seu filho, sentindo-se impotente e preso numa posição de vítima passiva. Ocorre uma “interrupção na biografia” de pai (ou de forma menos frequente) de mãe), uma vez que) apesar de todos seus esforços, acaba perdendo o contato com seus filhos, não mais podendo contribuir para o seu desenvolvimento ou tomar parte na vida deles.

Quando o genitor alienado é a mãe, as mulheres costumam vivenciar muitas vezes, como dor adicional, a rejeição dos próprios familiares e amigos que acreditam que uma mãe, por ter sido separada de seus filhos, algo de errado deve ter cometido. É frequente que reajam com retraimento e depressão, e quadros psicossomáticos.

TRANSGERACIONALIDADE

Dentro dos aspectos importantes na dinâmica da alienação parental é importante ressaltar o papel da transgeracionalidade. Na transmissão psíquica transgeracional, observa-se que os conteúdos psíquicos dos avós e de outros ascendentes marcaram os conteúdos psíquicos dos filhos e de outros descendentes.

Dessa forma, os filhos receberam a herança de tudo aquilo que não está inscrito, visto ou falado, mas que foi vivido por um dos membros do sistema familiar. Mesmo estando resguardado pelo silêncio, esse conteúdo tende a se repetir em gerações subsequentes.

Pode ocorrer que uma mãe ou um pai que induzem o filho a odiar e hostilizar o outro genitor e a se afastar dele e de sua família possa ter vivenciado, quando criança, um processo de alienação parental em que teve que preterir a vinculação com o pai (ou a mãe) e a família deste(a) depois do divórcio conflituoso de seus genitores.

O conteúdo não expresso, não subjetivado, encontra, na geração subsequente, uma forma de expressão. Sem se dar conta, o alienador repete a história vivenciada, ou seja, não se sensibiliza com a necessidade da criança e com o sofrimento desta. Sem se dar conta, termina por repetir o comportamento alienador que um dos seus pais teve para com ele (ela), submetendo-o (a) à vivência da mesma dor que outrora experimentou.

Os padrões de comportamento presentes na alienação parental representam uma disfunção estrutural no sistema familiar, refletido por uma profunda triangulação e alianças transgeracionais.

No Brasil, no ano de 2010 entrou em vigor a lei n° 12.318, que dispõe sobre a alienação parental. A lei colocou em foco essa prática danosa, tornando o tema da alienação parental amplamente conhecido, embora muitas vezes pouco compreendido.

Por um lado, a lei trouxe esperança e alívio a pais, mães e outros familiares alienados da vida de seus filhos. Propiciou a esses pais subsídios para lutar pelo direito à convivência e pelo amor das crianças e adolescentes. Por outro lado, multiplicaram-se as acusações de atos de alienação parental, muitas vezes realizados por ambos os lados da disputa.

Apreciada e bem-vinda por muitos, a lei está longe de ser uma unanimidade. Muitos questionam o uso do conceito de alienação parental para justificar a rejeição de uma criança para com um pai ou mãe abusador, negligente ou emocionalmente distante.

PERÍCIA

perícia psicológica, em enquadres jurídicos e particularmente em relação à questão da guarda, apresenta grande complexidade. Se a alegação de alienação parental é frequente entre os pais em litígio, sua avaliação demanda dos profissionais uma avaliação abrangente e individualizada.

O art. 145 do Código de Processo Civil brasileiro dispõe que “quando a prova do fato depender de conhecimento técnico ou científico, o juiz será assistido por perito”. A lei de 2010, em seu artigo 5°, diz que havendo indício da prática de ato de alienação parental, em ação autônoma ou incidental, o juiz, se necessário, determinará perícia psicológica ou biopsicossocial.

É através da avaliação psicológica e seu respectivo laudo que se conseguem identificar os aspectos subjetivos que se encontram por trás das alegações de alienação parental. Os profissionais que aceitam essa incumbência devem ter expertise (ou conhecimento) na área e conhecer profundamente as questões envolvendo alienação parental.

A perícia psicológica em casos de suspeita de alienação parental deve compreender um número significativo de entrevistas, de preferência com algum lapso de tempo entre elas, para se observar a consistência do discurso dos entrevistados.

As entrevistas devem incluir, além de ambos os genitores, os membros da família extensa como avós, tios ou outros familiares que possam colaborar para a compreensão dos fatos. Também importante para melhor compreensão do caso são entrevistas com professores ou coordenadores escolares, com profissionais da área de saúde mental infantil que atendem à criança, como psicólogos e psiquiatras, e outras pessoas envolvidas que possam elucidar os quesitos propostos para a perícia.

Negligência, abuso físico e abuso sexual infantil são alegações frequentes nesses contextos e os diagnósticos diferenciais são essenciais para as tomadas de decisão do Juízo. Faz-se necessário entender a dinâmica familiar, os aspectos que levaram à ruptura dessa configuração e as motivações que levaram o casal a disputar judicialmente seus filhos.

É importante compreender o que esses filhos e essa disputa representam para cada um dos genitores, analisar o estado mental de cada genitor e da criança, e avaliar as práticas parentais. A observação da criança com cada um dos genitores, mesmo com o suposto agressor, é fundamental: “É imperativo conduzir observações das interações pai-criança, mãe-criança, incluindo irmãos em várias situações. Atenção especial deve ser dada ao grau e conforto demonstrados com cada genitor, assim como as reações, emoções e espontaneidade, todas as quais são extremamente relevantes para identificar discrepâncias entre as declarações durante as entrevistas e o comportamento real da criança”.

ABUSO

Alienação parental é uma forma de abuso psicológico e, como é frequente em outras formas de abuso, a criança vítima dessa prática não tem consciência de que está sendo maltratada e se agarra, veementemente, ao genitor favorecido, mesmo quando o comportamento desse genitor lhe causa dano.

Por essa razão, profissionais da saúde mental e da lei envolvidos em casos de alienaçã0 parental precisam olhar cuidadosamente para as dinâmicas familiares e determinar as causas da preferência de uma criança por um dos pais e sua rejeição ao outro. Se o genitor favorecido está instigando o alinhamento e o genitor alvo parece ter uma influência positiva e não abusiva sobre a criança, então as preferências da criança devem ser olhadas com cautela.

Toda história de alienação parental é de algum modo diferente. Cada pessoa tem sua voz própria e uma narrativa única. Porém, mesmo entre essas singulares experiências, alguns padrões podem ser detectados.

Baker e Darnal identificaram comportamentos parentais associados à alienação porque induzem uma criança a rejeitar de forma foi justificada o outro pai/ mãe. Eles incluem: difamar o outro genitor, falar para a criança que o outro é perigoso, afirmar para a criança que o outro não a ama, retirar o afeto ou ficar bravo quando a criança é receptiva ao outro, forçar a criança a escolher e expressar lealdade, colocar impeditivos para o contato, como agendar outros compromissos no horário da visita, confidenciar com a criança sobre os relacionamentos adultos, compartilhar os dados do processo litigioso, retirar vestígios da vivência anterior da criança com o genitor alienado, como por exemplo retirar todas as fotos, forçar a criança a rejeitar o outro, cultivar a dependência da criança com o pai/ mãe alienador, pedir para a criança espionar o outro, referir-se ao outro pelo nome (não permitir que a criança o chame de pai/mãe), referir-se a um terceiro como pai/mãe, fazer a criança manter segredos do outro, retirar o sobrenome do outro genitor do nome da criança, entre outros.

Muitas vezes esses comportamentos são explícitos e carregados de justificativas, porém muitas vezes são velados. É comum dizerem que permitem e incentivam a criança a ir com seu pai (ou sua mãe), porém é a criança que não quer e não desejam forçá-la a ir com o outro genitor. É comum o incentivo ser paradoxal, como por exemplo: “Filho vá com sua mamãe. O papai vai ficar chorando de saudade, mas pode ir”.

A criança, quando é trazida para a perícia psicológica, geralmente vem instruída pelo genitor alienador para apresentar as falas e os depoimentos que, aquele acredita, lhe darão credibilidade.

Assim, é comum as crianças apresentarem uma narrativa com reproduções do discurso adulto: “Meu pai só dá coisas materiais, ele não dá afeto” (depoimento de uma criança de 5 anos). “Ela (referindo-se à mãe) passava a mão no meu traseiro; ela se aproveitava de mim”. Também a criança costuma dizer que é ela própria que não quer ir com o alienador, pois sabe o que quer, que irá quando tiver vontade.

CREDIBILIDADE

Alguns autores, na avaliação da credibilidade do relato da criança, propõem que sejam analisadas as características das declarações da criança, suas modalidades gerais, as particularidades do conteúdo e as motivações da declaração, sempre considerando o contexto da relação eventualmente preexistente com o agressor.

A perícia psicológica, em casos de alienação parental, também deve contemplar uma análise da personalidade dos genitores, uma vez que principalmente em alienações parentais graves, em que são feitas falsas acusações de abuso sexual ou a programação de difamação é muito acentuada, foi constatada a presença de transtornos de personalidade, tais como transtorno de personalidade paranoide, transtorno de personalidade histriônica, transtorno de personalidade narcisista, transtorno de personalidade antissocial e síndrome de Munchausen ou transtorno fictício por procuração.

Para corroborar suas hipóteses, o perito pode fazer uso de testes e instrumentos psicológicos que servirão como recursos para fundamentar suas conclusões diagnósticas. Os testes poderão ser aplicados nos genitores, assim como na criança.

Normalmente são utilizados testes projetivos, testes fatoriais de personalidade e instrumentos de avaliação de estilos parentais e de relacionamento pais e filhos. Em casos onde existe alegação de abuso sexual podem-se utiliza instrumentos específicos, (como o NICHD). Também imprescindível utilizar tabelas de estratégias e comportamentos de alienação parental, listar os comportamentos encontrados e determinar o grau de alienação parental.

Pode-se concluir que a perícia psicológica, em casos de alienação parental, é uma tarefa que demanda avaliação cuidadosa, na qual todos os envolvidos devem ser ouvidos, testados e observados. Por fim, a elaboração do laudo pericial deverá conter os dados colhidos nas entrevistas, os resultados da testagem, a análise e as conclusões. O profissional deve ter em mente que, invariavelmente, o Juízo considera este um recurso essencial para suas tomadas de decisão.

Os processos de divórcio envolvendo questões de guarda costumam ser devastadores para as crianças e para os genitores vítimas da alienação parental. São questões que demandam avaliações criteriosas e agilizadas no sentido de preservar a saúde mental da criança e seus vínculos de afeto, e assim minimizar as consequências da disputa litigiosa.

OUTROS OLHARES

ELAS VIERAM PARA FICAR

O uso de máscaras é um caminho sem volta. E não se trata apenas de um uso de emergência para proteção individual, mas de uma estratégia de segurança coletiva, que fará com que as pessoas, daqui para frente, se protejam mutuamente. Seus efeitos imediatos, impedir o lançamento de aerossóis respiratórios e gotículas de saliva em quem está por perto e filtrar parcialmente o ar que se respira, contribuem para conter o avanço da doença e diminuem sua velocidade de contágio. No Japão, uma das razões para a pandemia de coronavírus estar sob relativo controle é o uso generalizado do equipamento. No Brasil e em outros países verifica-se uma mudança cultural e a recomendação das autoridades de saúde é que sejam usadas em espaços públicos e em situações de convívio social que envolvam filas e aglomerações.

Pesquisas recentes confirmam que a máscara reduz a quantidade de microorganismos infecciosos, seja o coronavírus ou o vírus Influenza, no ar que uma pessoa contaminada lança no ambiente. “Em termos de evidência científica, não há justificativa para o uso irrestrito de máscara, mas, se todo mundo pensar em proteger o outro, no final haverá um risco menor para todos”, diz o médico Luís Fernando Waib, epidemiologista do Hospital Beneficência Portuguesa de Campinas e membro da Sociedade Brasileira de Epidemiologia (SBI). “Seu uso generalizado é um bom hábito, principalmente em grandes cidades onde o contágio é acelerado”. No município de São Paulo, por exemplo, onde há alta concentração de pessoas e um grande número de casos, com muitos assintomáticos, faz todo sentido um uso disseminado de máscaras de pano. “Não faz sentido, por exemplo, usar máscaras cirúrgicas para praticar corrida de rua, até porque há falta desse tipo de material de proteção nos hospitais”, completa Waib.

Nas últimas duas semanas, as autoridades sanitárias de praticamente todos os países, orientadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS), mudaram suas recomendações sobre o uso de máscaras para combater a propagação do coronavírus. Se antes elas vinham sendo indicadas apenas para agentes de saúde e pessoas com sintomas da doença, agora, diante da evidência de que indivíduos assintomáticos transmitem o micróbio, a recomendação é de que sejam usadas por toda a população. Na quarta-feira 8, o Centro Europeu para a Prevenção e Controle de Doenças (ECDC, da sigla em inglês) divulgou um informe nesse sentido para todos os países da região. Nos Estados Unidos, dois dias antes, o presidente Donald Trump reforçou a recomendação da autoridade sanitária para que todos os americanos usem panos e lenços para cobrir o rosto em público e conter a disseminação da doença. No Brasil, foi lançada uma campanha para estimular a população a produzir suas próprias máscaras e usá-las sempre que sair de casa. O uso do equipamento, porém, não substitui medidas preventivas fundamentais, em especial o distanciamento social e a higienização das mãos com água e sabonete ou com álcool a 70%.

TIPOS DE MÁSCARAS

As máscaras que passaram a ser promovidas mundo afora são as de cotton, de tecido 100% algodão, de tecido antimicrobiano e de TNT (tecido-não-tecido), todas matérias-primas de baixo custo que podem ser facilmente obtidas e permitem, inclusive, que sejam fabricadas em casa. Roupas em bom estado de conservação podem ser utilizadas para produzi-las. Além da caseira, há outros dois tipos de máscaras: as cirúrgicas e as N-95, que, no Brasil, recebem a sigla PFF-2 e contam com um respirador acoplado. Essas continuam destinadas a uso profissional por causa da escassez atual do produto no mercado global. Um dos objetivos é evitar que haja concorrência entre as pessoas saudáveis ou assintomáticas com os profissionais de saúde e os doentes pelos equipamentos de proteção. As cirúrgicas devem ser usadas prioritariamente nos hospitais por doentes, médicos e enfermeiros e as N-95, exclusivamente por profissionais. “A máscara caseira é muito melhor do que nada e, com ela, você coloca muito menos a mão na boca e no nariz, evitando o contagio”, afirma a médica Raquel Stucchi, infectologista do Hospital da PUC, em Campinas.

As máscaras caseiras são recicláveis e podem ser lavadas depois do uso. Segundo Raquel, elas são capazes de reter até 70% das gotículas, mas não devem ser utilizadas por mais de duas horas ou até ficarem úmidas. As cirúrgicas e não cirúrgicas descartáveis funcionam como uma barreira para a entrada de gotículas de pacientes infectados e admitem uma única utilização. As N-95 duram até 30 dias e se estiverem bem vedadas garantem uma proteção de até 99%. É preciso que o equipamento esteja selando a pele e a pessoa que vá utilizá-lo não pode ter barba porque os pelos faciais facilitam a entrada de microorganismos.

Um estudo feito pelo Centro de Inovação da USP (InovaUSP), em São Paulo, chamado de “Projeto Respire!”, está analisando todas as matérias-primas usadas em máscaras de proteção individual e evidenciam os benefícios do uso do equipamento. O vírus da Covid-19 mede, em média, 120 nanômetros (um nanômetro é um bilhão de vezes menor que um metro), e é fundamental que o material da máscara seja capaz de filtrá-lo tanto na saída como na entrada do ar. Quando lançado pela respiração, o vírus fica em suspensão no ambiente e o objetivo da proteção é evitar que penetre no nariz ou na boca do usuário. A eficiência de cada material varia de 45%, no caso das máscaras de algodão de camiseta, e vai até 97%, para as N-95, se estiverem totalmente vedadas. Máscaras cirúrgicas de TNT e de outros materiais tem uma eficiência de filtragem que pode variar de 60% a 95%. Com base nesses estudos, o “Projeto Respire!” prevê a produção de 1 milhão de máscaras que serão confeccionadas por grupos e cooperativas de costureiras e distribuídas para 8 mil profissionais de saúde em hospitais e centros médicos.

Além do estímulo para a produção caseira e artesanal, a corrida para obtenção do equipamento está fazendo com que as empresas especializadas e não especializadas ampliem a fabricação do produto. Há inúmeros tutoriais na internet ensinando como ele deve ser feito, com três camadas e o elástico. Oficinas de costura trabalham a todo vapor na sua produção. E alguns hospitais estão instalando suas próprias oficinas para garantir a disponibilidade de material de proteção. No Beneficência Portuguesa, em Campinas, há um grupo de 14 costureiras dedicadas à tarefa. Segundo Waib, a produção interna já cobre 50% das necessidades do hospital. “Já soube de um colega que levou um rolo de tecido-não-tecido para uma escola de samba produzir máscaras”, diz o epidemiologista. Ele afirma que, encontrando o material, é bem fácil de fabricar o equipamento. “A gente está esperando que a grande indústria aumente sua produção, mas, enquanto isso não acontece, várias providências podem ser tomadas”, afirma.

Uma resolução (356/2020) do Ministério da Saúde publicada no final de março, que dispõe sobre a fabricação e importação de máscaras cirúrgicas, respiradores particulados N-95 e PFF-2 ou equivalentes, óculos de proteção e escudos faciais, liberou as normas técnicas e dispensou excepcional e temporariamente os potenciais fabricantes de autorizações sanitárias para produzir o equipamento. Confecções como Malwee e a Hering planejam iniciar a produção de máscaras. A Hering estuda o assunto, mas ainda não definiu como esta operação vai funcionar. A Secretaria de Administração Penitenciária de São Paulo adquiriu insumos, tecido e elásticos, para que presidiários do estado produzam 320 mil máscaras descartáveis destinadas para procedimentos simples (não-cirúrgicos). A fabricação começou na semana passada e a previsão é que sejam confeccionadas 26 mil máscaras por dia. Cerca de 200 presos, homens e mulheres, participam do projeto. O custo de cada máscara é de R$ 0,80. No Amazonas, o governo local tomou uma iniciativa semelhante.

MUDANÇA CULTURAL

A maior fabricante de máscaras N-95 no Brasil, a multinacional 3M, anunciou que está se mobilizando em várias partes do mundo “para ampliar sua produção do equipamento ao máximo e atender ao crescimento da demanda”. Por aqui, a empresa contratou 40 novos funcionários e tem operado 24 horas por dia e 7 dias por semana. O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, informou na terça-feira 7 que o governo federal comprará toda produção local da 3M. “A gente vai adquirir a capacidade de produção total dessa fábrica no Brasil”, disse Mandetta. “A gente imagina que vai conseguir ter de 1,5 milhão a 1,8 milhão de máscaras para o nosso mercado confirmadas no mês de abril. Depois, nos meses de maio e junho. Quer dizer, a gente vai ter um abastecimento razoável”. Mandetta também pediu que pessoas que tenham máscaras N-95 em casa as doem para os hospitais e utilizem, no lugar, equipamento de proteção caseiro ou descartável.

Se em alguns países asiáticos, as máscaras podem ser consideradas um símbolo de boa educação e respeito ao próximo, no Ocidente cobrir o rosto tem sido, até agora, uma prática pouco usual e cercada de preconceitos étnicos-religioso. A prática no Japão, por exemplo, disseminou-se a partir de 2002, quando eclodiu a epidemia de Síndrome Respiratória Grave (SARS) e se intensificou, em seguida, com a gripe aviária e a gripe suína. O medo fez com a população aderisse em massa ao equipamento. E, como acontece agora, houve escassez de máscaras, que passaram a ser importadas da China. Preocupadas com novos surtos, as pessoas passaram a estocá-las e seu uso se tornou um hábito.

A partir de agora a prevenção contra doenças respiratórias se tornará obsessiva também no Ocidente e o mesmo que aconteceu no Brasil se repetirá em vários países. Haverá uma mudança cultural e as máscaras, um recurso altruísta, deverão ser incluídas como mais um item básico de vestuário e, inclusive, como um produto da moda. Mesmo com o fim da pandemia de coronavírus, esse quadro tende a permanecer, principalmente durante as mudanças de estação, quando aumenta a incidência de doenças respiratórias. No começo do outono, exatamente o momento atual, muita gente acaba tendo alguma tosse e, nessa época, sazonalmente, apresentam sintomas de gripe. Antes associadas apenas a países da Ásia, como China e Japão, agora as máscaras passarão a dominar as paisagens urbanas dos Estados Unidos, do Brasil e dos países da Europa. O sentimento de autopreservação vai causar uma mudança nos costumes. Evidentemente, o equipamento não substitui as recomendações fundamentais de lavar as mãos frequentemente e manter o distanciamento social. Mas, desde que sejam bem usadas, não há mais dúvidas de que elas são um eficiente obstáculo contra a infecção pelo coronavírus.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 19 DE ABRIL

AS TUAS MÃOS DIRIGEM MEU DESTINO

Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem (Genesis 50.20a).

A vida de José é uma prova incontestável de que a mão de Deus dirige o nosso destino. Mesmo quando enfrentamos revezes e somos golpeados pelas maiores injustiças, ainda assim somos o alvo da generosa providência divina. José, mesmo sendo amado pelo pai, foi odiado pelos irmãos, vendido como escravo para uma terra estranha, traído pela patroa e esquecido pelo amigo de prisão. Passou treze anos de sua vida navegando por mares revoltos, caminhando por desertos tórridos, cruzando vales escuros. Parecia que os melhores anos de sua vida estavam sendo desperdiçados num amontoado de problemas sem solução. Contudo, no meio desse denso nevoeiro estava a mão providente de Deus. A vida de José não estava à deriva, como uma lasca de lenha jogada de um lado para o outro ao sabor das ondas no mar da vida. As rédeas de seu destino estavam sob o controle daquele que se assenta na sala de comando do universo. O sofrimento não veio a José para destruir-lhe a vida, mas para fortalecer a musculatura de sua alma. Deus tirou José do calabouço e o Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem (Genesis 50.20a).

A vida de José é uma prova incontestável de que a mão de Deus dirige o nosso destino. Mesmo quando enfrentamos revezes e somos golpeados pelas maiores injustiças, ainda assim somos o alvo da generosa providência divina. José, mesmo sendo amado pelo pai, foi odiado pelos irmãos, vendido como escravo para uma terra estranha, traído pela patroa e esquecido pelo amigo de prisão. Passou treze anos de sua vida navegando por mares revoltos, caminhando por desertos tórridos, cruzando vales escuros. Parecia que os melhores anos de sua vida estavam sendo desperdiçados num amontoado de problemas sem solução. Contudo, no meio desse denso nevoeiro estava a mão providente de Deus. A vida de José não estava à deriva, como uma lasca de lenha jogada de um lado para o outro ao sabor das ondas no mar da vida. As rédeas de seu destino estavam sob o controle daquele que se assenta na sala de comando do universo. O sofrimento não veio a José para destruir-lhe a vida, mas para fortalecer a musculatura de sua alma. Deus tirou José do calabouço e o colocou no trono. Deus levantou José como salvador de seus irmãos e provedor do mundo. Enquanto tudo parecia perdido aos olhos humanos, Deus estava escrevendo uma linda história. Não se desespere, não perca a esperança. O último capítulo da sua vida ainda não foi escrito. Confie em Deus. Ele está no controle. As onipotentes mãos do Senhor dirigem o seu destino!

GESTÃO E CARREIRA

A “LIVEMANIA” FINANCEIRA

As corretoras, as plataformas de investimentos e os bancos fazem uma corrida para ver quem produz mais transmissões on-line

Se para cada nova live de uma plataforma de investimento ou instituição financeira a Bolsa subisse     1 ponto que fosse, a economia já estaria a salvo. Um dos principais efeitos colaterais da pandemia do novo coronavírus nas finanças, essas lives têm produzido incontáveis horas de transmissões    on-line. São entrevistas e depoimentos de empresários, executivos de empresas, integrantes do alto escalão do governo, líderes do congresso, gestores e economistas brasileiros, estrangeiros – e até médicos.

A partir do momento em que ficou claro que o Ibovespa, principal índice da Bolsa de Valores de São Paulo estava tomando um tombo de proporções épicas, as instituições correram para acalmar os investidores, muitos em seu primeiro grande crash. O temor só aumentou a cada medida de isolamento social tomada por governadores que por sua vez se refletiram em previsões cada vez mais pessimistas para o tamanho do buraco na economia real.

Nesse contexto, as transmissões são uma chance para as empresas reafirmarem sua marca em um momento de turbulência inédita, saciando a sede crescente de seus públicos por meio de conteúdos que mesclam informação com inspiração, uma espécie de autoajuda classe A.

Se por um lado as lives ajudam de fato o investidor e os colocam frente a frente (ainda que  digitalmente) com figurões com os quais jamais teriam contato, por outro lado existe aí um interesse concreto: o objetivo é que esse cliente sinta-se mais bem informado, mais  seguro – e assim mantenha seu dinheirinho lá, sem sacá-lo numa onda de medo.

Como as conversas acontecem em ambientes “controlados”, em que a plateia é de investidores e o organizador busca transmitir calma, muita gente que passou anos recusando pedidos de entrevista de jornalistas decidiu falar. O gestor Rogério Xavier, da carioca SPX, só em março, apareceu em pelo menos cinco lives. Falou com Safra, Itaú Personnalité, BTG Pactual, Vítreo e Eleven Financial Research.

A coisa tomou fôlego rapidamente. Em uma dessas primeiras lives, em 22 de março, o fundador da XP, Guilherme Benchimol, conversou ao vivo com empresários como os presidentes da Caixa, Eletrobras e CSN. Para os padrões da internet, foi quase uma conversa “privê” com público limitado a 10 mil pessoas. Depois da repercussão, a empresa passou a tornar suas lives 100 % públicas no YouTube, e sua equipe de comunicação começou a divulgar a agenda com antecedência para jornalistas e clientes. De lá para cá, a XP já transmitiu mais de 70 vídeos dedicados ao novo coronavírus, que atraíram 1,4 milhão de visualizações. “Essa crise fez com que a gente desse um salto exponencial em nossa presença digital, acelerando nossa produção de conteúdo. Temos mais de 30 analistas produzindo lives, estamos numa força-tarefa”, explicou Karel Luketic, chefe do marketing da XP.

O Valor Econômico, principal jornal de economia do país, também lançou nesta semana suas lives diárias, sobre os mais variados temas econômicos. A primeira foi programada para a quinta-feira 16, com o médico Ben-Hur Ferraz Neto, integrante de vários grupos sobre a pandemia, para tratar da retomada da atividade econômica sem riscos de aumentar a contaminação.

No esforço de convencer figuras importantes a participar, os próprios executivos abrem a lista de contatos. Marcelo Flora, sócio responsável pelo BTG Pactual Digital, contou que, no BTG Pactual, sócios de áreas ociosas neste momento de crise, como a que coordena a oferta de ações por companhias estreantes na Bolsa, passaram a dedicar parte de seu tempo à convocação de clientes de peso para a grade. O próprio sócio fundador André Esteves tem ajudado com sua rede de relacionamentos. Esteves, aliás, venceu a aversão aos holofotes que alimentou nos últimos anos (em especial após ser preso pela Lava Jato e, depois, inocentado) e concedeu sua primeira entrevista ao vivo ao canal de seu banco.

Na XP, o time institucional, acostumado ao contato diário com grandes empresários, passou a ajudar na “captação” de entrevistados, de acordo com Luketic, que coordena o marketing. Os bancos e corretoras afirmam que os entrevistados não recebem para aparecer e que foi exclusivamente graças a suas redes de contato que conseguiram receber virtualmente figuras como o diretor executivo global da Kraft Heinz, Miguel Patrício; o fundador da Oaktree Capital e guru de Warren Buffett, Howard Marks; e o influente veterano dos mercados Mark Mobius. “Quem é convidado tem o interesse em ter acesso a nossa base de investidores. Temos clientes que investem nos fundos do Mobius, por exemplo. E os políticos também querem falar com esse público”, explicou Flora.

Nas semanas após o início do isolamento social, a tendência ganhou a adesão de praticamente todas as plataformas de investimentos e até de novas gestoras. Muitas já faziam transmissões ao vivo antes, mas a agenda foi turbinada intensamente. E para quebrar a temática monocórdica que o novo coronavírus impõe, as firmas estenderam os convites para além do rol de empresários e gestores.

A plataforma Órama, que concentra suas transmissões no Instagram, já vez lives com um psicólogo financeiro e montou um cronograma com aulas de ioga ao vivo três vezes por semana. A Modalmais organizou uma aula em libras para ensinar surdos a investir em renda fixa. A Maya     capital de Lara Lemann, filha de Jorge Paulo Lemann, criou uma agenda de lives exclusivamente dedicada aos desafios de gerir uma startup na crise.

Embora já passem o dia dando entrevista na televisão, os políticos são o maior sucesso de público nas lives.  Uma conversa om o ministro da economia, Paulo Guedes, teve mais de 600 mil visualizações no canal da XP, ou 40% de todos os internautas atraídos pela corretora nas últimas   semanas. A página da corretora ganhou 32 mil novos assinantes em três dias após a transmissão, e o vídeo já é o de maior número de comentários (quase 1.300) na história do canal, criado há oito anos. Entre os vídeos do BTG Pactual Digital mais vistos estão os com o vice-presidente, Hamilton Mourão, e com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia.

Quando algo sai do roteiro nas lives, as consequências são cômicas, como no “extravio” de José Galló em live da XP. O presidente do Conselho da Renner recebeu o link errado para a sala de conferência no aplicativo Zoom e, em vez de conversar com Pedro Parente e Paulo Hartung, foi parar no meio de uma discussão em família de americanos.

A proliferação de lives virou piada até no próprio mercado financeiro. Esteio do autossarcasmo entre investidores, já em 26 de março o popular perfil Faria Lima Elevator observava no Twitter que “já tem mais lives que casos de coronavírus”, e ironizava prometendo que faria “uma live assistindo outras lives”. Há duas semanas, voltou à carga contra o que chama de “overdose de lives”: quem não assinasse sua newsletter seria “condenado a 15 lives seguidas com o tema ‘mindset da riqueza”.

Para Marcio Leibovitch, gerente no Brasil da agência de produtos digitais Work & Co., a multiplicação de transmissões fez com que as lives deixassem de ser um diferencial de negócio e estabeleceu um novo parâmetro de comparação sob condições anormais. “Fica mais difícil se destacar quando todo mundo faz a mesma coisa. Agora, é uma corrida sob pressão para ver quem faz melhor, enquanto o cliente é bombardeado por lives, sem sequer conseguir acompanhar a agenda.”

No entanto, as lives parecem ter fortalecido o posicionamento digital das marcas. O canal da XP no YouTube ganhou 54 mil novos assinantes em um mês, um avanço de 35%, segundo a ferramenta de análise de audiência StatFire. Hoje, a conta tem 211 mil assinantes, o mesmo número do rival BTG Pactual Digital, que ganhou 24 mil assinantes nos últimos 30 dias.

No BTG, que promoveu 70 lives em março, entre transmissões especiais e sua programação tradicional, também cresceram as interações nas redes sociais, segundo a companhia. No próprio YouTube, elas avançaram 177% em relação a fevereiro; no Instagram a alta foi de 142%. “Nesta crise, todo mundo virou mídia, virou produtor de conteúdo. Quem não sabia vai descobrir que conteúdo é a chave para o potencial de reconhecimento de marca pelos consumidores. É uma tendência sem volta”, explicou Luciano Faustino, diretor de marketing da Genial Investimentos, acrescentando que os índices de audiência e interação dobraram por causa das lives. Segundo o BTG, houve incremento na abertura de contas depois do aumento no número de lives. “Os clientes estão investindo mais, trazendo mais dinheiro”, afirmou Rodrigo Puga, sócio da Modalmais.

As plataformas dizem estar atentas a possíveis excessos. No BTG Pactual, Marcelo Flora admite enxergar “certo sinal de fadiga nos clientes após terem sido bombardeados por muito conteúdo” e afirmou que o banco discute qual será a frequência ideal no futuro. “Em algum momento vamos ter de ser mais cirúrgicos”, observou Luketic, da XP.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O LADO ESCURO DA CASA

Um mês de isolamento depois, como está a saúde mental de quem se viu obrigado a conviver com os outros, consigo mesmo e com uma nova vida

A artista visual Luciana Colvara Bachilli, de 41 anos, conhecida como Luluca, mudou-se em 2017 do Rio de Janeiro para Balneário Camboriú, Santa Catarina, pretendendo dar um novo começo a sua vida, depois de ter sido diagnosticada, dois anos antes, com transtorno de personalidade borderline, marcado por alterações bruscas e extremas de humor, além de sintomas como impulsividade, irritação e dificuldade em controlar as próprias emoções. Em três anos na cidade catarinense, conseguiu atenuar os problemas. Mas toda a melhora alcançada está por um fio desde o início da pandemia. “É a luta constante para não cair nos piores comportamentos: fumar demais, beber demais”, disse a artista, que tem intensificado os hábitos prejudiciais a sua condição de saúde por causa do isolamento social, que completa um mês. “Estou bebendo demais, me alimentando mal, meus pensamentos são destrutivos. Eu estou bebendo o dia todo”, confessou. Em alguns dias, passa à base de café. Em outros, come até vomitar. Alterna o descontrole com períodos de angústia, em que filosofa sobre o privilégio de poder ficar tranquilamente em casa na quarentena e mesmo assim não se sentir bem.

Situações traumáticas mexem com a saúde mental das pessoas. Desde a perda de um ente querido e de um emprego até presenciar ou ser vítima de atos de violência. Viver em meio à maior pandemia dos últimos 100 anos, com todos os seus efeitos colaterais sociais e econômicos, não é diferente de passar por um grande trauma. Há o medo do contágio, a vida em isolamento, as perspectivas econômicas incertas e a mudança brusca na rotina, que resulta na total substituição da vida cotidiana que se tinha por outra, nem sempre melhor. Uma pesquisa publicada pela revista científica Lancet em março deste ano apontava que, entre os efeitos de uma quarentena prolongada, está, nos casos mais severos, o transtorno de estresse pós-traumático, cujos sintomas são a paranoia, os flashbacks e pesadelos que podem durar anos. No Brasil, uma pesquisa da consultoria Ideia Big Data, feita com 1.591 pessoas entre os dias 4 e 15 de abril, propôs ao entrevistado uma pergunta objetiva por telefone, que permitia múltiplas respostas: “Qual palavra melhor define seu sentimento diante do coronavírus? O termo mais citado, com 60%, foi “preocupação”, seguido de “ansiedade”, com 40’%, e logo depois, “medo”, com 34%. São sensações que, quando momentânea, fazem parte do cotidiano de qualquer pessoa. Mas, se persistentes, podem acarretar o surgimento ou a retomada de transtornos psíquicos, como no caso de Luluca.

Como ainda não se vislumbra o fim da pandemia do novo coronavírus, ao menos por enquanto, a tendência é que os quadros depressivos já existentes sejam agravados ou retomados em razão da mudança de rotina do brasileiro e que algumas pessoas que antes não sofriam da doença passem a lutar contra ela. “O período em que nos encontramos levará a um aumento dos casos de transtorno ansiosos, dentre os quais encontra-se o pânico e também de depressão”, afirma Antônio Geraldo da Silva, presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e da Associação Psiquiátrica da América Latina (Apal). Prevendo esse cenário em todos os países afetados pelo vírus, a Organização Mundial da Saúde (OMS) emitiu, logo no início do isolamento, um documento com uma série de tópicos voltados à preservação da saúde mental. Entre as recomendações para a quarentena estão tentar, ao máximo, manter a mesma rotina, ou criar uma nova rotina”, se necessário. Ficar sem rotina é um perigo. A OMS recomenda ainda que o contato social se mantenha ativo por meio da internet e que haja uma agenda de exercícios físicos, alimentação saudável e sono. Esses três últimos itens são fundamentais também para manter baixo o nível de cortisol no sangue.

Esse hormônio, produzido pelas glândulas suprarrenais, é liberado de forma excessiva no sistema nervoso quando ativado pela sensação de medo ou irritação. Muito cortisol no sangue implica também a queda da imunidade, o que não convém a ninguém em tempos de pandemia.

O acúmulo de tarefas e a cobrança para manter-se produtiva abalaram a saúde mental da estudante de relações internacionais Maria Elisa Monnerat, de 19 anos, em isolamento desde 16 de março, quando regressou à casa da mãe, em Bom Jardim, Região Serrana do Rio de Janeiro. “Eu me cobro muito. Estou dando um peso excessivo, muito maior, para a faculdade enquanto estou em casa. Passo a maior parte do tempo estudando”, contou. “Comecei a ficar muito cansada, perdi muito peso. Na hora das aulas (on-line) eu chorava porque não queria assistir. Cheguei a trancar três matérias. Quando eu estava na PUC (no Rio de Janeiro), era mais leve. Agora, com essa coisa on-line, eles medem o tempo de tudo”, reclamou. Diagnosticada com depressão e ansiedade há três anos, Maria Elisa é medicada e conta que estava bem até o início do isolamento, quando os sintomas começaram a voltar.

Também tem sofrido recaídas a estudante universitária Julia (nome fictício), de 23 anos, moradora da Tijuca, na Zona Norte do Rio, que tem bulimia. “A possibilidade de escapar de mim mesma e de meus problemas diminuiu. E os sintomas do que eu já sentia pioraram bastante. Sem a quarentena, eu tinha muito mais formas de escapar: fora de casa, na rua ou na casa de um amigo. Agora, não. Estou 24 horas por dia com todos os meus problemas, o tempo todo. Há um lado bom, porque estou sendo obrigada a olhar para dentro de mim. Mas a parte ruim é que estou comigo o tempo todo”, contou.

O psicanalista Christian Dunker aponta para outros problemas decorrentes do isolamento e que podem surgir à medida que a quarentena, que já dura um mês, se prolongue. Trata-se justamente dos que se engajaram de maneira excessiva em qualquer tipo de atividade – até mesmo no próprio trabalho – durante a pandemia e começarão a sentir a estafa mental. “Muita gente largou nessa corrida a 100 por hora. Provavelmente a gente vai ter (dentro de algum tempo) pessoas exaustas, em crise de saturação de engajamento e outras pessoas em crise com o vazio, com a falta”. O maior desafio, ele afirmou, é transformar o vazio em algo produtivo, para que não se torne uma doença e, em última instância, um perigo à vida. Na Itália, pelo menos dois profissionais da saúde que trabalharam ativamente nos cuidados com pacientes infectados pela Covid-19 desde o início da pandemia cometeram suicídio. Na Alemanha, o secretário de Finanças do estado de Hesse, Thomas Schifer também tirou a própria vida em meio ao colapso. Ainda que seu país tenha melhores condições para lidar com o novo coronavírus, pessoas próximas disseram à imprensa local que ele estava muito preocupado com o impacto econômico da pandemia.

Uma preocupação extra para quem já sofre de ansiedade e também para os que nutrem boa saúde mental é a crise que decorrerá da paralisação econômica. Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), projeta-se no caminho a maior recessão mundial desde 1929, com queda de    5,6% no Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil neste ano. A crise mal começou, muitos já sentem os efeitos com a perda da renda e do emprego. O editor Otávio Campos de 28 anos, mora em Juiz de Fora, Minas Gerais, onde fundou a Edições Macondo, editora que publica poesia de autores vivos de língua portuguesa, lançando, em média, 12 livros por ano. Campos começara a se estabilizar financeiramente no novo negócio havia pouco tempo quando veio o isolamento e as livrarias fecharam as portas sem saber quando, e se, voltarão a abrir. O novo cenário – em que livrarias reportam perdas superiores a 90% – o obriga a tentar novas soluções para seu negócio, mas a ansiedade trazida pelo momento o freia. “A principal característica dela (ansiedade) é essa paralisia. Não consigo fazer nada além de ficar fumando na frente do computador. A situação é eu comigo mesmo, sozinho em meu apartamento. Isso tende a aumentar o sentimento de estar perdido. Não só por estar dentro de casa, mas por esse sentimento de impotência. É desesperador sentar em minha cadeira”, relatou. O impacto da crise econômica nas famílias também preocupa a juíza e escritora Andréa Pachá, que prevê reflexos no aprofundamento de conflitos familiares e domésticos, já esgarçados em razão do confinamento. Numa situação-limite para os casais, a questão econômica – somada ao isolamento e ao consumo de bebidas alcoólicas em casa – pode levar à violência. “Os números já mostram que está aumentando. Já está acontecendo”, disse Pachá. Na capital fluminense, a subida de casos reportados foi de 50% logo no início do confinamento. O Ministério Público de São Paulo divulgou no dia 14 de abril que as prisões em flagrante por violência contra a mulher cresceram também 50% em março. Segundo dados do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, na primeira semana de abril houve alta de 9% na ligações recebidas pela pasta por meio do número 180, responsável por centralizar notificações de agressões – numa crescente já notada desde o final de março, quando as medidas de restrição de circulação entraram em vigor.  Antes da quarentena entre 1º e 16 de março, a média de denúncia foi de 829. Esse patamar subiu para 978 registros entre os dias 17 e 25 do mesmo mês, depois do início do confinamento – alta de 15%. “Os conflitos que têm aparecido são inéditos, como são inéditos os tempos que a gente tem vivido. A gente precisa pensar em outra abordagem. Está todo mundo tendo de aprender”, disse a juíza, que tem se reunido com seus pares da Escola Nacional de Magistratura para buscar novas soluções.

Em países onde o novo caronavírus chegou antes, também houve escalada na violência doméstica – e as medidas de isolamento mais rígida que no Brasil, dificultaram ainda mais o resgate de mulheres de situações de abuso. Na Espanha, nas primeiras duas semanas de lockdown, a ligações para o número de emergência para casos de violência aumentaram 18%. Na França a polícia reportou subida de 30%. Na China, o caso de uma moradora de Anhui investigado pelo The New York Times mostrava o cenário extremo: espancada pelo companheiro diante da própria filha, criança, a vítima prestou queixa, mas não conseguiu fazer nada além disso. Não obteve ajuda do Estado para alugar um local para ficar até o fim da quarentena e tampouco o sistema judiciário permitiu que entrasse com os papéis do divórcio. Ela teve, portanto, de viver por semanas com o agressor até que o isolamento fosse flexibilizado, em março.

Se a violência doméstica se mostra indissolúvel apenas com diálogo, requerendo esforço policial e acolhimento da vítima, é possível tentar amenizar outros males do confinamento com ajuda profissional. Para quem viu a saúde mental se deteriorar, as consultas com psicólogos, psicanalistas e psiquiatras on-line se tornaram corriqueiras, resultando num aumento de 120% nas buscas por esse tipo de serviço virtual, segundo o Google Trends. E há iniciativas criadas justamente para ajudar quem perdeu renda em razão da pandemia. Em São Paulo, as rodas de conversa do Grupo Escuta Sedes, vinculado ao Instituto Sedes Sapientiae, transferiu seus encontros semanais – gratuitos – para a internet. Inicialmente com 12 vagas, a turma poderá crescer conforme a demanda. “Tem toda uma revolta misturada com a angústia da perda da mobilidade, da perda da vida. As pessoas com menos condições têm mais questionamentos. Como ficar em casa? Como conviver?”, explicou Maria Silvia Borghese, psicanalista do grupo. No Rio de Janeiro, a Praça Terapia também mudou-se da Praça São Salvador para a internet, mantendo a gratuidade dos atendimentos.

Para quem ainda não começou a sentir sintomas de que algo não vai bem e quer se precaver, o ex-astronauta Scott Kelly, que já passou um ano confinado em uma estação espacial, fez algumas recomendações em um artigo de sua autoria publicado no The New York Times. Ter uma rotina e tentar escrever um diário – não necessariamente relatando fatos da quarentena, mas sim o que vem à cabeça nesse período, inclusive sonhos – ajuda a manter a sanidade. Ficar confinado numa pequena cápsula também acaba criando uma certa ânsia por espaço. Portanto, eventualmente sair para dar uma volta ao ar livre pode operar milagres em uma mente aflita.

A psicóloga Marcia Matos, de 41 anos, mãe de duas filhas – de 8 e 6 anos -, conseguiu resolver suas angústias com uma tática mais simples: um cochilo de uma hora durante o dia. Até o início do isolamento, ela trabalhava fora – em consultório e ministrando palestras – e estava prestes a iniciar um trabalho fixo, suspenso em razão da pandemia. Divorciada, viu os eventos ser cancelados, metade dos clientes deixar o consultório e a pensão alimentícia cair em 2/3. “No começo, ia me dando uma irritação enorme, uma vontade de chorar. ‘Nossa, eu estou cansada’, pensava. Quando percebi que com o sono eu conseguia me recompor, vi que era a solução. Eu me fecho no quarto e durmo para conseguir continuar a dar conta”, disse. Como especialistas já começam a apostar em cenários para o futuro em que o confinamento alternado se torne rotina no mundo, criar o hábito do cochilo pode ser um a boa herança destes tempos inóspitos.

OUTROS OLHARES

O SHOW DA QUARENTENA

Com artistas e público confinados em casa pela Covid-19, as lives via YouTube e Instagram abriram uma nova fronteira para a indústria do entretenimento.

Quatro câmeras, uma equipe de dezoito pessoas e nenhum ensaio prévio foram suficientes para quebrar a internet. O show transmitido ao vivo pelo YouTube, ao longo de quatro horas, da dupla Jorge e Mateus, no sábado 4, somou 3,1 milhões de pessoas, que acessaram simultaneamente a plataforma. O público viu, cantou, chorou – e, evidentemente, postou! -, plugado no celular, tablet ou TV. Tratou-se da maior audiência da história de uma live. Para efeito de comparação, havia gente suficiente para lotar 39 estádios do Maracanã. Na avassaladora velocidade do mundo digital, quatro dias depois, na noite da quarta-feira 8, a cantora Marília Mendonça equiparou o recorde com seu repertório de sofrência sertaneja.

Esse sucesso enorme é o sinal evidente de um fenômeno anabolizado pelo isolamento social, masque seguirá em frente após a pandemia. As transmissões ao vivo, as lives, são a nova fronteira do entretenimento e da propaganda. Há uma extensa agenda de espetáculos previstos para as próximas semanas, e a indústria já começa a faturar em cima do negócio. Se por um lado a inviabilização das apresentações ao vivo paralisou totalmente a engrenagem do showbiz, por outro a população confinada em casa formou uma gigantesca plateia em potencial ”Existe uma alta demanda de artistas que querem entender como funcionam as lives”, diz Patrícia Murator presidente do YouTube no Brasil. A busca pelo termo lives ao Google aumentou 60% nas últimas semanas.

O Instagram também registra um surto desse tipo de transmissão, em assuntos que vão de shows e palestras a educação, saúde e culinária. Ao contrário das lives do YouTube, sem limitedeterminado, as do Instagram têm duração máxima de uma hora. “No Brasil, vimos a audiência da ferramenta Ao Vivo dobrar no último mês”, conta Gonzalo Arauz, diretor de Parcerias do Instagram para a América Latina. A empresária e influenciadora Camila Coutinho organizou há duas semanas um festival diário para abordar assuntos variados. Ela entrevistou figuras como a cantora Anitta e o advogado Ronaldo Lemos. “O confinamento tem como consequência uma digitalização da sociedade para além dos jovens da geração selfie”, diz Camila. “As lives viraram realidade para mais gente.” Aos poucos, essa mesma realidade começa a despertar o interesse dos anunciantes. Os cliques e o tempo da audiência transformaram-se em ótimas plataformas para expor produtos e serviços. ”As empresas querem fazer parte disso“, afirma Erh Ray, sócio da agência Bete/Havas, que tem as contas de clientes como Citroen e PepsiCo. Por aqui, Magalu e Rappi já investem nesse novo filão de mercado.

Além da reunião de multidões em torno do mesmo evento, as companhias perceberam que as transmissões ao vivo criam para os internautas a sensação de pertencer a uma comunidade. “Os amigos podem não sair para se encontrar, mas conseguem ver o mesmo show e postar sobre o assunto em suas redes sociais”, observa Ray. Enquanto alguns festejam a onda, o mercado de TVs abertas enxerga a novidade com preocupação, sobretudo em época de pandemia. Obrigadas a reprisar novelas antigas, as emissoras enfrentam agora a concorrência pela audiência de conteúdo exclusivo do YouTube e do Instagram.

Para os artistas, no entanto, de live em live é possível amenizar o impacto do cancelamento de seus shows. Exibida em 28 de março no YouTube, a transmissão de um espetáculo de Gusttavo

Lima reuniu 700.000 pessoas simultaneamente. Nos serviços de streaming musical, os acessos às obras do artista andavam em baixa. Cinco dias depois da live, as audições das canções de Lima voltaram a crescer nesses canais. Ele também ganhou mais de 1 milhão de seguidores no Instagram, atingindo a marca de 291 milhões e superando Wesley Safadão como cantor com mais fãs nessa rede social no país. A live de Jorge e Mateus, aliás, arrecadou 1,1 milhão de reais, entre doações do público e de patrocinadores. A renda será revertida em prol de ações de combate ao coronavírus, embora os artistas tenham sido criticados por manter uma equipe nos bastidores sem o distanciamento social adequado. “Sentar-se ali, diante das câmeras, sem quase ninguém ao lado, a sensação é de que parece estar faltando algo. Mesmo assim, a emoção de ajudar o próximo e saber que fizemos tanta gente feliz é imensa. Esperamos que tudo isso passe logo”, afirma a dupla sertaneja. Como diz o velho ditado, o show não pode parar – agora, com estádios vazios e canais de internet lotados.

A TRILHA SONORA DO ISOLAMENTO

Ouvir música, mais que um prazer, é um hábito – e ele foi profundamente atingido pela pandemia do coronavírus. Com as pessoas em casa em razão das medidas de distanciamento social, seria natural supor que elas passariam a ouvir mais música. Mas o que aconteceu foi o contrário. A quantidade de streamings no Spotify e na Deezer caiu cerca de 10% entre 16 e 22 março, embora o número de assinantes desses serviços não tenha diminuído. “Mais que entreter os fãs, as lives ajudarama recuperar os ouvintes que os artistas perderam nas plataformas de streaming. Michel Teló teve um consumo 40% maior de suas músicas um dia depois de sua live. Já Sandy viu suas músicas crescer 40% nas plataformas. “O artista não consegue fazer lives todos os dias, mas ele precisa delas de vez em quando para que o fã continue ouvindo sua música. Percebemos que o ouvinte escuta mais seu artista favorito logo depois da live”, afirma Marcos Swarowsky, diretor regional da Deezer no Brasil e América Latina. A dramática mudança na rotina das pessoas, que agora estão quase 100% do tempo em casa, ajuda a entender a queda no hábito de ouvir música por streaming. Ele está atrelado às “ocasiões de consumo”, como ir ao trabalho e exercitar-se na academia – esses itens frugais da rotina simplesmente deixaram de acontecer. Na segunda e na terceira semanas do país sob quarentena, a audiência do streaming voltou a crescer. O conteúdo, no entanto, ficou mais diverso e adequado ao momento. Na Deezer, playlists feitas para ajudar as pessoas a relaxar aumentaram mais de 200%. Música gospel e cantos de louvor também ganharam espaço. No Spotify, playlists infantis, como a MPB para Crianças, e a Nana Nenê, conquistaram mais ouvintes.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 18 DE ABRIL

DEUS NÃO DESISTE DE VOCÊ

… Com amor eterno eu te amei; por isso, com benignidade te atraí (Jeremias 31.3b).

O amor de Deus é incansável. Deus não desiste de amar você. A causa do amor de Deus, entretanto, não está em você, mas no próprio Deus. É um amor incondicional. Essa verdade pode ser vista na experiência de Jacó, filho de Isaque, neto de Abraão. Embora escolhido por Deus antes mesmo de nascer, Jacó viveu longos anos de sua vida numa estrada sinuosa de pecado, preso por uma rede de mentiras. Certa feita, entrou no quarto do pai, trajando as vestes do irmão Esaú, para arrancar uma bênção paterna. Quando o pai lhe perguntou: Quem és tu? Jacó respondeu: Sou Esaú (Genesis 27.32). Nesse tempo, Jacó tinha 73 anos. Como resultado desse conflito familiar, Jacó precisou fugir de casa para não ser morto por seu irmão. Passaram-se mais vinte anos. Agora, ele está de volta com numerosa família, mas com a consciência ainda atribulada. No vau de Jaboque, o próprio Deus travou uma luta com Jacó. Este não queria ceder, mas Deus o feriu na articulação da coxa. Então, Jacó agarrou-se ao Senhor e com lágrimas de arrependimento pediu sua bênção. Deus lhe perguntou: Como te chamas? Ele respondeu: Jacó (Genesis 32.27). Aquilo não foi apenas uma resposta, mas sobretudo uma confissão, pois Jacó significa “suplantador”, “enganador”. Ali no vau de Jaboque, Deus lhe deu um novo nome, uma nova vida e um novo futuro. O amor de Deus por você também é perseverante, incondicional e eterno. Deus não desiste de você!

GESTÃO E CARREIRA

REUNIÕES VIRTUAIS? SIGA ESTAS 4 DICAS

Com boa parte do dia a dia corporativo sob home office, estas quatro dicas podem ajudar em suas reuniões virtuais e fazer você nunca mais querer uma presencial.

1. FACILITADOR

Eleja um líder. Isso vale para um grupo de exploradores bandeirantes do século 16, vale para sua reunião virtual. Pode chamar essa pessoa de facilitadora, para ficar mais moderninho e menos politicamente incorreto. Toda reunião precisa de um facilitador. Lembre-se que encontros presenciais incorporam um nível muito mais elevado de linguagens, por isso costumam ser mais ricos e complexos. Só para ficar num exemplo: quem tem algo a dizer pode fazê-lo de forma corporal, mostrando com a cabeça ou um aceno. Além disso, não há o risco de alguém ficar pelo caminho por ter perdido a conexão. Tipo um náufrago que acaba de cair de um cruzeiro no oceano sem que ninguém tenha percebido. Para ser um bom facilitador, duas regras são fundamentais. A primeira: familiarize-se com o programa a ser usado. Porque se pode dar algum problema técnico na reunião, dará. Caso seja preciso compartilhar uma apresentação ou área de trabalho o facilitador precisa saber o que fazer. Tenha um tutorial simples à frente. Melhor. Distribua previamente seu tutorial com os participantes. Regra 2: tenha regras. Estabeleça o Manual de Comportamento de sua reunião virtual (ver item 2).

2. REGRAS

Seja educado e claro, mas firme. Em uma reunião on-line, é difícil avaliar os humores dos participantes. Até mesmo coisas básicas, como quem vai falar e em quais momentos, ganham boas chances de virar uma confusão. Além disso, algumas pessoas podem simplesmente desaparecer – é mais fácil ficar no WhatsApp virtualmente do que de forma presencial numa sala de reuniões do oitavo andar da firma. Isso significa que o facilitador precisa ser um regente, convocando cada participante a entrar na trilha no momento certo. Sem deixar o cara que toca tímpano de fora. É quase pedir para que cada pessoa levante a mão e diga algo. Use o chat para solicitar que alguém aguarde, se for preciso. E mantenha uma lista de quem deve falar caso seu chat cresça e os nomes iniciais se percam. Trata-se de seu manual. Simples, com quatro ou cinco pontos – sobre como interceder, o que se espera de cada participante, repassar itens da pauta. Você corre o risco de nunca mais desejar reuniões presenciais.

3. VOZ A TODOS

Caso sua reunião tenha um número elevado de pessoas – considere algo acima de dez –, perca cinco minutos antes para montar uma lista com o nome de todos e coloque ao lado algumas colunas. Durante a reunião, esse será seu plano de voo para saber quem está, quem quer falar e quem já falou. No meio da reunião, isso servirá inclusive para você provocar algumas delas nominalmente, caso não tenham se manifestado. Sempre recomende que todos mantenham o microfone desligado quando outro for falar. Ainda assim, saiba que gritos de crianças, latidos e miados, assim como outros sons ainda mais indesejáveis, ou surpreendentes, podem surgir em seu meeting virtual. Ignore-os.

4. TEMPO

Encurte-as. Então encurte-as mais. É preferível duas reuniões curtas em dias seguidos do que só uma, mas desgastante. Pense que 30 minutos é o limite. Então, você sabe a resposta: elas duram 25 minutos.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O RISCO DOS ENERGÉTICOS

Embora sejam incorretamente promovidos como suplementos que podem aumentar o desempenho e a cognição, nova investigação aponta riscos associados ao consumo de bebidas energéticas

O valor de mercado das bebidas energéticas estimada em US$ 83,4 bilhões até 2024, uma indústria global em rápido crescimento. Um estudo dentro do pessoal militar, por exemplo, constatou que 45% dos membros em serviço consumiram pelo menos um energético diariamente, e 14% chegavam a consumir três ou mais por dia.

Embora sejam incorretamente promovidos como suplementos que podem aumentar o desempenho e a cognição, existem relatos de que bebidas energéticas podem causar inúmeros efeitos colaterais prejudiciais, particularmente cardiovasculares e de natureza neurológica. O número anual de visitas a emergências envolvendo bebidas energéticas dobrou entre 2007 e 2011, um intervalo de apenas quatro anos.

Existe um número crescente de pacientes, especialmente adolescentes, que foram internados em salas de emergência por problemas relacionados a bebidas energéticas com cafeína. As bebidas energéticas são de fácil acesso e com frequência consumidas por um grande número de jovens adultos e adolescentes, incluindo estudantes universitários. Quase 30% dos adolescentes americanos de 12 a 17 anos consomem regularmente bebidas energéticas.

De acordo com a FDA (agência norte-americana que regula o uso de medicamentos e alimentação, houve 34 mortes já atribuídas a bebidas energéticas, o que justifica a investigação sobre a segurança dessas bebidas.

Uma nova investigação aponta que o consumo de bebidas energéticas pode colocar pessoas jovens e saudáveis em maior risco de aumento do ritmo cardíaco irregular e de condições cardíacas fatais, além de aumentar a pressão arterial perigosamente. Essa foi a maior pesquisa controlada sobre efeitos colaterais de bebidas energéticas no coração de pessoas saudáveis já realizada. O estudo mostrou que bebidas energéticas podem causar batimentos cardíacos anormais e aumento da pressão sanguínea poucas horas depois de ingeridas. O consumo de bebida energética está associado à pressão alta e maior probabilidade de problemas cardíacos. Isso ocorre porque essas bebidas causam uma anormalidade nos sinais elétricos para o coração, o que pode levar a batimentos cardíacos irregulares, causando arritmia cardíaca e possibilidade de morte súbita.

Nessa pesquisa, um grupo de jovens adultos saudáveis recebeu duas garrafas de bebidas energéticas com cafeína disponíveis no mercado ou um placebo. Cada garrafa era idêntica às vendidas normalmente ao mercado, com 460 ml de volume total e contendo entre 152 e 160 mg de cafeína. As bebidas energéticas no mercado, como Monster, Red Bull e outras marcas, contêm essa mesma quantidade de cafeína por lata ou garrafa de 460 ml.

Os investigadores descobriram que houve anormalidade das atividades elétricas do coração menos de quatro horas após a ingestão, o que resultou em um aumento do intervalo QT, que é uma medida das atividades elétricas do coração. Se o intervalo QT for muito longo ou curto, pode causar arritmia potencialmente fatal. O intervalo QT aumentou entre 6 a 7,7 milissegundos nos sujeitos que beberam energético em relação àqueles que tornaram placebo. Foi observado também na pesquisa que a pressão arterial dos participantes aumentou em 5 mm Hg depois de consumir bebidas energéticas.

Embora as bebidas energéticas ingeridas pelos participantes tenham alto teor de cafeína, não é tão simples apontá-la como a vilã dos potenciais problemas dos energéticos. Estudos anteriores apontam que uma dosagem de cafeína abaixo de 400 mg não deveria causar alterações eletrocardiográficas. Os investigadores acreditam que os distúrbios do ritmo cardíaco são causados por outro ingrediente ou combinação de ingredientes nas bebidas energéticas. De fato, os pesquisadores afirmaram que foi encontrada uma associação entre o consumo de bebidas energéticas e alterações nos intervalos QT e na pressão arterial que não pode ser atribuída à cafeína, e ressaltaram a importância de se investigar o ingrediente específico ou a combinação de ingredientes em diferentes tipos de bebidas energéticas que possam explicar as descobertas desse estudo.

Fica o alerta ao público sobre o impacto de bebidas energéticas no organismo, em especial se os consumidores tiverem outras condições de saúde como a síndrome do QT longo ou pressão alta, no sentido de limitar ou monitorar o consumo de energéticos.

MARCO CALLEGARO – é psicólogo, mestre em Neurociências e Comportamento, diretor do Instituto Catarinense de Terapia Cognitiva (ICTC) e do Cognitiva Scientia. Autor do livro premiado O Novo Inconsciente Como a Terapia Cognitiva e as Neurociências Revolucionaram o Modelo do Processamento Menta (Artmed. 2011).

OUTROS OLHARES

ELES TAMBÉM PRECISAM VIVER

Pacientes com doenças graves e crônicas convivem com o risco de infecção e de falta de órgãos ao mesmo tempo que perdem vagas para concluir seus tratamentos em hospitais

Num momento de total fragilidade física e emocional, quando deveriam se preocupar exclusivamente com os cuidados de suas graves doenças, alguns pacientes se veem forçados a conviver com os riscos de sua saúde ser ainda mais debilitada – e até mesmo de perder a vida – em consequência dos desdobramentos do novo coronavírus no sistema de saúde. Trata-se daqueles que foram recentemente transplantados, dos que esperam receber órgãos saudáveis e dos que estão em tratamento contra um câncer. Diante da pandemia, que pode ser mortal para os que apresentam comorbidades, pacientes se encontram em um dilema perigoso: levar adiante o tratamento ou adiá-lo para evitar o risco de infecção. No caso dos que aguardam um transplante, esse adiamento pode implicar a recusa do tão aguardado órgão – e, no pior cenário, a falta dele.

O cirurgião José Roberto Salina, de 51 anos, ginecologista e mastologista que atua na rede pública e privada, disse estar passando por um momento inusitado em seus 27 anos de atuação na Medicina: ver o adiamento de cirurgias para retirada de tumores, sob risco de prejudicar o tratamento de alguns tipos de câncer. Apenas as cirurgias consideradas de emergência estão sendo realizadas na maioria dos hospitais. Tem sido assim no Hospital Estadual de Bauru, no interior de São Paulo, onde ele trabalha.

“A unidade foi transformada em unidade de referência regional para internação dos casos da Covid-19. Houve uma redução de 50% no número de cirurgias desde o remanejamento”, disse.

A situação mais delicada, entre os vários tipos de tumor é a das pacientes com câncer de ovário, que requer intervenção imediata devido à evolução rápida da doença no órgão. Há outros casos, no entanto, que são menos urgentes, como as cirurgias de reconstrução de mama, do trânsito intestinal (fechamento de colostomia), reparadoras e algumas da tireoide. “Temos de levar em conta, na hora de realizar uma cirurgia, a necessidade de internação em uma Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) – imprescindível para os casos de agravamento da Covid-19 – e também o risco de levar para uma unidade hospitalar um paciente tão sensível quanto os de câncer. Nós, médicos, nos vemos diante de um dilema, pois o tratamento de um paciente oncológico não pode parar”, explicou Salina.

Como a pandemia no Brasil ainda não escalou aos níveis observados na Itália, na Espanha e, agora, nos Estados Unidos, em que médicos têm de fazer escolhas difíceis ao definir quais pacientes terão prioridade nos leitos, os hospitais consultados pela reportagem afirmaram que os procedimentos previstos vêm sendo executados. Mas já começa a haver uma mudança na avaliação sobre a urgência dos atendimentos. O Instituto Nacional de Câncer (Inca) suspendeu alguns tipos de cirurgias, usando como critério as que não coloquem em risco a vida do paciente, como as que não são para tratamento especificamente do câncer. O hospital criou uma ala exclusiva para atendimento e internação de pessoas com câncer que contraíram ou são suspeitas de infecção por coronavírus. Chefe da oncologia clínica do Inca, Alexandre Palladino explicou que, ao ser identificado um caso suspeito, a pessoa é levada para a ala reservada e, se for necessário, internada. Os casos mais graves são transferidos para unidades de referência da rede pública. “Os pacientes devem conversar com seus médicos e seguir as orientações, que são basicamente as mesmas para o restante da população, mas devem ser seguidas com rigor por pacientes

oncológicos”, reforçou o médico.

A aposentada Antônia Matos Neri, de 86 anos, é uma das pacientes que, diante da Covid-19, começou a se questionar se valeria o risco da cirurgia. Em fevereiro, ela descobriu um câncer no pulmão. O tumor principal, no entanto, está em seu duodeno. Com a saúde já debilitada, ela teria de dar início às sessões de quimioterapia imediatamente. A filha, a servidora pública Andrea Matos Neri, ficou preocupada e explicou os riscos à mãe. “Chegamos a pensar em adiar a quimioterapia para que ela não saísse de casa ou ficasse mais debilitada, mas os médicos disseram que o risco maior do câncer é não tratar”, disse Andrea. “Optamos por fazer o tratamento em uma clínica que atende exclusivamente pacientes oncológicos, para tentar fugir dos hospitais neste momento”.

Há casos em que a pandemia paralisou o tratamento. A aposentada Maria de Lourdes Souza Matos, de 78 anos, está com um tumor na boca, descoberto há cerca de três meses. Ela, que mora na Penha, Zona Leste de São Paulo, fez todos os exames preparatórios para a cirurgia, que seria a primeira etapa do tratamento. Foi surpreendida pela pandemia e o procedimento foi suspenso pelo hospital. Sua filha, Leidiane Souza Matos, de 39 anos, já não sabe o que fazer para reverter a suspensão. “A situação de minha mãe é grave. Sabemos que o câncer não pode esperar. Vejo minha mãe sofrendo com a dor, sem poder se alimentar direito e ficando cada vez mais frágil. Eu me sinto impotente. Além de toda a preocupação com o câncer de minha mãe, ainda ficamos preocupadas com esse coronavírus”, lamentou.

Se alguns pacientes têm a opção de esperar ou ingressar em clínicas onde não haja doentes infectados pelo novo coronavírus, no caso dos que necessitam de um transplante, o leque de escolhas é quase inexistente. Dados do Ministério da Saúde revelam que, nas duas últimas semanas de março, o Brasil fez 160 transplantes de coração, fígado, pâncreas, pulmão e rim. No mesmo período do ano passado, foram 316. Uma queda, portanto, de 50%. No caso de córneas, a redução foi para menos da metade: de 603 para 229. Quando se analisam os números de órgãos que tradicionalmente são mais difíceis de entrar no sistema, o quadro é ainda mais dramático. Dois transplantes de coração foram feitos na segunda quinzena de março deste ano. No mesmo período de 2019, foram 15. Um único transplante de pulmão foi realizado quando a pandemia do novo coronavírus ganhava corpo no Brasil, ante sete na segunda quinzena de março de 2019.

Numa teleconferência, há uma semana, técnicos do Ministério da Saúde que atuam no Sistema Nacional de Transplantes ouviram atônitos os relatos que chegavam da Espanha: no país que é referência mundial na área, com o maior índice de doadores e aproveitamento efetivo dos órgãos, as doações desabaram “a quase zero”, nas palavras de quem participou da conversa. Um sentimento de preocupação extrema se espraiou por quem escutava as histórias que chegavam do país europeu. O colapso dos transplantes por lá é uma consequência direta da explosão dos casos da Covid-19, que atingiu mais de 150 mil pessoas, com mais de 15 mil mortos.

A poucos metros da Esplanada dos Ministérios, num hospital privado de Brasília, a presença de um paciente com Covid-19 na UTI levou à ampliação de restrições de cirurgias de transplante na mesma unidade e acendeu o alerta em outros hospitais do Distrito Federal, que fizeram dez transplantes de fígado em março. Na primeira semana de abril, uma única cirurgia foi feita. Em São Paulo, os transplantes de pulmão estão suspensos. Falta uma substância imprescindível para a realização das cirurgias, e a importação foi interrompida diante da falta de resolução por parte da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Isadora Sousa Rodrigues, uma menina de 2 anos de idade, é uma das seis crianças que estão na fila do Hospital de Messejana, em Fortaleza, e que precisarão esperar mais por um coração novo. A unidade é referência para pacientes cardiopatas das regiões Norte e Nordeste. Desde o agravamento da pandemia, não há doadores. O primeiro ano de vida de Isadora foi dentro do hospital; numa UTI, foram três meses. Ela já se submeteu a sete cirurgias e quatro cateterismos, em razão de uma cardiopatia grave, ainda em fase de estudos pelos médicos. “O coração dela é imperfeito, cheio de intervenções cirúrgicas. É como se fosse um coração oco. E ela está crescendo e o coração ficando cada vez mais fraco”, disse a agente comunitária de saúde Risoneide dos Santos Sousa, de 35 anos, mãe da menina e de outro filho, de 7 anos.

O novo coronavírus agravou o medo de Risoneide. Os sentimentos se alternam entre a desesperança diante da paralisia do setor de transplante e o temor de um coração novo aparecer num momento em que os riscos estão potencializados. Antes da atual crise existir, o telefone da mãe tocou por duas vezes, com alertas de que um coração havia surgido para Isadora. Na primeira vez, uma bebê em estado ainda mais grave fora priorizada. Na segunda, houve incompatibilidade. “O coração era muito grande para o peitinho dela, contou.

Há poucos dias, os profissionais de saúde da unidade de transplante do Messejana receberam a informação de que dois corações seriam ofertados, um de um homem de 18 anos e outro de um homem de 47 anos. A primeira informação repassada pela central responsável pela regulação, ligada à Secretaria Estadual de Saúde, foi que faltavam testes para a detecção do novo coronavírus nos doadores falecidos. Depois, a central disse que uma família negou a doação, e que a outra teria de esperar entre quatro e seis horas para a realização do teste no paciente morto. Por fim, os corações acabaram não sendo aproveitados no hospital de Fortaleza. “A logística ficou complexa. Nossa recomendação é fazer somente em pacientes priorizados”, disse o médico João David Neto, que coordena a unidade de transplante do local.

Também no Ceará estão depositadas as chances de tratamento do arquiteto paulista Dorival Ortêncio, de 67 anos, que recebeu em 2018 o diagnóstico de cirrose hepática e câncer de fígado. Ele faz quimioterapia, mas precisa de um novo órgão. Em meados de março, saiu de São Paulo, onde mora, e foi para Fortaleza em busca de melhores chances de tratamento. “A única terapia e chance de sobreviver é fazendo o transplante. Mas meu medo agora foi acrescido do coronavírus. Tomo remédio de uso contínuo e faço quimioterapia. Todos esses fatores e ainda minha idade me colocam no grupo de altíssimo risco. Tenho redobrado os cuidados para evitar o contágio, mas o que eu quero mesmo é fazer a cirurgia. Minha malinha de gestante está pronta à espera de uma chance de renascimento”, brincou Ortêncio, que nutre esperança de que em breve consiga ser operado.

A maneira como a pandemia impacta o sistema de transplantes no Brasil – quase todo inserido no Sistema Único de Saúde (SUS) – é difusa. Há muitos fatores que explicam a queda das doações, o desperdício de oportunidades e a redução expressiva das cirurgias, e que justificam o temor diante do que pode ocorrer em abril, maio e junho, meses com previsão de pico para a Covid-19. Um desses fatores foi apontado por sete fontes ouvidas, diretamente ligadas ao sistema: a falta de testes para a detecção do novo coronavírus nos doadores falecidos, apesar da recomendação feita pelo próprio Ministério da Saúde e pela Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO). A ABTO recomenda ainda que testes sejam feitos em eventuais receptores. Também faltam testes para esses pacientes.

Quando há testes, muitas vezes falta a rapidez necessária no resultado para garantir a efetividade do transplante. Um coração, por exemplo, tem um prazo de apenas quatro horas para ser transferido de um peito para outro. O Ministério da Saúde ainda tenta assegurar uma priorização de testes no sistema de transplantes, mas ainda são poucos os estados que conseguiram instituir esse fluxo. Uma nota técnica da coordenação-geral do Sistema Nacional de Transplantes, editada no último dia 25, recomenda a realização dos testes. Técnicos discutem uma revisão dessa nota, de forma a tornar a testagem uma obrigação, e não uma opção. A ideia do Ministério da Saúde é evitar “ao máximo” a realização de transplantes que podem ser adiados, pois será necessário  desocupar leitos e respiradores que muitas vezes ficam ocupados por pacientes com morte encefálica, cuja conexão às máquinas por até 48 horas é necessária para garantir a extração dos órgãos. A nota técnica também proíbe a busca ativa presencial, que é o momento em que profissionais de saúde conversam com os familiares sobre a possibilidade de doação de órgãos. Ela agora deve ser feita de forma virtual ou por telefone.

Os principais hospitais do Nordeste, antes referências regionais em transplante, foram convertidos em centros de atendimento para a Covid-19. Poucas são as unidades que fazem, por exemplo, transplante de córnea. Em Brasília, 12 dos 15 centros cancelaram as cirurgias até o fim de maio. “Doadores podem estar infectados, e não é possível provar, diante da restrição de testes. Existe a possibilidade de contaminação de equipes e receptores. Assim, são plenamente defensáveis os transplantes em casos de vida ou morte, tomados os devidos cuidados. Se não existe um risco tão grande, é melhor esperar. Até porque não haverá solução caso todos os leitos de UTI estejam ocupados com pacientes com Covid-19”, disse o médico Paulo Pêgo, integrante do conselho deliberativo da ABTO e diretor da Divisão de Cirurgia Torácica do Instituto do Coração (Incor) da Universidade de São Paulo (USP), com atuação em transplantes de pulmão.

Neste meio tempo, Ademir Pires, de 51 anos, tem medo de morrer. Portador da doença de Chagas, ele teme a característica mais traiçoeira do mal, descoberta por ele há três anos: a morte súbita. Dois irmãos já morreram assim, após infartos. Pires, a mulher e quatro filhos deixaram Belém, no Pará, e foram para Brasília atrás de um coração novo. O tratamento no Instituto de Cardiologia do Distrito Federal (ICDF) já dura dois anos, tempo em que está numa lista de espera, num incontável número de internações. Da aposentadoria de um salário mínimo, única renda da família, são descontados R$ 327 todo mês, para pagamento de um empréstimo consignado de R$ 8 mil que custeou as passagens que os levaram da Região Norte à periferia de Brasília. O novo coronavírus paralisou tudo. “Às vezes me dá vontade de voltar e morrer lá. Se o coração já não aparecia antes, qual a chance de aparecer agora?”

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 17 DE ABRIL

O SACRIFÍCIO DO AMOR

Acrescentou Deus: Toma teu filho, teu único filho, Isaque, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá; oferece-o ali em holocausto… (Genesis 22.2a).

Abraão, o pai da fé, passou por muitas provas, mas agora enfrenta a maior de todas. Depois de esperar 25 anos para ver nascer Isaque, o filho da promessa, recebe de Deus, uma dura e quase incompreensível ordem: Toma teu filho, teu único filho, Isaque, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá; oferece-o ali em holocausto (v. 2). Abraão não discute com Deus nem protela a ação. Naquela mesma madrugada, levanta-se, albarda seu animal, racha lenha e, levando consigo dois moços, sai com Isaque em direção ao monte apontado por Deus. Aquela deve ter sido uma dura jornada. Abraão está levando seu filho para o holocausto. Após três dias de caminhada, avistam o monte. Abraão, então, diz aos seus moços: Esperai aqui, com o jumento; eu e o rapaz iremos até lá e, havendo adorado, voltaremos para junto de vós (v. 5b). Abraão colocou a lenha sobre os ombros de Isaque e ambos partiram rumo a Moriá. No caminho, o menino pergunta ao pai: Eis o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o Acrescentou Deus: Toma teu filho, teu único filho, Isaque, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá; oferece-o ali em holocausto… (Genesis 22.2a).

Abraão, o pai da fé, passou por muitas provas, mas agora enfrenta a maior de todas. Depois de esperar 25 anos para ver nascer Isaque, o filho da promessa, recebe de Deus, uma dura e quase incompreensível ordem: Toma teu filho, teu único filho, Isaque, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá; oferece-o ali em holocausto (v. 2). Abraão não discute com Deus nem protela a ação. Naquela mesma madrugada, levanta-se, albarda seu animal, racha lenha e, levando consigo dois moços, sai com Isaque em direção ao monte apontado por Deus. Aquela deve ter sido uma dura jornada. Abraão está levando seu filho para o holocausto. Após três dias de caminhada, avistam o monte. Abraão, então, diz aos seus moços: Esperai aqui, com o jumento; eu e o rapaz iremos até lá e, havendo adorado, voltaremos para junto de vós (v. 5b). Abraão colocou a lenha sobre os ombros de Isaque e ambos partiram rumo a Moriá. No caminho, o menino pergunta ao pai: Eis o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o holocausto? (v. 7b). Abraão respira fundo e responde: Deus proverá para si, meu filho, o cordeiro para o holocausto (v. 8). No monte Moriá Deus proveu um cordeiro substituto e Isaque foi poupado. Dois mil anos depois, o Filho de Deus também foi colocado no altar do sacrifício, mas Deus não o poupou, antes por todos nós o entregou. Como Cordeiro que tira o pecado do mundo, Jesus morreu na cruz, em nosso lugar, para nos dar eterna redenção. Esse foi o sacrifício do amor: Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores (Romanos 5.8).

GESTÃO E CARREIRA

CAPITALISMO EM CRISE

Como os investimentos sustentáveis mudam os negócios

Os tempos definitivamente mudaram. No capitalismo do século 21, o lucro financeiro não é a única métrica a ser atingida. Ganhar dinheiro é importante, claro. Mas preservar o planeta é imprescindível para os negócios. Um estudo do Fórum Econômico Mundial em parceria com a consultoria PwC mostra o porquê. Metade do PIB global, o equivalente a US$ 44 trilhões, depende, em maior ou menor grau, da natureza. Como bem definiu Marc Benioff, fundador e CEO da Salesforce, a Terra é hoje nosso maior stakeholder. E ela carece de investimentos. Os chamados ativos sustentáveis são a classe que mais cresce hoje, segundo a Aliança Global de Investimento Sustentável (GSIA, na sigla em inglês). Entre 2016 e 2018, registrou-se um aumento de 34% nesses aportes, totalizando US$ 30,7 trilhões. Muito desse crescimento está associado aos fundos de pensão e outros investidores que aderiram ao PRI, sigla em inglês para Princípios para o Investimento Responsável. Criado pela ONU em 2003, esse programa representa o compromisso dos grandes investidores institucionais do mundo de investir em negócios sustentáveis.

Um dos marcos mais emblemáticos da nova era foi a carta de Larry Fink ao mercado. Em 14 de janeiro último, o CEO e presidente do conselho da BlackRock, a maior gestora de recursos do mundo, com quase US$7 trilhões de ativos sob sua administração, anunciou: a sustentabilidade está agora no centro das decisões de investimento da empresa. “Nossa convicção de investimento é que os portfólios integrados com a sustentabilidade e o clima podem proporcionar melhores retornos ajustados ao risco para os investidores. E, dado o crescente impacto da sustentabilidade no retorno dos investimentos, acreditamos que a base mais forte para os portfólios dos nossos clientes no futuro é o investimento sustentável”, lê-se no documento.

Entre as medidas anunciadas pela BlackRock, está a de desinvestir daqueles com alto risco de sustentabilidade, como os produtores de carvão para termoelétricas, e lançar novos produtos de investimento, que filtrem os combustíveis fósseis. Obviamente o mercado não espera que isso aconteça de uma hora para a outra. Larry comentou já ter passado por uma série de crises e desafios ao longo de seus 40 anos de carreira, mas nada que se compare à crise do clima. “Os picos da inflação dos anos 70 e 80; a crise da moeda asiática, em 1997; a bolha dot.com; e a crise financeira global. Ainda que tenham durado anos, foram, no amplo contexto das coisas, de curto prazo”, disse o executivo. A mudança climática impõe mudanças drásticas. Empresas, investidores e governos devem se preparar para uma realocação significativa de capital, adverte o executivo. No mundo das finanças, o futuro é de transformações. Nas próximas duas décadas, acontecerá a maior transferência de riqueza da história da humanidade. Cerca de US$ 30 trilhões passarão dos baby boomers para os millennials. E os herdeiros do futuro estão muito mais afinados com as causas socioambientais. Foi por iniciativa de uma autêntica millennial o evento Capital Converge Conference. Aos 31 anos, Marina Cançado, uma das herdeiras do grupo de farmácias Drogai, no interior paulista, recentemente reuniu investidores, gestores de fundos e executivos de bancos no Rio de Janeiro para debater como transformar o setor em uma alavanca para o desenvolvimento sustentável.

Para Marina, coordenadora da Agenda Brasil do Futuro, uma plataforma de coinvestimentos de jovens que querem contribuir para o futuro do país, não existe sustentabilidade no longo prazo sem o envolvimento do mercado financeiro. “A maneira como você investe seus recursos determina a realidade que você constrói”, explica. “Temos de acabar com o mito de que não é possível investir sem causar impacto social ou ambiental. É possível ganhar dinheiro e serresponsável.” E há grande número de oportunidades de investi­ mento com esse perfil no mercado global. Os Fundos Patrimoniais Filantrópicos, por exemplo, já movimentam US$ 1,5 trilhão no mercado internacional. No Brasil, grandes fundos de pensão, como a Previ, fundo de previdência dos funcionários do Banco do Brasil, já incorporam critérios sociais, ambientais e de governança a suas decisões de investimento.

No entanto, ainda há um longo caminho a percorrer para que a cultura da sustentabilidade se generalize no mercado financeiro nacional. Um dos desafios é a pouca variedade de oferta de ações, com uma bolsa de valores amplamente dominada por empresas dos setores de commodities e bancos. “Há pouca informação disponível por parte das empresas e, também, pouca liquidez”, diz Roberta Goulart, sócia da Turim, um dos maiores multi-family offices independentes do Brasil. As limitações, no entanto, começam a ser vencidas.

Marcelo de Andrade é sócio da Earth Capital, fundo global de private equity focado em investimentos sustentáveis relacionados à energia, alimentos e água. De origem inglesa, a Earth Capital deve lançar seu primeiro fundo no Brasil ainda este ano. “Temos de entender a sustentabilidade como um diferencial de risco”, explica Marcelo. “Na prática, com bons indicadores de ASG [ambientais, sociais e de governança], você melhora a relação de risco e o retorno dos investimentos.”

Cada fundo de investimento tem uma estratégia diferente de abordagem em relação à sustentabilidade e aos investimentos com impacto social relevante. Focada no middle market, a gaúcha EB Capital busca oportunidades em nichos de mercado que atendam a carências importantes da sociedade brasileira. Como a conexão de alta velocidade, por exemplo.

“O Brasil tem mais de um celular por pessoa, mas apenas 40% da população tem acesso à banda larga. E esses acessos estão concentrados nas grandes áreas urbanas. Além disso, 16% ainda usa internet discada”, explica Luciana Ribeiro, sócia da EBCapital. Segundo ela, essa demanda no interior é atendida por cerca de 7 mil provedores de acesso independentes, que levam o serviço até áreas que não são servidas pelas grandes operadoras de telefonia.

Essas empresas sofrem com falta de acesso a capital, por isso têm dificuldade de crescer. Ao mesmo tempo, a falta de conectividade reduz a produtividade no interior do país, e dificulta o acesso da população a serviços e informações online. “Por isso, investimos mais de R$ 200 milhões para assumir o controle da Sumicity, um provedor de fibra óptica no interior do Rio de Janeiro”, explica Luciana.

Outro segmento de interesse da EBCapital é o setor de treinamento e capacitação profissional. “Temos um desemprego de dois dígitos, e os Feirões de Emprego não preenchem todas as vagas por falta de capacitação dos candidatos”, diz Luciana. “Portanto, esse é outro setor com grande impacto social, tanto na redução da pobreza quanto na produtividade das empresas.” Hoje, a EBCapital possui um fundo de multiativos de US$150 milhões e um braço de private equity.

Mesmo com todos esses exemplos, fica a pergunta: como vencer a tentação dos ganhos de curto prazo, para investir de forma responsável em projetos sustentáveis, com perspectiva de retorno em horizontes mais longos? Marina Cançado responde e resume o que alguns grandes investidores já começaram a perceber. “Os investidores institucionais e de longo prazo já enxergaram que se eles não considerarem a sustentabilidade e o futuro, não haverá longo prazo”, diz. “E se não considerarem as responsabilidades sociais, ambientais e de governança, ainda colocarão em risco seus ganhos no curto prazo, porque vão precificar de forma inadequada os seus riscos”, conclui.

OS APORTES AUMENTAM

A evolução dos investimentos sustentáveis (em trilhões de US$)

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SEXUALIDADE E AS REDES SOCIAIS

O assunto é enfrentado com tabus, e todos tornam-se vulneráveis às informações apelativas vindas pela mídia no que diz respeito a esse conhecimento

Atualmente é fundamental que pais e educadores conversem com os jovens sobre sexo, sexualidade e as redes sociais. É fato que precisam compreender que não é por meio de uma “aula” de anatomia e de fisiologia das genitálias masculina e feminina que todas as dúvidas que permeiam sua curiosidade e descobertas sexuais serão resolvidas na mente das crianças ou adolescentes.

Como desatar as amarras se a maioria dos adultos somente conhece a sua identidade sexual por meio da genitália, e desconhece, muitas vezes, sua sexualidade? Importante distinguir os termos: sexo é um a expressão da sexualidade já amadurecida que envolve a escolha de parceiro(a) e pode acontecer a partir do desenvolvimento da puberdade. A sexualidade está presente em todo desenvolvimento do indivíduo, mas com características diferentes em cada etapa da vida.

A falta de orientação dos pais quando o assunto é sexo e sexualidade e a vulnerabilidade encontrada nas redes sociais vêm trazendo a banalização sexual e a erotização precoce às crianças e adolescentes, sendo a tecnologia apontada como a grande vilã causadora dessa “maturidade sexual” antecipada nos jovens, pois basta um click para que as respostas desejadas surjam nas telinhas digitais.

Vivemos num mundo touch, virtual e muito cedo as crianças e os jovens têm acesso fácil às redes sacias, aplicativos móveis para produzir e compartilhar imagens de nudez, sexo, tornando-se cada vez mais vulneráveis a essa nova identidade. Considera-se que o uso indevido das redes sociais acontece devido à falta de maturidade cognitiva e emocional para reconhecer que determinados encantamentos vindo das telas de computadores, celulares e dos relacionamentos obscuros podem transformar prazeres em grandes pesadelos para todos os envolvidos.

Alguns adolescentes usam o termo “sexting”, que é uma expressão usada na internet que significa sexualidade. Envolve mensagens de texto eróticas com convites sexuais para namorar, por meio de aplicativos pelos quais compartilham “nudes”. Pode ser entendido, também, pelo envio e divulgação de conteúdos eróticos, sensuais e sexuais com imagens pessoais pela internet, utilizando-se de qualquer meio eletrônico, como câmeras fotográficas digitais, webcams e smartphones.

Pais e educadores precisam estar atentos ao uso e aos sites da internet que seus filhos (as) estejam acessando. Importante observar, conversar e acompanhar o desenvolvimento de crianças e jovens, oferecendo outras possibilidades e formas de relacionamento no mundo real, presencial.

Contudo, é fundamental o diálogo sobre essas questões desde a infância, sem repressão, com muita conversa, para que se possam transformar crianças em adultos saudáveis do ponto de vista sexual, pois a construção humana vai muito além dos órgãos sexuais e das redes sociais da internet.

MARTA RELVAS – é membro da Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento. Docente da AVM Educacional/UCAM e da Universidade Estácio de Sá. Docente colaboradora da UFRJ/pub. Docente convidada do Instituto de Neurociências Aplicadas (INA). Livros publicados pela Wak e Editora Qualconsoante de Portugal

OUTROS OLHARES

QUANDO OS MÉDICOS ADOECEM

Histórias tocantes de profissionais da saúde que se viram, de uma hora para outra, no papel de pacientes infectados pelo novo coronavírus

“O mal-estar começou com uma febrinha e um pouco de tosse. Nada de muito diferente do que estou acostumado a sentir. Tenho sinusite há quarenta anos. Mas no terceiro dia a coisa mudou, acordei prostrado e com dificuldade para respirar. Deu positivo para a Covid-19. Daí em diante tudo se agravou de forma bastante rápida. Eu já estava naquele momento com comprometimento pulmonar. Não me deixaram sair do hospital. Fui internado na unidade semi-intensiva do Sírio­ Libanês. Cogitaram me entubar, mas graças a Deus não foi preciso. Fui medicado com cloroquina, antibióticos e analgésicos. Comecei a melhorar no quarto dia da internação. Aos 60 anos, nunca me senti tão mal. Eu já fiquei doente, tenho stents, mas nada se compara a isso. O mal-estar é tão violento que a sensação no auge da gravidade era que estavam tirando um pedaço do meu corpo. Tratei de dezenas de pacientes infectados, no entanto jamais imaginei que pegaria esse vírus.

Trabalho em UTI há 35 anos. Não faço ideia como isso foi acontecer. Mas garanto que voltarei com mais energia para trabalhar do que antes.”

O depoimento do cardiologista Roberto Kalil foi dado no fim da tarde do domingo 5 de abril, no quarto 842 do Hospital Sírio-Libanês. Ele permaneceu a maior parte do tempo sentado e interrompeu a conversa diversas vezes com tosse forte e fôlego comprometido. Três dias depois foi para casa, onde deverá se manter isolado até pelo menos o domingo 12. O relato de Kalil, um dos mais renomados profissionais de saúde do Brasil, exemplifica à perfeição a dramática realidade de homens e mulheres na linha de frente do combate à epidemia do novo coronavírus, os médicos infectados. No Brasil, estima-se que pelo menos um em cada dez profissionais de jaleco, incluindo enfermeiras e enfermeiros, esteja contaminado. O país está perto de entrar para o topo de uma dramática lista. Na Espanha, há 20% de contaminação entre profissionais de branco. Na Itália, 15%.

Evidentemente, o vírus não escolhe vítimas – pode-se dizer que seja democrático nesse aspecto -, mas assusta e emociona quando atinge nomes de relevância, de longa carreira, e já idosos. Com mais de 80 anos, Angelita Gama, cirurgiã do Hospital Oswaldo Cruz, em São Paulo, foi internada em 18 de março com febre e dores musculares. Em 48 horas precisou ser transferida para a UTI. Aos 70 anos, Raul Cutait, cirurgião do Hospital Sírio-Libanês, está entubado há cerca de duas semanas. No sábado 4, os médicos chegaram a tirá-lo da oxigenação artificial, mas no dia seguinte tiveram de religar os aparelhos. Até a última quinta-feira, 9, ambos encontravam-se no setor de emergência, em estado estável.

“Minha primeira sensação quando o teste para a Covid-19 deu positivo foi de culpa. Será que pulei algum passo? Fui inconsequente?”, indaga o cardiologista Fabio Pitta, de 36 anos, do Hospital Albert Einstein e do Instituto do Coração (Incor). “Sinceramente, não sei como peguei. Atendi casos de doentes internados, mas sempre paramentado. Talvez tenha me infectado com pacientes assintomáticos. É muito difícil ser obrigado a me isolar de pessoas que precisam de mim. Se tem uma coisa que me conforta é saber que voltarei forte para a batalha no pico máximo da doença”. Pitta está em isolamento em casa há uma semana.

O mau uso de equipamentos de proteção individual (EPis) da parte de muitos profissionais é um ponto crucial. Ressalve-se que em vários casos a vestimenta não é adequada por escassez de material, atalho para taxas brutais de infecção. A epidemia nem atingiu o auge no Brasil e as denúncias de desabastecimento já pululam.

A Associação Médica-Brasileira recebeu mais de 2.800 queixas de todo o país, 1.000 delas somente no Estado de São Paulo. Amaioria (87%) relata a falta das máscaras de proteção do tipo N95, as mais eficazes; 46%, de gorros; 35%, de álcool em gel 70%; e 26%, de luvas. Estudos mostram que a vulnerabilidade dos médicos é provocada também por outro motivo: a enorme quantidade de vírus aos quais eles são expostos. Cargas virais altas estão associadas a maior capacidade de transmissão e severidade no desenvolvimento da doença respiratória.

Muitos médicos, por estarem na vanguarda, colados às UTls, acabam erguendo couraças fisiológicas e psíquicas – condição que não garante imunidade, mas amplia ainda mais, como contraponto, o sofrimento de quem caiu doente, e não pode ajudar o outro, a essência da atividade. Estudo conduzido pelo Hospital da Universidade Médica de Nanjing, na China, revelou que profissionais na lida cotidiana com enfermos graves são mais resistentes a distúrbios psicológicos, e, portanto, mais protegidos. É como se tivessem se fortalecido diante do sofrimento alheio – os mais distantes, um tantinho apartados, apresentaram quadros de alteração do sono e princípio de anorexia.

“Não tive contato direto com pacientes de Covid-19. Na hora do diagnóstico tive taquicardia. E agora? Vai evoluir?”, diz Evelyn Lucien Brasil, de 41 anos, fisioterapeuta do Hospital Albert Einstein. “Demorei para perceber que podia ser a doença. Fiquei uma semana com cansaço, calafrio, tosse. Perdi o paladar e o olfato e ainda assim achei que pudesse ser um problema neurológico. Há poucos dias voltei a sentir um cheirinho, o do borrifador de lavanda que sempre coloquei na cama.” Evelyn deve sair do isolamento em casa no dia 13.

Um dos depoimentos mais impactantes de um médico que de uma hora para outra se viu no papel do doente infectado pela nova doença é o do infectologista David Uip, coordenador do Centro de Contingência do Coronavírus, do governo de São Paulo. Em 6 de abril, o primeiro dia do fim do isolamento em casa, ele declarou publicamente: “Este sentimento de você se ver, como médico, infectologista, com uma pneumonia, sabendo que muito provavelmente entre o sétimo e o décimo dia vai complicar, foi um sentimento muito angustiante. Você dormir não sabendo como vai acordar. Felizmente, Deus me ajudou e eu venci a quarentena. Eu tive de me reinventar, tive de criar um David novo. Seguramente mais humilde e sabendo os limites da vida. Quero dizer para vocês que não é fácil ficar isolado. É de extremo sofrimento, mas absolutamente fundamental”. Sim, o isolamento nas próximas semanas é fundamental – para médicos e não médicos.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 16 DE ABRIL

SENTIMENTOS PERIGOSOS

Então, lhe disse o SENHOR: Por que andas irado, e por que descaiu o teu semblante? (Genesis 4.6).

As atitudes são geradas no ventre dos sentimentos. O que sentimos determina o que fazemos, pois como o homem pensa no coração, assim ele é. Uma prova incontestável dessa realidade é a vida de Caim. O primeiro filho de Adão e Eva dedicou-se ao trabalho do campo como lavrador. Seu irmão Abel era pastor de ovelhas. Ambos receberam as mesmas instruções e ambos levaram uma oferta ao altar de Deus. Caim levou do fruto da terra, e Abel ofertou as primícias de seu rebanho. Deus se agradou de Abel e de sua oferta, mas rejeitou Caim e sua oferta. Por que Deus rejeitou Caim e sua oferta? Primeiro, porque Caim era um falso adorador. Era do maligno. Tentava encobrir seu pecado trazendo ofertas a Deus. A religião era apenas uma fachada para esconder sua vida mundana. Segundo, porque Caim era um falso irmão. Em vez de imitar as virtudes do irmão Abel, passou a odiá-lo. Mesmo repreendido por Deus por causa de seu destempero emocional, recusou-se a emendar seus caminhos. Terceiro, porque Caim era um falso amigo. Mesmo nutrindo sentimentos de morte no coração, dissimulou e armou uma emboscada para atrair seu irmão até o campo, onde o matou com requintes de crueldade. Quarto, porque Caim era um falso confessor. Depois de seu crime fratricida, negou diante do próprio Deus a autoria do delito. Sua consciência estava calcificada antes e depois do crime. Mesmo apanhado em seu erro, não deu provas de arrependimento. Cuidado com seus sentimentos, pois eles podem levar você também às ações perigosas!

GESTÃO E CARREIRA

O MAIS ÁRDUO DOS DESAFIOS

O aquecimento global expõe o esgotamento do modelo econômico atual e deixa evidente que o futuro da terra depende das empresas

“Cada geração é, sem dúvida, chamada a reformar o mundo. A minha sabe que não vai reformá-lo, mas sua tarefa talvez seja ainda maior. Consiste em evitar que o mundo se destrua.”

A fala do escritor francês Albert Camus (1913-1960), ao receber o Nobel de literatura de 1957, é lembrada por François Villeroy de Galhau, presidente do Banco da França, no prefácio do recém-lançado The Green Swan: Central Banking and Financial Stability in the Age of the Climate Change. Editado pelo BIS, sigla em inglês para Bank for International Settlements, o banco central dos bancos centrais, o livro avalia o impacto da crise climática na estabilidade financeira global. Apesar de contextos diferentes, lembra François, as palavras de Camus soam inspiradoras no momento em que a humanidade enfrenta a ameaça do clima. “Apesar da conscientização crescente, a dura realidade é que estamos perdendo a luta contra as mudanças climáticas”, escreve o executivo.

Os autores Patrick Bolton, Morgan Després, Luiz Pereira da Silva, Frédéric Samama e Romain Svartzman recorrem à imagem do “cisne verde” em referência à teoria do cisne negro, elaborada pelo matemático e estatístico líbano -americano Nassim Nicholas Taleb, em 2007. Eventos cisne negro são inesperados e raros; têm consequências negativas e até catastróficas e só podem ser explicados depois que ocorrem. Tais acontecimentos podem ser dos mais variados – de um ataque terrorista a uma disrupção tecnológica. O termo cisne negro começou a ser usado mais amplamente na economia com a crise de 2008. Agora, o cisne verde surge no relatório do BIS como o cisne negro do clima. Ou seja, um evento climático com risco financeiro altíssimo; devastador. Algumas particularidades, porém, diferem os cisnes verdes dos negros, explicam os pesquisadores. As catástrofes climáticas são mais graves do que a maioria das crises financeiras sistêmicas, já que tendem a representar uma ameaça existencial para a humanidade. Alémdisso, a complexidade relacionada às mudanças climáticas é muito superior à dos cisnes negros. “As reações em cadeia e os efeitos cascata associados aos riscos físicos podem deflagrar dinâmicas ambientais, geopolíticas, sociais e econômicas imprevisíveis”, lê­ se em The Green Swan.

Como se vê, o clima entrou definitivamente para o círculo das altas finanças e negócios globais. Nesse sentido, Davos foi contundente.

Desde 1971, o Fórum Econômico Mundial (WFE, na sigla em inglês) se reúne todos os anos nos Alpes suíços para cinco dias de debates em torno de questões que afligem a humanidade. Um encontro para refletir sobre o futuro. Essas conversas costumam girar em torno de crises econômicas e financeiras. Este ano, no entanto, foi diferente. O clima esteve no centro das discussões. Pela primeira vez, escreve Borge Brende, presidente do Fórum Econômico Mundial, no prefácio de The Global Risks Report 2020, uma única categoria ocupa os cinco primeiros lugares no ranking das grandes ameaças globais – eventos climáticos extremos; falhas no combate às mudanças climáticas; desastres naturais; perda de biodiversidade e desastres ambientais causados pelo homem.

“Nos últimos cinco anos, a mudança climática está ocorrendo mais rapidamente do que muitos esperavam”, lê-se no relatório. Os desastres naturais estão não só mais frequentes como mais violentos, segundo os especialistas do WEF: ” No ano passado, testemunhamos clima extremo em todo o mundo. As temperaturas globais estão em alta e devem aumentar pelo menos 3 ºC até o final do século – o dobro do que estava previsto”. Em 2018, US$ 165 bilhões foram perdidos em desastres naturais. Entre 2008 e 2016, a cada ano 20 milhões de pessoas foram forçadas a deixar suas casas por causa de incêndios florestais, inundações e tempestades. Metade do PIB global, o equivalente a associados à degradação ambiental. Essas são apenas algumas das tragédias relacionadas às alterações ambientais citadas em The Global Risks Report 2020. A emergência, definem os estudiosos, é planetária.

A crise é grave. Gravíssima. E exige intervenção imediata. Mas ela é reveladora de uma ferida ainda mais profunda. A do capitalismo, tal qual escola de Chicago, do economista Milton Friedman (1912-2006), do lucro a qualquer custo, do lema “the business of business is the business” – esse dá sinais claros de falência. Em carta aberta, divulgada em Davos, o alemão Klaus Schwab, fundador do fórum, defende um novo capitalismo, o das “partes interessadas”. Escreve ele: “Primeiro veio o efeito ‘Greta Thunberg’. A adesão ao atual sistema econômico representa uma traição para as gerações futuras, devido à sua insustentabilidade ambiental. Em segundo lugar, os millennials e a geração Z já não querem trabalhar para investir em, ou comprar de empresas que não tenham outros propósitos para além da maximização de valor para os acionistas. Por último, cada vez mais os executivos e investidores compreendem que o sucesso deles no longo prazo também depende do êxito de seus clientes, em­ pregados e fornecedores”.

François Villeroy de Galhau e Klaus Schwab não estão sozinhos. Mais e mais líderes e executivos defendem uma nova narrativa para os negócios. Capitalismo consciente, capitalismo inclusivo, investimento de impacto, investimento socialmente responsável…

“O capitalismo que eu pratiquei nos últimos anos – com a obsessão de maximizar os lucros para os acionistas – também levou a uma desigualdade horrorosa. Globalmente, as 26 pessoas mais ricas do mundo possuem a riqueza dos 3,8 bilhões mais pobres (…) É hora de um novo capitalismo. Um capitalismo mais justo, igualitário e sustentável. Um capitalismo que funcione para todo mundo”, defende Marc Benioff, fundador e CEO da Salesforce, em artigo para o jornal The New York Times, intitulado We Need a New Capitalism.

“O objetivo não pode ser a transparência em nome da transparência. Deve ser um meio para alcançar um capitalismo mais sustentável e inclusivo. As empresas devem ser deliberadas e empenhadas em abraçar o propósito e servir todas as partes interessadas – seus acionistas, clientes, funcionários e as comunidades onde operam. Ao fazer isso, sua empresa desfrutará de maior prosperidade a longo prazo, assim como os investidores, trabalhadores e a sociedade como um todo”, diz Larry Fink, CEO da BlackRock, o maior fundo do mundo, com quase US$ 7 trilhões sob sua gestão.

“O sonho americano está vivo, mas está desgastado. Os grandes empregadores estão investindo em seus funcionários e em suas comunidades porque sabem que esse é o único caminho para serem bem-sucedidos no longo prazo”, defendeu Jamie Dimon, CEO do banco JP Morgan Chase e chefe da Business Roundatble, que congrega a nata do capitalismo americano, os presidentes executivos das 181 maiores corporações dos Estados Unidos (Amazon, Apple, Xerox, Ford, Walmart, Exon Mobil, AT&T, JP Morgan Chase…) Juntas, essas companhias somam cerca de 15 milhões de funcionários e US$ 7 trilhões de faturamento anual.

Uma das alternativas mais modernas ao crescimento ilimitado a qualquer custo é a Economia Donut. Desenvolvida pela economista inglesa Kate Raworth, professora e pesquisadora da Universidade de Oxford, ela propõe um sistema em que as necessidades dos cidadãos serão satisfeitas sem esgotar os recursos naturais. “A essência do Donut: um alicerce social de bem-estar abaixo do qual ninguém deve cair, e um teto ecológico de pressão planetária que não devemos transpor. Entre os dois encontra-se o espaço seguro e justo para todos”, escreve Kate, no premiadíssimo Economia Donut Uma Alternativa ao Crescimento a Qualquer Custo.

Os primeiros alertas sobre a falência do sistema econômico atual soaram em meados da década de 60. Em The Economics of the Coming Spaceship Earth, o economista e pacifista Kenneth Boulding (1910-1993) chamava a atenção para a necessidade de mudança no modelo de desenvolvimento. Defendia a transição de uma visão predatória, individualista e efêmera, que chamou de economia cowboy, para um sistema de produção e consumo circular, duradouro e interdependente, que considerasse os limites do crescimento no cuidado com a nave espacial Terra, a economia astronauta. Boulding alertava para as consequências de se operar uma economia aberta e em expansão dentro de um sistema fechado como nosso planeta. Eram tempos de Guerra Fria, marcados pela euforia que se seguiu ao período de restrições e privações da Segunda Guerra Mundial, e por isso sua teoria passou longe da esfera de decisões dos negócios e do poder.

Agora é preciso correr. “A próxima década vai definir se a humanidade pode alcançar o objetivo de limitar o aquecimento em 1,5 ºC. Sem redução significativa nas emissões nos próximos cinco anos, a capacidade de ação será crescentemente menor, resultando em danos que podem se tornar irreversíveis”, diz o estudo The Net-Zero Challenge: Global Climate Action at a Crossroads, fruto da parceria do Fórum Econômico Mundial com o Boston Consulting Group (BCG). O trabalho avaliou as 6.937 companhias registradas no antigo Carbon Disclosure Project (CDP). Com sede em Londres, o CDP incentiva as empresas e cidades a divulgar seus dados de impacto ambiental de modo a ajudar ações rumo a uma economia sustentável. Das quase 7 mil corporações, apenas um terço divulgou suas emissões de C02 um quarto somente havia definido metas de redução e uma parcela ainda menor (1/ 8) de fato havia diminuído as emissões de gases de efeito estufa nos anos anteriores.

“Nem todos os negócios entenderam o que está por trás da lógica de sustentabilidade, mas perceberam que as consequências das mudanças climáticas virão”, diz Aron Belinky, sócio fundador da ABC Associados, consultoria especializada em metodologias de avaliação de empresas por critérios de sustentabilidade. The Net-Zero Challenge defende que governos e corporações podem e devem avançar com iniciativas unilaterais. Em primeiro lugar, porque é bom para os negócios. Sustentabilidade economiza recursos com a melhoria de eficiência, gerenciamento de riscos, busca de inovação e de oportunidades de longo prazo. “Embora nenhum ator possa deter o aquecimento global sozinho, os esforços das principais nações industriais ou das grandes corporações podem ter efeito multiplicador”, lê-se no trabalho. E sinaliza que um caminho é reduzir a intensidade de emissão de seus negócios e cadeias de suprimentos, por meio de medidas que custam pouco ou nada e podem compensar as emissões dos processos produtivos.

“Todos temos possibilidade de sermos líderes dessa transformação da sociedade. Temas como mudança climática são realidade, podem ser mais ou menos reconhecidos pelos políticos de alguns países, mas a temperatura está mudando, os eventos climáticos estão mais fortes. Cada empresa e cada pessoa tem a responsabilidade e a grande oportunidade de ser um ator ativo nesse processo, ou então esperar que a lei obrigue a fazer a coisa certa”, diz Nicola Cotugno, principal executivo da Enel no Brasil. A escolha estratégica de mudar para um modelo de negócios sustentável e integrado, quase dez anos atrás, posicionou o grupo italiano como um dos líderes da transição energética. A empresa se comprometeu a eliminar usinas térmicas a carvão e gás, e neutralizar as emissões de carbono até 2050, direcionando investimentos para a geração a partir de fontes renováveis. No Brasil, o projeto é quase dobrar a capacidade de geração solar e eólica, que são mais limpas e mais baratas. Uma das metas da empresa italiana é desenvolver infraestrutura para a recarga de carros elétricos nas grandes cidades.

“A transição energética é um ponto de atenção não para uma elite de empresas, mas, cada dia mais, para todo o mundo dos negócios”, resume Nicola. Dos € 28,7 bilhões do investimento planejado pela Enel até 2022, mais de 90% serão destinados a projetos que trabalham para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), da Organização das Nações Unidas (ONU). “Estamos demonstrando que criar valor para o meio ambiente, para a sociedade, é colocar a sustentabilidade no centro do negócio, como uma estratégia. Essa é a mais moderna e importante forma de criar valor para a empresa”, explica Nicola.

Para avaliar seu progresso, a empresa de eletricidade usou os mecanismos de monitoramento e avaliação do conjunto de 17 objetivos com 169 metas a serem atingidas até 2030. Como resultado, a Enel ficou em oitavo lugar em uma lista global das cem empresas mais sustentáveis do mundo, elaborado pelo grupo canadense Corporate Knights. O ranking se baseia em dados divulgados publicamente por cerca de 7 mil empresas, e um conjunto de 65 indicadores não só ambientais, mas também sociais e econômicos.

Há um consenso de que a mudança climática está acontecendo mais rápido do que se imaginava, portanto será uma questão de velocidade, diz Nicola. “Temos grande responsabilidade com as gerações futuras – quem tem filhos, quem tem respeito pela sociedade tem de atuar, não é uma opção”, afirma o executivo. Sua inspiração é a filha de 18 anos, que mora no Chile e só consome alimentos orgânicos e sustentáveis, e o filho de 23, que vive na Inglaterra, nunca teve carro e só anda de transporte público.

“Impressionante como as empresas voluntariamente estão entrando nessa vibração verde que vai além do meio ambiente, inclui diversidade e atração de gênero nas empresas”, resume Maurício Bahr, CEO no Brasil da companhia francesa de energia Engie. É um caminho que não tem mais volta, diz. Quatro anos atrás, o grupo francês resolveu se transformar em um negócio de baixa emissão de carbono. Encerrou as atividades de exploração de carvão e gás e concentrou em fontes renováveis, como solar, eólica, biomassa, hidrelétrica, e na construção de linhas de transmissão de gás. “O gás vai ter papel importante na transição energética da próxima década, sobretudo nos períodos quando não há sol ou vento”, explica Maurício.

“Percebemos que o consumidor e as gerações mais jovens exigem isso. Temos uma oportunidade única de fazer o casamento entre os interesses das pessoas e do planeta, e ainda ter lucro”, avalia. No ano passado, a Engie firmou parceria para fornecer energia 100%renovável para todas as unidades da empresa de beleza francesa L’Oréal no país. Com essa opção por uma fonte mais limpa de geração, evitam a emissão de 7 mil toneladas de C02 na atmosfera, o equivalente ao plantio de mais de 43 mil árvores. A energia com certificação de origem vem de um complexo com oito usinas eólicas em Trairi, município no Ceará.

Em fevereiro, como reflexo de um movimento global, a L’Oréal reuniu no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, cem fornecedores para inspirá-los a entrar na vibração dos produtos verdes, reduzir plástico nas embalagens, diminuir a emissão de C02 e reforçar a importância de uma economia circular dentro do negócio. Além de vender energia de fontes menos poluentes, a Engie decidiu criar soluções para seus clientes serem mais eficientes. “Parece ser paradoxal uma empresa que fornece energia ajudar a reduzir o consumo, mas é isso o que fazemos com monitoramento, consultoria e adequação de fontes”, ele conta. Um dos clientes do grupo francês é o Banco Itaú, para quem a Engie faz análise da curva de consumo, ajuda a reduzir a conta de luz e planejar os melhores momentos para o uso de ar condicionado em cada agência bancária.

Pelo segundo ano consecutivo, o Itaú foi além e renovou o contrato para compra de créditos de carbono da usina de biomassa da Engie em Lages, em Santa Catarina. Pela negociação, de forma voluntária, a instituição financeira compensou 35 mil toneladas de C02 emitidas e reportadas pelo banco em 2018. A energia elétrica e térmica gerada na usina de Lages consome como combustível os resíduos de madeira produzidos na região. Assim, evita a emissão de metano provocada pela decomposição da madeira no solo. As cinzas geradas pela usina são ainda reaproveitadas para adubação do solo.

Além de fornecer eletricidade, a Engie viu uma oportunidade também para a comercialização de energia no mercado livre. “Começamos mapeando nossas emissões e reduzindo nossa pegada de carbono, e agora fazemos o mesmo com os clientes”, explica o executivo. Um projeto chama o outro, e a Engie acaba de anunciar uma parceria com a montadora Audi para instalar 200 centrais de recarga de carros elétricos até 2022. Presente em 70 países, o grupo francês possui 75 mil pontos de recarga para veículos elétricos na Europa e nas Américas. Seu objetivo é alcançar 1 milhão de unidades no mundo até 2025, contribuindo para a descarbonização do tráfego das cidades.

“Precisamos criar um mercado de carbono. Não há obrigação por lei para que nenhuma empresa compense suas emissões, não há incentivo”, aponta o executivo da Engie Brasil. “Poucas empresas estão fazendo inventário e compensando suas emissões”, diz Maurício Bahr. A ação voluntária é essencial, afirma o executivo, cuja principal inspiração é Laura, a primeira neta, nascida em 2019. “Vamos começar a ver consumidores escolherem produtos pela qualidade do tratamento que as empresas dão ao planeta”, avalia.

Na transição para uma economia de baixo carbono, o impacto das novas tecnologias será decisivo no desenvolvimento de alternativas para indústrias intensivas em consumo de energia. “As tecnologias ajudam a manter o mundo mais sustentável, com impacto positivo tanto no aumento da eficiência energética, quanto na redução de emissões de carbono. Garantir que os mercados possam aplicar essas tecnologias e se beneficiar de um ambiente com menos carbono, e uso descentralizado e digital de energia é o primeiro passo”, explica Luc Rémont, vice-presidente executivo de operações internacionais da Schneider Electric.

“Vamos gradualmente expandir nossa neutralidade de carbono, abraçando não apenas o que a Schneider faz, mas toda a rede produtiva, para neutralizar o carbono na cadeia de valor até 2050. Essa é a nossa ambição”, completa o executivo do grupo francês de energia. Para enfrentar os desafios das mudanças climáticas, a empresa se comprometeu a neutralizar as emissões até 2025. “Isso é amanhã. Fazemos isso porque acreditamos que devemos dar o exemplo, sendo os maiores experts em testar nossas tecnologias e serviços para aprimorá-los e torná-los mais eficientes”, conta o especialista em economia e engenharia, que integrou a delegação francesa nas negociações do Protocolo de Kyoto, em 1997. Luc aponta a importância de se tornar um exemplo do que propõe para salvar o mundo. “A Terra é nossa casa, e ninguém bota fogo na própria casa, não há um planeta B”, diz.

O crescimento do tema sustentabilidade tem acelerado a implantação da tecnologia digital. “Digitalizar a infraestrutura permite conectar todo o uso de energia e seu processo, com um melhor conhecimento do que acontece, por exemplo, em um prédio ou em uma fábrica. Você entende melhor o quanto de energia precisa providenciar em uma estrutura para que ela não gaste a mais”, explica Luc. A maioria dos prédios, ele explica, ainda gasta mais do que o necessário. “O que a tecnologia digital traz é a habilidade de permanentemente adaptar a infraestrutura para seu uso real. Assim, podemos reduzir o consumo de energia em 30%, na média, no gasto para aquecimento e ar condicionado. É muita coisa”, aponta.

Se fizer isso num país inteiro, mudamos a escala da equação energética, ele avalia. “Isso é possível hoje: são tecnologias disponíveis, fáceis de aplicar e não muito caras, com retorno sobre o investimento que se torna positivo em alguns anos. Basta mudar gradativamente o que tem sido feito nos últimos anos”, completa.

Nem todas as organizações estão dispostas a mudar seus processos, e a falta de transparência sobre a divulgação da pegada ambiental é um sintoma disso. Dos milhões de empresas que existem no mundo, apenas 8 mil divulgaram os dados sobre suas emissões de gás carbônico para a organização sem fins lucrativos CDP. Em 2019, aliás, houve um aumento de 20% no número de empresas reportando informações. Do total, 179 organizações foram consideradas líderes, nota A, por conta da exposição clara de seus dados climáticos, seus riscos, sua governança climática e boas práticas. Apenas uma minoria, porém, apresenta planos para redução no médio e longo prazo.

Boa parte das ações em busca de salvar o planeta Terra tem a ver com convicções pessoais e motivações de CEOs comprometidos em deixar um legado. É o caso da engenheira Tania Cosentino, que, em 2017, como principal executiva da Schneider Electric, foi escolhida pelas Nações Unidas uma das dez executivas que trabalharam com seus negócios em prol do meio ambiente e dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

Hoje, como presidente da Microsoft Brasil, ela lança mão também de tecnologia para gerar impacto e desenvolvimento econômico. “No mundo tem 1 bilhão de pessoas sem acesso à energia elétrica, e quase 1 bilhão praticamente abaixo da linha da pobreza. Ao incluir essas pessoas para que tenham uma vida mais digna, com trabalho e conforto, não tem como não emitir mais carbono do que hoje, quando elas não têm acesso a nada. Por isso é importante criar as condições para incluir esse 1 bilhão de pessoas sem trazer mais impacto para o planeta”, analisa. Tania defende o uso dos ODS para avaliar o progresso e a evolução dessa agenda planetária.

Há hoje um consenso entre a comunidade científica internacional de que a atividade humana liberou mais de 2 trilhões de toneladas de gases de efeito estufa na atmosfera desde o início da Primeira Revolução Industrial, em 1750. Mais de três quartos disso é dióxido de carbono, e a maior parte foi emitida a partir de 1950. É mais carbono do que a natureza pode reabsorver, e todos os anos a concentração desses gases aumenta. Depois que entra na atmosfera, o excesso de carbono pode levar milhares de anos para se dissipar. Diante desse quadro, os especialistas em clima concordam que para enfrentar esses desafios será necessário uma abordagem agressiva e o desenvolvimento de novas tecnologias. O mundo, argumentam, deve tomar medidas urgentes para reduzir as emissões, e remover tanto carbono quanto emite a cada ano.

Para responder a esse chamado, a Microsoft anunciou um ambicioso plano de se tornar negativa em carbono em uma década. Até 2050, a empresa de tecnologia se comprometeu a remover do ambiente sua pegada ecológica, compensando todo o carbono que emitiu diretamente ou por seu consumo elétrico desde que foi fundada, em 1975, por Bill Gates. “Agora vamos incorporar as emissões dos nossos fornecedores também, investindo no desenvolvimento de soluções para clientes e parceiros”, explica Tania. Uma de suas ferramentas digitais para colaboração e trabalho à distância, o Teams, visa reduzir o número de viagens e aproximar os times, que podem trabalhar em um mesmo arquivo digitalmente. “A missão da tecnologia é ajudar pessoas a conquistar mais, preservando nosso planeta. E isso é possível com as novas técnicas de inteligência artificial”, avalia a presidente da Microsoft.

Salvar o mundo não é algo que um indivíduo, empresa ou governo possa fazer sozinho. Realmente precisamos dos governos, da academia, do setor privado, das ONGs e da sociedade civil, tudo isso combinado, diz. “Qualquer empresa pode gerar impacto em pelo menos um dos ODS. Se cada organização tiver essa consciência, teríamos um planeta melhor”, diz a presidente da Microsoft. Em dezembro de 2017, a empresa anunciou investimento de US$ 50 milhões para o programa AI for Earth, para financiar projetos que visam enfrentar os desafios ambientais do planeta com inteligência artificial.

Dono de uma das maiores fortunas do mundo, Jeff Bezos, da Amazon, também anunciou em final de fevereiro um fundo de US$10 bilhões para enfrentar as mudanças climáticas. A gigante de comércio eletrônico tem questões internas para resolver também. A empresa tem sido acusada de criar grande quantidade de resíduos com suas embalagens, além de ser grande emissora de gases de efeito estufa por conta das entregas de seus produtos em domicílio.

Em escala global, no entanto, o impacto da pressão dos investidores ainda não é suficiente. Em entrevistas individuais aos pesquisadores do Boston Consulting Group e do Fórum Mundial de Davos, os CEOs explicam que a pressão para entregar resultados de curto prazo excede em muito as demandas pela descarbonização no longo prazo. “A menos que essa tendência mude, os CEOs terão pouco incentivo para tomar ações decisivas”, apontam os autores do relatório. Sustentabilidade, diversidade e inclusão, lembra a presidente da Microsoft Brasil, não são apenas para empresas ricas. “Sustentabilidade é uso racional de recursos, portanto, é dinheiro”, afirma. Se não souber por onde começar, basta ler as metas de desenvolvimento sustentável, ou os princípios de empoderamento da ONU Mulheres. Ali está o caminho para um mundo melhor, aponta.

Nem sempre a reação do mercado de capitais e investimento é positiva. Em 2007, quando a empresa brasileira de cosméticos Natura iniciou seu projeto para neutralizar as emissões de carbono e investir em ingredientes da biodiversidade amazônica, suas ações despencaram. Para os acionistas, falou mais alto a perspectiva de risco que aquela estratégia representava. “Se 13 anos atrás esse tipo de coisa causava estranhamento, hoje é uma busca nas estratégias das empresas, e nos investidores”, diz João Paulo Ferreira, CEO da Natura & Co Latam. “Gerar impacto positivo ambiental e social faz parte do modelo de negócios da empresa, e pressupõe a prosperidade nas gerações futuras”, diz o executivo. Hoje a empresa tem o maior valor da sua história, comprou a marca Body Shop em 2017 e no ano passado assumiu o controle da Avon.

A Natura tem atuação em três grandes pilares: clima e proteção ambiental, resíduos sólidos e ação social. Pela compra de ingredientes da Amazônia, a empresa calcula que contribui para a conservação de 1,8 milhão de hectares de floresta, gera renda para mais de 4,6 mil famílias da comunidade local, em um volume de negócios que ultrapassa R$1,5 bilhão. Ao manter um terço de seus produtos com opção de refil, a companhia estima que, por ano, deixam de ir para o lixo 31 milhões de garrafas plásticas e 1,7 milhão de embalagens de vidro. “Não tenho dúvidas de que a atuação socioambiental é talvez a maior fonte de diferenciação da Natura, o maior motor de inovação da empresa, transformando desafios socioambientais em oportunidade de negócios, num ciclo virtuoso”, avalia João Paulo.

“Empresas têm por objetivo gerar valor não apenas para acionistas, mas para todos os stakeholders, a saber, consumidores, governo, colaboradores e fornecedores”, diz o presidente da Natura & Co. “Maximização do retorno para o acionista no curto prazo não é o objetivo final da empresa, e sim a maximização de valor para a sociedade”, afirma. No tema dos resíduos sólidos, no entanto, o Brasil anda a passos lentos. Boa parte dos esforços da Natura no momento se deve à formação de parcerias para construir cadeias de logística reversa, com a organização de cooperativa de catadores para reaproveitar resíduos e embalagens pós-consumo. “O grande desafio é tornar essas boas práticas políticas públicas, em padrões de atuação para empresas e sociedade”, diz.

Estimular novos comportamentos é uma das missões mais importantes para uma economia de baixo carbono. “O planeta não precisa do ser humano. Nós é que precisamos dele. Precisamos continuar a fazer o bem para o planeta, e atrair pessoas interessadas em trabalhar conosco”, diz o italiano Andrea Crisanaz, CEO da Generali Brasil. Pela segunda vez, o conglomerado italiano fundado em 1831 foi eleito uma das cem empresas mais sustentáveis do mundo pelo Corporate Knights. “Nosso papel é incentivar mudanças de comportamento”, diz o executivo nascido em Trieste, onde fica a sede da Generali.

Um dos produtos experimentais da companhia foi um seguro personalizado, para os novos desafios urbanos. Nesse produto, o que está assegurada é a mobilidade da pessoa, que pode fazer uma parte do percurso a pé, de skate, metrô ou patinete. “Essa modalidade de seguro vai além do carro, protege a pessoa em sua mobilidade como um todo, e incentiva o uso de transporte mais sustentável. É para a pessoa que usa o carro, outras vezes vai de aplicativo, ônibus, patinete”, diz o executivo.

Em sua nova sede, no Porto Maravilha, no centro do Rio de Janeiro, a seguradora tem bicicletário, estimula vários meios de transporte e ainda substituiu as lixeiras individuais por cestos compartilhados com coleta seletiva.

Outro exemplo de mudança de atitude é o conceito de trabalho inteligente, que permite aos funcionários trabalhar um ou dois dias por semana de casa. “No Brasil, abraçamos esse projeto em 2019, e este ano planejamos que 150 de nossos 400 funcionários participem dele. Trabalhar de casa permite reduzir o tempo de locomoção no próprio veículo ou no transporte público, e reduzir o efeito d a contaminação de combustíveis”, explica Andrea Crisanaz.

A seguradora italiana acaba de criar um seguro para estimular o motorista a não usar o carro. O seguro totalmente digital premia o motorista que dirige bem e pouco, só quando é necessário, explica Crisanaz. Por intermédio de um aplicativo baixado no celular, e a partir do cálculo do GPS, a cada 400 quilômetros é feita uma avaliação da frequência de acelerações, frenagens e distância percorrida. O cliente paga uma assinatura mensal, como se fosse um serviço de TV, e a esse valor é acrescido um adicional por quilômetro percorrido. “Esse adicional é menor se o motorista dirige bem, se acelerar e frear de modo regular, o que tem como efeito reduzir o número de acidentes, consumir menos combustível e contaminar menos a atmosfera”, explica o principal executivo da seguradora no Brasil.

Desde 2018, o grupo italiano, com 61 milhões de clientes no mundo, optou por usar energia elétrica proveniente de fontes renováveis. Hoje, 88% da demanda energética dos 71 mil funcionários em mais de 40 países vem de fontes limpas de energia. “Há outros indicadores estratégicos, como a emissão, em setembro de 2019, do primeiro título verde do setor de seguros do mercado europeu, com valor de € 750 milhões. A meta até 2021 é conseguir € 4,5 bilhões em investimentos verdes”, explica o executivo da Generali no Brasil.

Diante da morosidade dos governos em avançar em suas agendas em prol do planeta, o setor produtivo parece ter se dado conta do imperativo moral e da responsabilidade que tem para salvar o planeta, literalmente. A reunião de Davos, em janeiro de 2020, sinalizou também para um ponto de inflexão na agenda dos negócios e do poder, explica Mauricio Adade, principal executivo da empresa química holandesa DSM na América Latina. Frequentador das reuniões no resort suíço desde 2015, ele conta que pela primeira vez houve compromisso e colaboração de todos os setores e agendas diferentes para enfrentar as mudanças climáticas, que não serão reversíveis a não ser que todos atuem juntos. “Davos não reúne apenas políticos, CEOs de companhas privadas e ONGs, mas congrega todas as lideranças de todos os setores da sociedade, que se encontram em discussões para buscar soluções de médio e longo prazo para o que acontece no mundo”, ele resume.

“Não temos mais tempo, e a mudança climática mostrou que não estamos no caminho certo”, avalia o executivo. A Terra está mais quente a cada ano, o gelo das calotas polares está derretendo, o nível dos oceanos aumenta, e as águas estão inundadas de plástico e produtos tóxicos. Perdemos espécies animais, e os níveis de gás carbônico que agravam o efeito estufa sobem a cada ano. “Impossível uma companhia de sucesso em um mundo desaparecendo e com muitos problemas”, diz Adade.

Há 12 anos, a DSM adotou a sustentabilidade como seu viés de atuação estratégica, com produtos e soluções na área química e nutrição. Na mais recente revisão de sua estratégia, em vez de buscar megatendências de mercado, as lideranças da empresa decidiram usar como guia os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. “Escolhemos cinco objetivos como pano de fundo para o crescimento com geração de valor – fome zero e agricultura sustentável (ODS 2), saúde e bem-estar (ODS 3), energia limpa e acessível (ODS 7), consumo e produção responsáveis (ODS 12) e combate às alterações climáticas (ODS 13)”, enumera.

A indústria química descobriu um nicho para lucrar e fazer o bem ao planeta com tecnologias para a proteína animal. Desenvolveu um suplemento alimentar, apelidado de vaca limpa, que ao ser agregado à alimentação do gado de corte e de leite, diminui a emissão de gás metano em até 30%. Chamada Bovaer, a tecnologia consumiu 20 anos de pesquisa, e aguarda aprovação da agência de vigilância sanitária europeia para ser lançada comercialmente. Outro exemplo de sua atuação foi a criação da joint venture Veramaris, que, a partir da fermentação de algas, substitui o uso de óleo extraído de peixes capturados na natureza para produzir uma solução com ácidos graxos ômega-3 para alimentar o salmão em cativeiro. Tem ainda uma parceria com o governo de Ruanda, na África, para produzir alimentos fortificados e diminuir os problemas relacionados à desnutrição.

Antiga indústria de carvão, a DSM desenvolveu também o fio branco dos carregadores de celular da Apple, que não libera gases cancerígenos ao ser incinerado no final de seu ciclo de vida. Em 2018, a empresa reuniu os cerca de 500 funcionários na sede em São Paulo, em um dos prédios mais sustentáveis da América Latina, diz Adade. “O prédio tem vidros duplos, o que melhora entre 30% e 40% a eficiência do ar condicionado e permite a passagem da luz solar. Toda a água da chuva é reaproveitada, e o edifício tem opção para carro elétrico e bicicletário”, conta. Um dos novos projetos da empresa é uma embalagem para queijos, desenvolvida por uma membrana plástica permeável. “Considerando que um terço dos alimentos no mundo se perde no processo, desde o transporte até chegar ao prato, esse tipo de embalagem pode reduzir a pegada de carbono do queijo em até 10%”, calcula Adade.

Reduzir perdas a partir do uso de tecnologia, inovação e eficiência é uma saída para diversos setores. No Brasil, em média, dois em cada cinco litros de água tratada se perdem no caminho, na distribuição até o consumidor. “A infraestrutura é antiga, há vazamentos na tubulação, e entre captar água num manancial ou rio e ela chegar até a casa do cliente, perde-se algo em torno de 40%, ou seis reservas do sistema Cantareira por ano”, estima Teresa Vernaglia, CEO da BRK Ambiental, empresa privada que fornece infraestrutura para água e saneamento básico. Em alguns estados brasileiros, ela conta, o desperdício é de 70%. “De balde não se perderia tanto”, completa.

“O setor de saneamento e água no Brasil está certamente no século passado, e 100 milhões de pessoas, ou metade da população, não têm acesso a esgotamento sanitário”, ela afirma. Todos os anos são lançadas dezenas de piscinas de esgoto sem tratamento nos rios e mananciais do país. O quadro de tragédia se completa com 35 milhões de brasileiros sem acesso a água tratada. “Esse número representa a população inteira do Canadá, para se ver a dimensão do atraso em que vivemos”, compara a executiva. Como resultado, 15 mil pessoas morrem por ano por doenças de veiculação hídrica, que poderiam ser evitadas.

“O Brasil evoluiu em muitos setores. Temos uma matriz energética limpa porque grande parte da geração ainda é hidrelétrica, e os carros elétricos começaram a chegar às ruas, mas vivemos uma realidade triste no saneamento”, diz Teresa, nomeada porta-voz do Pacto Global da ONU para o tema de água e esgoto. Faltam investimentos, diz Teresa. No país todo, em 2018, a executiva da BRK Ambiental conta que os investimentos em infraestrutura foram da ordem de R$ 110 bilhões, incluindo rodovias, aeroportos, telecomunicações, energia e saneamento. “Quando se olha para o saneamento, que tem essa lacuna gigantesca a ser preenchida, o investimento foi da ordem de R$ 10 bilhões, menos de 10% do total”, ela calcula.

“O saneamento é um setor intensivo em capital, e hoje 94% da população é atendida por empresas públicas”, explica Teresa. Apenas 6% do esgoto do país é tratado por empresas privadas, como a BRK, que respondem por 30% do investimento. Apesar das metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas apontarem para a possibilidade de garantir acesso universal à água e ao esgoto tratado, na prática não é o que ocorre. “O Brasil definiu a data de 2033 para universalizar o acesso ao esgotamento sanitário, e para isso seria preciso haver investimento de R$ 15 bilhões ao ano. Em média, o valor ficou muito aquém, não chegou a R$ 10 bilhões ao ano. Significa que se quisermos manter o ano de 2033 como meta de universalização de esgoto, estamos falando em mais de R$ 20 bilhões de investimento anual”, explica. O mundo mudou, diz Teresa. “As novas gerações são muito conscientes, e a criança de 10 anos de hoje será nosso cliente daqui a dez anos. Preciso estar conectada com essa população. A empresa que não entender isso ficará para trás.”

COWBOYS E ASTRONAUTAS

No artigo Da empresa cowboy à astronauta, o consultor Aron Belinky recorre ao economista Kenneth Boulding para explicar a importância da transição de um sistema de produção e consumo que opera baseado na possibilidade irreal de expansão ilimitada (a empresa e/ou economia cowboy) para outro, que considera os limites do crescimento e a finitude dos recursos existentes (a empresa e/ou economia astronauta).

AS MAIORES PEGADAS DE CARBONO

100 cidades respondem por 18% das emissões globais de gases de efeito estufa no mundo (em milhões de toneladas de C02

ENTRE O DISCURSO E A PRÁTICA

Relatório do Fórum Econômico Mundial examina o compromisso de corporações, investidores, governos e sociedade civil com o clima

AS MAIS SUSTENTÁVEIS DO MUNDO

O ranking da Corporate Knights classifica as empresas pelo desempenho em sustentabilidade, com base em dados públicos disponibilizados pelas companhias. A lista é feita a partir da avaliação de 65 indicadores não só ambientais, mas também sociais e econômicos. É interessante notar que nem a empresa mais sustentável, localizada em um dos países localizados na região do mundo mais comprometida com a perenidade, alcança 90% da pontuação geral.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

EM BUSCA DE UM EQUILÍBRIO

É notória a crescente violência e agressividade no convívio social. Os seres humanos estão sem ponderação em todas as suas relações na atualidade

Não aguentamos mais ligar a televisão e nos deparar com uma reportagem sobre uma pessoa que, diante de uma situação qualquer, perdeu o equilíbrio. Há pouco tempo, na capital paranaense, um sujeito, cansado de tentar trocar urna máquina de lavar que apresentava defeitos, levou o eletrodoméstico para a frente da loja e, numa crise de total descontrole, destruiu a máquina a machadadas.

Cenas como estas se tornam cada vez mais comuns nas cidades. Vemos isso nas filas de supermercados, bancos e nas diversas situações da vida – pessoas, supostamente cansadas de esperar ou de cobrar por algo, perdem a cabeça e partem para agressões verbais, físicas e psicológicas.

Nas redes sociais o problema é ainda maior, pois há quem acredite estar incógnito diante das pessoas e, nesse caso, os critérios de agressão são de selvageria absoluta. Mas, diante de tantas constatações, nos perguntamos: O mundo está louco? As pessoas estão perdendo o equilíbrio?

De fato, presenciamos hoje cenas de agressão como em nenhuma outra época da era moderna. Sabemos das guerras, das barbáries e dos massacres humanos, isso é fato. Mas me refiro aqui à violência e agressividade do convívio social, das relações diárias entre os pares, seres humanos. Nunca houve tantos casos de violência e agressividade contra a mulher – feminicídio – como os que estamos vendo. Crianças e idosos padecem das mesmas condições e isso está claro em todos os números de saúde pública. O pai não dá conta do filho e o agride. A filha não dá conta da mãe e a agride e quem é agredido aprende a agredir. Assim o ciclo vai se ampliando e nós vamos construindo uma sociedade baseada na selvageria. Falta, de fato, coerência, equilíbrio e ponderação nas relações humanas da atualidade.

Poderíamos pensar ainda que o número de doentes mentais tem aumentado, isso também é fato. O uso de drogas potencializa o aumento desse quadro. Novas drogas, como ketamina ou special k, droga sintética de fabricação caseira a partir de um anestésico, geralmente usado por veterinários em cavalos, surgida há pouco tempo, tem ganhado espaço. Pessoas que têm uma dependência de droga são menos capazes de suportar, perceber, argumentar e dialogar. As drogas lícitas também têm aumentado. O uso de Ritalina, por exemplo, explodiu nos últimos 10 anos, no Brasil. Os medicamentos para controle de ansiedade também. E tudo isso funciona apenas como termômetro de que o ser humano está perdendo seu equilíbrio e esses “produtos” todos estão a serviço desta perda.

Alguns ainda creditam esse aumento dos quadros agressivos ao desmonte dos valores familiares e sociais – isso também procede. Se eu não tenho a percepção de que o outro tem seu espaço exatamente como eu tenho ou quero, ficam mesmo legitimadas a violência e a agressividade diante do conflito, e estes valores humanos de partilha, solidariedade, coletividade começam numa família, se ela não existe, onde começariam tais valores?

Por fim não posso deixar de lembrar aqui que há ainda o estresse, fator também preponderante nas cenas de agressão que vemos acontecer. Resumindo, todos esses quadros mostram a conclusão de que é urgente repensar as questões de violência e agressividade que permeiam nossa sociedade neste momento. Segundo a Psicanálise, a histeria é uma manifestação sintomática que faz parte da neurose. É marcada por uma atitude exagerada e escandalosa. A pessoa tem reações emocionais que beiram o teatral, são capazes de converter conflitos psíquicos em problemas físicos. O neurótico se mostra doente. É um convencimento alheio e de si mesmo que legitima, para o neurótico, o impulso de cometer a agressão – “Eu bati porque…”. Porém o mundo não é habitado apenas por neuróticos.

Tirando as questões patológicas da compreensão, porque elas necessitam de apoio médico e de programas governamentais para o combate, as questões que aqui muito me deixam apreensivo giram em torno da nossa postura diante do mundo. Se cada um de nós ao encontrar uma situação conflitante, ou em desacordo com o que pensamos, partir ligeiramente e diretamente para a violência física e também psicológica.

Nós precisamos reaprender as regras básicas para lidar com as boas e velhas frustrações. Uma criança não consegue viver com um não dado pelo pai diante do desejo dela de um novo celular. Assim como adultos não conseguem lidar com a frustração de não poder comprar o sapato, o carro ou a viagem que tanto desejavam e, assim, vamos de grupo em grupo observando o volume dos frustrados e pouco resolvidos cada vez aumentar mais. Par a conseguir reestabelecer o equilíbrio pessoal e social se faz urgente um exercício de resiliência e de busca por processos que nos façam lidar melhor com todas as frustrações normais e necessárias da vida.

Prof. Dr. GERALDO PEÇANHA DE ALMEIDA é psicanalista, educador e escritor. Autor de mais de 70 livros, dentre eles: Em Busca da Paz Interior, No Coração da Mente Livre, Meditações para Começar o Dia e Felicidade Sempre Viva. Fundador e diretor do Projeto Coração de Pólen – Centro de Tratamento, Estudo e Pesquisa na Área de Saúde Mental, em Curitiba.

OUTROS OLHARES

A CIÊNCIA CONTRA-ATACA

Pesquisadores brasileiros trabalham em novas frentes de estudo para acelerar a recuperação dos doentes e diminuir a letalidade do coronavírus

Para quem está numa cama de UTI, o tempo é precioso. E num momento em que a pandemia de coronavírus mata em larga escala, o salutar esforço que a comunidade científica vem fazendo para alcançar algum tratamento eficaz contra a peste é um alento. Métodos e testes já conhecidos estão sendo adaptados de forma célere para se verificar o potencial dos benefícios que os pacientes terão. No Brasil, foi instituída pelo Ministério da Saúde uma parceria entre hospitais públicos, privados, universidades e centros de pesquisa, que estão desenvolvendo nove estudos em diferentes direções. Em quatro deles, está sendo testado o uso da Hidroxicloroquina e da Cloroquina. Outras envolvem utilização de plasma sanguíneo e de anticoagulantes. No total, participam da iniciativa cinco mil pacientes.

Em São Paulo, há uma parceria entre a Faculdade de Medicina da USP e os hospitais Albert Einstein e Sírio Libanês para desenvolver um estudo experimental que faz uso de plasma sanguíneo. Trata-se de uma terapia centenária que consiste em se retirar 600 ml de sangue de um doador, inicialmente homem, de 18 a 60 anos, saudável clinicamente, que foi contaminado pelo coronavírus, desenvolveu sintomas da doença e se curou. Os indivíduos que estão em período de convalescência também são doadores aptos. Após a separação dos componentes do sangue, testes específicos determinam se o plasma contém anticorpos da Covid-19 para que os pacientes que receberão a transfusão sejam beneficiados.

SISTEMA IMUNOLÓGICO

“Essa terapia pode ajudar o sistema imunológico a combater uma infecção com precisão e eficácia”, diz o diretor de pesquisa do hospital Albert Einstein, Luiz Vicente Rizzo. Com o tratamento, a intenção é diminuir a necessidade de permanência dos pacientes em UTIs. O empresário Renato Medrado Botto, 39, primeiro doador de plasma sanguíneo do hospital, contou como foi o período em que esteve doente devido ao coronavírus. “Senti muita dor no corpo e falta de ar, além de um grande mal-estar”, disse. Botto começou a sentir os sintomas da doença no dia 10 de março, acabou diagnosticado com uma pneumonia bacteriana e, mesmo sem realizar o teste específico para a Covid-19, seu médico afirmou que clinicamente estava constatada a infecção. Depois de recuperado plenamente, ele se prontificou a ajudar outras pessoas. “Me sinto feliz e grato por poder ajudar”, diz.
Além da terapia com o uso de plasma sanguíneo, outras oito pesquisas estão sendo acompanhadas pelo Ministério da Saúde. No Rio de Janeiro, a Fiocruz está coordenando o ensaio clínico Solidariedade (Solidarity). Esse estudo é uma conjugação de esforços em todo o mundo para dar uma resposta rápida sobre quais medicamentos são eficazes contra a Covid-19. Os trabalhos serão implementados em 18 hospitais de 12 estados. Outro estudo clínico importante, com fármacos anticoagulantes, como a heparina, está sendo realizado no hospital Sírio Libanês.

Descobriu-se que o coronavírus causa inflamação celular, formando micro coágulos que podem impedir que a circulação sanguínea ocorra normalmente, o que pode levar ao óbito. Por isso, uma junta médica do hospital está desenvolvendo um estudo no qual são administradas doses controladas de heparina em pacientes internados. Até agora, 30 pacientes foram tratados com esse medicamento e 25 deles não precisaram ser entubados.

Nesse momento, médicos de todo o mundo correm contra o tempo para buscar uma solução eficaz contra a Covid-19. Segundo levantamento da Universidade Johns Hopkins, há mais de 1,5 milhão de infectados pelo coronavírus no planeta e já foram registradas mais de 92 mil mortes. O que se espera é que os testes clínicos no Brasil e em outros países avancem rapidamente e novas terapias eficazes possam ser adotadas no menor prazo possível.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 15 DE ABRIL

QUANDO O PARAÍSO PARECIA UMA PRISÃO

Então, a serpente disse à mulher: É certo que não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que dele [do fruto da árvore que está no meio jardim] comerdes se vos abrirão os olhos e, como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal (Genesis 3.4,5).

Satanás, com sua astúcia, enganou Eva e levou nossos pais à queda, quando eles estavam no jardim do Éden. Usando as armas do disfarce, da sutileza e da mentira, a serpente levou Eva a acreditar que o paraíso era uma prisão e que o Criador escondia deles privilégios aos quais tinham direito. Mesmo tendo tudo, Eva se sentiu insatisfeita. Mesmo desfrutando de todos os privilégios, Eva desejou apenas o que Deus havia proibido. Mesmo tendo provas da bondade de Deus, Eva preferiu acreditar no tentador a obedecer ao mandamento divino. O fruto proibido tornou-se atraente aos seus olhos e apetitoso ao seu paladar. Eva comeu do fruto proibido e ainda o deu ao marido. Ambos caíram. Seus olhos foram abertos não para ver as glórias desse novo estado, mas para ver sua nudez e vergonha. Eles passaram a ter medo de Deus. A culpa começou a atormentar-lhes a consciência. Usando de mecanismos de defesa, Adão tentou encobrir seu erro, acusando a mulher, a mulher acusou a serpente, e ambos acusaram Deus. Por causa do pecado, Adão e Eva foram expulsos do paraíso. A dor do parto e o suor do rosto se tornaram experiências inevitáveis. Satanás é um enganador. Promete alegria, mas paga com a tristeza; promete liberdade, mas escraviza; promete vida exuberante, mas mata. O pecado é uma fraude, uma ilusão, um engodo fatal. Promete prazeres, mas dá desgosto. Promete aventuras, mas escraviza e mata. Nesse cenário de desespero, o apóstolo Paulo escreveu: Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor (Romanos 6.23).

GESTÃO E CARREIRA

ELAS QUEREM SALVAR O MUNDO

De fintechs a startups de mobilidade e energia, empresas atuam para evitar desperdícios e auxiliar na economia do baixo carbono

Uma onda de empresas criadas com novas narrativas, que têm a sustentabilidade como principal pilar de negócio, tem ganhado força. São startups que auxiliam na redução dos impactos socioambientais por meio de serviços ou produtos que evitam desperdícios e auxiliam na economia do baixo carbono. Essas empresas não ajudam apenas o ambiente, ajudam a economia em geral. De acordo com informações da ONU Meio Ambiente, com a implementação de políticas sustentáveis de consumo e produção, o crescimento do uso de recursos pode desacelerar em 25% até 2060, o PIB global crescer 8% (principalmente nos países de renda média e baixa) e as emissões de C02 registrarem queda de 90%. Só a indústria da moda, uma das mais agressivas e poluentes do mundo, por exemplo, pode gerar € 110 bilhões em valor se abordar questões ambientais relacionadas a água, energia, produtos químicos e resíduos, segundo o relatório Green is the new black, do banco britânico Barclays. Do contrário, € 45 bilhões de lucro estarão em risco até 2030.  Conheça a história de cinco startups que atuam nesse sentido.

ENERGIA LIMPA – E ECONOMICAMENTE ATRATIVA

Até 2019, as emissões de C02 relacionadas ao setor energético atingiram 33,3 giga toneladas (GT) de dióxido de carbono, segundo dados da Agência Internacional de Energia (IEA). Em um ano, as emissões de países emergentes cresceram 400 milhões de toneladas. Em contrapartida, o biogás, alternativa para geração de energia elétrica em substituição ao gás natural, é mal aproveitado no Brasil: de acordo com a Associação Brasileira de Biogás e Biometano (ABio­gás), 97,72% é desperdiçado. É com o reflexo desse cenário que surge a startup gaúcha Luming Inteligência Energética, que desenvolve soluções de geração de energia a partir de biogás e gás natural. “Acreditamos que pautas econômicas e ambientais podem andar juntas a partir de sistemas inteligentes e de alta performance”, diz Rael Mairesse, sócio e head do negócio. Segundo ele, a Luming tem como propósito gerar energia de forma inteligente e sustentável, por meio da autoprodução no local onde é consumida. “A ideia é cuidar de todo o processo – desde a concepção do projeto, com a definição de tecnologias, até a solução de capital para sua implementação”, explica. Em 2018, a startup iniciou um projeto com a Ambev que tem como objetivo a compra de 100% de energia renovável e a redução de 482 toneladas por ano de C02 – o equivalente ao plantio de mais de 2,8 mil árvores. O projeto, que utiliza tecnologias de fora do Brasil e aproveita o biogás emitido por uma das etapas do processo de produção da cervejaria como fonte de energia, já foi implementado em quatro unidades de São Paulo, Rio Grande do Sul e Paraná. “Isso mostra que é possível ter metas agressivas também na questão ambiental”, diz Rael. Com sete projetos em operação no sul e sudeste, a empresa prepara expansão para o nordeste e conta com parcerias internacionais, como com a Capstone, da Califórnia, para o fornecimento de microturbinas.

CARTÃO DE CRÉDITO VERDE

“Transação negada! Você atingiu o seu limite de carbono”. Esta é a mensagem que o usuário do cartão de crédito DO Black recebe ao atingir seu limite mensal de C02. Criado pela fintech sueca Doconomy, em 2018, em parceria com a Mastercard e a Secretaria de Mudanças Climáticas da Organização das Nações Unidas (ONU), o cartão rastreia a quantidade de carbono emitida em cada transação e avisa quando o usuário excedeu o limite de C02 – não de dinheiro preestabelecido – na atmosfera. “A ideia é definir um preço real ao carbono e, com isso, mostrar o que realmente está por trás do custo do consumo”, diz Nathalie Green, CEO da fintech. Segundo ela, não se trata de interromper o consumo, o que é inviável, mas, sim, de torná-lo mais sustentável e conscientizar as pessoas sobre o impacto de suas compras e seu estilo de vida nas questões climáticas. Por meio de medição e rastreamento contínuos do carbono, os consumidores podem acompanhar como uma mudança de comportamento, ao longo do tempo, tem impacto climático. Os índices são calculados em conjunto com a Aland Index, que possui relatórios sobre as emissões de C02 de mais de 4 mil companhias no mundo todo, e com a World Bank’s Mitigation of Climate Change Working Group, instituição que calcula o custo social do carbono. “A partir do momento em que o consumidor pode, com facilidade, ver realmente o que está por trás do que consome, fica bem mais fácil observar uma mudança de comportamento e estilo de vida”, diz. Os primeiros cartões, que são feitos de bioplástico e impressos com tinta sustentável, foram apresentados ao mercado em dezembro último em um projeto piloto, e a perspectiva, de acordo com Nathalie, é lançá-lo em pelo menos mais dois países europeus ainda neste ano.

ENTREGAS DE BIKE A FURGÕES ELÉTRICOS

Até janeiro deste ano, a startup paulista Carbono Zero evitou a emissão de 860 toneladas de C02 em mais de 6 milhões de quilômetros rodados com bicicletas elétricas, convencionais e as chamadas cargueiras, que levam até cem quilos, e motos e furgões elétricos. Fundada em 2010, a empresa tem a singela intenção de mudar o mundo, como explica Leonardo Lorentz, sócio e gestor de entregas sustentáveis da startup. “Minha expectativa é que, daqui a 20 anos, 100% da logística seja feita de forma sustentável”, diz. Segundo ele, cada um deve contribuir como pode, seja auxiliando na limpeza de uma praça, seja no desenvolvimento de uma vacina, por exemplo. “Nós pensamos em auxiliar oferecendo às empresas a possibilidade de fazer as mesmas entregas, sem emissão de poluição”, diz. Para isso, aposta em diversos tipos de transporte, para não restringir as entregas apenas a pequenas quantidades. “O furgão elétrico, por exemplo, é capaz de levar, de uma só vez, 3 ,3 mil litros, cerca de dez vezes mais do que um carro de passeio”, explica. Na primeira rodada de captação de fundos, em 2015, a empresa levantou R$ 320 mil. Desde então, mais duas captações de equity crowd funding aconteceram, uma em 2016, de R$ 346 mil, e outra em novembro, de mais R$ 450 mil. “A Carbono cresce cerca de 43% ao ano. Na última avaliação de mercado, alcançamos os R$ 9 milhões, captação que começou em dezembro”, conta. Sem planos de expansão, por enquanto, para outros estados, o foco é aperfeiçoar o atendimento na Grande São Paulo. Este ano, por exemplo, a empresa fechou uma parceria com a Express Bikers, negócio de entregas sustentáveis do ABC Paulista. Hoje, mais de 500 companhias usam os serviços da Carbono Zero.

CARNE, MAS DE VEGETAL

Um estudo do Instituto de Agricultura e Política Comercial (IATP) e da organização ambientalista Grain mostra que se a indústria da carne continuar crescendo como o previsto, sua participação nas emissões globais de gases de efeito estufa aumentará para 27% em 2030 e para quase 80% em 2050. Tendo como pano de fundo a dimensão do mercado de carne bovina no Brasil – que é um dos maiores exportadores do mundo e o segundo em consumo – e de seu impacto no meio ambiente, a foodtech carioca Fazenda Futuro surgiu para disruptar o setor, como explica Marcos Leta, sócio fundador do negócio, o mesmo que fundou o Suco do Bem. “A ideia da marca é competir com os frigoríficos, não com a indústria de produtos veganos e vegetarianos”, afirma. Segundo ele, o maior público da empresa são as pessoas que gostam de carne e querem reduzir o consumo por questões como saúde, sacrifício animal e meio ambiente. “Já existe um movimento de as pessoas buscarem mais alinhamento ao lugar que vivem, às questões ambientais”, diz. Marcos explica que o que mais chamou a atenção dele e do sócio Alfredo Strechinsky foi a possibilidade de, por meio da tecnologia e do feedback dos clientes, poder chegar a uma fórmula em que as pessoas não conseguem perceber a diferença de uma carne de planta de uma de origem animal. “Isso quer dizer que elas vão comer de forma sustentável, sem abrir mão do que gostam”, diz. O executivo reforça que todo o processo é pensado de maneira sustentável – no impacto ambiental e nos gastos de C02.  “Mais de 80% dos ingredientes usados são do Brasil, com pouco gasto logístico. E a perspectiva é aumentar essa porcentagem no segundo semestre”, conta. Em sua primeira rodada de investimentos a empresa captou US$ 8,5 milhões, elevando seu valor de mercado para US$ 100 milhões, e no começo do ano começou o processo de exportação para a Europa. Até janeiro, a foodtech já vendeu mais de 3 milhões de hambúrgueres, ultrapassou 5 mil pontos de venda no Brasil e está presente em mais de 2 mil restaurantes e hamburguerias. “O objetivo é democratizar o plant based, entregando um produto mais próximo do gosto e da textura da carne”, diz.

MODA TRANSPARENTE

Vista por muitos anos como um mercado de luxo e pouco cuidado com a origem dos tecidos, por exemplo, a moda tem passado por grandes transformações à medida que os consumidores se preocupam, cada vez mais, com a questão do carbono emitido pelos produtos que compram. Segundo dados do fórum Global Fashion Agenda (GFA), no último ano, 52% dos executivos dessa indústria afirmaram que as metas de sustentabilidade foram um princípio básico em quase todas as decisões estratégicas. Como reflexo desse cenário, começam a aparecer empresas pautadas na questão ambiental, como a startup carioca Modaly, que tem como base incentivar o consumo consciente, reduzir o impacto ambiental que a moda gera e aumentar a circulação de produtos sustentáveis e éticos. “A ideia é ser um portal da transparência da moda, com opções de fornecedores éticos e sustentáveis em cadeia”, diz Kaio Freitas, fundador da empresa. Segundo ele, trata-se de um mercado muito fechado, com pouca troca e dicas de mão de obra, o que pode dificultar na concepção de novos negócios. A startup atua em duas frentes. A primeira é por meio do site. Lá é possível buscar fornecedores – de matéria-prima a modelistas e cooperativas, com filtros como apoio a grupos vulneráveis, zero desperdício, orgânicos, feitos no Brasil, reciclados e biodegradáveis. A segunda é uma espécie de consultoria, em que o empreendedor pode solicitar uma busca mais refinada, com nomes e opções de orçamento. “O que mais me motiva é saber que existe um propósito por trás do que estou fazendo. No fim das contas, ajudamos uma marca a fazer uma escolha melhor – para o negócio, para as pessoas e para o planeta.”

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ADOÇÃO: CUIDADOS PARA TOMAR AS DECISÕES CORRETAS

Adotar é um ato de muita responsabilidade, por isso é importante analisar todos os contrapontos afim de evitar traumas psicológicos, tanto em crianças como também em animais

Após ler um artigo publicado pela Agência de Notícias de Direitos Animais (Anda), não me contive e comentei. Ao receber uma resposta de uma leitora do site, resolvi, ao invés de ficar discutindo, escrever este pequeno artigo abordando algo que quase ninguém percebe, mas é tão ou mais importante do que o aspecto físico: o aspecto psicológico de uma adoção.

O artigo original citava a história de uma brava cachorrinha que lutou muito para salvar seus seis filhotes de um incêndio (numa fábrica abandonada na Carolina do Sul, Estados Unidos) e, depois de ser socorrida e medicada, teve uma pata amputada, e seus filhotes, após serem cuidados, foram encaminhados para adoção. Diante desse relato, eu comentei o seguinte:

“Me esforço para não julgar nada e ninguém, mas fico muito triste com esses supostos finais felizes. A cachorrinha lutou tanto para salvar seus filhotes e eles foram ‘adotados por lares amorosos’. Atitude amorosa seria alguém adotar a cachorra e seus filhotes e mantê-los juntos. Acolhimento não é só o físico, é o psicológico também”.

Logo, uma leitora do site respondeu sobre os aspectos físicos da adoção no exterior e percebi a necessidade de abordar outros fatores. No exterior e, recentemente, no Brasil, os animais recebem chips e os adotantes são inspecionados. Caso haja algum motivo, além do tutor ser multado ou preso, o animal é retirado de sua tutela. Inclusive, há exigências como, por exemplo, ter telas nas janelas. Já presenciei crianças chorando desesperadas e os animaizinhos estressados e tristes por terem se apegado uns aos outros em feiras de adoções e os pais das crianças terem sido rejeitados como tutores por não terem telas nas janelas. Certo, não tinham telas, mas tinham crianças amorosas que cuidariam muito bem dos bichinhos. As telas poderiam ser providenciadas depois. O amor é que era de imediato.

No caso específico dessa cachorrinha, não se trata de monitorar a adoção. Eu abordo o lado psicológico. O direito de a mãe estar com seus filhos. Pergunte a qualquer mãe humana, em especial uma que tenha lutado para salvar seus filhos, se ela prefere viver confortavelmente e permitir que seus filhos recebam chips e sejam monitorados em famílias amorosas ou se ela prefere viver mais modestamente, mas com seus filhos todos ao seu lado. Muito provável que a mãe escolha a vida modesta ao lado dos filhos. Por que aos animais é negado esse direito de escolha? Eles não falam, mas sentem. Essa cachorrinha se sacrificou para salvar seus filhos, agora ela tem apenas três pernas e a recordação de que um dia eles passaram pela vida dela! E os bebês estão espalhados sem nem entenderem o que ocorreu.

É disso que eu estou comentando, do aspecto psicológico, que passa despercebido. Que a maioria das pessoas parece não entender ou não valorizar. Essa ideia de que tendo casa, comida, boa ração e carinho resolve tudo é um dos maiores egoísmos que se pode ter em relação aos animais. Uma atitude amorosa de acolhimento é aceitar um animal que chega sozinho, cansado, muitas vezes doente e cuidar dele, ou recolher um animal que está ferido e sozinho. Porém, resgatar uma família, uma mãe e seus filhos, e encaminhar cada uma um tutor, isso é dizimar uma família. E ainda para completar, com a possibilidade de serem “devolvidos caso os tutores não os tratem bem. Reflitam por um momento a dor que isso causa e os traumas de ser separado da mãe e ser “devolvido” para outra adoção.

E A ADOÇÃO INFANTIL?

Estendendo esse assunto, isso infelizmente também pode ocorrer com crianças. Algumas passam por diversas adoções e são “devolvidas” ou por maus hábitos ou algum distúrbio da própria criança ou por maus­ tratos. E vale lembrar que, em muitas ocasiões, os distúrbios se desenvolvem justo pelo trauma da separação da criança e dos pais e por outros traumas (e até desvios de conduta) que podem ser adquiridos durante o processo de estadia em orfanatos, situação de rua, entre outros. Crianças necessitam de atenção, carinho e, acima de tudo, orientação. Se isso lhes falta em seus primeiros anos de vida, a tendência é que cresçam desorientadas, buscando vícios e situações conflitantes. Sendo assim, acabam demonstrando agressividade, desequilíbrios e outras características distorcidas de personalidade que não apresentariam se estivessem sendo cuidadas e orientadas por uma família carinhosa e presente.

Portanto, algumas das crianças consideradas “problemas, que geralmente passam por diversas adoções e “devoluções”, poderiam ser mais bem orientadas se tivessem a chance de um lar e alguém que se importasse em acompanhá-las.

ADOÇÃO EM SI

Quem pretende adotar um ser deve ter em mente que não está fazendo uma caridade e também não pode pensar como uma compensação, ou seja, não se deve adotar alguém apenas para preencher algum vazio ou para ajudar quem precisa ou qualquer motivo que não seja uma relação de trocas, amor e consciência. Também é preciso programar a adoção. Refletir muito antes de tomar uma decisão pode evitar arrependimentos e muitos traumas para a criança adotada. É preciso ter em mente que, dependendo da idade da criança, ela poderá ter hábitos e pensamentos que precisarão ser corrigidos e não criticados. Assim, o melhor a fazer é, antes de adotar em definitivo, estipular um período de visitas ao orfanato ou local onde a criança vive e conhecê-la bem antes de decidir-se pela adoção.

Isso vale também para adoção de animais. Seja qual for o tipo de adoção, deve ser muito bem pensado para evitar arrependimentos e traumas.

Voltando ao caso da cachorrinha, que desencadeou este artigo, pode-se alegar que seria dispendioso uma única pessoa arcar com as despesas e cuidados dela e de seus seis filhotes, mas, embora os tempos hoje sejam outros, na década de 1960 meu pai chegou a cuidar de 400 cachorros e inúmeros gatos. A maioria chegava muito debilitada e tinha um tempo de vida de, no máximo, cinco anos, pois eram animais já adultos e muito sofridos. Mesmo assim, algumas famílias se formaram, alguns filhotes nasceram e estes foram cuidados ao lado de suas famílias. Duas vezes ao dia, meu pai punha-se a cozinhar grandes caldeirões de comida que ele servia com muito carinho a todos os animais. (Se um único homem conseguiu cuidar de tantos animais, uma família consegue tranquilamente acolher seis ou sete.) Nos anos 70, o número de animais diminuiu bastante, já que muitos faleceram, mesmo assim o cuidado com os que restaram continuou e foi até redobrado. E, antes disso, durante a fundação dos três bairros que tiveram meus pais como pioneiros, meu pai chegou a puxar carroça de materiais de construção e de ferro-velho porque tinha pena do cavalo e não queria forçá-lo a carregar peso nas grandes ladeiras de terra da região.

O que posso afirmar é que os humanos precisam perceber que tanto eles quanto os animais têm sentimentos, têm anseios, sofrem traumas que podem ser adquiridos em diversas situações e a separação familiar é um dos piores e mais difíceis de tratar. Não importa o quanto a família seja desestruturada, seja ela humana ou animal, a prioridade é que todos permaneçam juntos enquanto houver crianças ou filhotes pequenos. Quando crescem, aí sim cada um pode escolher o melhor caminho a seguir. Isso se aplica aos humanos e também aos animais que, quando adultos, são capazes de manifestar a preferência (ou rejeição) por uma companhia. Mas quando bebês, tanto humanos quanto animais, só precisam de uma coisa: a presença dos pais, especial mente da mãe, e muito carinho. Se isso for tirado de um bebê, nada do que se ofereça será suficiente.

LOU DE OLIVIER – é multiterapeuta, psicopedagoga, psicoterapeuta, especialista em Medicina Comportamental. Criadora do método Multiterapia do Equilíbrio Total/Universal, defensora da dislexia adquirida no Brasil e exterior. Dramaturga e escritora, é autora 10 de livros didáticos, diversos romances, 20 e-books, diversos artigos científicos internacionais. Portal Lou de Olivier: http://www.loudeolivier.com

OUTROS OLHARES

O BRASIL TENTA RESPIRAR

Entre novos aparelhos e equipamentos em manutenção, País precisa de 15 mil ventiladores pulmonares para combater a pandemia

Na última semana, o Brasil bateu recordes de mortes diárias e o número de infectados por coronavírus ultrapassou os 16 mil casos. Com UTIs cheias e alguns hospitais de campanhas ainda a caminho, começam a faltar instrumentos essenciais para a manutenção da vida. O País corre contra o tempo para obter 15 mil ventiladores pulmonares mecânicos estimados pelo governo para dar conta da fase atual da pandemia. Hoje, segundo o Ministério da Saúde, existem 65.411 aparelhos no País, 46.663 deles no Sistema Único de Saúde (SUS). Do total, porém, 3.639 estão em manutenção ou ainda não foram instalados.

Há projetos promissores sendo desenvolvidos nas universidades brasileiras. O grupo de pesquisadores batizado de Inspire, da Escola Politécnica da USP, produziu um protótipo com tecnologia nacional a um custo mais baixo, saindo por R$ 1 mil, ante os R$ 15 mil cobrados no mercado. O Instituto Mauá de Tecnologia, em São Caetano, também tem um projeto em parceria com a Mercedes-Benz a um custo de R$ 300 por cada aparelho, mas ainda aguarda a autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

O Ministério da Saúde também vai consertar respiradores em manutenção. Uma parceria com as empresas Magnamed e Flextronics prevê a entrega de dois mil aparelhos esse mês e mais 4.500 até agosto, totalizando 6.500 unidades. As montadoras de automóveis também farão parte da força-tarefa – o SENAI fornecerá cursos de capacitação para seus funcionários. “Nossa equipe vai ajudar nesse momento difícil”, diz o gerente de tecnologia e inovação da GM na América do Sul, Carlos Sakuramoto. Segundo o diretor regional do SENAI em São Paulo, Ricardo Terra, há 90 aparelhos em manutenção em São Paulo.

FORÇA TAREFA

Para a Associação Brasileira de Indústrias de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), o problema é que o Brasil depende da produção externa. “Por sorte ainda temos alguns fabricantes de válvulas, placas eletrônicas e sistemas. O País tem que entender que a saúde precisa estar no centro de políticas públicas de segurança. Hoje, quase 90% dos EPIs (equipamentos de proteção individual) são feitos pela China”, diz o diretor executivo de tecnologia da Abimaq, João Alfredo Saraiva Delgado.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 14 DE ABRIL

LANÇAI FORA O VELHO FERMENTO

Lançai fora o velho fermento, para que sejais nova massa… (1Coríntios 5.7a).

A Páscoa judaica foi instituída na noite da libertação. O cordeiro foi imolado e seu sangue aspergido no batente das portas. De igual modo, Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi imolado. Isso tem a ver com nossa redenção. Nessa festa, o fermento deveria ser removido de todas as casas, e isso se relaciona à santificação. O fermento que leveda a massa é um símbolo do pecado que se infiltra na nossa vida e nos contamina. Não podemos participar da Páscoa com coração impuro, mente poluída e vida contaminada. Palavras sujas, atitudes grosseiras e pensamentos maus precisam ser banidos da nossa vida. Como vestes sujas, precisam ser despojados. Precisamos lançar fora o velho fermento, uma vez que somos nova massa. Recebemos um novo coração, uma nova mente, uma nova vida. Fazemos parte de uma nova família e temos uma nova pátria. Somos o povo de Deus, separado do mundo para sermos luz no mundo. Não podemos imitar o mundo, ser amigos do mundo nem amar o mundo. Não podemos conformar-nos com o mundo, para não sermos com ele condenados. Somos um povo santo, sem fermento, sem contaminação. Fomos salvos do pecado, e não no pecado. Fomos salvos para a santidade. Por isso, devemos andar em novidade de vida, de modo digno do evangelho, lançando fora o velho fermento.

GESTÃO E CARREIRA

O SHOW NÃO PODE PARAR?

Com o fechamento de teatros, museus, cinemas e casas de espetáculo, o setor da cultura pode sofrer um apagão de consequências dramáticas. sem público, a sobrevivência depende de crédito.

Entre as primeiras medidas anunciadas pela equipe de transição do governo Bolsonaro, ainda no final de 2018, estava a extinção do Ministério da Cultura. A pasta havia sido criada durante a presidência de José Sarney, em 1985. Como se sabe, além de político, Sarney é escritor e imortal pela Academia Brasileira de Letras. Já Bolsonaro tem pelas artes a mesma repulsa que o afasta da ciência e do conhecimento em geral. Tanto que, em novembro de 2019, ele transferiu o que restava da Secretaria da Cultura, já sucateada, para o Ministério do Turismo. Hoje sob comando da atriz Regina Duarte, a pasta tem função quase decorativa. Ainda que as leis de incentivo (como Rouanet e do Audiovisual) não tenham sido revogadas, a captação de recursos para a cultura por meio da renúncia fiscal, que vinha funcionando desde o início da década de 1990, ficaram inoperantes.

Foi nesse cenário de penúria, sem verba e sem perspectiva, que o setor da cultura recebeu seu mais duro golpe: a interrupção de quase toda a atividade devido ao isolamento social decorrente da pandemia de Covid-19. O fechamento de teatros, cinemas, casas de espetáculos e museus — medida necessária para conter o contágio — deixou sem a renda de bilheteria quem vive dessas formas de expressão artística, sejam empresários, produtores, atores, músicos, técnicos e até seguranças. “Esse segmento é o mais afetado pela quarentena. Foi o primeiro a fechar, porque aglomera pessoas, e será o último a reabrir, por não ser essencial”, diz Edgard Radesca, 73, diretor-geral do Bourbon Street Music, misto de bar, restaurante e casa de shows com 26 anos de existência. “Quando fomos obrigados a fechar, já havíamos vendido ingressos para vários dos shows da nossa programação. Alguns com lotação esgotada. Tivemos de devolver o valor e ficamos sem previsão de receita futura.” A sobrevivência depende agora exclusivamente de recursos que não virão do público pagante — mas deverão vir do poder público.

Segundo cálculo da Secretaria da Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo, a perda econômica do setor que responde por 3,9% do PIB estadual pode chegar a R$ 34,5 bilhões este ano, deixando 650 mil pessoas sem fonte de renda. Como forma de minimizar esse efeito devastador, o governo paulista anunciou na sexta-feira 27 um pacote de R$ 500 milhões em linhas de crédito subsidiadas (detalhes no quadro ao lado). “Queremos mitigar o impacto sobre o setor cultural e criativo para preservar a renda e o emprego, além de criar um cenário favorável para depois da crise”, afirma o secretário Sérgio Sá Leitão, que foi ministro da Cultura no governo Michel Temer. Para os pequenos produtores e empreendedores culturais, o Banco do Povo terá uma linha especial de até R$ 20 mil. E o limite de concessão de crédito sem avalista passa de R$ 1 mil para R$ 3 mil. “É uma excelente providência”, diz Radesca. “Precisamos ver como ela vai beneficiar quem precisa”, pondera, temendo que o dinheiro anunciado fique “empoçado”. A preocupação faz sentido. Um empreendedor do segmento que tentou obter capital de giro em uma das linhas emergenciais oferecidas pelo Desenvolve SP relatou, sob condição de anonimato, que as condições são demasiadamente rigorosas, impedindo o acesso de muitas empresas que estão descapitalizadas. É evidente que deva haver um controle rígido, já que se trata de dinheiro público. No entanto é preciso que haja alguma flexibilidade para impedir a falência generalizada do setor. “Estamos em tempos anormais. Os critérios de análise de crédito não podem ser um impeditivo para quem precisa de dinheiro de forma emergencial”, afirma.

RETORNO SOBRE INVESTIMENTO

Dados compilados pelo extinto Ministério da Cultura em 2018 revelam que cada R$ 1 investido em espetáculos musicais no País gerou R$ 8,25 de retorno. Há eventos que geram o dobro dessa média. O Festival de Inverno de Campos do Jordão (SP), em 2019, teve retorno de R$ 16,7 por R$ 1 investido. Na ponta do lápis, a cultura é um excelente negócio. “Sou um otimista permanente. Na minha visão, ao lado do problema existe uma oportunidade”, diz Radesca. “Neste caso, para empresas que queiram se associar ao histórico de 26 anos de sucesso do Bourbon Street. Seria muito legal ter um patrocinador na nossa reabertura.”

O QUE DIZ A DESENVOLVE SP

“A Desenvolve SP – o Banco do Empreendedor, agência de fomento do Estado de São Paulo, está atrelada a regras do Conselho Monetário Nacional e do Banco Central. Compomos uma política de governo que tem como objetivo preservar a saúde da população, os empregos e a sustentabilidade da economia neste período de pandemia que atinge o mundo inteiro.

Atentos aos impactos desse momento adverso na Cultura, disponibilizamos condições especiais de crédito ao setor. Todas as condições de financiamento estão em destaque em nosso site, www.desenvolvesp.com.br, por onde é possível tirar dúvidas mais frequentes, simular o financiamento, além de solicitar o crédito.  Os critérios técnicos que reprovaram alguns pedidos não inviabilizam que esses empresários voltem a pleitear os financiamentos novamente após sanadas as pendências, de acordo com normas e legislações vigentes.

Informamos ainda que a Desenvolve SP faz parte da comissão que avalia os impactos econômicos do coronavírus em São Paulo e estamos trabalhando para aumentar o volume de crédito disponível. O Governo de São Paulo tem feito reuniões com bancos privados e outros setores da economia para ajudar a manter empregos e as empresas paulistas em atividade.”

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

POLÍTICA E TANATOS

A maioria esmagadora se julga dona da verdade. A única diferença é que uns assumem isso para si e outros não. Os que não assumem são pessoas que não estão muito preocupadas em serem éticas consigo mesmas

O texto a seguir trata da articulação das ideias apreendidas e debatidas em sala de aula pelo autor, quando de seu período como aluno graduando em Psicologia, na Faculdade de Psicologia da Universidade Federal Fluminense, entre os anos de 2004 e 2013. Essas ideias foram concebidas e articuladas em sala nas aulas das disciplinas do professor Valmir Sbano, do curso de graduação em Psicologia da UFF, nas disciplinas Psicanálise (no segundo semestre do ano letivo de 2004) e Teorias e Sistemas Psicológicos – disciplina também de conteúdo psicanalítico (no segundo semestre do ano letivo de 2012).

O artigo é o resultado de um trabalho de campo, construído em um processo de cognição social – isto é, de sua percepção do que seria essa suposta cognição coletiva em sala – feita nesta mesma sala de aula pelo autor, que se posicionava em sala não só como aluno mas também e principalmente como sujeito que se encontra em posição transferencial para o seu mestre (no caso, o professor), tendo como fundamentação teórica o pensamento político que o filósofo Michel Foucault usa em seu texto “Nietzsche, a genealogia e a História”, aplicado aos conceitos psicanalíticos de Política, Outro (a alteridade), Conflito e Tanatos (pulsão de morte).

A metodologia usada foi a utilizada pelo filósofo Gilles Deleuze em seu artigo “Rizoma”, de seu livro Mil Platas Capitalismo e Esquizofrenia, no qual usa o conceito de rizoma – a característica capilar e transconectiva da dimensão imanente da realidade – para pensar os fenómenos sociais. A característica simbiótica dos diferentes atores do plano dos acontecimentos (a sala de aula como campo de reflexão sobre os fenómenos sociais) não impede a emergência de conflitos, dada a utilização de uma fundamentação teórica foucaultiana para pensar os fenómenos sociais, na qual a questão do poder sempre está presente nas relações de intercâmbio entre saberes, linguagens, crenças, opiniões, verdades etc., considerando o caráter sempre histórico e político dos saberes compartilhados coletivamente.

Considerando ainda a postura de pesquisador de campo do autor, que utiliza uma forma de cognição social que, para a Psicanálise, também é inconsciente, e considerando também o caráter transferencial da atenção desse mesmo autor, na qualidade de um aluno que coloca o professor no lugar do Suposto Saber, toda forma de mapeamento do plano dos acontecimentos se passa de forma inconsciente, o que, pela leveza da técnica da associação livre das ideias, leva a uma sequência de palavras e frases que não se dá ao acaso, aparecendo aí e, justamente por isso, um discurso também atravessado pela metáfora e pela metonímia, antes de ser traduzido em linguagem escrita. Considerando seu método, o autor vai para campo com a metodologia de Deleuze – isto é, tentando dissolver seu ponto de vista enquanto observador -, mas enquanto sujeito encontra-se em sala de aula atravessado por relações de poder (como considera Foucault), amor (desejo) e ódio (como considera a Psicanálise): ele na verdade descobre que se encontra submetido à castração da linguagem e a uma entropia interna que lhe é estrutural.

ESSÊNCIA

O que caracteriza o homem é justamente ele não ter uma essência, é ele ser capaz de subverter, trapacear o instituído que forja, trama normatividades, que diz o que é e como devemos ser para sermos “livres”. É o instituído que naturaliza a liberdade, a coloca em uma origem mítica, um passado remoto, que supostamente falaria de nossa natureza, do que é desejar e até do que é recusar. Ser humano é subverter, e subverter dá trabalho… por isso o intolerante quer a morte do conflito, a morte do desejo.

A intolerância é algo inerente à estrutura da cultura. Toda cultura, todo campo de valores, é constituído por inclusões e exclusões não só de valores, mas de hábitos, costumes, crenças, perfis de visão de mundo… como diz Freud, toda cultura é baseada no amor entre “iguais”, e todo amor é baseado no ódio: “Nós sim… os outros não!”. Isto é, “estamos unidos porque lutamos contra os outros!”. Ou seja, contra o Outro, aquele que nos lembra algo inconveniente: que temos limitações, quais são essas limitações e que só “sou” o que sou devido a essas singulares limitações.

Dois cidadãos querem mudar o mundo. Um tem um projeto de um Deus que prega a heterossexualidade, a defesa da família hetero-normativa, a obediência cega às autoridades, não participar de sindicatos etc., um outro cidadão é filho de um Deus que prega a liberdade na sexualidade, contestação da legitimidade das autoridades, participa de sindicatos, se rebela contra o arrocho salarial do patrão… é possível haver respeito entre esses cidadãos! Em uma sociedade de líderes brutamontes, se um respeitar o ponto de vista do outro, ele automaticamente muda de ponto de vista.

Não nos deixemos iludir. A maioria esmagadora de nós se julga dona da verdade. A única diferença é que uns assumem isso para si e outros não. Os que não assumem são pessoas que não estão muito preocupadas em serem éticas consigo mesmas, não levam a vida tão a “sério”, e assim o fazem porque no fundo não são comprometidas com nada, dão à própria vida um tom prazeroso de irresponsabilidade. É mais fácil viver assim, além do que se é tido como alguém maduro, adulto, vivido. Adoramos uma pitada de cinismo para que esse cinismo nos dê um tom sisudo de alguém bem resolvido.

Ser o dono da verdade é, justamente, isso, é ser alguém que tem a coragem de dizer: “A natureza humana é assim” ou “A natureza humana não é assim” ou “A natureza humana não existe” ou “A natureza humana é uma construção”, e dizer isso, ainda assim, é falar de uma natureza, ainda que fajuta. Isso é algo megalômano, mas a mente humana, s6 por ser constituída pela linguagem, é por concepção megalómana. Precisamos dar um estatuto de coisa ao que dizemos e pensamos para poder fazer referência ao que não compreendemos, que vem a ser tanto o Outro, a diferença, quanto isso que insistimos em chamar de natureza, que queremos impor ao outro como aquilo que nos torna iguais, irmãos.

Falar sobre a natureza humana ou ausência de natureza humana é o mesmo que assumir uma postura política, ainda que essa postura política esteja para além de partidos, sindicatos, ideologias e filosofias sociais, religiosas, pedagógicas, culturais, científicas, esotéricas. Falar sobre o que o homem é ou deixa de ser é um ato político. E abster­se de dizer, ou ainda não se importar com isso, também constitui uma posição política. Reconhecer isso envolve riscos, o risco de se deparar com o Outro, isto é, o risco de ser repudiado, criticado, aviltado, menosprezado. Nosso desamparo está flagrante a todo momento, a toda nossa volta.

Falar sobre uma natureza humana ou sobre o que é próprio do humano é uma megalomania, já é estar com a postura da intolerância de alguém que diz: “Seja assim!”. Do contrário, você ou é marginal, criança, louco, comunista, anarquista, sonhador, otário, aliás temos também uma outra ditadura rolando por aí: a ditadura do malandro. O brasileiro – enquanto um sujeito que é o resultado do agenciamento de muitas e diversas civilizações – tem muita mania de acharque o Outro se acha malandro, se acha mais esperto do que ele. Vejam, não é que ele ache o outro mais esperto não, ele achaque o outro se acha mais esperto! A preocupação não é com a felicidade do Outro, ou com o que o Outro pode fazer para me prejudicar, a preocupação é saber o que esse Outro sabe de mim que eu mesmo não sei. Afinal, “posso ser pego de surpresa por esse Outro fazendo afirmações mais do que reveladoras a meu respeito”.

Afirmações mais do que reveladoras a meu respeito; o que poderia ser isso? São aquelas declarações que nos lembram que não temos, a princípio, uma essência nem humana, nem personificada e que nos diz: “Lembra o que você achava de si mesmo naqueles momentos de fracasso? Que você não é alguém especial”. E não é mesmo, você não é especial, alguém que veio ao mundo para cumprir uma missão de tal ou qual nobreza, você é que tem que se fazer alguém especial, a especialidade é uma luta, uma guerra que temos que travar com o Outro, com a alteridade, com a diferença, com aquela marca primordial que me constituiu, que me fez ser quem sou.

RESULTADOS

O que nos torna humanos não é compartilharmos uma linguagem supostamente ou pretensamente universal, ou telepática, clariaudiente ou clarividente; também não é apenas o fato de orarmos pelo próximo ou para nos religarmos com um criador; não é fazermos filantropia para apagar nosso sentimento de culpa – nada contra a filantropia, a menos que ela nos faça sentir especiais, sem dar uma justificativa para isso.

Trata-se de algo que vem antes disso. Não é sermos criatura, é sermos artesãos; artesãos de novas formas de mundo, de novas formas de existência, de novas formas de ciência, arte e organização social, de política. O que nos torna humanos é justamente essa linguagem frágil, metafórica, metonímica, que tenta desajeitadamente dar conta de simbolizar nossos “demónios” interiores, nossos gritos silenciosos e inefáveis, rebeldes à significação, à tentativa de tamponar esse ímpeto visceral que nos angustia.

Não há uma civilização que tenha sido supostamente erigida para se contrapor à barbárie das relações sociais. A barbárie é interna a cada indivíduo, ela é constitutiva do Sujeito, isto é, ela é estrutural. O que também nos torna humanos é o medo da morte, mas não um medo da morte qualquer, mas um medo da morte que ingenuamente se crê rebelde; que crê que conseguir acreditar em uma vida no além faz de nós ora mais inventivos, ora mais corajosos, ora aqueles que subverteram um destino natural. E estamos dispostos a fingir a todo custo e até o fim que não temos medo dela, de que não duvidamos nem um pouquinho da existência no além-túmulo.

Esse ímpeto angustiante que nos dá a sensação de que o mesmo veio do nada, está no nada e que irá para o nada nos coloca à deriva em uma existência que será nossa perdição ou nossa salvação: perdição se nos entregarmos docilmente ao gozo da “morte”, tanatos – o infeliz impulso para a autodestruição; será salvação se optarmos pelo trabalho de elaboração. Salvação é domarmos nossos “demónios” interiores. O “demónio” quer a destruição, pois a destruição leva à morte, e a opção inconsciente pela morte nada mais é do que mais uma forma de paz. Quem realmente fez uma opção quer a vida, pois a vida é guerra.

LUIZ MARCELLO DE AGUIAR – é psicólogo, clínico formado pela Universidade Federal Fluminense – UFF. Teve participação como aluno especial no Mestrado em filosofia na Pós-graduação em Filosofia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – PPGFIL/UERJ e atuou como orientador na disciplina de Teorias e Técnicas Psicoterápicas (disciplina de conteúdo psicanalítico) na Faculdade de Psicologia da Universidade Federal Fluminense – UFF. E-mail.: lmarcellodeaguiar@hotmail.com

OUTROS OLHARES

A FÉ PREENCHE O VAZIO

Para evitarem aglomerações, as igrejas transferem os serviços religiosos para canais on-line. A adaptação pode ser difícil, mas atrai fiéis em busca de conforto

Com raízes fincadas no exclusivo mundo espiritual, as religiões têm nos rituais da liturgia o canal mais direto de conexão dos fiéis com a crença no que não está diante dos olhos. A presença no templo e, dentro dele, a repetição de atos de fé cuja origem se perde no tempo têm o poder de materializar no mais humano dos planos – o físico – a imaterialidade daquilo que é divino. Agora que o onipresente distanciamento social esvaziou os locais de devoção e os serviços são oferecidos em plataformas on-line, devotos em todo o mundo estão tendo de se adaptar à perda, pelo menos em parte, dos ritos que alicerçam as crenças – no justo momento em que mais precisam do conforto que tiram delas. Na sexta-feira 27, em um gesto de marcante simbolismo dos efeitos do novo coronavírus no catolicismo, o papa Francisco postou-se solitário no centro da Praça de São Pedro, no coração da Cidade do Vaticano, interditada aos 20.000 visitantes que recebe diariamente, e lá rezou pelo fim da pandemia. Em seguida, pronunciou, em caráter excepcional, a bênção Urbi et Orbi, reservada ao dia de Natal e ao domingo de Páscoa, oferecendo o perdão dos pecados aos católicos que perderam a vida sem confissão nem extrema-unção, segregados em leitos de hospital, bem como aos profissionais de saúde. “Nossa fé, porém, é fraca, e sentimo-nos temerosos”, disse.

A pandemia levou a maioria das dioceses dos países atingidos a suspender ações de rotina. No Brasil, decretos estaduais proibiram aglomerações e, por tabela, fecharam as portas dos templos. Jair Bolsonaro inseriu as igrejas na lista de atividades essenciais, preservando seu direito de manter as portas abertas, no entanto elas continuaram vazias. “O decreto permite o acesso ao prédio, onde padres e pastores seguem gravando serviços. Mas a quantidade de pessoas no local precisa atender às recomendações do Ministério da Saúde”, explica o advogado Jean Regina, do Instituto Brasileiro de Direito e Religião. Difícil mesmo, na transição da missa para o mundo virtual, é se conformar, por exemplo, com sacramentos modificados para o rebanho distante do altar. “O sacramento é a união de um símbolo físico – o pão, o vinho, a água, a bênção do padre – a uma experiência de fé. O que se experimenta como transcendente passa pela experiência sensorial”, explica o teólogo Felipe Magalhães, da PUC-MG.

O rito da comunhão é o ponto central da missa católica, obrigatório aos domingos, e a solução encontrada pela Igreja foi o padre oferecer a hóstia e bebero vinho enquanto cada fiel, ajoelhado em casa diante do monitor, faz uma oração recomendada, a chamada “comunhão espiritual”. “É muito diferente. Sinto como se minha comunicação com Deus fosse uma sintonia de rádio que agora sofre interferências”, diz a esteticista Agda Santana, de 49 anos, católica que costuma ir à missa diariamente. A aposentada Edileuza Caparica, de 70 anos, sente falta da confissão tête-à-tête com o pároco da Igreja da Penha, no Recife, onde também frequentemente se supre de água benta. “Quando eu faço alguma coisa errada, não fico em paz até me confessar. Agora eu rezo bastante, peço perdão a Deus mas me vem a sensação de que está faltando a bênção do padre com a mão na cabeça. Para a gente que não tem mais pai nem mãe, significa muita coisa”, emociona-se. O teólogo Magalhães vê no sacramento a distância um precedente que pode ter efeitos pós-pandemia. “A missa sem presença física nunca teve valor como preceito. Mas, aberta a exceção, quem sabe não se coloca a questão se o sacramento passa necessariamente pela experiência do corpo. A concepção de liturgia pode ser ampliada”, reflete.

As igrejas evangélicas praticam a Santa Ceia em média uma vez por mês e o rito não requer um sacerdote presente. Na casa da estudante de marketing Sara Fabiane, de 22 anos, em Barueri, São Paulo, os serviços religiosos on-line já viraram rotina. “A gente sente falta de estar com o pessoal da igreja, mas assistir ao culto a distância nunca foi um problema”, diz Sara, que, nas redes sociais, se define como “webcrente”. O computador fica instalado em um cantinho da mesa, conectado à TV. “No momento da comunhão, cada um pega um pedacinho de pão e toma um gole de suco de uva ” descreve. Na sede da Igreja Batista da Lagoinha, em Belo Horizonte, os cultos são gravados na presença do pastor, um músico e dois operadores de câmera e som. “As mega-churches não foram pegas desprevenidas. Abrimos canais de WhatsApp e telefone para os fiéis”, conta o pastor Flavinho Marques. Para a cientista da religião Lídice Meyer, da Universidade de Lisboa, a maior vantagem dos evangélicos neste momento é a quantidade de jovens. “A média de idade é menor do que entre os católicos praticantes, e eles sempre exploraram rádios e canais religiosos”, lembra Lídice.

Os sacerdotes católicos, enquanto isso, vão aprendendo a pregar nestes tempos. Falar a 50.000 pessoas pelo YouTube, aponta o padre Omar Raposo, da Paróquia São José da Lagoa, é muito diferente de se dirigir a um público de 300 fiéis. “O discurso tem de ser direto, sem muita firula. Segurar a atenção exige assertividade”, afirma. Na Igreja de Nossa Senhora do Bom Parto, no Tatuapé, bairro da Zona Leste de São Paulo, a capela onde as missas são gravadas ganhou uma imagem nova de Nossa Senhora Aparecida. “A gente tem de investir no visual, porque a pessoa também reza com os olhos”, justifica o pároco Tarcísio Mesquita.

Esta não é a primeira vez que uma pandemia impõe limites à prática da religião. Durante a gripe espanhola, de 1918, as igrejas protestantes e algumas dioceses católicas nos Estados Unidos fecharam as portas. Séculos antes, quando a peste negra varreu a Europa, padres católicos estavam entre os mais atingidos por causa do contato frequente com infectados. Creia-se ou não, as religiões costumam estar na linha de frente do combate e, principalmente, do consolo em meio a crises humanitárias. Não surpreende, portanto, que na última sexta-feira de março, com a pandemia devastando o planeta, 11 milhões de pessoas tenham se conectado para receber a bênção papal e se solidarizar com o senhor de 83 anos, sem a parte superior do pulmão direito, que do centro da praça deserta lembrou: “Estamos todos no mesmo barco”. Francisco não via ninguém à sua frente. Mas era ouvido por uma multidão em busca do conforto – virtual, que seja – que a fé pode suprir nos momentos mais terríveis.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 13 DE ABRIL

QUAL É A NATUREZA DO CASAMENTO

Eis por que deixará o homem a seu pai e a sua mãe e se unirá à sua mulher, e se tornarão os dois uma só carne (Efésios 5.31).

A sociedade contemporânea perdeu o senso de valores. Está confusa acerca das coisas mais simples da vida. Desde que o mundo é mundo, sabe-se que o casamento é a união de um homem e uma mulher. Hoje, questiona-se o gênero. Fala-se em casamento entre homem e homem, entre mulher e mulher. Isso é um desatino, um erro, uma torpeza, uma disposição mental reprovável, uma abominação. Quais são os pilares de um casamento? Busquemos na Palavra de Deus essa resposta: Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne (Genesis 2.24). O casamento tem três pilares.

PRIMEIRO, o casamento é heterossexual. O casamento é a união entre um homem e uma mulher e não a união entre dois homens ou entre duas mulheres. Ainda que nossas cortes supremas legitimem a relação homossexual, ela estará sempre em desacordo com os princípios divinos.

SEGUNDO, o casamento é monogâmico. A poligamia está em desacordo com o projeto de Deus.

TERCEIRO, o casamento é monossomático, ou seja, marido e mulher tornam-se uma só carne. Sexo antes do casamento é fornicação e fora dele é adultério. As duas práticas são contrárias à santidade. Mas sexo no casamento é ordenança divina e uma dádiva a ser desfrutada com alegria, prazer e santidade.

GESTÃO E CARREIRA

COMO SEUS PAIS INFLUENCIAM SEU COMPORTAMENTO NO TRABALHO

A natureza do relacionamento dos seus pais pode ter influenciado a maneira como você se relaciona com as outras pessoas

Uma série de fatores afeta a maneira como você age no trabalho: a personalidade dos colegas, o tipo de chefe que você tem e a cultura da empresa de uma maneira mais ampla.

No entanto, se você se pegar repetindo os mesmos padrões contraproducentes — como dificuldade em aceitar críticas, receio de pedir ajuda a outras pessoas ou medo de errar —, pode ser que a origem dos seus problemas não seja tão óbvia.

A natureza do relacionamento dos seus pais, e especialmente se eles resolviam os problemas de maneira amigável e construtiva ou partiam para o conflito, pode ter influenciado a maneira como você se relaciona com as outras pessoas. No jargão psicológico, se seus pais estavam sempre discutindo, eles podem ter influenciado seu “estilo de apego”. E isso pode interferir na sua capacidade de estabelecer relacionamentos saudáveis ​​no trabalho.

A teoria do apego, proposta pela primeira vez pelo psicólogo britânico John Bowlby em meados do século passado, sugere que nossos primeiros relacionamentos — especialmente com nossos pais — influenciam como nos relacionamos com outros indivíduos ao longo da vida, ou melhor, o nosso padrão ou “estilo de apego”.

Em linhas gerais, as pessoas podem apresentar um padrão de “apego seguro”, o que significa que são confiantes do seu valor e confiam nos outros; um “apego ansioso (ambivalente)”, em que têm baixa autoestima e temem ser rejeitadas e negligenciadas, buscando segurança constantemente; ou um “apego evitativo”, que significa que também têm baixa autoestima e pouca confiança nos outros, mas enfrentam a situação evitando acima de tudo se aproximar muito das pessoas.

Há muitos fatores que contribuem para o tipo de padrão de apego que desenvolvemos, incluindo a receptividade dos nossos pais, assim como nossa própria personalidade, que é reflexo de uma mistura de fatores ambientais e genéticos. Mas o relacionamento de nossos pais também é relevante.

Para as crianças, os pais oferecem um modelo de como as divergências devem ser resolvidas nos relacionamentos — ou até mesmo se podem ser resolvidas. E pesquisas sugerem que isso tem consequências para o padrão de apego posterior das crianças.

Esses estudos geralmente esbarram em um conflito genético — ou seja, qualquer associação entre o comportamento das crianças e o comportamento dos pais pode ser explicada, pelo menos em parte, pelo fato de terem genes compartilhados.

Apesar desta limitação, um estudo envolvendo 157 casais mostrou que os indivíduos cujos pais se divorciaram na infância eram mais propensos a ter um padrão de apego inseguro na vida adulta. E uma pesquisa de psicólogos da Purdue University, no estado americano de Indiana, pediu para 150 estudantes de graduação recordarem o nível de conflito no relacionamento dos pais e, na sequência, avaliou o perfil de apego de cada um. Os alunos que se lembravam de mais conflitos tendiam a apresentar padrões de apego mais ansiosos e evitativos.

Por muitos anos, a teoria do apego foi usada principalmente para analisar como o estilo de apego dos indivíduos, formado na infância, influencia o comportamento nos relacionamentos românticos na vida adulta — e não surpreende que os dois padrões de apego inseguros estejam associados a relacionamentos de pior qualidade.

Cada vez mais, no entanto, os psicólogos do trabalho estão recorrendo à teoria do apego para ajudar a explicar o comportamento dos funcionários no ambiente de trabalho — o número de artigos que adotam essa abordagem aumentou consideravelmente nos últimos anos.

ESTILO PESSOAL

Há várias maneiras pelas quais seu estilo de apego pode afetar seu comportamento no trabalho. Por exemplo, se você apresenta um padrão de apego ansioso, pode ter mais medo de ser rejeitado por apresentar um desempenho fraco (pelo lado positivo, você também pode estar mais alerta a ameaças, o que talvez faça de você um bom informante).

Se você tem um estilo de apego evitativo, é mais provável que desconfie de seus gestores e colegas. Esses processos psicológicos profundamente arraigados também afetam os chefes — por exemplo, aqueles com um padrão de apego seguro são mais inclinados a delegar.

Tais descobertas são confirmadas por histórias pessoais. Sabrina Ellis, de 32 anos, enfermeira de saúde mental e psicóloga organizacional, relembra a violência verbal e física entre os pais e, mais tarde, entre a mãe e o padrasto.

“Quando cresci… não havia adultos na minha casa em quem eu pudesse confiar, sentia que precisava me proteger mesmo no começo da vida adulta”, diz ela.

Sabrina acredita que isso causou problemas no início da sua carreira, especialmente na hora de recuperar a confiança em colegas do sexo masculino que a decepcionaram.

A consultora de administração Kiran Kaur, de 34 anos, acredita que o relacionamento de seus pais a afetou tanto positiva quanto negativamente. Eles evitavam conflitos entre si e formavam uma frente única (algo que Kaur adotou no trabalho em equipe), mas, ao mesmo tempo, eles afastavam perspectivas alternativas.

“Isso impactou minha abordagem no trabalho com equipes, porque eu também não convidava a discussões abertas”, diz ela.

Mas nosso estilo de apego não é predestinado. Pesquisas recentes mostram que o padrão de apego evolui até certo ponto ao longo da vida em resposta às circunstâncias atuais. Se você tiver a sorte de ter um parceiro confiável e amoroso, isso provavelmente vai aumentar sua confiança nos outros — favorecendo a manifestação de um estilo de apego seguro.

Este é um processo chamado de “paradoxo da dependência”, ou seja, quando depender de alguém aumenta nossa autonomia.

Além disso, ter mais consciência de qual é sua tendência nos relacionamentos, com base em suas experiências de infância, pode permitir que você tome medidas para atenuá-las ou tire proveito das mesmas.

Kaur conta que a atitude de evitar conflitos e a mente fechada, que ela acredita ter herdado dos pais, é algo que ela vem trabalhando há 10 anos, desde que um colega chamou a atenção dela pela primeira vez para esse fato.

“Chamo agora para discussão e tento ser o mais aberta possível”, diz ela.

Ellis também conseguiu se adaptar de forma positiva.

“Ao longo da minha carreira, evitei conflitos e aprendi conscientemente novas maneiras de resolver problemas e lidar profissionalmente com preocupações, mantendo o foco na solução”, diz ela.

“Tem sido muito produtivo e (me ajudou a ser) bem-sucedida como gestora de equipes e como colega de outros profissionais.”

A maneira como você se relaciona com outras pessoas no trabalho pode ter raízes profundas, mas se a psicologia nos ensinou algo, é que o aprendizado é possível ao longo da vida. Isso se aplica ao seu estilo de apego e personalidade, tanto quanto a aprender um novo esporte ou idioma.

Falando como um psicólogo, estar mais ciente desses processos interpessoais e de suas raízes significa que não há razão para que você não consiga se adaptar e se tornar um gestor ou colega de trabalho mais eficiente.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

IMPACTO NO AMADURECIMENTO

O desenvolvimento da autonomia estimula os aspectos sociais, cognitivos e motores da criança. No entanto, para isso, alguns obstáculos precisam ser superados

Recentemente, foi publicada uma pesquisa realizada por profissionais da Universidade San Diego, nos Estados Unidos, em que foi constatado que os jovens norte-americanos estão levando um tempo maior para amadurecer. Uma das possíveis razões para isso ocorrer é justamente o desenvolvimento da autonomia – ou a falta dela.

Etimologicamente, a palavra autonomia origina-se do grego autos, que significa “a si mesmo, reflexivo, e nomos, que se refere a “normas, leis”. Como propôs Mill (2000), “sobre si mesmo, seu corpo e sua mente, o indivíduo é soberano”. Já Kant (2009) diz que o querer próprio e a capacidade de escolha devem ser, para o indivíduo, “como uma lei uni versal”. No dicionário, autonomia é “liberdade moral ou intelectual”. Em todas essas formas de pensar, temos um comum acordo do quanto se misturam os conceitos de autonomia e liberdade.

A autonomia tende a se desenvolver praticamente pela vida inteira. É o que define a capacidade que o indivíduo tem de evoluir nas questões pessoais e de lidar com as situações de enfrentamento e interação social que encontrará ao longo da vida, refletindo sobre seus objetivos e tomando decisões baseadas nessa reflexão. Ou seja, o desenvolvimento da autonomia desde a infância para a fase de transição para a vida adulta consiste na competência de exercer a sua liberdade de forma responsável, tomar decisões por si mesmo, definir metas e objetivos e encontrar os meios de como realizá-los.

A IMPORTÂNCIA DOS PAIS

A formação de crianças autônomas está diretamente ligada às relações familiares. É unanimidade que crianças que crescem em um ambiente saudável e feliz, onde os pais dão espaço e incentivam a quebra do elo de dependência, conseguem enfrentar melhor as situações de adversidade, sejam elas no âmbito familiar ou escolar.

Nesse sentido, o comportamento dos pais é determinante no que concerne à forma como seus filhos vão desenvolver tais capacidades. Não somente com relação à vida social, a saber se portar e lidar frente aos desafios de uma vida adulta, mas também no que se refere às suas habilidades cognitivas e motoras.

Sabemos que a infância é justamente o momento em que ocorre a construção da personalidade da criança, o que é um fator decisivo no desenvolvimento da autoestima e da evolução cognitiva e escolar. Ainda, é nessa fase que definimos a forma como serão as nossas relações ao longo da vida. Crianças com autonomia se sentem capazes de realizar ações, comunicar-se com os elementos ao seu redor, absorvendo novos conhecimentos, processando essas informações e fazendo suas próprias escolhas. O senso de independência é fundamental para que elas saibam tomar decisões, ter persistência em situações difíceis e interagir com o mundo lá fora, tornando-se adultos capazes de resolver seus próprios problemas.

Por outro lado, é notório que, em muitas situações, os pais não permitem que os filhos executem e tentem resolver atividades sozinhos. Além disso, devido ao modelo de vida que levamos nos dias de hoje, muitos deles acabam por terceirizar a criação das crianças.

PAIS SUPERPROTETORES

Poder de autodeterminação não é uma característica comum a todas as pessoas. Essa capacidade não é inata, ela se desenvolve no indivíduo durante toda a sua existência, mas precisa ser estimulada no início da vida.

Infelizmente, é muito comum observarmos mães e pais que fazem tudo pelos filhos: dão comida na boca, banho, penteiam os cabelos, amarram os sapatos, escolhem o vestuário, até mesmo vestindo e despindo a criança. Por consequência, não dão liberdade para que a própria criança exercite essas habilidades, que são tão importantes para o seu desenvolvimento cognitivo e psicomotor. É essencial fazer o alerta de que zelo e carinho nada têm a ver com isso: é primordial dar espaço para que o indivíduo evolua e tenha progressos por conta própria.

Ao nascer, o bebê conhece o mundo através dos olhos dos pais, que são as primeiras pessoas com quem desenvolve uma relação. Esses primeiros contatos com o exterior podem se dar de diferentes formas. Alguns pais superprotetores acabam evitando o contato do filho com a vida real, mantendo-o encasulado e limitando o mundo e as relações àquilo que se tem dentro de casa, evitando até mesmo a participação de outras pessoas. Dessa forma, o que seria um meio de proteger a criança torna-se um guia para um caminho de incapacidades, insegurança na administração de situações inevitáveis, que são inerentes ao convívio humano.

O ideal seria que essa criança já nascesse e começasse a se desenvolver em um ambiente social, observando e internalizando regras de convivência, o que interfere intimamente nas capacidades de ser autónomo e ser sociável. Estimulada desde cedo, ela se tornará um indivíduo decidido, independente, que sabe o que quer porque aprendeu a fazer escolhas durante a vida. Do contrário, é comum observarmos crianças com dificuldades de aprendizagem, atrasos no desenvolvi­ mento da fala, das habilidades motoras, além de outros aspectos.

Dificultar o direito de uma criança de desenvolver o seu senso de independência é negar-lhe a liberdade das suas ações, desconsiderando sua capacidade de análise e de agir conforme suas próprias normas, estabelecidas por ela mesma com base nas informações disponíveis.

Quando os pais não estimulam a evolução das habilidades da criança, podem fazer com que ela cresça pensando que não precisa realizar as tarefas porque vai ter sempre alguém para interceder por ela. Porém, isso traz de­ safios enormes para lidar com a fase escolar, já que nesse ambiente ninguém pode aprender em seu lugar e é preciso ter persistência para vencer os obstáculos nos processos de leitura, escrita e socialização com os colegas.

É evidente que a escola ocupa um papel de destaque nos processos de aprendizagem da criança, no exercício de suas habilidades e sociabilidade, mas não é responsável pela construção da autonomia das crianças. Hoje em dia, muitas delas chegam à escola totalmente dependentes, sem saber ir ao banheiro, fazer a sua higiene e abrir o seu lanche, pois as pessoas que convivem com elas é que fazem isso, muitas vezes por considerarem mais prático e rápido. Porém, é fundamental ressaltar que os jovens precisam ser independentes e que a escola só obterá resultados satisfatórios se tiver um terreno fértil para o aprendizado da criança.

ATRASO

Pesquisadores de San Diego analisaram dados a respeito do comportamento de mais de 8milhões de adolescentes, com idade entre 13 e 19 anos, ao longo da década de 1970 até o ano de 2016. O estudo concluiu que os jovens dos Estados Unidos estão demorando mais tempo para amadurecer. Suspeita-se que esse fenômeno também esteja ocorrendo em muitos outros países. Mas quais as razões que podem ser apontadas?

* Atualmente, as crianças e adolescentes recebem uma enxurrada de informações, principalmente pelo crescimento da internet e das redes sociais. Isso contribui para o aparecimento da puberdade de maneira precoce, mas não caracteriza o desenvolvimento da autonomia.

* Outro aspecto que pode ser considerado como uma das razões é que, em muitos casos, os pais querem evitar situações as quais acreditam ser de sofrimento e frustração ou querem recompensar a criança por alguma falha. Dessa maneira, eles acabam tomando as decisões e as atitudes que os seus filhos deveriam ter. Esses fatores impactam na capacidade do indivíduo de tomar decisões e corroboram para a formação de uma criança dependente e um adulto despreparado para enfrentar o dia a dia com todas as suas nuances.

ESTÍMULO DA APRENDIZAGEM

Grande parte dos pais, especialmente aqueles de primeira viagem, têm receio de deixar a criança “andar com as próprias pernas”. Todavia, é preciso ter em mente que o aprendizado é adquirido não somente através de experiências positivas, mas de negativas também.

Nesse sentido, o fomento à aprendizagem ainda nos anos iniciais da criança, como permitir que ela escove os dentes sozinha, se alimente com as próprias mãos, possa escolher as suas próprias roupas, entre outras coisas, traz muitos benefícios para o seu desenvolvimento autônomo.

Desse modo, a criança percebe que ela mesma pode realizar suas tarefas, exercitando a capacidade de persistir, quando algo não sai como o esperado, e ainda trabalha o seu desenvolvimento psicomotor. Por exemplo, quando toma banho sozinha, ela vai ter que trabalhar todo o seu esquema corporal. Quando escova os dentes, vai exercitar e desenvolver melhor o seu movimento de pulso e assim sucessivamente.

PAIS E DESENVOLVIMENTO

Como os pais podem propiciar o desenvolvimento da autonomia da criança?

RESERVAR UM TEMPO DURANTE O DIA PARA BRINCAR E INTERAGIR COM A CRIANÇA: ter momentos de interação, procurando deixar que ela proponha e direcione o rumo das brincadeiras, é essencial para que ela desenvolva autoconfiança e segurança para a tomada de decisões no decorrer da vida;

NÃO CARREGAR A MOCHILA DOS FILHOS: a mochila é o que simboliza a escola. Quando a carregamos, em vez de deixar que eles façam isso, estamos tirando uma responsabilidade que é deles. Ademais, é necessário ter um lugar adequado para que ela seja guardada em casa. Jamais devemos permitir que ela fique jogada no chão, pois tudo que envolve a escola merece respeito;

COMEMORAR OS ACERTOS EM VEZ DE SOMENTE CRITICARAS FALHAS: é muito importante comemorar quando a criança consegue realizar tarefas nas quais antes tinha dificuldades. Quando a criança falhar em algo, o ideal é ajudá-la a entender os motivos de não ter dado certo, em vez de criticá-la. Mas, é claro, lembrando sempre que elogiá-la em tudo o que faz pode ser tão prejudicial quanto criticar demais;

INCENTIVAR O GOSTO PELA ESCRITA: com tantas possibilidades tecnológicas ao seu dispor, como tablets e smartphones, muitas crianças acabam por não gostar de escrever. É impreterível tentar reverter esse quadro, estimulando a escrita para um bom desenvolvimento cognitivo e psicomotor;

TRATAR OS FILHOS ESPECIAIS DA MESMA FORMA COMO TRATA OS FILHOS NEUROTÍPICOS: crianças especiais não precisam e não devem ser tratadas de maneira diferente. Muito pelo contrário, elas devem ser estimuladas da mesma forma para que consigam se desenvolver ao máximo dentro das suas limitações;

ENVOLVER, AOS POUCOS, A CRIANÇA EM TAREFAS DO DIA A DIA AUXILIA NO SENSO DE RESPONSABILIDADE E DE DECISÃO: guardar os brinquedos sozinha, escolher as roupas e aprender a vestir-se, pôr a mesa, levar o lixo para a rua, entre outras tarefas simples do cotidiano;

FAZER COM QUE O INDIVÍDUO ENTENDA AS CONSEQUÊNCIAS DE SUAS ESCOLHAS: é indicado mostrar para a criança ou adolescente que toda escolha implica em consequências, tanto boas quanto ruins. Deixá-la ciente sobre isso antes que tome uma decisão é dar a ela a oportunidade de refletir sobre seus atos.

OUTROS OLHARES

COMIDINHA DA VOVÓ

Com restaurantes fechados, chefs se voltam para as próprias panelas e defendem a ideia de que cozinhar com simplicidade é a melhor receita para os dias de isolamento

Apenas quatro meses depois de sua inauguração, o restaurante paulistano President, do chef francês Erick Jacquin – que se tornou conhecido do grande público brasileiro no programa de TV MasterChef, exibido pela Band -, fechou a portas. O inesperado motivo: a pandemia da Covid-19. No âmbito econômico, Jacquin recorreu à estratégia que vem sendo adotada pela maioria dos colegas: a entrega de refeições por delivery. Em casa assim como boa parte dos brasileiros em quarentena, o chef começou a perceber que o surto mudará tudo – inclusive dentro da cozinha.

“Agora estou ajudando mais a minha mulher, Rosângela, com os dois bebês. Sou eu que preparo as papinhas deles. Estou aprendendo a cozinhar para as crianças de uma forma diferente”, disse Jacquin. A saúde – e os sentimentos – da família agradece: alimento feito em território doméstico pode ser uma maneira tanto de recuperar uma dieta saudável como de cultivar os afetos.

O ideal é que não fosse preciso uma situação tão extrema como a do distanciamento social para que a alimentação nutritiva estivesse na ordem do dia. Nesse sentido, o jornalista americano Michael Pollan, inimigo dos produtos industrializados, é categórico. “Comida é aquilo que a sua avó chamaria de comida”, sentenciou. Bem, a depender da geração, a avó pode ser mais ou menos adepta dos processados – mas a situação atual é uma oportunidade e tanto para redescobrir a comida caseira. Segundo a nutricionista Márcia Assif, professora da Universidade Mackenzie, de São Paulo, o recomendável é que as pessoas preparem os alimentos em casa. “Quando fazemos as refeições em restaurantes, não sabemos quanto foi usado de óleo, sal e molho”, afirma.

“O momento agora não é para pratos, e sim para quentinhas. Em casa, a saída é muito mais simples do que parece. Pequenos produtores estão fazendo entregas”, lembra a gaúcha Roberta Sudbrack, do restaurante carioca Sud, o Pássaro Verde, considerada a melhor chef mulher da América Latina pela revista britânica Restaurant, em 2015. Para exemplificar, Roberta destacou uma atração do cardápio do Sud, o arroz de frutos da terra. Ela explica que, para duas pessoas, a receita leva 200 gramas de arroz branco, 1 litro de caldo de casca de abóbora e legumes e verduras que “estiverem disponíveis”. A chef usa o caldo da casca de abóbora para cozinhar o arroz. Os legumes, assados em forno alto, são cortados regados com azeite e temperados com sal e pimenta-de-cheiro. Por fim, Roberta forra uma travessa com o arroz, põe os legumes por cima, rega os ingredientes com mais azeite e leva-os ao forno a 180 graus por quinze minutos. “É uma refeição rápida, saudável, deliciosa e que mantém a cadeia produtiva dos pequenos produtores orgânicos”, frisa. A chef gaúcha integra o time gastronômico que gravará vídeos para o Festival Banho-Maria, transmitido pelo perfil do Instagram durante a quarentena.

Jacquin também defende o que é fácil de fazer. “Aqui em casa comemos coisas simples, como quiche com salada. Outro dia fizemos um risoto”, afirma. Além de buscar receitas de família, o chef entende o confinamento como um laboratório de experimentações. “Eu procuraria escrever a minha própria história com o que tem na geladeira”, diz ele. “Até porque o mundo seguirá uma nova receita daqui para a frente.” E ela terá, sem dúvida um sabor mais caseiro.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 12 DE ABRIL

QUAL É A ORIGEM DO HOMEM?

Então, formou o SENHOR Deus ao homem do pó da terra e lhe soprou nas narinas o fôlego de vida, e o homem passou a ser alma vivente (Genesis 2.7).

Os evolucionistas dizem que o ser humano veio do macaco e que os símios são os nossos ancestrais mais próximos. Será isso verdade? Onde estão as provas? Onde estão os elos comprobatórios dessa teoria? As supostas provas levantadas até hoje são inconsistentes e incongruentes. O próprio livro de Charles Darwin, As origens das espécies, publicado em Londres em 1859, tem mais de oitocentos verbos no futuro do subjuntivo: “suponhamos”. A teoria da evolução não passa de um punhado de conjecturas sem amparo da verdade. A verdade incontroversa dos fatos é que fomos criados. Somos seres geneticamente programados. Marshall Nirenberg, prêmio Nobel de biologia, descobriu que um ser humano adulto tem 60 trilhões de células vivas e em cada uma delas 1,70m de fita de DNA. Se conseguíssemos estender a fita DNA do nosso corpo, chegaríamos a 102 trilhões de metros. Em cada célula estão registrados os nossos dados genéticos: a cor da nossa pele, a cor dos nossos olhos e o nosso temperamento. Códigos de vida não surgem espontaneamente. Códigos de vida não são produzidos por uma explosão cósmica. Códigos de vida não se desenvolvem por intermédio de uma evolução de milhões e milhões de anos. Esses códigos foram plantados em nós pelo criador. Que nós somos seres criados, isso a ciência prova. Que fomos criados por Deus, à sua imagem e semelhança, isso aceitamos pela fé.

GESTÃO E CARREIRA

QUEM VAI MUDAR A MODA?

Remuneração insuficiente ainda é regra em confecções mundo afora – e o consumidor médio não parece disposto a pagar mais por roupas

Consumidor jovem, aparentemente engajado em compras conscientes, vai levar o setor de moda a acabar com práticas trabalhistas predatórias? O relatório Fashion Fast or Slow, recém-concluído pelo banco suíço Julius Baer, mostra ceticismo. Afirma que uma minoria de consumidores se dispõe realmente a pagar mais por suas roupas, e que a vontade de ver aplicadas as práticas sustentáveis – como remuneração justa – ainda não é poderosa o bastante para mudar hábitos de compra. Pelo jeito, o acesso a roupas baratinhas é viciante. Simultaneamente, também em fevereiro, a ONG global Human Rights Watch disparou um recado diretamente ao setor: um caso na Justiça britânica coloca sobre uma companhia inglesa (a fabricante de cigarros BAT) a responsabilidade sobre práticas trabalhistas ruins em fornecedores na Ásia. Segundo o alerta da HRW, o mesmo princípio pode ser aplicado ao setor têxtil, um dos maiores empregadores do mundo. Um estudo recente da empresa de gestão de ativos dinamarquesa Nordea afirma que se o setor de moda pagasse salários razoáveis (capazes de manter trabalhadoras acima da linha da pobreza), o preço das roupas subiria de 6% a 12%.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A ASTÚCIA DO ENGANO

Uma das questões recorrentes em psiquiatria forense é a simulação, situação em que um indivíduo tenta se passar por louco para lograr alguma vantagem

A simulação e a mentira são ramos nascidos do tronco comum do engano e da astúcia. De certa forma, a mentira é comum nos processos criminais, pois os réus mentem para conseguir absolvição ou diminuir a pena, salvo se forem inocente pois aí terão todo o desejo de falar a verdade e vê-la vencer.

A simulação de loucura, por sua vez, tem certas características, a começar pelo fato de as pessoas acharem que a sua procura é comum e, na prática, ser rara. É difícil simular a loucura. E quando essa é tentada, descobre-se facilmente: basta observar algumas regras básicas. A primeira ocorre quando se pergunta para o “ator” se ele se acha doente. Os simuladores menos preparados respondem prontamente: “sim, estou doente há bastante tempo”, ou algo nesse sentido.

Com tal dado em mãos já se pode saber que estamos diante de simulador, por um motivo muito simples: o verdadeiro doente mental não reconhece a sua doença, pois apresenta o sinal patognomônico chamado anosognosia (a, negação; noso, doença; gnonai; conhecimento; ou seja: desconhecimento da própria doença).

Em outras palavras, as alucinações e os delírios do louco verdadeiro são, para ele, reais. Portanto, nunca admitirá que está doente. Ou seja: a realidade é a que vive, sente e pensa, não a dos outros que estão ao redor.

Depois, para confirmar se realmente é caso de simulação, atenta-se para os conteúdos do delírio e da alucinação. Sempre são vistos, pois todos os fingidores exageram. E mesmo se for hábil e não exagerar, há sinais e sintomas físicos que são insimuláveis. O corpo fala, principalmente no caso dos verdadeiros doentes mentais, no olhar de soslaio do esquizofrênico; na face potatorum do alcoolista crônico; na expressão de tristeza do entorno dos olhos dos deprimidos; ou no brilho das pupilas dos maníacos e assim por diante.

E se ainda houver dúvida sobre se é ou não simulação, nada melhor do que montar uma arapuca para pegar a impostura.

É simples, mas exige técnica, o que não é o objetivo deste artigo. Deseja-se aqui mostrar que simulações de loucura embora raras são normalmente fáceis de reconhecer. Porém, existe um tipo especial, que ganhou direito de nosografia, chamada síndrome de Munchausen. Rara, mas muito importante, aparece principalmente nas ações cíveis indenizatórias e ações penais por homicídio ou por lesão corporal.

GUIDO ARTURO PALOMBA – é psiquiatra forense e membro emérito da Academia de Medicina de São Paulo.

OUTROS OLHARES

PRIVACIDADE AMEAÇADA

O uso de smartphones para rastrear a obediência à limitação de circulação imposta pelos governos durante a pandemia pode facilitar a vigilância sobre os cidadãos

Anormalidade na China, que aos poucos começa a respirar, vencidos os picos do surto, é um tanto “controlada”. Por lá, exige-se de todo cidadão o uso de um aplicativo em seu smartphone para que o governo determine quem está liberado para circular em espaços públicos. Os habitantes de Hangzhou foram os primeiros a testar a tecnologia, que cruza dados de saúde para atribuir a cada pessoa um QR code com uma cor: verde no caso de quem está bem e vermelho para os infectados. A coisa, no entanto, não para por aí. O sistema vai além: permite que as informações sejam compartilhadas com a polícia, numa forma de monitoramento social automático, que pode continuar mesmo após o desaparecimento da pandemia.

Tal comportamento das autoridades de alguns países tem chamado atenção devido ao risco de que, depois da Covid-19, um novo surto acometa a humanidade: o do controle dos cidadãos. “Se não tomarmos cuidado, a epidemia poderá marcar um importante divisor de águas na história da vigilância”, escreveu o respeitado historiador israelense Yuval Noah Harari no jornal Financial Times, da Inglaterra.

O pior é que a ameaça não se confina às ditaduras ou a um só lado do espectro ideológico. Tome-se, na Europa, o exemplo da Polônia. Lá, o governo – liderado por forças populistas de direita vitoriosas nas urnas – lançou um aplicativo por meio do qual quem está em quarentena obrigatória deve enviar selfies para provar que se encontra em casa.

Também no Brasil a prática já ensaia seus primeiros passos. A startup In Loco, que tem permissão para rastrear 60 milhões de smartphones, vem partilhando com prefeituras os dados que levanta sobre a locomoção de pessoas. No Recife, onde fica a sede da empresa, 700.000 aparelhos estão sendo monitorados com a finalidade de mapear os deslocamentos durante a pandemia. Ainda que tal controle se limite ao ir e vir, e não identifique nominalmente ninguém, o alarme disparado por Harari é preocupante. A pretexto de combater a Covid-19, pode-se estar abrindo um precedente para facilitar a vigilância dos indivíduos – e a violação de sua privacidade.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 11 DE ABRIL

QUAL É A ORIGEM DO UNIVERSO?

No princípio, criou Deus os céus e a terra (Genesis 1.1).

Três teorias tentam explicar a origem do universo: a geração espontânea, a explosão cósmica e a evolução das espécies. As três são fruto da visão mecanicista, e nenhuma delas pressupõe a existência de Deus. Hoje sabemos que o universo, com suas inúmeras galáxias e mundos estelares, têm mais de dez bilhões de anos-luz de diâmetro. Isso significa que, se conseguíssemos entrar numa nave espacial, voando à velocidade da luz, 300 mil km/seg, demoraríamos dez bilhões de anos para ir de uma extremidade à outra. Teria esse universo tão vasto e complexo nascido espontaneamente? Teria o universo dado à luz a si mesmo? Poderia uma colossal explosão originar um universo tão harmonioso, com leis tão precisas e exatas? Será que o caos produziria o cosmo? A desordem produziria a ordem? Hoje sabemos que o universo é composto por matéria e energia. Sabemos também que o universo é governado por leis. E sabemos ainda que matéria e energia não criam leis. Logo, alguém fora do universo criou essas leis. Quem as criou, já que leis não criam a si mesmas? A única resposta plausível que temos está na Bíblia, a eterna, inerrante e infalível Palavra de Deus: No princípio criou Deus os céus e a terra. O universo não surgiu por acaso. Deus o criou conforme a sua vontade, pela palavra do seu poder e para a sua própria glória.

GESTÃO E CARREIRA

ROBÔS OU HUMANOS?

Quem está vencendo a batalha entre robôs e humanos? Pesquisa realizada pela MA8 Consulting não pretende responder a essa pergunta, mas mostra um pouco do panorama da convivência entre homem e máquina. A sondagem revela que os brasileiros estão cada vez mais habituados com novidades tecnológicas, ao mesmo tempo em que desconfiam quando envolvem segurança e relações interpessoais e profissionais. Dos 1.435 entrevistados (54% com pós-graduação e 35% com curso superior completo), 61% consideram-se familiarizados com inteligência artificial. Porém, 62% disseram confiar apenas parcialmente a gestão da sua vida pessoal (como finanças, contas a pagar, agenda de compromissos) a uma ferramenta de IA. A consultoria também indagou se as pessoas aceitariam convite para fazer uma viagem de São Paulo a Curitiba (400 quilômetros) em um carro autônomo (sem motorista) sentadas no banco traseiro do veículo: 44% não aceitariam, 21% talvez sim, dependendo da marca, e 30% iriam. Outra questão levantada foi quem escolheriam para realizar uma microcirurgia cerebral de emergência que pudesse salvar sua vida: com um médico no Brasil ou com um robô autônomo nos Estados Unidos? Para 51%, a resposta foi com um profissional humano. “Existe certa consciência de que o limite da inteligência artificial pode chegar somente até às fronteiras da inteligência emocional”, afirma Orlando Merluzzi, CEO da MA8 Consulting, responsável pelo levantamento.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

CONFLITOS COM OS FILHOS

O desejo de incentivar a autonomia das crianças não contraria a necessidade de impor regras na educação e limites às vontades e desejos. É um processo que exige vigilância, cuidado e diálogo

Todos os pais já tiveram momentos em que ao perderem a paciência com seus filhos acabaram encontrando um grande problema a resolver: o ressentimento da parte das crianças e adolescentes, que se sentiram frustrados por terem que obedecer sem ter tido oportunidade de expor seu ponto de vista.

É natural que os pais, por serem adultos, tenham uma visão diferente das crianças e dos jovens em  quase todos os assuntos e que, para seguir uma orientação coerente na educação que decidiram  adotar, tenham que tomar medidas que às  vezes parecem autoritárias, arbitrárias, mas corretas, pois eles são os guardiões legais e sua responsabilidade é enorme. E atitudes aparentemente intransigentes para os pequenos muitas vezes são necessárias, indispensáveis e imprescindíveis.

Crianças não têm condição de se responsabilizar por decisões que podem vir a prejudicá-las. A ideia de que deixar as escolhas para os filhos fazerem pode vir a ensiná-los a se comportar diante das opções da vida é válida desde que a criança já tenha maturidade para responder pelas eventuais consequências de sua decisão. E esse é um processo gradual e que merece cuidado.

Sair de short e camiseta no frio, por exemplo, pode dar chance de uma gripe aparecer, assim como sair com roupas inadequadas a idade cronológica, expõe a criança a comentários e até ao bullying. E é possível citar perigos ainda maiores, como a erotização, que prejudica o desenvolvimento da criança, sua escolaridade fica empobrecida e o risco de ser vítima de um adulto inescrupuloso aumenta muito.

Deixar o filho de sete anos dormir na casa do amigo porque todo mundo faz isso? Todo mundo'” não tem pai, mãe ou família, nem certidão de nascimento: verificar quem é a família do amigo e como conduz a educação dos filhos é uma medida de segurança que todos os pais devem tomar, da mesma forma como mandar para acampamento da moda, ou para onde o amiguinho vai requer análise e um eventual “você não vai”.

Mas dito com calma e propriedade, de modo que a criança entenda que o adulto está cuidando dela e não apenas a aborrecendo, contrariando ou sendo injusto.

“Pegar o carro só para dar uma voltinha no condomínio”, além de ilegal, expõe o jovem menor de idade e sem carta a um problema gigantesco, com consequências impensáveis e desnecessárias. E os pais também. Claro que concordar com tudo não é possível, assim como não ouvir o que a criança ou adolescente têm a dizer prejudica o vínculo entre pais e filhos, desencoraja a criança a expor suas ideias, o que também traz rupturas no entendimento futuro.

Comentários que diminuem a importância do pensamento dos filhos não consistem em opção condizente com alguém que deseja educar seus filhos com respeito e amor. Frases como “você não entende mesmo”, “essa bobagem só podia vir de você”, “não tenha ideias”, “você não pensa” etc. são armas de efeito bombástico na educação, pois diminuem a autoestima e enfraquecem o diálogo.

Quando não concordamos, é melhor parar e pensar se entendemos realmente o que nosso filho tentou nos dizer, pedindo que explique mais seu ponto de vista. Isso ajudará ambos a raciocinarem, clarearem as ideias e acharem pontos em comum.

Mas pode haver discórdia total e então dizer coisas como “compreendi sua ideia, é boa, mas não será possível, pois não tenho a mesma opinião sobre o assunto”, ou “agradeço que tenha tentado me explicar, mas estou seguro de que devemos fazer como eu penso, vai ser melhor para você”, “escutei e achei seus argumentos muito bons, mas não são consistentes e teremos que fazer de outro modo”.

Hoje tornou-se mais complicado distinguir quando podemos deixar nossas crianças e jovens decidirem por si sós e quando devemos impor nossa vontade. Parte disso deve-se a um subterfúgio nem sempre consistente de não se ter mais tempo para acompanhar os filhos e assim deixá-los aprender na prática as consequências de seus atos. Essa parece ser uma ideia que justifica muito bem a premissa.

Mas temos visto que crianças e pré­ adolescentes que se tornam adultos mais seguros e conscientes de seus atos são justamente aqueles que tiveram pais que acompanharam seu desenvolvimento de modo mais tradicional.

Incentivar a adolescência precocemente nas crianças é o pior de todos os enganos: ninguém amadurece de uma hora para a outra e sem ter passado por algumas experiências e ser poupado de muito a outras. O excesso de provações tira a confiança nos pais e dá a ideia de negligência e abandono.

O desejo de tornar o filho autônomo não contraria a necessidade de impor regras na sua educação e limites às suas vontades e desejos. Mas exige vigilância, cuidado e diálogo. As crianças se sentem mais seguras quando sabem que há alguém que cuida delas e as supervisiona com frequência; embora reclamem de não fazerem ou terem tudo o que queriam, aprendem a pensar sobre as consequências de seus atos futuros e vão dominando a noção de responsabilidade nas suas pequenas decisões do dia a dia.

O mais importante é manter o diálogo respeitoso, ser firme e coerente nas decisões e respeitar a idade cronológica da criança: mesmo parecendo muito esperta, uma criança não deixa de ser uma criança!

MARIA IRENE MALUF – é especialista em Psicopedagogia, Educação Especial e Neuro aprendizagem. Foi presidente nacional da Associação Brasileira de Psicopedagogia – ABPp (gestão 2005/07). É autora de artigos em publicações nacionais e internacionais. Coordena curso de especialização em Neuro aprendizagem irenemaluf@uol.com.br

OUTROS OLHARES

RECLUSÃO SAUDÁVEL

Que o momento de recolhimento seja também de autoconhecimento e de conexão com o próximo: em casa, sozinho ou com a família, o melhor lugar do mundo é onde você está

Reclusão saudável

E a pandemia chegou. Com ela, o isolamento social e seus muitos desafios. Você tem respeitado esse isolamento? Goste ou não goste, fique em casa. Com amor ou com raiva, fique em casa. Seja responsável. Cuide-se. Não seja um possível transmissor do coronavírus. Se onde você mora a quarentena ainda não é obrigatória, aguarde. Será. No mundo, muitos estão proibidos de sair de casa. Proibidos de andar nas ruas. O isolamento assusta de tantas maneiras. Há pessoas que detestam ficar sozinhas. Há quem não se lembre mais como é ficar com a família. Mas tudo é possível com um pouco de esforço.

Apreciemos ficarem casa. Não há para onde ir nem vir. Crie circunstâncias, valorize momentos importantes de silenciar, de meditar, de refletir em profundidade. De fazer nada. De ouvir e ver. De apenas estar presente. Não tenha medo da solidão. Esse vírus, para o bem ou para o mal, nos apresentou algumas lições. A principal delas: estamos todos interligados. Sem fronteiras, sem cores, sem etnias. Ele não discrimina. Por isso, o grande risco. Pode acontecer com você. Pode ser ele ou ela. Esse pequeno inimigo é extremamente democrático. Pior ainda, comunitário. Não há ninguém de fora: todos estão dentro das possibilidades de contágio. Por isso, comporte-se. Repito: fique em casa.

Aproveite o momento para observar. Observe com profundidade, observe com sabedoria. Há tanto que pode ser feito. Você pode ler, escrever, pintar, desenhar, sonhar. Pode cantar, declamar. Pode ouvir música sem dançar e sem cantarolar. Ouvir, apenas. E pode fazer tudo diferente, cantando e dançando. Pode rir, pode chorar. Tudo bem chorar. Enquanto o isolamento social for o melhor remédio, faça-o valer. Mas cuidado. Não beba muito. Não use drogas. Aprecie sua vida – não destrua células neurais. Sem beijos nem abraços, demonstre seu amor com a suavidade de uma folha caindo à brisa de outono.

Os otimistas acham que o isolamento fará com que as famílias voltem a sentar-se à mesa e a conversar. Será? Talvez nas casas onde alguém esteja contaminado e os cuidados devam ser redobrados. Quem sabe? Fica aqui um alerta: fomos tão bem treinados a sempre nos comunicar virtualmente que não farão muita diferença as portas trancadas. Abra as portas. Senão, serão mais e mais mensagens no WhatsApp dentro da mesma casa. Que a tecnologia não impeça a reunião familiar.

Mais difícil será ficar trancafiado com pessoas com as quais não mantemos bons relacionamentos – ou nenhum relacionamento. Recomendo que não exija dos outros o que eles não têm para oferecer a você. Veja as qualidades e não comente os defeitos – nem consigo mesmo. Tente. Se houvesse uma pandemia viral nos celulares, na internet, nas redes sociais, talvez fosse pior. Teríamos de olhar uns para os outros, de ouvir um ao outro. Teríamos de conversar: você lembra o que era conversar?

Quem é viciado em TV está feliz. Dia e noite, a TV ligada. Quem ama jogos virtuais se ocupará com eles até enjoar. Aprenda a se desligar. Aprenda a se desconectar. Escolha, neste momento: quer alimentar seus vícios ou suas virtudes? Que tal praticarmos virtudes nas semanas em cativeiro? Mas quem disse que é cativeiro? Sua casa pode se tornar o paraíso, um local sagrado de práticas espirituais. Podemos nos transformar, podemos responder de forma diferente das anteriores a esta intimidade forçada. Tudo depende de suas escolhas – e só suas. Não fique pensando no que deixou de fazer. No que está atrasado. Aprecie o agora, já. Aprenda a viver o agora. Você pode. Vamos apreciar mais a vida? Deixe o celular de lado de vez em quando. Na hora de comer, apenas coma. Na hora de dormir, apenas durma. Crie uma rotina saudável com atividade física, sono, alimentação natural, meditação, boa respiração e batimentos cardíacos regulares e tranquilos.

Este é um momento precioso para repensar quanto tempo dedicamos às telas. Podemos ser atropelados, mas não largamos nossos amigos virtuais. Na mesa, no banheiro, no escritório, no ônibus ou metrô, nos táxis, Ubers, aviões, trens e mesmo andando a pé. Acabamos com um pequeno defeito na cervical de tanto olhar para baixo, para o celular. E por quê? São tantas notícias, informações, atualizações. E, quando você tenta se comunicar, as novidades que acabou de descobrir, o outro também já leu. Que tal desconectar-se? Está preocupado comas notícias ruins por todos os lados? Por que você está me lendo agora? Você já sabe. Tudo o que eu possa escrever é passado. Há dados mais recentes que os deste texto antigo. Antigo, sim. Está sendo escrito hoje, que é ontem do ontem do anteontem. E tudo está a mudar.

Lembre-se deque nada é fixo ou permanente. Eu e você, as lojas e as ruas, os pesares e as alegrias. Nada fixo, nada permanente. Perceba. A vida é um fluir incessante e incontrolável de instantes. Você é capaz de apreciar este momento mais do que reclamar dele.

Ouviu uma briga de casal? Interfira. Bata com o cabo da vassoura nas paredes. Grite pelas janelas. Chame a polícia. Nada de ficar brigando em casa. E controle o desejo de jogar alguém pela janela. Pode dar vontade. Mas não faça isso. Respire. Sorria. Aprenda a ter discussões saudáveis. Política, religião, relacionamentos. Está na hora de ouvir a opinião do próximo, pode ser divertido, pode ser estimulante. Você pode fazer de onde está o melhor lugar do mundo: porque é onde você está. Aqui, bem dentro de você, se manifesta e se abre um caminho iluminado. Sorria. É possível, sim.

Suponha que você tenha se comportado. Aguentou e não saiu de casa. Suponha que a curva exponencial da doença não tenha subido ao ponto mais alto. Ficou um pouco mais baixa. Valeu o isolamento forçado? Valeu o período consigo mesmo? Valeu ficar com essas pessoas ao seu redor? Ter de aguentar sermões e brigas: vem comer, larga o celular? Suas escolhas terão consequências. Então, ressalto: fique em casa. Não saia. Isole-se fisicamente, mas não emocionalmente. Superar essa pandemia depende de cada um de nós. Que a compaixão ilimitada e a sabedoria perfeita sejam nossas duas companheiras. Que possamos despertar e agradecer. Cada instante da nossa vida é assim. Aprecie.

Reclusão saudável. 2

MONJA COEN – é fundadora da Comunidade Zen Budista Brasil, é autora e apresentadora do Caminho Zen, no GNT.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 10 DE ABRIL

gotas-de-consolo-para-a-alma

JESUS VOLTA PARA O CÉU

Aconteceu que, enquanto os abençoava, ia-se retirando deles, sendo elevado para o céu (Lucas 24.51).

Jesus veio do céu e ao céu retornou. Ele desceu da glória, vestiu pele humana e habitou entre nós. O Deus transcendente tornou-se Emanuel, Deus conosco. Viveu em santidade, morreu pelos nossos pecados e ressuscitou para a nossa justificação. Ascendeu ao céu e está assentado à destra de Deus, de onde intercede por nós, governa sua igreja e reina soberano sobre todo o universo. A ascensão de Jesus é a prova de que sua missão foi plenamente cumprida e de que a nossa redenção foi cabalmente realizada. O menino que nasceu numa manjedoura e foi enfaixado em panos é o Rei dos reis e o Senhor dos senhores. Ele está assentado na sala de comando do universo e tem nas mãos as chaves da morte e do inferno. Ele é o Cordeiro digno de abrir o livro da história e conduzi-la à sua consumação gloriosa. A ascensão de Jesus é a garantia de que ele voltará para buscar sua igreja e reinar para sempre com ela. Jesus virá em majestade e glória para julgar vivos e mortos, galardoar o seu povo e entrar com ele para a grande festa das bodas do Cordeiro. Você quer fazer parte desta festa? Renda-se, então, a Jesus. Ele é o caminho para Deus, a única porta do céu. Não há salvação em nenhum outro nome. Ele é o Salvador do mundo, o único mediador que nos reconcilia com Deus.

GESTÃO E CARREIRA

A SAÍDA DO VAREJO ESTÁ NA ENTREGA

Com portas fechadas, empresas adotam vendas sem contato com os clientes para garantir receita durante o período de distanciamento social.

A saída do varejo está na entrega

Em tempos de confinamento, em que as lojas têm de trabalhar de portas fechadas e as pessoas devem evitar a circulação pelas ruas, o jeito é cultivar a criatividade para amenizar os prejuízos causados pela pandemia de coronavírus. Quem resistia em adotar o e-commerce agora corre para montar sua loja virtual. Muitos passaram a utilizar também o delivery como forma de atender ao cliente. Outra saída para os empresários tem sido o drive-thru, populares nas redes de fast food, como McDonald’s e Bruger King. Mesmo sem a mesma estrutura para entrada e saída dos automóveis, pequenos estabelecimentos estão improvisando para levar o produto até o cliente, dentro do carro. “Estamos com cabeça de startup, sem barreiras no nosso pensamento e criando soluções rápidas para garantir as vendas”, afirma o CEO da Cacau Show, Alexandre Costa, que tem incentivado a adoção de drive-thru para seus cerca de 2,2 mil franqueados – dos quais apenas 10% segue de portas abertas. “Para nós, o momento de vender é agora. As duas semanas que antecedem a Páscoa respondem por 25% das nossas vendas anuais.”

Além do novo canal de vendas, o empresário garante que está buscando alternativas, como descontos agressivos, delivery e venda porta a porta. “Antes da crise, já estávamos estudando trabalhar com vendedoras domiciliares. Esse é o momento para colocar em prática”. O que é bom para a rede com faturamento de R$ 3,5 bilhões, é uma questão de sobrevivência para os franqueados. O empresário Miguel Monzu é um dos franqueados da Cacau Show que improvisou um drive-thru em sua loja no centro comercial Open Mall The Square, em Cotia, na Grande São Paulo. “É uma forma de reduzir perdas. Sem o drive-thru, não estaria vendendo quase nada. Com ele, consigo faturar 10% do que faturaria nessa época. Ajuda a pagar os salários.”

No mesmo centro de compras, outras quatro empresas adotaram a solução. É o caso de Fernanda Castanheda, cofundadora da marca Bolo da Madre, rede com 43 lojas em cinco Estados. “O drive-thru tem uma finalidade emergencial. As vendas pararam da noite para o dia, não dava para ficarmos engessados”, afirma. Já a empresária Lilian Zaboto, proprietária da clínica de vacinas Vacin Ville, que implantou o drive-thru no dia 21 de março, assim que recebeu o lote de vacinas contra a gripe, notou que a imunização dentro do carro disparou. “É uma forma de vacinar os idosos com segurança e isso ajuda a manter nosso movimento normal”, destaca.

O CEO da rede Espetto Carioca, Leandro Souza, orientou seus franqueados para que criassem alternativas urgentes para levar os produtos até o consumidor. Segundo ele, de suas 32 unidades, que só atendiam presencialmente, seis operam delivery e logo outras 15 lojas começarão a fazer o mesmo. Uma delas, em Copacabana, aproveitou a redução do trânsito para improvisar um drive-thru na rua mesmo. “Nossas lojas não foram concebidas para isso, os espaços não permitem. Mas sem trânsito, foi possível implantar nessa unidade”, diz.

A saída do varejo está na entrega. 2

CRIATIVIDADE

José Carlos Semenzato, CEO da SMZTO Holding, detentora de marcas como Oakberry, Instituto Embelleze, Espaçolaser, entende que o momento exige criatividade e flexibilidade na busca por alternativas que levem o cliente a perder o medo de comprar. “Esse é o caminho. Em uma de nossas franquias demos descontos de 40% a 60% para serviços. Apesar de não ser necessidade primária, houve muita adesão em meio a essa crise. Cada um tem de procurar onde estão as oportunidades”.

O empresário também aconselha as empresas a se digitalizarem e tentarem, a todo custo, não demitir funcionários. “O governo dá espaço para parcelar tributos, bancos oferecem capital de giro, tem como renegociar com fornecedores. Faça tudo para poder honrar a folha de pagamento”, afirmoa Semenzato, que comanda um grupo com 2 mil franqueados, gera 30 mil empregos e faturou R$ 2,4 bilhões no ano passado.

O vice-presidente da Associação Brasileira de Franchising (ABF), Antonio Bento Moreira Leite, garante que a entidade está muito preocupada porque os franqueados, motor econômico do segmento, são na maioria micro e pequenos. “É difícil para eles sobreviverem por um período superior a 30 dias, por causa da limitação de caixa”. A entidade está negociando com o governo alternativas para levantar recursos que ajudem as empresas do setor. “As medidas tomadas nos parecem aquém da necessidade do pequeno empreendedor. O governo tem papel importante no fomento a linhas de crédito com custos compatíveis a esses empresários”.

A saída do varejo está na entrega. 3

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

INCENTIVO LÚDICO

São atribuições da Psicopedagogia acreditar na capacidade e promover situações nas quais o sujeito possa aprender de diversas maneirasIncentivo lúdico

Em Psicopedagogia, temos como objeto de estudo a aprendizagem, por isso o atendimento está centrado no sujeito que aprende e a interface escolar torna-se o foco, já que é no espaço escolar que ocorre a sistematização do conhecimento. Por isso, inclui-se no atendimento o uso de elementos escolares, não apenas, mas também é necessário atentar-se para outras aprendizagens em que o sujeito é capaz de obter êxito, pois para ir do não aprender ao aprender, é recomendável que comecemos por aquilo que o sujeito é capaz de aprender, pois acreditamos na capacidade que todos temos de aprender com as diversas nuances do que podemos pensar sobre o aprender. É premissa da Psicopedagogia acreditar na capacidade de aprender daquele que está diante de nós.

É função do psicopedagogo promover situações onde o sujeito possa aprender. Há diversos modos de se promover aprendizagem. Ilustraremos brevemente alguns destes, para que o leitor possa consigo mesmo pensar outras situações possíveis de se criar oportunidade de aprendizagem. Um dos caminhos possíveis é por meio de perguntas que provoquem novas formas de pensar, ou mesmo propondo desafios que estejam ao alcance do sujeito superá-los.

Também podemos propor formas diferentes de fazer determinadas atividades, para as quais ele não se reconheça capaz, mas para que essas tarefas sejam possíveis de serem realizadas é preciso pensarem cada sujeito que tem diante de si, pois se tratando de desenvolvimento humano sabe-se que o que dá certo com um outro pode não se identificar a outrem e vice-versa. Por isso, o que usar, como usar, tem que ser pensado para cada um que está diante de nós.

Contudo, é importante afirmar que o melhor instrumento de avaliação psicopedagógica é o próprio psicopedagogo, ou seja, como ele se posiciona diante do outro é que vai possibilitar um vínculo onde seja possível ressignificar a sua aprendizagem, que é antes subjetiva, e o modo como essa subjetividade opera no sujeito (aquilo que está inscrito em mim) é que vai permitir ou não uma interação saudável com a objetividade (a sistematização esperada por todos os indivíduos inseridos na sociedade), encontrando o equilíbrio necessário para os processos de assimilação e acomodação, pré-requisitos para a aprendizagem escolar.

Em se tratando da temática proposta neste texto, a técnica “Hora do Jogo” é uma das mais importantes destas que comumente usamos, pois ali você vê o sujeito livremente operando com suas capacidades que estão disponíveis. Ali também se observam o vínculo que está se fazendo com o psicopedagogo e os vínculos já construídos anteriormente, pois estes aparecem na cena explícita ou implicitamente.

Os aprendentes atendidos em Psicopedagogia, em sua maioria, podem apresentar um déficit lúdico que, em algumas situações, está ancorado o prejuízo na aprendizagem. E, por meio da “Hora do Jogo”‘, podemos perceber a capacidade de jogar, pois esse recurso nos mostra com quais recursos ele conta para aprender. Por isso, há que se cuidar da proposição do jogo e dos elementos contidos nele.

No decorrer da aplicação da técnica percebem-se os momentos estabelecidos, observando: inicialmente como classifica o conteúdo da caixa que nos mostra, como é a interação entre sujeito e objeto de conhecimento quando ele experimenta seu funcionamento, manipula o material comas mãos ou por meio do olhar, avalia o material que tem para determinar o uso do que poderá fazer, que tipo de material escolhe para si. Seguidamente a observação está na exploração e seleção do material, usa o que está ao alcance das mãos sem se importar com o restante, faz brincadeira criativa ou repete o convencional, há planejamento e concentração na brincadeira, aparecem na brincadeira situações de desmanchar, separar, dividir, cortar ou reunir, juntar, construir, colar, usa o corpo na medida em que precisa, movimenta, troca de lugar. E, finalizando, a técnica dá-se no momento de integração e apropriação quando se observa se põe ou não sentido no que fez, estrutura uma brincadeira com início, meio e fim; dá explicações do que está fazendo durante a brincadeira.

A interpretação que o psicopedagogo fará da aplicação da técnica deve ter como ponto de partida principalmente o modo como o sujeito se envolveu na brincadeira, seguido pelo relato proferido, pois é dele o jogo e não podemos inferir senão a partir dele próprio.

Incentivo lúdico. 2

INTERDISCIPLINAR

Como a Psicopedagogia é uma área de conhecimento de natureza interdisciplinar, seja um instrumento de avaliação ou uma técnica aplicada não vão conseguir descrever isoladamente a situação de aprendizagem na qual o sujeito esteja envolvido, a esta devem se somar outros recursos a serem propostos pelo psicopedagogo e, quando necessário, ampliar a visão interdisciplinar, convocando outros profissionais nessa intersecção educação e saúde para que haja integração entre todo e parte, pois muitas vezes a precisão da avaliação psicopedagógica é marcada por essa capacidade de dialogar com outros profissionais, na busca de uma compreensão adequada das profissionais teremos como referência para nossos estudos, pois quanto mais o conhecimento se propaga e globaliza tanto mais aparecerá uma vastidão de opções teóricas, e a excelência profissional é saber quem eu sou, quem está comigo, com quem estou e aonde quero chegar. Para tanto, definir o que embasa minha atuação profissional é pressuposto para a competência profissional, e essa escolha tem que estar baseada na nossa própria área de conhecimento, ou seja, é preciso que habite em mim um outro psicopedagogo que me antecedeu, pois assim, ao lidar com as áreas de fronteiras de conhecimento com a Psicopedagogia, estará estruturado em mim qual é o meu lugar nesse cenário. Sem dúvida, as áreas de conhecimento nos complementam, ampliam nossos conhecimentos, mas não podem ser o cerne de nossa apropriação teórica, senão estamos nos desviando do caminho a ser seguido. É preciso trazer em si a pergunta: qual é o meu lugar? Para que não fiquemos perdidos na mediocridade de um mercado que muitas vezes quer nos confundir para que não tenhamos apropriação de nosso fazer, hoje vemos uma necessidade tola de nomeação que saiu da qualificação para a quantificação de títulos obtidos, sabe-se lá a qual custo. Quanto mais o mundo se torna confuso, mais clareza precisamos ter de quem somos e o que fazemos; único meio de fortalecer nossa identidade profissional, temos que reconhecê-la a cada instante diante de nós mesmos em primeiro lugar e diante do outro que se coloca junto de nós.

Por isso, a obrigatoriedade de leituras constantes, de formação continuada, da supervisão que nos ampara e abre outras possibilidades que de tão perto muitas vezes não conseguimos ver, enfim cuidar de nós, da nossa formação, da nossa identidade profissional e do nosso fazer psicopedagógico, para que possamos ser capazes de promover a transformação desse outro que se coloca diante de nós.

Incentivo lúdico. 3

UMA BREVE REVISÃO

Vários autores como Winnicott (1975), Pain (1985), Fernández (1990, 2001), Huizinga (2001), dentre outros, atribuem ao brincar da criança uma potência e uma grande oportunidade para conhecer e compreender seu modo de pensar e agir. Conhecer os singulares e surpreendentes caminhos tecidos pela criança na magia do brincar se constitui em imperativo para quem ocupa uma função mediadora junto a elas.

A Psicopedagogia, cuja função é mediar o processo de aprendizagem de quem se acha impossibilitado de fazê-lo e resgatar o prazer de aprender, encontra na ação do brincar os principais fundamentos para a sua prática emancipatória com crianças, pois não há como fazer Psicopedagogia fora da perspectiva lúdica, já que lúdico implica construção, autoria e prazer. É na construção lúdica realizada pela criança, no ato dinâmico do brincar, que colhemos significativos elementos para conhecer e compreender o funcionamento cognitivo do sujeito e a partir dele realizar a devida intervenção psicopedagógica.

O brincar e o aprender apresentam estruturas e dinâmicas similares. Para melhor compreender os processos de aprendizagem humana convém compreender os processos pelos quais o sujeito brinca, pois “o saber se constrói fazendo próprio o conhecimento do outro, e a operação de fazer próprio o conhecimento do outro só se pode fazer jogando” (Fernández, 1990, p. 165).

Pain (1985) considera que a atividade lúdica inclui os três aspectos da função semiótica, que se inicia aos dois anos de idade, quando construído o mundo prático, sendo o jogo, a imitação e a linguagem os três aspectos dessa função. O jogo é uma atividade predominantemente assimilativa, por meio da qual o sujeito alude a um objeto, propriedade ou ação ausentes, por meio de um objeto presente. A imitação, no entanto, é uma ação postergada, internalizada como imagem e que permite à criança realizar ações simbólicas sobre objetos simbólicos, que têm por base o seu próprio corpo (Pain, 1985).

Para a autora, muito antes de ser capaz de desenhar e expressar graficamente, a criança é capaz de imitar. A compreensão em forma de imitação aparece precocemente na vida infantil, sobretudo quando ela empresta seu próprio corpo para construir uma cena lúdica. É no jogo que a criança combina e integra propriedades, “numa alquimia peculiar na qual o impossível pode ser experimentado” (Pain, 1985, p. 50).

Pain (1985) diz que a atividade lúdica nos dá informações sobre os esquemas que organizam e integram o conhecimento num nível representativo, considerando importante para o diagnóstico do problema de aprendizagem observar como o paciente joga. Estar atentos à dinâmica utilizada pela criança e os recursos por ela utilizados é indispensável na compreensão de sua modalidade de aprender.

Incentivo lúdico. 4

ESTRATÉGIA

A “Hora do Jogo”‘ como estratégia psicopedagógica para avaliação e diagnóstico está ancorada no seguinte, para Pain (1985): diagnosticar o processo de construção do simbólico; descobrir como a criança brinca; investigar o momento da ruptura na aprendizagem deficitária e o nível de sua gravidade e proporcionar a atividade lúdica num canal de aprendizagem.

Para Fernández (1990), os objetivos da “Hora de Jogo” são: compreender processos que podem ter levado à gestação de uma patologia no aprender; compreender a inter-relação, inteligência-desejo-corporeidade e o processo de construção do símbolo; observar os processos de assimilação-acomodação e seus equilíbrios, desequilíbrios e compensações; ajudar a criança a recuperar a autonomia e o prazer perdido de aprender. As autoras concordam que um dos objetivos centrais da “Hora do Jogo” é observar a aptidão da criança para criar, refletir, imaginar e produzir. A partir disso, é possível afirmar que o foco de atenção será sempre a potência do sujeito e jamais a fratura do seu aprender, geralmente transitórias e pontuais.

Em relação ao tempo e espaço de jogo, Huizinga (2001) diz que o jogo é limitado no tempo e no espaço. Mas a limitação do espaço é ainda mais flagrante que a limitação no tempo, pois todo o jogo se processa e existe no interior de um campo previamente delimitado, seja ele de maneira materializada ou imaginária. No brincar, a criança vive uma realidade de autoria. Por isso mesmo tem domínio sobre o tempo e espaço dessa ação.

Na Psicopedagogia tem especial importância a narrativa feita a partir do que foi construído pelo sujeito. Leboci e Diatkine (1985) dizem que a criança que não brinca não se aventura em algo novo. “Se, ao contrário, é capaz de brincar, de fantasiar, de sonhar, está revelando ter aceito o desafio de crescimento, a possibilidade de errar, de tentar e arriscar para progredir e evoluir” (p. 7).

Não existe um pensamento inteligente e outro simbólico. Ambos estão entrelaçados como fios, perfazendo uma trama na qual ambos se completam, e na falta de um deles não se constrói a trama. Nesse sentido, a capacidade de organização lógica e a significação simbólica acontecem concomitantemente e “o simbolismo não pode manifestar-se independentemente da intelecção, porque esta lhe dá a possibilidade de congruência” (Fernández, 1990, p. 219). Também para Pain (1996, p. 66), fantasia e conhecimento se constroem de modos diferentes e têm funções distintas. A questão é uni-los sem que formem uma patologia. Para isso, é necessário que funcionem independentemente, que cada um faça o seu trabalho e que se unam fluidamente no pensamento.

Nessa direção é possível dizer que o brincar, compreendido como processo de transformação do objeto (real ou imaginário) e caracterizado sempre por alguma forma de construção, resulta em aprendizagem e conhecimento, pois “conhecimento é essencialmente construção· (Piaget, 1996, p. 409). O mesmo autor, em relação à inteligência nos seus aspectos simbólicos e afetivos, diz que a inteligência e afetividade “são, pois, inseparáveis embora distintas. Assim, não se poderia raciocinar, inclusive em matemática pura, sem vivenciar sentimentos e que, por outro lado, não existem afeições sem um mínimo de compreensão” (Piaget, 1975, p. 33).

Sobre o brincar no campo psicopedagógico é possível dizer com Winnicott (1975) que “é no brincar, e talvez apenas no brincar, que a criança ou o adulto fruem sua liberdade de criação” (p. 79), construindo-se como sujeito aprendente.

Incentivo lúdico. 5

OUTROS OLHARES

A SALA DE AULA É NA COZINHA

Com os portões fechados, escolas correm para ensinar a distância, a garotada tenta se adaptar e os pais procuram entender seu papel nisso tudo

Há pelo menos dois séculos, quando emergiu o modelo de escola que persiste até hoje, a rotina da criançada vem sendo muito parecida: acordar, tomar café, ir para o colégio. Mas aí a devastação provocada mundo afora pelo coronavírus trouxe ao vocábulo cotidiano o isolamento social. E os portões tiveram de se fechar (por força da lei, em grande parte dos casos). Estima-se que mais da metade da população estudantil do planeta esteja longe das carteiras escolares e, em um ciclo que ninguém conseguiria prever semanas atrás, começou a ter aulas em casa, como acontecia no passado remoto. Estes tempos ultra­ conectados, porém, tornam tudo diferente – e uma parcela da turma em quarentena segue a toda no universo do ensino on-line. No Brasil, o movimento é mais acentuado entre escolas particulares, que já tateavam a educação pelas redes, mas também está presente em diversas públicas, que correm para tentar amenizar os estragos do vírus no ano letivo. Ao todo, pelo menos 38 milhões de estudantes se encontram hoje reclusos, urna reviravolta para professores, pais e alunos, que precisam se adaptar às pressas.

Transformar a casa em escola demanda vários tipos de ajuste, a começar pelo mais básico: o rearranjo das funções dos cômodos e a preservação do silêncio no lar. O professor Leandro Freitas viu-se às voltas com o desafio de ensinar semelhança de triângulos a alunos do 8º ano do ensino fundamental sem o uso de sua preciosa lousa nem o contato visual com a turma. “Quando olhei para a parede de azulejos da copa, branquinha, pensei: é aqui que vai ser a partir de agora”, conta o matemático, que engatou mais seis aulas até agora, visualizadas em tempo real por sua classe do Colégio Liessin, no Rio de Janeiro. A escola, a exemplo de outras, está preservando na medida do possível a rotina pré-vírus, com as aulas dadas nos mesmíssimos horários e até intervalo para o recreio. Tudo transcorre no ambiente do Google Classroom, urna das plataformas já adotadas por vários colégios para reforçar os estudos no ambiente virtual. Agora, ela e outras, como a Plurall e a Descomplica, passaram a ser, em muitos casos, o único canal pelo qual os mestres se comunicam com a garotada, propõem exercícios à tropa confinada e corrigem a lição.

A nova realidade impõe a todas as partes envolvidas altas doses de disciplina. “Na primeira semana observamos que 20% dos alunos faltaram. Hoje as salas estão completas”, festeja Célia Saada, diretora do Liessin. Concentração na frente do computador, com um monte de pequenos acontecimentos no entorno (uma TV ligada, um telefone que toca), é também um aprendizado. “Lutar contra a distração em casa não é fácil”, reconhece Artur Leal, do 2º ano do ensino médio do colégio Anglo, de São Paulo, que adota a Plurall. A escola é uma das que estão testando ensinar em tempo real. Outras, como a Luminova, disponibilizam as aulas gravadas e deixam os professores de plantão no exato período em que estariam ministrando a lição entre quatro paredes. Artur sente falta do que só a educação ao vivo e em cores oferece: interação em grau máximo. Justamente por isso especialistas sugerem que os estudantes abusem de grupos de WhatsApp para discutir a matéria (ocupar a tela com Candy Crush não vale). Mas, dica das dicas, nada de ficar ligado nas redes sociais, que naturalmente minam a atenção

Os tropeços iniciais neste admirável mundo novo já trouxeram algum aprendizado. “No começo, a plataforma saía do ar e a carga de tarefas era tanta que pedimos à escola que desse uma desacelerada nesta fase de adaptação”, diz Fabíola Kempis, representante de um grupo de pais da Escola Luminova, de São Paulo. A ficha de que, afinal, não são férias está caindo aos poucos, e professores relatam quanto têm se esmerado para manter o ânimo da meninada. “Tomo cuidado redobrado com as lições gravadas. Quero que sejam curtas e ao mesmo tempo interessantes”, diz o professor de história Vinícius de Paula. Sem saberem por quanto tempo se estenderá o confinamento, os colégios já começam a debater formas de avaliar a turma em casa. Existe um consenso de que a prova tradicional não se amolda à nova realidade. “Temos de avaliar a capacidade de dissertação e pesquisa do aluno, desenvolvendo métodos que evitem a cola”, acredita Vinicius.

Os processos estão sendo lapidados pelas escolas ao mesmo tempo que as aulas a distância se desenrolam – isso quando acontecem. Muitas instituições não estavam preparadas para o sacolejo e agora aceleram para abraçar o ensino on-line e não parar. “Recebemos um monte de telefonemas diários de diretores em busca de um colete salva-vidas, querendo implantar a jato o ensino a distância”, relata Marco Fisbhen, CEO do Descomplica, que prevê um aumento de 50%nas próximas semanas. Nas escolas públicas, entram em jogo questões ainda mais básicas. Para que alunos sem acesso à banda larga não fiquem de fora, a busca é por conteúdo que possa ser baixado e visto off-line. “Estamos neste momento treinando professores para que aprendam a mexer na plataforma que vamos adotar”, diz Pedro Fernandes, secretário estadual de Educação do Rio de Janeiro. Em São Paulo, o material digital que seria usado para reforço é adaptado para manter as aulas (a distância, claro) nos colégios do estado a partir de 22 de abril.

A temporada em casa tem o potencial de afiar nas crianças algumas habilidades deste século XXI, como independência para percorrer sozinhas os caminhos do conhecimento, senso de cooperação em meio à dificuldade e resiliência. No material que disponibilizou aos alunos, a escola Eleva, no Rio e em Brasília, curiosamente incluiu aplicativos de ioga e meditação. A ideia é manter o espírito apaziguado e seguir firme. A dona de casa Rosângela Neufeld vê germinar sob seu teto um interessante movimento de camaradagem: os filhos, Eric, 7 anos, Raul, 10, e Cássia, 13, estão começando a ajudar uns aos outros, ainda que com as tensões esperadas pelo convívio em excesso. Outro dia, a mais velha prestou providencial socorro ao caçula na lição. ”Até eu estou reaprendendo a estudar”, diz a mãe. Não estamos todos?

PRESENTE. SÓ QUE NO QUARTO

Especialistas dão dicas para que a multidão de alunos em quarentena tire o melhor proveito das aulas on-line

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 9 DE ABRIL

É MAIS TARDE DO QUE VOCÊ IMAGINA

… Dize-nos quando sucederão estas coisas e que sinal haverá da tua vinda e da consumação do século (Mateus 24.3b).

O futuro chegou. Os prognósticos feitos ontem sobre o futuro são a realidade do nosso hoje. O amanhã é um tempo desconhecido pelo homem, mas conhecido por Deus. O Senhor não só conhece o amanhã, como disseca suas entranhas. Em seu sermão profético, Jesus apontou para os sinais que precederão a segunda vinda e o fim do mundo. O primeiro sinal da segunda vinda de Cristo é a proliferação do engano religioso. Jesus disse que o tempo do fim seria caracterizado pelo engano religioso. Multiplicar-se-iam os falsos mestres e as falsas doutrinas. Os falsos mestres, inspirados pelo espírito da iniquidade, que já opera no mundo, realizariam milagres e com isso enganariam aqueles que não têm o selo de Deus. O tempo do fim seria não apenas caracterizado pela disseminação do erro, mas também pela intolerância com a verdade. As pessoas não suportarão a sã doutrina; ao contrário, sentirão comichões nos ouvidos, buscando avidamente as falsas promessas de um falso evangelho. Esse prognóstico futuro é o nosso presente. Essa é a realidade indisfarçável dos nossos dias. É mais tarde do que podemos imaginar. Você já está preparado para aquele glorioso dia? Já entregou seu coração a Jesus? Hoje é o dia oportuno. Hoje é o dia da salvação!

GESTÃO E CARREIRA

MUITO PRAZER, FAMÍLIA OSÉ

Produtos imorais, obscenos, indecentes e profanos serão desclassificados.” A Consumer Technology Association (CTA) usou desse argumento para banir o vibrador Osé da CES, uma das maiores feiras de tecnologia do mundo. Quando? No ano passado. Sim, em pleno 2019! A grita foi geral. Acusada de misógina e sexista, três meses depois a CTA voltou atrás e reconheceu o erro de sua decisão. Conceitos revistos (ainda bem!), em janeiro último, Lora Haddock, fundadora e CEO da sextech desenvolvedora do sex toy, voltou à CES e saiu de lá com o CES Honoree Innovation Award, por suas novas criações. Criados em parceria com o Colégio de Engenharia, da Universidade Estadual do Oregon, os novos integrantes da família Osé se valem da microrrobótica para potencializar o prazer feminino. Desenhado para acompanhar a anatomia do organismo das mulheres, o Onda (à direita) simula o movimento dos dedos sobre o ponto G. Menorzinho, o Baci (à esquerda) promete orgasmos clitorianos, ao imitar a movimentação dos lábios e da língua. “Não é apenas sobre tecnologia. Não é apenas sobre orgasmo”, diz Lora. “É sobre como as experiências sexuais aprimoradas pela tecnologia podem proporcionar bem-estar, melhorando a qualidade do sono, reduzindo o estresse e elevando o humor.”

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A PIORA DA DEPRESSÃO COM OS ANTIDEPRESSIVOS

Estudo que acompanhou pacientes deprimidos durante nove anos mostra uma perspectiva sombria para o uso de antidepressivos

Um novo estudo testou o uso de antidepressivos com uma estratégia diferente, de acompanhar a evolução do tratamento a longo prazo e não somente por um ou dois anos, como é o usual. Dessa. vez, durante nove anos pessoas deprimidas foram acompanhadas detalhadamente nessa pesquisa. Um grupo de pacientes deprimidos tomou antidepressivos. Outro grupo não tomou nenhuma medicação. O resultado surpreendente mostrou que o grupo que não tomou qualquer remédio, nove anos mais tarde, estava melhor do que aquele que tinha tomado medicação. Os dados desse estudo sugerem que tomar antidepressivos causa mais danos do que nenhuma medicação ao longo do tempo, uma conclusão absolutamente chocante, que nos faz repensar a validade da prescrição dessa categoria tão popular de medicamentos.

Esses efeitos negativos podem ser resultado de muitos fatores, como por exemplo, os efeitos da retirada da medicação. Os antidepressivos podem mudar permanentemente a forma como os neurotransmissores atuam no cérebro, e estamos apenas começando a arranhar a superfície dos complexos processos de ajuste neuroquímico que ocorrem com seu uso.

Além disso, a maioria dos efeitos dos antidepressivos é resultado do efeito placebo. Muita gente não sabe, mas estudos sobre o efeito placebo com uso de medicação antidepressiva mostram que a esmagadora maioria do efeito desses medicamentos ocorre da mesma forma se os pacientes tomarem um comprimido de farinha idêntico ao medicamento, sem saber que se trata de farinha.  Uma metanálise das publicações que usaram placebo e medicamentos indicou que entre 90% e 95% dos efeitos antidepressivos são iguais no grupo que toma farinha, a não ser nos 5% dos casos mais graves, nos quais os antidepressivos têm efeito maior.

Os resultados desse estudo mostram que o tratamento que inclui medicação piorou a depressão ao longo do tempo, e, até que os benefícios e danos sejam mais bem compreendidos, apontam para a prescrição de medicamento antidepressivo somente se benefícios a curto prazo, por exemplo redução do risco de suicídio, têm maior probabilidade de superar consequências remotas negativas.

Os benefícios a curto prazo são bem conhecidos – eles podem ajudar pessoas em crise. Contudo, os estudos que testam os efeitos de antidepressivos usualmente seguem os pacientes por curtos períodos, enquanto esse estudo acompanhou nove anos e incluiu dados de 15 mil pessoas nos EUA. Nenhuma das pessoas estava em hospital. Cerca de 10% experimentaram episódio depressivo maior ao longo de um ano. Cerca de 38% das pessoas não receberam tratamento para sua depressão, 4% tiveram tratamento sem antidepressivos e 13% receberam tratamento que incluía medicação.

A medicação estava associada a uma evolução pior da depressão a longo prazo. Esse padrão sugere possíveis efeitos “istrogênicos”, (ou seja, causados pelo próprio tratamento) a longo prazo para os antidepressivos. Medicações antidepressivas podem recrutar processos que se opõem, e eventualmente superam os benefícios a longo prazo. Isso resulta em perda de eficácia, resistência ao tratamento, efeitos paradoxais como suicídio, síndromes de retirada, talvez pela perturbação do complexo controle homeostático dos neurotransmissores monoaminérgicos no cérebro humano. Precisamos de mais cautela com a crença de que estamos trazendo benefícios ao indicar medicamentos antidepressivos, e é necessário estímulo à procura de tratamentos alternativos que são eficazes, como tratamento através da psicoterapia, e mudanças no estilo de vida, como a busca de novos padrões de exercícios físicos, sono e nutrição.

MARCO CALLEGARO – é psicólogo, mestre em Neurociências e Comportamento, diretor do Instituto Catarinense de Terapia Cognitiva (ICTC) e do Instituto Paranaense de Terapia Cognitiva (IPTC). Autor do livro premiado O Novo Inconsciente · como a Terapia Cognitiva e as Neurociências Revolucionaram o Modelo do Processamento Mental (Artmed, 2011).

OUTROS OLHARES

A DECORAÇÃO VIROU ACADEMIA

A regra deste tempo de isolamento é manter a boa forma – agora com a ajuda de vídeos e muita criatividade

A brusca freada na vida imposta pela pandemia, essa que nos pôs compulsoriamente entre quatro paredes, trouxe naturalmente um olhar um tanto retrô, de volta ao mundo como costumava ser, e uma preocupação: como manter o corpo são e a mente sã? A união das duas pontas, a da nostalgia e a dos cuidados físicos, fez renascer nas redes sociais os exercícios pela televisão que Jane Fonda apresentava ao mundo, nos anos 1980, ao inaugurar a febre global do fitness. A mensagem: se não é para sair de casa, e não é mesmo, movimente-se. “Esse período de privação faz com que o sistema imunológico fique mais vulnerável”, diz o professor de educação física Marcio Atalla, idealizador e produtor do documentário Vida em Movimento. “Por isso é crucial seguir a recomendação da OMS de permanente atividade corporal.” A Associação Americana de Cardiologia sugere a todo adulto duas horas e meia por semana de movimentação aeróbica, de intensidade moderada.

O nome do jogo, segundo a educadora física Adriana Pinto Molina, de São Paulo, é “criatividade”. Ou seja: tentar usar o equipamento doméstico mais banal como aparelho de ginástica – pode ser a cadeira da sala, a parede do quarto, o chão, e pouca coisa mais. Vale contar, como guia, com a ajuda dos vídeos postados na internet. É o que tem feito o preparador físico paranaense Everton Oliveira, responsável pelo condicionamento da dona do cinturão do UFC, Amanda Nunes. No Instagram (@evertonvvoliveira), ele mostra ideias simples. “Não se trata de formar atletas, claro, mas de oferecer bem-estar”, diz. A carioca Chris Igreja, instrutora de ioga, também usa sua conta no Instagram (@chrisigreja) para divulgar as aulas diárias, das 9 às 10 da manhã, de segunda a sexta, que decidiu ministrar por meio da plataforma Zoom. Se a necessidade faz o homem, tome-se o exemplo do alemão Joseph Pilates (1883-1967), criador do método de fortalecimento muscular que leva seu nome. Foi em um período de reclusão na Ilha de Man, durante a I Guerra, que Pilates desenvolveu seu sistema de exercícios.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 8 DE ABRIL

MANDAMENTOS RELIGIOSOS E MORAIS

Então, falou Deus todas estas palavras: Eu sou o SENHOR, teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão (Êxodo 20.1,2).

Deus deu a Moisés duas tábuas da lei, contendo dez mandamentos. Os quatro primeiros mandamentos da lei de Deus, contidos na primeira tábua, tratam dos mandamentos religiosos. Falam sobre nossa relação com Deus. Não há vários deuses. Há um só Deus, mas três Pessoas distintas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Não podemos ter outros deuses, não podemos fazer nem adorar imagens de escultura que representem a divindade, não podemos escarnecer de seu nome, nem nos omitir em dedicarmos um dia na semana para estreitarmos a comunhão com ele. Os seis últimos mandamentos, da segunda tábua, tratam dos mandamentos morais e falam sobre nossa relação com o próximo. Somos exortados a honrarmos pai e mãe, a respeitarmos a vida, a honra, os bens e a reputação do próximo. Além disso, somos exortados a não cobiçarmos em nosso coração o que é do próximo. Os mandamentos da lei de Deus se referem a coisas objetivas e também subjetivas. Deus vê não apenas nossas obras, mas também ouve nossas palavras. Deus conhece não apenas nossas ações, mas também sonda nossas motivações. A lei de Deus é como uma tomografia computadorizada que faz uma leitura do nosso interior. Embora não possamos ser salvos pelos mandamentos, não estamos dispensados de observá-los. Essa lei deve reger nossa vida, nossa conduta e nossa postura tanto diante de Deus quanto diante dos homens. Jesus sintetizou toda a lei num único mandamento: amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos.

GESTÃO E CARREIRA

SEJAM BEM-VINDAS, CRIANÇAS, A UM NOVO MODELO DE ESCOLA

Com metas agressivas, Alicerce Educação pretende alcançar 4 milhões de alunos em cinco anos – aulas contemplam atividades socioemocionais e são baseadas nos métodos mais modernos do mundo

São 14h 30 de uma sexta-feira e, assim como em todos os dias da semana (antes do novo coronavírus, claro), um grupo de alunos se prepara para uma sessão de mindfulness, técnica de meditação que ajuda a aumentar a capacidade de concentração. A atividade acontece no início dos dois turnos de aulas do Alicerce Educação, que atua como um reforço educacional para crianças e adolescentes de 6 a 17 anos, de famílias das classes C e D. Os alunos podem frequentar o local de três a cinco vezes por semana, a um custo que varia de R$ 149 a R$ 199 por mês. Para chegar a mensalidades tão baixas, a instituição aposta em alguns pilares. Em vez de construir sedes, adapta imóveis disponíveis para locação na periferia, como a sobreloja de um estabelecimento comercial, por exemplo. Além disso, adquire mesas e cadeiras em uma fábrica a baixo custo. Também não há recepção, nem aparelhos supermodernos.

Por lá, tudo é bem diferente de um ambiente escolar tradicional. As salas de aula com carteiras enfileiradas dão lugar a espaços de aprendizagem com mesas para cerca de seis alunos, que são divididos por nível de dificuldade, seguindo o conceito peer learning, algo como educação colaborativa. As paredes são coloridas e não é raro encontrar peças feitas pelos alunos espalhadas pelo ambiente, como simulações de gráficos criados para a aula de matemática. Ou mensagens positivas para o dia em um cartaz pendurado na parede, que dispõe de envelopes com recados sobre temas como gentileza, amizade, amor e paciência.

A ideia é oferecer um ensino completo, olhando os alunos de forma integral. Isso quer dizer disponibilizar aulas de português, matemática, inglês e programação, mas também que abordem competências comportamentais, chamadas pela instituição de habilidades para a vida. Os temas para essas aulas foram definidos tendo como base o The Collaborative for Academic, Social, and Emotional Learning (Casel), uma das principais autoridades no avanço da aprendizagem socioemocional (SEL), que já desenvolveu programas bem-sucedidos em escolas americanas de regiões de alta vulnerabilidade social. Aliás, todo o projeto pedagógico tem como base as mais modernas técnicas de educação com o intuito de transformar o ensino no Brasil. O último levantamento do Programme for International Student Assessment (Pisa) mostra que 68% dos estudantes brasileiros de 15 anos não sabem o básico de matemática; 55,3% apresentam baixo desempenho em ciência e 50,1% são fracos em leitura. “As crianças e os adolescentes não estão aprendendo, e isso traz sequelas enormes – sociais e profissionais – para a população”, diz Mônica Weinstein, vice-presidente de aprendizagem e responsável pelo projeto pedagógico do Alicerce. A pesquisadora global nas áreas de aprendizagem e cognição liderou o desenvolvimento dos métodos Todos Aprendem e Coruja, aplicados por Pearson, Avenues Schools e muitas escolas públicas de 2013 a 2018. Segundo Mônica, o primeiro passo para mudar a realidade brasileira é ter em mente que a educação e a área social são inseparáveis. “Ou você compra a ideia de uma criança integralmente, ou não consegue ajudar”, afirma.

O idealizador do projeto, Paulo Nogueira Batista, advogado que fez carreira no mercado financeiro em instituições como Itaú BBA, Goldman Sachs e GP Investimentos, comprovou isso indo a campo. “Tinha como ideia inicial criar uma ONG para adolescentes a partir de 13 anos”, lembra. Segundo ele, o objetivo era melhorar o nível médio de educação do brasileiro e impactar a produtividade. “Como empreendedor, sabia das dificuldades de obter mão de obra qualificada”, diz. O negócio começou a se transformar no que é hoje nas primeiras visitas à periferia para testar o modelo. Apesar de os pais gostarem muito da ideia, algumas mães questionaram o que fariam com o filho mais novo. A questão não era apenas melhorar a educação de base para empregabilidade, havia problemas mais profundos. “Conhecemos a dor do contraturno. Mães que não têm com quem deixar seus filhos para trabalhar e que, muitas vezes, os deixam sob a responsabilidade do mais velho.” Foi aí que o projeto ganhou novos contornos. “O desafio aumentou. Não estávamos mais falando apenas de um programa de aceleração educacional pré-empregabilidade e, sim, de toda uma etapa anterior de desenvolvimento integral humano”, diz Paulo.

Para estruturar o Alicerce, Paulo visitou países como China e Estados Unidos, que são referência em modelos de after school, o tal período do contraturno. No país asiático, por exemplo, pelo menos 35% das crianças frequentam instituições como Tal Education e New Oriental, que oferecem serviços de reforço escolar. Nos EUA, a referência foi o Teach for America, que atua levando educação para bairros periféricos por meio de jovens de grandes universidades.

VISÃO INTEGRAL

Bruno Viegas, de 10 anos, chegou ao Alicerce com problemas socioemocionais, como irritabilidade e impulsividade. Apesar de ir muito bem em aulas como matemática e português, não conseguia controlar suas emoções e chegou a se cortar e ter alguns tiques nervosos. “Por um período o coloquei na terapia, mas não vi retorno. E como não podia arcar com a despesa, e no posto o atendimento é de apenas uma consulta por mês, busquei outras alternativas e cheguei ao Alicerce”, diz Andrea Viegas, mãe de Bruno. Em dois meses de aula, ela já viu melhoras no comportamento do filho e hoje tem mais tranquilidade para empreender. “Sei que ele está bem assistido”, diz. Com o auxílio de uma psicopedagoga, com quem Bruno pode conversar a hora que precisar, a mãe reforça que o filho está mais calmo e com vontade de ajudar os colegas. Hoje, é normal vê-lo sorrindo e interagindo com os colegas de forma mais afetuosa. “Ela [a psicoterapeuta] ajudou em meu desempenho familiar e emocional. Uma das coisas que me passou: sempre que quiser fazer algo ruim, apertar uma bolinha. Isso me deixa mais calmo”, diz Bruno. Além disso, ele gosta do método de ensino. “Na escola eu aprendo. Aqui sinto o conteúdo”, afirma.

A instituição, que tem hoje 49 unidades em bairros periféricos de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Paraná, e em torno de 2 mil alunos, tem metas agressivas – pretende atingir 4 milhões de crianças e adolescentes nos próximos cinco anos – e sócios de peso. “É nesse ponto que começamos, de fato, a impactar a educação no Brasil”, diz Paulo, que faz uma conta rápida para chegar a esse número. “O Brasil tem um total de 40 milhões de alunos em vulnerabilidade educacional, ou com performance abaixo da desejada, o que representa 93% da massa de alunos brasileiros, segundo estudo da McKinsey. Assim, alcançar 4 milhões significa atingir 10% desse universo, um impacto que gera um ciclo virtuoso de transformação social”, afirma.

Ao lado de Paulo nessa jornada estão Eduardo Mufarej, ex-sócio da gestora Tarpon, ex-CEO da Somos Educação e fundador do RenovaBR, grupo de capacitação de novas lideranças políticas criado em 2017; Jair Ribeiro, fundador da Parceiros da Educação, associação que reúne empresários que apoiam escolas públicas; e o apresentador e empresário Luciano Huck. “O Alicerce é uma solução escalável e sustentável para enfrentar os desafios da educação brasileira, com alto nível de crescimento”, afirma Jair. Até agora, o negócio já levantou R$ 32 milhões e conta com a parceria de 21 companhias, como Natura, Pão de Açúcar e Albert Einstein. Essas empresas podem oferecer bolsas aos alunos ou firmar parceria para a criação de unidades. O Einstein, por exemplo, está com um projeto em Paraisópolis em desenvolvimento.

Alice Gabriela Alves Moreira é uma das bolsistas. Aos 15 anos, e no segundo ano, chegou ao Alicerce com dificuldades em matemática e em português. “O ensino é muito diferente. Além de mais pacientes, eles usam jogos, vídeos e atividades práticas, o que ajuda muito no aprendizado”, diz. Segundo ela, um dos exercícios da aula de matemática, por exemplo, foi criar uma empresa, pensando em qual seria a forma de lucro. “Aqui, eles nos estimulam a crescer, testar nossos limites e nos mostram que podemos ser o que quisermos”, diz. Ao final da primeira avaliação, Alice apresentou melhoras significativas, e a sua média final em português foi uma das maiores de sua turma no colégio.

BASE PEDAGÓGICA

O diferencial do Alicerce, segundo Mônica Weinstein, é a personalização do ensino e da aprendizagem. “Colocamos o aluno no centro do processo”, diz. Para isso, todos que chegam ao Alicerce passam por um assessment, feito com o apoio da tecnologia, para avaliar o conhecimento em leitura, escrita e matemática e, assim, identificar qual será a trilha de aprendizagem. Há ainda uma avaliação sob o aspecto socioemocional e físico. Além disso, os pais preenchem um questionário e, por uma semana, os professores observam o comportamento do aluno. “Já houve casos de percebermos que a criança precisava de óculos”, diz Mônica. As avaliações são feitas a cada dois meses, segundo indicadores educacionais do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) e do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa). “Assim conseguimos montar turmas mais coesas e próximas do que precisam aprender e de que forma”, afirma. As salas recebem estudantes de 6 a 11 anos e de 12 a 17 anos, sem seguir as séries específicas. São as chamadas séries multisseriadas. Por lá, os professores, que são alunos universitários entre 18 e 28 anos e, na maior parte das vezes, de origem mais simples, têm autonomia para trabalhar, o que colabora com a absorção do conhecimento. Há um currículo básico, mas o docente pode escolher os métodos, os livros, o tipo de didática. Os líderes, como são chamados os professores no Alicerce, passam por um1 treinamento, claro, mas não voltado a metodologias, corno explica Mônica. “Minha preocupação é conscientizá-los de que o mais importante é entender como cada criança e adolescente aprende”, diz. Segundo ela, o mais importante é ensinar aprendizagem.

Para isso, ela se baseou nas mais modernas técnicas de aprendizado e educação do mundo. Um dos países de referência é o Canadá, que está entre os dez destaques do Pisa, e onde Mônica passou dois anos estudando as escolas públicas e a forma como o país entende a educação. “Lá, o desenvolvimento integral é corresponsabilidade da educação”, diz. Entre as práticas, Mônica destaca o conceito Universal Designer Learning (UDL), que consiste na elaboração de estratégias para acessibilidade de todos, tanto em termos físicos quanto de serviços, produtos e soluções educacionais. A ideia é que todos aprendam, sem nenhuma barreira. “Não é o mais fácil ou o que atinge mais pessoas, é o que todo mundo consegue entender e fazer”, diz. Outra é o ensino em camadas, com múltiplos sistemas de suporte.

Isso quer dizer ir para a sala de aula com, pelo menos, três maneiras de ensinar algo. “Cada pessoa aprende de forma diferente. Se não entendeu, não adianta ensinar do mesmo jeito. É preciso usar outros recursos”, afirma.

Aos 9 anos, Maria Luiza aprendeu de um jeito diferente: “Tinha muita dificuldade de entender as aulas de matemática no colégio, mas aqui consegui, pois eles explicam com calma e de várias maneiras”. Sua mãe, a cozinheira Kátia Maria da Silva, conheceu o Alicerce por meio de seu patrão e, em três meses, viu o impacto das aulas no desempenho da filha. Separada e sem ter onde deixar Maria Luiza, ela a levava todos os dias ao restaurante e mal tinha tempo – nem preparo – para ajudar a filha nas disciplinas. “Ela melhorou muito na escola e está mais independente. Sei, agora, que vai ter um futuro diferente do meu”, afirma. A ideia central do Alicerce é desenvolver competências que vão preparar as crianças e os adolescentes para desempenhar melhor em todos os aspectos – como pessoa, como profissional e como cidadão.

O ENSINO PELO MUNDO

Como o Brasil está em relação aos dez melhores países em educação, segundo o PISA

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

NÃO APRENDEMOS A APRENDER

Em geral não somos ensinados a analisar nossos processos cognitivos. Somos incentivados a repetir padrões e memorizar informações desconexas e que não fazem sentido

Nesta coluna vou contar o caso de duas Bárbaras. Ambas serviram de inspiração para meu trabalho e para minha vida. Influenciaram a forma como eu aprendo e como eu ensino a aprender. A canadense Barbara Arrowsmith nasceu com acentuadas assimetrias no corpo e deficiências cognitivas que dificultavam sua vida desde muito pequena: tinha dificuldade na fala, no raciocínio espacial, tinha deficiência visual, era incapaz de entender noções de causa e efeito, o que impossibilitava entender as informações verbais e os conceitos matemáticos. Conceitos simples como maior e menor ultrapassavam sua capacidade de compreensão.

Contou com sua ótima memória e capacidade de observação e entendimento de sinais não verbais para decorar volumes imensos de conteúdo e, assim, percorrer todo o caminho acadêmico que a levou até a formação em Educação. Foi quando se deparou com artigo científico sobre plasticidade cerebral. Decidiu que modificaria seu próprio cérebro começando a exercitar relações simbólicas.

Elaborou um plano de exercícios a partir do funcionamento do relógio de ponteiros. Quando começou a entender o sentido do relógio, acrescentou o ponteiro de segundos. Depois o de sexagésimos de segundo. Até que, em algumas semanas de trabalho exaustivo, estava lendo relógios com dez ponteiros muito mais rapidamente que qualquer pessoa. E paralelamente à aquisição da habilidade, Barbara percebeu que uma mudança muito mais profunda estava acontecendo. Ela começou a entender o que lia, e o que as pessoas diziam a ela

Ainda antes da plasticidade cerebral ser aceita de forma unânime pelos cientistas, Barbara abriu uma escola para tratar crianças com transtornos de aprendizagem, a partir dos exercícios que a ajudaram a superar as dificuldades, uma a uma. Pessoas viajam de diversos lugares do mundo para frequentar sua escola, com resultados transformadores. Quem assistir a uma emocionante palestra no TED verá uma mulher genial e com uma capacidade incrível de expressão, sem nenhum traço da deficiência que marcou as primeiras décadas de sua vida.

A outra Barbara nasceu nos Estados Unidos. Era uma criança saudável, extremamente tímida, ótima aluna em línguas, mas com enorme dificuldade em entender os conceitos lógico-abstratos. Em uma trajetória parecida com a de Arrowsmith, ela já estava graduada quando decidiu que tentaria superar seus bloqueios em matemática e ciências. Dedicou-se de maneira intensiva ao estudo dessas disciplinas, de forma a aproveitar ao máximo a vantagem que um cérebro mais maduro tem na aprendizagem: da metacognição. Assim como a Barbara canadense, ela observou, a partir de suas próprias dificuldades, a forma como aprendia melhor e desenvolveu técnicas eficazes de estudo, que hoje divide em livros, cursos e palestras. É professora na área de engenharia, título jamais sonhado por quem fugia do monstro indecifrável que a matemática era para ela.

Crianças, em geral, não são ensinadas a analisar seus próprios processos cognitivos. Não aprendem a aprender. São ensinados a repetir padrões e memorizar informações desconexas e que não fazem sentido para elas. Por isso muitas têm dificuldade em prestar atenção e todas – mesmo as mais atentas e com bom desempenho – acabam esquecendo a maior parte do conteúdo estudado logo após as provas.

Informações entregues sem relação emocional com a criança e que não são utilizadas na vida prática ou na formulação de raciocínio de forma constante são inevitavelmente deletadas do cérebro, que precisa do espaço para funções importantes. Esse fato, sozinho, se fosse considerado, já serviria para uma mudança radical em todo o sistema educacional. A realidade é que grande parte do tempo passado na escola – talvez a maior parte, dependendo da instituição – é simplesmente jogada fora. Apesar disso, elas sobrevivem ao sistema. As que vão bem, muitas vezes nem questionam. Mas as que não se adaptam, como as Barbaras, essas se revoltam. E é dessa revolta que nascem as melhores formas de ensinar e aprender.

As crianças que sofreram no período escolar se veem obrigadas a refletir sobre aquilo que facilita e aquilo que lhes dificulta a aprendizagem e acabam desenvolvendo uma autoconsciência que pode coloca-las em vantagem em diferentes áreas do conhecimento. São elas que trazem a possibilidade de um sistema mais eficaz de ensino, que desenvolva habilidades que ser