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Com a ajuda da tecnologia, terapeutas continuam atendendo pacientes – todos de alguma forma afetados pelos novos tempos de pandemia e isolamento.

Há aqueles que, com um longo histórico depressivo, não enxergam mais motivos para sair da cama ou tomar banho porque estão adiando que o mundo vai acabar. Há os ansiosos, prevendo transtornos como um improvável desabastecimento. Há os que estão aflitos porque, sem conseguir trabalhar, não sabem até quando terão dinheiro para pagar as despesas da casa. Há também alcoólatras enxugando garrafas após meses, anos, mantendo uma distância segura. Mas existe, por outro lado, um universo de pacientes enxergando aspectos positivos em meio à tragédia, encarando a situação de quarentena como uma chance de reduzir o ritmo acelerado da “vida normal” e se conectar com a família – o que é bom, mas também pode gerar ansiedade.

Assim como dentro de cada domicílio, no ponto cheio de taxistas sem serviço ou nas redes sociais, os assuntos dominantes nas sessões de análise, neste momento, são a disseminação da Covid-19 e os impactos causados no cotidiano das pessoas pelo isolamento domiciliar imposto como forma de frear essa ameaça. Nos últimos dias, procuramos terapeutas que atendem públicos distintos, para saber como a epidemia causada pelo novo coronavírus está se manifestando durante as consultas. Todos os profissionais com quem conversamos estão atendendo em suas casas, via Face Time, WhatsApp, Skype ou mesmo por telefone. Foi o método que encontraram para não deixar seus pacientes sem assistência. Até porque boa parte deles não tem estrutura emocional para lidar com este momento sem apoio qualificado. Em uma carta enviada aos membros da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), o presidente da entidade, Antônio Geraldo da Silva, recomenda “a ampla e abrangente utilização da telemedicina por seus associados”, com foco na proteção da saúde e da vida do paciente, “e considerando o inegável estado de urgência e emergência da saúde pública”. Segundo o documento, o atendimento presencial deve ocorrer apenas em casos indicados, para proteção da vida do paciente, a critério do médico.

Da mesma forma, todas as entrevistas para esta reportagem foram feitas por Face Time ou telefone. Recolhido em seu sítio na Serra da Mantiqueira, em São Paulo, o psiquiatra e psicanalista Jorge Forbes vem dando assistência a seus pacientes à distância, observando a forma como eles reagem aos efeitos da epidemia do novo coronavírus. Durante a conversa, ele usou o texto “Além do princípio do prazer”, escrito por Sigmund Freud em 1920, para contextualizar. Freud analisa as diferentes reações humanas diante do perigo: a angústia, o medo, o terror. Numa situação de angústia, o objeto que provoca o sentimento não é algo definido, está difuso. A pessoa sofre procurando a fonte de sua angústia. Um indivíduo com medo, por sua vez, conhece a causa da sensação e, normalmente, sabe o que fazer para se defender. Medo de um assalto, por exemplo. A pior das três reações é o terror, que existe quando o paciente tem uma ideia do objeto causador, mas não tem acesso a ele e não sabe como se proteger. “O avanço do coronavírus gera esse terror na sociedade. A epidemia desloca nossos eixos de conforto, altera a maneira como a gente se vê”, disse Forbes, que dirige a clínica de psicanálise do Centro de Estudos do Genoma Humano, na Universidade de São Paulo (USP). “O terror funciona como guerrilha, a pessoa fica 24 horas por dia sob efeito daquele sentimento. Não é racional. O terror gera estresse constante, você fica exaurido”, completou.

Os efeitos psicológicos do novo coronavírus e do isolamento domiciliar tomaram conta das consultas da psiquiatra Fernanda Gueiros. Alguns de seus pacientes, que já tentavam superar uma depressão, estão vivendo uma conjuntura que eles encaram como confirmação de seu pensamento catastrófico. Uma pessoa, com dificuldade até para sair da cama, chegou a dizer algo como “para que me alimentar ou tomar banho se o mundo vai acabar?”. “Pessoas com depressão muitas vezes olham para o mundo com uma lente pessimista. Quando a sociedade também está vivendo uma tragédia, o impacto nelas é pior do que nas outras pessoas”, disse. Outro grupo preocupante são os ansiosos.

Entre eles estão aqueles que vão aos supermercados para estocar alimentos e produtos higiênicos. Esvaziam prateleiras sem se importar com a chance de contribuírem para um caos social. Terapeutas relatam casos de pacientes que pagaram caro para fazer o escasso teste do novo coronavírus sem sequer apresentar sintomas da doença. Um ansioso, preocupado com a duração da quarentena, ficou frustrado quando a médica negou seu pedido para fazer-lhe uma receita de remédios garantindo cobertura de seis meses. Entre os integrantes desse grupo há aqueles mais graves, que desenvolveram Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC). Mesmo antes de surgir a epidemia na China, já temiam contaminações e lavavam as mãos dezenas de vezes ao dia.

Além da tensão gerada pela Covid-19 e pelo temido colapso do sistema de saúde, o isolamento domiciliar causa mudanças bruscas no cotidiano, gerando impacto psicológico. Ouvimos profissionais de dois serviços públicos de saúde mental na Zona Norte do Rio de Janeiro. Segundo eles, o assunto tomou conta das sessões de terapia, que, salvo exceções para casos muito graves, têm sido conduzidas pelo telefone. Os pacientes, de maneira geral, respeitam o recolhimento, mas estão angustiados com contas a pagar, uma vez que grande parte deles atua no mercado informal e vai ficar sem receita enquanto não puder voltar ao trabalho. Também estão tensos com a possibilidade de não encontrar assistência nos hospitais públicos se apresentarem sintomas graves causados pelo novo coronavírus. Muitos recorrem ao profissional de saúde mental que os atende para obter informações básicas sobre a doença e formas de prevenção. As rusgas entre parentes surgidas após vários dias de isolamento domiciliar também já estão presentes nas sessões de análise. Famílias com um jovem em casa, por exemplo, experimentam sérios atritos quando ele resolve que vai dormir na casa da(o) namorada(o) e voltar no dia seguinte. Até porque, em alguns casos, há idosos morando na mesma residência. As brigas entre os casais são um capítulo à parte. Com um histórico de alcoolismo, uma mulher havia praticamente zerado o consumo de bebida, mas, agora, o hábito voltou com força, resgatado pela ansiedade do confinamento. Sua companheira não tem gostado da novidade. Ambas têm vida social muito intensa e estão custando a se adaptar à medida defendida pelos especialistas como essencial para “achatar a curva” de contágio da Covid-19 no país.

A vida privada durante a quarentena vem motivando uma série de memes nas redes sociais, que fazem piada desconfiando da duração de casamentos, por exemplo. As brincadeiras têm um fundo de verdade. As partes envolvidas numa relação a dois, por exemplo, não estão habituadas a passar tantos dias trancadas em casa sem contato com pessoas de fora. A psicanalista Regina Navarro Lins, autora de diversos livros sobre relacionamento amoroso e sexual, diz que vivemos algo sem precedentes e que só saberemos os efeitos disso nos casamentos após pelo menos algumas semanas de recolhimento. Ela teme, por exemplo, o aumento de casos de violência doméstica.

Os terapeutas ouvidos nesta reportagem já reúnem bons relatos de pacientes que, sem deixar de reconhecer a tragédia humana da epidemia, estão vivendo o lado bom do recolhimento residencial. Um economista que sofre da síndrome de Burnout, por trabalhar 14 horas por dia sem conseguir se desligar do ofício, passou a dar mais atenção à família. Está descobrindo o prazer de brincar com o filho. Um empresário teve de aprender a limpar a piscina de sua casa. Algumas pessoas estão, de fato, revendo sua vida “pré-quarentena”, refletindo sobre a necessidade de se doar tanto ao batente.

Além disso, parte das consultas “sequestradas” pelo novo coronavírus deixa transparecer

pessoas absolutamente motivadas para lidar com o perigo que avança sobre o país. De acordo com os terapeutas, há pacientes tão engajados com as tarefas de mobilização solidária que já não conseguem nem mais falar de suas questões. Nesse grupo, há desde médicos na linha de frente do combate à Covid-19 até pessoas de áreas de atuação mais distintas, mas que acharam um propósito nessa luta, seja viabilizando uma campanha de crowdfunding para arrecadar alimentos para os mais atingidos pela epidemia, seja fazendo compras para os idosos da vizinhança.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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