A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

AMOR E ÓDIO: PAR INSEPARÁVEL

No premiado filme Coringa, riso e choro caminham fisiologicamente pelos mesmos trajetos e mostram que diante de forte estresse é comum que se confunda a expressão de um comportamento

Um filme consagrado pela crítica e pelo público, Coringa (Joker) aborda o prazer e a dor em um limiar tão próximo que o amor e o ódio são par quase inseparável frente aos objetos de investimento. A subjetividade é um emaranhado complexo e nada maniqueísta. Fisiologicamente, riso e choro caminham pelos mesmos trajetos, diante de forte estresse é comum que se confunda a expressão de um comportamento. Não é incomum a troca de expressão diante de algo muito tenso, no caso do personagem principal, ele na verdade padece de uma síndrome neurológica cujo diagnóstico dado pelos especialistas é complexo. O quadro passa desde uma epilepsia gelástica até patologias pseudobulbares ocasionadas por tumores nos lobos frontal ou temporal. Há também os casos conhecidos como pseudobulbares, mas que são mais presentes na população idosa, ligados a uma questão mais senil. Mas essa troca do choro pelo riso ou do riso pelo choro (ou expressão de raiva e descontentamento) não é algo que se possa perceber apenas em quadros mais graves, muitas vezes frente a intensas experiências associadas a uma linha traumática de fixação poderão ser observados padrões mais atenuados disso, como o paciente que, frente ao psicoterapeuta, relata um sofrimento sorrindo ou mesmo emprestando-lhe um ar de coisa engraçada e espanta-se caso seja confrontado com o questionamento de se acha realmente engraçado o que está relatando.

O longa cativou o público e contou com a impressionante marca de 11 indicações para o Oscar, tornando-se assim o filme baseado em quadrinhos com mais nomeações na história da premiação da maior vitrine no mundo cinematográfico. Sem dúvida que o pesado da narrativa mais a densidade que Joaquin Phoenix imprimiu ao personagem constituíram em uma forte mensagem para o público que vive hoje em um mundo bastante Gotham. E o telespectador abraçou essa mensagem com fervor. Alvo das mais variadas críticas e comentários, segue polemizando e ovacionado. Vale ler sobre ele, disponível na web, a resenha do filósofo e psicanalista esloveno Slavoj Zizek.

A imagem de Joaquin Phoenix na pele do Coringa é todo o tempo incômoda, desagradável e angustiante, quase disgusting. O ator perdeu 23 kg para interpretar o personagem, além de compor de forma impactante todos os movimentos e semblantes que o caracterizam. Nota em destaque para a risada que impressionou plateias mundo afora. Contam os noticiários que ele esteve presente em algumas sessões logo no lançamento do filme e que conversou com os espectadores. Alguns pediram-lhe que reproduzisse a risada, o que não pode fazer assim a frio. É preciso estar na pele do personagem para compor daquela forma tão intensa uma presença tão avassaladora que sem dúvida aponta para uma estupefação coletiva frente a um mundo que a cada dia mais se assina em segregação e desalento. Coringa é um pouco esse riso coletivo frente a um social desarticulado e que opera mecanismos cruéis frente às necessidades mais que humanas que vão se transformando aceleradamente em algo da ordem de privilégios. Não é possível compreender o sofrimento na atualidade sem inserir na escuta o coletivo em que essa dor individual nasce e se inscreve. “Eu acho que você nunca realmente me ouviu”, diz Coringa, reafirmando esse mecanismo cruel.

A dor de Arthur Fleck não tem lugar no mundo Gotham, onde o magnata pai de Bruce Wayne, Thomas Wayne, é também candidato a prefeito e diz sobre pessoas como Arthur: “Olharemos para eles como se fossem meros palhaços” e ele pretende que essas pessoas mudem para melhor como ele e todos que são os cidadãos “que fizeram algo de sua vida”. Sabemos o quanto o ideal que alimenta o modelo de identificação tem sempre a ver com símbolos que sustentam justamente as diferenças entre os estratos sociais. O irônico do mundo atual é justamente ver que quase tudo ganha uma imitação de marca, como acontecerá com o personagem do Coringa, que antes de se assumir como tal era apenas o palhaço Carnival. Ódio e revolta latente na desigual cidade de Ghotam explodem a partir de seus assassinatos e falas, o programa de TV que tanto admirava e do qual ansiava participar dá voz ao seu ódio, um basta ao ocupar sempre o lugar de, como ele diz, “lixo da sociedade”. Elevado a modelo é copiado e dá voz a uma rebelião social de gente cansada de ser pária, de não ter perspectivas. E aqui mora o perigo do filme, porque é óbvio que o Coringa é um sujeito em extremo sofrimento, alguém que acusa aquilo que ele mesmo não é mais capaz de fazer, pensar a vida do outro como valiosa, mesmo que esse outro seja tudo aquilo que ele despreza. Tornar criminosa a revolta popular frente à desigualdade e opressão tem sido a estratégia desde sempre para manter o status quo dos Waynes do mundo real. Talvez seja mais prudente manter um olhar crítico em relação à história de um velho vilão das histórias em quadrinhos, história essa composta aos densos anos 40 do século XX, em plena guerra, e depois desenvolvida nos densos anos 50, em tempos de macarthismo e de bigienismo travestido de ciência ao campo da saúde mental, quando os quadrinhos do Batman começaram a ser publicados com maior frequência. Os vilões estavam lá para demonizar o que pregavam, a atualidade tenta resgatar a história do Coringa, um dos vilões mais intrigantes dessa história, mas será que consegue analisar de maneira que possa anular a intenção original de sua existência? Na série que ficou no ar de 1966 a 1968, trazendo Adam West como Batman e Burt Ward como Robin, que acolheu o insólito pedido por parte da produção para que tomasse medicação para encolher sua protuberante genitália, como declarou recentemente à revista Page Six, diria ele: “Santo Batman!”.

O PARADOXO DA PIADA

Fica a dúvida sobre se houve realmente o expediente de tratar sua mãe, Penny Fleck, interpretada pela sempre excelente Frauces Conroy, como louca e isola- la em uma instituição psiquiátrica para que seu suposto caso amoroso com Thomas Wayne não viesse a público, fato que, como sabemos, não foi algo incomum desde a criação dos manicômios, ou se ela havia mesmo desenvolvido alguma espécie de delírio na linha da erotomania. A ficha de sua mãe narra histórias de abuso, negligência e maus-tratos cometidos contra o filho adotivo, Arthur, levando a crer, inclusive, que seu quadro neurológico poderia ser consequência de um traumatismo craniano que sofrera por agressão cometida pelo namorado da mãe. Mas Arthur conclui diante da mãe que sua condição não era uma doença, mas sim que era ele mesmo, alguém feliz, embora em outro momento tenha dito que nunca havia se sentido feliz em toda a sua vida O paradoxo da piada que violenta e faz rir ao mesmo tempo, o humor pesado, que é uma das espécies de humor mais desenvolvida socialmente, há nele sempre um quantum imenso de agressão, há sempre alguém mais frágil a ser atacado, uma vítima para ser ridicularizada. Esse tipo de humor que nossos novos laços civilizatórios andam querendo banir do nosso convívio, a perseguição e reforço de preconceitos que no final acabam fermentando um ódio como o do Coringa.

“Nem eu sabia se eu realmente existia”, diz Coringa, num momento de total paradoxo. Arthur Fleck levava a vida entre desempenhar seu papel de palhaço como ganha-pão e cuidar da mãe enferma em um apartamento de um prédio horroroso, segundo seu julgamento, que poderá ser conhecido em suas fantasias de relacionamento com a vizinha. Sua vida era uma inexistência suspensa entre seus devaneios com o sucesso e suas fabulações anotadas em caderno para compor um show que ainda faria e que seria então seu desenvolvimento como comediante famoso. A violência de Arthur está ali sempre presente, mas ao mesmo tempo sob controle, como quando aponta a arma para a poltrona vazia, lugar onde a mãe se senta para assistir a TV. A relação tóxica entre Arthur e Penny Fleck exemplifica muito bem relações de abuso em que a vítima acaba, por mecanismos variados, presa a uma necessidade de cuidar do abusador, como uma formação reativa (mecanismo de defesa) em relação ao ódio. Todo dispêndio de energia que isso requer faz dele aquela figura meio espantalho, meio vivo e morto ao mesmo tempo, um sujeito que não pode existir.

O SENTIMENTO MÁGICO

É comum em quadros cíclicos pacientes terem um certo apego ao ciclo hipomaníaco, quando o excesso é o manifesto, a euforia, o sentimento de poder, a falta de sono, a hipersexualidade, a compulsão por compras etc., que dão ao sujeito um simulacro de existência feliz, até que o ciclo vire depressão. Diante do desmonte do serviço de assistência social que o acompanhava, Arthur Fleck deixa de tomar seus medicamentos e entra em uma óbvia espiral de onipotência. Seus gestos, sua dança, sua risada, sua agressividade agora são tomados totalmente pelo impulso de destruição. Um sujeito em grave sofrimento abandonado por todos os mecanismos coletivos que deveriam ajudá-lo a não ter como única possibilidade o encarceramento e o isolamento social. Como disse a assistente social que o acompanhava antes, nem a vida dele e nem a dela importavam ao poder constituído. Em época de neoliberalismo selvagem e desmonte de qualquer noção de bem-estar social, Coringa vira um pouco o magnífico Eu, Daniel Blake (2016), de Ken Loach. O sentimento de desamparo que hoje atravessa grande parle da população não é um dado irreal, ele é cruelmente real e presente no cotidiano dos trabalhadores, em novas formas de exploração da mão de obra que apontam para uma sobrevivência impossível. Conflitos explodem atualmente no mundo todo, e talvez a mistificação que houve em torno desse filme aponte para esse sentimento crescente de falta de saída, o que será sempre um perigo. Já vimos como sentimentos coletivos podem ser capturados facilmente por aqueles que desejam o caos para instalar de forma ainda mais profunda seu domínio. Aqui no Brasil se discutem se os fatos recentes não apontariam justamente para isso, criando no final uma turba de Coringas descontrolados cujas teses mais ensandecidas ameaçam laços civilizatórios fundamentais para nossa evolução.  Sentimentos coletivos necessitam de união, reflexão, organização, trabalho continuo, o que é realmente exaustivo e exige muita solidariedade e afeto, uma vez que a convivência dos diferentes é sem dúvida a tarefa humana que mais exige do sujeito. O caos jamais será a solução, e os países que souberam comandar com forças progressistas a explosão da insatisfação popular foram os que tiveram algum avanço, vide a França e a desistência de aumentar a idade da aposentadoria para seus cidadãos. A rebelião é fundamental, mas sem a força da política ela se torna invariavelmente apenas caos, caldeirão que ferve as mais estranhas criaturas que surgem dessa ira sem direção de combate, sem meta e sem elaboração. Os grandes tiranos, ao longo da história, se lambuzaram nesse caos que ajudaram a criar e surgiram de suas entranhas.

É sem dúvida um dado a se pensar que no ano de 2019 os dois filmes mais falados sejam Coringa e Parasita (Parasite), de Bong Joon-ho, ambos sublinhando de forma exemplar esse crescente sentimento de descontentamento. O Brasil colocou-se na cerimônia do Oscar contando ao mundo ao que este caos pode levar com o documentário Democracia em Vertigem, de Petra Costa, que mostra o crescimento do fascismo e de uma ainda maior desigualdade amparada por um poder supostamente “antitudo” que alimenta a desinformação em causa própria. Coringa é uma chamada para a reflexão sobre às insatisfações coletivas, mas é também um alerta de que politizar é preciso.

PROF. DR. EDUARDO J. S. HONORATO – é psicólogo e psicanalista, doutor em Saúde da Criança e da Mulher.

DENISE DESCHAMPS – é psicóloga e psicanalista. Autores do livro Cinematerapia: Entendendo Conflitos.

Participam de palestras, cursos e workshops em empresas e universidades. Coordenam o site www.cinematerapia.psc.br

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.