OUTROS OLHARES

UMA CORRIDA GLOBAL

Em um movimento inédito e bilionário, cientistas de todo o mundo buscam avidamente o desenvolvimento da vacina e de tratamentos adequados para a Covid-19

“Testes, testes, testes.” Assim, com a repetição de três pequenas palavras, como um refrão, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), o etíope Tedros Adhanom Ghebreyesus, resumiu a postura mais adequada para combater a pandemia de Covid-19 – de mãos dadas com o distanciamento social, impositivo e inegociável. Os testes são vitais para quebrar as cadeias de transmissão, ao separar saudáveis de enfermos, e para organizar o fluxo nos hospitais. Não por acaso, em gesto louvável, a mineradora Vale fechou a compra de 5 milhões de kits chineses, que apontam positivo ou negativo a partir da detecção de anticorpos, para doá-los ao governo brasileiro. Uma startup de Curitiba, a Hi Technologies, desenvolveu um equipamento que oferece respostas em até quinze minutos – que em breve começará a chegar às farmácias e aos serviços de saúde. Testar, testar e testar é, enfim, o primeiro passo do mais extraordinário movimento científico e médico de toda uma geração, na luta contra uma doença respiratória que, até a quinta-feira 26, tinha acometido mais de 520.000 pessoas no mundo inteiro, com mais de 20.000 mortes, das quais 77 no Brasil.

A corrida global, para além do compulsório diagnóstico dos doentes, tem duas frentes: a busca por uma vacina e, enquanto ela não surge, o aperfeiçoamento de tratamentos já existentes e a criação de outros remédios. É uma engrenagem emocionante e bilionária (apenas na primeira semana de março, os fundos globais para pesquisa e desenvolvimento de crises arrecadaram 3,5 bilhões de euros, o equivalente a 19 bilhões de reais). A OMS formou um grupo de trabalho global, adequadamente batizado de “Solidariedade”, e não haveria outro nome a lhe dar, de modo a estimular pesquisas cada vez mais aceleradas que abranjam milhares de pacientes, de mais de uma centena de países. Disse o pneumologista Clayton Cowl, diretor de medicina preventiva da Mayo Clinic em Rochester, um dos mais respeitados hospitais dos Estados Unidos, referência incontornável: “O mundo está unido no combate à pandemia de Covid-19. Resolveremos o mistério e impediremos que algo semelhante aconteça nos próximos anos”. É uma promessa, por ora, mas quase uma certeza quando se acompanha a máquina rodando. Não seria exagero afirmar que a velocidade dos saltos científicos na batalha contra o microrganismo feito de RNA é inédita na história da humanidade. Três exemplos emblemáticos ajudam a alimentar essa constatação: a plataforma medRxiv, que concentra os estudos científicos antes de sua publicação em reputadas revistas, já soma mais de 300 artigos sobre o novo coronavírus; a Chinese Clinical Trial Registry, agregador de trabalhos clínicos conduzidos na China, reúne 504 pesquisas protocoladas; a ClinicalTrials, o maior banco de dados de ensaios clínicos do planeta, tem 178 registros. E lembremos: passaram-se apenas quatro meses desde o início da eclosão dos casos da nova infecção, na China, em dezembro do ano passado, país que começa a renascer e a respirar. “É uma situação totalmente excepcional em termos de pressão, rapidez e investimento”, diz o infectologista Celso Granato, diretor médico do Grupo Fleury, no Brasil.

O santo graal, o tesouro tão esperado, evidentemente, é a vacina. Mais de trinta empresas e instituições acadêmicas estão na corrida para criar um imunizante. Dessas, ao menos quatro encontram-se na fase de testes em animais, necessária para garantir uma proteção química capaz de gerar anticorpos contra o vírus, e duas – uma nos Estados Unidos e a outra na China – já iniciaram os testes em humanos. A empresa pioneira americana, a Moderna, conseguiu em apenas 63 dias deflagrar os ensaios clínicos. Essa rapidez só foi possível porque, além dos esforços tremendos, os pesquisadores tinham experiência com a elaboração de vacinas para Sars e Mers, também da espécie coronavírus, só que mais letais e menos contagiantes, durante suas respectivas epidemias em 2003 e 2012 – seus produtos, contudo, nunca chegaram ao mercado em decorrência de um descompasso peculiar. Quando ficaram prontos, os surtos já haviam sido contidos e os investimentos necessários para dar continuidade ao trabalho foram suspensos. Agora é diferente: o conhecimento prévio permitiu a tração, e estima-se o uso experimental, e restrito, da vacina ainda em 2020. No entanto, ela deve ser aprovada apenas dentro de um ano e meio. Há brasileiros no horizonte também. O grupo de pesquisadores do Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração (Incor) da Universidade de São Paulo (USP) usa uma estratégia inovadora: trabalha com as chamadas “cascas virais”, sem material genético, e, portanto, não infecciosas, para induzir respostas do sistema imune. “Esse mecanismo deverá se mostrar ainda mais forte que outras propostas que têm surgido, que injetam uma porção sintética de material genético do vírus no organismo, diz o imunologista Jorge Kalil, diretor do Laboratório de Imunologia do Incor. No Brasil, trabalha-se com um prazo de entrega da vacina maior que o dos Estados Unidos. A previsão aqui é começar os testes clínicos em menos de dois anos. É tempo demais? Não, insista-se, desde que a humanidade seja capaz de identificar as pessoas com resultado positivo para a Covid-19 e os tratamentos se ampliem.

A concorrência, sempre saudável, faz com que eles se multipliquem. Existem, atualmente, quatro apostas promissoras, em estágio avançado de experimentação, para zelar pelas pessoas acometidas de Covid-19, especialmente os idosos.

REMDESIVIR. É um antiviral criado por um laboratório americano para combater o ebola, que emergiu como pioneiro entre os possíveis tratamentos para a Covid-19. Apesar de ter falhado no combate ao vírus, experimentos em laboratório mostraram que o medicamento é eficaz contra Sars e Mers. A ação da droga é desligar a capacidade do vírus de se replicar dentro das células.

RITONAVIR E LOPINAVIR. Usados em pacientes com HIV, conseguiram inibir uma enzima responsável por “cortar” compostos que agem na replicação do vírus dentro das células. Houve um baque, recentemente, depois de se mostrarem ineficazes em um estudo feito com 200 pacientes graves na China. Mas serão testados novamente, agora em pacientes menos graves.

FAVIPIRAVIR. O medicamento japonês é utilizado como tratamento para a gripe comum e causou alvoroço ao diminuir para menos da metade o tempo de infecção pelo novo coronavírus. Um estudo chinês com 340 pacientes mostrou uma tendência de eliminação do vírus em apenas quatro dias naqueles que receberam o medicamento, ante onze dias nos que ficaram sem a droga.

Testes, vacinas e remédios poderão impedir cenas até então inimagináveis em nosso tempo, e que só foram vistas durante a gripe espanhola, no início do século XX: imagens como a do gramado do Estádio do Pacaembu, em São Paulo, transformado em um hospital a céu aberto, preparado para receber os doentes, por falta de espaço em leitos hospitalares. Talvez porque, ao longo dos anos, o Brasil tenha construído mais estádios que hospitais, porque tenha dado mais atenção ao futebol que à saúde – mas essa é outra triste história.

Cabe se debruçar, no aqui e agora, sobre problemas que podemos tocar com os dedos, imediatamente. Apesar da importação de testes – como fez a Vale – e da lida com novos aparelhos – como faz a empresa curitibana -, há escassez na ponta final do preocupante processo da Covid-19. Nos últimos dias, a Anvisa aprovou uma dezena de novos tipos de diagnóstico, e o Ministério da Saúde ampliará para 22,9 milhões o número de unidades disponíveis. Mas dificilmente a quantidade será suficiente para o tamanho da população brasileira. De uma semana para cá, o país passou a escolher quais doentes priorizaria para diagnosticar. Se, num primeiro momento, pacientes com sintomas mais brandos de gripe conseguiam ser examinados com facilidade, agora a recomendação tanto na rede pública quanto na privada é testar apenas casos mais graves. É uma triste escolha. Ela só será superada – e será – com a humanidade focada naquilo que ela tem de mais valoroso: a ciência, o conhecimento.

O TEMPO É O SENHOR DA RAZÃO

Os primeiros passos a caminho da vacina contra a Covid-19 foram mais rápidos se comparados com os casos de outras doenças viróticas

A VERDADE SOBRE A CLOROQUINA E A HIDROXICLOROQUINA

Nas redes sociais, duas drogas viralizaram, com o perdão da expressão, como se fossem o bálsamo definitivo para a Covid-19 – a cloroquina e a hidroxicloroquina, associadas. Comumente usadas no tratamento de malária e doenças autoimunes, como o lúpus, elas se transformaram em portos seguros. Funcionam? Sim, informam alguns estudos ainda em fase inicial de investigação – mas, ressalve-se, o protocolo impõe outras experiências para conceder aval definitivo ao par de drogas. Há ansiedade, porém, é preciso calma, ancorada na ciência. O deflagrador da onda foi um estudo francês com 24 pacientes, amostra pequena, que observou os efeitos positivos dos remédios. “Essas medicações devem ser tomadas com controle, dados os efeitos colaterais, como arritmia e problemas visuais”, afirma Ludhmila Hajjar, coordenadora de ciência, tecnologia e inovação da Sociedade Brasileira de Cardiologia. Os primeiros resultados, animadores, levaram Donald Trump a divulgar a boa ­ nova, com pressa e um tantinho de irresponsabilidade, Bolsonaro seguiu a onda. Para aumentar o alarde, um áudio com informações falsas sobre o assunto começou a ser compartilhado no WhatsApp. De acordo com a gravação, um estudo da Universidade Stanford teria mostrado que o uso das substâncias combinadas com outro composto, o antibiótico azitromicina, teria curado quarenta pacientes com Covid-19. O áudio é falso. Diz Luiz Vicente Rizzo, diretor-superintendente de pesquisa do Albert Einstein: “Não há um heureca, mas um grupo de pessoas trabalhando duro e junto”.

No Brasil, dois amplos estudos com a cloroquina e a hidroxicloroquina foram deflagrados. Um deles já começou e envolve instituições de várias regiões do país, como o Hospital Estadual Geral de Goiânia, a Fundação Oswaldo Cruze a Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto, e é liderado pelo reputado infectologista Marcus Vinicius Guimarães de Lacerda, da Fiocruz Amazônia. A ideia é analisar os efeitos em 880 doentes graves, em doses diferentes. O outro trabalho é resultado da união entre o Hospital Albert Einstein, o Hospital do Coração e o Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, que usarão a medicação em doentes com suporte de oxigênio, em estado mais ou menos grave da enfermidade. Ambos os estudos foram aprovados em menos de uma semana pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa, instituição responsável pela validação dos estudos científicos no Brasil. Há pressa. Afirma Alexandre Biasi, diretor do Instituto de Pesquisa do Hospital do Coração: “O que até então levava seis meses no universo científico agora é feito em dois dias”. As conclusões dos trabalhos sairão em até dois meses, no máximo.

Na quarta-feira 25, o Ministério da Saúde anunciou que vai liberar 3,4 milhões de unidades do medicamento cloroquina para que os médicos possam avaliar sua utilização em pacientes graves. A decisão foi tomada com base em um protocolo detalhado e rigoroso, que prevê cinco dias de tratamento, sempre dentro do hospital e monitorado por um médico. Aviso: não adianta sair comprando as substâncias por aí.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 29 DE MARÇO

JESUS CURA A SOGRA DE PEDRO

Então, aproximando-se, tomou-a pela mão; e a febre a deixou, passando ela a servi-los (Marcos  1.31).

O apóstolo Pedro era casado. Sua sogra estava ardendo em febre, prostrada numa cama. Os discípulos falaram com Jesus a respeito dela. O Mestre foi ao encontro da doente, tomou-a pela mão, e a febre a deixou, de modo que ela passou a servi-los. Devemos contar a Jesus aquilo que nos aflige. Ele é o nosso melhor amigo. É compassivo e misericordioso. Quando ficamos doentes, procuramos um médico. Quando temos problemas com a lei, procuramos um advogado. Quando precisamos de ajuda, procuramos um amigo. Mas, acima de tudo e em qualquer circunstância, devemos procurar o Senhor Jesus. A cura da sogra de Pedro foi imediata e total. Nenhuma enfermidade pode resistir ao poder de Jesus. Ele curou o homem possesso na sinagoga, um ambiente religioso; curou a sogra de Pedro em casa, um ambiente familiar; e também curou uma multidão na rua, um ambiente aberto. A doença, o vento e o mar ouvem a sua voz. Os anjos obedecem às suas ordens. Os demônios não resistem à sua autoridade. Ninguém pode resistir ao seu poder. Febre, ventos, ondas, tempestades, nada disso faz diferença para Jesus. Ele exerce completo controle no céu, na terra e debaixo da terra. Confie agora mesmo sua vida a ele!

GESTÃO E CARREIRA

O DESAFIO DA VIDA À DISTÂNCIA

Pandemia impõe novas rotinas, comportamentos e hábitos e transforma o trabalho remoto numa solução generalizada e conveniente para as mais diferentes funções. O micróbio da Covid-19 é disruptivo e a adaptação à realidade vai ser mais fácil para uns que para outros

O coronavírus é um micróbio disruptivo. Sua capacidade de romper rotinas, alterar a realidade, impor novos comportamentos e hábitos é notável. O medo de contágio, o aumento exponencial no número de doentes, o distanciamento social e o crescente isolamento das pessoas em todo o mundo estão estabelecendo, por exemplo, novas práticas de trabalho e exigindo soluções tecnológicas que antes eram opcionais e, do dia para a noite, se tornam obrigatórias para milhões de pessoas. O que era típico, até agora, de empresas de internet, virou padrão.

E pode ser que isso se perpetue, dependendo do desenvolvimento da pandemia, para muitos profissionais. Quem se adaptar bem ao trabalho remoto vai ter um trunfo em inúmeras funções da sociedade. Teleconferências de baixo custo e com dezenas de participantes são a bola da vez no mercado, na política e nas famílias. Pela primeira vez na história do Senado, uma decisão foi tomada em uma votação à distância, feita por teleconferência. Votou-se o decreto de calamidade pública para combater a disseminação do coronavírus que foi aprovado por unanimidade e entrou imediatamente em vigor. Na terça-feira 24, cinco dias depois, o Senado usou o mesmo Sistema de Deliberação Remota (SDR), para votar a Medida Provisória 899/2019, que inclui empresas optantes do Simples em um programa de acertos de pendências com a União. A decisão de votar remotamente foi tomada depois que três parlamentares da casa contraíram o coronavírus: o presidente Davi Alcolumbre (DEM-AP), Nelsinho Trad (PSD-MS), que esteve na comitiva para Miami com o presidente Jair Bolsonaro, e Prisco Bezerra (PDT-CE). O sistema de debate e votação foi desenvolvido pela Secretaria de TI do Senado, a Prodasen.

“A tecnologia ajudou o Senado a cumprir seu papel neste momento difícil da Nação”, disse o senador Antônio Anastasia (PSD-MG), que preside as sessões interinamente e classificou as primeiras experiências de votação “estáveis e seguras”. “É claro que um processo legislativo tem seus nuances, características e diferenças do ambiente corporativo, mas a conferência à distância é possível e viável, tanto que nós já votamos na semana passada, votamos ontem, ontem, aliás, numa sessão longa com duas mudanças de orientação, com votações nominais, deu tudo certo”, completou o senador. O mais impressionante, segundo ele, foi o quórum altíssimo. Havia 79 presentes, só não estavam os dois que estão afastados em razão da doença, Alcolumbre e Nelsinho. Bezerra, que é assintomático e cumpre quarentena, participou da sessão. “Se você fizer um levantamento, numa medida provisória, matéria de lei ordinária, quórum de 79 é raro”, completou. Alguns senadores votaram em seus gabinetes, outros estão em suas residências em Brasília, outros nos seus estados, em casas ou no escritório.

Como os senadores, governadores de todo o Brasil passaram a semana participando de teleconferências entre eles ou com o presidente Bolsonaro para discutir a crise sanitária. Os debates políticos estão se desenvolvendo à distância e os contatos de alto nível, sem necessidade de locomoção para participar de reuniões, se tornaram mais baratos, simples e práticos. “Claro que o processo fica um pouco mais lento, talvez as discussões fiquem um pouco mais demoradas, as convergências demorem um pouco mais, mas a teleconferência me parece uma forma democrática e eficiente de funcionar”, afirma Anastasia. “Isso jamais vai substituir o contato físico nas votações, aquela conversa de pé de ouvido típica da política, das negociações, mas num caso como esse em que se têm problemas de saúde, é uma forma de manter o trabalho em andamento”. Para o senador, a solução não há outra opção e o Congresso não pode parar. “E o fato do quórum estar alto é muito positivo”, completa.

Grandes empresas estão seguindo a mesma linha e tentam, cada vez mais, resolver seus problemas remotamente. No meio da espinhosa reestruturação do Instituto de Resseguros do Brasil (IRB Brasil RE), Antônio Cassio, que acaba de assumir a presidência da empresa, vê o trabalho remoto como uma âncora de salvação. Cassio está habituado à rotina de trabalho em casa, que ele chama de “smart working” (trabalho inteligente) e consegue produzir tão bem presencialmente como à distância. O IRB tem 400 empregados e, neste momento, estão quase todos na rotina do home office. A exceção é um núcleo da contabilidade que trabalha presencialmente por conta de serviços de fechamento de balanços. O que Cassio sente no seu novo modelo de trabalho é que o dia fica mais longo. Ele acorda às 6 horas, veste uma roupa e vai para seu QG, que é a mesa de jantar. Participa de videoconferências o dia todo. Na segunda-feira 16, participou de dez e fez 13 vídeos. Faz paradas para tomar café, almoçar e à tarde para brincar com o cachorro e se diz preparado, se for necessário, para ficar os próximos 60 dias em home office. “A ida ao escritório não faz falta e a maior dificuldade que estou tendo é não saber a hora de parar. Ontem, fui até as 11 horas da noite”, conta. “A companhia está funcionando normalmente e de maneira eficiente”.

Para quem mergulha no home office, o local de trabalho se torna relativo. Nos últimos cinco anos, Cassio trabalhou na seguradora Generali e atendia oito países com quatros fusos horários diferentes. A maior parte de suas reuniões era feita por videoconferência e o escritório era só um ponto de apoio e não o lugar do executivo. Mesmo à distância, ele se sentia sempre próximo de sua equipe, como acontece agora. O Conselho de Administração do IRB está funcionando perfeitamente e, segundo Cassio, os conselhos nunca funcionaram tão bem. “Acho que devemos aproveitar o momento para fazer uma revolução boa”, afirma. “Quando você descobre que um ser microscópico é capaz de ameaçar sua vida, se pergunta quem é e como encontrar luz no meio da vulnerabilidade”. Até quinta-feira 26, havia no mundo cerca de 500 mil infectados pelo coronavírus e 22,2 mil mortos pelo Covid-19, segundo levantamento da Johns Hopkins University. No Brasil, o número de contaminados passava de 2,6 mil e o de mortos chegava a 61.

CARTEIRA VIRTUAL

Empresas de tecnologia têm sua situação facilitada nesse processo de mudança por estarem mais habituadas ao trabalho à distância. É o caso da PicPay, que controla um aplicativo para a realização de compras online e transferência de valores por meio de uma carteira virtual. A empresa eliminou qualquer atividade nos seus escritórios e, neste momento, só foi mantida a rotina de limpeza duas vezes por semana e a presença dos recepcionistas. Todas as outras atividades da empresa estão sendo feitas por teleconferência. “Sempre fizemos isso de forma alternada e agora está todo mundo remoto”, afirma o co-fundador e diretor de Recursos Humanos, Dárcio Stehling. Os funcionários da PicPay nunca tiveram, por exemplo, telefone na mesa, todo trabalho sempre foi feito na frente de computadores. Desde quarta-feira 11, a empresa colocou seus 1,3 mil funcionários em regime de home office. No dia seguinte, apenas 40 funcionários foram a escritório para buscar alguma coisa ou resolver pequenas pendências. Na sexta-feira, já estavam todos em casa.

“A grande reclamação é a saudade dos colegas, mas tem gente que se queixa da rotina, de pôr a roupa de trabalho para ficar dentro de casa”, diz Stehling. Ele relata que as reuniões se tornaram mais breves e não houve nenhuma queixa de funcionário dizendo que não está conseguindo trabalhar. Participam até 40 pessoas das reuniões. A empresa resolveu todos os problemas de software e de conexão nas máquinas que estão sendo usadas com serviços de suporte. Stehling usa muito o aplicativo de teleconferência Zoom, grande vedete nestes tempos de pandemia. Outras ferramentas que estão sendo usadas nas reuniões à distância são o Skype, Microsoft Teams, Google Hangouts e o WhatsApp. “É preciso um fone de ouvido com um microfone bom e existe uma etiqueta do trabalho remoto a ser seguida”, diz “Quem não está falando fica no mudo para que todos possam ouvir o que está sendo dito”.

Já para quem não é da indústria de tecnologia, as coisas são mais incomodas. O presidente da Associação Brasileira de Alumínio (Abal), Milton Rego, diz que a situação atual traz estorvos para o setor. De um modo geral, as empresas colocaram todos seus funcionários administrativos no home office, enquanto o pessoal das fábricas está recebendo cuidados de saúde diários. A temperatura dos operários está sendo medida periodicamente e departamentos são colocados em quarentena quando há algum trabalhador com suspeita de contágio. Trinta empresas são associadas à Abal e algumas delas, principalmente pequenas e médias, não tinham notebooks para todo mundo e precisaram alugar os equipamentos. O mercado de aluguel de máquinas está em plena expansão neste momento. “Isso é muito novo. Não se faz uma mudança tão drástica sem perder produtividade, mas o impacto disso depende do perfil do empregado”, diz Rego. Na Abal começamos isso na quarta-feira passada, mas ninguém pensava no assunto dez dias antes. Pensava-se na diminuição das pessoas nos escritórios, mas não em interrupção total. Foi tudo muito rápido e algumas pessoas estão com dificuldades com alguns sistemas. Como acontece no Senado, Rego percebe que no home office é tudo mais lento. Na reunião presencial, as pessoas estão a dois metros de distância e você fala e resolve, mas no remoto é preciso mandar mensagem. “A gente está aprendendo de maneira dramática. Se a economia mundial passar por uma mudança total, isso vai causar uma enorme perda de produtividade. É uma disrupção muito grande. Empresas e os países terão que mudar seus protocolos”.

Até os hospitais, em tempos de pandemia, tem que intensificar o trabalho à distância e ampliar e aprimorar seus serviços remotos. No Albert Einstein, em São Paulo, que tem 13 mil funcionários, todos os trabalhadores administrativos estão trabalhando em casa, seguindo as orientações das autoridades sanitárias. Também estão sendo impulsionados os serviços de telemedicina e tele UTI, segundo Felipe Spinelli de Carvalho, diretor de ensino do Einstein. As duas modalidades são oferecidas há vários anos pelo hospital. A telemedicina tem uma importante função social e sua utilização foi aprovada, há duas semanas, pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) para conter o coronavírus. Com a tele UTI é possível dar apoio técnico a outros hospitais que não contam com médicos intensivistas e precisam de apoio. Um programa de telemedicina do Proadi-SUS, na região Norte, permitirá que os profissionais do Einstein atendam pacientes de 120 cidades. “A telemedicina vai ser um grande recurso, principalmente para diagnóstico”, afirma Carvalho. Desde 2012, o Einstein oferece telemedicina, mas o número de atendimentos disparou e atingiu 200 por dia na semana passada. Além do atendimento médico, ferramentas de teleconferência também servem bem para a educação. Mais de 7 mil alunos dos cursos do Einstein, que tem faculdades de enfermagem e medicina, escola técnica e pós-graduação, usam o Zoom ou a plataforma de aprendizagem Canvas para falar com professores e colegas.

Apesar do entusiasmo com as reuniões remotas, a expectativa no mercado, na política e nas famílias é de que a situação volte ao normal. Mas é certo que um novo ciclo de aprendizado de reuniões à distância e home office está sendo impulsionado pela pandemia. E as pessoas estão descobrindo como fazer as coisas de outra forma. Muitas não mais voltarão ao esquema anterior. “Na teleconferência há uma demora um pouco maior, mas a decisão acaba ocorrendo como ocorreu ontem. Foi perfeito. Houve discussão, divergência e a divergência foi decidida no voto, como convêm ao Parlamento”. Mesmo com algumas dificuldades, o trabalho à distância, como prova o Senado, pode ser uma saída perfeita nesses tempos de peste, quando ficar em casa é a melhor decisão.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

IMPACTO EMOCIONAL NAS CRIANÇAS

Uma geração inteira está se desenvolvendo em meio à uma pandemia. O massacre de informações transformou questionamentos adultos em medos infantis. Como sair fortalecido desse trauma?

Se o novo coronavírus, segundo especialistas, poupa as crianças nas vias aéreas superiores e nos pulmões, abala em outro delicado campo suscetível de sequelas: o lado emocional. Contaremos a história de uma família que passa a quarentena no Complexo do Alemão, uma das maiores e mais conhecidas favelas do Rio de Janeiro. Como a doença não diferencia ricos e pobres, da boca do caçula da família Silva sai a frase que amedronta os pais, sejam miseráveis ou milionários, em todo Brasil: “Mãe, a gente vai morrer?”. A pergunta não é feita por um adulto ou adolescente, mas, sim, por uma criança de seis anos, invadida pela morbidez em seu psiquismo. O cenário em que o País vive é esse: crianças deixaram a brincadeira de lado e estão confinadas em casa, apavoradas. A regra clássica de que criança precisa ser criança não dá para ser respeitada. Uma geração inteira será afetada emocionalmente; os resultados são incertos e preocupantes.

A GENTE VAI MORRER?

João Gabriel tem seis anos, mas quando de sua boca sai incômodos e medos sobre o contágio do coronavírus, ele já não parece mais tão pequeno. Da televisão da sala, ele vê reportagens e o corpo estremece: “Não tem hospital para todo mundo, mãe”. Depois de olhar para os parentes confinados, João completa: “Já pensou se a nossa família pega? A gente vai morrer!”. Um tormento que, antes da pandemia, não existia. Quando da rua as vozes dos amiguinhos aparecem, João pede para sair. Quer a rua. Quer brincar. “Deixa eu ficar com os meus amigos?”. Mas, logo em seguida, Joelma da Silva, de 29 anos, ativa a memória do filho sobre a existência da doença. Ainda assim, João não arreda o pé e quer saber: “Não posso brincar porque meus amigos estão com coronavírus?”. Joelma tenta, mais uma vez, explicar a situação do País. Só que parece que na frente dela está um homem maduro e não um menino de seis anos. A Covid-19 está fazendo crianças agirem como idosos. Só que idosos já viveram muito, têm bagagem para questionar a vida. Sozinho, João escolheu como melhor amigo o álcool em gel — carrega-o para todos os cantos da casa.

Joelma está em quarentena com o caçula João, com a filha mais velha, Maria Gabrielle, de 11 anos, e o pai José Manuel de 66 anos. Dentro da casa ninguém entra e ninguém sai. O pouco de mundo exterior está no quintal, mas basta as crianças saírem para movimentar o corpo que, pouco depois voltam correndo. “O vírus está na minha mão, passa álcool”, pedem. A vida meio que perdeu a rotina. E a tentativa de se agarrar na possibilidade está no potinho que promete a morte do vírus. Enquanto os amigos brincam na rua, João passa álcool em gel nas mãos com a mesma fúria que engole balas coloridas. A escola colocou no dever de casa uma perigosa pergunta: “Como você está se sentindo com o coronavírus?”. Um universo intacto é escancarado. “Você está entrando em um território de sentimento que pode aflorar diversas coisas nas crianças, inclusive essa questão das perdas e morte”, explica a psicóloga da Clínica Maia, especializada em neuropsicopedagogia, Daniella Dualib Uvo. “Uma coisa que eu sempre digo, para qualquer situação, é: não dê informações além do que a criança pede”, completa.

A natureza infantil é curiosa e inquieta. Quando a dúvida surgir, as crianças vão perguntar. Eles têm o conhecimento da existência de uma doença e que essa doença mata. Para eles, é como dizer que alguém próximo pode morrer. Estresse pós traumático, ansiedade, fobia social, problemas para lidar com a frustração, e, obviamente, com as perdas. Os pais que, da noite para o dia, passaram a trabalhar em casa, também voltarão para o trabalho da noite para o dia. Assim que eles deixarem a casa, as crianças podem se ver em pânico com a possibilidade de os pais não cruzarem novamente a porta de entrada. A família precisa, de alguma forma, estabelecer uma rotina. Daniella é otimista, gosta de dizer que prefere enxergar o copo mais cheio do que vazio. E esse confinamento, pode, sim, ser positivo para essa geração. De alguma forma, as famílias desaceleraram.

A falta de convívio virou acolhimento. “Há um fortalecimento emocional incrível”, diz a psicóloga. Em meio ao caos, a pequena Maria Gabrielle parece ser a única da família Silva que conseguiu transformar a quarentena em rotina. Agarrou-se aos tutoriais de maquiagem para fazer o tempo passar. Quando tudo isso acabar, ela tende a ser mais experiente do que mulheres adultas acostumadas com a base, o pó e a sombra.