OUTROS OLHARES

MACIA E SUCULENTA

Importado dos Estados Unidos, o dry aged, sistema de maturação de carnes a seco, vira sensação em restaurantes, hamburguerias e açougues-butique

A nova onda para os amantes brasileiros da carne veio de um velho hábito americano. No início do século XX, açougueiros do Texas desenvolveram um processo de envelhecimento das peças para tornar os bifes mais macios e suculentos. Batizada de dry aged, a maturação a seco passou a ser adotada pelos chefs apenas na década de 80, até virar febre nos endereços descolados de Nova York. A onda chegou ao Brasil nos últimos anos e começa a repetir por aqui esse sucesso. Somente na cidade de São Paulo o número de restaurantes que servem a iguaria aumentou de um para oito nos últimos anos, sem contar várias lanchonetes e açougues­ butique que estão investindo no produto. As grandes empresas também entraram no negócio. Em junho de 2019, uma parceria do Pão de Açúcar com a Friboi resultou no lançamento de um espaço exclusivo para a venda desses itens nos supermercados. O projeto vingou e onze lojas nas cidades de Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo começaram a oferecer o serviço.

Marcante para os que experimentam pela primeira vez, o paladar diferenciado da carne se deve ao período em que ela é “envelhecida” em câmaras de refrigeração com temperaturas que oscilam de zero a 2 graus negativos e umidade entre 50% e 70%. O tempo mínimo pode variar de 21 a trinta dias. Nessas condições, enzimas quebram a proteína da peça, e é aí que está o segredo do dry aged: as fibras se tornam mais macias, a acidez desaparece e os aminoácidos liberados intensificam o sabor. “É mesmo algo muito especial”, diz Daniel Lee, um dos maiores entendidos por aqui no assunto. Cozinheiro obcecado por novos sabores, ele fez uma série de cursos nos Estados Unidos sobre esse tipo de corte e foi convidado para ser juiz da maior entidade de churrasqueiros dos Estados Unidos, a Kansas City Barbeque Society (KCBS). Desde 2015, passou a dar aulas sobre a especialidade e virou referência no tema. Em janeiro deste ano, resolveu abrir o próprio restaurante, o Bark & Crust, em São Paulo, que tem como um dos focos os cortes dry aged. “O brasileiro adora carne e agora está descobrindo os prazeres dos cortes premium”, afirma ele.

Do ponto de vista dos negócios, trata-se de um investimento bastante saboroso. Em média, o quilo do corte dry aged custa 150 reais, quase o dobro do valor de uma peça convencional de picanha. Com experiência no mercado financeiro, Rogerio Betti resolveu largar o mundo das ações para apostar na onda do dry aged. Começou com um e-commerce em 2016. O plano era negociar vinte peças por mês, mas não demorou para que elas chegassem a 400. O passo seguinte foi abrir um açougue, que também superou as metas definidas no planejamento de negócios. Por fim, o caminho natural foi inaugurar um restaurante, o Quintal de Betti, que rapidamente se tornaria uma das novas sensações gastronômicas de São Paulo. Em dezembro, o empresário acrescentou mais um endereço ao seu portfólio: a lanchonete Sheikh+QBurgers, que serve hambúrgueres feitos com a mistura de cortes dry aged e carnes tradicionais in natura. “É ainda algo pouco conhecido por aqui”, diz. A fome de expansão também ocorre na parceria do Pão de Açúcar com a Friboi. “Desde que começamos a oferecer o produto nas lojas, a curva de consumo é crescente”, conta Luís Otávio Moura, gerente de desenvolvimento do Pão de Açúcar. A ideia agora é levar o serviço a outras regiões do país. Como se vê, para desespero da turma dos vegetarianos, o apetite por carne continua voraz.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 28 DE MARÇO

DEUS VESTIU PELE HUMANA

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus (João 1.1).

O apóstolo João, no prólogo do seu evangelho, diz: E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai (v. 14). Esse é um mistério sublime. O Deus transcendente tornou-se imanente. Esvaziou-se aquele que nem o céu dos céus pode conter. Nasceu numa manjedoura aquele que criou todas as coisas pela palavra do seu poder. Foi enfaixado em panos como um bebê aquele que é o Senhor do universo. Tornou-se perfeitamente homem aquele que é perfeitamente Deus, sem perder sua natureza divina. Fez-se pecado aquele que é santo. Foi feito maldição aquele que é bendito eternamente. Aquele que é o autor da vida deu sua vida para nos remir do pecado. Deus vestiu pele humana e veio habitar entre nós. Os céus desceram à terra. Cheio de graça e verdade, vimos na face de Cristo a glória do Pai. Ele e o Pai são um. São da mesma essência. Quem vê o Filho vê o Pai e quem tem o Filho tem igualmente o Pai. A encarnação do Verbo é a expressão máxima da graça. Deus não nos abandonou em nosso pecado, mas desceu até nós na pessoa de seu próprio Filho para nos remir do pecado, nos arrancar do império das trevas e nos livrar da ira vindoura. Essa é uma mensagem de esperança. É o caminho aberto por Deus desde o céu, é a porta aberta da graça aos pecadores. É a oferta graciosa do perdão. Por meio de Cristo, podemos achegar-nos a Deus confiadamente, sabendo que ele nos aceita, nos recebe e nos oferece salvação e vida eterna.

GESTÃO E CARREIRA

POR UM PLANETA SEM LIXO

Necessidade de diminuir descarte de resíduos no meio ambiente gera oportunidades para empreendedores engajados

“Se não mudarmos de rumo agora, seremos destruídos pelas mudanças climáticas. “A frase, dita pelo secretário-geral da ONU, António Guterres, no último Fórum Econômico Mundial, que aconteceu no mês passado em Davos, é apocalíptica. Mas dá a dimensão do problema. De acordo com ele, tanto empresários quanto autoridades públicas precisam repensar a dinâmica da economia e o modo como produzimos na indústria, nos movemos e planejamos as cidades. “Isso será essencial”, decretou António no evento, que bateu com força na tecla da preservação ambiental.

Embora figuras importantes, como Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, questionem o aquecimento global, cada vez mais os consumidores se preocupam com as demonstrações de desgaste da Terra. Movimentos como o liderado pela ativista sueca Greta Thunberg, de 16 anos, espalham-se à medida que crescem os desastres no planeta.

Só no último ano, incêndios dizimaram a população de coalas na Austrália, a cidade de Veneza, na Itália, ficou debaixo d’água e fotos de satélite mostraram, em pleno Oceano Pacífico, uma ilha de plástico três vezes maior que o território da França. “Os sinais estão evidentes e vêm sendo propagados por uma série de celebridades. Isso muda a percepção das pessoas, que se sentem inspiradas a ter um comportamento mais sustentável”, diz Angélica Salado, gerente de pesquisa da Euromonitor International, consultoria de inteligência de mercado.

Em 2019, a Euromonitor fez uma pesquisa global sobre estilo de vida com cerca de 30.000 pessoas ao redor do mundo e mostrou que 64% delas acreditam ser possível fazer a diferença melhorando suas escolhas ele consumo, 61% estão preocupadas com as mudanças climáticas e 35% pretendem comprar itens de segunda mão para frear o descarte.

Outro estudo, denominado Who Cares, Who Does, da Kantar, líder global em dados e insights sobre comportamento do consumidor, ouviu mais de 65.000 pessoas em 24 países e detectou que um terço delas está em alerta com as questões ambientais, sendo que 16% já adotam práticas para diminuir seu impacto individual no planeta. Ao aplicar um filtro na América Latina, a consultoria descobriu que 72% dos respondentes carregam sacola reutilizável para fazer compras ou garrafinha de água para refil. “É uma mudança na forma de consumir. E, quanto maior o PIB e o acesso à educação, maior o engajamento com a questão ambiental”, afirma Kesley Gomes, diretora da Kantar Worldpanel.

É possível perceber mudanças até na geladeira do brasileiro. Levantamentos recentes da Kantar, por exemplo, refletem isso. A pesquisa Who Gare, Who Does mostrou que 27% dos lares no Brasil tiveram algum tipo de alteração de hábito alimentar no último ano, como redução do consumo de produtos industrializados, refrigerantes, açúcar e carne vermelha. Além disso, o estudo revelou que quase metade dos entrevistados (48%) espera que as empresas façam mais para cortar resíduos plásticos.

MENOS RESÍDUOS

Atentos, gigantes como Nestlé, Coca-Cola, Unilever, Walmart e Carrefour já se comprometeram a transformar todas as suas embalagens em reutilizáveis, recicláveis ou compostáveis até 2025. No Brasil, a Coca-Cola espera que até o final deste ano 40% das garrafas que produz sejam retornáveis.

É essa onda que surfam os chamados negócios de “lixo zero”. Embora não existam dados consolidados sobre o crescimento desse tipo de empreendimento, especialistas veem uma guinada nas iniciativas. “Nos últimos anos, houve um aumento de empresas voltadas para a temática do lixo zero, principalmente as que comercializam produtos para substituir itens plásticos descartáveis de uso diário, como canudos, copos, sacolas e artigos de higiene”, afirma Denise Hamú, representante do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente no Brasil. “Perfis e páginas que fornecem informações sobre substituição de descartáveis e consumo consciente ganham centenas de seguidores diariamente. E isso indica um interesse da população pela temática”, completa.

A geógrafa Lívia Humaire, de 37 anos, é um exemplo. Em 2014, decidiu mudar os hábitos de consumo e diminuir 85% da produção de lixo de sua família, documentando tudo nas redes sociais (seu Instagram @transicoes_ecologicas tem 12.000 seguidores). Em 2017, ela fez uma viagem à Europa para pesquisar negócios revolucionários de desperdício zero. Voltou convencida de que havia ali uma oportunidade e de que abriria algo com esse viés no Brasil. Foi assim que nasceu, em setembro de 2018, a loja Mapeei – Uma Vida Sem Plástico, em São Paulo.

Para executar a ideia e levantar investimento, ela (que hoje está morando na Suíça) iniciou uma campanha de crowdfunding no Catarse. Arrecadou, na época, 16.650 reais. O restante do aporte, cerca de 100.000 reais, veio do próprio bolso e da sócia, a atriz e designer de moda americana Lori Vargas, de 44 anos. “Tudo que entra é reinvestido na loja. Não temos lucro, mas já alcançamos o breakeven [ponto de equilíbrio nos negócios)”, diz Lori. O foco da Mapeei é vender produtos e ferramentas que possibilitem uma vida com menos embalagens: há de cosméticos em barras a itens como marmitas, copos e canudos reutilizáveis. Os preços variam de 5 a 143 reais. Só entram no estabelecimento artigos cuja cadeia produtiva dispense o uso de plástico. “Nosso maior desafio é encontrar os fornecedores. Quando começamos, não havia opções. Escova de dentes de bambu, por exemplo, só lá fora. Agora já temos alguns produtores locais”, diz Lori. Na abertura da loja, as duas contavam com 200 produtos. Hoje, já são mais de 600. “Em pouco mais de um ano, nossas vendas triplicaram.”

Saíram de um único funcionário para uma gerente e três vendedoras. “Na primeira semana, nós vendemos todos os produtos e ficamos na correria atrás de mais, porque a maior parte da produção ainda é artesanal. Nossa primeira fornecedora de tecido de cera de abelha fazia as peças na sala da casa dela. Hoje ela já possui uma pequena fábrica”, diz Lori, para exemplificar o avanço desse mercado.

ECONOMIA CIRCULAR

De acordo com o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil, realizado pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), o Brasil gerou 79 milhões de toneladas de lixo em 2018. Em média, cada cidadão produziu 380 quilos de resíduos sólidos urbanos, totalizando 1 quilo por dia. E o plástico é um dos principais vilões. “É o mais encontrado nos mares. Hoje, de 60% a 90% do lixo presente nos oceanos é composto de diferentes tipos de plástico. E cerca de 100.000 animais marinhos morrem todos os anos por causa disso”, diz Denise Hamú, das Nações Unidas. Ela pontua ainda que apenas 9% do lixo plástico gerado no mundo é reciclado.

É por essas e outras que especialistas em economia circular, modelo que prega o fim do descarte nas cadeias produtivas, acreditam que o capitalismo terá de se reinventar. “As empresas vão precisar criar produtos que sejam duráveis, reutilizáveis ou, então, que sirvam de matéria-prima secundária em um novo processo industrial”, diz Denise. Aldo Ometto, coordenador do Centro de Pesquisas em Economia Circular do Inova, centro de inovação da Universidade de São Paulo, concorda. “O caminho é o da reutilização. Como desenho um produto que, depois de usado, seja reincorporado ao sistema?”, diz o pesquisador, reforçando que as empresas que saírem na frente, colocando ideias de circularidade em prática, terão um ganho não só de reputação como também de receita. A Boomera, startup especializada em transformação de resíduos em novos produtos, aposta nisso. Fundada há oito anos, ela desenvolveu um método próprio, chamado Circular Pack. O mecanismo, aplicado em grandes companhias, segue seis preceitos: engajamento e sensibilização; estratégia circular; pesquisa e inovação; logística reversa; design e transformação; e novo início. Atendendo mais de 400 clientes, como Unilever, Natura, P&G, Down e Adidas, a Boomera cresce três vezes de tamanho a cada ano. E tem números que impressionam. Hoje, além de prestar consultoria em economia circular para gigantes fabris, a startup dá destino a mais de 60.000 toneladas de lixo anualmente, que são utilizadas como insumo para dois produtos vendidos pela própria Boomera: uma resina reciclada e uma linha de lonas, que podem ser usadas para a cobertura de piscinas, por exemplo. Esses itens, desenvolvidos em um laboratório que a Boomera mantém dentro do Instituto Mauá de Tecnologia, em São Paulo, são produzidos em uma fábrica própria por meio da transformação de garrafinhas, copos e outros produtos plásticos.

Para recolher esses materiais, a startup faz uma parceria com o grupo de supermercados Pão de Açúcar, onde possui mais de 100 postos de coleta. Quem recolhe esse “lixo” e leva para fábrica da Boomera são 8.000 catadores de cooperativas treinados pela própria startup. “Nossa sociedade é pautada pelo descarte. Por isso, precisamos de muitos outros negócios pensando em soluções. Há inúmeras oportunidades nesse ramo”, diz Guilherme Brammer, de 42 anos, fundador e CEO da Boomera, que começou com três funcionários e hoje já conta com mais de 150.

Em 2019, a Boomera contratou 50 pessoas, entre engenheiros de materiais e ambientais e economistas. Neste momento, existem cinco vagas abertas para o departamento comercial.

TENDÊNCIA DE CRESCIMENTO

Na visão de especialistas, quando os clientes se tornarem ainda mais exigentes, as companhias serão obrigadas (por uma questão de reputação e de sobrevivência) a dar uma destinação mais adequada aos artigos que fabricam. Ou seja, no futuro, profissionais e empreendimentos especializados em gestão de resíduos terão um enorme espaço. “Consultorias que souberem dimensionar o real impacto de cada negócio e conseguirem ajudar as empresas a repensar suas estratégias de produção serão muito bem-sucedidas”, afirma Angélica, da Euromonitor.

Esse é o caso da Casa Causa, consultoria de gestão de resíduos criada pela psicóloga Flávia Cunha, de 53 anos, e pela economista Luciana Annunziata, de 48, ambas com experiência em consultoria e transformação de cultura nas organizações. A dupla desenvolveu o modelo de negócios – que envolve palestras, eventos e experiências de sensibilização sobre redução de lixo – durante um programa de inovação social.

O investimento inicial da dupla foi de 50.000 reais, utilizados para viagens de estudo, desenvolvimento do site e ações de marketing para tornar a iniciativa conhecida. Nos últimos dois anos, a consultoria cresceu 40% em faturamento, melhorou a margem de lucro (18% em eventos e 20% em consultorias) e contratou seis pessoas, a maioria para a área de marketing e comunicação.

De acordo com as sócias, os especialistas são contratados por projeto, sob demanda. Para o Carnaval deste ano em São Paulo, a Casa Causa contratou mais de 3.000 pessoas. Isso porque fechou um projeto com a Ambev para dar uma destinação adequada ao lixo produzido no evento. “Há um aumento da pressão dos consumidores sobre as marcas que não fazem gestão de resíduos. E, cada vez mais, grandes empresas nos procuram para conhecer nosso trabalho”, afirma Flávia. A meta para 2020 é aumentar em 30% o número de clientes.

Hoje são dez, entre Casa Santa Luzia, Virada Sustentável e Alelo, que contratou a Casa Causa para sensibilizar os funcionários em relação ao problema dos resíduos. “Começamos com uma palestra no aniversário da empresa, criamos mutirões de limpeza e pensamos, junto com os times, em soluções para reduzir o desperdício. Também montamos comitês para trabalhar temas como resíduos de escritório e de alimentação”, diz Flávia. Um bom sinal de que o assunto avança no mundo corporativo.

TE CUIDA, CAPITALISMO

Pesquisas mostram mudanças no comportamento dos consumidores

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

PODEMOS CURAR O MEDO?

Tendemos a encarar qualquer perigo que presenciamos como ameaça pessoal – mesmo que essa “ameaça está do outro lado do mundo, sendo vista apenas pela televisão. Tomar uma pílula ajudaria a resolver isso?

Era o começo de 2004 e minha filha de quase 3 anos estava tomando banho de banheira. Quando o jato da hidromassagem ligou, ela ficou em estado de choque. Corri até ela e a encontrei de pé, vermelha de tanto chorar.  Muitos meses depois, ela ainda mantinha verdadeiro horror a banhos. Na condição de médico que estudou a neurobiologia do medo, eu sabia que o córtex pré-frontal de seu jovem cérebro tinha acabado de conectar seu “centro de segurança”, onde o raciocínio analítico pode se impor sobre emoções primitivas.

Tentei recorrer a seu centro cerebrais para suprimir o temor de que a banheira sempre produziria aquelas bolhas assustadoras, mas a resposta inata de seu corpo era forte demais. Ao adotar banhos de chuveiro e desviar sua atenção, consegui, pouco a pouco, fazê-la voltar a usar a banheira. Mas até hoje ela tem medo de bolhas.

Porque é tão difícil lidar com o medo? E o que podemos fazer a esse respeito? A terapia tem ajudado muitas pessoas; outros têm se valido da força que tiram de sua fé, de grupos de apoio. No entanto, em um mundo em que constantemente presenciamos acontecimentos de arrepiar os cabelos- como as consequências de um ataque de um homem-bomba, mostradas em cores na televisão de nossa sala, em sites da internet e na primeira página dos jornais – será que esse apoio verbal basta? Em resposta a uma preocupação crescente, estão surgindo remédios para controlar o medo. Resta saber se podemos – e mais, devemos – pura e simplesmente tomar uma pílula para reduzir nossas angústias.

Mais que um estado de espírito, o medo é químico. Surge dos circuitos cerebrais, nas trocas neuroquímicas entre as células nervosas e corresponde a uma reação física ao perigo. Desde que seja direto e real, é perfeitamente normal e ajuda a nos protegermos. Além disso, tem também um componente genético. Um rato irá se apavorar com o cheiro de uma raposa mesmo se tiver passado toda sua vida em laboratório. Da mesma maneira, nós, seres humanos, ficamos automaticamente apreensivos diante de situações que colocavam em perigo nossos antepassados.

Quando uma pessoa se sente ameaçada, seu metabolismo se acelera, antecipando a necessidade iminente de fugir ou de se defender. O “lutar ou correr”, também conhecido como reação ao estresse crônico, foi descrito pela primeira vez na década de 20 por Walter B. Cannon, um fisiologista da Universidade de Harvard. Cannon observou que os animais, inclusive seres humanos, reagem ao perigo por meio de uma descarga hormonal do sistema nervoso. O corpo lança uma torrente de hormônios vasoconstritores e aceleradores, da frequência cardíaca, entre os quais a epinefrina, a norepinefrina e o esteroide cortisol. O coração começa a bater mais rápido e mais forte, os nervos respondem em menor tempo, a pele esfria e fica arrepiada, os olhos se dilatam para enxergar melhor e as áreas do cérebro envolvidas na tomada de decisões recebem a informação de que é hora de agir.

No comando desses processos está uma pequena estrutura cerebral em forma de amêndoa, a amígdala. Joseph E. LeDoux, neurocientista da Universidade de Nova York, pioneiro no estudo dos mecanismos cerebrais de emoção e memória, a descreve como “o centro de comando cerebral do medo”. Nela são processadas as emoções primitivas de medo, ódio, amor e raiva – todas vizinhas no cérebro límbico que herdamos dos animais dos quais evoluímos. Trabalhando em conjunto com outros centros que a estimulam ou respondem a ela, a amígdala recebe informações sensoriais através do tálamo (o ‘receptor’ do cérebro), analisa esses dados com o córtex (responsável pelo raciocínio) e lembra delas por meio do hipocampo (que armazena as memórias).

De acordo com LeDoux, são necessários apenas 12 milissegundos para o tálamo processar as informações sensoriais e mandar um sinal à amígdala. Ele chama esse cérebro emocional de “estrada secundária”. A “estrada principal”, ou cérebro pensante, leva de 30 a 40 milissegundos para processar um acontecimento qualquer. “As pessoas têm medos que não entendem ou não conseguem controlar porque eles são processados pela estrada secundária”, afirma LeDoux.

O FATOR MEDO

Uma vez que uma pessoa aprende a se sentir amedrontada em relação a algo, ele ou ela tendem a associar um sentimento de pavor a essa experiência. E nós, seres humanos, podemos ficar assustados com acontecimentos sobre os quais só ouvimos dizer ou lemos em algum lugar – ou seja, podemos nos preocupar com desastres que talvez nunca nos atinjam. Se, pela ausência de um alvo apropriado, somos incapazes de responder ao causador desse medo, ficamos ansiosos.

Além disso, segundo estudos sobre a avaliação de riscos por seres humanos, realizados pelos psicólogos Robert J. Blanchard e D. Caroline Blanchard, da Universidade do Havaí em Manoa, em geral as pessoas não conseguem determinar com precisão o nível da ameaça. Tendemos a ver o risco como algo que nos afeta direta e pessoalmente, além de sentir o perigo de forma completamente irrealista quando lemos ou ouvimos falar de uma coisa ruim que aconteceu com outra pessoa.

Minha sogra, por exemplo, tem esclerose múltipla em um estágio bastante avançado, o que a mantém em uma cadeira de rodas há 20 anos. Meu cunhado apresentou um caso leve de esclerose múltipla, o que levou minha esposa, que é neurologista, a revelar seu temor – na verdade, quase uma certeza – de que ela seria a próxima. Toda vez que volta ao assunto de que está fadada à doença tento demovê-la da ideia citando estatísticas segundo as quais apenas 4% dos parentes próximos correm risco de apresentar a doença. ”A chance de você não desenvolvê-la é de 96%”, digo. Mas para ela, assim como para muitos outros, o problema está nos 4%. O amor por sua mãe e uma tendência natural a introjetar sua experiência geram o medo e a certeza do “destino certo”, não obstante seus amplos conhecimentos sobre neurologia.

O medo recorrente ou constante tem efeitos deletérios sobre o corpo, comparáveis ao que acontece se sempre andarmos com a canoa 140km/h. Isso aumenta, e muito, a chance de surgirem doenças cardíacas, derrames e depressão. Por isso, devemos concentrar nossos esforços na prevenção dos “assassinos comuns” – como os enfartes, que acontecem em decorrência de nossas constantes preocupações – e não em eventos fora do comum ou em epidemias exóticas. Senão, vejamos, em 2001, 2.978 pessoas morreram nos Estados Unidos em ataques terroristas, incluindo cinco vítimas de ataques com antraz. Naquele mesmo ano, de acordo com o Centro para Controle de Prevenção de Doenças, 700.142 pessoas morreram de problemas cardíacos, 553.768de câncer, 101.537 em acidentes, e 30.622 por suicídio. Assassinatos (sem contar os ataques de 11 de setembro) foram responsáveis por apenas 17.330 mortes.

O que podemos fazer em relação ao medo irracional? Não há tratamento padrão, em parte porque os sintomas variam de um indivíduo para outro. Uma pessoa pode se sentir destinada ao azar e ter um sentimento maior de apreensão em função de determinada tendência familiar. O corpo de alguns libera hormônios do “lutar ou correr” mais facilmente que o de outros. Até o momento, terapias longas que procuram reeducar pacientes para que não ativem seus temores têm sido a principal solução. Mais recentemente, no entanto, estudos sugerem que a terapia poderia ser complementada por uma simples pílula capaz de bloquear os receptores ou a produção dos sinais de medo, ou até por uma “vacina do medo”. Mas o objetivo das pesquisas não é encontrar uma vacina tradicionalmente: o sistema imunológico desenvolve a capacidade de se proteger em resposta à presença de um agente infeccioso induzido no corpo. Em vez disso, a ideia é preparar quimicamente o sistema imunológico para que seja o mais saudável possível, tornando o corpo menos suscetível a reagir de forma exagerada aos medos e ameaças.

Uma das primeiras indicações de que o tratamento do medo poderia se dar impedindo que determinados sinais fossem recebidos ou transmitidos pelos neurônios veio do trabalho do neurocientista Larry Cahill, da Universidade da Califórnia em Irvine. Em 1994, Cahill testou em seres humanos os efeitos da droga propranolol, um betabloqueador que impede a recepção de hormônios do stress chamados catecolaminas. Ele descobriu que essa droga fazia as pessoas se lembrarem melhor de uma história amena e leve que de uma assustadora. Em geral, a ansiedade suave que surge ao escutarmos um relato emocionante faz com que ele seja mais memorável que uma história enfadonha. É comum o uso de propranolol no controle da ansiedade e tratamento de pressão alta e outras doenças relacionadas, mas a pesquisa de Cahill sugere que essa substância tem um grande potencial no tratamento do medo.

Nessa mesma linha, Roger K. Pitman, professor de psiquiatria da Universidade Harvard, formulou a hipótese de que o uso de propranolol pode prevenir tanto a fixação de memórias relacionadas ao medo como atenuar a resposta do tipo “lutar e correr”. Em 2002, Pitman e sua equipe observaram os efeitos da administração de propranolol a 41 pacientes de um pronto-socorro seis horas após a ocorrência de um evento traumático (acidentes de carro em sua maioria). Os participantes do estudo receberam a droga por dez dias. Três meses após o trauma, Pitman observou uma incidência significativamente menor de problemas relacionados ao stress pós-traumático entre aqueles que haviam recebido a droga que no grupo de controle, que não havia usado o propranolol.

Outro modo de obstar as reações causadas pelo medo é impedir a produção de seus sinais. De acordo com LeDoux e Karim Nader, da Universidade McGill, em artigo publicado na edição de 17 de agosto de 2000 da revista Nature, ratos que receberam uma injeção de anisomycin, um antibiótico que inibe a síntese proteica, tinham sua memória do medo bloqueada. Eles eram incapazes de se lembrar de um susto anterior e não desencadeavam a reação de ‘lutar ou correr’ porque a amígdala não podia produzir as moléculas que enviavam os sinais de perigo.

Outra abordagem consiste em reduzir a reação neural desmedida. Um estudo do neurobiólogo Jonathan Kipnis, atualmente no Centro Médico da Universidade de Nebraska, e colegas, publicado na edição de 25 de maio de 2004 do Proceedings of the National Academy  of Sciences, USA, revelou evidências de que vacinas imunológicas poderiam impedir o medo excessivo. Eles injetaram em camundongos normais drogas da família das anfetaminas que causam sintomas psicóticos. Alguns dos animais receberam a vacina protetora, um coquetel conhecido como acetato de glatiramer, ou copolímero-1(Cop-1), um grupo de controle não foi vacinado. A Cop-1 estimula a produção de células T do sistema imunológico, que impedem as células nervosas de se tornar “irritadiças” ou de ter reações “explosivas”. Os camundongos que receberam a Cop-1 conseguiram atravessar um labirinto seguindo padrões conhecidos, mas o mesmo não ocorreu com os do grupo de controle. Aqueles que receberam a Cop- 1 apresentavam um comportamento normal e calmo, o que sugere terem escapado do estado de pânico. Esse tipo de modulação imunológica ainda tem de ser estudado em seres humanos, mas tudo indica que os resultados podem ser positivos.

Atenuar memórias assustadoras com pílulas ou vacinas não é, contudo, o mesmo que treinar o cérebro para lidar melhor com situações futuras. Independentemente do desenvolvimento desses medicamentos, a terapia continuará a desempenhar importante papel no tratamento do medo. O Conselho Presidencial de Bioética americano colocou a situação nos seguintes termos em Beyond Therapy (Para além da terapia): ‘O uso de atenuadores de memórias quando da ocorrência de eventos traumáticos pode interferir nos processos psicológicos normais. (…) Há o risco de que nossos novos remédios farmacológicos possam nos fazer ‘felizes’ ou impassíveis diante de coisas que deveriam ser problemas ou mesmo nosdeixar tristes, revoltados ou inspirados -que nossas almas medicadas ficarão estáveis não importa o que aconteça conosco ou à nossa volta”.

Por anos tenho tentado ajudar pacientes a lidar com seus medos de doenças sem saber se estou tendo sucesso ou não. Ao estudar os circuitos cerebrais do medo, descobri que ensinar pode não levará automaticamente a aprender. O medo é uma reação profundamente enraizada e difícil de ser controlada pelo cérebro. Às vezes é impossível evitá-la. A experiência da minha filha com as bolhas me ensinou que, se o medo é esquecido, é porque uma nova emoção tomou o seu lugar (ela criou coragem para voltar a tomar banho de banheira). Essa cura acontece no seu próprio ritmo, e pais ou médicos em geral têm pouco controle sobre ela.

Para dominarmos o medo, precisamos voltar a suas origens primitivas, um instinto especial para nos proteger de perigos físicos reais. Devemos deixar de fazer dele algo exclusivamente pessoal. Precisamos resistir aos que, na mídia e em outroslugares, acentuamos perigos errados e enfatizam a necessidade de responder a eles – o que faz com que a ameaça pareça ainda mais real. É preciso botar os pés no chão e dominar os aspectos controláveis de nossas vidas. Mais ainda, devemos substituir nossos medos irreais por coragem verdadeira.