GESTÃO E CARREIRA

A HORA DA VERDADE

A crise aguda na Bolsa de Valores provocada pelo coronavírus é teste para mais de 1 milhão de novatos que investiram em ações nos últimos dois anos

O primeiro “circuit breaker” a gente nunca esquece – nem o segundo, nem o terceiro, nem o quarto… Ainda mais quando eles chegam juntos, como nesta semana, para mais de 1 milhão de pequenos investidores que entraram na Bolsa de Valores nos últimos dois anos. O mecanismo de paralisação dos negócios foi acionado às 10h30 da segunda-feira 9, quando o índice Ibovespa despencava 10%. Aquele botão de emergência automático não intervinha para acalmar os ânimos desde o chamado “Joesley Day”, quando se conheceu a delação do sócio da JBS, Joesley Batista, em maio de 2017.

Em retrospectiva, o tombo há três anos parece pequeno. Agora o medo é global, provocado pelas projeções dos efeitos que a pandemia do novo coronavírus terá na economia real e pela queda de braço entre sauditas e russos sobre o preço do petróleo. Na quarta-feira 11, a crise sem hora para acabar provocaria uma nova parada nas negociações na Bolsa brasileira. No mesmo dia, o índice Dow Jones, que mede a performance das maiores empresas americanas, tinha uma queda que acabava com um período de 11 anos de buli market, jargão usado para descrever um longo ciclo de alta. Na quinta-feira 12, a parada na Bolsa brasileira se repetiria duas vezes somente pela manhã – e ninguém fazia ideia de quando essa onda de “circuit breakers” teria fim. Para completar, o dólar passou, pela primeira vez, a barreira dos R$ 5.

A primeira grande crise da Bolsa de Valores na era digital – em 2008, apenas 34% da população brasileira tinha acesso à internet, hoje são mais de 70% – tem tido uma boa dose de humor. Um dos vários memes que circularam nos últimos dias fazia referência a uma propaganda do ano passado da Empiricus, uma empresa de análise financeira, que começava com “Oi, meu nome é Bettina e eu tenho 22 anos e R$ 1,04 milhão de patrimônio acumulado” e prometia o enriquecimento com o investimento em ações. Atualizado no começo da segunda semana de março por tuiteiros, a mensagem mudou para: “Oi, meu nome é Bettina, tenho 22 anos e R$ 700 mil de patrimônio”. Na quinta-feira 12, já havia uma nova versão: “Oi, meu nome é Bettina, tenho 22 anos e estou te convidando para o meu bazar de roupas no próximo domingo”.

Travestido de piada, o meme embutia uma crítica a uma certa euforia que, desde o fim de 2018, tomou conta de parte dos “influencers” de investimentos e de casas de análise independentes. Muitos deles esqueceram de falar dos riscos embutidos no investimento em ações com a mesma ênfase que davam às oportunidades. Não faltou quem incentivasse as pessoas a virar day traders, gente que passa o dia comprando e vendendo ações, o que pode dar certo num mercado que só sobe, mas se complica quando o cenário fica turvo e é preciso pagar a escola dos filhos e a conta de luz.

“Com o fim do juro alto e do ganho generoso que vinha das aplicações financeiras de renda fixa, o brasileiro ficou na incerteza em relação a seus investimentos. E, nesse cenário, está vulnerável a todo tipo de informação”, disse Vera Rita de Mello Ferreira, doutora em psicologia social, com especialização em psicologia econômica.

Arnaldo Curvello, sócio diretor da gestora Ativa, brinca que, na alta, todo mundo vira gênio, todo mundo é guru. “O problema da rede social foi que ela gerou a falsa impressão de que tomar risco era sinônimo de ganhar, de vida fácil”, disse Curvello.  A Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o órgão encarregado de fiscalizar o mercado financeiro no Brasil, recebeu, no ano passado, cerca de 40 reclamações contra os chamados “consultores e analistas financeiros” que ofereceram cursos ou dicas em troca de dinheiro. O número, provavelmente subnotificado, é 50% maior que em 2018. Somente casos em que há pedido de dinheiro em troca das informações ou recomendação de ações são investigados. Patrocínios não divulgados de youtubers não viram alvo. Com esse histórico de muitos conselhos exagerados, o temor agora é de uma debandada dos novatos da Bolsa num momento de preços em queda. “Muita gente corre o risco de ter subido de escada e agora descer de elevador”, disse Samy Botsman, sócio diretor da Faros Investimentos, consultoria financeira com sede no Rio de Janeiro.

Ben Bernanke, que pilotou o banco central americano, o Fed, na pior tormenta financeira desde a Grande Depressão, costuma dizer que as pessoas aprendem mais em momentos de grande abalo econômico do que com pequenas crises. Na segunda semana de março, os pequenos investidores brasileiros pareciam se dividir em dois grupos. Um dava sinais de estar resistindo ao derretimento das ações e o outro estava vendendo com perdas pesadas. A Bolsa brasileira ainda não havia consolidado os números oficiais, mas dados preliminares divulgados por corretoras indicavam – até aquele momento – um efeito difuso. Ainda assim, não faltaram brincadeiras nas redes sociais. Um meme do perfil satírico MonkeyStocks dizia: “Dados de mortalidade do coronavírus: 60 a 69 anos – 3,6%. Investidor com seis meses de Bolsa – 98%”.

Na corretora Guide, de São Paulo, as quedas do Ibovespa geraram apreensão e muitos questionamentos de clientes. Num primeiro momento, havia mais gente comprando que vendendo. Na quinta-feira, quando uma nova onda de pânico tomou conta da B3, a situação mudou de figura. “Há muito pequeno investidor se desfazendo de suas posições. O cenário mudou. Agora não é apenas o coronavírus. Há também decisões do Congresso prejudicando as perspectivas da economia”, disse Luís Sales, analista da Guide, em referência à queda de braço dos congressistas com o Planalto.

Guilherme Fernandes, de 25 anos, tomou um susto quando acordou na segunda-feira 9. “Ué, a Bolsa parou? Por que as cotações estacionaram?”, lembrou Fernandes sobre o que veio a sua cabeça. Ele havia estreado na Bolsa em janeiro com recursos do seguro-desemprego. Depois de olhar o noticiário, leu que havia acontecido um “circuit breaker”, algo que até então desconhecia. Naquele dia, apenas observou, aflito. Quando a Bolsa foi forçada a parar novamente nos dias seguintes, ficou ainda mais tenso. “Daqui para a frente, vou avaliar quanto e como vou colocar em ações, estudar mais. Ainda bem que não caí naquele hype absurdo dos influencers da internet no ano passado. Poderia ter perdido mais dinheiro”, disse.

A pergunta de R$ 3,5 trilhões – o valor de mercado das empresas negociadas na B3 – é se a posição dos novatos que estão resistindo à tentação de sair da Bolsa vai se manter e se mais gente vai entrar. Os argumentos do ponto de vista mais otimista sustentam que os investidores têm motivos para “não realizar a perda” (só perde dinheiro quem vende as ações na baixa). O valor dos papéis é um reflexo das expectativas de ganhos futuros das empresas. Se o passado serve de guia, a economia é feita de ciclos e, depois de eventuais quedas, volta a ter altas.

Essa é a visão de longo prazo. A seu favor, tem a perspectiva de que o Banco Central volte a cortar ainda mais a taxa de juros, o que tornaria os investimentos em renda fixa menos atraentes do que estavam quando houve a grande migração de pessoas físicas para a Bolsa. “Não é um trauma que vai afastar os novatos da Bolsa, porque o processo de aculturamento está apenas no início. Na verdade, muita gente vai ver como uma chance de entrar. Para afastar mesmo, teria de haver uma depressão”, observou Márcio Correia, sócio da gestora JGP.

O problema é que o quadro hoje está ainda muito indefinido, com bancos e governos cortando previsões de crescimento para a economia mundial e também a brasileira, que, por sinal, já não vinha bem. O crescimento do PIB em 2019 foi de mísero 1,1 %. As dúvidas quanto ao futuro podem variar em grau, mas tendem a ser as mesmas em todas as partes do mundo. Basicamente, dizem respeito a como a economia de cada país será afetada internamente pela pandemia do novo coronavírus, o que cada governo tem à mão para combater os efeitos negativos e qual vai ser o tamanho da freada do PIB global.

Em países desenvolvidos, algumas medidas já foram tomadas na tentativa de atenuar as consequências negativas da crise. O primeiro movimento de peso veio dos Estados Unidos, onde o Fed surpreendeu ao anunciar um corte emergencial de meio ponto percentual em suas taxas de juros. Embora o corte tenha mais assustado do que tranquilizado os investidores, seu objetivo é estimular a atividade diante da demanda mais fraca com a epidemia. O Reino Unido anunciou um pacote de estímulos econômicos de US$ 38 bilhões, enquanto a Itália, segundo país mais afetado pela doença, vai gastar US$ 28 bilhões para aquecer sua economia paralisada.

No Brasil, restrições fiscais e a lentidão econômica dificultam a tomada de medidas, o que divide economistas. Enquanto os mais ortodoxos defendem reformas estruturais, como a tributária ou cortes nos juros, a ala mais heterodoxa propõe estímulos diretos por meio do caixa bilionário do BNDES e mesmo uma flexibilização do teto dos gastos. No câmbio, a discussão gira em torno da necessidade de mais intervenção pelo Banco Central.

Henrique Bredda, gestor do fundo de ações Alaska, tem 127 mil seguidores na FinTwit, a comunidade de pessoas que comentam mercado financeiro no Twitter. Ele é um dos que atestam a maturidade dos investidores brasileiros. Ao embarcar em um voo de São Paulo para Goiânia no fim do ano passado, Bredda foi abordado pela comissária. “E aí, zerou?”, questionou ela, referindo-se a um tuíte em que o gestor dava conta, naquele mesmo dia, que estava reduzindo sua exposição às ações da varejista Magazine Luiza, um dos papéis mais valorizados da Bolsa. A cena se repetiria com o recepcionista do hotel.

Pelo comportamento dos cotistas do Alaska durante a crise, Bredda está convencido de que esse tipo de cena vai continuar acontecendo. “Esperávamos pânico, mas o que houve foi uma rotatividade. Muita gente pediu para resgatar os investimentos, mas muitas pessoas também decidiram investir mais. O saldo tem sido positivo”, disse.

Quem estuda o mercado de perto tem uma impressão semelhante. Michael Viriato, professor de finanças do Insper, uma universidade em São Paulo, vê um pequeno investidor mais maduro e propenso a risco: “Quem saiu forte foram os investidores internacionais. Ainda não temos os números, mas, pelo que tenho observado, eu diria que muita gente que perdeu a festa do ano passado está aproveitando para entrar”, disse. A negociação dos papéis preferenciais da Petrobras no dia 9 tende a confirmar o que diz Viriato. Corretoras que costumam atender sobretudo clientes institucionais e estrangeiros, como os bancos Goldman Sachs e JP Morgan, venderam muito mais do que compraram. Na ponta contrária, corretoras que, majoritariamente, atendem pessoas físicas, como Clear, Genial, Rico e Easynvest, acabaram intermediando mais a compra das ações.

O universitário Bernardo Rubião tinha tudo para se considerar um azarado na Bolsa. Comprou R$ 500 em ações da Petrobras às vésperas do Joesley Day. “Perdi 40% e traumatizei. Disse: ‘Não quero mais brincar disso”, relembrou. Ficou um ano longe das ações, até que recobrou a confiança no fim do governo Temer. Mais uma vez, tomou um tombo. Apostou na Vale pouco antes do acidente de Brumadinho no ano passado. Mesmo assim, continuou investindo em ações e ganhou muito no ano passado. Na segunda-feira 9, assistiu perplexo a sua carteira na Bolsa desvalorizar em 30%, queda atenuada graças às aplicações em outras categorias, como renda fixa. Mesmo assim, não se desfez dos papéis. “A faca está caindo, não adianta tentar pegá-la em pleno ar, senão você se corta. Mesmo que a Bolsa continue caindo, não vou sair do investimento, porque acredito na recuperação”, afirmou o estudante de Direito.

Para quem quer colocar mais dinheiro em ações ou aproveitar a queda para começar a investir em renda variável, o consultor de investimentos Paulo Bittencourt, que atua no mercado financeiro há quase 30 anos, tem um conselho. Ele argumenta que não é recomendável investir na Bolsa por impulso, especialmente para quem é iniciante. O mais seguro, em sua opinião, é migrar da renda fixa para a chamada renda variável com fundos de ações. Um gestor profissional escolhe vários papéis que considera com maior chance de valorização. Para isso, cobra uma taxa de administração de quem aplica. E toma suas decisões baseado em centenas de informações, que geralmente não chegam à pessoa física. “O investidor vai receber relatórios do gestor, vai saber exatamente por que ele está comprando aquele papel. Se, depois de dois anos, a pessoa tiver perfil para as oscilações da Bolsa, pode começar a aplicar diretamente numa ação”, disse Bittencourt.

Em momentos de crise aguda como a atual, há sempre a possibilidade de novos desdobramentos inesperados. Quem diria há um mês que o príncipe saudita Mohammed bin Salman apertaria o botão da guerra do preço do petróleo com a Rússia, o que aconteceu no começo de março. Após três anos de cooperação, o russo Vladimir Putin discordou dos planos da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) sobre a nova redução coordenada na produção da commodity. Seria uma forma de sustentar a cotação do barril mesmo diante da demanda menor com o coronavirus.

A estratégia russa é derreter os ganhos da indústria americana de petróleo, mais sensível à queda do barril. Em represália à negativa russa, porém, a Arábia Saudita anunciou que cortaria seus próprios preços em mais de 10% e que aumentaria sua produção. Escolheria, assim, compensar a desvalorização com vendas maiores. O impacto nos mercados foi imediato. Já no domingo 8, o petróleo desabou mais de 30% logo na abertura dos pregões asiáticos, no maior tombo desde a Guerra do Golfo, em 1991. Bolsas de todo o mundo despencaram, ecoando temores de uma nova recessão global.

Apesar do desempenho maluco do lbovespa e de outros índices mundo afora, analistas reforçam que não é hora de desespero. Praticamente todos acreditam que, a despeito do sensível aumento do risco com a pandemia, a conjuntura econômica brasileira, com seus juros historicamente baixos, acaba tornando a Bolsa uma opção atraente. Longas séries históricas comprovam que, em horizontes mais estendidos, a tendência da Bolsa é subir. “Estou no meu sétimo circuit breaker e acredito que, no longo prazo, a Bolsa sobe. Hoje, ela já está em nível mais elevado do que em todas as ocasiões parecidas no passado. A humanidade anda para a frente”, disse Tiago Reis, fundador da Suno Research, uma empresa de análise financeira.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.