OUTROS OLHARES

SÓ POR HOJE EU NÃO VOU…

Como o vício em jogos eletrônicos, já classificado como um tipo de doença pela Organização Mundial da Saúde, afeta a vida de milhões no Brasil e no restante do mundo

Entre 2017 e 2018, João Pedro Meirelles, hoje com 21 anos, passou de 12 a 13 horas diárias ininterruptas em partidas de Rainbow six, jogo de tiro focado em realismo, estratégia, planejamento e trabalho em equipe. Na versão on-line, duas equipes duelam divididas entre ataque e defesa. O superestímulo que ele sentia a cada vitória o impulsionava a seguir a rotina, igualmente marcada pela intensidade da frustração nas derrotas. Estudante de ciência da computação no Insper, Meirelles até tentou parar com o videogame, mas foi em vão. Antes de encontrar ajuda especializada, considerou o suicídio. “Joguei muito nessa época. E isso me consumiu. Acabei sofrendo de depressão. O jogo de fato destruiu minha vida naquela época”, disse Meirelles, diagnosticado como dependente de videogame. Ele não está sozinho.

Depois de décadas de debate, a Organização Mundial da Saúde (OMS) incluiu, no ano passado, o vício em jogo eletrônico em sua Classificação Internacional de Doenças. Pela nova definição, a primeira pista de que algo está errado é quando o usuário eleva o nível de prioridade dos games a ponto de prejudicar aspectos de sua vida pessoal, a convivência com amigos e família, tarefas acadêmicas e ocupacionais – algo que lembra outros vícios, como álcool ou drogas. O padrão deve ser contínuo por, no mínimo, um ano para que o diagnóstico seja feito, dizem as regras da OMS, que estima em, no mínimo, 60 milhões o número de pessoas que sofrem com a falta de controle sobre o tempo que passam jogando. Esse número representa 3% dos 2 bilhões de usuários da videogames no mundo. “O dependente vai secando. Ele faz menos coisas, seu repertório diminui, seu universo existencial vai aos poucos se limitando ao objeto de dependência. Ele deixa de sair com os amigos, de jantar com a família, tranca a faculdade”, disse Aderbal Vieira Júnior, psiquiatra que coordena o ambulatório de dependência de comportamento do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). A decisão da OMS seguiu a da Associação Americana de Psiquiatria (APA, na sigla em inglês), que incluiu “distúrbio de jogo on-line” no Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais em 2013 como uma condição que precisa de atenção. Segundo a APA, o distúrbio apresenta características como abstinência, incapacidade de reduzir o tempo dedicado aos jogos, o ato de enganar membros da família sobre a quantidade de tempo gasto e o desenvolvimento de uma tolerância que faz com que o jogador passe a precisar cada vez mais do videogame. Os psiquiatras americanos pedem mais pesquisas, mas boa parte dos estudos já feitos indica um quadro preocupante.

Inês Caldas e João Reis, pesquisadores do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa (CHPL), em Portugal, fizeram uma revisão dos trabalhos existentes e chegaram à conclusão de que entre 1% e 10% dos jogadores ocidentais sofrem da desordem do videogame. Na Ásia, o número encontrado foi ainda maior, abrangendo de 10% a 15% dos gamers. Isso explica o fato de que os governos do Japão e da Coreia do Sul já tenham aprovado legislação para colocar limites à indústria dos desenvolvedores de games. Recentemente, a China vem dificultando a aprovação de novos jogos. No Ocidente, governos na Europa estudam medidas semelhantes.

Mesmo diante da escalada de ações contra os videogames, críticos no meio científico colocam em xeque a ideia de que videogame pode ser algo viciante. Muitos falam que faltam mais estudos sobre o tema. Outro argumento é que o excesso de horas à frente da tela é um sintoma de um problema mais profundo – de depressão a ansiedade. Laisa Sartes, professora do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), estudiosa do tema, confirma a existência de fatores como insegurança e baixa autoestima entre os jogadores assíduos. “A tela é a fonte da gratificação que eles não encontram na vida real”, disse. Outra crítica é que as pessoas são viciadas em produtos, como cigarros e bebidas, não em atividades, como corrida e pescaria. Esse é um dos argumentos do psicólogo Andrew Przybylski, diretor do Oxford Internet Institute, ligado à Universidade de Oxford, e conhecido contestador da decisão da OMS. “As pesquisas que atestaram a dependência dos games até agora são de má qualidade”, opinou Przybylski.

Embora não haja ninguém sério contra a ideia de fazer mais pesquisas sobre o assunto, existem pelo menos duas boas razões para soar o alarme já agora, antes da aparição de uma maior produção acadêmica sobre os efeitos dos jogos. Como a maior parte dos videogames hoje é on-line, os desenvolvedores têm uma quantidade enorme de dados para analisar e descobrir o que faz os jogadores ficar mais tempo diante da tela do celular ou do computador. Além disso, os dados permitem saber o que faz os usuários querer pagar mais por troféus ou upgrades. Com essas duas informações, é fácil criar incentivos para que crianças e jovens fiquem cada vez mais horas engajados nos jogos e, acima de tudo, gastem mais dinheiro. Usando o exemplo da pescaria do crítico Przybylski, é como se, cada vez que o pescador pensasse em ir para casa, sentisse o anzol sendo fisgado por um peixe maior.

Pode até ser discutível se um governo tem o direito de proibir um adulto de passar o dia inteiro jogando videogame, mas, quando o alvo são crianças e adolescentes, a discussão ganha outra dimensão. Não é mera coincidência que os jogadores de games mais assíduos sejam chamados pelo setor nos Estados Unidos de “whales” (baleias), o mesmo termo usado na indústria dos cassinos para designar os usuários viciados no jogo.

Um jovem de 15 anos do interior de Pernambuco reconhece que não tem mais controle. “Quanto mais a gente joga, melhor fica nosso personagem no game e somos mais respeitados pelos outros usuários. Até temidos. Isso me motivava a jogar cada vez mais”, contou o rapaz, que busca ajuda para parar. “Eu me sinto mal por passar muito tempo jogando. Ando pesquisando sobre relatos de pessoas que deixaram seu vício em redes sociais para ver se me dá ânimo para parar de vez”. O canadense Cam Adair já esteve nessa posição. Aos 21 anos, havia abandonado o ensino médio duas vezes por causa do videogame. “Na escola, eu sofria bullying. Já no videogame, eu não precisava me preocupar com crianças me intimidando porque, se o fizessem, eu poderia bloqueá­ las, mudar para um servidor diferente ou jogar um jogo diferente”, escreveu Adair em sua biografia. Em 2011, quando havia conseguido melhorar, ele escreveu um poderoso desabafo em um blog com o título “Como parar de jogar videogames para SEMPRE”. O artigo viralizou, e ele criou a plataforma Game Quitters. O fórum reúne pessoas de mais de 60 países, incluindo o Brasil, com algum grau de dependência.

Ao redor do mundo, começam a aparecer clínicas de tratamento especializadas. Próximo de Seattle, noroeste dos Estados Unidos, foi aberta a reStart, em Fali City, que cobra US$ 30 mil (R$ 122 mil) pelo tratamento de nove semanas. Em um alojamento, os internos passam por uma espécie de detox de qualquer tipo de tela. Para se comunicar com as famílias, usam apenas um telefone fixo.

“Como eu tenho feito esse trabalho na prática há muitos anos, sei que eles precisam de uma abordagem holística”, explicou a cofundadora e diretora clínica Hilarie Cash. Ela inaugurou sua primeira clínica de tratamento de viciados em internet em 1994. De lá para cá, recebe pacientes dependentes de videogame. A frequência dos casos a levou a abrir um espaço especializado, em 2009. “Eles chegam com a saúde física muito debilitada. Com grave privação de sono, má nutrição e falta de exercício físico. E também precisam de ajuda para desenvolver habilidades emocionais, de socialização e de comunicação. Esses meninos não sabem lidar com suas emoções e se refugiam no videogame”, afirmou.

O Reino Unido inaugurou, em outubro deste ano, uma clínica voltada para o problema dentro do National Health Service (NHS), o sistema público de saúde britânico, que equivale ao SUS. Os pacientes podem se tratar pessoalmente ou via Skype. No Brasil, ainda não há espaços especializados. Atualmente, é possível encontrar tratamento em centros para dependentes em internet, como o ambulatório de dependência de comportamento do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes da Unifesp e o Instituto Delete – Detox Digital e Uso Consciente de Tecnologias, do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), comandado pela psicóloga Anna Lucia King. “A gente oferece tratamento gratuito e faz uma triagem toda sexta-feira”, afirmou a coordenadora do grupo. Já o governo federal criou a Coordenação-Geral de Enfrentamento a Vícios e Impactos Negativos do Uso Imoderado de Novas Tecnologias. O órgão é subordinado ao Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos e planeja iniciar neste ano uma formação de professores à distância para que o tema seja tratado nas escolas. “Queremos conversar sobre jogos. Não queremos demonizar a tecnologia, mas sim falar sobre o uso consciente e adequado”, disse o coordenador, Daniel Celestino.

Acuados pela decisão da OMS e por ações governamentais, representantes do setor de videogame se esforçam para não ser classificados como vilões. A indústria dos games é grande, lucrativa e atende milhões de clientes que não são viciados. “O jogo pode se transformar em dependência ou em uma forma de fuga. Mas também pode ser alguém querendo construir uma carreira, exatamente como um atleta de futebol: ele inevitavelmente vai perder algo para se dedicar ao esporte”, disse Leandro Takahashi, de 41 anos, presidente da Confederação Brasileira de eSports (CBeS). O Brasil é um mercado importante para a indústria de videogames. De acordo com o Global Games Market Report de 2018, o país tem 75 milhões de usuários que movimentam US$ 1,5 bilhão (R$ 6,1 bilhões). Segundo a Newzoo, uma consultoria internacional de análise de dados do mundo dos games, esse é o 13° maior mercado do mundo. Nesse segmento, não há discriminação de gênero – 50% dos homens e 51% das mulheres brasileiras com acesso à internet jogam no celular, enquanto 44% dos homens e 38% das mulheres usam computadores. Além disso, 83% dos jogadores gastaram dinheiro em itens de jogo ou com bens virtuais no segundo semestre de 2018, dado mais recente divulgado. Dentro desse universo, os brasileiros são particularmente engajados em jogos de tiros. Segundo Takahashi, é justamente nesse filão que os jogadores daqui se destacam internacionalmente. Atualmente, cerca de 5 mil pessoas são atletas profissionais de eSports no país em diferentes games.

No Brasil, os atletas são recrutados em todo o país e vivem em sua maioria na capital paulista, em casas nas quais treinam diariamente, em média por oito horas. No tempo livre, eles são liberados para fazer o que desejarem – incluindo continuar jogando. Em algumas dessas equipes, um profissional de psicologia é destacado para acompanhar o desenvolvimento dos atletas – que são, em geral, homens e jovens entre 16 e 25 anos. Na Team Liquid, uma das cinco maiores equipes do mundo, com sede na Holanda e da qual Michael Jordan é um dos acionistas, quem faz esse trabalho é Claudio Godoi. Ele coordena sete rapazes brasileiros que dividem um apartamento de três quartos em São Paulo – cujo endereço não é revelado por causa do grande assédio dos fãs.

ALlMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 27 DE MARÇO

JESUS RESSUSCITA A FILHA DE JAIRO

Tomando-a pela mão, disse: Talitá cumi!, que quer dizer: Menina, eu te mando, levanta-te! (Marcos 5.41).

A morte traz em sua mochila muita dor ao nosso coração. Não fomos criados para morrer. A morte sempre nos deixa atordoados. Depois de demonstrar seu poder sobre a tempestade, libertar um homem possesso e curar uma mulher enferma, Jesus revela seu poder sobre a morte, ressuscitando uma menina de 12 anos. O pai dessa menina é Jairo, o chefe da sinagoga. Era um homem religioso e de grande prestígio na comunidade. Seu dinheiro, sua popularidade e sua religião, porém, não puderam evitar aquele doloroso golpe. Jairo vê a filha única sendo ceifada pela morte precocemente. Vai a Jesus, prostra-se a seus pés e pede ao Mestre que vá com ele à sua casa para curar-lhe a filha. Estavam ainda a caminho quando o pai foi informado que a menina já estava morta. Jesus lhe diz: Não temas, crê somente (Lucas 8.50b). Quando Jesus caminha conosco, não precisamos temer más notícias. Quando Jesus está conosco, o solo da ressurreição prevalece sobre o coral da morte. Quando Jesus manifesta seu poder, a morte não tem a última palavra. Jesus ressuscitou a menina e a devolveu a seus pais. A alegria da vida triunfou sobre a tristeza da morte. Porque Jesus venceu a morte, não precisamos mais ter medo do amanhã.

GESTÃO E CARREIRA

A HORA DA VERDADE

A crise aguda na Bolsa de Valores provocada pelo coronavírus é teste para mais de 1 milhão de novatos que investiram em ações nos últimos dois anos

O primeiro “circuit breaker” a gente nunca esquece – nem o segundo, nem o terceiro, nem o quarto… Ainda mais quando eles chegam juntos, como nesta semana, para mais de 1 milhão de pequenos investidores que entraram na Bolsa de Valores nos últimos dois anos. O mecanismo de paralisação dos negócios foi acionado às 10h30 da segunda-feira 9, quando o índice Ibovespa despencava 10%. Aquele botão de emergência automático não intervinha para acalmar os ânimos desde o chamado “Joesley Day”, quando se conheceu a delação do sócio da JBS, Joesley Batista, em maio de 2017.

Em retrospectiva, o tombo há três anos parece pequeno. Agora o medo é global, provocado pelas projeções dos efeitos que a pandemia do novo coronavírus terá na economia real e pela queda de braço entre sauditas e russos sobre o preço do petróleo. Na quarta-feira 11, a crise sem hora para acabar provocaria uma nova parada nas negociações na Bolsa brasileira. No mesmo dia, o índice Dow Jones, que mede a performance das maiores empresas americanas, tinha uma queda que acabava com um período de 11 anos de buli market, jargão usado para descrever um longo ciclo de alta. Na quinta-feira 12, a parada na Bolsa brasileira se repetiria duas vezes somente pela manhã – e ninguém fazia ideia de quando essa onda de “circuit breakers” teria fim. Para completar, o dólar passou, pela primeira vez, a barreira dos R$ 5.

A primeira grande crise da Bolsa de Valores na era digital – em 2008, apenas 34% da população brasileira tinha acesso à internet, hoje são mais de 70% – tem tido uma boa dose de humor. Um dos vários memes que circularam nos últimos dias fazia referência a uma propaganda do ano passado da Empiricus, uma empresa de análise financeira, que começava com “Oi, meu nome é Bettina e eu tenho 22 anos e R$ 1,04 milhão de patrimônio acumulado” e prometia o enriquecimento com o investimento em ações. Atualizado no começo da segunda semana de março por tuiteiros, a mensagem mudou para: “Oi, meu nome é Bettina, tenho 22 anos e R$ 700 mil de patrimônio”. Na quinta-feira 12, já havia uma nova versão: “Oi, meu nome é Bettina, tenho 22 anos e estou te convidando para o meu bazar de roupas no próximo domingo”.

Travestido de piada, o meme embutia uma crítica a uma certa euforia que, desde o fim de 2018, tomou conta de parte dos “influencers” de investimentos e de casas de análise independentes. Muitos deles esqueceram de falar dos riscos embutidos no investimento em ações com a mesma ênfase que davam às oportunidades. Não faltou quem incentivasse as pessoas a virar day traders, gente que passa o dia comprando e vendendo ações, o que pode dar certo num mercado que só sobe, mas se complica quando o cenário fica turvo e é preciso pagar a escola dos filhos e a conta de luz.

“Com o fim do juro alto e do ganho generoso que vinha das aplicações financeiras de renda fixa, o brasileiro ficou na incerteza em relação a seus investimentos. E, nesse cenário, está vulnerável a todo tipo de informação”, disse Vera Rita de Mello Ferreira, doutora em psicologia social, com especialização em psicologia econômica.

Arnaldo Curvello, sócio diretor da gestora Ativa, brinca que, na alta, todo mundo vira gênio, todo mundo é guru. “O problema da rede social foi que ela gerou a falsa impressão de que tomar risco era sinônimo de ganhar, de vida fácil”, disse Curvello.  A Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o órgão encarregado de fiscalizar o mercado financeiro no Brasil, recebeu, no ano passado, cerca de 40 reclamações contra os chamados “consultores e analistas financeiros” que ofereceram cursos ou dicas em troca de dinheiro. O número, provavelmente subnotificado, é 50% maior que em 2018. Somente casos em que há pedido de dinheiro em troca das informações ou recomendação de ações são investigados. Patrocínios não divulgados de youtubers não viram alvo. Com esse histórico de muitos conselhos exagerados, o temor agora é de uma debandada dos novatos da Bolsa num momento de preços em queda. “Muita gente corre o risco de ter subido de escada e agora descer de elevador”, disse Samy Botsman, sócio diretor da Faros Investimentos, consultoria financeira com sede no Rio de Janeiro.

Ben Bernanke, que pilotou o banco central americano, o Fed, na pior tormenta financeira desde a Grande Depressão, costuma dizer que as pessoas aprendem mais em momentos de grande abalo econômico do que com pequenas crises. Na segunda semana de março, os pequenos investidores brasileiros pareciam se dividir em dois grupos. Um dava sinais de estar resistindo ao derretimento das ações e o outro estava vendendo com perdas pesadas. A Bolsa brasileira ainda não havia consolidado os números oficiais, mas dados preliminares divulgados por corretoras indicavam – até aquele momento – um efeito difuso. Ainda assim, não faltaram brincadeiras nas redes sociais. Um meme do perfil satírico MonkeyStocks dizia: “Dados de mortalidade do coronavírus: 60 a 69 anos – 3,6%. Investidor com seis meses de Bolsa – 98%”.

Na corretora Guide, de São Paulo, as quedas do Ibovespa geraram apreensão e muitos questionamentos de clientes. Num primeiro momento, havia mais gente comprando que vendendo. Na quinta-feira, quando uma nova onda de pânico tomou conta da B3, a situação mudou de figura. “Há muito pequeno investidor se desfazendo de suas posições. O cenário mudou. Agora não é apenas o coronavírus. Há também decisões do Congresso prejudicando as perspectivas da economia”, disse Luís Sales, analista da Guide, em referência à queda de braço dos congressistas com o Planalto.

Guilherme Fernandes, de 25 anos, tomou um susto quando acordou na segunda-feira 9. “Ué, a Bolsa parou? Por que as cotações estacionaram?”, lembrou Fernandes sobre o que veio a sua cabeça. Ele havia estreado na Bolsa em janeiro com recursos do seguro-desemprego. Depois de olhar o noticiário, leu que havia acontecido um “circuit breaker”, algo que até então desconhecia. Naquele dia, apenas observou, aflito. Quando a Bolsa foi forçada a parar novamente nos dias seguintes, ficou ainda mais tenso. “Daqui para a frente, vou avaliar quanto e como vou colocar em ações, estudar mais. Ainda bem que não caí naquele hype absurdo dos influencers da internet no ano passado. Poderia ter perdido mais dinheiro”, disse.

A pergunta de R$ 3,5 trilhões – o valor de mercado das empresas negociadas na B3 – é se a posição dos novatos que estão resistindo à tentação de sair da Bolsa vai se manter e se mais gente vai entrar. Os argumentos do ponto de vista mais otimista sustentam que os investidores têm motivos para “não realizar a perda” (só perde dinheiro quem vende as ações na baixa). O valor dos papéis é um reflexo das expectativas de ganhos futuros das empresas. Se o passado serve de guia, a economia é feita de ciclos e, depois de eventuais quedas, volta a ter altas.

Essa é a visão de longo prazo. A seu favor, tem a perspectiva de que o Banco Central volte a cortar ainda mais a taxa de juros, o que tornaria os investimentos em renda fixa menos atraentes do que estavam quando houve a grande migração de pessoas físicas para a Bolsa. “Não é um trauma que vai afastar os novatos da Bolsa, porque o processo de aculturamento está apenas no início. Na verdade, muita gente vai ver como uma chance de entrar. Para afastar mesmo, teria de haver uma depressão”, observou Márcio Correia, sócio da gestora JGP.

O problema é que o quadro hoje está ainda muito indefinido, com bancos e governos cortando previsões de crescimento para a economia mundial e também a brasileira, que, por sinal, já não vinha bem. O crescimento do PIB em 2019 foi de mísero 1,1 %. As dúvidas quanto ao futuro podem variar em grau, mas tendem a ser as mesmas em todas as partes do mundo. Basicamente, dizem respeito a como a economia de cada país será afetada internamente pela pandemia do novo coronavírus, o que cada governo tem à mão para combater os efeitos negativos e qual vai ser o tamanho da freada do PIB global.

Em países desenvolvidos, algumas medidas já foram tomadas na tentativa de atenuar as consequências negativas da crise. O primeiro movimento de peso veio dos Estados Unidos, onde o Fed surpreendeu ao anunciar um corte emergencial de meio ponto percentual em suas taxas de juros. Embora o corte tenha mais assustado do que tranquilizado os investidores, seu objetivo é estimular a atividade diante da demanda mais fraca com a epidemia. O Reino Unido anunciou um pacote de estímulos econômicos de US$ 38 bilhões, enquanto a Itália, segundo país mais afetado pela doença, vai gastar US$ 28 bilhões para aquecer sua economia paralisada.

No Brasil, restrições fiscais e a lentidão econômica dificultam a tomada de medidas, o que divide economistas. Enquanto os mais ortodoxos defendem reformas estruturais, como a tributária ou cortes nos juros, a ala mais heterodoxa propõe estímulos diretos por meio do caixa bilionário do BNDES e mesmo uma flexibilização do teto dos gastos. No câmbio, a discussão gira em torno da necessidade de mais intervenção pelo Banco Central.

Henrique Bredda, gestor do fundo de ações Alaska, tem 127 mil seguidores na FinTwit, a comunidade de pessoas que comentam mercado financeiro no Twitter. Ele é um dos que atestam a maturidade dos investidores brasileiros. Ao embarcar em um voo de São Paulo para Goiânia no fim do ano passado, Bredda foi abordado pela comissária. “E aí, zerou?”, questionou ela, referindo-se a um tuíte em que o gestor dava conta, naquele mesmo dia, que estava reduzindo sua exposição às ações da varejista Magazine Luiza, um dos papéis mais valorizados da Bolsa. A cena se repetiria com o recepcionista do hotel.

Pelo comportamento dos cotistas do Alaska durante a crise, Bredda está convencido de que esse tipo de cena vai continuar acontecendo. “Esperávamos pânico, mas o que houve foi uma rotatividade. Muita gente pediu para resgatar os investimentos, mas muitas pessoas também decidiram investir mais. O saldo tem sido positivo”, disse.

Quem estuda o mercado de perto tem uma impressão semelhante. Michael Viriato, professor de finanças do Insper, uma universidade em São Paulo, vê um pequeno investidor mais maduro e propenso a risco: “Quem saiu forte foram os investidores internacionais. Ainda não temos os números, mas, pelo que tenho observado, eu diria que muita gente que perdeu a festa do ano passado está aproveitando para entrar”, disse. A negociação dos papéis preferenciais da Petrobras no dia 9 tende a confirmar o que diz Viriato. Corretoras que costumam atender sobretudo clientes institucionais e estrangeiros, como os bancos Goldman Sachs e JP Morgan, venderam muito mais do que compraram. Na ponta contrária, corretoras que, majoritariamente, atendem pessoas físicas, como Clear, Genial, Rico e Easynvest, acabaram intermediando mais a compra das ações.

O universitário Bernardo Rubião tinha tudo para se considerar um azarado na Bolsa. Comprou R$ 500 em ações da Petrobras às vésperas do Joesley Day. “Perdi 40% e traumatizei. Disse: ‘Não quero mais brincar disso”, relembrou. Ficou um ano longe das ações, até que recobrou a confiança no fim do governo Temer. Mais uma vez, tomou um tombo. Apostou na Vale pouco antes do acidente de Brumadinho no ano passado. Mesmo assim, continuou investindo em ações e ganhou muito no ano passado. Na segunda-feira 9, assistiu perplexo a sua carteira na Bolsa desvalorizar em 30%, queda atenuada graças às aplicações em outras categorias, como renda fixa. Mesmo assim, não se desfez dos papéis. “A faca está caindo, não adianta tentar pegá-la em pleno ar, senão você se corta. Mesmo que a Bolsa continue caindo, não vou sair do investimento, porque acredito na recuperação”, afirmou o estudante de Direito.

Para quem quer colocar mais dinheiro em ações ou aproveitar a queda para começar a investir em renda variável, o consultor de investimentos Paulo Bittencourt, que atua no mercado financeiro há quase 30 anos, tem um conselho. Ele argumenta que não é recomendável investir na Bolsa por impulso, especialmente para quem é iniciante. O mais seguro, em sua opinião, é migrar da renda fixa para a chamada renda variável com fundos de ações. Um gestor profissional escolhe vários papéis que considera com maior chance de valorização. Para isso, cobra uma taxa de administração de quem aplica. E toma suas decisões baseado em centenas de informações, que geralmente não chegam à pessoa física. “O investidor vai receber relatórios do gestor, vai saber exatamente por que ele está comprando aquele papel. Se, depois de dois anos, a pessoa tiver perfil para as oscilações da Bolsa, pode começar a aplicar diretamente numa ação”, disse Bittencourt.

Em momentos de crise aguda como a atual, há sempre a possibilidade de novos desdobramentos inesperados. Quem diria há um mês que o príncipe saudita Mohammed bin Salman apertaria o botão da guerra do preço do petróleo com a Rússia, o que aconteceu no começo de março. Após três anos de cooperação, o russo Vladimir Putin discordou dos planos da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) sobre a nova redução coordenada na produção da commodity. Seria uma forma de sustentar a cotação do barril mesmo diante da demanda menor com o coronavirus.

A estratégia russa é derreter os ganhos da indústria americana de petróleo, mais sensível à queda do barril. Em represália à negativa russa, porém, a Arábia Saudita anunciou que cortaria seus próprios preços em mais de 10% e que aumentaria sua produção. Escolheria, assim, compensar a desvalorização com vendas maiores. O impacto nos mercados foi imediato. Já no domingo 8, o petróleo desabou mais de 30% logo na abertura dos pregões asiáticos, no maior tombo desde a Guerra do Golfo, em 1991. Bolsas de todo o mundo despencaram, ecoando temores de uma nova recessão global.

Apesar do desempenho maluco do lbovespa e de outros índices mundo afora, analistas reforçam que não é hora de desespero. Praticamente todos acreditam que, a despeito do sensível aumento do risco com a pandemia, a conjuntura econômica brasileira, com seus juros historicamente baixos, acaba tornando a Bolsa uma opção atraente. Longas séries históricas comprovam que, em horizontes mais estendidos, a tendência da Bolsa é subir. “Estou no meu sétimo circuit breaker e acredito que, no longo prazo, a Bolsa sobe. Hoje, ela já está em nível mais elevado do que em todas as ocasiões parecidas no passado. A humanidade anda para a frente”, disse Tiago Reis, fundador da Suno Research, uma empresa de análise financeira.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

NEM DE MARTE NEM DE VÊNUS

De acordo com um novo estudo sobre gênero, homens e mulheres não são tão diferentes quanto a mídia e alguns psicólogos nos levam a pensar. Meninas não têm a mesma capacidade matemática? Mentira. Os homens não se expressam tão bem quando o assunto é relacionamento? Também não é verdade. Problemas de auto- estima na adolescência, geralmente associados às meninas, afetam igualmente os rapazes.

Pelo menos é o que mostra uma pesquisa desenvolvida pela professora de psicologia Janet Shibley Hyde, da Universidade de Wisconsin, em Madison. Ela procedeu a uma revisão dos 46 estudos sobre gênero mais importantes dos últimos 20 anos. “Claro que há diferenças emocionais e cognitivas entre os sexos. Os homens são, de fato, mais agressivos fisicamente.” Mas para Hyde o estudo mostra que tendemos a nos concentrar mais nas diferenças do que nas similaridades e exageramos qualquer descoberta científica que aponte pequenos contrastes.

“Se aceitamos que os homens não se comunicam bem, quais são as implicações disso para o casamento? Porque uma mulher tentaria conversar com seu marido para resolverem seus problemas se ele fosse incapaz de compreendê-la? questiona. “Se temos certeza de que os meninos são melhores em matemática, ignoramos o talento matemático de muitas meninas. “Isso implica limitação das oportunidades profissionais das mulheres em áreas tecnológicas e científicas.

“Em vez de continuarmos a acreditar em psicólogos de programas de auditório, precisamos dar ouvidos a dados científicos que nos dizem quando estamos nos aferrando a falsos estereótipos”, sugere Hyde.