OUTROS OLHARES

OS ÓRFÃOS DO FEMINICÍDIO

É só o começo da tragédia quando o pai mata a mãe: a vida dos filhos fica marcada por aquela morte

“A pessoa que me disse (para não contar) foi meu pai. Que ele matou minha mãe, narrou, chorando, Eduarda, diante dos sete jurados no tribunal. A menina tinha 8 anos quando participou como testemunha do julgamento do assassinato de Josilene Ferreira de Araújo, de apenas 23 anos, sua mãe. Com a ajuda de uma psicóloga, a menina contou o que vira naquela noite de junho de 2016, no bairro da Paz, em Manaus, onde morava a família.

Aos poucos, com a voz fraquinha em meio a pausas por causa da emoção, a garota conseguiu reconstruir a cena. “Ele deu uma facada no pescoço, depois tirou ela para botar no outro quarto e botou um lençol em cima dela. Eduarda relatou ainda que a mãe tinha vomitado algo de cor “vermelha bem clara”, provavelmente em referência ao sangue pela casa. “Ele botou um travesseiro na cara dela para ela não respirar”, afirmou, quando um choro acompanhado de soluço veio à tona.

O testemunho de Eduarda, hoje uma menina calma, de sorriso tímido e olhos vivos, foi considerado decisivo para condenar o pai, Diego Pacheco. Ele alegava legítima defesa em relação às três facadas que dera em Josilene e negava tê-la asfixiado. O homem foi sentenciado a 17 anos e quatro meses de prisão por feminicídio. Matara a mulher com quem vivia havia dez anos, mãe de seus dois filhos, depois que ela descobrira uma relação extraconjugal e buscara apoio na família para se separar.

Se tragédias como a de Josilene começaram a ser contabilizadas em 2015, quando a legislação brasileira passou a classificar como feminicídio o assassinato em que o fato de a vítima ser mulher é determinante para o crime, o drama dos órfãos dessas famílias permanece invisível. Em muitos casos, perdem ao mesmo tempo a mãe, morta, e o pai, preso pelo crime hediondo. Eduarda e o irmão, ela aos 9 anos, ele aos 8, não estão sequer nas estatísticas, simplesmente porque inexistem dados a respeito dos filhos das vítimas. Nesta reportagem, as crianças serão identificadas com nomes fictícios para proteger ao menos sua identidade, já que o país não conseguiu proteger sua infância.

O Fórum Brasileiro de Segurança Pública projetou que, todo ano, os feminicídios deixam mais de 2 mil órfãos no país. A estimativa é baseada na quantidade de vítimas registradas em 2018, último ano com dados fechados, quando 1.206 mulheres foram mortas por serem mulheres – seja no contexto de violência doméstica, seja pelo menosprezo à condição de gênero, conforme define a lei que criou o feminicídio como circunstância qualificadora do homicídio.

Na memória de Vane Correia Machado, de 54 anos, e dos dois netos, João e Clarice, as pauladas desferidas pelo pai das crianças na mãe ainda estão vivas. Os três viram quando o homem começou a agredir com socos Aline Pâmela Teixeira Machado no quintal da casa onde moravam e, depois, a dar pauladas na mulher. Vane tentou ajudar a filha, mas foi atingida e chegou a desmaiar. A moça, de apenas 23 anos, morreu.

O filho mais novo deixado por Aline tem apenas 2 anos. É um garoto agitado, torcedor do Flamengo, que continua a perguntar pela mãe, morta há cerca de seis meses. Vez por outra, disse a avó, o menino pega algum pedaço de madeira ou cabo no quintal e simula a cena do crime. A reação de Clarice, de 9 anos, é diferente. “Ela não falava nada, nada, depois do que aconteceu. Hoje, ela já chora, olha fotos da mãe”, contou Vane.

Aline, que era caixa de uma grande rede de supermercados na capital do Amazonas, ajudava Vane com as contas de casa. Ela morava com a mãe, os filhos e o marido no mesmo imóvel, depois de resolver dar mais uma chance ao casamento que havia sido rompido. Agressões passadas levaram a jovem a registrar ao menos seis boletins de ocorrência, de acordo com documentos levados à Justiça. A moradia de dois quartos, sala e cozinha, com piso vermelho e móveis modestos, hoje é mantida com os bicos que a avó consegue fazer, como a venda de roupa íntima de porta em porta. Amigas de Aline também ajudam doando mantimentos para a família. Agora com duas crianças para criar, Vane, que nem chegou a completar o ensino fundamental, enfrenta com dificuldade as burocracias decorrentes da morte da filha. Ainda não conseguiu qualquer benefício para os netos no INSS, onde disse já ter feito “vários requerimentos”, nem conseguiu voltar a receber o Bolsa Família que Aline ganhava por causa dos filhos. “Fui lá, levei o atestado de óbito para fazer a coisa certinha. E pedi novamente o benefício como responsável por eles, mas até agora nada”, lamentou.

Nas paredes da casa, recordações dos aniversários das crianças, que Aline não deixava passar em branco. Um cartaz mostra Clarice caracterizada de Elsa, a personagem do desenho infantil Frozen. “Foi muito legal, teve pula-pula, bolo com meu nome, ganhei muitos presentes”, lembrou a menina. Em outro registro, aparece o rosto do irmão, João, no corpo do Pequeno Príncipe, tema da comemoração de 1 ano do menino. “Ela sempre fazia festa e eles me cobram, mas eu já disse que agora vão precisar ter um pouco de paciência”, resignou-se a avó. Professor na Universidade Federal do Ceará (UFC) e autor de estudos sobre feminicídio feitos em parceria com o Instituto Maria da Penha, José Raimundo Carvalho criticou a falta de atenção governamental aos órfãos. “Depois que a mãe é morta, o problema da violência doméstica é riscado e esquecido e as consequências passam a ser da família que assumirá a criação das crianças”, afirmou o pesquisador.

A ausência de um olhar específico para esse público começa a ser superada por experiências pontuais no país, como as desenvolvidas por alguns Centros de Referência de Assistência Social (Cras) e por outros órgãos, a exemplo de Defensorias e Ministérios Públicos nos estados. O objetivo é auxiliar as famílias a chegar aos serviços necessários, como a Previdência, para requerer pensões e auxílio-reclusão – no caso de o pai estar preso e ter contribuído para o INSS -, e ter acesso à rede de saúde para atendimentos psicológicos ou psiquiátricos, entre outros. Procurado, o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos disse que “está estudando ações para tratar a questão dos órfãos do feminicídio”, sem dar detalhes.

“É impossível não ser tocado por toda a tristeza desses casos. As crianças não conseguem expressar em palavras o que sentem, mas estão sempre olhando para o chão, dão aquele sorriso forçado. Ao mesmo tempo, temos de ser serenos para prestar um atendimento profissional”, disse a defensora Pollyana Gabrielle Souza Vieira, que está à frente do projeto Órfãos do Feminicídio, criado na Defensoria Pública do Amazonas no ano passado. “As famílias chegam desamparadas, sem saber como resolver uma série de problemas decorrentes da tragédia”.

Crianças e adolescentes que presenciaram o crime, além do trauma que a cena pode causar, têm de lidar com a ausência da mãe e, muitas vezes, do pai, que em geral vai preso. Um estudo do Ministério Público de São Paulo revelou, a partir da análise de 364 denúncias, a cada quatro feminicídios, um foi cometido na frente de alguém da família ou de terceiros. Dessas testemunhas, 57% eram os filhos da mulher. Um quarto deles também foi atacado no momento do assassinato.

Não há idade definida a partir da qual a criança passa a entender o significado da morte, explicou Carla Bertuol, psicóloga na área de saúde mental e infância e professora na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Segundo ela, isso depende da dinâmica da família responsável por cuidar dos órfãos e da forma como esses temas são trabalhados ao longo de sua vida, entre outras questões.

Bertuol destacou que são necessárias várias abordagens, não há solução única. “Não faz muito sentido fazer só uma psicoterapia ou só tomar remédio. Há coisas que a professora na escola pode fazer, outras que são estimuladas pela família. O importante é não silenciar a criança, mas sim dar espaço para que ela se manifeste, o que pode ocorrer nos desenhos, nos brinquedos, nas perguntas”, afirmou. “Será preciso fazer essas emoções circularem em sua cabeça.”

Na casa de Maria das Graças Castro Ramos, de 71 anos, não há espaço para silêncio sobre a tragédia que destroçou a família há um ano e meio. Um cartaz com a foto da filha, Adriana Castro, permanece na sala desde a missa de sétimo dia da mulher, de 44 anos. Uma semana antes de ser assassinada, ela desabafou com os parentes que não aguentava mais as ameaças do marido, com quem era casada havia mais de 20 anos e tinha um casal de filhos.

Unidos, os cinco irmãos logo se apressaram em ajudar Di, como era chamada na família, a sair de casa para morar com a mãe. Cinco dias depois, o marido de Di foi ao portão da residência de Maria das Graças, sob o pretexto de entregar os materiais escolares dos filhos. As câmeras instaladas na casa vizinha mostraram que a intenção do policial militar Epaminondas Silva era outra.

Sem sinal de discussão ou registro de briga corporal, o homem sacou a arma e deu um tiro no ombro de Adriana, que se virou de costas para ele, talvez para tentar fugir. Ele então a executou com um disparo na nuca. Mirou na sequência a própria cabeça, mas antes se abaixou para olhar mais de perto o corpo da mulher no chão. Em seguida, se matou.

Jéssica e Leonardo, com respectivamente 8 e 12 anos à época, saíram da casa da avó correndo para ver o que tinha acontecido e depararam com os dois corpos estirados na calçada da casa, que fica a cerca de 30 quilômetros do centro de Brasília. Enquanto a avó gritava por ajuda na rua, o garoto tentava acionar os tios por telefone.

A menina, que gostava de vestir roupas iguais às da mãe, numa brincadeira que as duas cultivavam, sonhou com uma tragédia parecida dias antes. “Eles brigavam perto do portão, minha mãe caiu igualzinho aconteceu. Só que ele não se matou, ficou lá olhando para ela e limpando o sangue. Eu acordei à noite, contei para minha mãe, mas ela disse que era só um sonho”, recordou-se Jéssica.

A parede do quarto que as crianças passaram a dividir na casa da avó tem 12 fotos da mãe, lembrada por toda a família como uma pessoa carinhosa e dedicada aos filhos. O mais velho colou também uma carta que recebeu de Adriana quando teve dificuldades na escola. “Você é um menino muito inteligente e eu acredito em sua capacidade. Amo você! Beijos da mamãe”, diz a parte final da mensagem.

“A perda de minha irmã não é assunto proibido, não é tabu. Aqui é cheio de fotos da mãe deles. Aliás, todas as nossas conversas acabam nela”, disse Marcelo Adson de Castro Rosa, tio das crianças. Elas passaram por atendimento psicológico e hoje, na avaliação da família, estão bem. “Elas vão crescer felizes, aprendendo a fazer o bem. Agora sou avó, mãe, pai e tudo delas”, disse Maria das Graças.

O bem-estar das irmãs Alice e Helena preocupa a tia, Cleire Romão, de 31 anos. Foram as meninas, na ocasião com 2 e 4 anos de idade, que chegaram à casa da família chorando e gritando que “o Teteu matou a mamãe”. Steffano Amorim é o pai das duas, mas não tinha uma relação próxima com as filhas, que costumavam chamá-lo pelo apelido.

Elas viram ao menos parte das agressões que levaram à morte de Janaína Romão Lúcio, com cinco facadas, na casa de um tio do assassino. A mãe, que tinha 30 anos, havia se separado do marido e voltado a morar na casa dos pais, em Santa Maria, cidade nos arredores de Brasília. Mas Amorim não se conformava. Perseguia Janaína até no ministério onde ela era funcionária terceirizada.

“Ele matou ela na cama”, disse Helena, hoje com 6 anos, mostrando que prestava atenção à entrevista dada pela família, enquanto brincava com a irmã. Cleire, que ficou com a guarda das sobrinhas e a quem as duas chamam de mãe, contou que a mais nova chorava muito após o crime e até hoje tem pesadelos.

Em 2017, quando as coisas pareciam melhorar, a avó das crianças morreu, cerca de um ano após o feminicídio que vitimou Janaína. O baque foi enorme para as netas. Alice voltou a falar de tudo que havia presenciado na morte da mãe. Helena, que abriu mão do cabelo comprido para fazer um corte “igual ao da vovó”, demonstra medo de novas perdas. “Ela fala para mim que no dia em que eu morrer ela quer morrer comigo”, contou Cleire, que precisou adiar os planos de recém-formada no curso técnico de secretariado para cuidar das sobrinhas.

Um grande retrato de Janaína segurando as duas meninas fica na parede da sala da família. Outras fotos menores são mostradas por elas. Duas estão recortadas, e aparece apenas a mãe. “Cortei tudo para ele aprender”, disse Alice, hoje com 4 anos, referindo-se à imagem do pai na foto original.

O avô das garotas, Edgar Soares Lúcio, não consegue falar da filha sem que os olhos, de um azul-claro bonito, se encham de lágrimas. A família soube depois da morte que a situação entre Janaína e o criminoso era pior do que imaginavam, com dois boletins de ocorrência já registrados pela moça contra ele. “Ela não se abria com a gente, vieram contar depois que aconteceu (o assassinato) das ameaças e agressões. Que amigos são esses?”, questionou o senhor de 68 anos. O assassino foi condenado a 36 anos e nove meses de prisão.

Incorporado em 2015 à legislação brasileira, o crime de feminicídio tem pena que varia de 12 a 30 anos, enquanto para o homicídio simples ela é de 6 a 20 anos. A punição aumenta se a morte for praticada em determinadas circunstâncias, como durante a gestação, nos três meses após o parto ou na presença de filhos ou pais da vítima.

O aumento da pena, no entanto, não é o ponto principal da mudança na lei. Estudiosos afirmam que a maior vantagem foi passar a chamar a atenção para esse tipo de violência, cometido em razão da condição de mulher da vítima. O conceito precisa ser compreendido sob a dinâmica de nossa sociedade, explicou Carmen Hein de Campos, doutora em ciências criminais e pesquisadora na área.

“Não é simplesmente por ser mulher. Mas porque uma sociedade machista e sexista como a nossa coloca as pessoas identificadas com o feminino numa condição de vulnerabilidade”, afirmou a pesquisadora. Campos lembrou que grande parte dos feminicídios registrados ocorre em meio a uma separação consumada ou planejada. “Temos aí, com clareza, o conteúdo machista de que a mulher não pode ter autonomia.”

A brutalidade é a praxe nos crimes de feminicídio. Mais da metade dos assassinatos foi cometida com instrumentos como facas ou machados, de acordo com análise do Fórum Brasileiro de Segurança Pública em relação às mortes registradas em 2017 e 2018. Segundo outra pesquisa, do Ministério Público paulista, em cerca de metade dos casos de feminicídio foram efetuados diversos golpes ou disparos. A conotação de gênero aparece nas partes do corpo muitas vezes destroçadas pelo assassino: seios, vagina, rosto.

Enquanto os homicídios caíram 13% de 2017 para 2018, os feminicídios aumentaram 4%. A alta vem de uma melhoria na notificação do crime, embora não seja possível descartar um aumento real de casos, até por falta de série histórica. O secretário de Segurança Pública do Distrito Federal, Andersen Torres, afirmou que a prevenção dos assassinatos ainda é um desafio para a área, lembrando que o índice médio de vítimas que tinham registrado ocorrência prévia por agressão ou ameaça na capital federal gira em torno de 30%. “Ou seja, em 70% dos casos, a polícia só vai buscar o corpo, porque a informação da agressão não chegou antes. O crime acontece dentro de casa, por algo que está dentro da cabeça do autor e com a arma que fica na cozinha. É preciso uma conscientização sobre esse machismo”, disse.

Uma câmara técnica da Secretaria de Segurança do DF levantou dados de todos os feminicídios já registrados na unidade da Federação para tentar entender o fenômeno. Foram 97 vítimas desde 2015, das quais 36 tinham filhos menores de idade, totalizando 75 órfãos nessa faixa etária.

O DF é um dos locais que seguem as Diretrizes Nacionais para Investigar, Processar e Julgar com Perspectiva de Gênero as Mortes Violentas de Mulheres, uma espécie de guia, adaptado pelo governo brasileiro em 2016 de um documento das Nações Unidas. Uma das regras é registrar qualquer assassinato de mulher primeiro como feminicídio e, depois, reclassificá-lo se for o caso.

Outra orientação é fazer a perícia criminal sob a ótica de gênero. “Os sinais, muitas vezes, são as facas da casa escondidas pela vítima, uma mala pronta, roupas ou fotos rasgadas. Se as partes do corpo mais atingidas são as que denotam a condição de mulher, como seios e vagina, isso também é um dado importante. Esse olhar do perito faz toda a diferença”, explicou Dulcielly Nóbrega de Almeida, do Núcleo de Defesa da Mulher da Defensoria Pública no DF.

As mais de 20 facadas dadas por Bruno Manfredi na companheira, Thaynara Barbosa da Silva, de apenas 23 anos, deixaram a família em estado de choque. O rapaz era querido pelos parentes da vítima, com quem se relacionava havia cinco anos e com quem teve uma filha. Milena, de apenas 3 anos na época do crime, estava no quarto do casal quando tudo aconteceu, contou a irmã de Thaynara, Mayara.

“Minha irmã lutou muito. Tinha marca das mãos de sangue no guarda-roupa. Ele deu golpes nos seios, nas pernas e no pescoço”, lembrou a irmã. Inicialmente, Milena não perguntava pela mãe nem tocava no assunto, mas começou a ter medo de dormir no escuro. Na quarta consulta com um psicólogo, falou sobre o que vira.

A família explica que a mãe virou uma “estrelinha” e diz que o pai está viajando quando a menina, hoje com 4 anos, pergunta. Carinhosa, ela consolou a avó, Maria Lucilene da Silva Barbosa, que se emocionou enquanto mostrava fotografias da filha. “Guarda as fotos, senão ela vai chorar. Já está chorando”, pediu Milena à tia.

Maria Lucilene, Mayara e Milena dividem um quarto no pequeno apartamento de três cômodos onde vivem em Manaus. Barbies e um tablet são a distração preferida da menina espevitada de cachinhos no cabelo. A avó se pergunta por que o companheiro de Thaynara, que ela tinha “como um filho” e considerava um “menino bom”, agiu assim. Ele está preso aguardando julgamento.

Nos últimos seis meses, o casal havia começado a brigar, mas, na avaliação da família, eram desentendimentos normais de um relacionamento. A mãe se ressente de não ter conseguido evitar a tragédia. “Ela disse um dia que ia se separar do Bruno. Eu falei: ‘Se acalme, filha, vocês têm uma criança. Isso fica remoendo aqui dentro de mim”, disse Maria Lucilene, com a mão no peito, aos prantos.

Eduarda, a garotinha do começo desta reportagem que narrou no tribunal como o pai matara a mãe, vive com o irmão na casa da avó, Laíde Ferreira de Lima, de 61 anos. Os dois estudam em uma escola de tempo integral. A menina de cabelos castanhos e pele clara ouviu mais do que falou enquanto a família contou sobre o crime que vitimou sua mãe, Josilene. Vez por outra, balançava a cabeça em concordância com algo que era dito. Os netos são o xodó de Laíde, que colocou uma cama de casal em seu próprio quarto para as crianças. Os outros dois quartos da casa humilde, em uma laje por terminar na capital amazonense, são alugados para reforçar o orçamento da família.

Os irmãos passaram por atendimento psicológico. “Tiveram alta. Estão prontos para caminhar”, animou-se a avó. Apesar do bem­ estar das crianças, os parentes ficam atentos.

“Tem dia que a mamãe avisa que eles estão agitados. Aí eu venho para conversar, ver o que está se passando”, disse Jucineia Ferreira de Araújo, de 38 anos, tia das crianças.

A lembrança de Josilene está nas músicas da igreja que ela cantava como ninguém, segundo os parentes. Está também nas camisetas com o rosto da moça que a família costuma usar ao sair em manifestações de repúdio à violência contra a mulher.

Os parentes de Josilene tentam auxiliar outras vítimas indiretas de feminicídio com base na própria experiência. Foram cerca de três anos de idas frequentes às autoridades da polícia e do Ministério Público e ao fórum de Justiça, para não deixar a morte da jovem impune.

Josilene foi assassinada em 2019, quando a lei do feminicídio era relativamente nova e enfrentava resistências até mesmo no âmbito de órgãos estatais. O julgamento, em julho passado, durou mais de 12 horas, sob sigilo. O depoimento de Eduarda arrancou lágrimas dos presentes.

Ao responder por que não tinha saudade do pai, durante o testemunho, a menina explicou: “Porque ele fez o mal para minha mãe”. A avó reza para que os netos superem a perda. “A lembrança fica, mas um dia a dor vai ter de passar.”

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 26 DE MARÇO

A FELICIDADE COMO RESULTADO DA GENEROSIDADE

A alma generosa prosperará, e quem dá a beber será dessedentado (Provérbios 11.25).

Jesus diz: Mais bem-aventurado é dar que receber (Atos 20.35b). Esse é um caminho seguro para a verdadeira felicidade. Neste mundo marcado pela ganância e nesta sociedade timbrada pela avareza, Jesus nos mostra que o caminho da felicidade não é receber, mas dar. Na ânsia de ser feliz, o ser humano sempre quer mais. Por isso, assalta, rouba, corrompe e toma o máximo do outro, e isso de forma ilícita e desonesta. Contudo, quanto mais acumula os tesouros da impiedade, mais se afunda no desespero e na infelicidade. O caminho da felicidade é o inverso da ganância. Somos felizes não quando tomamos o que é do outro, mas quando damos ao outro. Somos felizes não quando acumulamos para o nosso deleite, mas quando repartimos por amor ao próximo. Somos felizes não quando ajuntamos tesouros na terra, mas quando os entesouramos no céu. Somos felizes não quando armazenamos tudo para nós mesmos, mas quando damos o máximo para o bem do nosso próximo. A felicidade não está em quanto temos, mas em quanto repartimos. A generosidade, além de nos trazer felicidade, ainda nos assegura prosperidade. Não é o avarento que prospera, mas o generoso. Quanto mais semeamos na vida do próximo, mais Deus multiplica a nossa sementeira. A bênção que distribuímos retorna sobre a nossa própria cabeça.

GESTÃO E CARREIRA

COMO CÃES E GATOS

As varejistas Cobasi e Petz se engalfinham pelo mercado de produtos e serviços para animais e tentam conter o avanço de uma rival que cresce na internet

As noites ao relento nos quintais das grandes cidades definitivamente fazem parte do passado. Há algum tempo cães e gatos têm colhido os louros do fenômeno da “humanização” dos animais de estimação no país e agora, além de usufruírem o aconchego do lar de seus donos, tornaram-se um segmento de consumo que atiça a cobiça dos fabricantes e comerciantes de uma infinidade de produtos e serviços. Segundo dados do Instituto Pet Brasil, que contabiliza as estatísticas da área, o país concentra uma população de 139,3 milhões de pets, dos quais 54,2 milhões são cães e 23,9 milhões, gatos – o restante da fauna que habita casas e apartamentos inclui aves, roedores, peixes e até répteis. Tamanho contingente está no foco de um ramo de negócios que movimentou no ano passado 35,4 bilhões de reais, volume 3% maior que o registrado em 2018. E, em meio a uma miríade de lojas, pet shops e clínicas veterinárias de bairro que atendem os donos de bichos domésticos, destacam-se empresas que constituem verdadeiros colossos voltados para o bem-estar de ambos – os donos e os bichos. Trata-se de companhias que oferecem unidades com configuração que lembra a de hipermercados e lojas de departamentos e estão envolvidas em uma disputa feroz pela preferência do consumidor.

A mais antiga no ramo é a Cobasi, empresa que fatura 1,3 bilhão de reais ao ano. Fundada em 1985 como uma loja que vendia, entre outros produtos, ração e medicamentos de uso veterinário, operou por anos sem lucro, sustentando-se com negócios correlatos de seus fundadores, proprietários de fazendas. A partir da década de 90, com o avanço da onda pet, mudou seu foco e refinou seu alvo para os bichinhos que viviam em casas e apartamentos. Atualmente, cravou sua centésima loja em um vistoso shopping center em uma região nobre de São Paulo e se prepara para a abertura de um núcleo de inovação que vai desenvolver soluções digitais direcionadas aos clientes. Batizada de Cobasi Labs, a nova área já tem vinte funcionários dedicados a avançar do modelo de lojas físicas para as chamadas experiências oferecidas em ambiente virtual. Essa empreitada vai além da possibilidade de comprar pelo site e também permitirá ao cliente agendar pelo celular consultas e outros serviços referentes aos animais. “Os pets de certa forma suprem as carências emocionais das pessoas, principalmente no ambiente tecnológico em que vivemos hoje. Acreditamos que é possível associar esses dois aspectos da vida moderna e, é claro, vender nossos serviços e produtos”, raciocina Ricardo Nassar, membro da família fundadora da Cobasi e sócio­ diretor da empresa.

Com sua loja coruscante em um shopping de luxo e seu núcleo de inovação, a Cobasi busca responder aos movimentos de sua principal rival, a Petz, que se expandiu de forma vertiginosa nos últimos anos. Fundada em 2002, em São Paulo, com o nome de Pet Center Marginal, óbvia referência à localização, na Marginal Tietê, a rede ganhou um empurrão considerável ao receber como sócio o fundo de private equity americano Warburg Pincus, que comprou mais de 50% da operação da empresa em 2013. O plano dos americanos não tinha nada de modesto: transformar a já rebatizada Petz em uma das maiores redes do mundo. Com 106 unidades, ela já ultrapassou a pioneira do mercado brasileiro em número de pontos de venda, mas ainda está atrás no quesito faturamento anual, na casa de 1,2 bilhão de reais. Ambas as empresas apostam em lojas espaçosas, em torno dos 1.000 metros quadrados, e em endereços privilegiados, como avenidas de grande tráfego.

Na briga pela liderança absoluta do setor, a Petz se prepara para um passo mais ousado. No último dia 19, a companhia registrou um pedido para oferta pública inicial de ações na B3, a Bolsa de Valores de São Paulo. Na operação, serão vendidas as ações hoje detidas pelo Warburg Pincus e parte dos papéis do fundador da empresa, Sergio Zimerman. Em relação à rival, a Petz se arrisca mais em inovação nos pontos de venda. Foi a primeira rede de pet shop a oferecer um hotel e uma creche para cães e gatos. Algumas de suas 106 lojas contam com self checkout, sistema de autoatendimento por meio de máquinas que dispensa o auxílio de operadores de caixa e que dispõe de recursos de realidade aumentada para entreter a clientela – tanto quadrúpede como bípede.

Embora as duas redes imponham respeito por suas dimensões, elas detêm, juntas, apenas 13,5% das vendas no varejo pet. Ou seja, ainda existe um espaço considerável para expandir-se. O problema é que não estão sozinhas. Outra companhia, a Petlove, cresce com a venda direta a consumidores e veterinários pela internet. Com uma filosofia de startup e faturamento de 315 milhões de reais, a companhia, fundada no fim dos anos 1990, tem comprado concorrentes do mundo on-line e projeta um faturamento de 2,5 bilhões de reais em 2024. Em meio a tal voracidade, haja ração para abastecer as tigelas da bicharada.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

COMER COM INTELIGÊNCIA

Nosso comportamento alimentar, diferentemente do de outros primatas, baseia-se no aprendizado e na imitação: escolhemos provar uma nova comida de acordo com o que fazem os outros

Deixando de lado as diferenças culturais, as atividades humanas inerentes à alimentação – do cultivo à colheita, do preparo ao consumo – são todas influenciadas pela sociabilidade. O contexto social em que vivemos tem um papel importante na determinação de nossas escolhas alimentares e, frequentemente, os alimentos preferidos não são os mais adequados do ponto de vista nutricional, mas os que agradam às pessoas ao lado das quais nos alimentamos. Também os macacos – a espécie mais próxima do homem do ponto de vista filogenético – comem reunidos, prestando atenção ao que fazem os companheiros.

Dada sua semelhança morfológica e comportamental com o homem, sempre se pensou que os macacos aprendem o que devem comer observando o comportamento de outros símios e que a difusão de novos hábitos alimentares seja fruto dessa observação. No caso do macaco-prego – símio sul-americano onívoro como o homem -, porém, a pesquisa experimental não confirmou essa suposição aparentemente verossímil.

Os animais onívoros, que devem procurar frequentemente novos recursos alimentares, enfrentam um difícil dilema. Comer algo desconhecido pode causar intoxicação, mas evitar o novo pode significar perder a oportunidade de descobrir um alimento bom e nutritivo. O que fazer? Para resolver a questão pode-se experimentar o alimento com extrema cautela, e assim aprender pela própria experiência, ou atentar para como se comportam indivíduos mais experientes e fazer o mesmo. Mas como os bebês e os símios se comportam diante de alimentos desconhecidos?

A neofobia – isto é, a pequena aversão a experimentar novas comidas – é um traço cultural característico da alimentação humana. Geralmente, essa característica exibe uma trajetória em forma de parábola, é reduzida nos bebês ainda dependentes do leite materno, atinge o ápice durante o desmame e decresce novamente quando esta fase se completa, momento em que muitos alimentos já fazem parte da dieta.

Além disso, a neofobia é influenciada pelo tipo de amamentação. Os bebês amamentados no seio, precocemente expostos aos vários sabores dos alimentos consumidos pela mãe, são geralmente menos neofóbicos que os nutridos com leite artificial. A oferta constante de novos alimentos pode reduzir a relutância em experimentá-los: na idade pré-escolar as crianças tendem a incluir espontaneamente determinadas comidas na dieta após experimentar pequenas quantidades uma dezena de vezes.

Mas o homem não é o único primata neofóbico: saguis, chimpanzés e macacos-prego também o são. O macaco-prego é extremamente cauteloso em relação a novos alimentos, seja na Natureza, seja no laboratório. Quando, no Parque Nacional de lguazú, na Argentina, Maria Agostini apresentou a um grupo de 25 macacos-prego alimentos familiares (banana) e novos (amêndoas descascadas, maçãs secas e outros alimentos que os macacos de nosso laboratório comiam com entusiasmo), o que era conhecido foi devorado em poucos minutos, ao passo que as novidades quase não foram degustadas. Embora todos mostrassem cautela, os menos temerários foram os adultos, cujo acesso limitado aos recursos do grupo os obriga a procurar alternativas.

Embora representando uma proteção eficaz contra a ingestão de alimento novo em quantidades que podem ser perigosas, a neofobia é uma solução muito radical para uma espécie onívora como o macaco-prego, cuja sobrevivência depende da capacidade de ampliar novos recursos nutritivos. Nesse macaco, assim como no homem, a neofobia é atenuada pela experiência: se a ingestão de novos alimentos não é seguida por mal-estar gastrointestinal, basta um certo número de contatos para que a comida seja aceita e consumida. Mas a neofobia pode ser influenciada pelo comportamento dos outros? Diante de um novo alimento, o indivíduo presta atenção no que fazem o demais e se comporta da mesma forma?

O PRATO DO VIZINHO

Para um bebê, o contexto social em que o novo alimento é encontrado é fundamental para que seja incluído na dieta. Diversos experimentos mostraram que a novidade é aceita mais rapidamente quando um adulto a come e que a observação do que fazem outros bebês pode alterar preferências alimentares já adquiridas. Também para o símio, a alimentação é uma atividade social. Segundo a antropóloga americana Barbara King, quando as símias comem próximas umas das outras, observando e cheirando o alimento e a boca alheios, adquirem informações sobre a comida. É dessa forma, observando os companheiros, que os indivíduos mais jovens e menos experientes aprendem o que comer.

Para verificar a hipótese, realizamos alguns experimentos com macacos-prego. Há alguns anos já havíamos mostrado que, para esse animal, o contexto social influencia a aceitação e o consumo de novos alimentos: um macaco-prego inexperiente é mais inclinado a comer algo novo quando está em grupo, e quanto mais companheiros estiverem presentes, tanto mais ele comerá.

É importante notar, entretanto, que a observação de indivíduos experientes só permite adquirir a dieta correta se a comida que eles consomem e aquela que o animal inexperiente encontra forem a mesma. Por outro lado, não é possível inferir do comportamento de companheiros experientes que ingerem uma comida diferente se o alimento novo é comestível ou não. Portanto, se os símios de fato aprendem o que comer com os outros, então um macaco-prego observador deveria consumir mais alimento novo quando os demonstradores comem algo da mesma cor do que quando ingerem alimentos de cor diferente.

Surpreendentemente, nossos experimentos revelaram que os observadores aceitam um alimento novo prescindindo da cor do alimento ingerido pelos demonstradores. Nem mesmo quando devem escolher entre dois alimentos de cor diferente eles se deixam influenciar pela cor da comida que os demonstradores estão consumindo. Crianças em idade pré-escolar, porém, só aceitam alimento novo quando o adulto observado come algo de cor idêntica.

Embora possa nos parecer óbvio que o indivíduo deva considerar bom e comer o mesmo alimento consumido por outros, esse processo mental não é imediato para o símio. Para chegar a essa conclusão, o animal avalia a semelhança entre os alimentos e emprega um raciocínio de tipo condicional. Ela pensa que, se o seu alimento é igual ao de seus companheiros experientes, então o fato de que estes o estão comendo significa que é bom. Ao contrário, se sua comida difere da consumida pelos outros, então o que estes estão ingerindo é irrelevante para ela.

Nos macacos-prego, as influências sociais reduzem a neofobia, mas não parecem fornecer indicações sobre o que comer. A criança de 3 anos, porém, já está em condições de empregar seu sofisticado raciocínio e, portanto, de comer apenas quando é “seguro” fazê-lo: vale dizer, quando sua comida e a do demonstrador têm a mesma cor.

CONHECER PARA EVITAR

Aprender, mediante observação do comportamento alheio, que um alimento é tóxico deve ser mais vantajoso do que tentar aprender sozinho, por tentativa e erro. Todavia, se para nós isso é óbvio, para os símios não é. Até agora não há provas experimentais mostrando que as símias aprendem a evitar um alimento por meio da observação de indivíduos experientes que não o comem. Quando um grupo de macacos-prego de nosso laboratório deparou com uma comida desagradável, nenhum deles deu atenção ao fato de que os outros a evitaram: todos experimentaram um pouco. Os macacos-prego não são a única espécie que não aprende com os outros a evitar um alimento. Também nesse caso aquilo que nos parece algo óbvio, que requer apenas um raciocínio elementar, é de fato um problema de notável complexidade. Aprender algo observando o que outros não fazem é muito mais difícil, do ponto de vista cognitivo, do que aprender com o que fazem. Para ser instruído por um fato que não se verificou, o indivíduo deve imaginar o evento que deveria ter acontecido, notar a sua ausência e deduzir a possível causa que impediu sua ocorrência.

No fascinante livro Fome e abundância: história da alimentação na Europa, Massimo Montanari – professor de história medieval da Universidade de Bolonha e historiador da alimentação – narra a experiencia de um ermitão que, retirando-se para meditar no deserto, não sabia distinguir entre plantas boas e venenosas. Após dias de jejum, observou o comportamento de uma cabra. Agora que sabemos como é difícil para os animais aprender com os outros, podemos avaliar a inteligência desse homem!

Outra opinião bastante difundida, fruto de nossa visão antropomórfica, é a de que as mães símias ensinam aos filhotes o que comer e o que evitar. Ensinar é uma atividade complexa do ponto de vista cognitivo, para ensinar o que comer é preciso saber se determinado alimento é tóxico ou não, se o outro sabe disso e, caso não saiba, que é necessário instruí-lo.

Sempre que a capacidade de ensinar foi sistematicamente estudada, concluiu-se que as mães não tentam “orientar” a escolha alimentar feita pelos filhotes. De fato, há apenas raras observações sobrea intervenção ativa para evitar que o filhote coma determinado alimento, provavelmente tóxico. O ensino ativo também é raro em outros domínios do comportamento. Por exemplo, ao contrário do que ocorre em nossa espécie, as mães não ensinam ativamente aos filhotes como resolver um problema ou usar certo instrumento.

Do que vimos até aqui, conclui-se que o ensino e o aprendizado com a observação e a repetição de detalhes do comportamento alheio ou com a ausência deste exigem capacidades cognitivas que os símios não parecem possuir. Sabemos, porém, que as diversas espécies de símios evitam predadores, resolvem inúmeros problemas e elaboram uma dieta que não coloca suas vidas em risco.

Observando o comportamento espontâneo dos macacos-prego, nota-se uma série de influências sociais vagas que aumentam a probabilidade de que o indivíduo se comporte como seus companheiros: por exemplo, a tolerância entre indivíduos, a proximidade que favorece o encontro dos alimentos, o ato de pegar a comida da boca do outro ou a ingestão dos restos deixados por um companheiro.

APRENDER COM A EXPERIÊNCIA

A experiência individual pode ser suficiente para a formação de dietas corretas. Os símios, assim como muitos outros animais, têm três características fisiológicas e comportamentais fundamentais para que o indivíduo aprenda, com a própria experiência, a ampliar a dieta evitando riscos fatais: a preferência por certos sabores, a cautela em relação a alimentos jamais experimentados e a aquisição da aversão alimentar.

Os símios revelam acentuada preferência por alimentos doces e evitam os amargos, resultado do processo evolutivo que plasmou o paladar de forma a maximizar a obtenção de energia e minimizar a ingestão de substâncias tóxicas (na natureza, em geral, os alimentos doces não contêm alta concentração de substâncias tóxicas, abundantes nos amargos).

Além disso, as símias são extremamente cautelosas quando experimentam alimento novo. Um mecanismo simples permite que elas aprendam, com a experiência, a evitar comida tóxica: quando experimenta algo novo e sente problemas gastrointestinais, ela associa o alimento ao mal-estar e, assim, aprende a não come-lo mais.

Esse fenômeno – tecnicamente chamado de “aprendizado de aversão alimentar” – é extremamente eficaz, pois exige um número limitado de experiências, persiste por muito tempo e é mais rápido se o alimento é novo. O aprendizado é bastante disseminado no reino animal e, no homem, pode determinar idiossincrasias em relação a novas comidas e às que eram anteriormente apreciadas. As influências sociais, que em nossa espécie têm tanta importância, são abafadas pela força da aversão que a pessoa adquiriu sozinha.

À luz de nossos resultados, parece que no macaco-prego, mas provavelmente também em outras espécies de símios, as influências sociais genéticas e a experiência individual permitem que o indivíduo aprenda o que comer sem que sejam empregados processos cognitivos mais complexos, cuja presença nessas espécies ainda precisa ser demonstrada.

Quando foram oferecidos sete tipos de alimento aos macacos-prego, alguns dos animais estavam sozinhos (condição individual) e outros em companhia de membros do grupo (condição social). Independentemente da condição social ou individual, as preferências se orientaram pelas comidas energéticas. Isso mostra que, também no que diz respeito à aquisição de preferências alimentares, o papel do contexto social é secundário.

 

HERANÇA ALIMENTAR

As tradições são elementos constitutivos da cultura e as relações entre aprendizado social. Tradições e cultura são ainda objeto de pesquisa intensamente debatido. Um comportamento é considerado tradicional ou cultural se: (a) está amplamente disseminado entre os membros de uma ou mais populações e ausente em outras que vivem em áreas ecologicamente similares; (b) a  presença em uma população e a ausência na outra não puder ser atribuída a diferenças ecológicas entre as áreas em que vivem e/ou a diferenças genéticas; e (c) mantém-se ao longo do tempo e é transmitido de uma geração a outra mediante aprendizado social. Alguns primatólogos  observaram diversas populações de chimpanzés por um período que seria equivalente a 151 anos e concluíram que existe entre eles um número considerável de comportamentos culturais. Por exemplo, os chimpanzés de determinada população usam pedras e bigornas para quebrar nozes multo duras, ao passo que em outra população nenhum instrumento é usado. Também a limpeza recíproca dos pelos (grooming) varia entre as populações. Comportamentos culturais estão presentes ainda nos orangotangos e em algumas espécies de cetáceos. Em populações naturais de Cebus capucinus há tradições comportamentais relativas às técnicas de processamento de certos alimentos ou à modalidade de captura de presas. Dado que tais diferenças não parecem ocasionadas por fatores genéticos ou ecológicos, cabe pensar que se trata de tradições. Recentemente, nessa mesma população de C. capucinus, Susan Perry e colaboradores observaram um comportamento singular em que uma símia inseria os dedos no nariz ou na boca de outra símia, que por sua vez fazia o mesmo com a companheira. Os pesquisadores elaboraram a hipótese de que esse arriscado hábito tinha a função de avaliar a qualidade das relações sociais. Mas são necessários estudos controlados de laboratório para compreender quais processos de aprendizagem social permitem a difusão desses comportamentos e para estabelecer o papel da influência social na experiência individual. Nossas pesquisas são um primeiro passo nessa direção.

 

COMO O MACACO-PREGO ESCOLHE

Segundo a teoria do optimal foraging, a seleção natural favorece as espécies que privilegiam a obtenção de energia e de substancias nutritivas, escolhendo os alimentos mais adequados. Todavia, quando se experimenta um alimento, o feedback sensorial devido ao sabor precede as consequências fisiológicas de sua ingestão, geradas pelas substâncias, nutritivas ou tóxicas, que contém. Investigamos se as símias avaliam um alimento novo desde as primeiras mordidas e se essa avaliação muda quando a comida se torna familiar. Pesquisamos ainda se as Influências sociais modificam as preferências alimentares. Gloria Sabbatini e Margherita Stammati ofereceram sete novos tipos de alimentos a 26 macacos-prego. Cada um deles era apresentado em par, cobrindo todas as 21 combinações possíveis: cada alimento devia ser escolhido seis vezes. Após essa limitada experiência, os macacos já efetuavam escolhas conforme o conteúdo de glicose e de frutos e dos alimentos. Alimentos com alto conteúdo de açúcar (como abacaxi) eram preferidos aos que tinham pouca quantidade dessa substância (como couve). Após contatos posteriores em que puderam comer os sete alimentos à vontade, as preferências mudaram e as símias não mais se basearam apenas no conteúdo de açúcar, mas também na energia total, independentemente da fonte dessa energia (açúcar, proteína ou gordura).

Esses resultados mostram que o feedback sensorial imediato, isto é, o gosto doce do alimento, determina inicialmente as preferências. Mas, em seguida, o indivíduo aprende a levar em conta outros fatores, e nesse ponto, privilegia os alimentos com alto conteúdo de energia e que produzem um feedback fisiológico positivo, isto é, uma sensação de saciedade.