OUTROS OLHARES

BARRADOS NA AMÉRICA

O pesadelo dos brasileiros que, flagrados ao tentar entrar de forma ilegal nos Estados Unidos, são enviados a abrigos no México ou despachados de volta para cá em voos fretados

Ao embarcarem em Belo Horizonte com destino à Cidade do México para iniciar uma longa, perigosa e incerta jornada, Jones Silva de Brito, de 35 anos, e Tânia Costa Oliveira, 32, carregando a tiracolo uma filha de 6 anos, deixaram para trás as poucas perspectivas profissionais (ela trabalhava por aqui como cabeleireira, enquanto ele tinha acabado de perder o emprego de carregador de caixas) e as muitas ameaças de uma agiota pelo não pagamento de um empréstimo para erguer a casa própria, cuja construção acabou atrasando e consumindo antes do tempo as reservas destinadas à obra. Depois de uma espera de três dias em um hotel, eles encararam 24 horas de estrada até Ciudad Juárez, a última parada antes dos Estados Unidos. No fim da manhã de 22 de janeiro, realizaram uma rápida travessia a pé pelo Rio Grande, com água pelos tornozelos, até a terra prometida. A epopeia terminou em desilusão: depois de cinco dias detida pelas autoridades americanas, sem maiores explicações, a família foi colocada em um ônibus e levada de volta para Ciudad Juárez. “Quando soube que ia ficar no México, bateu um desespero e comecei a chorar”, conta Tânia. Ao lado de outros 100 brasileiros e de muitos outros latinos, os mineiros aguardam – com pouquíssimas chances de sucesso – na Casa del Migrante, albergue mantido pelo governo local, a decisão que determinará se poderão ou não realizar seu sonho: viver nos Estados Unidos.

Nunca foi fácil atravessar a fronteira entre o México e os Estados Unidos. Desde o começo do ano, porém, os brasileiros que tentam acessar clandestinamente o território americano vêm enfrentado uma barreira a mais na conquista da América: uma mudança na regra. Até pouco tempo atrás, quem conseguisse cruzar o Rio Grande entregava-se às autoridades de lá, ingressando imediatamente com um pedido de asilo ao chegar, em uma prática conhecida como “cai- cai”. Passados vinte dias, o prazo máximo que famílias com menores de idade podiam ficar detidas, um magistrado geralmente permitia a entrada no país, desde que elas se apresentassem à Corte periodicamente, até o caso ser julgado. Na prática, abriam-se as portas para a imigração ilegal, pois a condição raramente era cumprida. Os “coiotes”, como são conhecidos os agenciadores que conduzem os imigrantes pelas áreas da fronteira, vendiam seus serviços às famílias no Brasil com a promessa de tirar proveito dessa brecha na legislação. “Eles diziam às pessoas que elas teriam um ‘probleminha’ na chegada, mas acabariam soltas em seguida, podendo ir para onde quisessem nos Estados Unidos”, afirma Nestor Forster, indicado pelo presidente Jair Bolsonaro à embaixada brasileira nos Estados Unidos (ele será submetido à sabatina no Senado em data ainda não definida pela Comissão de Relações Exteriores do Congresso).

A prática do “cai- cai” começou a ficar mais perigosa em 2019, quando o governo Trump criou os Protocolos de Proteção ao Migrante (MPP, na sigla em inglês), também conhecidos como o programa “Fique no México”. De acordo com as novas regras, imigrantes que entraram nos Estados Unidos atravessando a fronteira sul são “devolvidos” e precisam aguardar em território mexicano a decisão sobre o pedido de asilo. Essa definição pode demorar meses, e a possibilidade de uma resposta positiva é remota: apenas 1% dos pedidos recebe aprovação. Em 29 de janeiro de 2020, a novidade nada auspiciosa: Trump incluiu os brasileiros nesse programa. Desde sua implementação, o MPP tem sido alvo de denúncias por expor as famílias com menores de idade a um ambiente de violência. Um levantamento da ONG Human Rights First identificou mais de 1.000 casos de sequestro, tortura, estupro e assaltos contra imigrantes enviados ao México. Ciudad Juárez, para onde eles são transferidos, já foi considerada na década de 90 do século passado uma das cidades mais perigosas do mundo (e não melhorou muito desde então). Ali, a rotina dos hóspedes da Casa Dei Migrante é restrita às refeições diárias, brincadeiras com os filhos no pátio e, no máximo, idas a comércios nas imediações. Por volta das 20 horas, todos os dias, os abrigados devem se recolher para dormir. No último dia 28, houve um clima de comemoração com o anúncio de uma decisão de três juízes de uma Corte de São Francisco que suspendeu o MPP. A euforia durou apenas algumas horas, até que o governo federal ganhou um recurso contra a medida. “Brasileiros, guatemaltecos e hondurenhos fizeram festas, orações, agradeceram… Depois, ficou todo mundo triste, sem saber o que fazer”, relata a mineira Tânia Oliveira.

Enquanto os brasileiros amargam em Juárez os efeitos do programa “Fique no México”, os compatriotas que conseguiram furar a barreira e vivem ilegalmente nos Estados Unidos (mesmo aqueles que estão há anos lá) nunca correram tantos riscos como agora. Em uma mudança de política em relação aos governos anteriores, o presidente Jair Bolsonaro aceitou facilitar as regras de deportação. Em outubro de 2019, o Palácio do Planalto autorizou o despacho para cá, em voos fretados, de brasileiros presos na fronteira – algo não permitido anteriormente, pois o sistema era considerado degradante para as pessoas. Agora, elas têm sido deportadas em massa depois de passar por provações em prisões americanas que pretendem desencorajar a migração. A comida, por exemplo, resume-se a burritos, batatas chips e maçãs. Debaixo de um ar condicionado inclemente, que torna o ambiente extremamente gelado, cada imigrante tem direito a uma manta térmica de alumínio e dorme no chão. Celas com capacidade para quinze pessoas abrigam 35, e as das mulheres são apinhadas de crianças, com pessoas dormindo ao lado do vaso sanitário. Após essa desagradável temporada, o bilhete de volta. Desde outubro, seis aviões decolaram do Texas e pousaram em Belo Horizonte trazendo mais de 400 imigrantes presos na fronteira. Na sexta 6, estava previsto o sétimo desembarque do tipo, com 58 passageiros. O destino é sempre Minas Gerais porque a maior parte dos deportados vem do estado.

Cada voo fretado custa cerca de 230.000 dólares, mas o valor é um fator menos importante para as autoridades americanas. Mais tolerantes com os imigrantes brasileiros no passado, os Estados Unidos começaram a ver o Brasil como porta de entrada para ilegais de outras nações. “O país tem sido um canal para que pessoas mesmo de fora do Ocidente cheguem aos Estados Unidos. As nações da América Central estão policiando as próprias fronteiras, protegendo melhor sua soberania. Esperamos ver o Brasil fazer mais isso, além de expedir o retorno de brasileiros que vieram para cá ilegalmente. Essa é uma parte importante de ser um bom aliado”, cobrou o vice-secretário de Segurança Interna dos Estados Unidos, Ken Cuccinelli, dois dias antes da mudança que afetou os brasileiros. Tais declarações, que poderiam ter sido muito mal recebidas no passado, foram polidamente obedecidas pelo Itamaraty. O “bom aliado” Bolsonaro já declarou que “a maioria dos imigrantes não tem boas intenções”, e seu filho Zero Três, Eduardo, outrora cotado para ocupar a embaixada em Washington, chegou a dizer que “brasileiro ilegalmente fora do país é problema do Brasil, é vergonha nossa”.

Antes da aplicação oficial do programa aos brasileiros e da abertura para as a deportações em massa, o governo Trump já vinha endurecendo sua política de barrar os migrantes que saíam daqui. De acordo com dados do Departamento de Alfândegas e Proteção das Fronteiras dos Estados Unidos para o ano fiscal de 2019, 17.893 brasileiros foram presos nas fronteiras com o México, salto de 1.090 % ante os 1.504 de 2018. Números parciais entre outubro de 2019 e 31 de janeiro de 2020 mostram 5.576 detenções nessas regiões. Apesar do crescimento exponencial no total de prisões, o número de deportações variou apenas 4,7% no mesmo período, de 1.691 para 1.770. ”As pessoas eram detidas na fronteira, mas muita gente ainda entrava”, explica um diplomata com posto nos Estados Unidos a respeito do descompasso. Membros do Itamaraty avaliam que a inclusão no MPP deverá, no entanto, refletir-se em ainda mais deportações de brasileiros do território americano daqui por diante. Entre outubro de 2019 e fevereiro de 2020, 947 já haviam sido deportados. Se a média se mantiver até o fim do atual ano fiscal, em setembro, o número de 2019 será superado em quase 30%.

Além de levarem em conta o desemprego no Brasil e a perenidade de um baixo crescimento econômico, especialistas atribuem a evolução dos números a dois fatores. Um deles é o sentimento de “agora ou nunca” dos imigrantes diante da retórica de Trump, que inclui a construção do famigerado muro na fronteira entre Estados Unidos e México. Um número maior de pessoas começou a se arriscar mais “enquanto é tempo”. O outro fator é a mudança no radar dos “coiotes”, os criminosos que vivem de contrabandear os estrangeiros para dentro do território americano. Recentemente, eles expandiram sua atuação no Brasil para além de Minas Gerais, tradicional polo de imigração para os Estados Unidos, depois que o governo do México dificultou a entrada no país via Guatemala. Um dos estados mais visados pelos criminosos atualmente é Rondônia. “Os ‘coiotes’ são invisíveis, mas acessíveis. Nessas cidades, basta começar a falar do desejo de ir para os Estados Unidos que rapidamente alguém passa o telefone de um desses caras”, diz a socióloga Sueli Siqueira, da Universidade Vale do Rio Doce, estudiosa das migrações de brasileiros para os EUA.

No caso dos brasileiros que foram mandados de volta para o México, as sessões que definirão a entrada ou não deles em solo americano estão marcadas para o fim de abril. Enquanto isso, o governo mexicano lhes fornece documentos que permitem matricular filhos em escolas e ter acesso a assistência médica. A promotora de vendas L.P.S., 32 anos, viajou de Goiânia com o filho de 14 anos e alega sofrer ameaças do ex-marido para conseguir asilo. “Eu vou esperar até abril, porque não posso voltar para o Brasil. Sou divorciada há sete meses, e ele me batia muito”, explica. Por meio de um “coiote”, L. gastou 20.000 reais no percurso Goiânia-Ciudad Juárez. A exemplo de outros compatriotas, ela saiu daqui pouco antes da inclusão do país no programa mais rigoroso, com o objetivo de se estabelecer em Boston, onde vivem aproximadamente 350.000 brasileiros. A maioria dos imigrantes ouvidos viajou na semana anterior à mudança nas regras e relata ter sabido da novidade quando eles já estavam detidos em El Paso. “Meu irmão disse que tinha lido em algum lugar sobre esse assunto, mas o ‘coiote’ falou que “não podemos confiar nessas coisas de internet”, afirma Maria de Fátima Silva, de 27 anos, desempregada que partiu de Carmo do Paranaíba (MG) com uma filha de 3 anos, dois irmãos e dois sobrinhos. Ela também está no albergue em Ciudad Juárez e pretende voltar quanto antes para o Brasil, sem esperar a decisão do juiz de imigração. “Meu sonho americano foi por água abaixo”, lamenta.

As histórias de frustração e as péssimas experiências na tentativa de imigração, no entanto, não tiraram o ânimo de todos os brasileiros que se lançaram à aventura americana. No avião que pousou em Confins em 14 de fevereiro, o técnico de informática Fabiano Xavier Comelli, morador de Buritis (RO), preso por 22 dias com a mulher e dois filhos em El Paso, disse ter ouvido de quatro passageiros que eles procurarão entrar novamente nos Estados Unidos. ”A turma falou que vai tentar atravessar pelo deserto”, contou. Outro recém-deportado, Allan Silva, de 25 anos, morador de Governador Valadares, buscará convencer a mulher a fazer uma nova tentativa no futuro. “Ela ficou traumatizada coma experiência”, conta. “Mas, por mim, se tiver oportunidade de voltar pra lá, eu voltarei sim”, garante. Infelizmente, o desejo de uma vida perfeita na América seduz mesmo aqueles que acabaram de experimentar um autêntico pesadelo. Se a mesma obstinação fosse empregada por aqui, talvez o Brasil fosse diferente.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 20 DE MARÇO

O MILAGRE DA ANUNCIAÇÃO A MARIA

… Maria, não temas; porque achaste graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem chamarás pelo nome de Jesus (Lucas 1.30b,31).

O nascimento de Jesus foi anunciado pelo anjo Gabriel à jovem Maria, em Nazaré da Galileia. Deus escolheu uma jovem pobre, de uma cidade pobre, para ser a mãe do Salvador. Deus escolhe as coisas fracas para envergonhar as fortes. Maria devia ser muito jovem e ainda não tinha sido desposada. Quando recebeu a visita do anjo Gabriel, ficou alarmada. Quando soube que havia sido agraciada por Deus para ser a mãe do Salvador de seu povo, quis saber como isso aconteceria, pois não tinha relação com homem algum. O anjo explica que a sombra do Altíssimo a envolveria e ela conceberia por obra do Espírito Santo, de tal forma que seu filho seria o Filho do Altíssimo. Maria humildemente diz: Aqui está a serva do Senhor; que se cumpra em mim conforme a tua palavra (v. 38b). Parece que Deus chegou adiantado em Nazaré, pois escolheu uma jovem ainda não casada para ser a mãe de Jesus. Maria, porém, está disposta a enfrentar preconceito e ameaça, uma vez que poderia ser abando nada pelo noivo e até mesmo apedrejada pelo povo. Mas ela não teme. Ao contrário, crê em Deus, e o Senhor a exalta.

GESTÃO E CARREIRA

FACILITANDO A AGILIDADE

O agilista, profissional que auxilia na implementação de metodologias ágeis, está em alta

Empresas de todos os setores e portes estão preocupadas em se manter competitivas neste mundo em constante mudança. Tanto é que uma projeção do IDC, consultoria de inteligência de mercado, aponta que os gastos com tecnologia para transformação digital chegarão a 6 trilhões de dólares até 2022. Um dos reflexos desse cenário é o nascimento de novas funções. Uma delas é o agile coach, ou agilista, responsável por orientar as equipes na implementação de metodologias ágeis, fornecendo ferramentas, treinamento e mentoria. De acordo com um levantamento do LinkedIn, entre 2015 e 2019 houve crescimento médio de 53% na procura por esses profissionais. “Todos os negócios, dos mais tradicionais aos mais inovadores, precisam desse funcionário. A agilidade é o combustível dos novos modelos ele trabalho”, afirma Rafael Souto, presidente da Produtive, consultoria de carreira. Segundo ele, muitas das empresas que estão trabalhando nas mudanças exigidas pelo novo mundo do trabalho não obtêm sucesso por não dominarem os métodos ágeis.

No Grupo Zap, plataforma de aluguel e venda de imóveis, há um time de agilistas que atua dentro do departamento de design, produto e engenharia. Diana Neves, de 35 anos, faz parte da equipe. Formada em letras com especialização em antropologia – o que a ajuda a entender o comportamento humano, uma das habilidades necessárias para a profissão -, ela viu na atividade uma forma de tocar projetos com mais fluidez. “Trabalhava com lançamento de produtos e sofria com a dificuldade de os projetos avançarem. A agilidade surgiu ao buscar soluções”, diz. Em 2015, Diana começou a fazer cursos de metodologias ágeis para ter ferramentas que a ajudassem a lidar com equipes multidisciplinares e a encontrar soluções para problemas em cenários complexos.

Há cinco anos na área, Diana garante que o mercado está bem aquecido – o que possibilitou a ela buscar uma empresa alinhada a seus valores. Há sete meses no Grupo Zap, sua função é conversar com os times para auxiliá-los a agilizar e a simplificar processos, priorizando tarefas e focando o que é estratégico para o negócio. “Além de domínio técnico, o agile coach precisa entender de pessoas e saber como influenciá-las. Sem isso, não consegue que o time aplique a metodologia da maneira certa”, diz Caio Arnaes, diretor de recrutamento da Robert Half.

UM DIA NA VIDA

ROTINA DE TRABALHO

Horas trabalhadas: de 8 a 12 por dia

SALÁRIO***

De 9.250 a 18.850 reais***

***Pesquisa feita em janeiro de 2020 no LinkedIn e no Glassdoor

***Valores do Guia Salarial 2020 da Robert Half. Os valores variam conforme níveis de qualificação, eficiência do candidato, complexidade do cargo ou indústria, o setor de atuação e a demanda pela posição.

DIVISÃO DO TEMPO

40% – Em ações de melhoria e facilitação de experimentos

20% – Em reuniões com times e áreas

20% – Medindo resultados e adaptando ações

20% – Compartilhando conhecimentos e resultados

O QUE FAZER PARA ATUAR NA ÁREA:

Certificações referentes a métodos ágeis, como Kanban, Scrum Master e Lean, além de Management 3.0, Learning 3.0 e Cynefin.

PRINCIPAIS COMPETÊNCIAS:

  • Domínio técnico
  • Comunicação objetiva
  • Habilidade em mentoria e multiplicação de conhecimento
  • Inglês fluente
  • Resillência
  • Resolução de problemas
  • Adaptabilidade
  • Facilidade para trabalhar com métricas
  • Liderança

ATIVIDADES – CHAVE:

• Conduzir os times no uso de metodologias ágeis

• Disseminar a cultura ágil

• Organizar sessões de melhorias com os times

• Definir e acompanhar métricas e indicadores das equipes

• Gerir os orçamentos dos processos

PONTOS POSITIVOS:

Poder contribuir com a transformação digital – e de gestão – da empresa, pensando nas novas demandas do mercado, e levar mais agilidade às equipes, proporcionando menos sobrecarga de trabalho.

PONTOS NEGATIVOS:

Em muitas empresas, os profissionais podem esbarrar com a rejeição ao uso de metodologias ágeis ou com a ideia de que se trata, apenas, de conduzir as atividades de forma mais rápida.

QUEM CONTRATA:

Companhias que estejam em processo de transformação digital, principalmente nos setores de tecnologia, serviços e financeiro; e startups mais estruturadas.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

PALAVRAS DITAS, TROCADAS E CALADAS

Lapsos verbais, como a inversão de silabas, a pronúncia de vocábulos, frases que parecem simplesmente “escapar” de nossos lábios e até estranhos esquecimentos pontuais revelam como a comunicação se estrutura além das intenções puramente racionais

Algumas vezes cômicos, outras constrangedores, os lapsos de linguagem dificilmente passam despercebidos. Se o autor do deslize é famoso, na certa o episódio vai parar na internet. Nos últimos dias de dezembro, por exemplo, o apresentador da rede Globo William Bonner falava sobre um eclipse solar quando trocou a palavra ”lua” por “lula”. O erro foi cometido enquanto apareciam imagens do fenômeno.

Porém, foi possível perceber que o apresentador notou o equívoco, pois riu e se corrigiu imediatamente. “Milhões de terráqueos que vivem na Ásia puderam testemunhar hoje um eclipse solar anular. A lula… a lula… a lua (risos) se posicionou entre a Terra e o Sol”, disse Bonner. O engano repercutiu nas redes sociais e muitos associaram a falha à enorme preocupação do apresentador e da emissora com o reconhecimento que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva possa ter, a despeito da aparente antipatia da emissora por ele.

O fato é que, além da diversão que proporcionam ao público e do embaraço que causam aos autores, lapsos podem ser bastante intrigantes? Por que acontecem? O que podem nos dizer sobre o funcionamento da mente? Entre os precursores das pesquisas sobre lapsos de linguagem estão o filólogo Rudolf Meringer e o psiquiatra Karl Meyer, autores do livro Erros na fala e na leitura: um  estudo psicológico, no qual constam cerca de 8.800 erros verbais de escrita e de leitura. O principal objetivo era elaborar classificações, mas os autores também tentaram determinar a existência de  mecanismos psíquicos associados ao fenômeno, particularmente aos sons proferidos, pois atribuíam valor psicológico aos fonemas.

Sigmund Freud abordou o lapso com profundidade em Psicopatologia da vida cotidiana, de 1901. O pai da psicanálise não poupou críticas à abordagem de Meringer e Mayer e propôs que o lapso seria a confissão involuntária de um conflito interior, de um pensamento escondido em si mesmo e removido da consciência. Para Freud, é a dimensão involuntária que dá valor particular ao lapso. “No procedimento psicoterapêutico que utilizo para resolver e eliminar os sintomas neuróticos apresenta-se com frequência a tarefa de encontrar um conteúdo mental nos discursos e nas ideias aparentemente casuais do paciente”, escreveu.

Esse conteúdo tenta ocultar-se, mas não consegue evitar trair-se inadvertidamente de diversas maneiras. É para isso que, em geral, servem os lapsos. Por exemplo, falando da tia, um paciente insiste em chamá-la de ‘minha mãe’ sem perceber seu erro, ou ainda uma senhora que fala do marido como se fosse o ‘irmão.’ Para esses pacientes, tia e mãe, marido e irmão são, portanto, ‘identificados’, ligados por uma associação pela qual se evocam mutuamente”, escreveu.

MEDOS E DESEJOS

Não há consenso sobre as interpretações psicológica e psicanalítica dos “escorregões” da fala. Para alguns autores, a explicação freudiana dos lapsos é útil apenas em um número limitado de casos. Uma hipótese muito mais simples sugere que esse tipo de erro ocorre devido à complexidade cognitiva da linguagem. Segundo essa abordagem, os lapsos revelariam muito mais sobre sua estrutura e uso que sobre nossas intenções inconscientes. Hoje, algumas áreas da linguística e da psicolinguística consideram os equívocos fenômenos esperados no fluxo do discurso e os analisam como reflexos do mecanismo de produção da linguagem.

No entanto, não conseguem explicar por que, quando investigados mais a fundo, os tropeços invariavelmente esbarram em conteúdos psíquicos inconscientes. Essa constatação, entretanto, não elimina a evidência de que o lapso não é uma forma normal de comunicação, mas seu funcionamento fornece informações preciosas que ajudam a compreender certos aspectos cognitivos da fala. Isso não exclui, naturalmente, a interpretação freudiana, segundo a qual os lapsos expressam medos ou desejos que escondemos até de nós mesmos.

Experiências realizadas pelo pesquisador Michael T. Motley, da Universidade da Califórnia em Davis, ampliam o enfoque psicanalítico. Seu grupo elaborou uma série de testes que manipulavam os desejos dos sujeitos, induzindo-os a cometer enganos.

CONTRA O TEMPO

Grande parte do crédito à abordagem moderna do estudo dos lapsos cabe a Victoria Fromkin, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, que nos anos 60 deu início a um paciente trabalho de coleta de milhares de exemplos. De suas pesquisas conclui-se que os lapsos verbais seguem, em geral, as mesmas regras. A troca de palavras (por exemplo, “sacuda os pratos e lave a toalha”), observada quando se invertem dois vocábulos na mesma frase, ocorre quase sempre com termos que pertencem à mesma categoria gramatical ou sintática (verbos por verbos, substantivos por substantivos).

Já os lapsos de substituição, nos quais uma palavra é trocada por outra externa à frase, acontecem entre termos da mesma categoria semântica (“gato” no lugar de “cachorro”). É o caso, extremamente constrangedor, mas não raro, de alguém que vai ao velório e ao se dirigir à família do falecido diz “Parabéns” em vez de “Meus pêsames”.

Existem também erros de deslocamento (de um ponto a outro na frase), de perseverança (reutilização de um elemento depois de sua colocação no lugar correto), de antecipação (utilização de palavra ou sílaba antes de sua colocação correta) ou de amálgama (união de dois elementos para formar um terceiro, quase sempre inexistente).

Um exemplo de lapso de perseverança é dizer que Roma foi fundada pelos irmãos, ”Rômulo e Remolo.”

Rômulo e Rêmolo”, quando o correto é Rômulo e Remo.

Os enganos mais comuns implicam a troca de palavras e de fonemas, o que sugere que esses dois elementos são particularmente importantes na elaboração do discurso. No entanto, segundo a teoria linguística, existe uma hierarquia entre as várias unidades da linguagem (frase, palavra, morfema, sílaba, fonema), mas diversos tipos de lapsos podem ocorrer em qualquer um desses níveis.

Afinal, falar é uma tarefa cansativa. Uma verdadeira corrida contra o tempo. Escolhemos em média três palavras por segundo de um vocabulário de pelo menos 40 mil, que para serem pronunciadas recrutam aproximadamente 100 músculos. As possibilidades de errar, portanto, são inúmeras.

JOGOS LINGUÍSTICOS

Muitos lapsos terminam em brincadeira. Foi o caso do sacerdote anglicano e professor da Universidade de Oxford William-Spoaner (1844-1930), cuja· inclinação para trocar a primeira letra ou sílaba das palavras tornou-se célebre, dando origem a uma categoria particular de jogos de palavras chamados “spoonerismos”.  São atribuídos a ele lapsos com o tons of soil (toneladas de terra) em vez de sons of toil (filhos do sacrifício) e our queer dean (o nosso excêntrico presidente) no lugar de our dear queen (nossa prezada rainha).

O equivalente francês é a contrepeterie, espécie de jogo que parece ter sido introduzido na França  pelo renascentista Francês Rabelais (1483-1553). Entre os notáveis praticantes dessa “arte da palavra” estão outros franceses, como o escritor Victor Hugo (1802-1885), o pintor e escultor Marcel Duchamp (1887-1968 ) e o poeta Jacques  Prévert (1900-1977), autor do trocadilho  Partir c’est mourir un peu/ Martir c’est pourir un peu(partir é morrer um pouco/ martir é apodrecer um pouco).

Na língua portuguesa, quando um fonema (ou um de seus elementos) e deslocado de uma silaba a outra (por exemplo, ”tauba” no lugar de tábua), fala-se em hipértese – fenômeno muito comum no modo de falar caipira. Se essa troca se estender à frase (como no divertido “transmimento de  pensação”) temos; a hipértese intervocabular, o que soaria apenas como uma brincadeira de  palavras, uma informalidade jocosa da língua, tornou-se recurso literário nas mãos de escritores como Millôr Fernandes na fábula “A baposa e o rode”, escrita toda com spoonerismos. No poema “Diversonagens suspersas”, Paulo Leminski (1944-1989) juntou as palavras personagens suspensas, dispersas para falar do fazer poético. Na literatura em geral, os erros linguísticos, longe de constranger, encantam e comovem.

Como disse Leminski: “A única razão de ser da poesia é o anti- discurso. Poesia, num certo sentido, é o  torto do discurso. O discurso torto.