OUTROS OLHARES

APOSTA ARRISCADA

Depois de 74 anos do decreto que extinguia o jogo no país, Ministro da Economia defende a legalização dos estabelecimentos.

“Não funcionaram mais os cassinos”, estampou a manchete do jornal O Globo do dia 2 de maio de 1946, uma quinta-feira. “O decreto extinguindo o jogo em todo o território nacional, assinado na manhã de terça-feira, já à tarde aparecia no Diário Oficial, e, assim, entrava, automaticamente, em vigor. Por isso mesmo, os cassinos do Rio, por deliberação de seus diretores e obedecendo às determinações da lei moralizadora, já não funcionaram naquele dia”, informava o jornal. Passados quase 74 anos, e depois de muitas voltas na roda da fortuna, as portas dos cassinos nunca estiveram tão perto de ser reabertas no país, escancaradas por um movimento liderado por empresários do jogo, parlamentares e integrantes da cúpula do Executivo.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, já manifestou a pessoas próximas ser favorável à reabertura dos cassinos em resorts; o chefe da equipe econômica tem dito que, hoje, o Brasil tem todas as condições de abrigar os empreendimentos, abrindo as portas para atrair o turismo de luxo. A posição também é publicamente defendida pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e tem apoio do ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, e do presidente da Embratur, Gilson Machado – nome em alta no clã Bolsonaro e que lançou um plano mirabolante para alavancar o turismo no país, que apela a Sharon Stone e a aventuras de Mickey e Minnie pelo Brasil.

A pressão também alcançou o presidente Jair Bolsonaro. Em 2018, o então candidato chegou a dizer que os cassinos serviriam para “lavar dinheiro” e “destruir famílias no Brasil”. Depois da posse, procurou se distanciar do assunto, equilibrando-se para não contrariar os evangélicos, base essencial para sua sustentação política, e os empresários interessados em abrir cassinos no Brasil. No dia 1de fevereiro, Bolsonaro foi questionado por um parlamentar, pelo WhatsApp, sobre sua opinião em relação ao tema. Uma nota publicada no site O Antagonista que levantava a hipótese de o presidente passar a encampar a proposta foi encaminhada a ele. Ao congressista, Bolsonaro disse que era contra o projeto e que não poderia ficar “o dia inteiro” desmentindo a imprensa. Apesar da negativa, um assessor direto do presidente afirmou que ele tem, agora, uma visão favorável à regularização dos cassinos.

A desconfiança sobre a posição de Bolsonaro ganhou força depois da ida do senador Flávio Bolsonaro (sem partido – RJ) para Las Vegas e Miami, no mês passado. Flávio reuniu-se com representantes do setor, como o fundador do grupo Las Vegas Sands, Sheldoo Adelson, que já manifestou publicamente o interesse em abrir cassinos integrados a resorts no Brasil. Deputados da bancada evangélica tentam, inclusive, pressionar a Igreja Batista, da qual Flávio é fiel, a enquadrar o senador.

Além de Flávio, também integraram a comitiva brasileira a Las Vegas e Miami o onipresente Gilson Machado, da Embratur, o senador Irajá Abreu (PSD-TO) e o deputado federal Hélio Lopes (PSL-RJ), além do lutador de MMA Vítor Belfort, embaixador do turismo do Brasil.

“Que alegria poder saber que em nosso corpo diplomático tem pessoas tão incríveis, competentes e de mente aberta. Um grande prazer discutir o futuro do Brasil com nosso cônsul-geral em Miami, embaixador João Mendes Pereira. Estamos juntos trabalhando para um novo Brasil!”, postou Belfort em seu perfil no Instagram, em 21 de janeiro.

A avaliação do grupo que viajou é a de que, se o país for capaz de montar um projeto “conservador”, e que feche as portas à lavagem de dinheiro, uma das principais críticas à legalização dos jogos, a opinião pública pode abraçar a ideia. É mais fácil no discurso do que na prática.

Adelson, o anfitrião do zero um no tour americano, é um velho conhecido do mundo político brasileiro. Dono de cassinos nos Estados Unidos, em Cingapura e em Macau, o empresário visitou o Brasil em 2018 – a indústria do jogo nutriu grande expectativa de que o governo de Michel Temer resolvesse de vez o assunto. A expertise do grupo comandado pelo bilionário é a construção de megacomplexos, reunindo cassino, hotel, restaurante e centro de convenções. A presença é intensa a ponto de um projeto em tramitação na Câmara ser chamado pelos detratores, ironicamente, de “Lei Sheldon Adelson”. “É um discurso sem nexo (a acusação de beneficiar o empresário americano)”, disse o deputado Paulo Azi (DEM-BA), autor do texto. “A gente não quer que nenhum empresário separe a área que ele deseja. O governo vai definir onde os cassinos vão ficar, avaliando as questões de infraestrutura”, argumentou o parlamentar. Ele se disse favorável a outras modalidades, como o jogo do bicho, mas acredita que a proposta dos cassinos tem mais possibilidade de criar o “entendimento” necessário no Congresso para a aprovação.

O ponto levantado pelo deputado dá uma ideia das várias faces da discussão. Além da legalização dos cassinos, abraçada por parte do establishment, a discussão sobre a regularização dos jogos abarca o jogo do bicho, os caça-níqueis e as loterias, que já são exploradas pelo Estado.

No Congresso, onde as apostas são altas, a alternativa já foi desenhada até pensando em possíveis vetos presidenciais: as modalidades de jogos foram divididas por capítulos, e podem ser excluídas sem interferir na essência da proposta.

O embate no Congresso se arrasta ao menos desde agosto de 2016, quando a comissão especial do Marco Regulatório dos Jogos aprovou um relatório que apoia a legalização das atividades de cassinos, jogos do bicho e bingos no país. O texto segue na gaveta. Além da oposição em peso dos evangélicos, também há divisões entre os apoiadores dos jogos. Rodrigo Maia, favorável aos cassinos, já chamou de “tiro no pé” o libera­ geral e lembrou a íntima relação entre caça­ níqueis e milícias no Rio de Janeiro.

Um dos articuladores do movimento pró-legalização e nome influente no Congresso, o senador Ciro Nogueira (PP-PI) tem indicado nos bastidores que não se opõe caso o governo e o Congresso optem apenas pela liberação dos cassinos. Uma ala não admite, no entanto, que a proposta não passe na íntegra. Cita como exemplo o lobby dos comandantes do jogo do bicho e dos caça- níqueis. Esse grupo de parlamentares diz que, ao privilegiar o jogos em empreendimentos de luxo, o Legislativo permaneceria de olhos fechados para a expansão do crime, por meio de atividades clandestinas, nas regiões mais pobres.

Parte da discussão sempre se deu a partir da realidade de que o jogo é, na prática, liberado no país, e tem íntima ligação com o crime organizado e a lavagem de dinheiro. Basta ver a opulência das escolas de samba na avenida neste último carnaval, boa parte delas financiadas pelo dinheiro do bicho – é a época do ano em que contraventores são tratados como figuras sérias, como se o crime fosse suspenso durante a folia.

Trazendo à tona estimativas extraoficiais, defensores da legalização apontam que só o jogo do bicho “emprega” mais de 400 mil operadores e apontadores. “O jogo do bicho, o samba e a cachaça são as únicas criações tipicamente brasileiras”, exagerou o deputado Bacelar (Podemos-BA), presidente da frente parlamentar que trata do tema e defensor do aval irrestrito para os jogadores. “O país joga na clandestinidade, e milhões de reais vão embora diariamente”, acrescentou, em referência à possibilidade de arrecadação com impostos. Nessa mesma matemática extraoficial, cerca de R$ 20 bilhões por ano poderiam ser arrecadados em impostos pelo governo.

Outro filão que na prática é legalizado é o das apostas esportivas on-line. Embora o marco legal tenha sido estabelecido no final de 2018, a regulamentação nunca saiu do papel. Em uma reunião no Brasil, representantes da bet365, uma das principais empresas da área, estimaram um faturamento de até R$ 8 bilhões por ano no país – o que leva o potencial do mercado brasileiro, em tese, para a casa dos R$ 16 bilhões, já que a companhia só atua em países onde consegue dominar ao menos metade do mercado.

A maior parte nem se dá conta, mas essas apostas na prática não são regularizadas no Brasil. Os sites estão todos hospedados no exterior – Malta é o país mais procurado, mas também há operações sediadas em Liechtenstein, Gibraltar e Inglaterra, alguns dos destinos com tributação atrativa para as empresas de apostas. Os valores, enviados por meio de cartão de crédito internacional ou pré-pago, juntam-se aos gastos de milhões de apostadores em todo o mundo. Mesmo com essa gambiarra, a contabilidade extraoficial aponta que os brasileiros já gastam atualmente entre R$ 4 bilhões e R$ 6 bilhões em sites no exterior. Os sites de apostas patrocinaram 12 clubes da Série A do Campeonato Brasileiro no ano passado, e foram responsáveis por 30% do contrato negociado pela CBF para a publicidade do torneio.

Para além do argumento de que os jogos impulsionariam a arrecadação, existe um estrago real provocado pelas apostas em ao menos duas frentes: a de saúde pública, com os dramas dos viciados que não conseguem ter uma relação apenas lúdica com a atividade; e a de combate à corrupção, por causa da facilidade para a lavagem de dinheiro do crime.

A começar por esse último problema, quem combate a corrupção sempre apontou os muitos caminhos para desvios. O procurador Dellan Dallagnol, da Lava Jato, exemplificou: os contraventores poderiam se beneficiar, por exemplo, comprando com dinheiro ilícito os prêmios de outros apostadores pagando ágio, ao retirar a verba no caixa da casa de apostas, o recurso estaria legalizado.

O procurador José Augusto Vagos lembrou, em artigo, que a experiência da legalização dos bingos, entre os anos 1990 eo início dos anos 2000, mostrou que criminosos que já exploravam o jogo clandestino passaram a dominar a atividade, usando laranjas à frente das empresas. Nesse ponto, os defensores da legalização restrita a cassinos afumam que o controle seria mais efetivo. “Não quero entrar na discussão sobre o outro modelo (da legalização irrestrita). A experiência mostra que o padrão dos cassinos em resorts é o mais bem­ sucedido no mundo”, disse o deputado Herculano Passos (MDB-SP), citando o exemplo de Cingapura.

Os efeitos colaterais sociais são um dos principais argumentos da bancada evangélica, que atua quase em bloco contra a legalização dos jogos. Mas há surpresa. O debate pró-legalização ganhou o reforço improvável do prefeito do Rio, Marcelo Crivella. No equilíbrio entre permanecer ao lado de uma posição cara aos políticos evangélicos e a necessidade de atrair investimentos para a cidade e reforçar o caixa da prefeitura, Crivella ficou com a segunda opção. O prefeito tem linha direta com o bilionário Adelson e tenta convencê-lo a erguer um empreendimento na Zona Portuária do Rio – fontes do mercado pontuam que o empresário ainda prefere a Barra da Tijuca. Recentemente, Crivella defendeu que a autorização para apostar nos cassinos ficasse restrita aos estrangeiros. Nenhum modelo em discussão é capaz de agradar ao coordenador da Frente Evangélica no Congresso, o deputado Silas Câmara (Republicanos-AM). “Está errado o conceito (de Crivella). Vai começar assim (liberando para estrangeiros) e depois vai desandar. O argumento dos bons resultados económicos também é equivocado, porque há uma série de gastos em decorrência do vício, corrupção e violência”, apontou o parlamentar que cita um estudo do economista Earl Grinols, para quem cada dólar arrecadado em Las Vegas com o jogo resulta em USS 3 gastos com consequências sociais das apostas.

Passadas mais de sete décadas desde que o presidente Eurico Gaspar Dutra proibiu os jogos para coibir “abusos nocivos à moral e aos bons costumes”, as apostas nunca estiveram tão altas.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE ORVALHO PARA A ALMA

DIA 13 DE MARÇO

O MILAGRE DO NASCIMENTO DE JOÃO BATISTA

… Zacarias, não temas, porque a tua oração foi ouvida; e Isabel, tua mulher, te dará à luz um filho, a quem darás o nome de João (Lucas 1.13b).

Zacarias era sacerdote, e Isabel, sua mulher, era prima de Maria. Esse casal sempre pedira a Deus um filho, mas os dois já estavam velhos e o filho não chegava. Quando já haviam perdido a esperança, o anjo Gabriel aparece a Zacarias no templo e o informa que sua mulher daria à luz um filho, que deveria chamar João. Este seria grande diante de Deus, cheio do Espírito Santo desde o ventre, e converteria muitos dos filhos de Israel ao Senhor, pois seria o precursor do Messias. Se Deus parece ter chegado adiantado a Maria, que não era ainda desposada, parece ter chegado atrasado a Isabel, que já estava avançada em idade. Mas o mesmo Deus que realiza o milagre do nascimento virginal de Jesus abre também o ventre de Isabel para conceber João Batista. O Deus Todo-Poderoso é quem realiza esse duplo milagre na preparação do Natal. O anjo Gabriel mui apropriadamente, diz a Maria: Porque para Deus não haverá impossíveis em todas as suas promessas (Lucas 1.37). O mesmo Deus que operou maravilhas no passado pode fazer maravilhas hoje, e isso em sua vida!

GESTÃO E CARREIRA

A FORÇA DA GESTÃO FEMININA

Pesquisa Panorama da Mulher mostra que ainda é longo o caminho para a ascensão delas a cargos de comando. Mas muitas já provam que são grandes líderes.

Daniela Fagundes (sócia da Méliuz), Lívia Soares (diretora da Emailage), Luanna Toniolo (fundadora da Troc), Paula Gusmão (CEO da eÓtica), Sandya Coelho (diretora do GetNinjas). Uma baita seleção. Cinco mulheres. Cinco histórias de sucesso. Infelizmente, cinco exceções. O estudo Panorama Mulher, elaborado pela Talenses em parceria com o Insper, mostra que em 2019 a participação feminina em cargos de liderança foi baixíssima: 26% no caso de diretorias, 23% em vice-presidência, 16% como integrantes de conselho deliberativo e apenas 13% no papel de presidentes. Nesse caso, o percentual é ainda menor ao da pesquisa de 2018, quando 15% das organizações eram presididas por mulheres, apesar de o resultado estar acima do de 2017, quando elas ocupavam apenas 8% dos postos de CEOs. “O fato é que o avanço das mulheres em cargos de comando está bastante lento”, afirma o economista do Insper Fernando Ribeiro Leite Neto, coordenador da pesquisa.

CEO da eÓtica, empresa nacional de e-commerce de óculos, Paula Gusmão é exemplo de profissional que se preparou muito até conseguir o cargo. Formada em Administração pela Fundação Getulio Vargas (FGV), fez curso em economia pela Stockholm School of Economics e tem mestrado pela Universidade de São Paulo (USP). Começou a carreira no mercado financeiro, de onde saiu por causa da crise de 2008. À época, resolveu tirar um ano sabático. Quando voltou ao Brasil, recebeu convite para atuar no e-commerce do grupo Pão de Açúcar (GPA), na área de pagamento eletrônico, e depois migrou para o projeto de marketplace do Extra. Também teve passagem pela Netshoes e Essilor Latam, antes de ser contratada para presidir a eÓtica. Toda essa bagagem foi primordial para ascender profissionalmente, mas não evitou que ela sofresse algum tipo de preconceito, que credita também aos segmentos.

Segundo Paula, o mercado financeiro é muito machista e preconceituoso com relação à presença feminina. “O setor de e-commerce é mais aberto à diversidade”, afirma a executiva. Mais aberto sim, mas não imune. “Já aconteceu de o representante de um fornecedor perguntar se não havia um superior (homem) acima de mim. Mas a gente não pode dar muita atenção a isso”. O fato é que, desde que Paula assumiu a presidência, a eÓtica tem crescido na casa dos dois dígitos ao ano. Em 2019, foi 200% mais rentável do que em 2018.

LUANNA TONIOLO, Fundadora da Troc.

DRIBLE

Não enfrentar o problema da desigualdade é burrice. Um estudo de 2015, da McKinsey, mostra que a igualdade de gênero poderia adicionar US$ 12 trilhões ao PIB global em dez anos. Liliane Rocha, fundadora e CEO da Gestão Kairós, empresa de consultoria em sustentabilidade e diversidade, diz que uma das formas encontradas pelas mulheres para driblar as barreiras e crescer profissionalmente é montar o próprio negócio. “Eu mesma não conseguia subir de cargo, apesar de comandar um departamento com orçamento de R$ 40 milhões. Percebi que as funções de liderança estavam destinadas aos homens naquela empresa”, diz a consultora. Liliane considera isso um erro, porque equipes com diversidade têm olhares diferentes sobre a mesma situação e probabilidade maior de apontar riscos e soluções. Ela se baseia também numa pesquisa da McKinsey, feita com cerca de mil empresas em 12 países, que aponta que os resultados das companhias melhoram em até 21% quando há mulheres na liderança.

 LÍVIA SOARES, Diretora de Vendas da emailage.

Mas se uma das saídas é montar o próprio negócio, parte-se para esse caminho. Foi a estratégia de Luanna Toniolo desde o começo da carreira. Especializada em Direito Tributário e mãe de dois filhos, a curitibana tinha seu próprio escritório de advocacia e um ganho financeiro que afirma ser bastante satisfatório. Seu sonho, porém, era trabalhar com moda. Após uma viagem com o marido para Boston, nos Estados Unidos, com a finalidade de estudar, Luanna resolveu empreender em algo que a aproximasse do seu sonho.

Depois de muita pesquisa, fundou a Troc, brechó online que só faz crescer desde que entrou em atividade, em 2016. Segundo a empresária, em outubro de 2017 já havia faturado o primeiro milhão e, antes de completar o terceiro ano de funcionamento, já faturava R$ 10 milhões ao ano, com cerca de 2 mil pedidos mensais. A empresa busca as peças de roupas na casa de quem pretende vender, analisa se tem qualidade para ser colocada na vitrine virtual, faz o cadastro, medição, fotografia e anuncia. Mas mesmo o fato de ser dona do próprio negócio não a livrou do preconceito. Ao iniciar a montagem do brechó e buscar apoio de investidores, percebeu que os participantes das reuniões, a maioria homens, não conversavam diretamente com ela, e sim com outros homens que estavam à mesa. “É difícil ter voz em um mundo masculino. Existe preconceito até por parte de outras mulheres. A gente precisa trabalhar o dobro para provar a capacidade”, diz.

PAULA GUSMÃO (CEO da eÓtica).

EXCEÇÕES

A mineira Daniela Fagundes é relações públicas e jornalista por formação, com passagem pela TV Globo e pelo Instituto Inhotim, de Minas Gerais. Ao contrário de Paula, da eÓtica, e Luanna, da Troc, não passou pelos perrengues preconceituosos profissionais. Ela conheceu o mercado de startups em 2016, quando foi contratada para trabalhar na Méliuz, empresa do segmento de cashback – que promove retorno de um percentual de dinheiro gasto em compras para o próprio consumidor. Passou para o cargo de coordenadora de Marketing de Produto da empresa e, há pouco mais de um ano, tornou-se uma das sócias, com base em um instrumento contratual conhecido pelo nome de vesting, adotado pela Méliuz. Esse modelo é muito usado por startups e prevê aquisição progressiva de direitos sobre a empresa, conforme o envolvimento real do funcionário no crescimento do negócio. “As coisas aqui vão na contramão do que acontece no mundo. No ano passado, 50% dos funcionários eleitos para sócio foram mulheres”, afirma Daniela, para quem falta representatividade feminina no mercado em geral. “Por haver poucas mulheres líderes, com algum tipo de poder, é difícil se destacar. Por isso, gosto tanto de trabalhar na Méliuz, pois a política é mais igualitária”, declara.

DANIELA FAGUNDES, Sócia da Méliuz

Sandya Coelho também encontrou no mundo da tecnologia um ambiente menos desigual. Diretora de comunicação do GetNinjas, aplicativo de contratação de serviços que movimenta R$ 400 milhões ao ano, oferece cerca de 200 tipos de soluções e atua no Brasil e no México. Entrou na empresa há três anos, para estruturar a área de Comunicação, e depois se tornou diretora de Comunicação e Novos Negócios, na qual também é responsável pelo relacionamento do GetNinjas com grandes empresas varejistas.

Dentro da companhia, ela diz não ter tido problemas por ser mulher, mas no mercado tradicional, sim. “É muito desafiador ser mulher à frente das negociações. Eu já precisei ter muita firmeza para fazer a outra parte entender que não era necessário buscar alguém acima de mim, que ele poderia falar comigo”, afirma. Nas horas vagas, Sandya é praticante de ioga e dá aula de meditação uma vez por semana. A empresa que ela ajuda a comandar está presente em cerca de 3 mil municípios brasileiros, recebe em torno de 300 mil solicitações mensais e tem dobrado de tamanho ano a ano, conforme afirma a própria executiva.

Os casos de Daniela e Sandya são bem-vindos num segmento ainda predominantemente masculino como o de tecnologia – com apenas 20% de mulheres, segundo PNAD 2018. Mas isso não intimidou Lívia Soares, que hoje atua como diretora de vendas no Brasil da Emailage, fundada por brasileiros nos Estados Unidos e que atua no combate a fraudes online. A executiva iniciou a atuação no segmento há 12 anos, numa empresa pequena, e lembra que na época praticamente não havia mulheres na área. “Hoje, vemos mais mulheres até em cursos de tecnologia”, observa.

SANDYA COELHO, Diretora de Comunicação do getninjas. 

Ela começou como recepcionista e foi crescendo até passar ao cargo de gerente. Chegou a ser sócia da primeira companhia, até ser contratada pela Emailage, inicialmente para o cargo de diretora de Contas Estratégicas. Para a executiva, ter acima uma liderança feminina faz muita diferença. Ela, por exemplo, se reporta a Luciana Lello, gerente-geral para a América do Sul. “Eu fui apenas a segunda mulher contratada na região. Com uma mulher na liderança, fica mais fácil trabalhar unida e não ter medo da concorrência com os colegas, porque há empatia entre nós”, afirma Lívia. A diretora consegue ver mudança na cultura empresarial no que diz respeito à contratação de mulheres para cargos de liderança, mas confirma os dados da pesquisa Talenses/Insper. O processo ainda é extremamente lento.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

QUER FICAR MAIS BONITO? SORRIA!

Rápido, barato e acessível, o sorriso melhora a aparência imediatamente; o córtex orbitofrontal (OFC), parte do cérebro que registra quando algo de bom ocorre que é acionado automaticamente quando vemos urna pessoa bonita, fica ainda mais ativo quando a pessoa sorri.

Um sorriso espontâneo talvez seja a comprovação mais autêntica e inconfundível de bem-estar.  A razão dessa associação tão imediata e pouco questionável é que felicidade e sorriso “começam” no mesmo lugar do cérebro. Faça algo bem feito, receba um presente ou um carinho ou ache graça em uma piada e seu sistema de recompensa se encarregará de fazer com que as regiões cerebrais que organizam movimentos automáticos – aqueles que fazemos sem precisar pensar – estampem um belo sorriso em seu rosto. Essas áreas do cérebro provocam efeitos como elevar os cantos da boca, relaxar as sobrancelhas e, o mais importante, apertar levemente as pálpebras, causando a contração de músculos orbiculares dos olhos. São esses que colocam aquelas ruguinhas nos cantos dos olhos, o sinal mais evidente de felicidade e do sorriso genuíno.

Ao mesmo tempo que o sistema de recompensa lhe dá o prazer do sorriso e essas regiões motoras fazem seus músculos estamparem o prazer no seu rosto, é acionado também o córtex orbitofrontal (OFC), parte do cérebro que registra quando algo de bom acontece – como, por exemplo, a causa do sorriso. E assim que passamos a associar evento e resultado, acontecimento e sorriso. Como consequência, ver a causa do sorriso de novo (uma pessoa em particular, um lugar ou paisagem. por exemplo) torna ainda mais fácil sorrir mais uma vez. E só lembrar do que causou o sorriso também já funciona.

REPETIÇÃO SEM ESFORÇO

Estampar voluntariamente um sorriso genuíno no rosto pode bastar para que comecemos a nos sentirmos bem. O truque funciona mesmo se você instruir um ator a montar um sorriso, músculo a músculo. Quanto mais os atores aprendem a dominar o músculo orbicular dos olhos, aquele que circunda as pálpebras e dá às ruguinhas, adotando uma expressão de felicidade genuína, o corpo passa a se preparar para a felicidade, proporcionando-lhes um bem-estar que eles não sabem explicar. A neurociência explica: estudos recentes mostraram que o sorriso genuíno já basta para ativar o córtex da ínsula, região do cérebro que nos dá sensações subjetivas como a do bem-estar.

Mas não para aqui. Um sorriso espontâneo é contagiante, e espalha a felicidade ao nosso redor. Por meio de neurónios-espelho, células que nos fazem repetir automaticamente ações ao nosso redor, ver um sorriso no rosto de quem fala com você aciona as mesmas áreas do cérebro responsáveis pelo seu próprio sorriso, inclusive a ínsula e o OFC. Como nosso cérebro imita o cérebro alheio sem fazer esforço, ver alguém sorrindo basta para você começar a se sentir sorrindo por dentro também – e acabar sorrindo por fora.

Já o sorriso forçado, aquele que damos tantas vezes para a câmera, não funciona nem convence. Ele parte de regiões do cérebro que comandam movimentos voluntários, e não causa ativação do OFC. Portanto, não diz ao resto do cérebro que algo de particularmente bom aconteceu. Ou seja: você pode até sorrir por fora, mas seu cérebro sabe que você não está sorrindo por dentro.

Felicidade gera felicidade: passa de um cérebro para o próximo através do sorriso. Por isso o bem-estar do outro é contagiante: por isso nos sentimos melhor perto de pessoas sorridentes. E, como se não bastasse, ainda ficamos mais bonitos ao sorrir: o OFC, que é acionado automaticamente quando vemos uma pessoa bonita, fica ainda mais ativo quando essa pessoa sorri. O sorriso, portanto, talvez seja o tratamento de beleza mais rápido, barato e democrático que a natureza já inventou.