A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

VIDA AUTÔNOMA

Viver só não é uma modinha nem algo isolado. É uma opção de vida que se cristalizou no Brasil nos últimos 50 anos e provavelmente em outras partes do mundo

Se você ainda acredita que quem vive sozinho é porque não encontrou uma companhia, está na hora de mudar de opinião. Há 30 anos as pessoas entravam nos consultórios terapêuticos querendo saber quem elas eram. Hoje, invariavelmente, todos os meus pacientes sofrem porque têm muitas opções e não conseguem escolher uma delas, sem que com isso sofram pelas outras deixadas – o fenômeno da frustração. Esse é o motivo de pelo menos 5 em cada 10 pacientes atendidos no consultório psicanalítico.

Muita gente sofre porque não suporta mais um casamento, para o qual já percebeu que não tem nenhum apreço, ou porque nem mesmo pensa em entrar num desses, pois já conhece, de antemão, sua incapacidade de gerenciar um. Ou seja, muitos vivem com medo do que os outros vão dizer ou pensar deles e acabam sofrendo por não ter força suficiente para escolher o que ele pode levar adiante pela vida. Nesse caso, optam por agradar os outros e o sofrimento psíquico chega, cedo ou tarde. Essa indecisão não vive quem optou pela vida autônoma, como eu prefiro chamar.

Aquela imagem de uma tia solteirona vivendo sozinha na casa dos pais lá nos anos 70, quem diria, era a grande revolução do mundo dos brasileiros. Revolução esta que hoje podemos constatar em pesquisa, como as do IBGE no último tempo demográfico. Hoje os idosos que vivem sozinhos, viajam, consomem, gastam em lazer e têm qualidade de vida; em parte graças a essas “tias solteironas” dos anos 70 e 80. Elas, de maneira silenciosa, construíram uma revolução no modo de vida, sobretudo se considerarmos a ideia dos latinos americanos, de que não se pode viver sozinho e que “cada panela tem sua tampa”.

Os números dos brasileiros que vivem sozinhos não mentem, porém a maior prova desse fenômeno é mudança da dinâmica da população. Há muita gente em torno de nós ostentando a vida autônoma, homens e mulheres vivem sozinhos, sem casamento formal e filhos e muitas vezes até sem relacionamentos estáveis.

De acordo com o IBGE, de 2005 para 2015 a quantidade de pessoas que vivem sozinhas saltou de 10,4% da população para 14.6%. O número de pessoas que moravam sozinhas no Brasil aumentou de 1,4 para mais de 4,4 milhões em 10 anos. Os idosos são maioria entre os que vivem só: 44.3% deles têm 60 anos ou mais. Em 2005, eram 40,6%, número que aumenta a cada dia. De todo esse universo de números, o que me interessa é o fenômeno social, a ação mental, a condição psicológica dessa população. O que faz um sujeito decidir pela vida autônoma?

A primeira coisa que vem à nossa mente é que pessoas que escolheram viver sozinhas o fizeram porque não conseguem se encaixar nos padrões da coletividade, são egoístas e apresentam diferentes dificuldades de relacionamento, de partilha e de altruísmo. Já no caso de quem vive sozinho não pela opção, mas pela falta dela, porque os pares já morreram ou tiveram outro fim, parece que a percepção social é sempre a mesma – vivem sozinhos porque não têm opção. Mas a compreensão desse fenômeno precisa ir muito além. Não é possível que esse fato passe desapercebido pelas políticas públicas, pelas igrejas e, sobretudo, pela noção de saúde coletiva a que todos nós, terapeutas e profissionais de saúde estamos conectados. É preciso repensar toda a oferta de terapias e amparo psicológico para esse grupo de pessoas porque elas não são compreendidas ainda e nossas técnicas terapêuticas para elas estão obsoletas, já que a maioria não sofre com depressão nem com solidão conforme apontam os números. Por exemplo, 72% deles acreditam que viver sozinhos dá mais liberdade para gastar dinheiro. Ou seja, o solteiro autônomo tem uma paixão e um comportamento de ter. Os que vivem só querem dizer que possuem um plano de vida, meta de bem-estar, opção de caminhada – ser só no mundo e feliz, sem filhos, sem casamento, sem relações afetivas fixas.

Parece triste para alguns, mas a opção desses brasileiros adultos precisa ser observada para que orientações de diferentes segmentos possam acolher essa população, e não simplesmente avaliá-la e julgá-la com critérios de exclusão ou de preconceitos. As novas religiões já descobriram essa população – de budistas, hares, mindfuness, (quase uma religião) e outras; essa população já está achando seu lugar nas religiões que não obrigam o casamento e os modelos tradicionais de família. O comércio e a indústria também.

Hoje já há porções individuais de refeições, que vão das orgânicas às comidas rápidas. Planos de saúde, títulos de clube, automóveis e bens de toda a natureza pensados e construídos para quem optou por viver sozinho. Quer dizer, a sociedade já está apresentando soluções para esse grupo, no entanto, quando o assunto é amparo psicológico, o preconceito impera. É preciso combater, entre os profissionais de saúde mental e educação, primeiramente, a ideia de que quem vive sozinho é triste e infeliz e tem problemas de convivência. Essa é uma ação urgente e imprescindível.

O que essa população de autônomos apresenta é:privacidade (50%), independência (25%): sensação de liberdade (23 %); paz (12%); solidão (10%), tristeza (3%); abandono (1%). Ou seja, solidão e abandono não são, definitivamente, as características mais importantes deles. Eles querem e buscam outra coisa que ainda não percebemos, mas por isso mesmo é urgente que se debruce sobre esses sujeitos para compreendê-los. Os humaniês (gente que optou em ser sozinha), que é como eu os chamo agora, são nosso desafio no campo terapêutico. Eles são unimultiplos nos sentidos e homo mobilis nas ações. Agora precisamos escutá-los.

Prof. Dr. GERALDO PEÇANHA DE ALMEIDA é psicanalista, educador e escritor. Autor de mais de 70 livros, dentre eles: Em Busca da Paz Interior, No Coração da Mente Livre, Meditações para Começar o Dia e Felicidade Sempre Viva. Fundador e diretor do Projeto Coração de Pólen – Centro de Tratamento, Estudo e Pesquisa na Área da Saúde Mental, em Curitiba.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.