OUTROS OLHARES

A ERA DO POP DEPRÊ

Uma análise de dados feita com mais de 150 mil letras escritas nos últimos 50 anos atesta: as pessoas, hoje, tendem a preferir músicas tristes.

As músicas populares de hoje são mais felizes ou mais tristes do que as de 50 anos atrás? Nos últimos anos, por causa da disponibilidade de grandes conjuntos de dados digitais e da relativa facilidade de processá-los, conseguimos fornecer respostas precisas e fundamentadas a questões como essa. Uma maneira simples de medir o conteúdo emocional de um texto é contar quantas de suas palavras remetem a sentimentos. Quantas vezes termos associados a emoções negativas – dor, ódio ou tristeza – são usados? E palavras associadas a emoções positivas – amor, alegria ou felicidade? Por mais simples que pareça, esse método funciona bem, dadas certas condições. Por exemplo, quanto mais longo o texto disponível, melhor o resultado da análise. Essa é uma possível técnica para o que chamamos de “análise de sentimento”. A análise de sentimento costuma ser aplicada a posts em redes sociais ou mensagens políticas contemporâneas, mas também pode ser usada em escalas de tempo maiores, como décadas de artigos de jornais ou séculos de obras literárias.

A mesma técnica pode ser aplicada a letras de música Em nossa análise, utilizamos dois conjuntos de dados diferentes. Um continha as músicas incluídas na lista Hot 100 da Billboard do final do ano – aquelas que alcançaram grande sucesso, pelo menos nos Estados Unidos, e vão de “(I can’t get no) Satisfaction”, dos Rolling Stones (de 1965, o primeiro ano levado em consideração), a ”Uptown funk”, de Mark Ronson (de 2015, o último ano analisado). O segundo conjunto de dados foi baseado nas letras fornecidas pelo site Musixmatch. Com ele, analisamos as letras de mais de 150 mil músicas em inglês. Como incluía exemplos do mundo todo, fornecia uma amostra maior e mais diversificada. Nele, encontramos as mesmas tendências identificadas nos dados da Billboard.

As músicas populares em inglês têm se tornado mais negativas. O uso de palavras relacionadas a sentimentos negativos aumentou em mais de um terço desde a década de 1960. Tomemos como exemplo o conjunto de dados da Billboard. Se cada música contém uma média de 300 palavras, então todo ano há 30 mil palavras nos 100 hits mais ouvidos. Em 1965, cerca de 450 termos estavam associados a emoções ruins, enquanto em 2015 esse número cresceu para mais de 700. No mesmo período, o número de termos relativos a emoções positivas diminuiu. Havia mais de 1.750 palavras associada a sentimentos bons nas músicas de 1965 e apenas 1.150 nas de 2015. Observe que, em números absolutos, sempre há mais palavras associadas a emoções positivas do que a emoções negativas. Essa é uma característica universal da linguagem humana, também conhecida como princípio de Pollyanna – originado da protagonista impecavelmente otimista do livro que leva seu nome -, e isso dificilmente mudará. O que importa, no entanto, é a direção das tendências.

Pode-se observar o efeito inclusive quando consideramos palavras únicas: o uso do termo amor, por exemplo, diminuiu pela metade em 50 anos, caindo de 400 para 200 ocorrências. Por sua vez, a palavra ódio, que até os anos 1990 nem ao menos era mencionada em qualquer uma das 100 músicas mais ouvidas, é usada agora entre 20 e 30 vezes todos os anos.

Nossos resultados condizem com outras análises independentes do sentimento em músicas. Algumas pesquisas usaram metodologias completamente diferentes e se concentraram em outras  características. Por exemplo, pesquisadores analisaram um conjunto de dados de 500 mil músicas lançadas no Reino Unido entre 1985 e 2015 e encontraram um declínio similar daquilo que definem como “felicidade” e “animação”, associado a um leve aumento de “tristeza”. Esses rótulos foram resultado de algoritmos que analisaram características acústicas de baixo nível, como o  tempo musical ou a sonoridade. O tempo e a sonoridade das 100 músicas da Billboard também  foram examinados; esses hits têm se tornado mais lentos, e decibéis menores aparecem com  maior frequência, o que impacta a tendência de melancolia.

O que está acontecendo? Descobrir e descrever tendências é importante e prazeroso, mas também precisamos tentar entendê-las e explicá-las. Em outras palavras, grandes volumes de dados demandam grandes teorias. Uma delas é a da evolução cultural. Como o nome indica, essa teoria estipula que a cultura evolui ao longo do tempo seguindo, em parte, os mesmos princípios da seleção natural de Darwin. Portanto, se há variação, seleção e reprodução, então podemos esperar que mais traços culturais bem-sucedidos se fixem na população e que outros sejam extintos.

Por “cultura”, estamos nos referindo a qualquer traço que seja transmitido socialmente, em vez de geneticamente. Alguns exemplos são o idioma que falamos, que depende de onde nascemos, as receitas que usamos para cozinhar e, também, a música de que gostamos. Essas características são transmitidas socialmente, pois um indivíduo aprende-as ao observar e imitar outros indivíduos. Em contrapartida, a cor do cabelo e a cor dos olhos são geneticamente transmitidas de pais para filhos.

Não é nenhuma surpresa que muitos comportamentos sejam socialmente aprendidos. No entanto, para que o aprendizado social seja adaptativo – ou seja, para que aumente a probabilidade de o indivíduo sobreviver e se reproduzir -, ele tem de ser seletivo. É melhor aprender com um adulto que sabe cozinhar bem do que com irmãos que ainda estão aprendendo. Copiar de preferência o comportamento de indivíduos bem-sucedidos é conhecido, no linguajar da evolução cultural, como “transmissão por viés de sucesso”. De forma parecida, há muitos outros vieses de aprendizado que podem aparecer, como o viés de conformidade, de prestígio ou de conteúdo. Ao longo dos anos, os vieses de aprendizado têm sido empregados para compreender uma série de traços culturais em populações animais humanas e não humanas e provaram-se frutíferos no entendimento de padrões culturais complexos. Para tentar entender por que as letras de músicas aumentaram em negatividade e diminuíram em positividade ao longo do tempo, empregamos a teoria da evolução cultural para ver se o padrão pode ser explicado por meio dos vieses de aprendizado social.

Procuramos pelo viés de sucesso testando se as músicas apresentavam letras mais negativas caso as dez mais ouvidas de anos anteriores seguissem esse padrão. Em outras palavras: os compositores eram predominantemente influenciados pelo conteúdo das antigas músicas de sucesso? De maneira similar, o viés de prestígio foi testado ao checar se as músicas de artistas bem-sucedidos de anos anteriores também produziram mais letras negativas. Esses artistas eram os que apareciam nas paradas da Billboard um número desproporcional de vezes, como Madonna, que tem 36 músicas entre as 100 mais ouvidas. O viés de conteúdo foi investigado ao checar se músicas cujas letras eram mais negativas também ficavam acima nas paradas. Se fosse o caso, isso daria a entender que havia algo no conteúdo das letras negativas que as tornava mais atrativas e, portanto, mais populares.

Apesar de termos encontrado algumas evidências de vieses de sucesso e prestígio nos conjuntos de dados, o efeito mais confiável para explicar o aumento de letras negativas foi o viés de conteúdo. Isso é condizente com outros achados em evolução cultural, nos quais informações negativas parecem ser mais lembradas e transmitidas do que informações neutras ou positivas. Entretanto, também descobrimos que incluir transmissão sem vieses em nossos modelos analíticos diminuiu bastante a aparição de efeitos de sucesso e prestígio e pareceu ser a melhor explicação para os padrões. Pode-se encarar aqui a transmissão sem viés de maneira similar à deriva genética, na qual os traços parecem ser levados à fixação por meio de flutuações aleatórias e da aparente ausência de qualquer pressão de seleção. Verificou-se que esse processo explicava a popularidade de outras características culturais, variando de decorações em cerâmicas do Neolítico a nomes de bebês e raças de cachorro contemporâneos. É importante frisar que encontrar evidências de transmissão sem viés não quer dizer que os padrões não tenham explicação ou que sejam predominantemente aleatórios, mas que existe provavelmente toda uma série de processos para interpretá-los – e que nenhum dos processos pelos quais procuramos foram sólidos o suficiente para dominar a explicação.

O crescimento de letras negativas em músicas populares em inglês é um fenômeno fascinante, e mostramos que isso pode ocorrer devido a uma preferência bem difundida por conteúdo negativo, além de algumas outras causas, ainda não descobertas. Dada essa preferência, o que precisamos explicar é por que as letras de músicas pop anteriores aos anos 1980 eram mais positivas que as de hoje. Talvez uma indústria fonográfica mais centralizada tivesse mais controle sobre as músicas produzidas e vendidas. Um efeito similar pode ter sido trazido pela difusão de canais de distribuição mais personalizados – das fitas cassete virgens aos algoritmos sob medida do “Feito para você”, do Spotify. E outras mudanças sociais, mais amplas, podem ter contribuído para que fosse mais aceitável, ou até digno de recompensa, expressar, de forma explicita, sentimentos negativos.

Todas essas hipóteses poderiam ser testadas usando os dados aqui descritos como ponto de partida. É sempre um bom sinal, na ciência, perceber que há mais trabalho a se fazer para entender melhor o padrão. Dá margem para aperfeiçoar as teorias, melhorar os métodos de análise ou, às vezes, voltar à estaca zero e fazer perguntas diferentes.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 10 DE MARÇO

A PLENITUDE DE DEUS

… para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus (Efésios 3.19b).

A mais ousada oração de Paulo foi realizada quando ele estava preso em Roma. O velho apóstolo teve a ousadia de pedir ao Senhor que os crentes de Éfeso fossem tomados de toda a plenitude de Deus. Embora sejamos frágeis vasos de barro, podemos ser habitados pela plenitude do Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo. A grande pergunta é: Quem é Deus? Deus é transcendente. Nem o céu dos céus pode contê-lo. Ele é maior que tudo aquilo que ele criou. Os astrônomos dizem que o universo tem mais de dez bilhões de anos-luz de diâmetro. Isso significa que, se conseguíssemos entrar numa nave espacial, voando à velocidade da luz, demoraríamos dez bilhões de anos para ir de um extremo ao outro do universo. Pois Deus criou tudo isso, é maior que tudo isso e está além de tudo isso. Agora, Paulo ora de joelhos para que sejamos tomados de toda a plenitude de Deus. Os mais apressados poderiam pensar que Paulo estava delirando, mas ele antecipa esse questionamento, afirmando: Ora, àquele que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos, conforme o seu poder que opera em nós, a ele seja a glória, na igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações, para todo o sempre. Amém! (Efésios 3.20,21). Você pode conhecer a Deus e ainda ser tomado de toda a plenitude de Deus!

GESTÃO E CARREIRA

A GERAÇÃO Y NO PODER

Os nascidos depois de 1981 chegam a cargos de chefia e surpreendem seus patrões ao expor publicamente, e em grupo, suas insatisfações com os rumos das empresas

Lidar com levantes de clientes insatisfeitos nas redes sociais já entrou para a rotina corporativa. Consultorias fazem fortuna ensinando às empresas como manejar as revoltas digitais protagonizadas pelos membros da geração Y, também chamados de millennials, assim definidos os que têm, hoje, entre 23 e 38 anos. O que vem inquietando muitos executivos, agora, é deparar com críticas públicas dos próprios funcionários, especialmente nos gigantes de tecnologia. O alvo mais recente foi a Amazon, empresa avaliada em quase 1 trilhão de dólares. No início de abril, começou a circular um abaixo-assinado endereçado a seu fundador, o bilionário Jeff Bezos, e ao conselho de administração da companhia. Em menos de dez dias, mais de 6.700 funcionários, de estagiários a diretores, deixaram o nome e o cargo no documento, facilmente identificáveis numa busca pelo LinkedIn.

Numa espécie de rebelião de crachá, eles foram a público demandar políticas ambientais mais amplas e detalhadas, além de criticar contratos com petroleiras, que usam o braço de computação em nuvem da companhia. A carta pede o apoio dos patrões à aprovação de uma resolução no encontro anual de acionistas, marcado para 22 de maio, em que a Amazon se comprometa a especificar publicamente como pretende reduzir o uso de combustíveis fósseis em sua operação. Como uma parcela dos funcionários recebe como benefício participação na empresa, eles são acionistas minoritários e têm direito a levar suas exigências à reunião. A Amazon, num documento oficial, recomendou aos demais acionistas que vetem a resolução, mas o estrago em sua reputação já está feito.

O movimento mostra um lado menos glamouroso, ou menos agradável para as empresas, do comportamento dos millennials no mercado de trabalho. Até há pouco tempo, muitas companhias se esforçavam para se abraçar a eles, que prezam um propósito de vida como valor fundamental do trabalho e do emprego. Ao garantirem (ou fingirem garantir) que fazem do mundo um lugar melhor, companhias, especialmente de tecnologia, atraíram os melhores talentos da geração Y. “Quando esses profissionais não enxergam o discurso na prática, a reação é chamar a empresa à coerência”, diz Francine Lemos, presidente da consultoria Cause. Os millennials têm o poder de ampliar sua voz: críticos e adeptos do engajamento digital, eles fazem barulho e chamam a atenção de outras gerações, que podem não ter o mesmo desprendimento em relação à discrição e privacidade, mas também estão nas redes sociais acompanhando tudo.

Só no ano passado, o Google recebeu uma avalanche dessas chamadas. Primeiro, cerca de 4.000 profissionais assinaram uma carta-denúncia sobre a participação da empresa num programa do Pentágono que usava inteligência artificial para identificar imagens obtidas por vídeo. “O Google não deve estar no mercado da guerra”, afirmava o texto, endereçado ao CEO, Sundar Pichai. A empresa agiu. Lançou um código de conduta para o uso de inteligência artificial e não renovou o contrato. Desistiu também de outra licitação com o órgão que poderia trazer 10 bilhões de dólares a seus cofres. Em novembro, milhares de funcionários saíram às ruas no meio do expediente, em diversos países, após uma reportagem do jornal The New York Times revelar que executivos acusados de assédio sexual teriam sido dispensados da companhia com altas indenizações. Pouco depois, cerca de 800 profissionais assinaram outra carta, contra os planos de atuação do Google na China, o que o levaria a adequar-se a políticas de controle e censura do governo. A empresa já deixara o país, pelo mesmo motivo, em 2010.

A liberdade com que os jovens empregados atacam seus patrões não se deve unicamente à idade dos ativistas de crachá. Trata-se de uma força de trabalho bastante qualificada e disputada a tapa nos Estados Unidos (que goza de níveis baixíssimos de desemprego), o que garante certo poder de barganha. Também são profissionais que se formaram em meio a uma cultura nascida no Vale do Silício de transparência radical, resumida no lema “a informação quer ser livre”. O próprio Google sempre defendeu essa ideia e abriu espaço para as opiniões de todos. O ativismo dos millennials, porém, pode servir de inspiração às empresas. Deve haver um ponto de encontro entre as transformações do mercado, com mais transparência e responsabilidade socioambiental, e a necessidade de lucro – imperativa – para que um negócio sobreviva. Ouvir os millennials e convidá-los a debater questões e propor soluções é uma forma de manter-se a par de suas movimentações e compartilhar, assim, a realidade dos negócios. Foi o que fez a Salesforce. O gigante de softwares também recebeu seu abaixo-assinado digital. Seus funcionários exigiam o fim das relações comerciais da companhia com a agência americana de controle de fronteiras, que na época ganhava as manchetes por separar crianças de pais que tentavam entrar nos Estados Unidos ilegalmente. Após muito barulho, a empresa criou uma diretoria executiva, o “Escritório de Uso Ético e Humano da Tecnologia, para definir diretrizes e promover discussões com os empregados. ”Apesar de o capitalismo caminhar numa direção mais responsável, mercado ainda é mercado”, diz Pedro Waengertner, CEO da Ace Startups, consultoria e aceleradora de negócios.

No Brasil, as empresas tentam aprender com os erros dos estrangeiros antes que o problema apareça. No Nubank, um dos maiores exemplos brasileiros de companhias da nova economia, o fundador David Vélez, de 37 anos, passa uma hora e meia por semana respondendo a perguntas de qualquer funcionário que quiser se sentar com ele. As cadeiras andam concorridas. Desde 2018, sua força de trabalho dobrou para 1.500 pessoas. Delas, 80% têm até 35 anos. Nos cargos gerenciais e com equipes para liderar, a idade média dos profissionais é 32 anos. Para evitar percalços, houve um trabalho de preparação com a equipe original, em especial com quem estava na empresa desde o início, para lidar bem com novos millennials cheios de opinião. Muitos disseram que as inovações da companhia, inclusive internas, precisavam ser divulgadas. “Eles queriam ser mais reconhecidos também fora da empresa,” diz Ana Paula Maia, de 31 anos, gerente de employer branding, responsável por fazer com que a marca da empresa continue atraindo novos profissionais – função que ocupa há um ano e que foi criada justamente para ajudar a companhia neste momento de expansão de uma equipe tão particular.

A preocupação do Nubank pode parecer distante para empresas de perfil mais tradicional. Não deveria. Além de questões mais óbvias, como o avanço demográfico, cedo ou tarde, em ao menos algum aspecto dos negócios será impossível concorrer sem empregar novas tecnologias, o que exigirá contar com a força de trabalho dos maiores especialistas no assunto: os millennials. “Como todas as empresas precisaram da eletricidade em algum momento, todas dependerão das tecnologias digitais”, diz Denis Balaguer, diretor do Centro de Inovação da EY no Brasil. O Magazine Luiza é uma das companhias brasileiras mais adiantadas. Em 2011, sua divisão de desenvolvedores de softwares, o Luizalabs, contava com dois profissionais. Hoje, são 850, e já correspondem a 30% da área administrativa da empresa. Do laboratório, saem inovações empregadas no site, lojas e sistemas do Magazine Luiza, com base em tecnologias como análise de dados e inteligência artificial. Entre as políticas de comunicação, uma delas, criada especialmente para esse grupo, e um encontro mensal para discutir questões caras aos funcionários, de diretrizes da empresa a mudanças na estrutura da equipe. “Quase toda a estratégia passa por esse departamento”, diz Patrícia Pugas, diretora executiva de gestão de pessoas do Magazine Luiza. “São profissionais de perfil mais questionador, o que, para nós, é de grande valor.” Pois é preciso ouvi-los, antes que saiam fazendo abaixo-assinados.

CHOQUE DE GERAÇÕES – Funcionários do Google tiveram sucesso em seus protestos

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

VIDA AUTÔNOMA

Viver só não é uma modinha nem algo isolado. É uma opção de vida que se cristalizou no Brasil nos últimos 50 anos e provavelmente em outras partes do mundo

Se você ainda acredita que quem vive sozinho é porque não encontrou uma companhia, está na hora de mudar de opinião. Há 30 anos as pessoas entravam nos consultórios terapêuticos querendo saber quem elas eram. Hoje, invariavelmente, todos os meus pacientes sofrem porque têm muitas opções e não conseguem escolher uma delas, sem que com isso sofram pelas outras deixadas – o fenômeno da frustração. Esse é o motivo de pelo menos 5 em cada 10 pacientes atendidos no consultório psicanalítico.

Muita gente sofre porque não suporta mais um casamento, para o qual já percebeu que não tem nenhum apreço, ou porque nem mesmo pensa em entrar num desses, pois já conhece, de antemão, sua incapacidade de gerenciar um. Ou seja, muitos vivem com medo do que os outros vão dizer ou pensar deles e acabam sofrendo por não ter força suficiente para escolher o que ele pode levar adiante pela vida. Nesse caso, optam por agradar os outros e o sofrimento psíquico chega, cedo ou tarde. Essa indecisão não vive quem optou pela vida autônoma, como eu prefiro chamar.

Aquela imagem de uma tia solteirona vivendo sozinha na casa dos pais lá nos anos 70, quem diria, era a grande revolução do mundo dos brasileiros. Revolução esta que hoje podemos constatar em pesquisa, como as do IBGE no último tempo demográfico. Hoje os idosos que vivem sozinhos, viajam, consomem, gastam em lazer e têm qualidade de vida; em parte graças a essas “tias solteironas” dos anos 70 e 80. Elas, de maneira silenciosa, construíram uma revolução no modo de vida, sobretudo se considerarmos a ideia dos latinos americanos, de que não se pode viver sozinho e que “cada panela tem sua tampa”.

Os números dos brasileiros que vivem sozinhos não mentem, porém a maior prova desse fenômeno é mudança da dinâmica da população. Há muita gente em torno de nós ostentando a vida autônoma, homens e mulheres vivem sozinhos, sem casamento formal e filhos e muitas vezes até sem relacionamentos estáveis.

De acordo com o IBGE, de 2005 para 2015 a quantidade de pessoas que vivem sozinhas saltou de 10,4% da população para 14.6%. O número de pessoas que moravam sozinhas no Brasil aumentou de 1,4 para mais de 4,4 milhões em 10 anos. Os idosos são maioria entre os que vivem só: 44.3% deles têm 60 anos ou mais. Em 2005, eram 40,6%, número que aumenta a cada dia. De todo esse universo de números, o que me interessa é o fenômeno social, a ação mental, a condição psicológica dessa população. O que faz um sujeito decidir pela vida autônoma?

A primeira coisa que vem à nossa mente é que pessoas que escolheram viver sozinhas o fizeram porque não conseguem se encaixar nos padrões da coletividade, são egoístas e apresentam diferentes dificuldades de relacionamento, de partilha e de altruísmo. Já no caso de quem vive sozinho não pela opção, mas pela falta dela, porque os pares já morreram ou tiveram outro fim, parece que a percepção social é sempre a mesma – vivem sozinhos porque não têm opção. Mas a compreensão desse fenômeno precisa ir muito além. Não é possível que esse fato passe desapercebido pelas políticas públicas, pelas igrejas e, sobretudo, pela noção de saúde coletiva a que todos nós, terapeutas e profissionais de saúde estamos conectados. É preciso repensar toda a oferta de terapias e amparo psicológico para esse grupo de pessoas porque elas não são compreendidas ainda e nossas técnicas terapêuticas para elas estão obsoletas, já que a maioria não sofre com depressão nem com solidão conforme apontam os números. Por exemplo, 72% deles acreditam que viver sozinhos dá mais liberdade para gastar dinheiro. Ou seja, o solteiro autônomo tem uma paixão e um comportamento de ter. Os que vivem só querem dizer que possuem um plano de vida, meta de bem-estar, opção de caminhada – ser só no mundo e feliz, sem filhos, sem casamento, sem relações afetivas fixas.

Parece triste para alguns, mas a opção desses brasileiros adultos precisa ser observada para que orientações de diferentes segmentos possam acolher essa população, e não simplesmente avaliá-la e julgá-la com critérios de exclusão ou de preconceitos. As novas religiões já descobriram essa população – de budistas, hares, mindfuness, (quase uma religião) e outras; essa população já está achando seu lugar nas religiões que não obrigam o casamento e os modelos tradicionais de família. O comércio e a indústria também.

Hoje já há porções individuais de refeições, que vão das orgânicas às comidas rápidas. Planos de saúde, títulos de clube, automóveis e bens de toda a natureza pensados e construídos para quem optou por viver sozinho. Quer dizer, a sociedade já está apresentando soluções para esse grupo, no entanto, quando o assunto é amparo psicológico, o preconceito impera. É preciso combater, entre os profissionais de saúde mental e educação, primeiramente, a ideia de que quem vive sozinho é triste e infeliz e tem problemas de convivência. Essa é uma ação urgente e imprescindível.

O que essa população de autônomos apresenta é:privacidade (50%), independência (25%): sensação de liberdade (23 %); paz (12%); solidão (10%), tristeza (3%); abandono (1%). Ou seja, solidão e abandono não são, definitivamente, as características mais importantes deles. Eles querem e buscam outra coisa que ainda não percebemos, mas por isso mesmo é urgente que se debruce sobre esses sujeitos para compreendê-los. Os humaniês (gente que optou em ser sozinha), que é como eu os chamo agora, são nosso desafio no campo terapêutico. Eles são unimultiplos nos sentidos e homo mobilis nas ações. Agora precisamos escutá-los.

Prof. Dr. GERALDO PEÇANHA DE ALMEIDA é psicanalista, educador e escritor. Autor de mais de 70 livros, dentre eles: Em Busca da Paz Interior, No Coração da Mente Livre, Meditações para Começar o Dia e Felicidade Sempre Viva. Fundador e diretor do Projeto Coração de Pólen – Centro de Tratamento, Estudo e Pesquisa na Área da Saúde Mental, em Curitiba.