OUTROS OLHARES

CHEGA DE CONTAR CALORIAS

Perder peso sempre pareceu uma questão meramente matemática: bastava gastar mais energia e ingerir menos alimentos. Novos estudos revelam que essa equação não é tão exata assim

Segunda-feira, 5 da tarde, sua concentração no trabalho é interrompida pela fome. Já se passaram algumas horas desde que você almoçou – provavelmente uma refeição leve, pois a semana está apenas começando, um snack parece boa opção. Nada do que se envergonhar: seis em cada dez adultos estão acima do peso no Brasil. segundo o IBGE. Aí começam os problemas: um pacote com míseros 50 gramas de castanhas tem quase 200 calorias, diz o rótulo. Você sai da lanchonete com o combo barrinha de cereal e refrigerante light, com 64 calorias, certo de que não ficará saciado, mas convencido de que tomou a decisão certa para perder peso.

Temos uma má noticia: você errou. Mas a culpa não é sua. Durante décadas aprendemos que emagrecer era simples como uma conta de padaria: queime mais do que você ingere e pronto. Os rótulos mostram as calorias que colocamos para dentro, assim como a esteira da academia mostra aquelas que colocamos para fora. É só subtrair então, certo? Errado. Novos estudos revelam falhas nesse consenso. “O balanço energético vale como referência, mas hoje sabemos que mais importante do que as calorias do alimento é sua densidade nutritiva”, explica Francisco Tostes, endocrinologista da clínica Nutrindo Ideais. “Na prática, ingerir 100 calorias de uma fruta não é a mesma coisa que ingerir 100 calorias de biscoito recheado”.

As calorias da comida são calculadas usando um método criado no final do século 19 pelo químico americano Wilbur Olin Atwater. Em seu laboratório, ele queimou diversos alimentos e mediu a quantidade de calor que eles liberavam na combustão, gerando energia. Uma caloria é a quantidade de calor suficiente para aumentar em 1 grau centígrado a quantidade de 1 mililitro de água. Com os testes, concluiu que seria mais adequado usar a medida de quilocalorias. Atwater convencionou que carboidratos e proteínas fornecem 4 quilocalorias por grama, enquanto as gorduras geram 9.

Coloque esses números em outra equação igualmente genérica, aquela que preconiza que uma mulher deve consumir, em média, 2.000 quilocalorias diárias e um homem 2.500, e provavelmente você entrará para o grupo das pessoas acima do peso. Estudos reunidos no best-seller O Peso das Dietas, da nutricionista franco-brasileira Sophie Deram, mostram que 95% das pessoas voltam a engordar depois de uma restrição alimentar. Um dos motivos: se o alimento tiver alta qualidade nutricional, vai fazer o metabolismo funcionar com rapidez. Se tiver poucas calorias e poucos nutrientes, o metabolismo ficará mais lento e o corpo vai se adaptar a esse cenário. “Na prática, inicialmente a pessoa vai perder peso, porque restringiu a ingestão de calorias, mas rapidamente passará a gastar menos calorias para realizar as mesmas funções e voltará a engordar”, diz Tostes.

Hoje, exames clínicos e laboratoriais, como a calorimetria, são capazes de calcular de forma mais precisa quanta energia o corpo consome apenas para sobreviver. “Estima-se que o gasto metabólico basal diário represente de 50% a 70% das calorias gastas pelo corpo. De 20% a 40% são utilizados em atividades físicas; e 10%, na digestão e assimilação dos nutrientes”, explica Clarissa Hiwatashl Fujiwara, do Departamento de Nutrição da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica. E mais: a proteína é o nutriente que mais requer energia para ser digerido – de 20% a 35% das calorias gastas no processo de digestão, ante de 5% a 15% de carboidratos e gorduras. Também se sabe que, quanto mais cru e integral estiver o alimento, mais difícil será sua mastigação e digestão, e mais energia será gasta. “A forma como cada alimento é absorvido e metabolizado varia de pessoa para pessoa, e isso depende de fatores tão distintos quanto massa muscular, altura e peso. Com o envelhecimento, há também a tendência de perda de massa magra e aumento de massa gorda. E existem fatores genéticos”, esclarece Fujiwara. Até as bactérias que vivem no intestino influenciam na perda e no ganho de peso: ali vivem mais de 100 trilhões de micro-organismos, e alguns absorvem mais calorias do que outros. Ou seja, você e seu colega podem comer a mesma quantidade do mesmo alimento e extrair quantidades diferentes de energia.

Na academia não é diferente. Hoje se sabe que os exercícios para ganho de massa muscular contribuem mais do que se pensava para a perda de peso. “Se consumirmos mais energia do que precisamos, engordamos. Mas o contrário não é tão simples: se consumirmos pouca energia, perdemos peso, gordura e, eventualmente, massa muscular”, explica Páblius Staduto Braga, médico do esporte do Centro de Medicina Especializada do Hospital 9 de Julho.

As novas abordagens são personalizadas. Avaliações físicas mais completas, nutrição funcional e exercícios que levem em consideração a fisiologia de cada um têm maior chance de sucesso na perda e na manutenção de peso do que uma simples contagem de calorias. Como as calorias não devem sair tão cedo das embalagens, dos aplicativos de celular e dos equipamentos da academia, só há uma saída: talvez seja a hora de você não levá-las tão a sério.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE ORVALHO PARA A ALMA

DIA 07 DE MARÇO

OS ENGANOS DO PECADO

Porque o pecado, prevalecendo-se do mandamento, pelo mesmo mandamento, me enganou e me matou (Romanos 7.11).

O pecado é maligníssimo, carrega o vírus da morte. O pecado é um embuste: parece doce ao paladar, mas é amargo no estômago. O pecado é pior que a doença e pior que a própria morte, pois esses males, embora tão graves, não podem afastar o homem de Deus. O pecado, porém, faz separação entre nós e Deus. O pecado é enganador, e isso por três razões: Em primeiro lugar, levará você mais longe do que você gostaria de ir. Quando Davi olhou e viu uma mulher se banhando, jamais pensou que aquela cobiça se transformaria em adultério, assassinato e vergonha pública. Em segundo lugar, custará mais caro do que você quer pagar. Se Davi soubesse o alto preço daquela aventura com Bate-Seba, teria recuado. O pecado promete vida e mata. Em terceiro lugar, o pecado vai reter você mais tempo do que você gostaria de ficar retido. Davi pensou que seu adultério seria apenas um affair numa tarde de solidão. O pecado, porém, escraviza, tortura e mata. Tragédias e mais tragédias desabaram sobre a cabeça de Davi como consequência desse pecado. Sua família foi seriamente afetada por esse pecado. A espada não se apartou da sua casa por causa desse pecado. O pecado não compensa. É um engano fatal. O único caminho para escapar do pecado é Jesus. Nele há perdão e libertação. Nele encontramos redenção e paz!

GESTÃO E CARREIRA

TEMPORADA DE CAÇA AOS DEVS

O Brasil precisa de centenas de milhares de desenvolvedores de software para competir num mundo cada vez mais digital. A escassez faz com que eles escolham onde trabalhar – e quanto ganhar

A administradora de empresas Isabel Nasser, cofundadora da startup de automatização de operações de comércio exterior Kestraa, de São Paulo, ficou chocada quando um estagiário em desenvolvimento de softwares que estava terminando a faculdade recusou um salário de 12.000 reais com carteira assinada e generosos benefícios para ser efetivado. A proposta saltaria aos olhos de qualquer jovem, especialmente em um país onde a taxa de desemprego na faixa etária de 18 a 24 anos bate em 27%, mas o recém-formado recusou a oferta chamando-a de “insulto”, por ser baixa demais. A empresa de energia elétrica EDP do Brasil, que serve São Paulo e o Espírito Santo, quer aumentar a digitalização de processos administrativos, mas tem vagas abertas no time de tecnologia há seis meses. Se os devs – como são chamados os desenvolvedores de software – não vão às empresas, as empresas vão aos devs. A Movile, que criou algumas das mais bem-sucedidas startups brasileiras, como iFood e PlayKids, e é avaliada em 1 bilhão de dólares, abriu escritórios em Recife, Porto Alegre e São Carlos, no interior paulista, para atrair devs em polos regionais de inovação. “Existe uma competição feroz por desenvolvedores no Brasil. Isso fez com que os salários disparassem e obrigou as empresas a participar ativamente na formação desse tipo de profissional”, diz Luciana Carvalho, vice-presidente de gente e gestão da Movile. Em média, a companhia leva 45 dias para preencher uma vaga de desenvolvedor. Bem-vindo ao fabuloso mundo dos devs, os profissionais mais requisitados do mercado de trabalho no Brasil e no mundo.

Contratar profissionais da área de tecnologia no Brasil é um trabalho hercúleo. De todas as deficiências da economia, essa é uma das mais urgentes. Entrando para valer no atual ciclo global de inovação, o país poderia finalmente chegar ao futuro que há décadas espera. “Temos uma enorme oportunidade de alavancar nossa economia. Mas, sem trabalhadores capacitados, em vez de produzir, seremos apenas importadores de tecnologia”, diz Sergio Paulo Gallindo, presidente da Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom).

O descompasso entre a disponibilidade de profissionais no Brasil e a demanda das empresas é gritante. No país há, atualmente, apenas 2 milhões de trabalhadores graduados nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática, o correspondente a 1,9% da força de trabalho, segundo dados da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico. De 2019 a 2024, de acordo com cálculos da Brasscom, a demanda média deve ser de 70.000 profissionais por ano. No entanto, em 2017, de 46.000 profissionais formados, apenas 26.000 entraram no mercado de trabalho, evidenciando uma defasagem no currículo das instituições. Nesse ritmo, ao final do período de seis anos, o déficit chegaria a 264.000. A corrida acelerada por devs fez com que profissionais como a programadora pernambucana Roberta Arcoverde passassem a ser assediados. Há seis anos, Arcoverde trabalha remotamente para o site americano Stack Overflow, que recebe mais de 50 milhões de visitas por mês. “Devo receber uma oferta por semana, eles me abordam via LinkedIn, e-mail, pombo­correio”, brinca. Ela trabalhou para as consultorias de software brasileiras TCI, Chemtech e Radix antes de aceitar a proposta do site americano. Com mais de dez anos de experiência na área, continua estudando para acompanhar as mudanças na tecnologia. “O legal dessa profissão é poder construir coisas do zero, é uma profissão de cunho quase artístico. Sua ideia vira algo tangível, executável, que ajuda a vida das pessoas”, diz.

Desde os anos 1980, quando os primeiros computadores começaram a surgir nas empresas e gênios como Bill Gates e Steve Jobs despontaram, o Brasil enfrenta a falta de profissionais de tecnologia. Nessa época, a carência era do pessoal de suporte, encarregado por fazer softwares hoje considerados pré-históricos funcionarem.

Aos poucos, a necessidade passou a ser também a de manter os profissionais conectados à rede e a pensarem novos serviços. As mudanças deslocaram os profissionais de tecnologia da função de suporte para o centro das decisões dos negócios. Os desenvolvedores tornaram-se figuras fundamentais na criação de plataformas de comércio eletrônico, de aplicativos de mobilidade e de softwares de automação industrial, entre muitas outras funcionalidades. E, à medida que a economia digital no país ganha mais peso nos segmentos mais tradicionais de atividade, a pressão por talentos de tecnologia aumenta. A consultoria Accenture estima que a economia digital no Brasil já responde por 24,3% do PIB do Brasil – o que equivaleria a 446 bilhões de dólares. Desde 2015, todas as atividades produtivas que envolvem tecnologias digitais no país tiveram uma expansão de 20% – diante de um avanço de 1,2% da economia não digital no período. “A economia digital no país vem se diversificando rapidamente. Antes ela era formada apenas por empresas que forneciam software e equipamentos. Agora, todo tipo de negócio precisa de uma camada robusta de tecnologia”, diz Pedro Waengertner, sócio e fundador da ACE Startups, aceleradora que já investiu em mais de 100 startups brasileiras.

As startups de tecnologia se destacam na contratação dos devs porque estão recebendo vultosos investimentos e têm pressa para crescer e conquistar mercado. Em 2019, as startups brasileiras receberam 2,7 bilhões de dólares em aportes de fundos de investimento, conforme dados da Distrito, organização que faz pesquisas sobre empreendedorismo no Brasil. É quase dez vezes mais do que o valor arrecadado em 2016. Mais dinheiro, mais startups. De 2016 a 2019, o número de startups triplicou no Brasil, passando de 4.273 para 12.700. O problema é que a oferta de profissionais não dá conta do crescimento desse mercado.

“A alta demanda faz com que os talentos migrem de empresa com frequência. Os empreendedores perdem muito tempo na busca e na contratação desses profissionais”, diz Amure Pinho, presidente da Associação Brasileira de Startups. Na guerra pelos devs, cada empresa usa uma tática diferente. Em janeiro, o Nubank fez um acordo para contratar 50 funcionários da consultoria de desenvolvimento de software Plataformatec, que já prestavam serviço para o banco digital. Também vem abrindo escritórios internacionais tanto para atrair profissionais que moram em outros países quanto para oferecer a seus funcionários o benefício de morar fora. Desde 2017, o Nubank tem um escritório em Berlim, na Alemanha. Em 2019, foi a vez de a Cidade do México e de Buenos Aires, na Argentina, receberem filiais do unicórnio brasileiro, avaliado em mais de 10 bilhões de dólares. O diferencial do banco, eleito pelo LinkedIn em 2018 e 2019 como a startup brasileira mais desejada para trabalhar, foi construir uma marca empregadora forte a ponto de conseguir contratar brasileiros que estavam fora do pais. “Miramos os engenheiros brasileiros que estão em companhias em diferentes países, porque eles realmente querem voltar e fazer parte de algo significativo que vai mudar o Brasil”, diz Renee Mauldin, diretora de pessoas da empresa.

Empresas brasileiras disputam os escassos talentos locais com o mercado internacional. Só nos Estados Unidos há 472.000 vagas em aberto para profissionais da área. O programador brasileiro é bom tecnicamente e é barato. Enquanto nos Estados Unidos o salário médio de um programador é de 109.000 dólares por ano, no Brasil é de 11.000 dólares. Outro desafio para os empregadores brasileiros é o fato de que 87% dos especialistas em tecnologia do país estarem dispostos a experimentar oportunidades de trabalho fora, segundo pesquisa da consultoria Boston Consulting Group em parceria com a empresa de recrutamento The Netwotk. A porcentagem é maior do que a média global, de 67%. De acordo com o estudo, brasileiros são mais atraídos por oportunidades nos Estados Unidos,  no Canadá, em Portugal e na Alemanha. Para eles, o que mais importa na hora de escolher uma vaga é a possibilidade de crescimento na carreira – o salário aparece só na oitava posição da lista.

A perspectiva da carreira internacional fez com que o catarinense Marcelo Camargo, considerado uma celebridade no mundo dos devs no Brasil, trocasse Joinville por Sydney, na Austrália. Aos 23 anos, é engenheiro de software sênior na Atlassian, maior empresa de software australiana, avaliada em 18 bilhões de dólares. Por aqui, ele ficou famoso por ter escrito o código que deu origem ao “Gemidão do WhatsApp”, brincadeira que viralizou em 2017. Em junho do ano passado, ele recebeu a proposta que considerou irrecusável. Levou uma bolada em ações da empresa na contratação, ganha mais do que um desenvolvedor australiano (o salário médio anual é de cerca de 85.000 dólares no país) – e trabalha cerca de 8 horas por dia. “Não é aquela rotina de passar o dia inteiro escrevendo códigos. Parte do meu tempo é dedicada a desenvolver projetos com outros times”, diz o dev, que largou a faculdade de sistemas de informação depois de ter cursado apenas o primeiro ano. Líder de uma equipe de outros quatro desenvolvedores, ele recebe semanalmente duas ou três sondagens para trocar de emprego. Camargo encontrou no setor de tecnologia um ambiente diverso e inclusivo: ele é homossexual e tem síndrome de Asperger, condição dentro do espectro do autismo. “Aqui me sinto mais seguro”, diz.

Que as empresas estrangeiras estejam em larga vantagem para levar os desenvolvedores brasileiros é uma questão cambial. Logo, cabe às empresas no país criar estratégias para treinar um número cada vez maior de programadores. Em2017, ao decidir começar a usar robôs para desempenhar as tarefas repetitivas de seu centro de serviços compartilhados, a EDP convidou os cerca de 200 funcionários do departamento para se tornarem, eles próprios, os programadores dos novos colaboradores autômatos. Uma analista de folha de pagamentos e um auxiliar administrativo tornaram-se desenvolvedores após dois meses de curso, usando uma plataforma que não exige o conhecimento aprofundado de codificação. “Conseguimos provar, na prática, que a tecnologia pode ser uma ferramenta que libera as pessoas de trabalhos braçais para que possam executar tarefas mais criativas”, diz Luís Gouveia, diretor de pessoas, tecnologia e sociedade da EDP.

Num país com 53% da população economicamente ativa desempregada ou em funções informais, a programação é uma carreira potencial das mais chamativas. País afora cresce o número de cursos livres de programação. A Trybe, fundada há pouco mais de seis meses em São Paulo, oferece um curso de um ano de duração em desenvolvimento de software e permite ao aluno quitar o curso depois de ingressar no mercado. Do jeito tradicional, o curso custa 24.000 reais. Pagando depois de empregado, o valor sobe para até 36.000 reais – preferido por 90% dos alunos. “Se não conseguir um trabalho que remunere acima de 3.500 reais, não precisa nos pagar”, diz Matheus Goyas, cofundador da Trybe. Em menos de seis meses, a escola já iniciou três turmas de alunos e tem quase 150 estudantes matriculados. No último processo seletivo, em novembro, foram 5.000 candidatos para 100 vagas. Além de estudantes, o negócio está atraindo investidores. Depois de um aporte de 15 milhões de reais em agosto passado de investidores como o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga e da Joá Investimentos, fundo que tem o apresentador Luciano Huck entre os sócios, a Trybe finalizou em janeiro sua segunda rodada de captação, obtendo 42 milhões de reais de fundos como Atlântico, Canary, Global Founders Capital, e Bricks, Maya e Norte, conforme apurado.

Ao finalmente conseguir contratar um talento, a empresa pode respirar aliviada, certo? Errado. Com companhias dispostas a oferecer salários altíssimos para conseguir um programador qualificado, é difícil reter os profissionais. Pesquisa do LinkedIn, em 2017, com sua base global de mais de 500 milhões de usuários, mostrou que a tecnologia é a área com maior rotatividade de profissionais (13,2%). A fábrica de software brasileira Lambda3, que tem entre os clientes o Banco Santander Brasil e fatura 15 milhões de reais, emprega 70 desenvolvedores entre os 100 profissionais e já demitiu clientes que estavam exigindo uma carga de trabalho exaustiva de seus times ou que apresentaram comportamentos machistas e homofóbicos com os colaboradores. “É tão difícil contratar e manter um bom profissional que eu prefiro perder um cliente na maior parte das vezes”, diz Victor Hugo Germano, sócio- fundador e presidente da Lambda3.

Essa é uma boa notícia da sofisticação desse mercado. As armas tendem a ir além do dinheiro puro e simples. Colocar um preço no trabalho do desenvolvedor é uma dor crescente. Diferentes cargos e níveis de experiência possuem remunerações que variam de 3.082 reais, para um analista de sistemas, a 25.152 reais, para o gerente de produto. Um salário realmente atraente pode ser, multas vezes, financeiramente inviável. Porém, o que um dev mais pode valorizar, no final das contas, é fazer parte de uma equipe inspiradora e ter maior autonomia e oportunidades para novos desafios. No Brasil, a Thought Works, consultoria global de tecnologia da informação, possui 739 funcionários e planeja contratar mais 140 desenvolvedores iniciantes por intermédio de seu programa Desenvolve, que atrai talentos com uma proposta irresistível: todos os contratados passam cinco semanas na Índia ou na China para aprender novas habilidades. De 2019 até o momento, as 70 vagas abertas tiveram mais de 3.900 candidatos, uma proporção de 40 interessados para cada contratado, e a empresa avalia a possibilidade de abrir uma unidade da universidade no Brasil. Os benefícios oferecidos no mercado são cada vez mais variados: dias extras de descanso no aniversario e no fim do ano, a abolição de códigos de vestimenta, licença-maternidade e paternidade estendidas, descontos e subsídios para cursos, home office, programas focados na saúde física e mental e até mesmo participação societária. “Buscamos desconstruir os conceitos de carreira mais tradicionais e lineares dentro de caixinhas e descrições de cargo. Conversamos sobre a jornada dos funcionários, conectando-as com desafios e trazendo suas expectativas pessoais como aliadas do negócio”, diz Grazi Mendes, diretora de pessoas na Thought Works Brasil.

Na difícil tarefa de como conquistar um dev, muitas empresas investem na diversidade para encontrar um programador para chamar de seu. No Brasil e no exterior, o mundo dos devs é essencialmente masculino. Em 2018, segundo dados da Brasscom, só 33% dos 845.479 profissionais de tecnologia do Brasil eram mulheres. A disparidade aumenta quando adicionamos o critério étnico –  só 11% dos profissionais eram mulheres negras, pardas ou indígenas. Em agosto de 2019, a imobiliária digital QuintoAndar, em parceria com a escola Codenation, ofereceu um curso de programação gratuito para mulheres que tivessem alguma bagagem na área. Ao longo de dez semanas, 30 desenvolvedoras foram treinadas e, ao final do curso, 13 foram contratadas para a equipe de tecnologia da startup. “Dentro da companhia já havia uma paridade de 50% homens e 50% mulheres. mas o recorte na área de tecnologia mostrou um desequilíbrio, por isso pensamos em programas para nos ajudar a reverter essa situação”, diz Heloisa Vieira, diretora de atração de talentos da QuintoAndar. No ecossistema brasileiro, iniciativas como o Reprograma e o Programaria gratuitamente capacitam mulheres para trabalhar com desenvolvimento de software. “As empresas hoje nos procuram para financiar cursos. Desde que começamos, em 2016, formamos 16 turmas, 428 mulheres, 98% delas estão atuando na área de TI”, diz Mariel Reyes Milk, fundadora e presidente do Reprograma.

A demanda pelos devs é alta, as ofertas são de encher os olhos – e os bolsos -, e é preciso formar novos profissionais. Isso está dado. Não há perspectiva, porém, de que o mundo se torne um lugar povoado apenas por profissionais que dominem os códigos dos computadores. Essa é a visão de Tim Ryan, presidente da unidade americana da auditoria britânica PwC e especializado no mercado de trabalho em tecnologia. “Acho que haverá uma parte critica da população que terá de aprender a programar. Mas eu não vejo que todos terão de fazer isso”, diz Ryan. Isso significa que não é necessário colocar as crianças em escolas de codificação antes que aprendam o mínimo do conhecimento tradicional. Por outro lado, no futuro todos vão ter de entender um pouco como os programas de computador são construídos para pelo menos poder contratar os funcionários mais adequados nas empresas, explicar à equipe de tecnologia o que espera nos projetos, e acompanhar as mudanças do mundo. Em linhas gerais, vale a lógica usada atualmente para conhecimentos matemáticos. Saber as operações básicas e conseguir identificar padrões e incoerências é fundamental para milhares de funções. O mesmo vai valer para os códigos. Saber mais do que o colega ao lado, claro, vai ajudar mais do que atrapalhar.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A METADE AMPUTADA

A dor da separação trazida em A História de um Casamento é tão real e reconhecível que toca com profundidade os que são honestos com suas emoções

O belíssimo filme de Noah Baumbath aborda algo próximo do que antes ele já havia se debruçado sobre no marcante A Lula e a Baleia /2005). Um tema que, sem dúvida já foi explorado incansavelmente pelo cinema, mas que chega nessa produção surpreendendo ao contar a história do casamento de Nicole (Scarlett Johansson) e Charlie Barber (Adam Driver) ou, melhor dizendo, a história do descasamento deles, porque foca o momento da separação do casal. A dor trazida pelos protagonistas é tão real, os descaminhos, as mágoas e raivas, o amor que persiste mesmo após o fim da relação, é tudo tão palpável, tão reconhecível que toca com profundidade os que se conhecem minimamente e são honestos com suas emoções, todos aqueles que já enfrentaram uma separação, seja de casamento ou de namoro, convivência, qualquer que seja o laço amoroso que tenha ousado construir intimidade do qual um dia teve-se de abrir mão disso, se reconhecerão nas sutilezas do texto e nas ações dos personagens.

É preciso profundidade e coragem para construir um algo em comum e que se sabe, desde sempre, que doerá muito, como uma “metade amputada de mim”, se um dia esse vínculo se romper na contabilidade das relações, entre o que ainda pesa muito para crédito e o que sobrecarrega no saldo devedor, A Dor de Amar, como diria em seu Livro J.D. Násio. É esse rompimento, essa quebra, esse momento de caos pulsional que o roteiro acompanha com cuidado e muita veracidade, que fará o espectador quase torcer para que Nicole e Charlie se reencontrem, mesmo vendo com clareza que um casal há de saber separar-se antes que o obscuro do ressentimento tire toda a visão do todo que os uniu um dia e que fez valer a pena o compartilhamento das vidas em um período do tempo, como lhes explica o terapeuta que buscam para mediar sua crise.

Cuidar do amor nem sempre é permanecer, cuidar do amor pode ser muitas vezes saber partir para que o bom do amor não azede, não vire fel, construindo uma impossibilidade de olhar com positivo afeto alguém que foi tão importante na construção dos caminhos de vida, para que não vire um laço zumbi, morto-vivo. Seria tão bom que ao final de todas as relações não houvesse mortos, simbólicos ou físicos como não é incomum acontecer, vide noticiários. Seria tão ideal ao final saber sobre o sapato do outro, aludindo aqui a uma cena tocante já quase ao final do filme e ao ditado que diz que cada um sabe onde lhe apertam os sapatos.

ESTRANHO NOVO LUGAR

Apesar de todo o embate, Nicole, em mais de uma oportunidade, diz que deseja continuar amiga de Charlie após o divórcio, embora contraditoriamente em outro momento diga à mãe que ela não poderá continuar sendo amiga do seu ex-marido. Que estranho e novo é esse que um antigo parceiro ou parceira ocupa? Jamais totalmente desinvestido. “O que está fazendo é um ato de esperança”. Nora diz a Nicole.

A disputa pelo tempo com o pequeno Henry (Azhy Robertson), filho de 8 anos do casal aprofunda a dor que ambos encaram com a separação pedida por Nicole, que não podia enxergar outra salda para que buscasse a construção de si mesma, de sua independência e identidade, do seu lugar e voz no mundo, já que aquilo que a atraiu pra Charlie agora a impedia de afirmar sua própria subjetividade, todo o fascínio que ele, imediatamente lhe provocou quando o conheceu como ela conta agora a havia levado a uma sensação de não existência enquanto dona do seu desejo. O pedido de Nicole surpreende Charlie, que só pensa em levá-la de volta para casa, não entende que ela havia colocado um ponto final nas tentativas de manter o casamento e que a casa dela não era mais a mesma casa, sequer na mesma cidade. Nesse ponto somos levados a pensar nos

avanços que temos construído no sentido de alcançar uma liberdade maior para as mulheres, há menos de 50 anos, exatos 42 anos, é que aqui no Brasil o divórcio passou a existir. Antes havia o desquite, que tinha um peso social enorme que caía sobre os ombros das mulheres que saíam do status de mulheres respeitáveis para mulheres desfrutáveis aos olhos da sociedade, isto posto como “menos valia”, e, embora solitárias, continuavam atreladas em muitos aspectos, como se fossem uma propriedade, a seus ex- parceiros, que partiam para novas vidas também eles fragmentados, sem poder oferecer à nova companheira o sobrenome, fato que pesava de forma decisiva em quase tudo.

Não era incomum uma mulher desquitada ter dificuldades na hora de alugar um imóvel, disputar uma vaga no mercado de trabalho, comprar a crédito e outras coisas mais. Então, quando Nicole, uma mulher insatisfeita por sentir-se invisível em seu casamento, que se confundia com sua carreira como atriz, pede o divórcio, isso conta um fio histórico que em grande parte será o que alimenta as contendas empreendida pelos advogados de ambas as partes. Nesse aspecto brilhará Laura Dern como a advogada Nora Fanshaw, que no tribunal discursará de forma absolutamente brilhante ao questionar os argumentos do advogado cão feroz Jay Marotta, interpretado por Ray Liotta, que Charlie se verá compelido a contratar. A separação no tribunal entre Nicole e Charlie remete a uma bela discussão sobre machismo, misoginia, feminismo, autonomia e novas configurações da relação entre os gêneros. “Aceitamos um pai imperfeito. Vamos admitir: o conceito de bom pai foi inventado há uns 30 anos”, mostra um diálogo do filme que desenha esse conceito.

MÃO E CONTRAMÃO

Enquanto tentam chegar á um acordo que deixe de fora ter que ir ao tribunal, em uma sequência na qual falam por eles. Nora e o primeiro advogado de Charlie, o confuso Bert Spitz (Alan Alda), em uma pausa para o almoço, produzem uma cena que passa sem grande atenção, mas que vale a pena nos debruçarmos um pouco sobre ela.  Cansados das negociações, resolvem interromper para um almoço, que será pedido por telefone: o cardápio roda de mão em mão, cada um faz o seu pedido, até que para nas mãos de Charlie, que não consegue decidir-se sobre o que deseja. Nicole então acena para que passe para ela o cardápio e diz o que ele vai querer, item por item, até nos detalhes de molhos e temperos no que ele concorda plenamente. Ela poderosamente mostra que o conhece. Mas vejamos até ali a queixa maior de Nicole era no tocante a quanto suas escolhas não eram levadas em conta, sequer ouvidas dentro do casamento, o que é completamente verdadeiro. Mas essa cena remete a algo que precisa ser também pensado quando se trabalha um vinculo, e que diz respeito ao fato de que toda relação é uma via de mão e contramão, ou seja, não há de forma plana uma vítima e um algoz, um oprimido e outro opressor. Podemos pensar que há uma relação de opressão ou controle, nunca isso se dá em uma única via, em um único e exclusivo papel. Ambos exercem um sobre o outro as nuances que mantêm a dinâmica em questão, embora o pêndulo possa em muitos aspectos pesar mais para um lado como costuma ser quando há violência física em que há força muscular masculina é quase sempre muito maior. O que devemos pensar é que há uma relação que adoeceu, e que se possa curar a ambos envolvidos nela será necessário que cada um assuma e se desapegue de seu lugar dentro dela. Nicole conhece Charlie ou seu pedido remete a uma escolha que ela determina que seria á dele? Fica a questão que é importante para criar empatia em relação ao grande sofrimento que o espectador acompanhará nas angústias vividas pelo personagem, que são de fazer picadinho das emoções. Esse é outro aspecto muito interessante no filme: sem tomar lado, sem julgamentos morais a dor do homem é visitada a fundo também, e isso não é algo muito usual. Nos males que o machismo ergue, há uma camada pouco visitada no que diz respeito ao sofrimento masculino, principalmente no campo da paternidade. Apenas muito recentemente isso vem sendo colocado à mesa de discussão, está aí a guarda compartilhada em prática e que no filme está presente amarrando toda a tensão. Não existem apenas pais abandonadores, há os que sofrem com a perda da convivência nos casos de separação do casal, mesmo que as tarefas domésticas e de cuidados com os filhos, na prática, estivessem mais como atribuições da mulher.

O filme brilhou em muitos festivais deste ano. Embora sua premiação até o momento não tenha sido alcançada com a dimensão do entusiasmo mostrado, ainda assim vem marcando forte presença. Foi o longa com maior número de indicações para o Golden Globo, que costuma ser um termômetro para o Oscar (2020). Estreou no Brasil somente pela Netflix e está disponível desde o dia 6 de dezembro. O roteiro é original e escrito também por Baumbach. Com toda certeza vale demais conferir o verdadeiro presente que Scarlett Johansson e Adam Driver nos oferecem com suas interpretações sob a batuta do diretor que entrega um texto honesto e emocionante e uma direção impecável. Todo o especial elenco está incrível, Laura Dern como Nora, a advogada de Nicole, está maravilhosa como sempre. Prepare o coração que baterá forte em muitas sequências, em especial ao final, com a canção que o Charlie cantará, impossível não tocar o coração, mesmo do mais empedernido. Um outro embate que corre em segunda voz na produção é a velha disputa no sentido artístico entre o teatro e as criações autorais e alternativas versus a grande máquina do cinema.

Essa questão também está posta todo o tempo, e ao que parece, ao produzir o seu filme, o diretor resolve-a como ninguém. Que brilhe muito acalentando o coração de quem aprecia a elaborada arte!

FAMÍLIAS TENTACULARES

A ternura que amarra a história contada, apesar da densidade e intensidade das angústias enfrentadas é realmente um diferencial que aponta para um convite para que enquanto coletivo possamos erguer novas formas de entender um casamento como algo que deu muito certo em algum outro momento, fundamental afeto para ambos que compõem o par, mas que um dia. chega ao fim, até porque sujeitos no mundo estão e estarão sempre em constante mutação e mobilidade, e caminhos que um dia seguiam juntos podem vir a tomar direções diferentes, exigindo uma manobra impossível de ser realizada para que se continue lado a lado. Se enquanto coletivo as relações de casamento ainda são o caminho preferencialmente escolhido na maturidade, que possamos realmente acolher a atualidade disso, na qual os laços amorosos até têm sido construídos pelo afeto, pelo vinculo de uma escolha emocionada. Que se possa viver com mais leveza e menos toxicidade o fim dos relacionamentos e a possibilidade de mergulhar nessas novas configurações que em última análise são o que levam a que se pense nas novas configurações familiares ou, como a psicanalista Maria Rita Kehl nomeou, as “Famílias tentaculares.”.

Se há algo que a Psicanálise abriu foi a possibilidade de entendermos que nenhum sujeito é um bloco único, um caminho sempre reto, aquilo que o dever manda fazer. Esse ser das relações está sempre vivo curioso e aberto, em busca dá tal felicidade que nunca será uma estabilidade, ela precisa sempre dos solavancos, das mudanças de direção, do investimento continuo naquilo que liga e não no que silencia e aprisiona o desejo e tudo que se origina nele, a criatividade e potência de vida. Nicole segue corajosamente em busca de seu caminho, como uma mulher do seu tempo, tempos diferentes dos que amarguraram as nossas avós. Muitas mulheres deram voz ao que se ergueu pela luta até chegar no que temos hoje. Encerremos então com a voz da nossa escritora intensa econfessional que vale para pensar na emoção que sobra depois dos créditos finais: “Por te falar eu te assustarei e te perderei? Mas se eu não falar eu me perderei, e por me perder, eu te perderia” (Clarice Lispector).