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DIPLOMA A UM CLIQUE

No rastro dos avanços tecnológicos, os cursos superiores à distância quebram barreiras, atraem hoje mais estudantes que os presenciais e alargam a porta da inclusão social

A educação superior no Brasil está no meio de uma revolução – algo silenciosa, é verdade, porém irreversível. O fator dessa transformação que vem mexendo com estudantes, professores e o mercado de trabalho é o ensino a distância (ultimamente popularizado pela sigla EAD).

É essa a modalidade educacional que mais cresce no país. O número de calouros vem aumentando ano a ano, aproximando-se cada vez mais do registrado nas graduações presenciais em que o aluno vai à faculdade enquanto no formato que está explodindo ocorre o contrário: é a sala de aula que alcança o universitário onde quer que ele esteja, graças à internet. A estimativa é já tê-lo superado em 2019 (o Ministério da Educação só divulgará os dados oficiais em setembro). Segundo projeções da consultoria Atmã Educar, no ano passado os ingressantes nos cursos de graduação on-line somaram 1,411 milhão, em comparação com 1,203 milhão da modalidade tradicional. Foi a primeira vez que isso aconteceu desde 1996, quando o MEC autorizou o funcionamento dos primeiros cursos de graduação à distância.

É consenso entre os especialistas que a virtualização da educação superior representa a solução mais prática para combater os baixos porcentuais de universitários brasileiros. Apenas 21,7% dos jovens de 18 a 24 anos estão cursando hoje uma faculdade – a meta assumida pelo governo em 2014, no Plano Nacional de Educação, era atingir 33% em 2024. Indicadores da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) divulgados em 2019 são ainda mais alarmantes: só 19,6% da população brasileira de 25 a 34 anos possui formação superior, índice inferior ao registrado na Argentina (40%), no Chile (33,7%), na Colômbia (29%) e na média das 36 nações que fazem parte da entidade (44,1%).

O salto verificado aqui no ensino superior à distância se deve, sobretudo, ao setor privado. Dos 6,4 milhões de estudantes matriculados em alguma instituição universitária paga, 30% estão em cursos on-line. Enquanto a quantidade de alunos presenciais das faculdades privadas vem diminuindo (queda de 3,4% em 2018), na graduação remota o crescimento já alcançou os dois dígitos (aumento de 18,4% naquele mesmo ano). Por outro lado, a participação das universidades públicas nos cursos a distância é modestíssima: apenas 4,9% dos calouros de 2018 ingressaram numa graduação virtual dessas instituições. Parte dessa defasagem pode ser atribuída ao baixo investimento das universidades públicas, que dependem, em sua maioria, do dinheiro do governo federal, liberado por meio do programa Universidade Aberta do Brasil, da Capes – fundação ligada ao MEC. “Os recursos estão sendo cada vez mais contingenciados. Assim, na hora de decidir, as instituições acabam direcionando os investimentos para o ensino no qual têm tradição, o presencial. Ainda existe um certo preconceito em relação ao on-line”, diz Ilka Serra, ex-presidente do Fórum Nacional dos Coordenadores da Universidade Aberta do Brasil.

A única instituição pública nacional de ensino criada exclusivamente para oferecer graduação remota é a Universidade Virtual do Estado de São Paulo, a Univesp. A USP, a mais respeitada universidade pública brasileira, não tem cursos próprios de graduação a distância; apenas mantém parceria com a Univesp, cedendo seus professores. O receio das instituições públicas em aderir ao formato é uma política equivocada – que, vale frisar, também atinge parte do setor privado. No mercado de educação, a expectativa é que a partir de 2025 o total de estudantes no ensino superior on-line supere no Brasil o número de matriculados em cursos presenciais, seguindo uma tendência global.

A história dos cursos a distância é longa; aliás, longuíssima. Acredita-se que a ideia tenha surgido nos Estados Unidos ainda no século XVIII, com a oferta, em Boston, em 1728, de um curso de taquigrafia por correspondência. Por aqui, a modalidade teve início na virada da década de 30 para a de 40, com cursos profissionalizantes, também por correspondência, liderados pelo Instituto Monitor e pelo Instituto Universal Brasileiro. Mais tarde o modelo passou a ser adotado também no ensino oficial. Em fins da década de 70, a modalidade chegou à TV, no formato de telecursos.

Naturalmente, o advento da era digital – que consagrou a web, a tecnologia do streaming e as redes sociais –  foi decisivo para o avanço do ensino à distância nos quatro cantos do globo. Mas, no caso do Brasil, pesou sobremaneira a situação do país, em especial nos anos recentes: desemprego em alta, população carente de recursos para custear uma faculdade, escassez de verba estatal para a educação e pequena oferta de vagas em universidades públicas. “Ao permitirem uma melhor escolarização, os cursos remotos ajudam a sanar um dos entraves da economia nacional: a baixa produtividade do trabalhador”, explica João Vianney, sócio da consultoria Hoper Educação. “Com o grave problema da falta de crédito estudantil, o ensino a distância é a solução para quem não tem dinheiro”, completa Ryon Braga, diretor e fundador da Atmã. O preço, de fato, é um inegável atrativo das graduações remotas: as mensalidades custam, em média, um terço do que é cobrado nos cursos presenciais. Segundo as instituições de ensino, as despesas menores com pessoal e espaço físico e o barateamento de soluções tecnológicas fazem com que as aulas virtuais tenham um investimento muito mais baixo para ser realizadas. Além disso, o alcance maior de cada sessão gravada com um professor permite um ganho de escala que não é possível na educação tradicional.

Em nações com um desenvolvido sistema de ensino a distância, como os Estados Unidos e a Inglaterra, os preços não chegam a ser tão diferentes – em média, são apenas 20% inferiores. Isso ocorre porque nesses países o modelo educacional utilizado comporta uma interatividade maior entre aluno e mestre. Fora o aspecto financeiro, os cursos on-line se tornam atraentes porque abolem a geografia – algo particularmente decisivo em um país com as dimensões do Brasil – e dão margem a uma enorme flexibilidade de horário. Com isso, mais de 70% dos estudantes brasileiros que fazem graduação à distância representam a primeira geração de universitários da família. “Essa modalidade de ensino nasceu para atender alunos de classes menos favorecidas. No entanto, muitas das renomadas instituições nacionais não quiseram ser associadas a esse posicionamento. E, agora que querem entrar no negócio, têm encontrado dificuldade, porque o mercado está tomado pelas grandes empresas, que sabem como oferecer um bom conteúdo”, afirma o especialista em gestão da educação Renato Casagrande.

Pela legislação em vigor, os cursos on-line devem seguir as mesmas diretrizes curriculares dos presenciais, incluindo aulas práticas e estágios. De acordo com o mais recente Censo da Educação Superior, estão registrados no Brasil 3.177cursos à distância – aumento de 116% em relação a 2015. Só a graduação em medicina não pode ser realizada de maneira remota, e a abertura de cursos de odontologia, psicologia, enfermagem e direito requer autorização prévia do MEC. Conselhos federais da área da saúde já se manifestaram contra a oferta de cursos no formato virtual. Eles acusam as instituições de não atender às exigências de currículo referentes aos conteúdos práticos. Também ocurso de direito a distância anda provocando polêmica. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) entrou, no fim do ano passado, com uma ação na Justiça contra a modalidade, alegando que as diretrizes curriculares não são compatíveis com a formação virtual do aluno. Todavia, especialistas em educação sustentam que o direito é uma das áreas que mais se prestam ao modelo e preveem que o “governo facilitará a graduação on-line” em direito ainda neste ano.

Pressões contra os cursos a distância são recorrentes – e não há como negar alguns de seus pontos fracos. Um deles é a alta taxa de evasão escolar. Segundo cálculos da Hoper, com base nos dados mais recentes disponíveis do MEC, de cada 100 estudantes que ingressam por aqui numa faculdade presencial, 55 se formam. No ensino virtual esse número cai para 45.

O principal fator verificado entre os alunos para a desistência é a não adaptação à modalidade. Nas universidades onde o acompanhamento do estudante é mais constante, a evasão é menor. No ensino a distância, o aluno tem, claro, de estudar muito sozinho. O único contato físico com a instituição na qual se matriculou ocorre por ocasião das provas, que devem ser realizadas presencialmente nos polos educacionais. É neles também que ficam os laboratórios dos cursos que demandam atividades práticas. As instituições que estão conseguindo reter mais estudantes são aquelas que promovem ações de maior interatividade e investem mais no contato entre professor e aluno.

No que diz respeito ao material didáticoe à qualidade dos cursos remotos, a avaliação corrente no meio educacional é que ambos podem ser considerados satisfatórios. “As notas do Enade (Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes) dos alunos de educação a distância e do modo presencial são praticamente as mesmas nos últimos quatro anos”, afirma Luciano Sathler, membro do comitê de qualidade da Associação Brasileira de Educação a Distância. Ele, no entanto, faz um alerta: “O fato de os conceitos estarem equiparados não significa que estejam bons. As notas ainda são baixas nos dois modelos”. ReaImente, as avaliações do Enade demonstram uma lastimável fragilidade da educação superior brasileira. Em 2017, por exemplo, a média alcançada na rede privada pelos estudantes de pedagogia dos cursos presenciais foi de 43,7 pontos (de um total de 100), enquanto a do ensino virtual chegou a 40,1 pontos, segundo dados analisados pela Consultoria Hoper. Destaque-se que naquele ano o aluno que obteve a maior nota vinha da modalidade a distância – 96,2 pontos. Em engenharia civil, a diferença de performance foi menor: 41,8 pontos, no caso dos egressos dos cursos presenciais, e 40,7, no dos oriundos do modelo virtual. Significativamente, também nessa prova o maior conceito foi de um estudante de ensino a distância: 89,6 pontos.

Para que a educação superior on­line brasileira atinja níveis internacionais, é fundamental que se amplie a integração entre mestre e aluno em pequenos grupos de estudantes. A maioria das instituições dos Estados Unidos voltadas para o ensino a distância faz a diferença justamente pelas chamadas “ferramentas síncronas”, aquelas que permitem que aluno e o professor participem simultaneamente de uma aula remota, oportunidade em que é possível tirar dúvidas em tempo real. Por ser parecida com uma aula presencial, ela tem a vantagem de aumentar o engajamento dos estudantes – a desvantagem é que estes têm de estar disponíveis naquela hora exata. Outro ponto defendido por educadores para a elevação do padrão dos cursos on-line é a criação de um sistema de supervisão que não se apoie nos mesmos indicadores dos cursos presenciais. “Além de uma ferramenta de acompanhamento que leve em conta a metodologia e os recursos didáticos e pedagógicos, é preciso desenvolver instrumentos de avaliação da qualidade com as devidas especificidades”, opina a socióloga Maria Helena Guimarães de Castro, que foi secretária executiva do MEC e integra o Conselho Nacional de Educação. “O ministério não pode utilizar a mesma ferramenta para avaliar um curso a distância e um presencial. Essa abordagem é equivocada, tendo em vista experiências em outras nações”, pondera ela. Na Inglaterra, para ficar em um só caso, a prestigiosa The Open University desenvolveu técnicas de integração, metodologias de monitoramento e avaliação próprias. Consultado, o MEC declarou que “existem normas específicas, respeitando as particularidades e atuação nessa modalidade (de ensino a distância),para garantir a qualidade”. O ministério também revelou que “avalia mudanças no procedimento, para torná-lo mais efetivo e dinâmico”.

O processo para ingressar em um curso a distância é o mesmo do presencial: o vestibular. Cada instituição define como é sua prova. Na Univesp, por exemplo, o teste é realizado em um só dia e é composto de 56 questões e uma redação. Na Universidade Presbiteriana Mackenzie, uma tradicional instituição privada localizada na capital paulista, o concurso consiste somente de uma redação. Algumas instituições aceitam a nota do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) como ingresso oficial ou para oferecer bolsa de estudos. Para muitos acadêmicos que atuam na área da educação, pelo menos o vestibular para a entrada em universidades privadas deve estar com os dias contados. A exceção deverá ser a graduação em medicina e em outras poucas áreas nas quais o número de candidatos continue superando o de vagas.

Uma dúvida que assombra inúmeros estudantes é se o diploma, entregue no fim de um curso realizado remotamente, será bem recebido pelo mercado de trabalho. Um levantamento do Catho, portal de classificados de empregos, realizado no ano passado com 238 recrutadores de todo o país revelou que a discriminação contra egressos de cursos virtuais tem diminuído. Ao serem questionados a respeito da percepção sobre um candidato com curso superior feito na modalidade de ensino a distância, 79% responderam que esse não era um critério de avaliação na hora de recrutar funcionários e 18,9% afirmaram que, sim, tinham preferência por alunos saídos de um curso superior presencial.

Analisando-se o mercado, é possível considerar que ele seguirá evoluindo até o ponto em que, muito em breve, deixará de se importar com o nome ou a natureza da instituição na qual o profissional que disputa um posto de trabalho se formou para se preocupar com quanto ele absorveu de informação. “O currículo que tem uma faculdade renomada pode chamar mais atenção, entretanto não garante vantagem sobre aquele que traz uma formação universitária em ensino a distância. É a dedicação do profissional que começa a ter maior importância”, diz Renato Trindade, gerente executivo da Michael Page, empresa de recrutamento.

A verdade é que a graduação remota está se impondo e é provável que ela comece a exercer influência sobre os cursos presenciais. O futuro da educação superior é o modelo híbrido, aquele em que o presencial se mistura com o virtual. No fim de 2019, o governo já elevou a carga horária permitida de conteúdo on-line nos cursos presenciais de 20% para 40% – exceto para os de medicina. É certo que os elementos virtuais continuarão ganhando, cada vez mais, espaço no processo educacional em todo o planeta e no Brasil, em particular. A educação, enfim, é uma revolução que começa a estar ao alcance de todos – a um só clique de distância.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE ORVALHO PARA A ALMA

DIA 06 DE MARÇO

JUSTIFICAÇÃO, ATO DE DEUS

Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo (Romanos 5.1).

A doutrina da justificação pela fé é o coração da Bíblia. Quando essa verdade é proclamada com fidelidade, a igreja se mantém de pé; quando é negada ou distorcida, a igreja cai. Qual é o significado da justificação? A justificação é um ato legal de Deus, e não um processo experimental. É realizada no tribunal de Deus, e não no nosso coração. É completa e final e não possui graus. O menor crente está tão justificado quanto o crente mais piedoso. Paulo nos ensina quatro verdades importantes sobre a justificação no versículo em epígrafe: 1) o autor da justificação: é Deus quem nos justifica, e o faz não com base em nossos méritos, mas por causa dos méritos de Cristo; 2) o instrumento da justificação: somos justificados mediante a fé e não com base em nossas obras – se a obra de Cristo é causa meritória, a fé é a causa instrumental da nossa justificação; 3) o fruto da justificação: temos paz com Deus, somos reconciliados com Deus e renascemos dentro da família de Deus; 4) o agente da justificação: todas essas bênçãos espirituais nos são concedidas por meio de nosso Senhor Jesus Cristo. Cristo é a nossa justiça. Ele é a nossa paz. Nele temos copiosa redenção. Você já foi justificado? Já tem o selo do Espírito Santo em sua vida? Tem certeza de que seu nome está escrito no Livro da Vida? Já tomou posse da vida eterna? Já desfruta da alegria indizível da salvação?

GESTÃO E CARREIRA

UM MARCO PARA AS STARTUPS

A criação de uma legislação para estimular o ecossistema de startups deve sair neste ano. Caso aprovada, investidores e empreendedores esperam um salto de investimentos e até mesmo de qualidade das empresas brasileiras

Quando recebeu o aporte de 231 milhões de dólares do fundo japonês SoftBank em julho de 2019,o fundador da fintech Creditas, o espanhol Sergio Furio, sabia que não poderia depender apenas de um mercado para justificar uma aposta desse tamanho. A internacionalização, portanto, passou a ser mais do que vontade, tornando-se uma necessidade para a companhia. No ano passado, a empresa decidiu entrar no mercado mexicano. Foram necessários cinco meses para que a filial, hoje com 20 funcionários, estivesse pronta para operar. Na Espanha, onde a empresa também mantém um braço de tecnologia com 35 colaboradores, a abertura foi em um mês. Se a Espanha é um paraíso, o México não chega a ser o inferno – pelo menos não quando comparado ao Brasil, aonde Furio chegou em 2012, depois de deixar o mercado financeiro de Nova York. “Eu era um gringo que tinha vindo para cá abrir uma empresa, então tive de encarar muito mais burocracia, como a questão de visto de trabalho”, diz ele. Só para ter o número do Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica foram nove meses. O custo de abertura da empresa chegou a 15.000 reais.

Apesar das dificuldades para abrir um negócio aqui (o país perdeu 15posições no relatório Doing Business de 2019, ocupando agora a 124ª colocação), o grande potencial de crescer no mercado interno continua atraindo empreendedores e fundos para investir em empresas inovadoras por aqui. E um movimento na Câmara dos Deputados quer acelerar esse processo. Neste ano, deve entrar em votação o Projeto de Lei Complementar nª 46 (PLP-46), conhecido como Marco Legal de Startups. O projeto traz uma série de medidas para facilitar a criação de empresas de tecnologia, dar mais segurança jurídica aos investidores e até mesmo criar novos modelos de remuneração e contratação de pessoas. Entre as medidas mais esperadas pelos empreendedores está a criação de um novo modelo societário: a sociedade anônima simplificada.

Basicamente, o projeto prevê uma junção do sistema do Simples, que traz benefícios tributários para os pequenos e médios empresários, como regime de Sociedade Anônima (S.A.), que tem seu capital dividido em ações. Dessa maneira, segundo especialistas, será multo menos burocrático para um investidor conseguir capitalizar as startups. Alémdisso, os custos referentes à abertura seriam reduzidos a zero, assim como o tempo de aprovação convertido a poucos dias, num processo totalmente digitalizado. Isso servirá para evitar problemas como o que ocorreu com Eduardo L’ Hotellier em 2011. Quando criou a plataforma de contratação de serviços GetNinjas, o empreendedor levou dez meses para conseguir abrir a empresa. Na época, ele já tinha conseguido um investidor, o site estava no ar, mas a regularização emperrava. “Foi uma época desgastante. Não tinha tempo de ir a todos os órgãos públicos necessários. Tive até de chamar meu pai para ser meu sócio, pois a legislação não me permitia fazer isso sozinho”, diz L’Hotellier. Tanto a Creditas quanto a GetNinjas são startups que levantaram milhões e prosperam nas áreas em que atuam. Mas essa não é a realidade da maior parte do mercado brasileiro, em que cada centavo vale muito e o tempo é curto para um negócio se provar. Uma em cada quatro empresas morre ao primeiro ano devida e metade não chega a completar quatro anos. “Quando você tira obstáculos e gastos desnecessários dos empreendedores, eles vão conseguir ter mais tempo para pensar no que realmente importa, que é o negócio”, diz Arthur Mesnik, diretor financeiro do fundo de venture capital E.Bricks. Dessa maneira, na opinião de Mesnik, mais empresas conseguirão crescer e atrair investidores, que também estão de olho em outras mudanças do marco. O próprio E.Bricks está levantando recursos para seu terceiro fundo, no valor de 450 milhões de reais. Além de mais oportunidades de negócio, os investidores também estão interessados no artigo do PLP-46, que tira a responsabilidade deles de punições em caso de falência ou dívidas das startups. Até hoje, os investidores, mesmo que não participem diretamente da gestão da empresa, podem responder com o patrimônio pessoal caso a startup fique insolvente e cheia de contas a pagar. “Os riscos que os investidores tomam na pessoa física assustam e limitam o potencial de financiamento”, diz João Kepler, sócio da Bossa Nova Investimentos.

Especialistas dizem que é difícil saber o tamanho do impacto econômico que o marco legal teria no mercado, caso seja aprovado. A consultoria Grant Thorton, a pedido da organização Anjos do Brasil, fez um estudo para medir o poder de uma desoneração no ecossistema de startups. Para isso, usou como premissas a isenção total do imposto sobre rendimentos e ganho de capital: e a compensação de até 50% do valor do investimento nos impostos do investidor. No estudo, o retomo para o investidor sairia de uma média de 15% para 29% ao ano. O que faria com que, para cada 1 real investido em startups no Brasil, fossem destinados quase 6 reais em tributos, salários e outras despesas de operação no período de cinco anos.

E as startups devem obter mais benefícios. Apuramos que o governo vai turbinar a proposta que já está em discussão no Congresso, o PLP-46.

A ideia é ampliar o escopo de startups que serão contempladas pelos benefícios do regime do Simples Nacional – o limite do faturamento vai de 4,8 milhões para 16 milhões de reais. Também está em discussão a compensação de prejuízos para investidores-anjos. Se um investidor apostar em duas empresas e só uma der lucro, por exemplo, ele conseguirá abater os impostos cobrados da primeira startup nas perdas da segunda. ”Há uma expectativa de todo o mercado de que isso seja aprovado pelo Congresso”, diz Kiko Afonso, presidente do Grupo Dínamo. Porém, há economistas que discordam em manter a política de incentivos fiscais. No ano passado, segundo levantamento da Fundação Getúlio Vargas, o Simples foi responsável por quase 30% de todas as renúncias fiscais do governo, cerca de 87 bilhões de reais. “Se a empresa tem um produto ou uma tecnologia que interessa ao mercado, ela ganhará dinheiro. O governo não deve subsidiar empresas nem startups”, diz o economista Marcos Lisboa, presidente da escola de negócios Insper, em São Paulo.

Ao mesmo tempo, o projeto dá abertura para uma relação em que governo e startups saiam beneficiados: contratação de serviços por licitação. No projeto, há a intenção de criar mecanismos para permitir que startups, especialmente as especializadas em melhoria da eficiência da gestão pública, possam ser contratadas por governos e órgãos públicos sem necessariamente ter de cumprir todos os requisitos. Atualmente, há limitações de tempo mínimo de existência das companhias para concorrer em contratos públicos. “Seria uma saída benéfica para os dois lados: o governo melhoraria sua eficiência e as empresas teriam uma receita segura e recorrente. Mas ainda há muitas dúvidas e muitos riscos de como contratar essas empresas, diz André Barrence, responsável pelo Google for Startups. Relator do PLP-46, o depurado federal Vinicius Poit (Novo -SP) está fazendo uma série de audiências públicas até o fim de abril. No dia 13 de maio, a proposta deve ser encaminhada ao Congresso. “Estamos nos reunindo com em· presas, especialistas e a sociedade para fazer um projeto que gere um impacto significativo no país”, diz Poit.

O Marco Legal de Startups é um exemplo da importância que as empresas de tecnologia passaram a ter até mesmo no Congresso Nacional. Um levantamento realizado pelo Dínamo aponta que, somente em 2019, foram 27 projetos relacionados ao ecossistema de startups e tecnologia. Isso representa cerca de um terço de todos os projetos propostos na área desde 2004. E isso pode trazer resultados no futuro. A Itália, depois da aprovação de um decreto de startups em 2013, viu o número de startups saltar de 480 para 10.000. O Brasil chegou a 12.700 no ano passado, segundo a Associação Brasileira de Startups, mesmo sem uma regulação adequada. Com a aprovação do projeto, a meta do governo é alcançar 150.000 até 2023, ainda distante dos 6,5milhões de PMEs. “O Brasil está pronto para ser o país das startups e não só das PMEs”, diz Carlos da Costa, secretário especial de Produtividade, Emprego e Competitividade. E, se nesse ambiente desafiador o pais gerou 11 unicórnios (empresas avaliadas em mais de 1 bilhão de dólares), é de imaginar que o futuro das startups por aqui seja mais do que promissor.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

RECEITA DE INTELIGÊNCIA

Dificuldades iniciais relacionadas ao neurodesenvolvimento ocasionam às vezes prejuízos crônicos na interação social, no comportamento, na linguagem, nas funções executivas.

Antes mesmo do nascimento de seus bebês, os pais já se preocupam em saber se o filho nascerá em boas condições de enfrentar os desafios do crescimento. Nada mais compreensível, pois um recém-nascido diagnosticado com qualquer problema de saúde traz à família grande inquietação em relação a sua saúde e ao seu desenvolvimento futuro.

Também acarreta, dependendo da gravidade de seu problema, o sofrimento do luto pela perda do bebê idealizado. Afinal, é humano querer o melhor para o filho e antes mesmo do nascimento já lhe atribuir um lugar nesse mundo cheio de realizações e sucesso pessoal. Uma criança com perdas sensoriais importantes, com síndromes ou com prejuízos neurológicos graves, terá, é certo, um caminho bem mais árduo que seus pares até alcançar a autonomia.

Embora a grande maioria das crianças seja sadia, com grandes recursos potenciais, há uma parcela de cerca de 10% dessa população que precisa de cuidados especiais de diferentes especialidades para poder chegar ao final da adolescência com boas chances de ter uma vida pessoal, profissional e social de qualidade.

Em tempos de inclusão escolar, vale lembrar experiências de países onde o processo foi bem-sucedido: a verdadeira inclusão ocorre primeiro no meio social e na família, seguido da escola. A atenção a todas as crianças é crucial para o desenvolvimento de uma geração capaz de vencer os desafios futuros.

Foi o estudo do neurodesenvolvimento e da aprendizagem das crianças que na década de 70 acabou por gerar um campo novo de especialidade, com as pesquisas sobre dificuldades de aprendizagem. Antes disso, pouco se sabia sobre a importância crucial da estimulação infantil nos seus primeiros anos de vida, para diminuir ou até evitar futuros problemas de aprendizagem escolar. Acreditava-se que bastava alimentar e cuidar bem do bebê, e que tudo que dizia respeito ao desenvolvimento dependia da inteligência que cada um trazia consigo ao nascer. Hoje sabe-se que a inteligência mostra de onde a criança parte, mas não aonde pode chegar.

Está cientificamente provado que a construção da inteligência é resultado da interação dos aspectos biológicos herdados dos pais com a experiência, a vivência, a estimulação que o meio ambiente pode oferecer e que quanto mais desenvolvida for essa relação melhor será a aprendizagem da criança no futuro. Em outras palavras, a inteligência é construída pela riqueza de estímulos que a criança recebe no dia a dia, pela afetividade, atenção, interação e envolvimento de seus pais, assim como pelo seu tempo organizado com atividades adequadas qualitativa e quantitativamente à idade, por normas de comportamento claramente estabelecidas, por rotinas e limites que desenvolvem as noções de hierarquia e lhe dão segurança e autoestima.

Tal estimulação não é importante apenas para crianças que nascem com problemas de saúde: todas podem e devem viver em um ambiente repleto de atividades, experiências diversificadas, de situações ricas de afetividade conjugada a brincadeiras nas quais os sentidos, a motricidade, a atenção, a memória e, um pouco mais tarde, o raciocínio sejam exigidos.

Isso não quer dizer que as crianças devam ser exaustivamente estimuladas o tempo todo e nem com tarefas próprias para crianças acima de sua idade cronológica e nem que seja preciso gastar uma fortuna com brinquedos e jogos. Nada disso!

Outra forma de estimular a cognição e o desenvolvimento sócio afetivo é dar oportunidades de brincadeiras ao ar livre e a inserção em diferentes grupos de atividades. Aulas de esportes, música, língua estrangeira não servem apenas para desenvolver o tônus, o equilíbrio e a coordenação, nem tornar a criança sensível ao ritmo, à cultura, mas dão harmonia ao crescimento globais, mediante a formação de vínculos afetivos em grupos diferentes do familiar e do escolar, em que trocas com crianças de mesma faixa de desenvolvimento e interesse oferecem oportunidades de interação, de conhecer a realidade de diversas crianças e suas famílias, enriquecendo o aspecto social, a afetividade e a cognição.

Todas as crianças só têm a ganhar com essas trocas de experiência, que além de tudo desenvolvem a verdadeira inclusão, que é a social: conhecer, aceitar e conviver com o diferente não pode se restringir aos muros da escola! Além disso, há atividades que as crianças adoram praticar em grupo e que podem ser realizadas com amigos da rua, do prédio: criar canções, histórias, pintar, fazer modelagem, recorte, carimbos, fantasias de papel, plantar sementes, cuidar do animal de estimação, fazer bolinhas de sabão, entre muitas outras atividades, podem entreter ensinando, usando a imaginação, desenvolvendo a atenção, a memória, a capacidade de observar, classificar, etc.

E as telinhas? Elas são ótimas também, mas devem ser restritas a períodos curtos, já que, apesar de tão estimulantes, não permitem as trocas presenciais, que são comprovadamente mais adequadas ao neurodesenvolvimento das crianças.

Mas, é claro, nada disso dispensa a presença de um adulto aguçando a curiosidade infantil, estimulando o desenvolvimento das habilidades cognitivas, treinando capacidade motora e favorecendo o equilíbrio socioemocional das crianças.