OUTROS OLHARES

O PERIGO DOS ‘DEEP FAKES’

Ferramenta tecnológica que permite a criação de vídeos extremamente realistas, colocando pessoas em situações constrangedoras e inusitadas, pode servir perigosamente para a desinformação política, em meio às novas campanhas eleitorais. Plataformas digitais se preparam para evitar problemas

Em 2018, o cinesta Jordan Peele publicou um vídeo em que o ex-presidente dos EUA Barack Obama diz que Donald Trump “é um imbecil”, entre outras barbaridades em um pronunciamento, que encerra com a frase “se liguem vadias”. Obama nunca disse isso, mas o vídeo utiliza uma tecnologia que permite que uma outra pessoa fazendo um discurso, no caso o próprio Peele, pode se apropriar da imagem e da voz de Obama para ludibriar as audiências.

A campanha da época alertava para os perigosos “deep fakes”, como são chamados esses vídeos, algo que começou a ser difundido no site Reddit em 2017, em que um usuário utilizava a mesma técnica para imprimir a face de atrizes famosas como Gal Gadot e Emma Watson em filmes pornográficos. A técnica consiste em combinar um extenso banco de dados e ferramentas para unir o rosto e voz de pessoas a vídeos já existentes, de forma que um conteúdo extremamente realista seja produzido. O potencial da ferramenta vai além de situações inusitadas, é claro.

Há o temor de que os deep fakes sejam utilizados para encenar declarações absurdas de políticos e influenciar em processos eleitorais. Já se preparando para isso, o Facebook anunciou em janeiro deste ano, provavelmente de olho nas eleições presidenciais dos EUA, que estará na lista de conteúdos banidos da plataforma, junto com nudez e discurso de ódio. A estratégia não é das mais eficientes, afinal, filmes hollywoodianos usam a técnica para rejuvenescer o rosto de alguns atores, como foi visto recentemente em O Irlandês ou em Projeto Gemini. Há também os chamados “shallow fakes”, que utilizam de uma técnica bem mais simples ou analógica: cortar vídeos de forma que as declarações fiquem fora de contexto.

“Transpõe uma fronteira. Em pouco tempo teremos vídeos e áudios que a própria pessoa supostamente flagrada não terá como provar que não fez aquilo”, supõe Eugenio Bucci, professor da Escola de Comunicações e Artes da USP. Ele explica que a nossa sociedade convencionou que documentos como fotos e vídeos são confiáveis, mas que o deep fake pode colocar isso à prova.

MAIS REAIS QUE A VERDADE

Bucci afirma que algumas farsas óbvias como as mamadeiras eróticas nas escolas públicas ou o suposto apoio do papa Francisco a Donald Trump em 2016 são facilmente desmontadas, enquanto um vídeo é mais complicado. Quem aparece nele terá que provar que não estava no local que foi filmado, quase como um álibi muito mais complexo. Hoje, produzir deep fakes exige uma placa de processamento robusta para que os vídeos sejam processados de forma realista. Há o aplicativo chinês Zao, que oferece a tecnologia com muitas limitações e apenas para fotos tiradas do próprio usuário em cenários pré-renderizados, mas não deve demorar muito para que qualquer um consiga produzir vídeos fiéis com seu próprio celular. Hao Li, um dos pioneiros dos deep fakes, estimou em setembro do ano passado que vídeos “perfeitamente reais” seriam possíveis em pouco mais de seis meses.

Bruno Sartori, videomaker que trabalha com a tecnologia para fazer paródias, afirma que ainda existem algumas artimanhas para identificar um deep fake. “Como se troca só o rosto geralmente ele fica um pouco mais embaçado que o resto da imagem, ou um olhar avoado para uma direção estranha”, explica. Em seus vídeos, ele sempre os sinaliza com uma hashtag para que não haja o risco de serem confundidos com algo real. Mesmo assim, ele concorda com os outros especialistas: “todo mês se perde algo que identificaria um vídeo falso”. Se nem eles conseguirem diferenciar os vídeos verdadeiros dos manipulados, quem dirá os que recebem um vídeo bombástico pelo WhatsApp.

POLÍTICOS E MENTIRAS

Bruno Sartori é videomaker e trabalha com a tecnologia dos deep fakes, mas apenas para paródias e vídeos de humor. Alguns de seus mais famosos, por exemplo, são absurdos como Jair Bolsonaro cantando a música “O pintinho piu” ou Lula cantando “Obssessed”, de Mariah Carey. Ele afirma já ter sido procurado por representantes de partidos políticos para desmoralizar algumas figuras, mas que os pedidos foram tão descarados que ele suspeita serem estratégias para sabotar o partido alegadamente representado.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 01 DE MARÇO

O HOMEM, ESSE DESCONHECIDO

Que é o homem, que dele te lembres?… (Salmo 8.4a).

Alexis Carrel escreveu um livro intitulado O homem, esse desconhecido. O homem conhece o mundo ao seu redor, mas não conhece a si mesmo. Explora o espaço sideral, mas não viaja pelos labirintos da própria alma. Investiga os segredos da ciência, mas não ausculta o próprio coração. A pergunta do salmista ainda ecoa nos nossos ouvidos: Que é o homem? O rei Davi, respondeu a essa pergunta de forma magistral: Fizeste-o… por um pouco, menor do que Deus e de glória e de honra o coroaste. Deste-lhe domínio sobre as obras da tua mão e sob seus pés tudo lhe puseste (Salmo 8.5,6). O homem foi criado por Deus para ser o gestor da criação. A origem do homem está ancorada em Deus e seu propósito é ser corregente de Deus, como mordomo da criação. O homem não veio à existência por geração espontânea nem por um processo evolutivo de milhões e milhões de anos. Nossa origem não está ligada aos símios; nossa gênese está ligada a Deus. O homem é a coroa da criação de Deus. Somos seres físicos e espirituais. Temos corpo e alma. Nenhum outro ser possui essas características. Os anjos são espíritos, mas não têm corpo. Os animais têm corpo, mas não espírito. Temos corpo e espírito. Somos a imagem de Deus criada.

GESTÃO E CARREIRA

OS DESCONFORTOS DA LIDERANÇA FEMININA

­Um estudo abrangente e bastante detalhado, feito pela consultoria Kantar, mostra que só 41% dos brasileiros se sentem confortáveis com uma mulher como líder de uma grande empresa. Conduzido em 11 países, o resultado coloca o Brasil na posição intermediária do grupo liderado pelo Canadá (os mais confortáveis, 62%) e fechado pela Rússia (11%).

Antes mesmo de tentar entender esses números, é possível dizer que a conclusão mais importante do estudo é outra. Ao perguntar onde a liderança de uma mulher é mais bem aceita para quem está confortável com a ideia, a resposta aponta para setores tradicionalmente “femininos” como educação, moda, beleza, saúde e bem-estar. Já o mundo das máquinas, da tecnologia, dos bancos (e do poder) parece mais adequado, diz o estudo, aos homens. Em resumo: uma mulher pode até liderar, desde que continue no seu quadrado.

O NOME DISSO É ESTEREÓTIPO.

Escancarar estereótipos, aliás, não é algo exclusivo desse estudo. Na verdade, eles vêm à tona em dezenas de análises sobre mulheres na liderança, o que é excelente — porque permite que sejam identificados e, com boa vontade, combatidos. O problema é quando os estereótipos acabam (perigosamente) escondidos debaixo de dados celebrados como conquistas, porque podem sobreviver.

Para focar em um único exemplo, repetido como uma dessas conquistas: hoje, no Brasil, já há mais mulheres em cursos universitários que homens. É verdade. Mas, vamos aos dados, as mulheres ultrapassaram os homens frequentando cursos que abastecem carreiras “femininas” — de novo, educação, moda, beleza, saúde e bem-estar. Já carreiras mais bem pagas e prestigiadas, onde o futuro do trabalho está sendo desenhado com a formação em Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática (a famosa sigla STEM, em inglês), continuam sendo territórios predominantemente masculinos. E de onde surgem a maior parte dos líderes.

Uma das maneiras de ter mais mulheres em posições de liderança e nesses centros de decisão é, portanto, desmontar o estereótipo que diz que certas carreiras e ocupações não são para elas (já desmontamos, nos últimos séculos, o que dizia que a universidade não era para elas…). Políticas afirmativas e planos de ação, sejam públicos ou privados, podem criar mais portas de entrada para mulheres nos ambientes em que se formam e/ou atuam as lideranças. E cotas não são uma má ideia para acelerar toda essa mudança (mas vamos falar desse tema polêmico em outra oportunidade, certo?).

Só não podemos cair na armadilha de confundir participação com liderança. É importante ver as mulheres avançando na igualdade de direito e oportunidades, mas essa igualdade será real quando, em vez de apenas participar, pudermos liderar a tomada de decisões, em especial as que nos afetam. É para isso que precisamos de mais mulheres preparadas para a liderança. Porque estamos falando por metade da população do planeta – que, sempre bom lembrar, é mãe da outra metade.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O LADO NEGRO DO AMOR

Traços de personalidade influenciam as escolhas do parceiro e os ideais românticos

Segundo pesquisadores europeus, o amor tem um lado negro, que está associado a determinados traços de personalidade. Para aqueles que apresentam o traço chamado de maquiavelismo, o uso instrumental do parceiro prepondera sobre os sentimentos verdadeiros, desejo de ter intimidade e confiança. Para essas  pessoas, a percepção do quanto podem obter ganhos em posição social, poder, prestígio e dinheiro é mais importante, e estes se tornam os alvos esperados de seus ideais românticos.

O maquiavelismo é um dos três elementos da chamada “dark triad”, ou tríade negra, composta dos traços de narcisismo, psicopatia e maquiavelismo. São as características mais sombrias da natureza humana e causam uma variedade de problemas nas relações e na sociedade, estando frequentemente associadas. O maquiavelismo é um traço de personalidade caracterizado por   atitude manipulativa e exploradora frente aos outros, falta de empatia e uma visão cínica da  natureza humana. A personalidade maquiavélica é marcada pela insensibilidade, frieza,   dominância, e seus interesses são sempre voltados para si mesmo e seus projetos. Uma combinação de atributos que inclui uma busca constante por poder e dominância social, uso  utilitário das pessoas e dissimulação, imprimindo um comportamento pragmático nas relações humanas e também no amor.

Vários estudos já haviam conectado o maquiavelismo com o estilo amoroso denominado amor “pragma”, que envolve baixos níveis de intimidade e comprometimento na relação, baixa  inteligência emocional, baixos níveis de empatia, desconfiança quanto ao parceiro, estratégias  relacionais destrutivas, estilo de apego ligado a desprezo e intimidação. A sexualidade abrange uma variedade de atitudes promíscuas e hostis, incluindo fingir amor para manipular, divulgar  segredos sexuais para terceiras partes, entre outros comportamentos.

Ideais românticos são construtos conceituais e imaginativos que determinam precisamente as  características ótimas de um parceiro, e as expectativas frente ao self, ao parceiro e à relação.  Várias pesquisas mostraram que a percepção do self em certo atributo tende a ser acompanhada da concepção do parceiro ideal, ou seja, quanto mais uma pessoa se avalia tendo certo atributo,  maior serão suas expectativas perante o parceiro na mesma dimensão. Portanto, os ideais  românticos servem como pontos de ancoragem ou padrões que governam a escolha de parceiro e  a avaliação da relação. Durante o relacionamento, são feitas comparações contínuas entre os  traços percebidos do parceiro e a imagem ideal armazenada na memória.

No entanto, pessoas maquiavélicas podem exibir escolha de parceiros com traços  complementares, como, por exemplo, uma mulher dominante que demanda atenção busca relação com um parceiro submisso e permissivo que ela pode manipular e explorar. Maquiavelismo leva a usar os parceiros como meios para atingir seus objetivos, movidos por foco em seus interesses próprios, mais do que por formar relações emocionalmente significativas.

Em um artigo publicado no europe’s journal of psychology, os autores conduziram a primeira   investigação que se voltou para a relação direta entre maquiavelismo e os ideais românticos. Os resultados mostraram que existe uma correlação negativa entre as características do parceiro ideal  de calor humano e confiança, e forte correlação positiva entre status social, recursos e poder.  Personalidades maquiavélicas não se sentem atraídas por lealdade e calor humano. Os dados mostraram que essas personalidades têm como meta principal achar um parceiro que possua uma grande soma de recursos financeiros e outros recursos materiais e um status proeminente na hierarquia social. Devido a sua atitude pragmática, elas avaliam os outros em termos de utilidade para seu progresso individual na carreira ou planos de vida.

Embora o padrão geral de parceiro ideal valorize inteligência, criatividade, imaginação,   curiosidade e orientação emocional positiva, personalidades maquiavélicas não acham essas caraterísticas atraentes. Pelo contrário, sua preferência é por parceiros mais submissos,   dependentes e adaptáveis que podem ser mais facilmente influenciados e mais previsíveis. Assim, podem obter aquilo que mais procuram em uma relação, o controle total.

O papel da atratividade no maquiavelismo é diferente do usual, pois essas personalidades não esperam que seus parceiros sejam atraentes, mas sim que eles mesmos sejam fisicamente  atraentes e causem uma impressão favorável. Ter uma apresentação de si mesmo atraente é mais importante do que a estética do parceiro, como um meio de subir no ranking social e de obter mais, em uma sociedade cada vez mais narcisista. Nossa sociedade está estruturada de forma que  essas personalidades frequentemente têm “sucesso” na vida, pelo  menos nos seus objetivos, embora as pesquisas mostrem baixos níveis de bem-estar subjetivo, tanto para si e para seus parceiros.

MARCO CALLEGARO – é psicólogo, mestre em Neurociências e Comportamento, diretor do Instituto Catarinense de Terapia Cognitiva (ICTC) e do Instituto Paranaense de Terapia Cognitiva (IPTC). Autor do livro premiado O Novo Inconsciente: Como a Terapia Cognitiva e as Neurociências Revolucionaram o Modelo do Processamento Mental (Artmed, 2011).