OUTROS OLHARES

DIVÃ ON-LINE

Com a ajuda da tecnologia, terapeutas continuam atendendo pacientes – todos de alguma forma afetados pelos novos tempos de pandemia e isolamento.

Há aqueles que, com um longo histórico depressivo, não enxergam mais motivos para sair da cama ou tomar banho porque estão adiando que o mundo vai acabar. Há os ansiosos, prevendo transtornos como um improvável desabastecimento. Há os que estão aflitos porque, sem conseguir trabalhar, não sabem até quando terão dinheiro para pagar as despesas da casa. Há também alcoólatras enxugando garrafas após meses, anos, mantendo uma distância segura. Mas existe, por outro lado, um universo de pacientes enxergando aspectos positivos em meio à tragédia, encarando a situação de quarentena como uma chance de reduzir o ritmo acelerado da “vida normal” e se conectar com a família – o que é bom, mas também pode gerar ansiedade.

Assim como dentro de cada domicílio, no ponto cheio de taxistas sem serviço ou nas redes sociais, os assuntos dominantes nas sessões de análise, neste momento, são a disseminação da Covid-19 e os impactos causados no cotidiano das pessoas pelo isolamento domiciliar imposto como forma de frear essa ameaça. Nos últimos dias, procuramos terapeutas que atendem públicos distintos, para saber como a epidemia causada pelo novo coronavírus está se manifestando durante as consultas. Todos os profissionais com quem conversamos estão atendendo em suas casas, via Face Time, WhatsApp, Skype ou mesmo por telefone. Foi o método que encontraram para não deixar seus pacientes sem assistência. Até porque boa parte deles não tem estrutura emocional para lidar com este momento sem apoio qualificado. Em uma carta enviada aos membros da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), o presidente da entidade, Antônio Geraldo da Silva, recomenda “a ampla e abrangente utilização da telemedicina por seus associados”, com foco na proteção da saúde e da vida do paciente, “e considerando o inegável estado de urgência e emergência da saúde pública”. Segundo o documento, o atendimento presencial deve ocorrer apenas em casos indicados, para proteção da vida do paciente, a critério do médico.

Da mesma forma, todas as entrevistas para esta reportagem foram feitas por Face Time ou telefone. Recolhido em seu sítio na Serra da Mantiqueira, em São Paulo, o psiquiatra e psicanalista Jorge Forbes vem dando assistência a seus pacientes à distância, observando a forma como eles reagem aos efeitos da epidemia do novo coronavírus. Durante a conversa, ele usou o texto “Além do princípio do prazer”, escrito por Sigmund Freud em 1920, para contextualizar. Freud analisa as diferentes reações humanas diante do perigo: a angústia, o medo, o terror. Numa situação de angústia, o objeto que provoca o sentimento não é algo definido, está difuso. A pessoa sofre procurando a fonte de sua angústia. Um indivíduo com medo, por sua vez, conhece a causa da sensação e, normalmente, sabe o que fazer para se defender. Medo de um assalto, por exemplo. A pior das três reações é o terror, que existe quando o paciente tem uma ideia do objeto causador, mas não tem acesso a ele e não sabe como se proteger. “O avanço do coronavírus gera esse terror na sociedade. A epidemia desloca nossos eixos de conforto, altera a maneira como a gente se vê”, disse Forbes, que dirige a clínica de psicanálise do Centro de Estudos do Genoma Humano, na Universidade de São Paulo (USP). “O terror funciona como guerrilha, a pessoa fica 24 horas por dia sob efeito daquele sentimento. Não é racional. O terror gera estresse constante, você fica exaurido”, completou.

Os efeitos psicológicos do novo coronavírus e do isolamento domiciliar tomaram conta das consultas da psiquiatra Fernanda Gueiros. Alguns de seus pacientes, que já tentavam superar uma depressão, estão vivendo uma conjuntura que eles encaram como confirmação de seu pensamento catastrófico. Uma pessoa, com dificuldade até para sair da cama, chegou a dizer algo como “para que me alimentar ou tomar banho se o mundo vai acabar?”. “Pessoas com depressão muitas vezes olham para o mundo com uma lente pessimista. Quando a sociedade também está vivendo uma tragédia, o impacto nelas é pior do que nas outras pessoas”, disse. Outro grupo preocupante são os ansiosos.

Entre eles estão aqueles que vão aos supermercados para estocar alimentos e produtos higiênicos. Esvaziam prateleiras sem se importar com a chance de contribuírem para um caos social. Terapeutas relatam casos de pacientes que pagaram caro para fazer o escasso teste do novo coronavírus sem sequer apresentar sintomas da doença. Um ansioso, preocupado com a duração da quarentena, ficou frustrado quando a médica negou seu pedido para fazer-lhe uma receita de remédios garantindo cobertura de seis meses. Entre os integrantes desse grupo há aqueles mais graves, que desenvolveram Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC). Mesmo antes de surgir a epidemia na China, já temiam contaminações e lavavam as mãos dezenas de vezes ao dia.

Além da tensão gerada pela Covid-19 e pelo temido colapso do sistema de saúde, o isolamento domiciliar causa mudanças bruscas no cotidiano, gerando impacto psicológico. Ouvimos profissionais de dois serviços públicos de saúde mental na Zona Norte do Rio de Janeiro. Segundo eles, o assunto tomou conta das sessões de terapia, que, salvo exceções para casos muito graves, têm sido conduzidas pelo telefone. Os pacientes, de maneira geral, respeitam o recolhimento, mas estão angustiados com contas a pagar, uma vez que grande parte deles atua no mercado informal e vai ficar sem receita enquanto não puder voltar ao trabalho. Também estão tensos com a possibilidade de não encontrar assistência nos hospitais públicos se apresentarem sintomas graves causados pelo novo coronavírus. Muitos recorrem ao profissional de saúde mental que os atende para obter informações básicas sobre a doença e formas de prevenção. As rusgas entre parentes surgidas após vários dias de isolamento domiciliar também já estão presentes nas sessões de análise. Famílias com um jovem em casa, por exemplo, experimentam sérios atritos quando ele resolve que vai dormir na casa da(o) namorada(o) e voltar no dia seguinte. Até porque, em alguns casos, há idosos morando na mesma residência. As brigas entre os casais são um capítulo à parte. Com um histórico de alcoolismo, uma mulher havia praticamente zerado o consumo de bebida, mas, agora, o hábito voltou com força, resgatado pela ansiedade do confinamento. Sua companheira não tem gostado da novidade. Ambas têm vida social muito intensa e estão custando a se adaptar à medida defendida pelos especialistas como essencial para “achatar a curva” de contágio da Covid-19 no país.

A vida privada durante a quarentena vem motivando uma série de memes nas redes sociais, que fazem piada desconfiando da duração de casamentos, por exemplo. As brincadeiras têm um fundo de verdade. As partes envolvidas numa relação a dois, por exemplo, não estão habituadas a passar tantos dias trancadas em casa sem contato com pessoas de fora. A psicanalista Regina Navarro Lins, autora de diversos livros sobre relacionamento amoroso e sexual, diz que vivemos algo sem precedentes e que só saberemos os efeitos disso nos casamentos após pelo menos algumas semanas de recolhimento. Ela teme, por exemplo, o aumento de casos de violência doméstica.

Os terapeutas ouvidos nesta reportagem já reúnem bons relatos de pacientes que, sem deixar de reconhecer a tragédia humana da epidemia, estão vivendo o lado bom do recolhimento residencial. Um economista que sofre da síndrome de Burnout, por trabalhar 14 horas por dia sem conseguir se desligar do ofício, passou a dar mais atenção à família. Está descobrindo o prazer de brincar com o filho. Um empresário teve de aprender a limpar a piscina de sua casa. Algumas pessoas estão, de fato, revendo sua vida “pré-quarentena”, refletindo sobre a necessidade de se doar tanto ao batente.

Além disso, parte das consultas “sequestradas” pelo novo coronavírus deixa transparecer

pessoas absolutamente motivadas para lidar com o perigo que avança sobre o país. De acordo com os terapeutas, há pacientes tão engajados com as tarefas de mobilização solidária que já não conseguem nem mais falar de suas questões. Nesse grupo, há desde médicos na linha de frente do combate à Covid-19 até pessoas de áreas de atuação mais distintas, mas que acharam um propósito nessa luta, seja viabilizando uma campanha de crowdfunding para arrecadar alimentos para os mais atingidos pela epidemia, seja fazendo compras para os idosos da vizinhança.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 31 DE MARÇO

PRESENTE DOLOROSO, FUTURO GLORIOSO

Porque para mim tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós (Romanos 8.18).

Paulo diz que a caminhada do cristão neste mundo é uma marcha por estradas crivadas de espinhos. O caminho rumo à glória é estreito, e a porta é apertada. Temos um presente doloroso, porém um futuro glorioso. Paulo escreve: Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação (2 Coríntios 4.17).

Aqui pisamos estradas juncadas de espinhos, cruzamos vales escuros e atravessamos desertos tórridos. Aqui nossos olhos ficam empapuçados de lágrimas e nosso corpo geme sob o látego da dor. Aqui enfrentamos ondas encapeladas, rios caudalosos e fornalhas ardentes. Aqui sofremos, choramos e sangramos. Porém, em comparação com a glória a ser revelada em nós, nossas tribulações são leves e passageiras. O presente é doloroso, mas o futuro é glorioso. Nosso destino final não é um corpo caquético, mas um corpo de glória. Nossa jornada não termina num túmulo gélido, mas na Jerusalém celeste. Nosso fim não é a morte, mas a vida eterna. Nosso futuro de glória deve encorajar-nos a enfrentar com alegria a presente tribulação. O que seremos deve encher-nos de esperança para arrostar as limitações de quem somos. Vivemos na dimensão da eternidade!

GESTÃO E CARREIRA

A ECONOMIA DA SOLIDARIEDADE

Em meio à retração provocada pela pandemia de Covid-19, surge uma corrente do bem liderada por empresas conscientes de sua responsabilidade social. Ela envolve desde doações até a criação de fundos emergenciais para socorrer setores afetados pela paralisia nos negócios. Superar a maior crise global desde a Segunda Guerra exige empatia — e isso pode originar um novo capitalismo, mais consciente.

Os casos começaram a ser divulgados pelas redes sociais, em grupos de amigos no WhatsApp. Aos poucos, ganharam escala na mídia de todo o planeta. Eram as notícias que todos queriam receber, contrastando com os informes já corriqueiros de colapso nas bolsas, ameaça de recessão global, risco de desemprego em massa e a avalanche de cartas de entidades setoriais alarmadas com o futuro do negócio que representam. Com as pessoas em casa, o que passou a circular não eram apenas novas estatísticas de mortes (infelizmente, elas também continuam avançando em todo o planeta) ou críticas às decisões atabalhoadas das autoridades despreparadas. Não. Agora o contágio se dava de outra forma. E era pelo bem comum.

Depois de anunciar procedimentos para frear a propagação do coronavírus entre colaboradores e de notificar a interrupção ou manutenção de suas atividades, empresas de todos os tamanhos começaram a divulgar sua pauta de generosidade. Fosse em dinheiro ou em produtos essenciais para lidar com a pandemia, a lista de doações chegou a centenas. O álcool gel, cujo preço havia disparado de forma exponencial antes de sumir das prateleiras, entrou no radar de grupos como Ambev e O Boticário. Fábricas foram adaptadas para produzir o desinfetante que seria então doado aos serviços de saúde. A cervejaria não informou o valor investido para produzir 500 mil garrafas PET de álcool que começaram a ser entregues às Secretarias de Saúde de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, onde há maior concentração de casos. O rumor de que frascos chegariam gratuitamente para a população em geral ganhou força antes de ser confirmado como fake news. A irresponsabilidade de alguns disseminadores de boatos não maculou as boas ações de parte do empresariado. “Nossa essência é ser agente de transformação em tudo o que fazemos. Se salvarmos uma vida, salvamos a humanidade”, afirmou o fundador e presidente do Conselho de Administração do Grupo Boticário, Miguel Krigsner, ao anunciar a doação de 1,7 tonelada de álcool gel para a secretaria municipal de Saúde de Curitiba.

Na quarta-feira 25, os três maiores bancos privados do Brasil (Bradesco, Itaú e Santander) anunciaram uma inédita união de esforços para importar 5 milhões de testes rápidos de detecção da Covid-19, além de equipamentos, como tomógrafos e respiradores. “Este é um momento difícil e desafiador, de escolhas complexas”, disse Octavio de Lazari, presidente do Bradesco. “Juntos somos mais fortes do que qualquer crise, seja a da pandemia ou a dos efeitos econômicos dela resultantes”, afirmou. Para Candido Bracher, presidente do Itaú, a gravidade da crise demanda que não apenas o governo, mas também a sociedade civil atue de forma rápida e efetiva. “Proteger e apoiar as pessoas, principalmente as mais vulneráveis, é a prioridade de todos nós neste momento tão delicado”.

A importância de somar esforços também foi destacada por Sergio Rial, presidente do Santander: “Um apoio em larga escala ao trabalho de nossos profissionais de saúde e aos pacientes vai muito além de tudo o que podemos fazer individualmente, e se soma às iniciativas setoriais que visam a manter o fôlego financeiro de negócios e pessoas durante este período mais crítico de combate à pandemia”.

O mesmo espírito de união empresarial foi decisivo para que a prefeitura de São Paulo pudesse viabilizar em tempo recorde o Centro de Tratamento Covid-19, com um total previsto de 100 leitos (40 deles na primeira quinzena de abril), no Hospital M’Boi Mirim, que funciona sob gestão do Hospital Israelita Albert Einstein. A obra conta com investimentos dos grupos Ambev e Gerdau, e o atendimento será exclusivamente pelo Sistema Único de Saúde. “É importante que cada um faça a sua parte e nós da Gerdau seguimos firmes cumprindo nosso compromisso com o Brasil. Decidimos participar dessa brilhante iniciativa, pois o momento pede colaboração”, afirmou Gustavo Werneck, CEO da Gerdau.

A família Menin, controladora da construtora MRV, do banco Inter e da Log CP, destinou R$ 10 milhões para que o governo de Minas Gerais pudesse adquirir novos respiradores artificiais. Em São Paulo, a distribuidora de energia EDP, de origem portuguesa, disponibilizou R$ 6 milhões para a organização social Comunitas, encarregada de adquirir respiradores para UTIs de hospitais públicos do estado. Junto com a EDP, um total de 150 empresas levantou em poucos dias R$ 23,4 milhões para a compra de 345 aparelhos essenciais para reduzir os gargalos do atendimento na rede pública da saúde.

A Marfrig Global Foods confirmou o repasse de R$ 7,5 milhões para que o Ministério da Saúde pudesse comprar 100 mil kits de teste do coronavírus. “Este é um momento de união e de solidariedade”, afirmou o empresário Marcos Molina, fundador e presidente do Conselho de Administração da Marfrig, líder mundial na produção de hambúrgueres, ao confirmar sua doação ao Ministério da Saúde, na segunda-feira 23. A decisão foi tomada na véspera, quando o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, informou que o governo buscava parcerias com a iniciativa privada para financiar parte da compra dos kits. “Esperamos que nossa iniciativa seja seguida por outras companhias brasileiras”, disse Molina.

A Natura, que também controla a Avon, doou 2,8 milhões de sabonetes para comunidades carentes nas cidades do entorno de suas operações em São Paulo, Pará e Bahia, além de outros países da América Latina. A doação inicial da fabricante de detergentes Ypê foi de 21 toneladas de sabão em barra para moradores da favela de Paraisópolis, em São Paulo. Segundo a empresa, outras 25 toneladas seguiriam para o Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. A rede de fast-food Subway entregou milhares de sanduíches gratuitamente para profissionais de saúde. Na Europa, grandes confecções adaptaram linhas de corte e costura para produzir máscaras e uniformes destinados a médicos e enfermeiros. A espanhola Zara prometeu 300 mil máscaras de proteção. A italiana Prada, 110 mil. Repartir o bolo em um momento como esse é o que se espera de companhias que faturam bilhões ­— e entendem qual é sua responsabilidade social. Em meio a tantas notícias desoladoras, palavras como solidariedade e cooperação passaram a dar o tom de muitas lideranças empresariais.

“A gravidade do momento que vivemos exige da iniciativa privada uma postura de cooperação com os esforços governamentais e sociais no combate ao novo coronavírus”, afirmou Miguel Setas, presidente da EDP no Brasil. A empresa já havia doado 50 respiradores e 200 monitores a hospitais portugueses em conjunto com a China Three Gorges, maior geradora de energia hidrelétrica do mundo.

Nem só os grandes decidiram agir. “Acreditamos que o senso de coletivo é fundamental e, por isso, vamos converter nossa estrutura para fornecer materiais aos hospitais, a fim de minimizarmos os impactos na saúde”, afirmou Julio Samorano, diretor e sócio da paranaense Century Estofados ao anunciar que iria interromper sua produção habitual para confeccionar toucas, aventais e lençóis voltados para abastecer gratuitamente os hospitais públicos e universitários da região de Maringá (PR).

Cada uma das ações descritas até aqui merece aplausos, mas elas não bastam. Apenas aliviam as primeiras dores da pandemia. Ainda que as emergências médicas estejam longe de uma trégua, a catástrofe do coronavírus não está restrita ao âmbito hospitalar. Enquanto o vírus se alastra, a única proteção eficaz para detê-lo é a quarentena. Com ela, espalha-se outra chaga: a estagnação econômica. Com um terço da população global confinada, o que todos passaram a necessitar é algo que vai além dos primeiros socorros. Uma calamidade que afeta o mundo de tantas formas só pode ser superada com a criação de projetos de futuro. Isso vale para pessoas, empresas e setores inteiros da economia que foram gravemente feridos e cujas cicatrizes permanecerão abertas por muito tempo. Sobreviver nessas circunstâncias depende de valores que não sejam apenas econômicos. Exige valores humanos.

FOCO NA COMUNIDADE

Quem costuma tomar a dianteira nesses momentos é o terceiro setor — que depende do apoio de empresas para fazer a roda das boas ações girar. Liderado por Edu Lyra, o Instituto Gerando Falcões, ONG voltada para a capacitação de jovens, montou um fundo de R$ 5 milhões para levar cestas básicas a cerca de 60 mil moradores de 52 favelas e comunidades pobres da periferia paulistana e em outras cidades, de São José do Rio Preto (SP) a Maceió. Entre os doadores estão os empresários Jorge Paulo Lemann, Abílio Diniz, David Feffer e Pedro Bueno. “Vamos superar este momento e cuidar das famílias de extrema baixa renda”, afirmou Lyra.

Em horas assim, dar o peixe acaba sendo mais prático e eficaz do que ensinar a pescar. No longo prazo, o apoio a iniciativas que envolvam a sustentabilidade de pequenos negócios em regiões periféricas é bem mais estratégico. E foi exatamente esse o investimento feito pela Fundação Casas Bahia, gerida pela Via Varejo. “Temos como foco atuar sempre com as comunidades e mulheres empreendedoras. Mais ainda num momento como esse pelo qual estamos passando”, disse Hélio Muniz, responsável pela fundação, ao anunciar que microempreendedoras de áreas menos favorecidas da Grande São Paulo e na Grande Rio de Janeiro poderão contar com um Fundo de Doação de R$ 1 milhão criado pela entidade. A expectativa é beneficiar até 1,2 mil empresárias, que serão selecionadas por uma consultoria especializada. “É o momento de somarmos esforços junto às autoridades, associações e grandes empresas para apoiar as pessoas menos favorecidas, que tendem a ser economicamente impactadas pela crise atual”, afirmou.

A quarentena tem sido letal para o setor de alimentação fora de casa. Com o fechamento temporário de bares, restaurantes e lanchonetes, especialmente os que operam dentro de shopping centers, veio a ameaça de uma quebradeira sem precedentes em toda a cadeia de refeições. Na tentativa de evitar o pior cenário, a empresa de delivery iFood está colocando na rua uma série de medidas cujo impacto pode preservar milhares de empregos. Em parceria com o Itaú, por meio da processadora de cartões Rede, a empresa vai antecipar os pagamentos aos restaurantes. Também irá lançar um fundo de assistência de R$ 50 milhões aos parceiros e de R$ 1 milhão aos entregadores. O primeiro vai oferecer desconto médio de 20% na comissão paga pelos restaurantes à empresa. “A medida deve dar um respiro a cerca de 130 mil estabelecimentos em 1 mil cidades pelo País”, diz Diego Barreto, vice-presidente de Estratégia do iFood. Segundo ele, as medidas passam a valer a partir do dia 2 de abril e beneficiarão os 150 mil cadastrados na plataforma. “Se houver a ruptura da cadeia, as pessoas vão sair às ruas e estocar comida. Precisamos de medidas efetivas”, afirma. Ao acelerar o repasse dos valores das compras feitas pelo app, a empresa garantirá que os restaurantes beneficiados tenham o dinheiro em caixa sete dias após a venda — e não mais em 30 dias. Com isso, o iFood calcula que serão injetados na economia R$ 1,2 bilhão já no próximo bimestre. O valor arrecadado em taxas do serviço Pra Retirar (quando o cliente faz o pedido via aplicativo e busca diretamente no restaurante) será repassado integralmente aos parceiros. O fundo de R$ 1 milhão, voltado para os 83 mil entregadores que prestam serviço ao iFood pelo Brasil, é uma medida para assegurar renda ao colaborador caso este se afaste das atividades pela Covid-19 ou por suspeita de contágio.

Garantir recursos para que a roda da economia continue girando, principalmente para os pequenos empreendedores, é uma das preocupações da fintech de serviços financeiros Stone, que opera uma rede própria de meios de pagamento eletrônicos. Para dar fôlego a quem usa suas maquininhas e depende do giro diário de vendas para sobreviver, a empresa lançou a campanha Compre Local, Cuide de um Pequeno Negócio. A Stone vai disponibilizar R$ 100 milhões em microcrédito aos associados do setor de varejo nos Estados onde forem determinadas medidas de contenção à pandemia do coronavírus. O incentivo é válido até maio e deve beneficiar parte dos seus 495 mil clientes no País.

Capital de giro “Serão atendidos os donos dos negócios nos segmentos que mais sofreram suspensão das suas atividades por determinação do governo, como alimentação, educação, turismo e lazer”, diz o presidente da Stone, Augusto Lins. Outros R$ 30 milhões serão destinados a ações que visem estimular o comércio. Estão incluídas isenção de mensalidade para todas as máquinas, além de aparelhos adicionais sem custo para operação delivery, redução de taxas de antecipação para impulsionar o capital de giro e ferramentas para vendas on-line. “Sabemos que muitos negócios vão quebrar e que haverá demissões, como estamos acompanhando em algumas regiões do País. Por isso vamos agir rapidamente. Queremos garantir que o maior número de empresas se mantenha saudável e forte durante todo esse período”, afirma Lins.

Ainda que os estragos da Covid-19 sobre a atividade sejam de difícil mensuração, há algumas certezas em meio ao caos. A primeira é que muitos dos combalidos hospitais brasileiros serão reequipados com doações do setor empresarial. Foi assim no passado, quando entidades beneficentes criaram instituições de saúde para atender a comunidades étnicas. Outra certeza é a de que o medo da doença reforçou a empatia. “Tentem se colocar na posição das pessoas que mais precisam”, disse o fundador da XP Inc., Guilherme Benchimol, durante uma live no Instagram para divulgar a iniciativa Juntos Transformamos (leia mais abaixo). “É hora de compaixão, de solidariedade”.

O diretor-geral da Trevisan Escola de Negócios, Fernando Trevisan, acredita que uma crise tão profunda como a do coronavírus pode ser um divisor de águas em diversas esferas, inclusive na atuação social das empresas. Para ele, o maior ato de responsabilidade social que uma organização privada pode ter neste momento é lutar para continuar existindo. “Passada essa pandemia, é possível que o conceito de responsabilidade social corporativa ganhe força e clareza de que, antes de qualquer coisa, só o fato de uma empresa existir e se sustentar economicamente já significa uma contribuição social altamente relevante para o desenvolvimento do País”, afirma Trevisan. A percepção de que as empresas são a chave para o futuro traz embutida a ideia de que o setor privado pode reorganizar as relações sociais no Brasil e no mundo – o que pode transformar até as bases do capitalismo, criando um sistema pautado não apenas na busca do lucro, mas da igualdade e da justiça social.

Às 11h da quinta-feira 26, o fundador da XP Inc., Guilherme Benchimol, usou a rede social Instagram para anunciar, ao vivo, o lançamento da iniciativa Juntos Transformamos. “Como vocês sabem, o Brasil é um país pobre. Apenas 30% dos brasileiros fizeram poupança em 2019. Temos 40 milhões de autônomos. Quando a economia colapsa, eles não conseguem levar comida para casa. A gente tem a obrigação de mobilizar outros empresários a ajudar quem mais precisa a atravessar esse vale, que deve durar de dois a três meses”, afirmou. “Se não ajudarmos essas pessoas, elas vão morrer de fome”. A iniciativa parte de uma doação de R$ 25 milhões, que deve atingir 100 mil pessoas de comunidades carentes por três meses. Para que o dinheiro chegue a famílias em situação de vulnerabilidade, foram firmadas parcerias com as ONGs Gerando Falcões, Amigos do Bem e Visão Mundial. Segundo o comunicado da XP, o aporte inicial tem como objetivo engajar novos doadores, para que um número ainda maior de famílias seja impactado. “Cada centavo do que arrecadarmos será convertido em assistência para colocar comida na mesa de famílias em situação de vulnerabilidade. Nenhuma família pode ficar sem ter o que comer em casa. Faço um apelo para todos que querem ajudar e não sabem como fazer isso de forma segura e transparente: junte-se a nós”, afirmou Benchimol.

HOSPITAL EM TEMPO RECORDE:

Prefeitura, Ambev, Gerdau e Einstein se uniram para viabilizar o Centro de Tratamento Covid-19, em São Paulo, que terá 100 leitos até o final de abril.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

AMOR E ÓDIO: PAR INSEPARÁVEL

No premiado filme Coringa, riso e choro caminham fisiologicamente pelos mesmos trajetos e mostram que diante de forte estresse é comum que se confunda a expressão de um comportamento

Um filme consagrado pela crítica e pelo público, Coringa (Joker) aborda o prazer e a dor em um limiar tão próximo que o amor e o ódio são par quase inseparável frente aos objetos de investimento. A subjetividade é um emaranhado complexo e nada maniqueísta. Fisiologicamente, riso e choro caminham pelos mesmos trajetos, diante de forte estresse é comum que se confunda a expressão de um comportamento. Não é incomum a troca de expressão diante de algo muito tenso, no caso do personagem principal, ele na verdade padece de uma síndrome neurológica cujo diagnóstico dado pelos especialistas é complexo. O quadro passa desde uma epilepsia gelástica até patologias pseudobulbares ocasionadas por tumores nos lobos frontal ou temporal. Há também os casos conhecidos como pseudobulbares, mas que são mais presentes na população idosa, ligados a uma questão mais senil. Mas essa troca do choro pelo riso ou do riso pelo choro (ou expressão de raiva e descontentamento) não é algo que se possa perceber apenas em quadros mais graves, muitas vezes frente a intensas experiências associadas a uma linha traumática de fixação poderão ser observados padrões mais atenuados disso, como o paciente que, frente ao psicoterapeuta, relata um sofrimento sorrindo ou mesmo emprestando-lhe um ar de coisa engraçada e espanta-se caso seja confrontado com o questionamento de se acha realmente engraçado o que está relatando.

O longa cativou o público e contou com a impressionante marca de 11 indicações para o Oscar, tornando-se assim o filme baseado em quadrinhos com mais nomeações na história da premiação da maior vitrine no mundo cinematográfico. Sem dúvida que o pesado da narrativa mais a densidade que Joaquin Phoenix imprimiu ao personagem constituíram em uma forte mensagem para o público que vive hoje em um mundo bastante Gotham. E o telespectador abraçou essa mensagem com fervor. Alvo das mais variadas críticas e comentários, segue polemizando e ovacionado. Vale ler sobre ele, disponível na web, a resenha do filósofo e psicanalista esloveno Slavoj Zizek.

A imagem de Joaquin Phoenix na pele do Coringa é todo o tempo incômoda, desagradável e angustiante, quase disgusting. O ator perdeu 23 kg para interpretar o personagem, além de compor de forma impactante todos os movimentos e semblantes que o caracterizam. Nota em destaque para a risada que impressionou plateias mundo afora. Contam os noticiários que ele esteve presente em algumas sessões logo no lançamento do filme e que conversou com os espectadores. Alguns pediram-lhe que reproduzisse a risada, o que não pode fazer assim a frio. É preciso estar na pele do personagem para compor daquela forma tão intensa uma presença tão avassaladora que sem dúvida aponta para uma estupefação coletiva frente a um mundo que a cada dia mais se assina em segregação e desalento. Coringa é um pouco esse riso coletivo frente a um social desarticulado e que opera mecanismos cruéis frente às necessidades mais que humanas que vão se transformando aceleradamente em algo da ordem de privilégios. Não é possível compreender o sofrimento na atualidade sem inserir na escuta o coletivo em que essa dor individual nasce e se inscreve. “Eu acho que você nunca realmente me ouviu”, diz Coringa, reafirmando esse mecanismo cruel.

A dor de Arthur Fleck não tem lugar no mundo Gotham, onde o magnata pai de Bruce Wayne, Thomas Wayne, é também candidato a prefeito e diz sobre pessoas como Arthur: “Olharemos para eles como se fossem meros palhaços” e ele pretende que essas pessoas mudem para melhor como ele e todos que são os cidadãos “que fizeram algo de sua vida”. Sabemos o quanto o ideal que alimenta o modelo de identificação tem sempre a ver com símbolos que sustentam justamente as diferenças entre os estratos sociais. O irônico do mundo atual é justamente ver que quase tudo ganha uma imitação de marca, como acontecerá com o personagem do Coringa, que antes de se assumir como tal era apenas o palhaço Carnival. Ódio e revolta latente na desigual cidade de Ghotam explodem a partir de seus assassinatos e falas, o programa de TV que tanto admirava e do qual ansiava participar dá voz ao seu ódio, um basta ao ocupar sempre o lugar de, como ele diz, “lixo da sociedade”. Elevado a modelo é copiado e dá voz a uma rebelião social de gente cansada de ser pária, de não ter perspectivas. E aqui mora o perigo do filme, porque é óbvio que o Coringa é um sujeito em extremo sofrimento, alguém que acusa aquilo que ele mesmo não é mais capaz de fazer, pensar a vida do outro como valiosa, mesmo que esse outro seja tudo aquilo que ele despreza. Tornar criminosa a revolta popular frente à desigualdade e opressão tem sido a estratégia desde sempre para manter o status quo dos Waynes do mundo real. Talvez seja mais prudente manter um olhar crítico em relação à história de um velho vilão das histórias em quadrinhos, história essa composta aos densos anos 40 do século XX, em plena guerra, e depois desenvolvida nos densos anos 50, em tempos de macarthismo e de bigienismo travestido de ciência ao campo da saúde mental, quando os quadrinhos do Batman começaram a ser publicados com maior frequência. Os vilões estavam lá para demonizar o que pregavam, a atualidade tenta resgatar a história do Coringa, um dos vilões mais intrigantes dessa história, mas será que consegue analisar de maneira que possa anular a intenção original de sua existência? Na série que ficou no ar de 1966 a 1968, trazendo Adam West como Batman e Burt Ward como Robin, que acolheu o insólito pedido por parte da produção para que tomasse medicação para encolher sua protuberante genitália, como declarou recentemente à revista Page Six, diria ele: “Santo Batman!”.

O PARADOXO DA PIADA

Fica a dúvida sobre se houve realmente o expediente de tratar sua mãe, Penny Fleck, interpretada pela sempre excelente Frauces Conroy, como louca e isola- la em uma instituição psiquiátrica para que seu suposto caso amoroso com Thomas Wayne não viesse a público, fato que, como sabemos, não foi algo incomum desde a criação dos manicômios, ou se ela havia mesmo desenvolvido alguma espécie de delírio na linha da erotomania. A ficha de sua mãe narra histórias de abuso, negligência e maus-tratos cometidos contra o filho adotivo, Arthur, levando a crer, inclusive, que seu quadro neurológico poderia ser consequência de um traumatismo craniano que sofrera por agressão cometida pelo namorado da mãe. Mas Arthur conclui diante da mãe que sua condição não era uma doença, mas sim que era ele mesmo, alguém feliz, embora em outro momento tenha dito que nunca havia se sentido feliz em toda a sua vida O paradoxo da piada que violenta e faz rir ao mesmo tempo, o humor pesado, que é uma das espécies de humor mais desenvolvida socialmente, há nele sempre um quantum imenso de agressão, há sempre alguém mais frágil a ser atacado, uma vítima para ser ridicularizada. Esse tipo de humor que nossos novos laços civilizatórios andam querendo banir do nosso convívio, a perseguição e reforço de preconceitos que no final acabam fermentando um ódio como o do Coringa.

“Nem eu sabia se eu realmente existia”, diz Coringa, num momento de total paradoxo. Arthur Fleck levava a vida entre desempenhar seu papel de palhaço como ganha-pão e cuidar da mãe enferma em um apartamento de um prédio horroroso, segundo seu julgamento, que poderá ser conhecido em suas fantasias de relacionamento com a vizinha. Sua vida era uma inexistência suspensa entre seus devaneios com o sucesso e suas fabulações anotadas em caderno para compor um show que ainda faria e que seria então seu desenvolvimento como comediante famoso. A violência de Arthur está ali sempre presente, mas ao mesmo tempo sob controle, como quando aponta a arma para a poltrona vazia, lugar onde a mãe se senta para assistir a TV. A relação tóxica entre Arthur e Penny Fleck exemplifica muito bem relações de abuso em que a vítima acaba, por mecanismos variados, presa a uma necessidade de cuidar do abusador, como uma formação reativa (mecanismo de defesa) em relação ao ódio. Todo dispêndio de energia que isso requer faz dele aquela figura meio espantalho, meio vivo e morto ao mesmo tempo, um sujeito que não pode existir.

O SENTIMENTO MÁGICO

É comum em quadros cíclicos pacientes terem um certo apego ao ciclo hipomaníaco, quando o excesso é o manifesto, a euforia, o sentimento de poder, a falta de sono, a hipersexualidade, a compulsão por compras etc., que dão ao sujeito um simulacro de existência feliz, até que o ciclo vire depressão. Diante do desmonte do serviço de assistência social que o acompanhava, Arthur Fleck deixa de tomar seus medicamentos e entra em uma óbvia espiral de onipotência. Seus gestos, sua dança, sua risada, sua agressividade agora são tomados totalmente pelo impulso de destruição. Um sujeito em grave sofrimento abandonado por todos os mecanismos coletivos que deveriam ajudá-lo a não ter como única possibilidade o encarceramento e o isolamento social. Como disse a assistente social que o acompanhava antes, nem a vida dele e nem a dela importavam ao poder constituído. Em época de neoliberalismo selvagem e desmonte de qualquer noção de bem-estar social, Coringa vira um pouco o magnífico Eu, Daniel Blake (2016), de Ken Loach. O sentimento de desamparo que hoje atravessa grande parle da população não é um dado irreal, ele é cruelmente real e presente no cotidiano dos trabalhadores, em novas formas de exploração da mão de obra que apontam para uma sobrevivência impossível. Conflitos explodem atualmente no mundo todo, e talvez a mistificação que houve em torno desse filme aponte para esse sentimento crescente de falta de saída, o que será sempre um perigo. Já vimos como sentimentos coletivos podem ser capturados facilmente por aqueles que desejam o caos para instalar de forma ainda mais profunda seu domínio. Aqui no Brasil se discutem se os fatos recentes não apontariam justamente para isso, criando no final uma turba de Coringas descontrolados cujas teses mais ensandecidas ameaçam laços civilizatórios fundamentais para nossa evolução.  Sentimentos coletivos necessitam de união, reflexão, organização, trabalho continuo, o que é realmente exaustivo e exige muita solidariedade e afeto, uma vez que a convivência dos diferentes é sem dúvida a tarefa humana que mais exige do sujeito. O caos jamais será a solução, e os países que souberam comandar com forças progressistas a explosão da insatisfação popular foram os que tiveram algum avanço, vide a França e a desistência de aumentar a idade da aposentadoria para seus cidadãos. A rebelião é fundamental, mas sem a força da política ela se torna invariavelmente apenas caos, caldeirão que ferve as mais estranhas criaturas que surgem dessa ira sem direção de combate, sem meta e sem elaboração. Os grandes tiranos, ao longo da história, se lambuzaram nesse caos que ajudaram a criar e surgiram de suas entranhas.

É sem dúvida um dado a se pensar que no ano de 2019 os dois filmes mais falados sejam Coringa e Parasita (Parasite), de Bong Joon-ho, ambos sublinhando de forma exemplar esse crescente sentimento de descontentamento. O Brasil colocou-se na cerimônia do Oscar contando ao mundo ao que este caos pode levar com o documentário Democracia em Vertigem, de Petra Costa, que mostra o crescimento do fascismo e de uma ainda maior desigualdade amparada por um poder supostamente “antitudo” que alimenta a desinformação em causa própria. Coringa é uma chamada para a reflexão sobre às insatisfações coletivas, mas é também um alerta de que politizar é preciso.

PROF. DR. EDUARDO J. S. HONORATO – é psicólogo e psicanalista, doutor em Saúde da Criança e da Mulher.

DENISE DESCHAMPS – é psicóloga e psicanalista. Autores do livro Cinematerapia: Entendendo Conflitos.

Participam de palestras, cursos e workshops em empresas e universidades. Coordenam o site www.cinematerapia.psc.br

OUTROS OLHARES

CORRENTE DO BEM

A sociedade se une com o objetivo de proteger idosos, crianças e até pequenos empreendedores para reduzir os riscos do avanço da infecção e do aprofundamento da crise econômica

Em meio da crise, a solidariedade sempre se manifesta. Na última semana, quando a situação começou a piorar e o número de infectados pelo coronavírus passou a crescer exponencialmente, o sindico do condomínio residencial Santa Teresa, Jean Escribano, resolveu decretar a quarentena nas seis torres, com 210 apartamentos habitados por mais de 700 pessoas no Jardim Santa Emília. na zona sul da cidade de São Paulo. “Fechei quadras, playground e todas as áreas comuns do condomínio porque a situação ficou mais grave. Agora, estamos nos revezando nas compras para os idosos, assim eles não precisam sair de casa”, explica. Escribano também colocou dispensers de álcool gel nos corredores e impediu a circulação de crianças pelas áreas comuns. “A situação estava ficando crítica e a molecada achava que estava de férias. Tive que tocar todo mundo de volta aos apartamentos. Coloquei os porteiros mais idosos em férias e até eu estou assumindo a portaria do condomínio. Tudo para impedir a contaminação dos moradores”, disse.

Escribano é apenas mais um dos heróis anônimos que começaram a aparecer na sociedade, espalhando boas ações e criando uma corrente do bem por quase todos os prédios paulistanos. Moradora de um condomínio de duas torres no bairro do Sumarezinho, Sarah Bomtempo, de 27 anos, também se prontificou nas compras para seus vizinhos idosos. “Estamos tentando mantê-los longe das ruas por proteção”, diz ela. Já a psicóloga Valeska Bassan ficou preocupada justamente com esse isolamento involuntário e há uma semana começou a ajudar pessoas com problemas de ansiedade e depressão, cujas patologias podem se acentuar nesses momentos. “Trabalho há muito tempo com pacientes porque sei o impacto que o isolamento pode ter em muita gente. Além disso, muitos não têm dinheiro e nunca procuraram esse tipo de tratamento”, diz ela. O atendimento de Valeska compreende dois contatos por videoconferência para falar exclusivamente sobre o problema da quarentena, atividade conhecida como “plantão psicológico”: “a pessoa pode colocar todos os seus medos em relação ao isolamento e à contaminação e vamos ajudando na medida do possível”.

Celebridades também estão demonstrando sua generosidade em meio à pandemia. É o caso da apresentadora de TV Xuxa Meneghel, que doou R$1 milhão para o Sistema Único de Saúde (SUS). Ela se uniu a uma marca de cosméticos e fez outra doação de 300 mil sabonetes para comunidades carentes de São Paulo e do Rio de Janeiro.

CONEXÃO REGIONAL

Já prevendo a crise econômica que virá depois da pandemia, afetando não só as grandes empresas, mas, principalmente, os pequenos empresários, um grupo de empreendedores resolveu criar a toque de caixa um marketplace para conectar consumidores a pequenos produtores e comerciantes regionais e, assim, permitir que muitos deles consigam sobreviver. Segundo um dos idealizadores, Wesley Barbosa, as grandes empresas terão acesso a saídas mais rápidas, mas os pequenos terão maior dificuldade. “Onde moro tentei encontrar pequenos produtores, mas não foi fácil”, explica Barbosa, ex- executivo do Facebook. “Paralelamente, vimos que muitas escolas de negócios abriram cursos gratuitos, mas esses empresários nem sabem como chegar a isso e a maioria tem pouca formação. Por isso. criamos o portal onde ele pode oferecer seus produtos, mas incluímos pequenas aulas obrigatórias”.

Nas aulas rápidas, os micro e pequenos empreendedores terão acesso a informações sobre higienização, delivery, utilização de ferramentas como WhatsApp para atendimento, gestão de crise e como melhorar seu sistema imunológico. Desde que foi lançado, na segunda-feira 23, o portal http://www.ajudeopequeno.com.br já contabiliza mil cadastros e a expectativa é de um crescimento de 10% a 15% ao dia. “Já formalizamos a ONG, contando com 200 pessoas envolvidas e estamos recebendo contato de interessados, tanto em investidores como em parcerias”, afirma Barbosa, acrescentando que 15 influencers digitais vão divulgar a plataforma. “O interesse em ajudar é tanto que plataformas de delivery como Ifood e o Rappi já incluíram pequenos fornecedores na sua lista de ofertas”, diz.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 30 DE MARÇO

A FELICIDADE DE UMA NAÇÃO

Feliz a nação cujo Deus é o SENHOR, e o povo que ele escolheu para sua herança (Salmos 33.12).

A Bíblia diz que feliz é a nação cujo Deus é o Senhor. A felicidade de um povo não está apenas em sua cultura ou em seu poder econômico. Uma nação é a reunião total de seus cidadãos. Pessoas felizes formam uma nação feliz; pessoas infelizes formam uma nação infeliz. Por isso, uma nação que se volta a outros deuses e se curva diante de ídolos está na rota da infelicidade. Uma nação que chafurda no pântano da imoralidade e promove toda sorte de vícios degradantes labora contra si mesma. Vivemos num mundo inclusivista, que abraça todas as religiões como verdadeiras e diz que todo caminho leva a Deus. Vivemos numa sociedade pluralista que repudia a verdade absoluta e aceita como legítimas todas as divindades criadas pelo homem. Uma sociedade em que Deus é destronado de sua majestade e os ídolos criados pela arte e pela imaginação humana são adorados como se pudessem salvar. Mas essa prática engana e oprime. A impiedade desemboca na perversão, e a idolatria deságua na imoralidade. Uma nação rendida aos ídolos não pode desfrutar da verdadeira felicidade, pois a felicidade pura e genuína está em Deus. Não é feliz a nação que tem muitos deuses, que se prostra diante de muitos altares e que rende cultos a muitos ídolos, mas feliz é a nação cujo Deus é o Senhor.

GESTÃO E CARREIRA

AÇÃO SOLIDÁRIA

Empresas de diversos segmentos oferecem serviços gratuitos e upgrades para minimizar efeitos de uma sociedade em quarentena pela Covid-19.

TVs por assinatura, plataformas de streaming, empresas de telefonia e instituições de ensino abriram gratuitamente parte da programação e serviços – que vão desde mais canais, a cursos on-line e disponibilidade de internet grátis – o que pode aliviar a quarentena das pessoas que estão em casa, em período de isolamento social para conter o avanço do coronavírus, com entrega de informação e entretenimento. Os benefícios são tanto para os clientes, com upgrade no pacote, quanto aos que ainda não são cadastrados. Uma jogada que faz bem para quem está confinado e para a imagem das companhias, que aproveitam para trabalhar seu branding. Professor de Canais digitais da pós-graduação da ESPM, Alexandre Bessa afirma que o momento é ideal para “oferecer experiências” a potenciais clientes. É como promover uma degustação de produtos no corredor do supermercado. Mas, na atual situação, é mais do que uma estratégia comercial. As empresas também têm interesse em resolver a necessidade do consumidor. “Serve de experimentação para as pessoas viverem de fato algo que era vontade, mas nunca se concretizou”, diz. Ofertar esses serviços para as pessoas funciona como uma atração tradicional para um funil de vendas, mas com o diferencial de que há um propósito a mais. “As empresas estão ajudando os clientes, estendendo a mão. E os clientes vão lembrar dessas marcas, que foram positivas num momento singular.”

O especialista ressalta ainda que a sociedade brasileira tem a oportunidade de “finalmente chegar ao século 21”, pois muitas pessoas têm contato com serviços, aplicativos e outras ferramentas tecnológicas que antes não faziam parte de seu cotidiano. “Por exemplo, muita gente usa o internet banking por necessidade, mas antes da pandemia era resistente e ia ao banco. É um período que incentiva a utilização de canais digitais, o que pode mudar o ciclo de consumo a partir de agora.”

Outro exemplo é o ensino a distância (EAD). A Faber-Castell liberou para uso gratuito, desde o dia 20, todos os cursos on-line de sua plataforma. “O único objetivo da companhia foi oferecer conteúdos de qualidade para crianças e adultos que estão em casa, por conta do isolamento social imposto pelo coronavírus”, informou a companhia, que até o momento teve 1 milhão de acessos aos conteúdos. A FGV também abriu o acesso a 55 cursos on-line, com certificado, nas áreas de Administração, Direito, Marketing, RH, entre outras. A Trevisan Escola de Negócios fez o mesmo com os cursos on-line gratuitos ‘Aplicação de Data Analytics’, ‘Compliance, Ética Corporativa e Prevenção a Fraudes’, ‘Contabilidade e Gestão de Custos’, o de ‘Liderança e Inovação em Economia Digital’ e ‘Gestão Orçamentária’. Os cursos têm duração de 20 a 80 horas.

PARA RELAXAR

 Entre operadores de TV por assinatura, a Oi liberou o sinal de 54 canais (satélite e IPTV), além de 66 canais no Oi TV Livre HD. A Vivo, além de upgrade na TV por assinatura, ofereceu bônus de internet para clientes ativos em planos pós-pago e controle. A Claro liberou canais na TV fechada e redes de wi-fi públicas, como em aeroportos e parques, mas com uma condição: o cliente tem de assistir a vídeos informativos do Ministério da Saúde sobre coronavírus. “Estamos fazendo tudo o que está ao nosso alcance para apoiar a população”, informa a empresa. Os clientes de planos pós-pago da TIM também receberam bônus de dados e os pré-pago têm disponibilizados até 100MB adicionais por dia, atrelados a um vídeo educativo sobre a Covid-19. Vale ressaltar que a Claro, Oi, TIM e Vivo, com a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), assinaram compromisso com medidas para manter o Brasil Conectado, mesmo com o aumento da demanda. “As prestadoras adotarão planos para garantir que os serviços operem”, diz o comunicado.

A SKY, maior operadora de TV paga via satélite do País, abriu o sinal de mais de 90 canais para seus clientes. Além da liberação da programação na TV, de forma linear, os clientes também podem assistir a alguns dos canais ao vivo pelo SKY Play, plataforma de vídeo sob demanda da empresa. Entre as plataformas de streaming, a Globoplay disponibilizou para não assinantes mais de 20 filmes da Disney, além de outros títulos infantis e séries. “O foco é principalmente o público infantil, que em várias partes do mundo foi dispensado das escolas. A plataforma também recebeu mais de 50 filmes da Imovision”, informa a empresa. A Spcine, empresa de fomento ao cinema da Prefeitura de São Paulo, liberou o acesso ao catálogo de sua plataforma de streaming, o Spcine Play, com filmes de Zé do Caixão, Hector Babenco e Tata Amaral, entre outros cineastas brasileiros.

Já o portal Vagas.com, de soluções tecnológicas de recrutamento e seleção, oferece de forma gratuita 1 mil minutos de sua ferramenta de videoentrevista para os clientes, permitindo que as companhias sigam com seus processos sem a necessidade de deslocamento dos profissionais. “Neste momento de incertezas, decidimos colaborar com empresas e profissionais por meio dos benefícios que a tecnologia oferece. Com essa medida, contribuímos para que mais pessoas evitem o contato presencial”, afirma Leonardo Vicente, da Vagas.com.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A DOENÇA DO MEDO

Se não tratado, o estresse desencadeado pelo isolamento forçado, devido ao coronavírus, pode agravar transtornos psiquiátricos e doenças como depressão e síndrome do pânico. O que fazer?

Pessoas totalmente isoladas em suas casas, muitas delas idosas, alterando completamente suas rotinas para evitar a contaminação pelo novo coronavírus. Nas últimas semanas, a sociedade passou a viver um mundo completamente novo e, principalmente, foi tomada pela angústia. Medo de sair de casa, de ficar doente, de vir a morrer, de perder o emprego e de não conseguir pagar as contas em dia. Medo até de não conseguir comprar o que comer. Acima de tudo, veio a solidão. Para preservar a saúde, muitos estão impedidos de se relacionar com os filhos, netos e amigos. Ir à academia se exercitar, sair para trabalhar em serviços essenciais, fazer compras ou até mesmo deixar o lixo na rua, tornou-se um grande risco. Por tudo isso, cresce a preocupação com a saúde mental.

AUMENTO DO ESTRESSE

A ameaça de contrair o novo coronavírus mudou totalmente a dinâmica das pessoas. Nessa guerra contra a Covid-19, um fator não pode ser desconsiderado e está levando muita gente a procurar psiquiatras e psicólogos por meio de consultas por aplicativos: o aumento do estresse. Silencioso, porém altamente prejudicial à saúde humana, o estresse e a ansiedade podem desencadear doenças como depressão, síndrome do pânico e até risco de suicídio. “Algumas pessoas estão apavoradas e certamente o número de depressivos vai aumentar muito, sobretudo as pessoas com TOC e hiper preocupadas com o que acontecerá em relação ao contágio e à vida financeira”, diz o psiquiatra Breno Serson. É fato que experiências catastróficas sempre deixam marcas. A China, o epicentro do novo coronavírus, está vivenciando essa experiência. Até 20% de seus habitantes estão com sintomas de transtorno de estresse pós-traumático (TSPT), de acordo com um estudo recente da Universidade Médica Naval de Shanghai.

O mesmo ocorreu em Hong Kong, que sofreu em 2003 a epidemia da síndrome respiratória aguda (SARS). Lá, foi possível constatar que os danos psicológicos foram duradouros: 40% dos que contraíram o vírus, apresentaram o TSPT dez anos depois. É esperado que no Brasil o novo coronavírus também deixe sequelas. Para se ter ideia, 5,8% da população do País sofre com depressão e 32 brasileiros se suicidam todos os dias. Outro tipo de doença que poderá ter consequências em massa é o das pessoas que sofrem síndrome do pânico, ou seja, um número estimado entre 4 e 6 milhões de brasileiros. “Quanto maior for a quarentena, maior podem ser os estragos na mente das pessoas. Claro que os que têm predisposições são os mais afetados nesse momento”, diz Dora Sampaio Góes, psicóloga do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo (IPq/HCFMUSP). Em seus atendimentos remotos, ela constatou um grande aumento nos casos de irritabilidade e ansiedade entre seus pacientes.

TERAPIA ALTERNATIVA

A boa notícia é que medidas simples podem atenuar os efeitos da quarentena e a ameaça do surgimento de doenças psíquicas. Estabelecer uma rotina é fundamental para que as pessoas consigam se organizar emocionalmente. Recomenda-se assistir a filmes de entretenimento não agressivos, ler e realizar trabalhos terapêuticos e manuais, como crochê, por exemplo. “É importante que as pessoas percebam que dominam sua vida e seu tempo, e que estão fazendo escolhas. É possível ser autor da própria história, mesmo dentro de casa”, diz Dora. Além disso, especialistas dizem que esta é uma oportunidade para as pessoas se voltarem para si próprias e seus verdadeiros valores. “Colocar em evidência a empatia e o amor ao próximo causa uma sensação de bem-estar conectada ao todo e ao bem comum. A parte que eu alimentar é a que vai crescer em mim”, explica Dora. Integrante do grupo de dependências tecnológicas do Hospital das Clínicas, ela alerta para a importância de limitar o uso de ferramentas online nesse momento. Mandar mensagens para as pessoas e fazer videoconferências, por exemplo, despertam o sentimento “de pertencimento coletivo e atenuam o estresse”.

O apoio psicoterapêutico também é fundamental e diversas iniciativas gratuitas estão surgindo para atender pessoas por telefone e por videoconferência. Exercícios físicos também estão sendo disponibilizados online, por diferentes especialistas. Essa parafernália eletrônica está funcionando bem para controlar a ansiedade da professora Fernanda Antunes, de uma escola pública de São José dos Campos. Diagnosticada com síndrome do pânico, a doença está sob controle por conta do uso correto de medicamentos, bem como a realização de meditação, como terapia alternativa. Há uma semana sem sair de casa por conta dos pais idosos, ela recorre a aplicativos para manter o equilíbrio e evitar crises neste momento crítico. “Quando vejo que a situação está ficando feia, recorro a alternativas que me deixam melhor. Fiz uma meditação holística em casa, comecei uma novena e à noite rezo o terço”, diz ela, que não vê a hora de voltar ao trabalho presencial. “Além disso, tenho feito exercício físico e pretendo manter o tratamento médico online. Tento não pensar no que pode acontecer no futuro para não enlouquecer”, diz Fernanda.

OUTROS OLHARES

UMA CORRIDA GLOBAL

Em um movimento inédito e bilionário, cientistas de todo o mundo buscam avidamente o desenvolvimento da vacina e de tratamentos adequados para a Covid-19

“Testes, testes, testes.” Assim, com a repetição de três pequenas palavras, como um refrão, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), o etíope Tedros Adhanom Ghebreyesus, resumiu a postura mais adequada para combater a pandemia de Covid-19 – de mãos dadas com o distanciamento social, impositivo e inegociável. Os testes são vitais para quebrar as cadeias de transmissão, ao separar saudáveis de enfermos, e para organizar o fluxo nos hospitais. Não por acaso, em gesto louvável, a mineradora Vale fechou a compra de 5 milhões de kits chineses, que apontam positivo ou negativo a partir da detecção de anticorpos, para doá-los ao governo brasileiro. Uma startup de Curitiba, a Hi Technologies, desenvolveu um equipamento que oferece respostas em até quinze minutos – que em breve começará a chegar às farmácias e aos serviços de saúde. Testar, testar e testar é, enfim, o primeiro passo do mais extraordinário movimento científico e médico de toda uma geração, na luta contra uma doença respiratória que, até a quinta-feira 26, tinha acometido mais de 520.000 pessoas no mundo inteiro, com mais de 20.000 mortes, das quais 77 no Brasil.

A corrida global, para além do compulsório diagnóstico dos doentes, tem duas frentes: a busca por uma vacina e, enquanto ela não surge, o aperfeiçoamento de tratamentos já existentes e a criação de outros remédios. É uma engrenagem emocionante e bilionária (apenas na primeira semana de março, os fundos globais para pesquisa e desenvolvimento de crises arrecadaram 3,5 bilhões de euros, o equivalente a 19 bilhões de reais). A OMS formou um grupo de trabalho global, adequadamente batizado de “Solidariedade”, e não haveria outro nome a lhe dar, de modo a estimular pesquisas cada vez mais aceleradas que abranjam milhares de pacientes, de mais de uma centena de países. Disse o pneumologista Clayton Cowl, diretor de medicina preventiva da Mayo Clinic em Rochester, um dos mais respeitados hospitais dos Estados Unidos, referência incontornável: “O mundo está unido no combate à pandemia de Covid-19. Resolveremos o mistério e impediremos que algo semelhante aconteça nos próximos anos”. É uma promessa, por ora, mas quase uma certeza quando se acompanha a máquina rodando. Não seria exagero afirmar que a velocidade dos saltos científicos na batalha contra o microrganismo feito de RNA é inédita na história da humanidade. Três exemplos emblemáticos ajudam a alimentar essa constatação: a plataforma medRxiv, que concentra os estudos científicos antes de sua publicação em reputadas revistas, já soma mais de 300 artigos sobre o novo coronavírus; a Chinese Clinical Trial Registry, agregador de trabalhos clínicos conduzidos na China, reúne 504 pesquisas protocoladas; a ClinicalTrials, o maior banco de dados de ensaios clínicos do planeta, tem 178 registros. E lembremos: passaram-se apenas quatro meses desde o início da eclosão dos casos da nova infecção, na China, em dezembro do ano passado, país que começa a renascer e a respirar. “É uma situação totalmente excepcional em termos de pressão, rapidez e investimento”, diz o infectologista Celso Granato, diretor médico do Grupo Fleury, no Brasil.

O santo graal, o tesouro tão esperado, evidentemente, é a vacina. Mais de trinta empresas e instituições acadêmicas estão na corrida para criar um imunizante. Dessas, ao menos quatro encontram-se na fase de testes em animais, necessária para garantir uma proteção química capaz de gerar anticorpos contra o vírus, e duas – uma nos Estados Unidos e a outra na China – já iniciaram os testes em humanos. A empresa pioneira americana, a Moderna, conseguiu em apenas 63 dias deflagrar os ensaios clínicos. Essa rapidez só foi possível porque, além dos esforços tremendos, os pesquisadores tinham experiência com a elaboração de vacinas para Sars e Mers, também da espécie coronavírus, só que mais letais e menos contagiantes, durante suas respectivas epidemias em 2003 e 2012 – seus produtos, contudo, nunca chegaram ao mercado em decorrência de um descompasso peculiar. Quando ficaram prontos, os surtos já haviam sido contidos e os investimentos necessários para dar continuidade ao trabalho foram suspensos. Agora é diferente: o conhecimento prévio permitiu a tração, e estima-se o uso experimental, e restrito, da vacina ainda em 2020. No entanto, ela deve ser aprovada apenas dentro de um ano e meio. Há brasileiros no horizonte também. O grupo de pesquisadores do Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração (Incor) da Universidade de São Paulo (USP) usa uma estratégia inovadora: trabalha com as chamadas “cascas virais”, sem material genético, e, portanto, não infecciosas, para induzir respostas do sistema imune. “Esse mecanismo deverá se mostrar ainda mais forte que outras propostas que têm surgido, que injetam uma porção sintética de material genético do vírus no organismo, diz o imunologista Jorge Kalil, diretor do Laboratório de Imunologia do Incor. No Brasil, trabalha-se com um prazo de entrega da vacina maior que o dos Estados Unidos. A previsão aqui é começar os testes clínicos em menos de dois anos. É tempo demais? Não, insista-se, desde que a humanidade seja capaz de identificar as pessoas com resultado positivo para a Covid-19 e os tratamentos se ampliem.

A concorrência, sempre saudável, faz com que eles se multipliquem. Existem, atualmente, quatro apostas promissoras, em estágio avançado de experimentação, para zelar pelas pessoas acometidas de Covid-19, especialmente os idosos.

REMDESIVIR. É um antiviral criado por um laboratório americano para combater o ebola, que emergiu como pioneiro entre os possíveis tratamentos para a Covid-19. Apesar de ter falhado no combate ao vírus, experimentos em laboratório mostraram que o medicamento é eficaz contra Sars e Mers. A ação da droga é desligar a capacidade do vírus de se replicar dentro das células.

RITONAVIR E LOPINAVIR. Usados em pacientes com HIV, conseguiram inibir uma enzima responsável por “cortar” compostos que agem na replicação do vírus dentro das células. Houve um baque, recentemente, depois de se mostrarem ineficazes em um estudo feito com 200 pacientes graves na China. Mas serão testados novamente, agora em pacientes menos graves.

FAVIPIRAVIR. O medicamento japonês é utilizado como tratamento para a gripe comum e causou alvoroço ao diminuir para menos da metade o tempo de infecção pelo novo coronavírus. Um estudo chinês com 340 pacientes mostrou uma tendência de eliminação do vírus em apenas quatro dias naqueles que receberam o medicamento, ante onze dias nos que ficaram sem a droga.

Testes, vacinas e remédios poderão impedir cenas até então inimagináveis em nosso tempo, e que só foram vistas durante a gripe espanhola, no início do século XX: imagens como a do gramado do Estádio do Pacaembu, em São Paulo, transformado em um hospital a céu aberto, preparado para receber os doentes, por falta de espaço em leitos hospitalares. Talvez porque, ao longo dos anos, o Brasil tenha construído mais estádios que hospitais, porque tenha dado mais atenção ao futebol que à saúde – mas essa é outra triste história.

Cabe se debruçar, no aqui e agora, sobre problemas que podemos tocar com os dedos, imediatamente. Apesar da importação de testes – como fez a Vale – e da lida com novos aparelhos – como faz a empresa curitibana -, há escassez na ponta final do preocupante processo da Covid-19. Nos últimos dias, a Anvisa aprovou uma dezena de novos tipos de diagnóstico, e o Ministério da Saúde ampliará para 22,9 milhões o número de unidades disponíveis. Mas dificilmente a quantidade será suficiente para o tamanho da população brasileira. De uma semana para cá, o país passou a escolher quais doentes priorizaria para diagnosticar. Se, num primeiro momento, pacientes com sintomas mais brandos de gripe conseguiam ser examinados com facilidade, agora a recomendação tanto na rede pública quanto na privada é testar apenas casos mais graves. É uma triste escolha. Ela só será superada – e será – com a humanidade focada naquilo que ela tem de mais valoroso: a ciência, o conhecimento.

O TEMPO É O SENHOR DA RAZÃO

Os primeiros passos a caminho da vacina contra a Covid-19 foram mais rápidos se comparados com os casos de outras doenças viróticas

A VERDADE SOBRE A CLOROQUINA E A HIDROXICLOROQUINA

Nas redes sociais, duas drogas viralizaram, com o perdão da expressão, como se fossem o bálsamo definitivo para a Covid-19 – a cloroquina e a hidroxicloroquina, associadas. Comumente usadas no tratamento de malária e doenças autoimunes, como o lúpus, elas se transformaram em portos seguros. Funcionam? Sim, informam alguns estudos ainda em fase inicial de investigação – mas, ressalve-se, o protocolo impõe outras experiências para conceder aval definitivo ao par de drogas. Há ansiedade, porém, é preciso calma, ancorada na ciência. O deflagrador da onda foi um estudo francês com 24 pacientes, amostra pequena, que observou os efeitos positivos dos remédios. “Essas medicações devem ser tomadas com controle, dados os efeitos colaterais, como arritmia e problemas visuais”, afirma Ludhmila Hajjar, coordenadora de ciência, tecnologia e inovação da Sociedade Brasileira de Cardiologia. Os primeiros resultados, animadores, levaram Donald Trump a divulgar a boa ­ nova, com pressa e um tantinho de irresponsabilidade, Bolsonaro seguiu a onda. Para aumentar o alarde, um áudio com informações falsas sobre o assunto começou a ser compartilhado no WhatsApp. De acordo com a gravação, um estudo da Universidade Stanford teria mostrado que o uso das substâncias combinadas com outro composto, o antibiótico azitromicina, teria curado quarenta pacientes com Covid-19. O áudio é falso. Diz Luiz Vicente Rizzo, diretor-superintendente de pesquisa do Albert Einstein: “Não há um heureca, mas um grupo de pessoas trabalhando duro e junto”.

No Brasil, dois amplos estudos com a cloroquina e a hidroxicloroquina foram deflagrados. Um deles já começou e envolve instituições de várias regiões do país, como o Hospital Estadual Geral de Goiânia, a Fundação Oswaldo Cruze a Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto, e é liderado pelo reputado infectologista Marcus Vinicius Guimarães de Lacerda, da Fiocruz Amazônia. A ideia é analisar os efeitos em 880 doentes graves, em doses diferentes. O outro trabalho é resultado da união entre o Hospital Albert Einstein, o Hospital do Coração e o Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, que usarão a medicação em doentes com suporte de oxigênio, em estado mais ou menos grave da enfermidade. Ambos os estudos foram aprovados em menos de uma semana pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa, instituição responsável pela validação dos estudos científicos no Brasil. Há pressa. Afirma Alexandre Biasi, diretor do Instituto de Pesquisa do Hospital do Coração: “O que até então levava seis meses no universo científico agora é feito em dois dias”. As conclusões dos trabalhos sairão em até dois meses, no máximo.

Na quarta-feira 25, o Ministério da Saúde anunciou que vai liberar 3,4 milhões de unidades do medicamento cloroquina para que os médicos possam avaliar sua utilização em pacientes graves. A decisão foi tomada com base em um protocolo detalhado e rigoroso, que prevê cinco dias de tratamento, sempre dentro do hospital e monitorado por um médico. Aviso: não adianta sair comprando as substâncias por aí.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 29 DE MARÇO

JESUS CURA A SOGRA DE PEDRO

Então, aproximando-se, tomou-a pela mão; e a febre a deixou, passando ela a servi-los (Marcos  1.31).

O apóstolo Pedro era casado. Sua sogra estava ardendo em febre, prostrada numa cama. Os discípulos falaram com Jesus a respeito dela. O Mestre foi ao encontro da doente, tomou-a pela mão, e a febre a deixou, de modo que ela passou a servi-los. Devemos contar a Jesus aquilo que nos aflige. Ele é o nosso melhor amigo. É compassivo e misericordioso. Quando ficamos doentes, procuramos um médico. Quando temos problemas com a lei, procuramos um advogado. Quando precisamos de ajuda, procuramos um amigo. Mas, acima de tudo e em qualquer circunstância, devemos procurar o Senhor Jesus. A cura da sogra de Pedro foi imediata e total. Nenhuma enfermidade pode resistir ao poder de Jesus. Ele curou o homem possesso na sinagoga, um ambiente religioso; curou a sogra de Pedro em casa, um ambiente familiar; e também curou uma multidão na rua, um ambiente aberto. A doença, o vento e o mar ouvem a sua voz. Os anjos obedecem às suas ordens. Os demônios não resistem à sua autoridade. Ninguém pode resistir ao seu poder. Febre, ventos, ondas, tempestades, nada disso faz diferença para Jesus. Ele exerce completo controle no céu, na terra e debaixo da terra. Confie agora mesmo sua vida a ele!

GESTÃO E CARREIRA

O DESAFIO DA VIDA À DISTÂNCIA

Pandemia impõe novas rotinas, comportamentos e hábitos e transforma o trabalho remoto numa solução generalizada e conveniente para as mais diferentes funções. O micróbio da Covid-19 é disruptivo e a adaptação à realidade vai ser mais fácil para uns que para outros

O coronavírus é um micróbio disruptivo. Sua capacidade de romper rotinas, alterar a realidade, impor novos comportamentos e hábitos é notável. O medo de contágio, o aumento exponencial no número de doentes, o distanciamento social e o crescente isolamento das pessoas em todo o mundo estão estabelecendo, por exemplo, novas práticas de trabalho e exigindo soluções tecnológicas que antes eram opcionais e, do dia para a noite, se tornam obrigatórias para milhões de pessoas. O que era típico, até agora, de empresas de internet, virou padrão.

E pode ser que isso se perpetue, dependendo do desenvolvimento da pandemia, para muitos profissionais. Quem se adaptar bem ao trabalho remoto vai ter um trunfo em inúmeras funções da sociedade. Teleconferências de baixo custo e com dezenas de participantes são a bola da vez no mercado, na política e nas famílias. Pela primeira vez na história do Senado, uma decisão foi tomada em uma votação à distância, feita por teleconferência. Votou-se o decreto de calamidade pública para combater a disseminação do coronavírus que foi aprovado por unanimidade e entrou imediatamente em vigor. Na terça-feira 24, cinco dias depois, o Senado usou o mesmo Sistema de Deliberação Remota (SDR), para votar a Medida Provisória 899/2019, que inclui empresas optantes do Simples em um programa de acertos de pendências com a União. A decisão de votar remotamente foi tomada depois que três parlamentares da casa contraíram o coronavírus: o presidente Davi Alcolumbre (DEM-AP), Nelsinho Trad (PSD-MS), que esteve na comitiva para Miami com o presidente Jair Bolsonaro, e Prisco Bezerra (PDT-CE). O sistema de debate e votação foi desenvolvido pela Secretaria de TI do Senado, a Prodasen.

“A tecnologia ajudou o Senado a cumprir seu papel neste momento difícil da Nação”, disse o senador Antônio Anastasia (PSD-MG), que preside as sessões interinamente e classificou as primeiras experiências de votação “estáveis e seguras”. “É claro que um processo legislativo tem seus nuances, características e diferenças do ambiente corporativo, mas a conferência à distância é possível e viável, tanto que nós já votamos na semana passada, votamos ontem, ontem, aliás, numa sessão longa com duas mudanças de orientação, com votações nominais, deu tudo certo”, completou o senador. O mais impressionante, segundo ele, foi o quórum altíssimo. Havia 79 presentes, só não estavam os dois que estão afastados em razão da doença, Alcolumbre e Nelsinho. Bezerra, que é assintomático e cumpre quarentena, participou da sessão. “Se você fizer um levantamento, numa medida provisória, matéria de lei ordinária, quórum de 79 é raro”, completou. Alguns senadores votaram em seus gabinetes, outros estão em suas residências em Brasília, outros nos seus estados, em casas ou no escritório.

Como os senadores, governadores de todo o Brasil passaram a semana participando de teleconferências entre eles ou com o presidente Bolsonaro para discutir a crise sanitária. Os debates políticos estão se desenvolvendo à distância e os contatos de alto nível, sem necessidade de locomoção para participar de reuniões, se tornaram mais baratos, simples e práticos. “Claro que o processo fica um pouco mais lento, talvez as discussões fiquem um pouco mais demoradas, as convergências demorem um pouco mais, mas a teleconferência me parece uma forma democrática e eficiente de funcionar”, afirma Anastasia. “Isso jamais vai substituir o contato físico nas votações, aquela conversa de pé de ouvido típica da política, das negociações, mas num caso como esse em que se têm problemas de saúde, é uma forma de manter o trabalho em andamento”. Para o senador, a solução não há outra opção e o Congresso não pode parar. “E o fato do quórum estar alto é muito positivo”, completa.

Grandes empresas estão seguindo a mesma linha e tentam, cada vez mais, resolver seus problemas remotamente. No meio da espinhosa reestruturação do Instituto de Resseguros do Brasil (IRB Brasil RE), Antônio Cassio, que acaba de assumir a presidência da empresa, vê o trabalho remoto como uma âncora de salvação. Cassio está habituado à rotina de trabalho em casa, que ele chama de “smart working” (trabalho inteligente) e consegue produzir tão bem presencialmente como à distância. O IRB tem 400 empregados e, neste momento, estão quase todos na rotina do home office. A exceção é um núcleo da contabilidade que trabalha presencialmente por conta de serviços de fechamento de balanços. O que Cassio sente no seu novo modelo de trabalho é que o dia fica mais longo. Ele acorda às 6 horas, veste uma roupa e vai para seu QG, que é a mesa de jantar. Participa de videoconferências o dia todo. Na segunda-feira 16, participou de dez e fez 13 vídeos. Faz paradas para tomar café, almoçar e à tarde para brincar com o cachorro e se diz preparado, se for necessário, para ficar os próximos 60 dias em home office. “A ida ao escritório não faz falta e a maior dificuldade que estou tendo é não saber a hora de parar. Ontem, fui até as 11 horas da noite”, conta. “A companhia está funcionando normalmente e de maneira eficiente”.

Para quem mergulha no home office, o local de trabalho se torna relativo. Nos últimos cinco anos, Cassio trabalhou na seguradora Generali e atendia oito países com quatros fusos horários diferentes. A maior parte de suas reuniões era feita por videoconferência e o escritório era só um ponto de apoio e não o lugar do executivo. Mesmo à distância, ele se sentia sempre próximo de sua equipe, como acontece agora. O Conselho de Administração do IRB está funcionando perfeitamente e, segundo Cassio, os conselhos nunca funcionaram tão bem. “Acho que devemos aproveitar o momento para fazer uma revolução boa”, afirma. “Quando você descobre que um ser microscópico é capaz de ameaçar sua vida, se pergunta quem é e como encontrar luz no meio da vulnerabilidade”. Até quinta-feira 26, havia no mundo cerca de 500 mil infectados pelo coronavírus e 22,2 mil mortos pelo Covid-19, segundo levantamento da Johns Hopkins University. No Brasil, o número de contaminados passava de 2,6 mil e o de mortos chegava a 61.

CARTEIRA VIRTUAL

Empresas de tecnologia têm sua situação facilitada nesse processo de mudança por estarem mais habituadas ao trabalho à distância. É o caso da PicPay, que controla um aplicativo para a realização de compras online e transferência de valores por meio de uma carteira virtual. A empresa eliminou qualquer atividade nos seus escritórios e, neste momento, só foi mantida a rotina de limpeza duas vezes por semana e a presença dos recepcionistas. Todas as outras atividades da empresa estão sendo feitas por teleconferência. “Sempre fizemos isso de forma alternada e agora está todo mundo remoto”, afirma o co-fundador e diretor de Recursos Humanos, Dárcio Stehling. Os funcionários da PicPay nunca tiveram, por exemplo, telefone na mesa, todo trabalho sempre foi feito na frente de computadores. Desde quarta-feira 11, a empresa colocou seus 1,3 mil funcionários em regime de home office. No dia seguinte, apenas 40 funcionários foram a escritório para buscar alguma coisa ou resolver pequenas pendências. Na sexta-feira, já estavam todos em casa.

“A grande reclamação é a saudade dos colegas, mas tem gente que se queixa da rotina, de pôr a roupa de trabalho para ficar dentro de casa”, diz Stehling. Ele relata que as reuniões se tornaram mais breves e não houve nenhuma queixa de funcionário dizendo que não está conseguindo trabalhar. Participam até 40 pessoas das reuniões. A empresa resolveu todos os problemas de software e de conexão nas máquinas que estão sendo usadas com serviços de suporte. Stehling usa muito o aplicativo de teleconferência Zoom, grande vedete nestes tempos de pandemia. Outras ferramentas que estão sendo usadas nas reuniões à distância são o Skype, Microsoft Teams, Google Hangouts e o WhatsApp. “É preciso um fone de ouvido com um microfone bom e existe uma etiqueta do trabalho remoto a ser seguida”, diz “Quem não está falando fica no mudo para que todos possam ouvir o que está sendo dito”.

Já para quem não é da indústria de tecnologia, as coisas são mais incomodas. O presidente da Associação Brasileira de Alumínio (Abal), Milton Rego, diz que a situação atual traz estorvos para o setor. De um modo geral, as empresas colocaram todos seus funcionários administrativos no home office, enquanto o pessoal das fábricas está recebendo cuidados de saúde diários. A temperatura dos operários está sendo medida periodicamente e departamentos são colocados em quarentena quando há algum trabalhador com suspeita de contágio. Trinta empresas são associadas à Abal e algumas delas, principalmente pequenas e médias, não tinham notebooks para todo mundo e precisaram alugar os equipamentos. O mercado de aluguel de máquinas está em plena expansão neste momento. “Isso é muito novo. Não se faz uma mudança tão drástica sem perder produtividade, mas o impacto disso depende do perfil do empregado”, diz Rego. Na Abal começamos isso na quarta-feira passada, mas ninguém pensava no assunto dez dias antes. Pensava-se na diminuição das pessoas nos escritórios, mas não em interrupção total. Foi tudo muito rápido e algumas pessoas estão com dificuldades com alguns sistemas. Como acontece no Senado, Rego percebe que no home office é tudo mais lento. Na reunião presencial, as pessoas estão a dois metros de distância e você fala e resolve, mas no remoto é preciso mandar mensagem. “A gente está aprendendo de maneira dramática. Se a economia mundial passar por uma mudança total, isso vai causar uma enorme perda de produtividade. É uma disrupção muito grande. Empresas e os países terão que mudar seus protocolos”.

Até os hospitais, em tempos de pandemia, tem que intensificar o trabalho à distância e ampliar e aprimorar seus serviços remotos. No Albert Einstein, em São Paulo, que tem 13 mil funcionários, todos os trabalhadores administrativos estão trabalhando em casa, seguindo as orientações das autoridades sanitárias. Também estão sendo impulsionados os serviços de telemedicina e tele UTI, segundo Felipe Spinelli de Carvalho, diretor de ensino do Einstein. As duas modalidades são oferecidas há vários anos pelo hospital. A telemedicina tem uma importante função social e sua utilização foi aprovada, há duas semanas, pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) para conter o coronavírus. Com a tele UTI é possível dar apoio técnico a outros hospitais que não contam com médicos intensivistas e precisam de apoio. Um programa de telemedicina do Proadi-SUS, na região Norte, permitirá que os profissionais do Einstein atendam pacientes de 120 cidades. “A telemedicina vai ser um grande recurso, principalmente para diagnóstico”, afirma Carvalho. Desde 2012, o Einstein oferece telemedicina, mas o número de atendimentos disparou e atingiu 200 por dia na semana passada. Além do atendimento médico, ferramentas de teleconferência também servem bem para a educação. Mais de 7 mil alunos dos cursos do Einstein, que tem faculdades de enfermagem e medicina, escola técnica e pós-graduação, usam o Zoom ou a plataforma de aprendizagem Canvas para falar com professores e colegas.

Apesar do entusiasmo com as reuniões remotas, a expectativa no mercado, na política e nas famílias é de que a situação volte ao normal. Mas é certo que um novo ciclo de aprendizado de reuniões à distância e home office está sendo impulsionado pela pandemia. E as pessoas estão descobrindo como fazer as coisas de outra forma. Muitas não mais voltarão ao esquema anterior. “Na teleconferência há uma demora um pouco maior, mas a decisão acaba ocorrendo como ocorreu ontem. Foi perfeito. Houve discussão, divergência e a divergência foi decidida no voto, como convêm ao Parlamento”. Mesmo com algumas dificuldades, o trabalho à distância, como prova o Senado, pode ser uma saída perfeita nesses tempos de peste, quando ficar em casa é a melhor decisão.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

IMPACTO EMOCIONAL NAS CRIANÇAS

Uma geração inteira está se desenvolvendo em meio à uma pandemia. O massacre de informações transformou questionamentos adultos em medos infantis. Como sair fortalecido desse trauma?

Se o novo coronavírus, segundo especialistas, poupa as crianças nas vias aéreas superiores e nos pulmões, abala em outro delicado campo suscetível de sequelas: o lado emocional. Contaremos a história de uma família que passa a quarentena no Complexo do Alemão, uma das maiores e mais conhecidas favelas do Rio de Janeiro. Como a doença não diferencia ricos e pobres, da boca do caçula da família Silva sai a frase que amedronta os pais, sejam miseráveis ou milionários, em todo Brasil: “Mãe, a gente vai morrer?”. A pergunta não é feita por um adulto ou adolescente, mas, sim, por uma criança de seis anos, invadida pela morbidez em seu psiquismo. O cenário em que o País vive é esse: crianças deixaram a brincadeira de lado e estão confinadas em casa, apavoradas. A regra clássica de que criança precisa ser criança não dá para ser respeitada. Uma geração inteira será afetada emocionalmente; os resultados são incertos e preocupantes.

A GENTE VAI MORRER?

João Gabriel tem seis anos, mas quando de sua boca sai incômodos e medos sobre o contágio do coronavírus, ele já não parece mais tão pequeno. Da televisão da sala, ele vê reportagens e o corpo estremece: “Não tem hospital para todo mundo, mãe”. Depois de olhar para os parentes confinados, João completa: “Já pensou se a nossa família pega? A gente vai morrer!”. Um tormento que, antes da pandemia, não existia. Quando da rua as vozes dos amiguinhos aparecem, João pede para sair. Quer a rua. Quer brincar. “Deixa eu ficar com os meus amigos?”. Mas, logo em seguida, Joelma da Silva, de 29 anos, ativa a memória do filho sobre a existência da doença. Ainda assim, João não arreda o pé e quer saber: “Não posso brincar porque meus amigos estão com coronavírus?”. Joelma tenta, mais uma vez, explicar a situação do País. Só que parece que na frente dela está um homem maduro e não um menino de seis anos. A Covid-19 está fazendo crianças agirem como idosos. Só que idosos já viveram muito, têm bagagem para questionar a vida. Sozinho, João escolheu como melhor amigo o álcool em gel — carrega-o para todos os cantos da casa.

Joelma está em quarentena com o caçula João, com a filha mais velha, Maria Gabrielle, de 11 anos, e o pai José Manuel de 66 anos. Dentro da casa ninguém entra e ninguém sai. O pouco de mundo exterior está no quintal, mas basta as crianças saírem para movimentar o corpo que, pouco depois voltam correndo. “O vírus está na minha mão, passa álcool”, pedem. A vida meio que perdeu a rotina. E a tentativa de se agarrar na possibilidade está no potinho que promete a morte do vírus. Enquanto os amigos brincam na rua, João passa álcool em gel nas mãos com a mesma fúria que engole balas coloridas. A escola colocou no dever de casa uma perigosa pergunta: “Como você está se sentindo com o coronavírus?”. Um universo intacto é escancarado. “Você está entrando em um território de sentimento que pode aflorar diversas coisas nas crianças, inclusive essa questão das perdas e morte”, explica a psicóloga da Clínica Maia, especializada em neuropsicopedagogia, Daniella Dualib Uvo. “Uma coisa que eu sempre digo, para qualquer situação, é: não dê informações além do que a criança pede”, completa.

A natureza infantil é curiosa e inquieta. Quando a dúvida surgir, as crianças vão perguntar. Eles têm o conhecimento da existência de uma doença e que essa doença mata. Para eles, é como dizer que alguém próximo pode morrer. Estresse pós traumático, ansiedade, fobia social, problemas para lidar com a frustração, e, obviamente, com as perdas. Os pais que, da noite para o dia, passaram a trabalhar em casa, também voltarão para o trabalho da noite para o dia. Assim que eles deixarem a casa, as crianças podem se ver em pânico com a possibilidade de os pais não cruzarem novamente a porta de entrada. A família precisa, de alguma forma, estabelecer uma rotina. Daniella é otimista, gosta de dizer que prefere enxergar o copo mais cheio do que vazio. E esse confinamento, pode, sim, ser positivo para essa geração. De alguma forma, as famílias desaceleraram.

A falta de convívio virou acolhimento. “Há um fortalecimento emocional incrível”, diz a psicóloga. Em meio ao caos, a pequena Maria Gabrielle parece ser a única da família Silva que conseguiu transformar a quarentena em rotina. Agarrou-se aos tutoriais de maquiagem para fazer o tempo passar. Quando tudo isso acabar, ela tende a ser mais experiente do que mulheres adultas acostumadas com a base, o pó e a sombra.

OUTROS OLHARES

MACIA E SUCULENTA

Importado dos Estados Unidos, o dry aged, sistema de maturação de carnes a seco, vira sensação em restaurantes, hamburguerias e açougues-butique

A nova onda para os amantes brasileiros da carne veio de um velho hábito americano. No início do século XX, açougueiros do Texas desenvolveram um processo de envelhecimento das peças para tornar os bifes mais macios e suculentos. Batizada de dry aged, a maturação a seco passou a ser adotada pelos chefs apenas na década de 80, até virar febre nos endereços descolados de Nova York. A onda chegou ao Brasil nos últimos anos e começa a repetir por aqui esse sucesso. Somente na cidade de São Paulo o número de restaurantes que servem a iguaria aumentou de um para oito nos últimos anos, sem contar várias lanchonetes e açougues­ butique que estão investindo no produto. As grandes empresas também entraram no negócio. Em junho de 2019, uma parceria do Pão de Açúcar com a Friboi resultou no lançamento de um espaço exclusivo para a venda desses itens nos supermercados. O projeto vingou e onze lojas nas cidades de Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo começaram a oferecer o serviço.

Marcante para os que experimentam pela primeira vez, o paladar diferenciado da carne se deve ao período em que ela é “envelhecida” em câmaras de refrigeração com temperaturas que oscilam de zero a 2 graus negativos e umidade entre 50% e 70%. O tempo mínimo pode variar de 21 a trinta dias. Nessas condições, enzimas quebram a proteína da peça, e é aí que está o segredo do dry aged: as fibras se tornam mais macias, a acidez desaparece e os aminoácidos liberados intensificam o sabor. “É mesmo algo muito especial”, diz Daniel Lee, um dos maiores entendidos por aqui no assunto. Cozinheiro obcecado por novos sabores, ele fez uma série de cursos nos Estados Unidos sobre esse tipo de corte e foi convidado para ser juiz da maior entidade de churrasqueiros dos Estados Unidos, a Kansas City Barbeque Society (KCBS). Desde 2015, passou a dar aulas sobre a especialidade e virou referência no tema. Em janeiro deste ano, resolveu abrir o próprio restaurante, o Bark & Crust, em São Paulo, que tem como um dos focos os cortes dry aged. “O brasileiro adora carne e agora está descobrindo os prazeres dos cortes premium”, afirma ele.

Do ponto de vista dos negócios, trata-se de um investimento bastante saboroso. Em média, o quilo do corte dry aged custa 150 reais, quase o dobro do valor de uma peça convencional de picanha. Com experiência no mercado financeiro, Rogerio Betti resolveu largar o mundo das ações para apostar na onda do dry aged. Começou com um e-commerce em 2016. O plano era negociar vinte peças por mês, mas não demorou para que elas chegassem a 400. O passo seguinte foi abrir um açougue, que também superou as metas definidas no planejamento de negócios. Por fim, o caminho natural foi inaugurar um restaurante, o Quintal de Betti, que rapidamente se tornaria uma das novas sensações gastronômicas de São Paulo. Em dezembro, o empresário acrescentou mais um endereço ao seu portfólio: a lanchonete Sheikh+QBurgers, que serve hambúrgueres feitos com a mistura de cortes dry aged e carnes tradicionais in natura. “É ainda algo pouco conhecido por aqui”, diz. A fome de expansão também ocorre na parceria do Pão de Açúcar com a Friboi. “Desde que começamos a oferecer o produto nas lojas, a curva de consumo é crescente”, conta Luís Otávio Moura, gerente de desenvolvimento do Pão de Açúcar. A ideia agora é levar o serviço a outras regiões do país. Como se vê, para desespero da turma dos vegetarianos, o apetite por carne continua voraz.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 28 DE MARÇO

DEUS VESTIU PELE HUMANA

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus (João 1.1).

O apóstolo João, no prólogo do seu evangelho, diz: E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai (v. 14). Esse é um mistério sublime. O Deus transcendente tornou-se imanente. Esvaziou-se aquele que nem o céu dos céus pode conter. Nasceu numa manjedoura aquele que criou todas as coisas pela palavra do seu poder. Foi enfaixado em panos como um bebê aquele que é o Senhor do universo. Tornou-se perfeitamente homem aquele que é perfeitamente Deus, sem perder sua natureza divina. Fez-se pecado aquele que é santo. Foi feito maldição aquele que é bendito eternamente. Aquele que é o autor da vida deu sua vida para nos remir do pecado. Deus vestiu pele humana e veio habitar entre nós. Os céus desceram à terra. Cheio de graça e verdade, vimos na face de Cristo a glória do Pai. Ele e o Pai são um. São da mesma essência. Quem vê o Filho vê o Pai e quem tem o Filho tem igualmente o Pai. A encarnação do Verbo é a expressão máxima da graça. Deus não nos abandonou em nosso pecado, mas desceu até nós na pessoa de seu próprio Filho para nos remir do pecado, nos arrancar do império das trevas e nos livrar da ira vindoura. Essa é uma mensagem de esperança. É o caminho aberto por Deus desde o céu, é a porta aberta da graça aos pecadores. É a oferta graciosa do perdão. Por meio de Cristo, podemos achegar-nos a Deus confiadamente, sabendo que ele nos aceita, nos recebe e nos oferece salvação e vida eterna.

GESTÃO E CARREIRA

POR UM PLANETA SEM LIXO

Necessidade de diminuir descarte de resíduos no meio ambiente gera oportunidades para empreendedores engajados

“Se não mudarmos de rumo agora, seremos destruídos pelas mudanças climáticas. “A frase, dita pelo secretário-geral da ONU, António Guterres, no último Fórum Econômico Mundial, que aconteceu no mês passado em Davos, é apocalíptica. Mas dá a dimensão do problema. De acordo com ele, tanto empresários quanto autoridades públicas precisam repensar a dinâmica da economia e o modo como produzimos na indústria, nos movemos e planejamos as cidades. “Isso será essencial”, decretou António no evento, que bateu com força na tecla da preservação ambiental.

Embora figuras importantes, como Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, questionem o aquecimento global, cada vez mais os consumidores se preocupam com as demonstrações de desgaste da Terra. Movimentos como o liderado pela ativista sueca Greta Thunberg, de 16 anos, espalham-se à medida que crescem os desastres no planeta.

Só no último ano, incêndios dizimaram a população de coalas na Austrália, a cidade de Veneza, na Itália, ficou debaixo d’água e fotos de satélite mostraram, em pleno Oceano Pacífico, uma ilha de plástico três vezes maior que o território da França. “Os sinais estão evidentes e vêm sendo propagados por uma série de celebridades. Isso muda a percepção das pessoas, que se sentem inspiradas a ter um comportamento mais sustentável”, diz Angélica Salado, gerente de pesquisa da Euromonitor International, consultoria de inteligência de mercado.

Em 2019, a Euromonitor fez uma pesquisa global sobre estilo de vida com cerca de 30.000 pessoas ao redor do mundo e mostrou que 64% delas acreditam ser possível fazer a diferença melhorando suas escolhas ele consumo, 61% estão preocupadas com as mudanças climáticas e 35% pretendem comprar itens de segunda mão para frear o descarte.

Outro estudo, denominado Who Cares, Who Does, da Kantar, líder global em dados e insights sobre comportamento do consumidor, ouviu mais de 65.000 pessoas em 24 países e detectou que um terço delas está em alerta com as questões ambientais, sendo que 16% já adotam práticas para diminuir seu impacto individual no planeta. Ao aplicar um filtro na América Latina, a consultoria descobriu que 72% dos respondentes carregam sacola reutilizável para fazer compras ou garrafinha de água para refil. “É uma mudança na forma de consumir. E, quanto maior o PIB e o acesso à educação, maior o engajamento com a questão ambiental”, afirma Kesley Gomes, diretora da Kantar Worldpanel.

É possível perceber mudanças até na geladeira do brasileiro. Levantamentos recentes da Kantar, por exemplo, refletem isso. A pesquisa Who Gare, Who Does mostrou que 27% dos lares no Brasil tiveram algum tipo de alteração de hábito alimentar no último ano, como redução do consumo de produtos industrializados, refrigerantes, açúcar e carne vermelha. Além disso, o estudo revelou que quase metade dos entrevistados (48%) espera que as empresas façam mais para cortar resíduos plásticos.

MENOS RESÍDUOS

Atentos, gigantes como Nestlé, Coca-Cola, Unilever, Walmart e Carrefour já se comprometeram a transformar todas as suas embalagens em reutilizáveis, recicláveis ou compostáveis até 2025. No Brasil, a Coca-Cola espera que até o final deste ano 40% das garrafas que produz sejam retornáveis.

É essa onda que surfam os chamados negócios de “lixo zero”. Embora não existam dados consolidados sobre o crescimento desse tipo de empreendimento, especialistas veem uma guinada nas iniciativas. “Nos últimos anos, houve um aumento de empresas voltadas para a temática do lixo zero, principalmente as que comercializam produtos para substituir itens plásticos descartáveis de uso diário, como canudos, copos, sacolas e artigos de higiene”, afirma Denise Hamú, representante do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente no Brasil. “Perfis e páginas que fornecem informações sobre substituição de descartáveis e consumo consciente ganham centenas de seguidores diariamente. E isso indica um interesse da população pela temática”, completa.

A geógrafa Lívia Humaire, de 37 anos, é um exemplo. Em 2014, decidiu mudar os hábitos de consumo e diminuir 85% da produção de lixo de sua família, documentando tudo nas redes sociais (seu Instagram @transicoes_ecologicas tem 12.000 seguidores). Em 2017, ela fez uma viagem à Europa para pesquisar negócios revolucionários de desperdício zero. Voltou convencida de que havia ali uma oportunidade e de que abriria algo com esse viés no Brasil. Foi assim que nasceu, em setembro de 2018, a loja Mapeei – Uma Vida Sem Plástico, em São Paulo.

Para executar a ideia e levantar investimento, ela (que hoje está morando na Suíça) iniciou uma campanha de crowdfunding no Catarse. Arrecadou, na época, 16.650 reais. O restante do aporte, cerca de 100.000 reais, veio do próprio bolso e da sócia, a atriz e designer de moda americana Lori Vargas, de 44 anos. “Tudo que entra é reinvestido na loja. Não temos lucro, mas já alcançamos o breakeven [ponto de equilíbrio nos negócios)”, diz Lori. O foco da Mapeei é vender produtos e ferramentas que possibilitem uma vida com menos embalagens: há de cosméticos em barras a itens como marmitas, copos e canudos reutilizáveis. Os preços variam de 5 a 143 reais. Só entram no estabelecimento artigos cuja cadeia produtiva dispense o uso de plástico. “Nosso maior desafio é encontrar os fornecedores. Quando começamos, não havia opções. Escova de dentes de bambu, por exemplo, só lá fora. Agora já temos alguns produtores locais”, diz Lori. Na abertura da loja, as duas contavam com 200 produtos. Hoje, já são mais de 600. “Em pouco mais de um ano, nossas vendas triplicaram.”

Saíram de um único funcionário para uma gerente e três vendedoras. “Na primeira semana, nós vendemos todos os produtos e ficamos na correria atrás de mais, porque a maior parte da produção ainda é artesanal. Nossa primeira fornecedora de tecido de cera de abelha fazia as peças na sala da casa dela. Hoje ela já possui uma pequena fábrica”, diz Lori, para exemplificar o avanço desse mercado.

ECONOMIA CIRCULAR

De acordo com o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil, realizado pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), o Brasil gerou 79 milhões de toneladas de lixo em 2018. Em média, cada cidadão produziu 380 quilos de resíduos sólidos urbanos, totalizando 1 quilo por dia. E o plástico é um dos principais vilões. “É o mais encontrado nos mares. Hoje, de 60% a 90% do lixo presente nos oceanos é composto de diferentes tipos de plástico. E cerca de 100.000 animais marinhos morrem todos os anos por causa disso”, diz Denise Hamú, das Nações Unidas. Ela pontua ainda que apenas 9% do lixo plástico gerado no mundo é reciclado.

É por essas e outras que especialistas em economia circular, modelo que prega o fim do descarte nas cadeias produtivas, acreditam que o capitalismo terá de se reinventar. “As empresas vão precisar criar produtos que sejam duráveis, reutilizáveis ou, então, que sirvam de matéria-prima secundária em um novo processo industrial”, diz Denise. Aldo Ometto, coordenador do Centro de Pesquisas em Economia Circular do Inova, centro de inovação da Universidade de São Paulo, concorda. “O caminho é o da reutilização. Como desenho um produto que, depois de usado, seja reincorporado ao sistema?”, diz o pesquisador, reforçando que as empresas que saírem na frente, colocando ideias de circularidade em prática, terão um ganho não só de reputação como também de receita. A Boomera, startup especializada em transformação de resíduos em novos produtos, aposta nisso. Fundada há oito anos, ela desenvolveu um método próprio, chamado Circular Pack. O mecanismo, aplicado em grandes companhias, segue seis preceitos: engajamento e sensibilização; estratégia circular; pesquisa e inovação; logística reversa; design e transformação; e novo início. Atendendo mais de 400 clientes, como Unilever, Natura, P&G, Down e Adidas, a Boomera cresce três vezes de tamanho a cada ano. E tem números que impressionam. Hoje, além de prestar consultoria em economia circular para gigantes fabris, a startup dá destino a mais de 60.000 toneladas de lixo anualmente, que são utilizadas como insumo para dois produtos vendidos pela própria Boomera: uma resina reciclada e uma linha de lonas, que podem ser usadas para a cobertura de piscinas, por exemplo. Esses itens, desenvolvidos em um laboratório que a Boomera mantém dentro do Instituto Mauá de Tecnologia, em São Paulo, são produzidos em uma fábrica própria por meio da transformação de garrafinhas, copos e outros produtos plásticos.

Para recolher esses materiais, a startup faz uma parceria com o grupo de supermercados Pão de Açúcar, onde possui mais de 100 postos de coleta. Quem recolhe esse “lixo” e leva para fábrica da Boomera são 8.000 catadores de cooperativas treinados pela própria startup. “Nossa sociedade é pautada pelo descarte. Por isso, precisamos de muitos outros negócios pensando em soluções. Há inúmeras oportunidades nesse ramo”, diz Guilherme Brammer, de 42 anos, fundador e CEO da Boomera, que começou com três funcionários e hoje já conta com mais de 150.

Em 2019, a Boomera contratou 50 pessoas, entre engenheiros de materiais e ambientais e economistas. Neste momento, existem cinco vagas abertas para o departamento comercial.

TENDÊNCIA DE CRESCIMENTO

Na visão de especialistas, quando os clientes se tornarem ainda mais exigentes, as companhias serão obrigadas (por uma questão de reputação e de sobrevivência) a dar uma destinação mais adequada aos artigos que fabricam. Ou seja, no futuro, profissionais e empreendimentos especializados em gestão de resíduos terão um enorme espaço. “Consultorias que souberem dimensionar o real impacto de cada negócio e conseguirem ajudar as empresas a repensar suas estratégias de produção serão muito bem-sucedidas”, afirma Angélica, da Euromonitor.

Esse é o caso da Casa Causa, consultoria de gestão de resíduos criada pela psicóloga Flávia Cunha, de 53 anos, e pela economista Luciana Annunziata, de 48, ambas com experiência em consultoria e transformação de cultura nas organizações. A dupla desenvolveu o modelo de negócios – que envolve palestras, eventos e experiências de sensibilização sobre redução de lixo – durante um programa de inovação social.

O investimento inicial da dupla foi de 50.000 reais, utilizados para viagens de estudo, desenvolvimento do site e ações de marketing para tornar a iniciativa conhecida. Nos últimos dois anos, a consultoria cresceu 40% em faturamento, melhorou a margem de lucro (18% em eventos e 20% em consultorias) e contratou seis pessoas, a maioria para a área de marketing e comunicação.

De acordo com as sócias, os especialistas são contratados por projeto, sob demanda. Para o Carnaval deste ano em São Paulo, a Casa Causa contratou mais de 3.000 pessoas. Isso porque fechou um projeto com a Ambev para dar uma destinação adequada ao lixo produzido no evento. “Há um aumento da pressão dos consumidores sobre as marcas que não fazem gestão de resíduos. E, cada vez mais, grandes empresas nos procuram para conhecer nosso trabalho”, afirma Flávia. A meta para 2020 é aumentar em 30% o número de clientes.

Hoje são dez, entre Casa Santa Luzia, Virada Sustentável e Alelo, que contratou a Casa Causa para sensibilizar os funcionários em relação ao problema dos resíduos. “Começamos com uma palestra no aniversário da empresa, criamos mutirões de limpeza e pensamos, junto com os times, em soluções para reduzir o desperdício. Também montamos comitês para trabalhar temas como resíduos de escritório e de alimentação”, diz Flávia. Um bom sinal de que o assunto avança no mundo corporativo.

TE CUIDA, CAPITALISMO

Pesquisas mostram mudanças no comportamento dos consumidores

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

PODEMOS CURAR O MEDO?

Tendemos a encarar qualquer perigo que presenciamos como ameaça pessoal – mesmo que essa “ameaça está do outro lado do mundo, sendo vista apenas pela televisão. Tomar uma pílula ajudaria a resolver isso?

Era o começo de 2004 e minha filha de quase 3 anos estava tomando banho de banheira. Quando o jato da hidromassagem ligou, ela ficou em estado de choque. Corri até ela e a encontrei de pé, vermelha de tanto chorar.  Muitos meses depois, ela ainda mantinha verdadeiro horror a banhos. Na condição de médico que estudou a neurobiologia do medo, eu sabia que o córtex pré-frontal de seu jovem cérebro tinha acabado de conectar seu “centro de segurança”, onde o raciocínio analítico pode se impor sobre emoções primitivas.

Tentei recorrer a seu centro cerebrais para suprimir o temor de que a banheira sempre produziria aquelas bolhas assustadoras, mas a resposta inata de seu corpo era forte demais. Ao adotar banhos de chuveiro e desviar sua atenção, consegui, pouco a pouco, fazê-la voltar a usar a banheira. Mas até hoje ela tem medo de bolhas.

Porque é tão difícil lidar com o medo? E o que podemos fazer a esse respeito? A terapia tem ajudado muitas pessoas; outros têm se valido da força que tiram de sua fé, de grupos de apoio. No entanto, em um mundo em que constantemente presenciamos acontecimentos de arrepiar os cabelos- como as consequências de um ataque de um homem-bomba, mostradas em cores na televisão de nossa sala, em sites da internet e na primeira página dos jornais – será que esse apoio verbal basta? Em resposta a uma preocupação crescente, estão surgindo remédios para controlar o medo. Resta saber se podemos – e mais, devemos – pura e simplesmente tomar uma pílula para reduzir nossas angústias.

Mais que um estado de espírito, o medo é químico. Surge dos circuitos cerebrais, nas trocas neuroquímicas entre as células nervosas e corresponde a uma reação física ao perigo. Desde que seja direto e real, é perfeitamente normal e ajuda a nos protegermos. Além disso, tem também um componente genético. Um rato irá se apavorar com o cheiro de uma raposa mesmo se tiver passado toda sua vida em laboratório. Da mesma maneira, nós, seres humanos, ficamos automaticamente apreensivos diante de situações que colocavam em perigo nossos antepassados.

Quando uma pessoa se sente ameaçada, seu metabolismo se acelera, antecipando a necessidade iminente de fugir ou de se defender. O “lutar ou correr”, também conhecido como reação ao estresse crônico, foi descrito pela primeira vez na década de 20 por Walter B. Cannon, um fisiologista da Universidade de Harvard. Cannon observou que os animais, inclusive seres humanos, reagem ao perigo por meio de uma descarga hormonal do sistema nervoso. O corpo lança uma torrente de hormônios vasoconstritores e aceleradores, da frequência cardíaca, entre os quais a epinefrina, a norepinefrina e o esteroide cortisol. O coração começa a bater mais rápido e mais forte, os nervos respondem em menor tempo, a pele esfria e fica arrepiada, os olhos se dilatam para enxergar melhor e as áreas do cérebro envolvidas na tomada de decisões recebem a informação de que é hora de agir.

No comando desses processos está uma pequena estrutura cerebral em forma de amêndoa, a amígdala. Joseph E. LeDoux, neurocientista da Universidade de Nova York, pioneiro no estudo dos mecanismos cerebrais de emoção e memória, a descreve como “o centro de comando cerebral do medo”. Nela são processadas as emoções primitivas de medo, ódio, amor e raiva – todas vizinhas no cérebro límbico que herdamos dos animais dos quais evoluímos. Trabalhando em conjunto com outros centros que a estimulam ou respondem a ela, a amígdala recebe informações sensoriais através do tálamo (o ‘receptor’ do cérebro), analisa esses dados com o córtex (responsável pelo raciocínio) e lembra delas por meio do hipocampo (que armazena as memórias).

De acordo com LeDoux, são necessários apenas 12 milissegundos para o tálamo processar as informações sensoriais e mandar um sinal à amígdala. Ele chama esse cérebro emocional de “estrada secundária”. A “estrada principal”, ou cérebro pensante, leva de 30 a 40 milissegundos para processar um acontecimento qualquer. “As pessoas têm medos que não entendem ou não conseguem controlar porque eles são processados pela estrada secundária”, afirma LeDoux.

O FATOR MEDO

Uma vez que uma pessoa aprende a se sentir amedrontada em relação a algo, ele ou ela tendem a associar um sentimento de pavor a essa experiência. E nós, seres humanos, podemos ficar assustados com acontecimentos sobre os quais só ouvimos dizer ou lemos em algum lugar – ou seja, podemos nos preocupar com desastres que talvez nunca nos atinjam. Se, pela ausência de um alvo apropriado, somos incapazes de responder ao causador desse medo, ficamos ansiosos.

Além disso, segundo estudos sobre a avaliação de riscos por seres humanos, realizados pelos psicólogos Robert J. Blanchard e D. Caroline Blanchard, da Universidade do Havaí em Manoa, em geral as pessoas não conseguem determinar com precisão o nível da ameaça. Tendemos a ver o risco como algo que nos afeta direta e pessoalmente, além de sentir o perigo de forma completamente irrealista quando lemos ou ouvimos falar de uma coisa ruim que aconteceu com outra pessoa.

Minha sogra, por exemplo, tem esclerose múltipla em um estágio bastante avançado, o que a mantém em uma cadeira de rodas há 20 anos. Meu cunhado apresentou um caso leve de esclerose múltipla, o que levou minha esposa, que é neurologista, a revelar seu temor – na verdade, quase uma certeza – de que ela seria a próxima. Toda vez que volta ao assunto de que está fadada à doença tento demovê-la da ideia citando estatísticas segundo as quais apenas 4% dos parentes próximos correm risco de apresentar a doença. ”A chance de você não desenvolvê-la é de 96%”, digo. Mas para ela, assim como para muitos outros, o problema está nos 4%. O amor por sua mãe e uma tendência natural a introjetar sua experiência geram o medo e a certeza do “destino certo”, não obstante seus amplos conhecimentos sobre neurologia.

O medo recorrente ou constante tem efeitos deletérios sobre o corpo, comparáveis ao que acontece se sempre andarmos com a canoa 140km/h. Isso aumenta, e muito, a chance de surgirem doenças cardíacas, derrames e depressão. Por isso, devemos concentrar nossos esforços na prevenção dos “assassinos comuns” – como os enfartes, que acontecem em decorrência de nossas constantes preocupações – e não em eventos fora do comum ou em epidemias exóticas. Senão, vejamos, em 2001, 2.978 pessoas morreram nos Estados Unidos em ataques terroristas, incluindo cinco vítimas de ataques com antraz. Naquele mesmo ano, de acordo com o Centro para Controle de Prevenção de Doenças, 700.142 pessoas morreram de problemas cardíacos, 553.768de câncer, 101.537 em acidentes, e 30.622 por suicídio. Assassinatos (sem contar os ataques de 11 de setembro) foram responsáveis por apenas 17.330 mortes.

O que podemos fazer em relação ao medo irracional? Não há tratamento padrão, em parte porque os sintomas variam de um indivíduo para outro. Uma pessoa pode se sentir destinada ao azar e ter um sentimento maior de apreensão em função de determinada tendência familiar. O corpo de alguns libera hormônios do “lutar ou correr” mais facilmente que o de outros. Até o momento, terapias longas que procuram reeducar pacientes para que não ativem seus temores têm sido a principal solução. Mais recentemente, no entanto, estudos sugerem que a terapia poderia ser complementada por uma simples pílula capaz de bloquear os receptores ou a produção dos sinais de medo, ou até por uma “vacina do medo”. Mas o objetivo das pesquisas não é encontrar uma vacina tradicionalmente: o sistema imunológico desenvolve a capacidade de se proteger em resposta à presença de um agente infeccioso induzido no corpo. Em vez disso, a ideia é preparar quimicamente o sistema imunológico para que seja o mais saudável possível, tornando o corpo menos suscetível a reagir de forma exagerada aos medos e ameaças.

Uma das primeiras indicações de que o tratamento do medo poderia se dar impedindo que determinados sinais fossem recebidos ou transmitidos pelos neurônios veio do trabalho do neurocientista Larry Cahill, da Universidade da Califórnia em Irvine. Em 1994, Cahill testou em seres humanos os efeitos da droga propranolol, um betabloqueador que impede a recepção de hormônios do stress chamados catecolaminas. Ele descobriu que essa droga fazia as pessoas se lembrarem melhor de uma história amena e leve que de uma assustadora. Em geral, a ansiedade suave que surge ao escutarmos um relato emocionante faz com que ele seja mais memorável que uma história enfadonha. É comum o uso de propranolol no controle da ansiedade e tratamento de pressão alta e outras doenças relacionadas, mas a pesquisa de Cahill sugere que essa substância tem um grande potencial no tratamento do medo.

Nessa mesma linha, Roger K. Pitman, professor de psiquiatria da Universidade Harvard, formulou a hipótese de que o uso de propranolol pode prevenir tanto a fixação de memórias relacionadas ao medo como atenuar a resposta do tipo “lutar e correr”. Em 2002, Pitman e sua equipe observaram os efeitos da administração de propranolol a 41 pacientes de um pronto-socorro seis horas após a ocorrência de um evento traumático (acidentes de carro em sua maioria). Os participantes do estudo receberam a droga por dez dias. Três meses após o trauma, Pitman observou uma incidência significativamente menor de problemas relacionados ao stress pós-traumático entre aqueles que haviam recebido a droga que no grupo de controle, que não havia usado o propranolol.

Outro modo de obstar as reações causadas pelo medo é impedir a produção de seus sinais. De acordo com LeDoux e Karim Nader, da Universidade McGill, em artigo publicado na edição de 17 de agosto de 2000 da revista Nature, ratos que receberam uma injeção de anisomycin, um antibiótico que inibe a síntese proteica, tinham sua memória do medo bloqueada. Eles eram incapazes de se lembrar de um susto anterior e não desencadeavam a reação de ‘lutar ou correr’ porque a amígdala não podia produzir as moléculas que enviavam os sinais de perigo.

Outra abordagem consiste em reduzir a reação neural desmedida. Um estudo do neurobiólogo Jonathan Kipnis, atualmente no Centro Médico da Universidade de Nebraska, e colegas, publicado na edição de 25 de maio de 2004 do Proceedings of the National Academy  of Sciences, USA, revelou evidências de que vacinas imunológicas poderiam impedir o medo excessivo. Eles injetaram em camundongos normais drogas da família das anfetaminas que causam sintomas psicóticos. Alguns dos animais receberam a vacina protetora, um coquetel conhecido como acetato de glatiramer, ou copolímero-1(Cop-1), um grupo de controle não foi vacinado. A Cop-1 estimula a produção de células T do sistema imunológico, que impedem as células nervosas de se tornar “irritadiças” ou de ter reações “explosivas”. Os camundongos que receberam a Cop-1 conseguiram atravessar um labirinto seguindo padrões conhecidos, mas o mesmo não ocorreu com os do grupo de controle. Aqueles que receberam a Cop- 1 apresentavam um comportamento normal e calmo, o que sugere terem escapado do estado de pânico. Esse tipo de modulação imunológica ainda tem de ser estudado em seres humanos, mas tudo indica que os resultados podem ser positivos.

Atenuar memórias assustadoras com pílulas ou vacinas não é, contudo, o mesmo que treinar o cérebro para lidar melhor com situações futuras. Independentemente do desenvolvimento desses medicamentos, a terapia continuará a desempenhar importante papel no tratamento do medo. O Conselho Presidencial de Bioética americano colocou a situação nos seguintes termos em Beyond Therapy (Para além da terapia): ‘O uso de atenuadores de memórias quando da ocorrência de eventos traumáticos pode interferir nos processos psicológicos normais. (…) Há o risco de que nossos novos remédios farmacológicos possam nos fazer ‘felizes’ ou impassíveis diante de coisas que deveriam ser problemas ou mesmo nosdeixar tristes, revoltados ou inspirados -que nossas almas medicadas ficarão estáveis não importa o que aconteça conosco ou à nossa volta”.

Por anos tenho tentado ajudar pacientes a lidar com seus medos de doenças sem saber se estou tendo sucesso ou não. Ao estudar os circuitos cerebrais do medo, descobri que ensinar pode não levará automaticamente a aprender. O medo é uma reação profundamente enraizada e difícil de ser controlada pelo cérebro. Às vezes é impossível evitá-la. A experiência da minha filha com as bolhas me ensinou que, se o medo é esquecido, é porque uma nova emoção tomou o seu lugar (ela criou coragem para voltar a tomar banho de banheira). Essa cura acontece no seu próprio ritmo, e pais ou médicos em geral têm pouco controle sobre ela.

Para dominarmos o medo, precisamos voltar a suas origens primitivas, um instinto especial para nos proteger de perigos físicos reais. Devemos deixar de fazer dele algo exclusivamente pessoal. Precisamos resistir aos que, na mídia e em outroslugares, acentuamos perigos errados e enfatizam a necessidade de responder a eles – o que faz com que a ameaça pareça ainda mais real. É preciso botar os pés no chão e dominar os aspectos controláveis de nossas vidas. Mais ainda, devemos substituir nossos medos irreais por coragem verdadeira.

OUTROS OLHARES

SÓ POR HOJE EU NÃO VOU…

Como o vício em jogos eletrônicos, já classificado como um tipo de doença pela Organização Mundial da Saúde, afeta a vida de milhões no Brasil e no restante do mundo

Entre 2017 e 2018, João Pedro Meirelles, hoje com 21 anos, passou de 12 a 13 horas diárias ininterruptas em partidas de Rainbow six, jogo de tiro focado em realismo, estratégia, planejamento e trabalho em equipe. Na versão on-line, duas equipes duelam divididas entre ataque e defesa. O superestímulo que ele sentia a cada vitória o impulsionava a seguir a rotina, igualmente marcada pela intensidade da frustração nas derrotas. Estudante de ciência da computação no Insper, Meirelles até tentou parar com o videogame, mas foi em vão. Antes de encontrar ajuda especializada, considerou o suicídio. “Joguei muito nessa época. E isso me consumiu. Acabei sofrendo de depressão. O jogo de fato destruiu minha vida naquela época”, disse Meirelles, diagnosticado como dependente de videogame. Ele não está sozinho.

Depois de décadas de debate, a Organização Mundial da Saúde (OMS) incluiu, no ano passado, o vício em jogo eletrônico em sua Classificação Internacional de Doenças. Pela nova definição, a primeira pista de que algo está errado é quando o usuário eleva o nível de prioridade dos games a ponto de prejudicar aspectos de sua vida pessoal, a convivência com amigos e família, tarefas acadêmicas e ocupacionais – algo que lembra outros vícios, como álcool ou drogas. O padrão deve ser contínuo por, no mínimo, um ano para que o diagnóstico seja feito, dizem as regras da OMS, que estima em, no mínimo, 60 milhões o número de pessoas que sofrem com a falta de controle sobre o tempo que passam jogando. Esse número representa 3% dos 2 bilhões de usuários da videogames no mundo. “O dependente vai secando. Ele faz menos coisas, seu repertório diminui, seu universo existencial vai aos poucos se limitando ao objeto de dependência. Ele deixa de sair com os amigos, de jantar com a família, tranca a faculdade”, disse Aderbal Vieira Júnior, psiquiatra que coordena o ambulatório de dependência de comportamento do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). A decisão da OMS seguiu a da Associação Americana de Psiquiatria (APA, na sigla em inglês), que incluiu “distúrbio de jogo on-line” no Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais em 2013 como uma condição que precisa de atenção. Segundo a APA, o distúrbio apresenta características como abstinência, incapacidade de reduzir o tempo dedicado aos jogos, o ato de enganar membros da família sobre a quantidade de tempo gasto e o desenvolvimento de uma tolerância que faz com que o jogador passe a precisar cada vez mais do videogame. Os psiquiatras americanos pedem mais pesquisas, mas boa parte dos estudos já feitos indica um quadro preocupante.

Inês Caldas e João Reis, pesquisadores do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa (CHPL), em Portugal, fizeram uma revisão dos trabalhos existentes e chegaram à conclusão de que entre 1% e 10% dos jogadores ocidentais sofrem da desordem do videogame. Na Ásia, o número encontrado foi ainda maior, abrangendo de 10% a 15% dos gamers. Isso explica o fato de que os governos do Japão e da Coreia do Sul já tenham aprovado legislação para colocar limites à indústria dos desenvolvedores de games. Recentemente, a China vem dificultando a aprovação de novos jogos. No Ocidente, governos na Europa estudam medidas semelhantes.

Mesmo diante da escalada de ações contra os videogames, críticos no meio científico colocam em xeque a ideia de que videogame pode ser algo viciante. Muitos falam que faltam mais estudos sobre o tema. Outro argumento é que o excesso de horas à frente da tela é um sintoma de um problema mais profundo – de depressão a ansiedade. Laisa Sartes, professora do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), estudiosa do tema, confirma a existência de fatores como insegurança e baixa autoestima entre os jogadores assíduos. “A tela é a fonte da gratificação que eles não encontram na vida real”, disse. Outra crítica é que as pessoas são viciadas em produtos, como cigarros e bebidas, não em atividades, como corrida e pescaria. Esse é um dos argumentos do psicólogo Andrew Przybylski, diretor do Oxford Internet Institute, ligado à Universidade de Oxford, e conhecido contestador da decisão da OMS. “As pesquisas que atestaram a dependência dos games até agora são de má qualidade”, opinou Przybylski.

Embora não haja ninguém sério contra a ideia de fazer mais pesquisas sobre o assunto, existem pelo menos duas boas razões para soar o alarme já agora, antes da aparição de uma maior produção acadêmica sobre os efeitos dos jogos. Como a maior parte dos videogames hoje é on-line, os desenvolvedores têm uma quantidade enorme de dados para analisar e descobrir o que faz os jogadores ficar mais tempo diante da tela do celular ou do computador. Além disso, os dados permitem saber o que faz os usuários querer pagar mais por troféus ou upgrades. Com essas duas informações, é fácil criar incentivos para que crianças e jovens fiquem cada vez mais horas engajados nos jogos e, acima de tudo, gastem mais dinheiro. Usando o exemplo da pescaria do crítico Przybylski, é como se, cada vez que o pescador pensasse em ir para casa, sentisse o anzol sendo fisgado por um peixe maior.

Pode até ser discutível se um governo tem o direito de proibir um adulto de passar o dia inteiro jogando videogame, mas, quando o alvo são crianças e adolescentes, a discussão ganha outra dimensão. Não é mera coincidência que os jogadores de games mais assíduos sejam chamados pelo setor nos Estados Unidos de “whales” (baleias), o mesmo termo usado na indústria dos cassinos para designar os usuários viciados no jogo.

Um jovem de 15 anos do interior de Pernambuco reconhece que não tem mais controle. “Quanto mais a gente joga, melhor fica nosso personagem no game e somos mais respeitados pelos outros usuários. Até temidos. Isso me motivava a jogar cada vez mais”, contou o rapaz, que busca ajuda para parar. “Eu me sinto mal por passar muito tempo jogando. Ando pesquisando sobre relatos de pessoas que deixaram seu vício em redes sociais para ver se me dá ânimo para parar de vez”. O canadense Cam Adair já esteve nessa posição. Aos 21 anos, havia abandonado o ensino médio duas vezes por causa do videogame. “Na escola, eu sofria bullying. Já no videogame, eu não precisava me preocupar com crianças me intimidando porque, se o fizessem, eu poderia bloqueá­ las, mudar para um servidor diferente ou jogar um jogo diferente”, escreveu Adair em sua biografia. Em 2011, quando havia conseguido melhorar, ele escreveu um poderoso desabafo em um blog com o título “Como parar de jogar videogames para SEMPRE”. O artigo viralizou, e ele criou a plataforma Game Quitters. O fórum reúne pessoas de mais de 60 países, incluindo o Brasil, com algum grau de dependência.

Ao redor do mundo, começam a aparecer clínicas de tratamento especializadas. Próximo de Seattle, noroeste dos Estados Unidos, foi aberta a reStart, em Fali City, que cobra US$ 30 mil (R$ 122 mil) pelo tratamento de nove semanas. Em um alojamento, os internos passam por uma espécie de detox de qualquer tipo de tela. Para se comunicar com as famílias, usam apenas um telefone fixo.

“Como eu tenho feito esse trabalho na prática há muitos anos, sei que eles precisam de uma abordagem holística”, explicou a cofundadora e diretora clínica Hilarie Cash. Ela inaugurou sua primeira clínica de tratamento de viciados em internet em 1994. De lá para cá, recebe pacientes dependentes de videogame. A frequência dos casos a levou a abrir um espaço especializado, em 2009. “Eles chegam com a saúde física muito debilitada. Com grave privação de sono, má nutrição e falta de exercício físico. E também precisam de ajuda para desenvolver habilidades emocionais, de socialização e de comunicação. Esses meninos não sabem lidar com suas emoções e se refugiam no videogame”, afirmou.

O Reino Unido inaugurou, em outubro deste ano, uma clínica voltada para o problema dentro do National Health Service (NHS), o sistema público de saúde britânico, que equivale ao SUS. Os pacientes podem se tratar pessoalmente ou via Skype. No Brasil, ainda não há espaços especializados. Atualmente, é possível encontrar tratamento em centros para dependentes em internet, como o ambulatório de dependência de comportamento do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes da Unifesp e o Instituto Delete – Detox Digital e Uso Consciente de Tecnologias, do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), comandado pela psicóloga Anna Lucia King. “A gente oferece tratamento gratuito e faz uma triagem toda sexta-feira”, afirmou a coordenadora do grupo. Já o governo federal criou a Coordenação-Geral de Enfrentamento a Vícios e Impactos Negativos do Uso Imoderado de Novas Tecnologias. O órgão é subordinado ao Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos e planeja iniciar neste ano uma formação de professores à distância para que o tema seja tratado nas escolas. “Queremos conversar sobre jogos. Não queremos demonizar a tecnologia, mas sim falar sobre o uso consciente e adequado”, disse o coordenador, Daniel Celestino.

Acuados pela decisão da OMS e por ações governamentais, representantes do setor de videogame se esforçam para não ser classificados como vilões. A indústria dos games é grande, lucrativa e atende milhões de clientes que não são viciados. “O jogo pode se transformar em dependência ou em uma forma de fuga. Mas também pode ser alguém querendo construir uma carreira, exatamente como um atleta de futebol: ele inevitavelmente vai perder algo para se dedicar ao esporte”, disse Leandro Takahashi, de 41 anos, presidente da Confederação Brasileira de eSports (CBeS). O Brasil é um mercado importante para a indústria de videogames. De acordo com o Global Games Market Report de 2018, o país tem 75 milhões de usuários que movimentam US$ 1,5 bilhão (R$ 6,1 bilhões). Segundo a Newzoo, uma consultoria internacional de análise de dados do mundo dos games, esse é o 13° maior mercado do mundo. Nesse segmento, não há discriminação de gênero – 50% dos homens e 51% das mulheres brasileiras com acesso à internet jogam no celular, enquanto 44% dos homens e 38% das mulheres usam computadores. Além disso, 83% dos jogadores gastaram dinheiro em itens de jogo ou com bens virtuais no segundo semestre de 2018, dado mais recente divulgado. Dentro desse universo, os brasileiros são particularmente engajados em jogos de tiros. Segundo Takahashi, é justamente nesse filão que os jogadores daqui se destacam internacionalmente. Atualmente, cerca de 5 mil pessoas são atletas profissionais de eSports no país em diferentes games.

No Brasil, os atletas são recrutados em todo o país e vivem em sua maioria na capital paulista, em casas nas quais treinam diariamente, em média por oito horas. No tempo livre, eles são liberados para fazer o que desejarem – incluindo continuar jogando. Em algumas dessas equipes, um profissional de psicologia é destacado para acompanhar o desenvolvimento dos atletas – que são, em geral, homens e jovens entre 16 e 25 anos. Na Team Liquid, uma das cinco maiores equipes do mundo, com sede na Holanda e da qual Michael Jordan é um dos acionistas, quem faz esse trabalho é Claudio Godoi. Ele coordena sete rapazes brasileiros que dividem um apartamento de três quartos em São Paulo – cujo endereço não é revelado por causa do grande assédio dos fãs.

ALlMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 27 DE MARÇO

JESUS RESSUSCITA A FILHA DE JAIRO

Tomando-a pela mão, disse: Talitá cumi!, que quer dizer: Menina, eu te mando, levanta-te! (Marcos 5.41).

A morte traz em sua mochila muita dor ao nosso coração. Não fomos criados para morrer. A morte sempre nos deixa atordoados. Depois de demonstrar seu poder sobre a tempestade, libertar um homem possesso e curar uma mulher enferma, Jesus revela seu poder sobre a morte, ressuscitando uma menina de 12 anos. O pai dessa menina é Jairo, o chefe da sinagoga. Era um homem religioso e de grande prestígio na comunidade. Seu dinheiro, sua popularidade e sua religião, porém, não puderam evitar aquele doloroso golpe. Jairo vê a filha única sendo ceifada pela morte precocemente. Vai a Jesus, prostra-se a seus pés e pede ao Mestre que vá com ele à sua casa para curar-lhe a filha. Estavam ainda a caminho quando o pai foi informado que a menina já estava morta. Jesus lhe diz: Não temas, crê somente (Lucas 8.50b). Quando Jesus caminha conosco, não precisamos temer más notícias. Quando Jesus está conosco, o solo da ressurreição prevalece sobre o coral da morte. Quando Jesus manifesta seu poder, a morte não tem a última palavra. Jesus ressuscitou a menina e a devolveu a seus pais. A alegria da vida triunfou sobre a tristeza da morte. Porque Jesus venceu a morte, não precisamos mais ter medo do amanhã.

GESTÃO E CARREIRA

A HORA DA VERDADE

A crise aguda na Bolsa de Valores provocada pelo coronavírus é teste para mais de 1 milhão de novatos que investiram em ações nos últimos dois anos

O primeiro “circuit breaker” a gente nunca esquece – nem o segundo, nem o terceiro, nem o quarto… Ainda mais quando eles chegam juntos, como nesta semana, para mais de 1 milhão de pequenos investidores que entraram na Bolsa de Valores nos últimos dois anos. O mecanismo de paralisação dos negócios foi acionado às 10h30 da segunda-feira 9, quando o índice Ibovespa despencava 10%. Aquele botão de emergência automático não intervinha para acalmar os ânimos desde o chamado “Joesley Day”, quando se conheceu a delação do sócio da JBS, Joesley Batista, em maio de 2017.

Em retrospectiva, o tombo há três anos parece pequeno. Agora o medo é global, provocado pelas projeções dos efeitos que a pandemia do novo coronavírus terá na economia real e pela queda de braço entre sauditas e russos sobre o preço do petróleo. Na quarta-feira 11, a crise sem hora para acabar provocaria uma nova parada nas negociações na Bolsa brasileira. No mesmo dia, o índice Dow Jones, que mede a performance das maiores empresas americanas, tinha uma queda que acabava com um período de 11 anos de buli market, jargão usado para descrever um longo ciclo de alta. Na quinta-feira 12, a parada na Bolsa brasileira se repetiria duas vezes somente pela manhã – e ninguém fazia ideia de quando essa onda de “circuit breakers” teria fim. Para completar, o dólar passou, pela primeira vez, a barreira dos R$ 5.

A primeira grande crise da Bolsa de Valores na era digital – em 2008, apenas 34% da população brasileira tinha acesso à internet, hoje são mais de 70% – tem tido uma boa dose de humor. Um dos vários memes que circularam nos últimos dias fazia referência a uma propaganda do ano passado da Empiricus, uma empresa de análise financeira, que começava com “Oi, meu nome é Bettina e eu tenho 22 anos e R$ 1,04 milhão de patrimônio acumulado” e prometia o enriquecimento com o investimento em ações. Atualizado no começo da segunda semana de março por tuiteiros, a mensagem mudou para: “Oi, meu nome é Bettina, tenho 22 anos e R$ 700 mil de patrimônio”. Na quinta-feira 12, já havia uma nova versão: “Oi, meu nome é Bettina, tenho 22 anos e estou te convidando para o meu bazar de roupas no próximo domingo”.

Travestido de piada, o meme embutia uma crítica a uma certa euforia que, desde o fim de 2018, tomou conta de parte dos “influencers” de investimentos e de casas de análise independentes. Muitos deles esqueceram de falar dos riscos embutidos no investimento em ações com a mesma ênfase que davam às oportunidades. Não faltou quem incentivasse as pessoas a virar day traders, gente que passa o dia comprando e vendendo ações, o que pode dar certo num mercado que só sobe, mas se complica quando o cenário fica turvo e é preciso pagar a escola dos filhos e a conta de luz.

“Com o fim do juro alto e do ganho generoso que vinha das aplicações financeiras de renda fixa, o brasileiro ficou na incerteza em relação a seus investimentos. E, nesse cenário, está vulnerável a todo tipo de informação”, disse Vera Rita de Mello Ferreira, doutora em psicologia social, com especialização em psicologia econômica.

Arnaldo Curvello, sócio diretor da gestora Ativa, brinca que, na alta, todo mundo vira gênio, todo mundo é guru. “O problema da rede social foi que ela gerou a falsa impressão de que tomar risco era sinônimo de ganhar, de vida fácil”, disse Curvello.  A Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o órgão encarregado de fiscalizar o mercado financeiro no Brasil, recebeu, no ano passado, cerca de 40 reclamações contra os chamados “consultores e analistas financeiros” que ofereceram cursos ou dicas em troca de dinheiro. O número, provavelmente subnotificado, é 50% maior que em 2018. Somente casos em que há pedido de dinheiro em troca das informações ou recomendação de ações são investigados. Patrocínios não divulgados de youtubers não viram alvo. Com esse histórico de muitos conselhos exagerados, o temor agora é de uma debandada dos novatos da Bolsa num momento de preços em queda. “Muita gente corre o risco de ter subido de escada e agora descer de elevador”, disse Samy Botsman, sócio diretor da Faros Investimentos, consultoria financeira com sede no Rio de Janeiro.

Ben Bernanke, que pilotou o banco central americano, o Fed, na pior tormenta financeira desde a Grande Depressão, costuma dizer que as pessoas aprendem mais em momentos de grande abalo econômico do que com pequenas crises. Na segunda semana de março, os pequenos investidores brasileiros pareciam se dividir em dois grupos. Um dava sinais de estar resistindo ao derretimento das ações e o outro estava vendendo com perdas pesadas. A Bolsa brasileira ainda não havia consolidado os números oficiais, mas dados preliminares divulgados por corretoras indicavam – até aquele momento – um efeito difuso. Ainda assim, não faltaram brincadeiras nas redes sociais. Um meme do perfil satírico MonkeyStocks dizia: “Dados de mortalidade do coronavírus: 60 a 69 anos – 3,6%. Investidor com seis meses de Bolsa – 98%”.

Na corretora Guide, de São Paulo, as quedas do Ibovespa geraram apreensão e muitos questionamentos de clientes. Num primeiro momento, havia mais gente comprando que vendendo. Na quinta-feira, quando uma nova onda de pânico tomou conta da B3, a situação mudou de figura. “Há muito pequeno investidor se desfazendo de suas posições. O cenário mudou. Agora não é apenas o coronavírus. Há também decisões do Congresso prejudicando as perspectivas da economia”, disse Luís Sales, analista da Guide, em referência à queda de braço dos congressistas com o Planalto.

Guilherme Fernandes, de 25 anos, tomou um susto quando acordou na segunda-feira 9. “Ué, a Bolsa parou? Por que as cotações estacionaram?”, lembrou Fernandes sobre o que veio a sua cabeça. Ele havia estreado na Bolsa em janeiro com recursos do seguro-desemprego. Depois de olhar o noticiário, leu que havia acontecido um “circuit breaker”, algo que até então desconhecia. Naquele dia, apenas observou, aflito. Quando a Bolsa foi forçada a parar novamente nos dias seguintes, ficou ainda mais tenso. “Daqui para a frente, vou avaliar quanto e como vou colocar em ações, estudar mais. Ainda bem que não caí naquele hype absurdo dos influencers da internet no ano passado. Poderia ter perdido mais dinheiro”, disse.

A pergunta de R$ 3,5 trilhões – o valor de mercado das empresas negociadas na B3 – é se a posição dos novatos que estão resistindo à tentação de sair da Bolsa vai se manter e se mais gente vai entrar. Os argumentos do ponto de vista mais otimista sustentam que os investidores têm motivos para “não realizar a perda” (só perde dinheiro quem vende as ações na baixa). O valor dos papéis é um reflexo das expectativas de ganhos futuros das empresas. Se o passado serve de guia, a economia é feita de ciclos e, depois de eventuais quedas, volta a ter altas.

Essa é a visão de longo prazo. A seu favor, tem a perspectiva de que o Banco Central volte a cortar ainda mais a taxa de juros, o que tornaria os investimentos em renda fixa menos atraentes do que estavam quando houve a grande migração de pessoas físicas para a Bolsa. “Não é um trauma que vai afastar os novatos da Bolsa, porque o processo de aculturamento está apenas no início. Na verdade, muita gente vai ver como uma chance de entrar. Para afastar mesmo, teria de haver uma depressão”, observou Márcio Correia, sócio da gestora JGP.

O problema é que o quadro hoje está ainda muito indefinido, com bancos e governos cortando previsões de crescimento para a economia mundial e também a brasileira, que, por sinal, já não vinha bem. O crescimento do PIB em 2019 foi de mísero 1,1 %. As dúvidas quanto ao futuro podem variar em grau, mas tendem a ser as mesmas em todas as partes do mundo. Basicamente, dizem respeito a como a economia de cada país será afetada internamente pela pandemia do novo coronavírus, o que cada governo tem à mão para combater os efeitos negativos e qual vai ser o tamanho da freada do PIB global.

Em países desenvolvidos, algumas medidas já foram tomadas na tentativa de atenuar as consequências negativas da crise. O primeiro movimento de peso veio dos Estados Unidos, onde o Fed surpreendeu ao anunciar um corte emergencial de meio ponto percentual em suas taxas de juros. Embora o corte tenha mais assustado do que tranquilizado os investidores, seu objetivo é estimular a atividade diante da demanda mais fraca com a epidemia. O Reino Unido anunciou um pacote de estímulos econômicos de US$ 38 bilhões, enquanto a Itália, segundo país mais afetado pela doença, vai gastar US$ 28 bilhões para aquecer sua economia paralisada.

No Brasil, restrições fiscais e a lentidão econômica dificultam a tomada de medidas, o que divide economistas. Enquanto os mais ortodoxos defendem reformas estruturais, como a tributária ou cortes nos juros, a ala mais heterodoxa propõe estímulos diretos por meio do caixa bilionário do BNDES e mesmo uma flexibilização do teto dos gastos. No câmbio, a discussão gira em torno da necessidade de mais intervenção pelo Banco Central.

Henrique Bredda, gestor do fundo de ações Alaska, tem 127 mil seguidores na FinTwit, a comunidade de pessoas que comentam mercado financeiro no Twitter. Ele é um dos que atestam a maturidade dos investidores brasileiros. Ao embarcar em um voo de São Paulo para Goiânia no fim do ano passado, Bredda foi abordado pela comissária. “E aí, zerou?”, questionou ela, referindo-se a um tuíte em que o gestor dava conta, naquele mesmo dia, que estava reduzindo sua exposição às ações da varejista Magazine Luiza, um dos papéis mais valorizados da Bolsa. A cena se repetiria com o recepcionista do hotel.

Pelo comportamento dos cotistas do Alaska durante a crise, Bredda está convencido de que esse tipo de cena vai continuar acontecendo. “Esperávamos pânico, mas o que houve foi uma rotatividade. Muita gente pediu para resgatar os investimentos, mas muitas pessoas também decidiram investir mais. O saldo tem sido positivo”, disse.

Quem estuda o mercado de perto tem uma impressão semelhante. Michael Viriato, professor de finanças do Insper, uma universidade em São Paulo, vê um pequeno investidor mais maduro e propenso a risco: “Quem saiu forte foram os investidores internacionais. Ainda não temos os números, mas, pelo que tenho observado, eu diria que muita gente que perdeu a festa do ano passado está aproveitando para entrar”, disse. A negociação dos papéis preferenciais da Petrobras no dia 9 tende a confirmar o que diz Viriato. Corretoras que costumam atender sobretudo clientes institucionais e estrangeiros, como os bancos Goldman Sachs e JP Morgan, venderam muito mais do que compraram. Na ponta contrária, corretoras que, majoritariamente, atendem pessoas físicas, como Clear, Genial, Rico e Easynvest, acabaram intermediando mais a compra das ações.

O universitário Bernardo Rubião tinha tudo para se considerar um azarado na Bolsa. Comprou R$ 500 em ações da Petrobras às vésperas do Joesley Day. “Perdi 40% e traumatizei. Disse: ‘Não quero mais brincar disso”, relembrou. Ficou um ano longe das ações, até que recobrou a confiança no fim do governo Temer. Mais uma vez, tomou um tombo. Apostou na Vale pouco antes do acidente de Brumadinho no ano passado. Mesmo assim, continuou investindo em ações e ganhou muito no ano passado. Na segunda-feira 9, assistiu perplexo a sua carteira na Bolsa desvalorizar em 30%, queda atenuada graças às aplicações em outras categorias, como renda fixa. Mesmo assim, não se desfez dos papéis. “A faca está caindo, não adianta tentar pegá-la em pleno ar, senão você se corta. Mesmo que a Bolsa continue caindo, não vou sair do investimento, porque acredito na recuperação”, afirmou o estudante de Direito.

Para quem quer colocar mais dinheiro em ações ou aproveitar a queda para começar a investir em renda variável, o consultor de investimentos Paulo Bittencourt, que atua no mercado financeiro há quase 30 anos, tem um conselho. Ele argumenta que não é recomendável investir na Bolsa por impulso, especialmente para quem é iniciante. O mais seguro, em sua opinião, é migrar da renda fixa para a chamada renda variável com fundos de ações. Um gestor profissional escolhe vários papéis que considera com maior chance de valorização. Para isso, cobra uma taxa de administração de quem aplica. E toma suas decisões baseado em centenas de informações, que geralmente não chegam à pessoa física. “O investidor vai receber relatórios do gestor, vai saber exatamente por que ele está comprando aquele papel. Se, depois de dois anos, a pessoa tiver perfil para as oscilações da Bolsa, pode começar a aplicar diretamente numa ação”, disse Bittencourt.

Em momentos de crise aguda como a atual, há sempre a possibilidade de novos desdobramentos inesperados. Quem diria há um mês que o príncipe saudita Mohammed bin Salman apertaria o botão da guerra do preço do petróleo com a Rússia, o que aconteceu no começo de março. Após três anos de cooperação, o russo Vladimir Putin discordou dos planos da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) sobre a nova redução coordenada na produção da commodity. Seria uma forma de sustentar a cotação do barril mesmo diante da demanda menor com o coronavirus.

A estratégia russa é derreter os ganhos da indústria americana de petróleo, mais sensível à queda do barril. Em represália à negativa russa, porém, a Arábia Saudita anunciou que cortaria seus próprios preços em mais de 10% e que aumentaria sua produção. Escolheria, assim, compensar a desvalorização com vendas maiores. O impacto nos mercados foi imediato. Já no domingo 8, o petróleo desabou mais de 30% logo na abertura dos pregões asiáticos, no maior tombo desde a Guerra do Golfo, em 1991. Bolsas de todo o mundo despencaram, ecoando temores de uma nova recessão global.

Apesar do desempenho maluco do lbovespa e de outros índices mundo afora, analistas reforçam que não é hora de desespero. Praticamente todos acreditam que, a despeito do sensível aumento do risco com a pandemia, a conjuntura econômica brasileira, com seus juros historicamente baixos, acaba tornando a Bolsa uma opção atraente. Longas séries históricas comprovam que, em horizontes mais estendidos, a tendência da Bolsa é subir. “Estou no meu sétimo circuit breaker e acredito que, no longo prazo, a Bolsa sobe. Hoje, ela já está em nível mais elevado do que em todas as ocasiões parecidas no passado. A humanidade anda para a frente”, disse Tiago Reis, fundador da Suno Research, uma empresa de análise financeira.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

NEM DE MARTE NEM DE VÊNUS

De acordo com um novo estudo sobre gênero, homens e mulheres não são tão diferentes quanto a mídia e alguns psicólogos nos levam a pensar. Meninas não têm a mesma capacidade matemática? Mentira. Os homens não se expressam tão bem quando o assunto é relacionamento? Também não é verdade. Problemas de auto- estima na adolescência, geralmente associados às meninas, afetam igualmente os rapazes.

Pelo menos é o que mostra uma pesquisa desenvolvida pela professora de psicologia Janet Shibley Hyde, da Universidade de Wisconsin, em Madison. Ela procedeu a uma revisão dos 46 estudos sobre gênero mais importantes dos últimos 20 anos. “Claro que há diferenças emocionais e cognitivas entre os sexos. Os homens são, de fato, mais agressivos fisicamente.” Mas para Hyde o estudo mostra que tendemos a nos concentrar mais nas diferenças do que nas similaridades e exageramos qualquer descoberta científica que aponte pequenos contrastes.

“Se aceitamos que os homens não se comunicam bem, quais são as implicações disso para o casamento? Porque uma mulher tentaria conversar com seu marido para resolverem seus problemas se ele fosse incapaz de compreendê-la? questiona. “Se temos certeza de que os meninos são melhores em matemática, ignoramos o talento matemático de muitas meninas. “Isso implica limitação das oportunidades profissionais das mulheres em áreas tecnológicas e científicas.

“Em vez de continuarmos a acreditar em psicólogos de programas de auditório, precisamos dar ouvidos a dados científicos que nos dizem quando estamos nos aferrando a falsos estereótipos”, sugere Hyde.

OUTROS OLHARES

OS ÓRFÃOS DO FEMINICÍDIO

É só o começo da tragédia quando o pai mata a mãe: a vida dos filhos fica marcada por aquela morte

“A pessoa que me disse (para não contar) foi meu pai. Que ele matou minha mãe, narrou, chorando, Eduarda, diante dos sete jurados no tribunal. A menina tinha 8 anos quando participou como testemunha do julgamento do assassinato de Josilene Ferreira de Araújo, de apenas 23 anos, sua mãe. Com a ajuda de uma psicóloga, a menina contou o que vira naquela noite de junho de 2016, no bairro da Paz, em Manaus, onde morava a família.

Aos poucos, com a voz fraquinha em meio a pausas por causa da emoção, a garota conseguiu reconstruir a cena. “Ele deu uma facada no pescoço, depois tirou ela para botar no outro quarto e botou um lençol em cima dela. Eduarda relatou ainda que a mãe tinha vomitado algo de cor “vermelha bem clara”, provavelmente em referência ao sangue pela casa. “Ele botou um travesseiro na cara dela para ela não respirar”, afirmou, quando um choro acompanhado de soluço veio à tona.

O testemunho de Eduarda, hoje uma menina calma, de sorriso tímido e olhos vivos, foi considerado decisivo para condenar o pai, Diego Pacheco. Ele alegava legítima defesa em relação às três facadas que dera em Josilene e negava tê-la asfixiado. O homem foi sentenciado a 17 anos e quatro meses de prisão por feminicídio. Matara a mulher com quem vivia havia dez anos, mãe de seus dois filhos, depois que ela descobrira uma relação extraconjugal e buscara apoio na família para se separar.

Se tragédias como a de Josilene começaram a ser contabilizadas em 2015, quando a legislação brasileira passou a classificar como feminicídio o assassinato em que o fato de a vítima ser mulher é determinante para o crime, o drama dos órfãos dessas famílias permanece invisível. Em muitos casos, perdem ao mesmo tempo a mãe, morta, e o pai, preso pelo crime hediondo. Eduarda e o irmão, ela aos 9 anos, ele aos 8, não estão sequer nas estatísticas, simplesmente porque inexistem dados a respeito dos filhos das vítimas. Nesta reportagem, as crianças serão identificadas com nomes fictícios para proteger ao menos sua identidade, já que o país não conseguiu proteger sua infância.

O Fórum Brasileiro de Segurança Pública projetou que, todo ano, os feminicídios deixam mais de 2 mil órfãos no país. A estimativa é baseada na quantidade de vítimas registradas em 2018, último ano com dados fechados, quando 1.206 mulheres foram mortas por serem mulheres – seja no contexto de violência doméstica, seja pelo menosprezo à condição de gênero, conforme define a lei que criou o feminicídio como circunstância qualificadora do homicídio.

Na memória de Vane Correia Machado, de 54 anos, e dos dois netos, João e Clarice, as pauladas desferidas pelo pai das crianças na mãe ainda estão vivas. Os três viram quando o homem começou a agredir com socos Aline Pâmela Teixeira Machado no quintal da casa onde moravam e, depois, a dar pauladas na mulher. Vane tentou ajudar a filha, mas foi atingida e chegou a desmaiar. A moça, de apenas 23 anos, morreu.

O filho mais novo deixado por Aline tem apenas 2 anos. É um garoto agitado, torcedor do Flamengo, que continua a perguntar pela mãe, morta há cerca de seis meses. Vez por outra, disse a avó, o menino pega algum pedaço de madeira ou cabo no quintal e simula a cena do crime. A reação de Clarice, de 9 anos, é diferente. “Ela não falava nada, nada, depois do que aconteceu. Hoje, ela já chora, olha fotos da mãe”, contou Vane.

Aline, que era caixa de uma grande rede de supermercados na capital do Amazonas, ajudava Vane com as contas de casa. Ela morava com a mãe, os filhos e o marido no mesmo imóvel, depois de resolver dar mais uma chance ao casamento que havia sido rompido. Agressões passadas levaram a jovem a registrar ao menos seis boletins de ocorrência, de acordo com documentos levados à Justiça. A moradia de dois quartos, sala e cozinha, com piso vermelho e móveis modestos, hoje é mantida com os bicos que a avó consegue fazer, como a venda de roupa íntima de porta em porta. Amigas de Aline também ajudam doando mantimentos para a família. Agora com duas crianças para criar, Vane, que nem chegou a completar o ensino fundamental, enfrenta com dificuldade as burocracias decorrentes da morte da filha. Ainda não conseguiu qualquer benefício para os netos no INSS, onde disse já ter feito “vários requerimentos”, nem conseguiu voltar a receber o Bolsa Família que Aline ganhava por causa dos filhos. “Fui lá, levei o atestado de óbito para fazer a coisa certinha. E pedi novamente o benefício como responsável por eles, mas até agora nada”, lamentou.

Nas paredes da casa, recordações dos aniversários das crianças, que Aline não deixava passar em branco. Um cartaz mostra Clarice caracterizada de Elsa, a personagem do desenho infantil Frozen. “Foi muito legal, teve pula-pula, bolo com meu nome, ganhei muitos presentes”, lembrou a menina. Em outro registro, aparece o rosto do irmão, João, no corpo do Pequeno Príncipe, tema da comemoração de 1 ano do menino. “Ela sempre fazia festa e eles me cobram, mas eu já disse que agora vão precisar ter um pouco de paciência”, resignou-se a avó. Professor na Universidade Federal do Ceará (UFC) e autor de estudos sobre feminicídio feitos em parceria com o Instituto Maria da Penha, José Raimundo Carvalho criticou a falta de atenção governamental aos órfãos. “Depois que a mãe é morta, o problema da violência doméstica é riscado e esquecido e as consequências passam a ser da família que assumirá a criação das crianças”, afirmou o pesquisador.

A ausência de um olhar específico para esse público começa a ser superada por experiências pontuais no país, como as desenvolvidas por alguns Centros de Referência de Assistência Social (Cras) e por outros órgãos, a exemplo de Defensorias e Ministérios Públicos nos estados. O objetivo é auxiliar as famílias a chegar aos serviços necessários, como a Previdência, para requerer pensões e auxílio-reclusão – no caso de o pai estar preso e ter contribuído para o INSS -, e ter acesso à rede de saúde para atendimentos psicológicos ou psiquiátricos, entre outros. Procurado, o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos disse que “está estudando ações para tratar a questão dos órfãos do feminicídio”, sem dar detalhes.

“É impossível não ser tocado por toda a tristeza desses casos. As crianças não conseguem expressar em palavras o que sentem, mas estão sempre olhando para o chão, dão aquele sorriso forçado. Ao mesmo tempo, temos de ser serenos para prestar um atendimento profissional”, disse a defensora Pollyana Gabrielle Souza Vieira, que está à frente do projeto Órfãos do Feminicídio, criado na Defensoria Pública do Amazonas no ano passado. “As famílias chegam desamparadas, sem saber como resolver uma série de problemas decorrentes da tragédia”.

Crianças e adolescentes que presenciaram o crime, além do trauma que a cena pode causar, têm de lidar com a ausência da mãe e, muitas vezes, do pai, que em geral vai preso. Um estudo do Ministério Público de São Paulo revelou, a partir da análise de 364 denúncias, a cada quatro feminicídios, um foi cometido na frente de alguém da família ou de terceiros. Dessas testemunhas, 57% eram os filhos da mulher. Um quarto deles também foi atacado no momento do assassinato.

Não há idade definida a partir da qual a criança passa a entender o significado da morte, explicou Carla Bertuol, psicóloga na área de saúde mental e infância e professora na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Segundo ela, isso depende da dinâmica da família responsável por cuidar dos órfãos e da forma como esses temas são trabalhados ao longo de sua vida, entre outras questões.

Bertuol destacou que são necessárias várias abordagens, não há solução única. “Não faz muito sentido fazer só uma psicoterapia ou só tomar remédio. Há coisas que a professora na escola pode fazer, outras que são estimuladas pela família. O importante é não silenciar a criança, mas sim dar espaço para que ela se manifeste, o que pode ocorrer nos desenhos, nos brinquedos, nas perguntas”, afirmou. “Será preciso fazer essas emoções circularem em sua cabeça.”

Na casa de Maria das Graças Castro Ramos, de 71 anos, não há espaço para silêncio sobre a tragédia que destroçou a família há um ano e meio. Um cartaz com a foto da filha, Adriana Castro, permanece na sala desde a missa de sétimo dia da mulher, de 44 anos. Uma semana antes de ser assassinada, ela desabafou com os parentes que não aguentava mais as ameaças do marido, com quem era casada havia mais de 20 anos e tinha um casal de filhos.

Unidos, os cinco irmãos logo se apressaram em ajudar Di, como era chamada na família, a sair de casa para morar com a mãe. Cinco dias depois, o marido de Di foi ao portão da residência de Maria das Graças, sob o pretexto de entregar os materiais escolares dos filhos. As câmeras instaladas na casa vizinha mostraram que a intenção do policial militar Epaminondas Silva era outra.

Sem sinal de discussão ou registro de briga corporal, o homem sacou a arma e deu um tiro no ombro de Adriana, que se virou de costas para ele, talvez para tentar fugir. Ele então a executou com um disparo na nuca. Mirou na sequência a própria cabeça, mas antes se abaixou para olhar mais de perto o corpo da mulher no chão. Em seguida, se matou.

Jéssica e Leonardo, com respectivamente 8 e 12 anos à época, saíram da casa da avó correndo para ver o que tinha acontecido e depararam com os dois corpos estirados na calçada da casa, que fica a cerca de 30 quilômetros do centro de Brasília. Enquanto a avó gritava por ajuda na rua, o garoto tentava acionar os tios por telefone.

A menina, que gostava de vestir roupas iguais às da mãe, numa brincadeira que as duas cultivavam, sonhou com uma tragédia parecida dias antes. “Eles brigavam perto do portão, minha mãe caiu igualzinho aconteceu. Só que ele não se matou, ficou lá olhando para ela e limpando o sangue. Eu acordei à noite, contei para minha mãe, mas ela disse que era só um sonho”, recordou-se Jéssica.

A parede do quarto que as crianças passaram a dividir na casa da avó tem 12 fotos da mãe, lembrada por toda a família como uma pessoa carinhosa e dedicada aos filhos. O mais velho colou também uma carta que recebeu de Adriana quando teve dificuldades na escola. “Você é um menino muito inteligente e eu acredito em sua capacidade. Amo você! Beijos da mamãe”, diz a parte final da mensagem.

“A perda de minha irmã não é assunto proibido, não é tabu. Aqui é cheio de fotos da mãe deles. Aliás, todas as nossas conversas acabam nela”, disse Marcelo Adson de Castro Rosa, tio das crianças. Elas passaram por atendimento psicológico e hoje, na avaliação da família, estão bem. “Elas vão crescer felizes, aprendendo a fazer o bem. Agora sou avó, mãe, pai e tudo delas”, disse Maria das Graças.

O bem-estar das irmãs Alice e Helena preocupa a tia, Cleire Romão, de 31 anos. Foram as meninas, na ocasião com 2 e 4 anos de idade, que chegaram à casa da família chorando e gritando que “o Teteu matou a mamãe”. Steffano Amorim é o pai das duas, mas não tinha uma relação próxima com as filhas, que costumavam chamá-lo pelo apelido.

Elas viram ao menos parte das agressões que levaram à morte de Janaína Romão Lúcio, com cinco facadas, na casa de um tio do assassino. A mãe, que tinha 30 anos, havia se separado do marido e voltado a morar na casa dos pais, em Santa Maria, cidade nos arredores de Brasília. Mas Amorim não se conformava. Perseguia Janaína até no ministério onde ela era funcionária terceirizada.

“Ele matou ela na cama”, disse Helena, hoje com 6 anos, mostrando que prestava atenção à entrevista dada pela família, enquanto brincava com a irmã. Cleire, que ficou com a guarda das sobrinhas e a quem as duas chamam de mãe, contou que a mais nova chorava muito após o crime e até hoje tem pesadelos.

Em 2017, quando as coisas pareciam melhorar, a avó das crianças morreu, cerca de um ano após o feminicídio que vitimou Janaína. O baque foi enorme para as netas. Alice voltou a falar de tudo que havia presenciado na morte da mãe. Helena, que abriu mão do cabelo comprido para fazer um corte “igual ao da vovó”, demonstra medo de novas perdas. “Ela fala para mim que no dia em que eu morrer ela quer morrer comigo”, contou Cleire, que precisou adiar os planos de recém-formada no curso técnico de secretariado para cuidar das sobrinhas.

Um grande retrato de Janaína segurando as duas meninas fica na parede da sala da família. Outras fotos menores são mostradas por elas. Duas estão recortadas, e aparece apenas a mãe. “Cortei tudo para ele aprender”, disse Alice, hoje com 4 anos, referindo-se à imagem do pai na foto original.

O avô das garotas, Edgar Soares Lúcio, não consegue falar da filha sem que os olhos, de um azul-claro bonito, se encham de lágrimas. A família soube depois da morte que a situação entre Janaína e o criminoso era pior do que imaginavam, com dois boletins de ocorrência já registrados pela moça contra ele. “Ela não se abria com a gente, vieram contar depois que aconteceu (o assassinato) das ameaças e agressões. Que amigos são esses?”, questionou o senhor de 68 anos. O assassino foi condenado a 36 anos e nove meses de prisão.

Incorporado em 2015 à legislação brasileira, o crime de feminicídio tem pena que varia de 12 a 30 anos, enquanto para o homicídio simples ela é de 6 a 20 anos. A punição aumenta se a morte for praticada em determinadas circunstâncias, como durante a gestação, nos três meses após o parto ou na presença de filhos ou pais da vítima.

O aumento da pena, no entanto, não é o ponto principal da mudança na lei. Estudiosos afirmam que a maior vantagem foi passar a chamar a atenção para esse tipo de violência, cometido em razão da condição de mulher da vítima. O conceito precisa ser compreendido sob a dinâmica de nossa sociedade, explicou Carmen Hein de Campos, doutora em ciências criminais e pesquisadora na área.

“Não é simplesmente por ser mulher. Mas porque uma sociedade machista e sexista como a nossa coloca as pessoas identificadas com o feminino numa condição de vulnerabilidade”, afirmou a pesquisadora. Campos lembrou que grande parte dos feminicídios registrados ocorre em meio a uma separação consumada ou planejada. “Temos aí, com clareza, o conteúdo machista de que a mulher não pode ter autonomia.”

A brutalidade é a praxe nos crimes de feminicídio. Mais da metade dos assassinatos foi cometida com instrumentos como facas ou machados, de acordo com análise do Fórum Brasileiro de Segurança Pública em relação às mortes registradas em 2017 e 2018. Segundo outra pesquisa, do Ministério Público paulista, em cerca de metade dos casos de feminicídio foram efetuados diversos golpes ou disparos. A conotação de gênero aparece nas partes do corpo muitas vezes destroçadas pelo assassino: seios, vagina, rosto.

Enquanto os homicídios caíram 13% de 2017 para 2018, os feminicídios aumentaram 4%. A alta vem de uma melhoria na notificação do crime, embora não seja possível descartar um aumento real de casos, até por falta de série histórica. O secretário de Segurança Pública do Distrito Federal, Andersen Torres, afirmou que a prevenção dos assassinatos ainda é um desafio para a área, lembrando que o índice médio de vítimas que tinham registrado ocorrência prévia por agressão ou ameaça na capital federal gira em torno de 30%. “Ou seja, em 70% dos casos, a polícia só vai buscar o corpo, porque a informação da agressão não chegou antes. O crime acontece dentro de casa, por algo que está dentro da cabeça do autor e com a arma que fica na cozinha. É preciso uma conscientização sobre esse machismo”, disse.

Uma câmara técnica da Secretaria de Segurança do DF levantou dados de todos os feminicídios já registrados na unidade da Federação para tentar entender o fenômeno. Foram 97 vítimas desde 2015, das quais 36 tinham filhos menores de idade, totalizando 75 órfãos nessa faixa etária.

O DF é um dos locais que seguem as Diretrizes Nacionais para Investigar, Processar e Julgar com Perspectiva de Gênero as Mortes Violentas de Mulheres, uma espécie de guia, adaptado pelo governo brasileiro em 2016 de um documento das Nações Unidas. Uma das regras é registrar qualquer assassinato de mulher primeiro como feminicídio e, depois, reclassificá-lo se for o caso.

Outra orientação é fazer a perícia criminal sob a ótica de gênero. “Os sinais, muitas vezes, são as facas da casa escondidas pela vítima, uma mala pronta, roupas ou fotos rasgadas. Se as partes do corpo mais atingidas são as que denotam a condição de mulher, como seios e vagina, isso também é um dado importante. Esse olhar do perito faz toda a diferença”, explicou Dulcielly Nóbrega de Almeida, do Núcleo de Defesa da Mulher da Defensoria Pública no DF.

As mais de 20 facadas dadas por Bruno Manfredi na companheira, Thaynara Barbosa da Silva, de apenas 23 anos, deixaram a família em estado de choque. O rapaz era querido pelos parentes da vítima, com quem se relacionava havia cinco anos e com quem teve uma filha. Milena, de apenas 3 anos na época do crime, estava no quarto do casal quando tudo aconteceu, contou a irmã de Thaynara, Mayara.

“Minha irmã lutou muito. Tinha marca das mãos de sangue no guarda-roupa. Ele deu golpes nos seios, nas pernas e no pescoço”, lembrou a irmã. Inicialmente, Milena não perguntava pela mãe nem tocava no assunto, mas começou a ter medo de dormir no escuro. Na quarta consulta com um psicólogo, falou sobre o que vira.

A família explica que a mãe virou uma “estrelinha” e diz que o pai está viajando quando a menina, hoje com 4 anos, pergunta. Carinhosa, ela consolou a avó, Maria Lucilene da Silva Barbosa, que se emocionou enquanto mostrava fotografias da filha. “Guarda as fotos, senão ela vai chorar. Já está chorando”, pediu Milena à tia.

Maria Lucilene, Mayara e Milena dividem um quarto no pequeno apartamento de três cômodos onde vivem em Manaus. Barbies e um tablet são a distração preferida da menina espevitada de cachinhos no cabelo. A avó se pergunta por que o companheiro de Thaynara, que ela tinha “como um filho” e considerava um “menino bom”, agiu assim. Ele está preso aguardando julgamento.

Nos últimos seis meses, o casal havia começado a brigar, mas, na avaliação da família, eram desentendimentos normais de um relacionamento. A mãe se ressente de não ter conseguido evitar a tragédia. “Ela disse um dia que ia se separar do Bruno. Eu falei: ‘Se acalme, filha, vocês têm uma criança. Isso fica remoendo aqui dentro de mim”, disse Maria Lucilene, com a mão no peito, aos prantos.

Eduarda, a garotinha do começo desta reportagem que narrou no tribunal como o pai matara a mãe, vive com o irmão na casa da avó, Laíde Ferreira de Lima, de 61 anos. Os dois estudam em uma escola de tempo integral. A menina de cabelos castanhos e pele clara ouviu mais do que falou enquanto a família contou sobre o crime que vitimou sua mãe, Josilene. Vez por outra, balançava a cabeça em concordância com algo que era dito. Os netos são o xodó de Laíde, que colocou uma cama de casal em seu próprio quarto para as crianças. Os outros dois quartos da casa humilde, em uma laje por terminar na capital amazonense, são alugados para reforçar o orçamento da família.

Os irmãos passaram por atendimento psicológico. “Tiveram alta. Estão prontos para caminhar”, animou-se a avó. Apesar do bem­ estar das crianças, os parentes ficam atentos.

“Tem dia que a mamãe avisa que eles estão agitados. Aí eu venho para conversar, ver o que está se passando”, disse Jucineia Ferreira de Araújo, de 38 anos, tia das crianças.

A lembrança de Josilene está nas músicas da igreja que ela cantava como ninguém, segundo os parentes. Está também nas camisetas com o rosto da moça que a família costuma usar ao sair em manifestações de repúdio à violência contra a mulher.

Os parentes de Josilene tentam auxiliar outras vítimas indiretas de feminicídio com base na própria experiência. Foram cerca de três anos de idas frequentes às autoridades da polícia e do Ministério Público e ao fórum de Justiça, para não deixar a morte da jovem impune.

Josilene foi assassinada em 2019, quando a lei do feminicídio era relativamente nova e enfrentava resistências até mesmo no âmbito de órgãos estatais. O julgamento, em julho passado, durou mais de 12 horas, sob sigilo. O depoimento de Eduarda arrancou lágrimas dos presentes.

Ao responder por que não tinha saudade do pai, durante o testemunho, a menina explicou: “Porque ele fez o mal para minha mãe”. A avó reza para que os netos superem a perda. “A lembrança fica, mas um dia a dor vai ter de passar.”

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 26 DE MARÇO

A FELICIDADE COMO RESULTADO DA GENEROSIDADE

A alma generosa prosperará, e quem dá a beber será dessedentado (Provérbios 11.25).

Jesus diz: Mais bem-aventurado é dar que receber (Atos 20.35b). Esse é um caminho seguro para a verdadeira felicidade. Neste mundo marcado pela ganância e nesta sociedade timbrada pela avareza, Jesus nos mostra que o caminho da felicidade não é receber, mas dar. Na ânsia de ser feliz, o ser humano sempre quer mais. Por isso, assalta, rouba, corrompe e toma o máximo do outro, e isso de forma ilícita e desonesta. Contudo, quanto mais acumula os tesouros da impiedade, mais se afunda no desespero e na infelicidade. O caminho da felicidade é o inverso da ganância. Somos felizes não quando tomamos o que é do outro, mas quando damos ao outro. Somos felizes não quando acumulamos para o nosso deleite, mas quando repartimos por amor ao próximo. Somos felizes não quando ajuntamos tesouros na terra, mas quando os entesouramos no céu. Somos felizes não quando armazenamos tudo para nós mesmos, mas quando damos o máximo para o bem do nosso próximo. A felicidade não está em quanto temos, mas em quanto repartimos. A generosidade, além de nos trazer felicidade, ainda nos assegura prosperidade. Não é o avarento que prospera, mas o generoso. Quanto mais semeamos na vida do próximo, mais Deus multiplica a nossa sementeira. A bênção que distribuímos retorna sobre a nossa própria cabeça.

GESTÃO E CARREIRA

COMO CÃES E GATOS

As varejistas Cobasi e Petz se engalfinham pelo mercado de produtos e serviços para animais e tentam conter o avanço de uma rival que cresce na internet

As noites ao relento nos quintais das grandes cidades definitivamente fazem parte do passado. Há algum tempo cães e gatos têm colhido os louros do fenômeno da “humanização” dos animais de estimação no país e agora, além de usufruírem o aconchego do lar de seus donos, tornaram-se um segmento de consumo que atiça a cobiça dos fabricantes e comerciantes de uma infinidade de produtos e serviços. Segundo dados do Instituto Pet Brasil, que contabiliza as estatísticas da área, o país concentra uma população de 139,3 milhões de pets, dos quais 54,2 milhões são cães e 23,9 milhões, gatos – o restante da fauna que habita casas e apartamentos inclui aves, roedores, peixes e até répteis. Tamanho contingente está no foco de um ramo de negócios que movimentou no ano passado 35,4 bilhões de reais, volume 3% maior que o registrado em 2018. E, em meio a uma miríade de lojas, pet shops e clínicas veterinárias de bairro que atendem os donos de bichos domésticos, destacam-se empresas que constituem verdadeiros colossos voltados para o bem-estar de ambos – os donos e os bichos. Trata-se de companhias que oferecem unidades com configuração que lembra a de hipermercados e lojas de departamentos e estão envolvidas em uma disputa feroz pela preferência do consumidor.

A mais antiga no ramo é a Cobasi, empresa que fatura 1,3 bilhão de reais ao ano. Fundada em 1985 como uma loja que vendia, entre outros produtos, ração e medicamentos de uso veterinário, operou por anos sem lucro, sustentando-se com negócios correlatos de seus fundadores, proprietários de fazendas. A partir da década de 90, com o avanço da onda pet, mudou seu foco e refinou seu alvo para os bichinhos que viviam em casas e apartamentos. Atualmente, cravou sua centésima loja em um vistoso shopping center em uma região nobre de São Paulo e se prepara para a abertura de um núcleo de inovação que vai desenvolver soluções digitais direcionadas aos clientes. Batizada de Cobasi Labs, a nova área já tem vinte funcionários dedicados a avançar do modelo de lojas físicas para as chamadas experiências oferecidas em ambiente virtual. Essa empreitada vai além da possibilidade de comprar pelo site e também permitirá ao cliente agendar pelo celular consultas e outros serviços referentes aos animais. “Os pets de certa forma suprem as carências emocionais das pessoas, principalmente no ambiente tecnológico em que vivemos hoje. Acreditamos que é possível associar esses dois aspectos da vida moderna e, é claro, vender nossos serviços e produtos”, raciocina Ricardo Nassar, membro da família fundadora da Cobasi e sócio­ diretor da empresa.

Com sua loja coruscante em um shopping de luxo e seu núcleo de inovação, a Cobasi busca responder aos movimentos de sua principal rival, a Petz, que se expandiu de forma vertiginosa nos últimos anos. Fundada em 2002, em São Paulo, com o nome de Pet Center Marginal, óbvia referência à localização, na Marginal Tietê, a rede ganhou um empurrão considerável ao receber como sócio o fundo de private equity americano Warburg Pincus, que comprou mais de 50% da operação da empresa em 2013. O plano dos americanos não tinha nada de modesto: transformar a já rebatizada Petz em uma das maiores redes do mundo. Com 106 unidades, ela já ultrapassou a pioneira do mercado brasileiro em número de pontos de venda, mas ainda está atrás no quesito faturamento anual, na casa de 1,2 bilhão de reais. Ambas as empresas apostam em lojas espaçosas, em torno dos 1.000 metros quadrados, e em endereços privilegiados, como avenidas de grande tráfego.

Na briga pela liderança absoluta do setor, a Petz se prepara para um passo mais ousado. No último dia 19, a companhia registrou um pedido para oferta pública inicial de ações na B3, a Bolsa de Valores de São Paulo. Na operação, serão vendidas as ações hoje detidas pelo Warburg Pincus e parte dos papéis do fundador da empresa, Sergio Zimerman. Em relação à rival, a Petz se arrisca mais em inovação nos pontos de venda. Foi a primeira rede de pet shop a oferecer um hotel e uma creche para cães e gatos. Algumas de suas 106 lojas contam com self checkout, sistema de autoatendimento por meio de máquinas que dispensa o auxílio de operadores de caixa e que dispõe de recursos de realidade aumentada para entreter a clientela – tanto quadrúpede como bípede.

Embora as duas redes imponham respeito por suas dimensões, elas detêm, juntas, apenas 13,5% das vendas no varejo pet. Ou seja, ainda existe um espaço considerável para expandir-se. O problema é que não estão sozinhas. Outra companhia, a Petlove, cresce com a venda direta a consumidores e veterinários pela internet. Com uma filosofia de startup e faturamento de 315 milhões de reais, a companhia, fundada no fim dos anos 1990, tem comprado concorrentes do mundo on-line e projeta um faturamento de 2,5 bilhões de reais em 2024. Em meio a tal voracidade, haja ração para abastecer as tigelas da bicharada.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

COMER COM INTELIGÊNCIA

Nosso comportamento alimentar, diferentemente do de outros primatas, baseia-se no aprendizado e na imitação: escolhemos provar uma nova comida de acordo com o que fazem os outros

Deixando de lado as diferenças culturais, as atividades humanas inerentes à alimentação – do cultivo à colheita, do preparo ao consumo – são todas influenciadas pela sociabilidade. O contexto social em que vivemos tem um papel importante na determinação de nossas escolhas alimentares e, frequentemente, os alimentos preferidos não são os mais adequados do ponto de vista nutricional, mas os que agradam às pessoas ao lado das quais nos alimentamos. Também os macacos – a espécie mais próxima do homem do ponto de vista filogenético – comem reunidos, prestando atenção ao que fazem os companheiros.

Dada sua semelhança morfológica e comportamental com o homem, sempre se pensou que os macacos aprendem o que devem comer observando o comportamento de outros símios e que a difusão de novos hábitos alimentares seja fruto dessa observação. No caso do macaco-prego – símio sul-americano onívoro como o homem -, porém, a pesquisa experimental não confirmou essa suposição aparentemente verossímil.

Os animais onívoros, que devem procurar frequentemente novos recursos alimentares, enfrentam um difícil dilema. Comer algo desconhecido pode causar intoxicação, mas evitar o novo pode significar perder a oportunidade de descobrir um alimento bom e nutritivo. O que fazer? Para resolver a questão pode-se experimentar o alimento com extrema cautela, e assim aprender pela própria experiência, ou atentar para como se comportam indivíduos mais experientes e fazer o mesmo. Mas como os bebês e os símios se comportam diante de alimentos desconhecidos?

A neofobia – isto é, a pequena aversão a experimentar novas comidas – é um traço cultural característico da alimentação humana. Geralmente, essa característica exibe uma trajetória em forma de parábola, é reduzida nos bebês ainda dependentes do leite materno, atinge o ápice durante o desmame e decresce novamente quando esta fase se completa, momento em que muitos alimentos já fazem parte da dieta.

Além disso, a neofobia é influenciada pelo tipo de amamentação. Os bebês amamentados no seio, precocemente expostos aos vários sabores dos alimentos consumidos pela mãe, são geralmente menos neofóbicos que os nutridos com leite artificial. A oferta constante de novos alimentos pode reduzir a relutância em experimentá-los: na idade pré-escolar as crianças tendem a incluir espontaneamente determinadas comidas na dieta após experimentar pequenas quantidades uma dezena de vezes.

Mas o homem não é o único primata neofóbico: saguis, chimpanzés e macacos-prego também o são. O macaco-prego é extremamente cauteloso em relação a novos alimentos, seja na Natureza, seja no laboratório. Quando, no Parque Nacional de lguazú, na Argentina, Maria Agostini apresentou a um grupo de 25 macacos-prego alimentos familiares (banana) e novos (amêndoas descascadas, maçãs secas e outros alimentos que os macacos de nosso laboratório comiam com entusiasmo), o que era conhecido foi devorado em poucos minutos, ao passo que as novidades quase não foram degustadas. Embora todos mostrassem cautela, os menos temerários foram os adultos, cujo acesso limitado aos recursos do grupo os obriga a procurar alternativas.

Embora representando uma proteção eficaz contra a ingestão de alimento novo em quantidades que podem ser perigosas, a neofobia é uma solução muito radical para uma espécie onívora como o macaco-prego, cuja sobrevivência depende da capacidade de ampliar novos recursos nutritivos. Nesse macaco, assim como no homem, a neofobia é atenuada pela experiência: se a ingestão de novos alimentos não é seguida por mal-estar gastrointestinal, basta um certo número de contatos para que a comida seja aceita e consumida. Mas a neofobia pode ser influenciada pelo comportamento dos outros? Diante de um novo alimento, o indivíduo presta atenção no que fazem o demais e se comporta da mesma forma?

O PRATO DO VIZINHO

Para um bebê, o contexto social em que o novo alimento é encontrado é fundamental para que seja incluído na dieta. Diversos experimentos mostraram que a novidade é aceita mais rapidamente quando um adulto a come e que a observação do que fazem outros bebês pode alterar preferências alimentares já adquiridas. Também para o símio, a alimentação é uma atividade social. Segundo a antropóloga americana Barbara King, quando as símias comem próximas umas das outras, observando e cheirando o alimento e a boca alheios, adquirem informações sobre a comida. É dessa forma, observando os companheiros, que os indivíduos mais jovens e menos experientes aprendem o que comer.

Para verificar a hipótese, realizamos alguns experimentos com macacos-prego. Há alguns anos já havíamos mostrado que, para esse animal, o contexto social influencia a aceitação e o consumo de novos alimentos: um macaco-prego inexperiente é mais inclinado a comer algo novo quando está em grupo, e quanto mais companheiros estiverem presentes, tanto mais ele comerá.

É importante notar, entretanto, que a observação de indivíduos experientes só permite adquirir a dieta correta se a comida que eles consomem e aquela que o animal inexperiente encontra forem a mesma. Por outro lado, não é possível inferir do comportamento de companheiros experientes que ingerem uma comida diferente se o alimento novo é comestível ou não. Portanto, se os símios de fato aprendem o que comer com os outros, então um macaco-prego observador deveria consumir mais alimento novo quando os demonstradores comem algo da mesma cor do que quando ingerem alimentos de cor diferente.

Surpreendentemente, nossos experimentos revelaram que os observadores aceitam um alimento novo prescindindo da cor do alimento ingerido pelos demonstradores. Nem mesmo quando devem escolher entre dois alimentos de cor diferente eles se deixam influenciar pela cor da comida que os demonstradores estão consumindo. Crianças em idade pré-escolar, porém, só aceitam alimento novo quando o adulto observado come algo de cor idêntica.

Embora possa nos parecer óbvio que o indivíduo deva considerar bom e comer o mesmo alimento consumido por outros, esse processo mental não é imediato para o símio. Para chegar a essa conclusão, o animal avalia a semelhança entre os alimentos e emprega um raciocínio de tipo condicional. Ela pensa que, se o seu alimento é igual ao de seus companheiros experientes, então o fato de que estes o estão comendo significa que é bom. Ao contrário, se sua comida difere da consumida pelos outros, então o que estes estão ingerindo é irrelevante para ela.

Nos macacos-prego, as influências sociais reduzem a neofobia, mas não parecem fornecer indicações sobre o que comer. A criança de 3 anos, porém, já está em condições de empregar seu sofisticado raciocínio e, portanto, de comer apenas quando é “seguro” fazê-lo: vale dizer, quando sua comida e a do demonstrador têm a mesma cor.

CONHECER PARA EVITAR

Aprender, mediante observação do comportamento alheio, que um alimento é tóxico deve ser mais vantajoso do que tentar aprender sozinho, por tentativa e erro. Todavia, se para nós isso é óbvio, para os símios não é. Até agora não há provas experimentais mostrando que as símias aprendem a evitar um alimento por meio da observação de indivíduos experientes que não o comem. Quando um grupo de macacos-prego de nosso laboratório deparou com uma comida desagradável, nenhum deles deu atenção ao fato de que os outros a evitaram: todos experimentaram um pouco. Os macacos-prego não são a única espécie que não aprende com os outros a evitar um alimento. Também nesse caso aquilo que nos parece algo óbvio, que requer apenas um raciocínio elementar, é de fato um problema de notável complexidade. Aprender algo observando o que outros não fazem é muito mais difícil, do ponto de vista cognitivo, do que aprender com o que fazem. Para ser instruído por um fato que não se verificou, o indivíduo deve imaginar o evento que deveria ter acontecido, notar a sua ausência e deduzir a possível causa que impediu sua ocorrência.

No fascinante livro Fome e abundância: história da alimentação na Europa, Massimo Montanari – professor de história medieval da Universidade de Bolonha e historiador da alimentação – narra a experiencia de um ermitão que, retirando-se para meditar no deserto, não sabia distinguir entre plantas boas e venenosas. Após dias de jejum, observou o comportamento de uma cabra. Agora que sabemos como é difícil para os animais aprender com os outros, podemos avaliar a inteligência desse homem!

Outra opinião bastante difundida, fruto de nossa visão antropomórfica, é a de que as mães símias ensinam aos filhotes o que comer e o que evitar. Ensinar é uma atividade complexa do ponto de vista cognitivo, para ensinar o que comer é preciso saber se determinado alimento é tóxico ou não, se o outro sabe disso e, caso não saiba, que é necessário instruí-lo.

Sempre que a capacidade de ensinar foi sistematicamente estudada, concluiu-se que as mães não tentam “orientar” a escolha alimentar feita pelos filhotes. De fato, há apenas raras observações sobrea intervenção ativa para evitar que o filhote coma determinado alimento, provavelmente tóxico. O ensino ativo também é raro em outros domínios do comportamento. Por exemplo, ao contrário do que ocorre em nossa espécie, as mães não ensinam ativamente aos filhotes como resolver um problema ou usar certo instrumento.

Do que vimos até aqui, conclui-se que o ensino e o aprendizado com a observação e a repetição de detalhes do comportamento alheio ou com a ausência deste exigem capacidades cognitivas que os símios não parecem possuir. Sabemos, porém, que as diversas espécies de símios evitam predadores, resolvem inúmeros problemas e elaboram uma dieta que não coloca suas vidas em risco.

Observando o comportamento espontâneo dos macacos-prego, nota-se uma série de influências sociais vagas que aumentam a probabilidade de que o indivíduo se comporte como seus companheiros: por exemplo, a tolerância entre indivíduos, a proximidade que favorece o encontro dos alimentos, o ato de pegar a comida da boca do outro ou a ingestão dos restos deixados por um companheiro.

APRENDER COM A EXPERIÊNCIA

A experiência individual pode ser suficiente para a formação de dietas corretas. Os símios, assim como muitos outros animais, têm três características fisiológicas e comportamentais fundamentais para que o indivíduo aprenda, com a própria experiência, a ampliar a dieta evitando riscos fatais: a preferência por certos sabores, a cautela em relação a alimentos jamais experimentados e a aquisição da aversão alimentar.

Os símios revelam acentuada preferência por alimentos doces e evitam os amargos, resultado do processo evolutivo que plasmou o paladar de forma a maximizar a obtenção de energia e minimizar a ingestão de substâncias tóxicas (na natureza, em geral, os alimentos doces não contêm alta concentração de substâncias tóxicas, abundantes nos amargos).

Além disso, as símias são extremamente cautelosas quando experimentam alimento novo. Um mecanismo simples permite que elas aprendam, com a experiência, a evitar comida tóxica: quando experimenta algo novo e sente problemas gastrointestinais, ela associa o alimento ao mal-estar e, assim, aprende a não come-lo mais.

Esse fenômeno – tecnicamente chamado de “aprendizado de aversão alimentar” – é extremamente eficaz, pois exige um número limitado de experiências, persiste por muito tempo e é mais rápido se o alimento é novo. O aprendizado é bastante disseminado no reino animal e, no homem, pode determinar idiossincrasias em relação a novas comidas e às que eram anteriormente apreciadas. As influências sociais, que em nossa espécie têm tanta importância, são abafadas pela força da aversão que a pessoa adquiriu sozinha.

À luz de nossos resultados, parece que no macaco-prego, mas provavelmente também em outras espécies de símios, as influências sociais genéticas e a experiência individual permitem que o indivíduo aprenda o que comer sem que sejam empregados processos cognitivos mais complexos, cuja presença nessas espécies ainda precisa ser demonstrada.

Quando foram oferecidos sete tipos de alimento aos macacos-prego, alguns dos animais estavam sozinhos (condição individual) e outros em companhia de membros do grupo (condição social). Independentemente da condição social ou individual, as preferências se orientaram pelas comidas energéticas. Isso mostra que, também no que diz respeito à aquisição de preferências alimentares, o papel do contexto social é secundário.

 

HERANÇA ALIMENTAR

As tradições são elementos constitutivos da cultura e as relações entre aprendizado social. Tradições e cultura são ainda objeto de pesquisa intensamente debatido. Um comportamento é considerado tradicional ou cultural se: (a) está amplamente disseminado entre os membros de uma ou mais populações e ausente em outras que vivem em áreas ecologicamente similares; (b) a  presença em uma população e a ausência na outra não puder ser atribuída a diferenças ecológicas entre as áreas em que vivem e/ou a diferenças genéticas; e (c) mantém-se ao longo do tempo e é transmitido de uma geração a outra mediante aprendizado social. Alguns primatólogos  observaram diversas populações de chimpanzés por um período que seria equivalente a 151 anos e concluíram que existe entre eles um número considerável de comportamentos culturais. Por exemplo, os chimpanzés de determinada população usam pedras e bigornas para quebrar nozes multo duras, ao passo que em outra população nenhum instrumento é usado. Também a limpeza recíproca dos pelos (grooming) varia entre as populações. Comportamentos culturais estão presentes ainda nos orangotangos e em algumas espécies de cetáceos. Em populações naturais de Cebus capucinus há tradições comportamentais relativas às técnicas de processamento de certos alimentos ou à modalidade de captura de presas. Dado que tais diferenças não parecem ocasionadas por fatores genéticos ou ecológicos, cabe pensar que se trata de tradições. Recentemente, nessa mesma população de C. capucinus, Susan Perry e colaboradores observaram um comportamento singular em que uma símia inseria os dedos no nariz ou na boca de outra símia, que por sua vez fazia o mesmo com a companheira. Os pesquisadores elaboraram a hipótese de que esse arriscado hábito tinha a função de avaliar a qualidade das relações sociais. Mas são necessários estudos controlados de laboratório para compreender quais processos de aprendizagem social permitem a difusão desses comportamentos e para estabelecer o papel da influência social na experiência individual. Nossas pesquisas são um primeiro passo nessa direção.

 

COMO O MACACO-PREGO ESCOLHE

Segundo a teoria do optimal foraging, a seleção natural favorece as espécies que privilegiam a obtenção de energia e de substancias nutritivas, escolhendo os alimentos mais adequados. Todavia, quando se experimenta um alimento, o feedback sensorial devido ao sabor precede as consequências fisiológicas de sua ingestão, geradas pelas substâncias, nutritivas ou tóxicas, que contém. Investigamos se as símias avaliam um alimento novo desde as primeiras mordidas e se essa avaliação muda quando a comida se torna familiar. Pesquisamos ainda se as Influências sociais modificam as preferências alimentares. Gloria Sabbatini e Margherita Stammati ofereceram sete novos tipos de alimentos a 26 macacos-prego. Cada um deles era apresentado em par, cobrindo todas as 21 combinações possíveis: cada alimento devia ser escolhido seis vezes. Após essa limitada experiência, os macacos já efetuavam escolhas conforme o conteúdo de glicose e de frutos e dos alimentos. Alimentos com alto conteúdo de açúcar (como abacaxi) eram preferidos aos que tinham pouca quantidade dessa substância (como couve). Após contatos posteriores em que puderam comer os sete alimentos à vontade, as preferências mudaram e as símias não mais se basearam apenas no conteúdo de açúcar, mas também na energia total, independentemente da fonte dessa energia (açúcar, proteína ou gordura).

Esses resultados mostram que o feedback sensorial imediato, isto é, o gosto doce do alimento, determina inicialmente as preferências. Mas, em seguida, o indivíduo aprende a levar em conta outros fatores, e nesse ponto, privilegia os alimentos com alto conteúdo de energia e que produzem um feedback fisiológico positivo, isto é, uma sensação de saciedade.

OUTROS OLHARES

PRAZER HIGH-TECH

Com produtos tecnológicos e lojas instaladas em bairros residenciais, as novas sex shops têm agora uma clientela majoritariamente feminina

Outro dia mesmo, há pouco mais de cinquenta anos, a sexualidade feminina estava para ser descoberta. O ano é 1968 – os Beatles lançavam o Álbum Branco. Os estudantes saíam às ruas em todo o mundo, nas ditaduras e nas democracias. Martin Luther King e Bobby Kennedy foram assassinados. No Brasil, Caetano, Gil e cia. inauguravam o tropicalismo embebido da antropofagia dos modernos de 1922. E um ensaio, um singelo ensaio, caía como uma bomba americana de napalm a sobrevoar o Vietnã no colo do machismo: O Mito do Orgasmo Vaginal, de Anne Koedt, dinamarquesa radicada nos Estados Unidos, anunciava, sem meias palavras, a existência do clitóris e decretava a possibilidade de chegar ao clímax com um vibrador. Um grosseirão empedernido, o escritor Norman Mailer, encurralado no canto do ringue, esperneou em O Prisioneiro do Sexo, de 1971, surpreso com a “abundância de orgasmos da mulher por toda parte, com aquele dildo de laboratório”. Nada como meio século de permanente revolução, e chegamos ao ponto de hoje: as sex shops vendem brinquedos eróticos sem censura, inclusive no Brasil, e as mulheres as frequentam com mais desenvoltura que os homens.

Hoje, se te em cada dez pessoas que procuram os estabelecimentos de produtos para esquentar o sexo são mulheres da classe A entre 30 e 40 anos. Elas foram atraídas pela transformação das novas lojas. De fachada escura, escondidas, passaram a ter ambientes iluminados e ocupar espaço em bairros residenciais, ao lado do comércio convencional, como padarias, lavanderias e restaurantes. Mas o principal chamariz são as novíssimas traquitanas, de forte apelo tecnológico, com design arrojado e elegante, que nada lembram os manequins esquisitões e feiosos das antigas vitrines. ”As lojas não vivem mais apenas em função do prazer masculino”, resume Susi Guedes, organizadora da Íntimi Expo, em São Paulo, uma das maiores feiras de negócios da América Latina voltada para o segmento. No evento, vale dizer, são vetadas exposições explícitas e imagens de pessoas sem roupa. Sexo é coisa séria.

A sofisticação em nome da excitação – muitas vezes apenas individual, solitária, como sugerem os atuais humores comportamentais, de respeito à vontade feminina – é impressionante. Há consolos que se conectam a distância por aplicativos. Há apetrechos que oferecem aulas guiadas de pompoarismo – como é chamada a prática de estimular o assoalho pélvico por meio de contrações. Há géis que vêm com propriedades regeneradoras da pele.

Um movimento paralelo foi o da formação de vendedores. “As clientes, sobretudo elas, querem detalhes dos produtos e não gostam de ouvir termos chulos”, diz Camila Gentile, sócia da marca Exclusiva Sexshop, que oferece mais de 17.000 tipos de artigos destinados às práticas sexuais. Fez sucesso uma maquininha de apenas 100 gramas criada para estimular partes da anatomia feminina por meio de sucção. O dispositivo (com sistema de carregamento magnético) ganhou fama depois de aparecer no Instagram da cantora Anitta, que agradeceu ao item por “salvá­la”. Peças lançadas inicialmente no mercado americano não demoram a desembarcar pelas bandas de cá. O destaque é uma prótese masculina indicada a uma premiação na mais recente Consumer Electronic Show, em Las Vegas, a maior feira de tecnologia do mundo. A mercadoria tem sensores inteligentes que monitoram o prazer da usuária. Depois do apogeu, podem-se acompanhar na tela do smartphone gráficos que indicam os pontos de maior sensibilidade, para ensinar o caminho das pedras.

Existem, ainda, naturalmente, algum constrangimento e vergonha, e por isso crescem também as vendas on-line. Entre 2018 e 2019, o número de compras via e-commerce do setor aumentou 62%, de acordo com monitoramento da consultoria Compre & Confie. O valor médio das aquisições: 219 reais. Presencialmente ou a distância, o prazer feminino é definitivamente delas, e ponto-final.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 25 DE MARÇO

A NATUREZA DO CASAMENTO

Digno de honra entre todos seja o matrimônio, bem como o leito sem mácula… (Hebreus 13.4a).

O casamento foi instituído por Deus para a felicidade do homem e da mulher. O mesmo Deus que criou o homem à sua imagem e semelhança e criou macho e fêmea, também instituiu o casamento, estabelecendo sua natureza. Foi o próprio Deus quem disse: Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne (Genesis 2.24). Há aqui três princípios básicos sobre o casamento. Primeiro, o casamento é heterossexual. O texto fala sobre um homem unindo-se à sua mulher. A tentativa de legitimar a relação homossexual está em desacordo com o propósito de Deus. Segundo, o casamento é monogâmico. O texto diz que o homem deve deixar pai e mãe para unir-se à sua mulher, e não às suas mulheres. Tanto a poligamia (um homem ter várias mulheres) como a poliandria (uma mulher ter vários homens) estão também em desacordo com o propósito de Deus para o casamento. Terceiro, o casamento é monossomático, pois os dois se tornam uma só carne, ou seja, podem desfrutar da relação sexual com alegria, santidade e fidelidade. O sexo antes do casamento é fornicação. Aqueles que praticam tais coisas estão sob o desgosto de Deus. O sexo fora do casamento é adultério, e só aqueles que querem destruir-se cometem tal loucura. O sexo no casamento, porém, é ordenança divina. Seguir esses princípios de Deus é o segredo de um casamento feliz.

GESTÃO E CARREIRA

AMOR OU HORROR?

Pesquisadores americanos descobriram que pessoas que adoram o que fazem correm um elevado risco de ser exploradas pelos empregadores. Aprenda como evitar que a paixão pelo trabalho o deixe cego

Seu chefe precisa de alguém para fazer plantão nos fins de semana. Sua colega sai de licença-maternidade e você assume as tarefas dela – sem adicional nenhum no salário. Você muda de horário caso a empresa precise. Pega mais conduções para chegar à sede da empresa, que não para de mudar de endereço. Sai mais tarde quando vê um colega atolado de trabalho. Muita gente faz tudo isso com frequência. E não porque espere reconhecimento ou qualquer coisa do tipo, mas simplesmente porque ama a profissão que exerce.

Em alguns casos, o famoso lema “Trabalhe com o que você ama e você não trabalhará um dia”, atribuído ao filósofo chinês Confúcio, parece ser uma falácia. Se você ama o que faz, talvez o trabalho seja dobrado. Exatamente porque você se importa.

Foi isso o que descobriram professores americanos das Universidades Duke, Oregon e Oklahoma em uma pesquisa publicada em abril de 2019. Segundo o estudo, quando adoram suas tarefas, as pessoas tendem a sofrer mais abusos – e vivem um ciclo chamado de “exploração por paixão”.

Para chegar a essa conclusão, os estudiosos ouviram cerca de 2.400 professores e gestores. Os participantes afirmaram ser mais aceitável que indivíduos com uma profissão associada à paixão (como artistas ou assistentes sociais) trabalhassem mais horas sem remuneração extra do que os ocupantes de outros cargos (como contadores e vendedores de lojas). “Nessas situações, fazemos urna psicologia compensatória para falar que uma pessoa está sendo explorada, mas está sendo premiada por fazer o que ama”, explica Troy Campbell, professor na Escola de Negócios da Universidade de Oregon e um dos autores da pesquisa.

DIA DE 40 HORAS

Um dos comportamentos mais comuns de quem ama o que faz é ficar sobrecarregado. Isso acontece, simplesmente, porque esses profissionais sentem prazer no trabalho. “Fazemos 500 coisas ao mesmo tempo porque sentimos que ali é uma zona segura, percebemos que damos conta e fazemos daquilo nosso território”, afirma Pamela Magalhães, psicóloga clínica. “E a grande maioria dos que fazem o que gostam nem se dá conta de como está sendo sobrecarregada”, diz.

Foi exatamente o que aconteceu com Renata*, de 36 anos. “No lugar errado, amar o que faz é extremamente perigoso”, diz – mas a ficha dela demorou bastante tempo para cair. Ela atuou por 14 anos em uma holding educacional, onde foi contratada como coordenadora de imprensa. “Fiquei muito feliz. Eu era encantada com o grupo. Mas desde a primeira semana eu estranhei que todo mundo era solteiro, sem filhos. Então concluí uma coisa: eles moravam no escritório.”

Não demorou para Renata fazer o mesmo. Ela não ia embora antes das 22 horas, mesmo tendo começado o dia às 9 da manhã. Acumular funções havia se tornado o novo normal. A princípio, ela assessorava apenas uma marca, que logo se tornaram três e, num piscar de olhos, dez. “Também organizava eventos, cuidava das redes sociais, tudo porque eu pensava: ‘Se eu não abraçar, ninguém vai fazer’. E fui me entupindo de trabalho”, diz. A situação ficou pior quando Renata teve de organizar um evento de hackathon em 2016. A montagem começou em uma sexta-feira e ela deixou o local às 2 da madrugada. No dia seguinte, às 7 horas, já estava de pé, trabalhando. “Eram coisas insanas que eu fazia só pelo amor à camisa. Era muito natural. Eu não reclamava”, afirma. Depois de 24 horas seguidas trabalhando, uma colega passou mal e teve de ir embora. Renata continuou. O fim do evento estava marcado para as 2 horas da tarde do domingo, mas um problema com a eletricidade adiou o encerramento.

Renata ficou acordada trabalhando sem parar das 9 horas da sexta-feira até as 19h30 do domingo. O expediente, que deveria durar apenas 8 horas, já estava batendo a marca de 40. “Senti o dano quando acabou. Achei que estivesse bem para dirigir, quase bati o carro num ônibus porque não tinha mais reflexo. Cheguei em casa e fiquei alucinando mais de 3 horas. Foi aí que vi que havia algo de errado e que eu estava passando do ponto.”

O relacionamento abusivo com o trabalho só terminou com a demissão. Renata foi desligada da empresa depois de ter denunciado práticas ilegais de um novo chefe. “Foi quando percebi que o sentimento de lealdade era só da minha parte”, diz. Diagnosticada com burnout, depressão e distúrbio alimentar, a profissional ganhou mais de 30 quilos antes de deixar a empresa. Muitas vezes, pulava refeições para trabalhar mais. “Eu não era mais a minha prioridade, fui para o fim da fila porque a empresa estava em primeiro lugar, e em segundo estava minha família cobrando atenção. Agora entendi que eu sou a minha prioridade número 1.”

CEGOS DE PAIXÃO

Um dos grandes problemas do amor excessivo pelo trabalho – que se transforma facilmente em exploração – é o fato de o profissional ficar cego para os prazeres que podem surgir de outras esferas da vida. “Se sou artista e me pedem para fazer arte o tempo todo, posso até gostar disso, mas estão me tirando da minha família, dos meus amigos, das outras paixões que eu possa ter”, afirma Troy, da Universidade de Oregon. A psicóloga Pamela completa: “É muito importante se dar conta de que você tem de tomar cuidado com quanta energia está gastando no trabalho, pois os demais setores também precisam de atenção”.

Essa cegueira impede a compreensão de que vários aspectos são importantes quando falamos de carreira – até mesmo o equilíbrio mental e o ganho financeiro. Apaixão pelo trabalho pode ofuscar, inclusive, a percepção de que a empresa está exigindo demais e pagando de menos. “Quando gostamos muito do que fazemos, queremos tanto aquele trabalho que até abrimos mão do dinheiro”, diz Mónica Barroso, diretora de aprendizagem da The School of Life Brasil e coach.

Mariana*, de 36 anos, sente isso na pele. Ela sempre sonhou em ser professora e conquistou seu objetivo ao ingressar em uma rede pública de faculdades técnicas do estado de São Paulo em 2016. Mas, por gostar da profissão, deixa que a instituição a explore. “Apesar da estabilidade do cargo, eu não tenho nenhum benefício nem hora extra e muitas vezes trabalho cerca de 12 horas por dia. Amo o que faço, mas isso está me prejudicando bastante, física e psicologicamente”, afirma. Até os alunos pedem para que ela trace limites mais fortes em relação à empregadora. “Por gostar do trabalho, acabo aceitando qualquer tipo de exploração. Criei vínculos afetivos com meus alunos e colegas. Preciso aprender a dizer ‘não’ e a superar esse amor que eu sinto.”

Impor limites é um ponto crucial para encontrar o equilíbrio (veja outros no quadro abaixo), mas talvez a questão fundamental seja compreender que nenhuma carreira vale a perda da saúde (física e mental) e da autoestima. Nesse processo de desintoxicação do trabalho abusivo, vale ouvir o conselho de Troy: “Não há justificativa para isso. As pessoas não precisam ser exploradas para se tornar bons profissionais”.

*Os nomes foram alterados a pedido das personagens para preservar a identidade.

COMO QUEBRAR O CÍRCULO VICIOSO?

Cinco conselhos para quem está se deixando explorar por gostar demais da profissão

1 – TENHA PAIXÕES FORA DO SERVIÇO

Pintar, cantar, bordar… Seja lá qual for sua paixão, é bom amar alguma coisa que não seja seu trabalho. “Você pode fazer algo de que goste sem ser sua principal fonte de renda. Eu fiz arte a minha vida toda e não ganhei dinheiro com isso. Sua paixão não precisa ser seu trabalho”, afirma Troy Campbell, professor na Escola de Negócios da Universidade de Oregon.

2 – IMPONHA LIMITES

Negar alguma coisa para os pares e líderes não é fácil, mas é necessário. “Falar ‘não’ dá a sensação de que estamos desagradando às pessoas, mas no fundo estamos apenas deixando de assumir uma carga que não é nossa”, diz Mônica Barroso, da The School of Life.

3 – DESLIGUE

Para desintoxicar da rotina de trabalho e descansar, é importante ter momentos sem nenhuma tarefa relacionada à profissão. Para isso, vale desligar o e-mail e o celular por alguns períodos. “Esse é o momento em que você vai fazer uma atividade que só dá prazer. Pode ser tocar um instrumento ou fazer um esporte. Tem de ser algo que o ajude a se conectar consigo mesmo”, afirma a psicóloga Pamela Magalhães.

4 – CONVERSE COM O CHEFE

Se você estiver acumulando multas atribuições e isso prejudicar sua vida fora do trabalho, vale conversar com a liderança sobre o assunto. Explique por que a quantidade de tarefas está afetando sua qualidade de vida e sua saúde mental e ofereça algumas soluções para equilibrar as atividades.

5 – PRESTE ATENÇÃO NOS SINAIS

Quando o estresse for muito alto ou quando você começar a sentir que está ansioso ou depressivo, procure ajuda. Um psicólogo pode auxiliar nesses casos. “Não negligencie isso só porque tem de entregar um trabalho. Busque avaliação com o profissional especializado”, diz Pamela.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DANÇA MORTAL

Conhecida desde a Idade Média, a doença de Huntington é causada por mutação genética. Manifesta-se principalmente em adultos e provoca dor, fraqueza, espasmos, perda de mobilidade e até problemas cognitivos.

A doença de Huntington é uma patologia genética rara: determinadas áreas cerebrais são destruídas progressivamente. Ela leva inevitavelmente à morte. Desde que a mutação genética causadora da doença foi descoberta, em 1993, a situação se modificou dramaticamente para os grupos de risco: após a maioridade, qualquer um pode realizar testes e saber anos ou décadas antes do surgimento dos primeiros sintomas se vai padecer da doença de Huntington no futuro. Pois esse teste genético fornece um resultado certeiro – todo portador da mutação será, cedo ou tarde, vítima da doença.

O teste de DNA é tão assertivo porque a doença é causada por um único fator genético, o gene da extremidade cromossomo número 4 é um pouco mais longo em pacientes com Huntington que em pessoas saudáveis. Tipicamente, nesse gene, os componentes do DNA citosina, adenina e guanina se sucedem repetidamente. Esse bloco CAG representa o aminoácido glutamina. Quanto mais vezes a combinação CAG aparece no DNA, maior a quantidade de glutamina no produto genético: a proteína também chamada huntingtina. Em um gene saudável, o bloco CAG se repete de dez a 30 vezes. Se, no entanto, ele aparece mais de 37 vezes, então as características da proteína huntingtina se modificam de forma decisiva: quanto maior o número de repetição do CAG no DNA, mais longa a cadeia de glutamina na proteína, mais cedo a doença de Huntington se manifestará e mais penoso será o seu desenvolvimento. Como é essencialmente hereditária – a mutação transmitida por apenas um dos pais já causa a doença – os riscos para parentes consanguíneos podem ser calculados com exatidão, 50% para os filhos, 25% para a geração seguinte.

Antes de realizar o teste de DNA, os consultores em genética humana do Centro Huntington da Universidade de Ruhr, Alemanha, procuram organizar a distribuição da doença na árvore genealógica da família a partir dos dados daqueles que os procuram. “Nossa avó se jogou na frente de um trem. Não deve ter sido acidente, conta Martin, que teve diagnóstico positivo, ao lado da irmã mais nova, Susanne. “E o pai de nossa avó, nosso bisavô, se tornou um pouco estranho com a idade.”

A mãe de Martin teve a doença, mas naquele tempo ainda não era possível confirmar o diagnóstico pela genética molecular. Martin e a irmã tomaram finalmente coragem para realizar o teste a fim de tirar a dúvida e planejar melhor sua vida pessoal e profissional. Susanne também é portadora da mutação.

Seus outros irmãos ainda não se dispuseram a fazer nenhum exame preventivo – por uma boa razão: o resultado do teste transforma pessoas fisicamente saudáveis em futuros doentes. Um teste de DNA, portanto, deve ser feito apenas depois de muita reflexão, pois uma vez que se conhece da predisposição genética, não se pode mais esquecê-lo.

Martin já apresenta os primeiros sintomas, como espasmos nos braços e nas pernas. Susanne permanece até agora sem manifestação, mas ela se pergunta se já não surgiram indícios inocentes que ela mesma não tenha percebido. A doença costuma se manifestar tipicamente entre os 35e 45 anos e pode se desenvolver de formas muito diferentes mesmo entre parentes próximos. Sendo assim, irmãos podem padecer de Huntington em diferentes idades. No caso do filho de Martin,

ninguém queria ou conseguia acreditar – nem mesmo os pediatras que o acompanhavam – que o menino já pudesse manifestar os primeiros sinais da doença antes dos 10 anos.

As crises de dor, a fraqueza muscular e as inexplicáveis dificuldades de movimentação foram atribuídas a outras causas. Após seis anos da doença, o teste de DNA revelou doença de Huntington infantil causada por um gene huntingtina extremamente longo, com desenvolvimento atípico.

Mas por que a doença ataca em fases tão diferentes da vida? Através de exames em pacientes, já conseguimos comprovar que, além da mutação do gene huntingtina, outros fatores hereditários também influenciam. Assim, existem no cérebro diversas variações das chamadas proteínas receptoras que produzem o transmissor glutamato assegurando, dessa forma, a emissão das informações entre as células nervosas. De acordo com a variante desses receptores, a doença se manifesta mais cedo ou mais tarde.

HISTÓRICO DA DOENÇA

Essa moléstia é conhecida há séculos. Na Alemanha da Idade Média, os “dançarinos exagerados” peregrinavam até a Veitskapelle (capela de São Vitus), em Ulm, na esperança de serem curados – dando assim o nome à doença “Chorea Sancti Viti” ou “Dança de Veit”. Em 1872, o jovem neurologista americano George Huntington (1851-1916) descobriu que se tratava de uma doença hereditária. Junto com seu pai, ele acompanhou o destino de uma família afetada em Long Island e conseguiu diferenciar claramente a doença da “Chorea Minor”, uma infecção por estreptococo de sintomas semelhantes. A tríade clínica descrita por Huntington – hereditariedade, tendência a distúrbios psíquicos e surgimento em idade adulta – ainda hoje é considerada típica da moléstia que recebeu o seu nome.

O sintoma que lhe dava o nome originalmente (do grego chorea, “dança”) refere-se aos movimentos “dançantes” exagerados dos membros como uma das suas características mais frequentes e marcantes. No início, os pacientes tentam disfarçar os espasmos abruptos como se fossem um sinal de embaraço, balanço de cabeça ou dar de ombros, ou procuram integrá-los a movimentos voluntários. Mas, pouco a pouco, a pessoa perde o controle da musculatura e faz caretas repentinas. Falar e engolir se tornam tarefas difíceis.

Em estágio avançado, as sequências de movimentos se tornam mais lentas e o tônus muscular elevado provoca a paralisia dos membros numa contração dolorosa. Os diversos sintomas, que vão muito além da “dança”, substituíram a denominação “Coréia Huntington”, por “doença de Huntington”.

Também são características graves distúrbios psíquicos, que antecedem em anos, às vezes em décadas, os sintomas motores. A própria doença pode provocar episódios de depressão – mas, antes, o stress dos pacientes causado pelo resultado positivo do teste eventualmente leva a variações de humor. Muitas vezes, os parentes percebem mudanças na pessoa afetada: eles passam a se comportar de forma paranoica, tiranizam os que estão à sua volta com ciúmes injustificados ou reagem com uma agressividade exagerada para situações insignificantes.

EFEITOS DELETÉRIOS

Eles falam durante dias e semanas sobre coisas irrelevantes, importunando a família e, não raramente, rompendo ligações sociais. A capacidade cognitiva dos pacientes se reduz, sua memória já não funciona bem e eles têm cada vez mais dificuldade de concentração. A doença se transforma por fim em grave demência com total desamparo. Os distúrbios psíquicos podem ter rapidamente efeitos catastróficos sobre a vida pessoal e profissional, sem descartar tentativas de suicídio – algumas vezes até com uma brutalidade fora do comum.

Em compensação, a patologia é bastante rara: na Europa estima-se que há 45 mil afetados e, na América do Norte, 30 mil. Na Alemanha, uma em cada 10 mil pessoas tem Huntington, mas há pelo menos 6 a 8 mil com a mutação genética, e a quantidade de portadores desconhecidos deve ser considerável: a estigmatização social e mesmo a onda de eutanásia que houve durame o período do nazismo têm como efeito o silêncio de muitas famílias sobre doenças hereditárias – muitas vezes com consequências desastrosas para as gerações seguintes.

Apesar da raridade, a doença de Huntington é modelo para várias outras doenças degenerativas – inclusive para males mais frequentes e conhecidos como Parkinson ou Alzheimer. A doença causa a destruição de neurônios em uma parte do cérebro chamada núcleo estriado ou striatum, que produz o neurotransmissor GABA. A redução de liberação desse neurotransmissor determina os movimentos involuntários e a degeneração mental progressiva.

Desde a descoberta do gene huntingtina os cientistas já adquiriram conhecimentos exemplares a respeito dos mecanismos que levam à destruição das células nervosas. Como a proteína huntingtina é a única causadora da doença, ela é perfeita para o estudo dos processos causadores.

A huntingtina em si não é uma proteína “má”. Em animais vertebrados, ela é aparentemente essencial para o desenvolvimento embrionário, pois ratos knock-out, alterados geneticamente para ter o gene huntingtina silenciado, morrem já em estágio embrionário. Supõe-se, porém, que a proteína huntingtina de comprimento anormal se conecte a outras proteínas importantes para a sobrevivência da célula, prejudicando, assim o seu funcionamento.

São afetados por esse processo, por exemplo, os chamados elementos reguladores de transcrição – proteínas que asseguram a leitura ordenada da informação genética. Se a huntingtina, com a sua cadeia alongada de poli glutaminas, se liga a um desses reguladores de transcrição, a atividade genética da célula é sensivelmente prejudicada; a regulação da síntese de proteínas entra cm colapso. Cenas proteínas que eliminam neurotransmissores, como o glutamato, se instalam nas sinapses. Se essas proteínas falham, devido a um defeito no processo de síntese, então sobra glutamato na sinapse que estimula constantemente a célula conectada, a qual é então prejudicada. Tal modelo de toxicidade fatal pôde ser comprovado em experiências com animais: as células nervosas de ratos morreram depois que foi injetada quinolina nos animais substância que age como o glutamato. Os roedores apresentaram sintomas típicos da doença de Huntington.

Há cada vez mais indícios de que huntingtina participa da comunicação entre as células nervosas. Pois uma proteína ligada à huntingtina chamada HIP1 (Hunting-Interacting Protein 1) regula, junto com outras proteínas existentes na membrana celular, a distribuição, assim como a reassunção dos transmissores celulares. Devido à sua longa cadeia de poli glutaminas, a proteína huntingtina anormal não consegue mais se conectar corretamente à HIP1 – com consequências fatais: a HIP1, então desimpedida, entra com a proteína HIP-PI (HIP Protein Interactor) um complexo que dá início a uma cascata de enzimas. Entre vários outros processos, esse complexo ativa as chamadas caspases que, por sua vez, dão início à morte celular programada, a apoptose. A cascata provocada leva, assim, as células nervosas ao “suicídio”.

Devido à longa cadeia de poli glutaminas, a huntingtina corrompida é copiada de forma errada. Quando isso ocorre, entram em ação certas enzimas chamadas chaperonas (de chaperon, ou acompanhante em inglês) que tem como tarefa, assim como as “damas de companhia”, consertar ou eliminar proteínas com defeito. Para tanto, elas transportam as proteínas defeituosas para o núcleo da célula e as decompõem.

COMUNICAÇÃO FALHA

Realmente, podem ser encontrados corpúsculos incrustados nos núcleos de neurônios prejudicados com partículas da huntingtina modificada. Com o desenvolvimento da doença, a quantidade desses pedaços de proteínas aumenta e, por fim, elas podem ser encontradas até mesmo fora do núcleo celular. Ainda não se sabe se as próprias partículas são as causadoras da doença ou se esta seria uma tentativa desesperada, mas fracassada, das células de eliminar os fragmentos de proteína soltos.

Uma outra teoria parte do princípio de que a huntingtina defeituosa atrapalha a transferência de energia das células nervosas. Pois foi possível observar que diferentes membros da cadeia respiratória das mitocôndrias, espécie de “usina energética” da célula, não funcionam mais corretamente. A falta de energia causada por esse fenômeno acaba levando à morte da célula.

E o que se pode fazer contra essa destruição fatal? A resposta é desanimadora: pouco, pois as opções medicamentosas até agora se limitam a combater os sintomas. Portanto, os neurologistas utilizam os chamados neurolépticos, como a tiaprida e a tetra benzina. Originalmente desenvolvidos para o tratamento de psicoses esquizofrênicas, um de seus efeitos colaterais indesejáveis é a redução da capacidade motora dos pacientes- efeito desejável no caso dos afetados pela doença de Huntington.

Os médicos procuram combater os distúrbios psíquicos de seus pacientes com antidepressivos, sedativos ou neurolépticos antipsicóticos. Contra a perda da capacidade intelectual ainda não existe nenhum remédio eficaz.

Enquanto isso, vários grupos de estudo do mundo todo tentam atacar o mal pela raiz: eles procuram substâncias que desacelerem ou mesmo interrompam a decadência dos neurônios. Um exemplo de tais substâncias neuro protetoras são os chamados antagonistas de glutamato, os quais influenciam a liberação do glutamato. O Riluzol, por exemplo, já se mostrou eficaz no tratamento de uma outra doença grave e de desenvolvimento acelerado do sistema nervoso, a esclerose lateral amiotrófica. A substância está sendo testada clinicamente em 450 pacientes de Huntington em um estudo que abrange toda a Europa.

DOCE ALÍVIO

A minociclina, um antibiótico que era usado originalmente contra acne, também traz esperanças.  Ela inibe as caspases, enzimas que causam a morte das células nervosas. O grupo de trabalho de Robert Friedlander, da Escola Médica de Harvard, em Boston, conseguiu, em 2003, interromper assim o avanço dos sintomas de Huntington em ratos.

Outras substâncias, por sua vez, conseguem impedir a aglutinação da proteína huntingtina. A trehalose, açúcar existente em plantas desérticas, por exemplo, promete um “doce alívio”, também em ratos, pesquisadores coordenados por Motomasa Tanaka, do Instituto Riken, em Wako, Japão, conseguiram com isso bloquear a aglutinação da proteína e o início da doença.

Médicos tentam também interferir na transferência defeituosa de energia das células através de substâncias como a coenzima Q e a creatina. A coenzima Q coleta radicais livres de oxigênio na forma de antioxidantes, enquanto a creatina, produzida no fígado e nos rins, funciona como depósito de energia nos músculos e no cérebro. Nesse caso, as experiências com animais também obtiveram sucesso, mas a comprovação de sua efetividade em seres humanos, bem mais cara e demorada, ainda não existe. E, por fim, ainda estão sendo testados medicamentos contra tumores como o fenilbutirato, que deve reabilitar a síntese de proteína, prejudicada pela huntingtina anormal.

Paralelamente a tais estudos farmacológicos, há experiências com terapia genética. Em 2005, cientistas coordenados por Scott Harper, da Universidade de Iowa, conseguiram impedir a leitura do gene huntingtina transmutado. Para tanto, os pesquisadores injetaram no cérebro de animais curtos trechos de RNA exatamente idênticos ao RNA que deveria ser produzido para a proteína huntingtina transformada e que, então, a bloqueavam. Os roedores passaram a produzir uma menor quantidade da proteína que provoca a doença – e a produção da huntingtina saudável não foi influenciada.

Pesquisadores depositam também esperanças nas células-tronco. No ano 2000, Anne-Catherin Bachoud Levi e seus colegas do Centro Hospitalar Universitário Henri Mondor, em Crétel, França, implantaram em pacientes com Huntington células-tronco neurônicas de fetos abortados na esperança de que substituíssem as células cerebrais destruídas. Três anos mais tarde, cientistas coordenados por Robert Hauser, da Universidade do Sul da Flórida, em Tampa, realizaram uma experiência semelhante. Alguns pacientes responderam bem ao tratamento, porém outros sofreram hemorragia cerebral e seus sintomas chegaram mesmo a piorar. Todos os pacientes tiveram de utilizar medicamentos para impedir a rejeição das novas células. E os efeitos de longo prazo do tratamento ainda não são conhecidos.

Portanto, para Martin ainda não existe uma substância que impeça a evolução impiedosa de sua doença. Porém, nunca foram abertas tantas novas possibilidades nas investigações sobre ela. Os cientistas e clínicos europeus se preparam para realizar grandes estudos e já participam do Euro Huntington’s Disease Network (Rede Europeia da Doença de Huntington) a fim de trocar informações e coordenar melhor grandes estudos. Várias pessoas do grupo de risco e afetadas pela doença estão dispostas a participar de tais estudos – sem elas, não seria possível alcançar o seu objetivo. Talvez Martin também consiga encontrar um caminho para lidar com sua doença de forma mais eficaz.

REPETIÇÃO FATAL

No cromossomo 4 está o gene huntingtina no qual o código estrutural do aminoácido glutamina – que é parte integrante da proteína huntingtina – se repete diversas vezes. Se houver mais que 37 repetições, a doença se manifesta.

A destruição do SNC Pela doença de Huntington ocorre predominantemente no striatum, uma região bem interna do cérebro que faz parte de uma estrutura conhecida como gânglios da base. O núcleo estriado está inteiro e saudável em pessoas que morreram por outras causas (esquerdo) e se mostra retraído no cérebro de pessoa com a doença (direito).

OUTROS OLHARES

VIVA A DIFERENÇA

Aos 82 anos, pela primeira vez, Jane Fonda apareceu de cabelos brancos e foi celebrada por atrizes e cantoras que descolorem as madeixas. Até os homens aderiram a esse manifesto de individualidade

Homens envelhecem, os cabelos ficam brancos e tudo bem. Mulheres, não. Aquelas que aparecem em público sem mechas tingidas costumam ser classificadas em três tipos: 1) a muito, muito idosa; 2) alguma estrangeira esquisita, geralmente europeia; e 3) a desleixada, que pouco liga para a aparência. Pois nesse ambiente hostil a cabeça branca feminina vem florescendo nos últimos tempos, impulsionada por jovens famosas que – vai entender – passam horas no salão embranquecendo os cabelos. Dessas garotas ousadas partiram os maiores elogios à atitude de Jane Fonda, atriz e ativista muito cool: ela entrou no palco do Oscar, para apresentar a categoria de melhor filme, com as madeixas, pela primeiríssima vez, no tom natural de seus 82 anos. “A opção pelo branco, como tudo que é moda, tem a ver com o momento. E o atual é de reforço à individualidade”, diz a jornalista de moda Erika Palomino.

A cabeleira embranquecida à força teve seu momento de glória nas cortes europeias por obra do rei Luís XIII, da França. Em meados do século XVII, ele passou a usar uma volumosa peruca para esconder a calvície precoce, no que foi imediatamente copiado pela elite e, na sequência, por soberanos e aristocratas de outros reinos. As nobres perucas, usadas por homens e mulheres, eram generosamente polvilhadas com farinha perfumada por motivos muito práticos: afastar piolhos e disfarçar o mau cheiro. Já a cabeleira branca do século XXI (quando não é natural, claro) exige uma média de quatro horas nas mãos do tinturista e, sim, uma certa força de vontade. “Quimicamente, é um dos nossos trabalhos mais agressivos”, avisa a cabeleireira Carla Morta, do Rio de Janeiro.

Aplica-se o descolorante em duas partes: primeiro nos fios, depois na raiz. “Ela descolore mais rápido”, explica o cabeleireiro Fernando Torquatto. É nessa segunda etapa que o couro cabeludo mais sensível se rebela – a cabeça esquenta e arde conforme o tempo que os fios levam para passar do amarelo ao branco total. “Por fim, aplica-se um tonalizante para reforçar o tom perolado”, diz Torquatto. O cabelo descolorido não deve ser lavado todo dia e não se dá bem com piscina, pois o cloro pode deixá-lo esverdeado. Também requer cuidados em casa.

A cantora Katy Perry foi uma das primeiras a aparecer de cabelo curtinho e branco, desencadeando um movimento em que embarcaram famosas como Jennifer Lawrence, Kristen Stewart e, obviamente, Kim Kardashian, que não ia deixar a onda passar sem mergulhar nela. Bruna Marquezine descoloriu os fios para pular o Carnaval de 2019. A cantora pernambucana Duda Beat, de 32 anos, branqueou as mechas, mantendo a raiz escura, há três anos e nunca mais voltou ao castanho original. “Resolvi fazer porque não tinha nenhuma cantora loirona no Brasil”, diz ela, que retoca a cor a cada quinze dias. “É trabalhoso, mas vale a pena”, garante. O branco também (des) colore a cabeça de homens, como o jogador Gabigol, o surfista Pedro Scooby e – prova de sucesso –   o personagem Ryan, de Amor de Mãe, vivido pelo ator Thiago Martins. “Cabelo artificialmente branco é uma forma de se sentir diferente”, diz a especialista Erika. Até todo mundo imitar e aí chegar a hora de inventar outra moda.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 24 DE MARÇO

JESUS NA CASA DE MISERICÓRDIA

Passadas estas coisas, havia uma festa dos judeus, e Jesus subiu para Jerusalém (João 5.1).

Jesus vai ao tanque de Betesda, onde havia vários enfermos. Dizia-se que, de quando, um anjo descia ao tanque e a primeira pessoa que chegasse às águas seria curada do mal que lhe afligia. Nesse cenário de dor, Jesus identifica um homem paralítico abandonado à própria sorte havia 38 anos. Jesus faz-lhe uma pergunta maravilhosa: Queres ser curado? (v. 6b). Essa pergunta parece óbvia demais. É natural que um doente queira ser curado. Mas por que Jesus perguntou? Para que o paralítico pudesse expor suas angústias. O homem, em vez de responder sim ou não, replica com uma evasiva: Não tenho ninguém (v. 7b). Jesus, então, lhe dá uma ordem poderosa: Levanta-te, toma o teu leito e anda (v. 8b). O mesmo Jesus que dá a ordem também dá o poder para cumpri-la. Imediatamente, o homem se viu curado e, tomando o leito, pôs-se a andar (v. 9a). Não há doença incurável para o Médico dos médicos. Não há vida irrecuperável para Jesus. Ele cura, liberta, perdoa e salva. Talvez você esteja vivendo o drama do abandono, com a esperança morta, amassado emocionalmente, à espera de um milagre que se adia. Hoje mesmo Jesus pode mudar a sua sorte e dar a você paz e salvação eterna.