OUTROS OLHARES

DIVÃ ON-LINE

Com a ajuda da tecnologia, terapeutas continuam atendendo pacientes – todos de alguma forma afetados pelos novos tempos de pandemia e isolamento.

Há aqueles que, com um longo histórico depressivo, não enxergam mais motivos para sair da cama ou tomar banho porque estão adiando que o mundo vai acabar. Há os ansiosos, prevendo transtornos como um improvável desabastecimento. Há os que estão aflitos porque, sem conseguir trabalhar, não sabem até quando terão dinheiro para pagar as despesas da casa. Há também alcoólatras enxugando garrafas após meses, anos, mantendo uma distância segura. Mas existe, por outro lado, um universo de pacientes enxergando aspectos positivos em meio à tragédia, encarando a situação de quarentena como uma chance de reduzir o ritmo acelerado da “vida normal” e se conectar com a família – o que é bom, mas também pode gerar ansiedade.

Assim como dentro de cada domicílio, no ponto cheio de taxistas sem serviço ou nas redes sociais, os assuntos dominantes nas sessões de análise, neste momento, são a disseminação da Covid-19 e os impactos causados no cotidiano das pessoas pelo isolamento domiciliar imposto como forma de frear essa ameaça. Nos últimos dias, procuramos terapeutas que atendem públicos distintos, para saber como a epidemia causada pelo novo coronavírus está se manifestando durante as consultas. Todos os profissionais com quem conversamos estão atendendo em suas casas, via Face Time, WhatsApp, Skype ou mesmo por telefone. Foi o método que encontraram para não deixar seus pacientes sem assistência. Até porque boa parte deles não tem estrutura emocional para lidar com este momento sem apoio qualificado. Em uma carta enviada aos membros da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), o presidente da entidade, Antônio Geraldo da Silva, recomenda “a ampla e abrangente utilização da telemedicina por seus associados”, com foco na proteção da saúde e da vida do paciente, “e considerando o inegável estado de urgência e emergência da saúde pública”. Segundo o documento, o atendimento presencial deve ocorrer apenas em casos indicados, para proteção da vida do paciente, a critério do médico.

Da mesma forma, todas as entrevistas para esta reportagem foram feitas por Face Time ou telefone. Recolhido em seu sítio na Serra da Mantiqueira, em São Paulo, o psiquiatra e psicanalista Jorge Forbes vem dando assistência a seus pacientes à distância, observando a forma como eles reagem aos efeitos da epidemia do novo coronavírus. Durante a conversa, ele usou o texto “Além do princípio do prazer”, escrito por Sigmund Freud em 1920, para contextualizar. Freud analisa as diferentes reações humanas diante do perigo: a angústia, o medo, o terror. Numa situação de angústia, o objeto que provoca o sentimento não é algo definido, está difuso. A pessoa sofre procurando a fonte de sua angústia. Um indivíduo com medo, por sua vez, conhece a causa da sensação e, normalmente, sabe o que fazer para se defender. Medo de um assalto, por exemplo. A pior das três reações é o terror, que existe quando o paciente tem uma ideia do objeto causador, mas não tem acesso a ele e não sabe como se proteger. “O avanço do coronavírus gera esse terror na sociedade. A epidemia desloca nossos eixos de conforto, altera a maneira como a gente se vê”, disse Forbes, que dirige a clínica de psicanálise do Centro de Estudos do Genoma Humano, na Universidade de São Paulo (USP). “O terror funciona como guerrilha, a pessoa fica 24 horas por dia sob efeito daquele sentimento. Não é racional. O terror gera estresse constante, você fica exaurido”, completou.

Os efeitos psicológicos do novo coronavírus e do isolamento domiciliar tomaram conta das consultas da psiquiatra Fernanda Gueiros. Alguns de seus pacientes, que já tentavam superar uma depressão, estão vivendo uma conjuntura que eles encaram como confirmação de seu pensamento catastrófico. Uma pessoa, com dificuldade até para sair da cama, chegou a dizer algo como “para que me alimentar ou tomar banho se o mundo vai acabar?”. “Pessoas com depressão muitas vezes olham para o mundo com uma lente pessimista. Quando a sociedade também está vivendo uma tragédia, o impacto nelas é pior do que nas outras pessoas”, disse. Outro grupo preocupante são os ansiosos.

Entre eles estão aqueles que vão aos supermercados para estocar alimentos e produtos higiênicos. Esvaziam prateleiras sem se importar com a chance de contribuírem para um caos social. Terapeutas relatam casos de pacientes que pagaram caro para fazer o escasso teste do novo coronavírus sem sequer apresentar sintomas da doença. Um ansioso, preocupado com a duração da quarentena, ficou frustrado quando a médica negou seu pedido para fazer-lhe uma receita de remédios garantindo cobertura de seis meses. Entre os integrantes desse grupo há aqueles mais graves, que desenvolveram Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC). Mesmo antes de surgir a epidemia na China, já temiam contaminações e lavavam as mãos dezenas de vezes ao dia.

Além da tensão gerada pela Covid-19 e pelo temido colapso do sistema de saúde, o isolamento domiciliar causa mudanças bruscas no cotidiano, gerando impacto psicológico. Ouvimos profissionais de dois serviços públicos de saúde mental na Zona Norte do Rio de Janeiro. Segundo eles, o assunto tomou conta das sessões de terapia, que, salvo exceções para casos muito graves, têm sido conduzidas pelo telefone. Os pacientes, de maneira geral, respeitam o recolhimento, mas estão angustiados com contas a pagar, uma vez que grande parte deles atua no mercado informal e vai ficar sem receita enquanto não puder voltar ao trabalho. Também estão tensos com a possibilidade de não encontrar assistência nos hospitais públicos se apresentarem sintomas graves causados pelo novo coronavírus. Muitos recorrem ao profissional de saúde mental que os atende para obter informações básicas sobre a doença e formas de prevenção. As rusgas entre parentes surgidas após vários dias de isolamento domiciliar também já estão presentes nas sessões de análise. Famílias com um jovem em casa, por exemplo, experimentam sérios atritos quando ele resolve que vai dormir na casa da(o) namorada(o) e voltar no dia seguinte. Até porque, em alguns casos, há idosos morando na mesma residência. As brigas entre os casais são um capítulo à parte. Com um histórico de alcoolismo, uma mulher havia praticamente zerado o consumo de bebida, mas, agora, o hábito voltou com força, resgatado pela ansiedade do confinamento. Sua companheira não tem gostado da novidade. Ambas têm vida social muito intensa e estão custando a se adaptar à medida defendida pelos especialistas como essencial para “achatar a curva” de contágio da Covid-19 no país.

A vida privada durante a quarentena vem motivando uma série de memes nas redes sociais, que fazem piada desconfiando da duração de casamentos, por exemplo. As brincadeiras têm um fundo de verdade. As partes envolvidas numa relação a dois, por exemplo, não estão habituadas a passar tantos dias trancadas em casa sem contato com pessoas de fora. A psicanalista Regina Navarro Lins, autora de diversos livros sobre relacionamento amoroso e sexual, diz que vivemos algo sem precedentes e que só saberemos os efeitos disso nos casamentos após pelo menos algumas semanas de recolhimento. Ela teme, por exemplo, o aumento de casos de violência doméstica.

Os terapeutas ouvidos nesta reportagem já reúnem bons relatos de pacientes que, sem deixar de reconhecer a tragédia humana da epidemia, estão vivendo o lado bom do recolhimento residencial. Um economista que sofre da síndrome de Burnout, por trabalhar 14 horas por dia sem conseguir se desligar do ofício, passou a dar mais atenção à família. Está descobrindo o prazer de brincar com o filho. Um empresário teve de aprender a limpar a piscina de sua casa. Algumas pessoas estão, de fato, revendo sua vida “pré-quarentena”, refletindo sobre a necessidade de se doar tanto ao batente.

Além disso, parte das consultas “sequestradas” pelo novo coronavírus deixa transparecer

pessoas absolutamente motivadas para lidar com o perigo que avança sobre o país. De acordo com os terapeutas, há pacientes tão engajados com as tarefas de mobilização solidária que já não conseguem nem mais falar de suas questões. Nesse grupo, há desde médicos na linha de frente do combate à Covid-19 até pessoas de áreas de atuação mais distintas, mas que acharam um propósito nessa luta, seja viabilizando uma campanha de crowdfunding para arrecadar alimentos para os mais atingidos pela epidemia, seja fazendo compras para os idosos da vizinhança.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 31 DE MARÇO

PRESENTE DOLOROSO, FUTURO GLORIOSO

Porque para mim tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós (Romanos 8.18).

Paulo diz que a caminhada do cristão neste mundo é uma marcha por estradas crivadas de espinhos. O caminho rumo à glória é estreito, e a porta é apertada. Temos um presente doloroso, porém um futuro glorioso. Paulo escreve: Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação (2 Coríntios 4.17).

Aqui pisamos estradas juncadas de espinhos, cruzamos vales escuros e atravessamos desertos tórridos. Aqui nossos olhos ficam empapuçados de lágrimas e nosso corpo geme sob o látego da dor. Aqui enfrentamos ondas encapeladas, rios caudalosos e fornalhas ardentes. Aqui sofremos, choramos e sangramos. Porém, em comparação com a glória a ser revelada em nós, nossas tribulações são leves e passageiras. O presente é doloroso, mas o futuro é glorioso. Nosso destino final não é um corpo caquético, mas um corpo de glória. Nossa jornada não termina num túmulo gélido, mas na Jerusalém celeste. Nosso fim não é a morte, mas a vida eterna. Nosso futuro de glória deve encorajar-nos a enfrentar com alegria a presente tribulação. O que seremos deve encher-nos de esperança para arrostar as limitações de quem somos. Vivemos na dimensão da eternidade!

GESTÃO E CARREIRA

A ECONOMIA DA SOLIDARIEDADE

Em meio à retração provocada pela pandemia de Covid-19, surge uma corrente do bem liderada por empresas conscientes de sua responsabilidade social. Ela envolve desde doações até a criação de fundos emergenciais para socorrer setores afetados pela paralisia nos negócios. Superar a maior crise global desde a Segunda Guerra exige empatia — e isso pode originar um novo capitalismo, mais consciente.

Os casos começaram a ser divulgados pelas redes sociais, em grupos de amigos no WhatsApp. Aos poucos, ganharam escala na mídia de todo o planeta. Eram as notícias que todos queriam receber, contrastando com os informes já corriqueiros de colapso nas bolsas, ameaça de recessão global, risco de desemprego em massa e a avalanche de cartas de entidades setoriais alarmadas com o futuro do negócio que representam. Com as pessoas em casa, o que passou a circular não eram apenas novas estatísticas de mortes (infelizmente, elas também continuam avançando em todo o planeta) ou críticas às decisões atabalhoadas das autoridades despreparadas. Não. Agora o contágio se dava de outra forma. E era pelo bem comum.

Depois de anunciar procedimentos para frear a propagação do coronavírus entre colaboradores e de notificar a interrupção ou manutenção de suas atividades, empresas de todos os tamanhos começaram a divulgar sua pauta de generosidade. Fosse em dinheiro ou em produtos essenciais para lidar com a pandemia, a lista de doações chegou a centenas. O álcool gel, cujo preço havia disparado de forma exponencial antes de sumir das prateleiras, entrou no radar de grupos como Ambev e O Boticário. Fábricas foram adaptadas para produzir o desinfetante que seria então doado aos serviços de saúde. A cervejaria não informou o valor investido para produzir 500 mil garrafas PET de álcool que começaram a ser entregues às Secretarias de Saúde de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, onde há maior concentração de casos. O rumor de que frascos chegariam gratuitamente para a população em geral ganhou força antes de ser confirmado como fake news. A irresponsabilidade de alguns disseminadores de boatos não maculou as boas ações de parte do empresariado. “Nossa essência é ser agente de transformação em tudo o que fazemos. Se salvarmos uma vida, salvamos a humanidade”, afirmou o fundador e presidente do Conselho de Administração do Grupo Boticário, Miguel Krigsner, ao anunciar a doação de 1,7 tonelada de álcool gel para a secretaria municipal de Saúde de Curitiba.

Na quarta-feira 25, os três maiores bancos privados do Brasil (Bradesco, Itaú e Santander) anunciaram uma inédita união de esforços para importar 5 milhões de testes rápidos de detecção da Covid-19, além de equipamentos, como tomógrafos e respiradores. “Este é um momento difícil e desafiador, de escolhas complexas”, disse Octavio de Lazari, presidente do Bradesco. “Juntos somos mais fortes do que qualquer crise, seja a da pandemia ou a dos efeitos econômicos dela resultantes”, afirmou. Para Candido Bracher, presidente do Itaú, a gravidade da crise demanda que não apenas o governo, mas também a sociedade civil atue de forma rápida e efetiva. “Proteger e apoiar as pessoas, principalmente as mais vulneráveis, é a prioridade de todos nós neste momento tão delicado”.

A importância de somar esforços também foi destacada por Sergio Rial, presidente do Santander: “Um apoio em larga escala ao trabalho de nossos profissionais de saúde e aos pacientes vai muito além de tudo o que podemos fazer individualmente, e se soma às iniciativas setoriais que visam a manter o fôlego financeiro de negócios e pessoas durante este período mais crítico de combate à pandemia”.

O mesmo espírito de união empresarial foi decisivo para que a prefeitura de São Paulo pudesse viabilizar em tempo recorde o Centro de Tratamento Covid-19, com um total previsto de 100 leitos (40 deles na primeira quinzena de abril), no Hospital M’Boi Mirim, que funciona sob gestão do Hospital Israelita Albert Einstein. A obra conta com investimentos dos grupos Ambev e Gerdau, e o atendimento será exclusivamente pelo Sistema Único de Saúde. “É importante que cada um faça a sua parte e nós da Gerdau seguimos firmes cumprindo nosso compromisso com o Brasil. Decidimos participar dessa brilhante iniciativa, pois o momento pede colaboração”, afirmou Gustavo Werneck, CEO da Gerdau.

A família Menin, controladora da construtora MRV, do banco Inter e da Log CP, destinou R$ 10 milhões para que o governo de Minas Gerais pudesse adquirir novos respiradores artificiais. Em São Paulo, a distribuidora de energia EDP, de origem portuguesa, disponibilizou R$ 6 milhões para a organização social Comunitas, encarregada de adquirir respiradores para UTIs de hospitais públicos do estado. Junto com a EDP, um total de 150 empresas levantou em poucos dias R$ 23,4 milhões para a compra de 345 aparelhos essenciais para reduzir os gargalos do atendimento na rede pública da saúde.

A Marfrig Global Foods confirmou o repasse de R$ 7,5 milhões para que o Ministério da Saúde pudesse comprar 100 mil kits de teste do coronavírus. “Este é um momento de união e de solidariedade”, afirmou o empresário Marcos Molina, fundador e presidente do Conselho de Administração da Marfrig, líder mundial na produção de hambúrgueres, ao confirmar sua doação ao Ministério da Saúde, na segunda-feira 23. A decisão foi tomada na véspera, quando o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, informou que o governo buscava parcerias com a iniciativa privada para financiar parte da compra dos kits. “Esperamos que nossa iniciativa seja seguida por outras companhias brasileiras”, disse Molina.

A Natura, que também controla a Avon, doou 2,8 milhões de sabonetes para comunidades carentes nas cidades do entorno de suas operações em São Paulo, Pará e Bahia, além de outros países da América Latina. A doação inicial da fabricante de detergentes Ypê foi de 21 toneladas de sabão em barra para moradores da favela de Paraisópolis, em São Paulo. Segundo a empresa, outras 25 toneladas seguiriam para o Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. A rede de fast-food Subway entregou milhares de sanduíches gratuitamente para profissionais de saúde. Na Europa, grandes confecções adaptaram linhas de corte e costura para produzir máscaras e uniformes destinados a médicos e enfermeiros. A espanhola Zara prometeu 300 mil máscaras de proteção. A italiana Prada, 110 mil. Repartir o bolo em um momento como esse é o que se espera de companhias que faturam bilhões ­— e entendem qual é sua responsabilidade social. Em meio a tantas notícias desoladoras, palavras como solidariedade e cooperação passaram a dar o tom de muitas lideranças empresariais.

“A gravidade do momento que vivemos exige da iniciativa privada uma postura de cooperação com os esforços governamentais e sociais no combate ao novo coronavírus”, afirmou Miguel Setas, presidente da EDP no Brasil. A empresa já havia doado 50 respiradores e 200 monitores a hospitais portugueses em conjunto com a China Three Gorges, maior geradora de energia hidrelétrica do mundo.

Nem só os grandes decidiram agir. “Acreditamos que o senso de coletivo é fundamental e, por isso, vamos converter nossa estrutura para fornecer materiais aos hospitais, a fim de minimizarmos os impactos na saúde”, afirmou Julio Samorano, diretor e sócio da paranaense Century Estofados ao anunciar que iria interromper sua produção habitual para confeccionar toucas, aventais e lençóis voltados para abastecer gratuitamente os hospitais públicos e universitários da região de Maringá (PR).

Cada uma das ações descritas até aqui merece aplausos, mas elas não bastam. Apenas aliviam as primeiras dores da pandemia. Ainda que as emergências médicas estejam longe de uma trégua, a catástrofe do coronavírus não está restrita ao âmbito hospitalar. Enquanto o vírus se alastra, a única proteção eficaz para detê-lo é a quarentena. Com ela, espalha-se outra chaga: a estagnação econômica. Com um terço da população global confinada, o que todos passaram a necessitar é algo que vai além dos primeiros socorros. Uma calamidade que afeta o mundo de tantas formas só pode ser superada com a criação de projetos de futuro. Isso vale para pessoas, empresas e setores inteiros da economia que foram gravemente feridos e cujas cicatrizes permanecerão abertas por muito tempo. Sobreviver nessas circunstâncias depende de valores que não sejam apenas econômicos. Exige valores humanos.

FOCO NA COMUNIDADE

Quem costuma tomar a dianteira nesses momentos é o terceiro setor — que depende do apoio de empresas para fazer a roda das boas ações girar. Liderado por Edu Lyra, o Instituto Gerando Falcões, ONG voltada para a capacitação de jovens, montou um fundo de R$ 5 milhões para levar cestas básicas a cerca de 60 mil moradores de 52 favelas e comunidades pobres da periferia paulistana e em outras cidades, de São José do Rio Preto (SP) a Maceió. Entre os doadores estão os empresários Jorge Paulo Lemann, Abílio Diniz, David Feffer e Pedro Bueno. “Vamos superar este momento e cuidar das famílias de extrema baixa renda”, afirmou Lyra.

Em horas assim, dar o peixe acaba sendo mais prático e eficaz do que ensinar a pescar. No longo prazo, o apoio a iniciativas que envolvam a sustentabilidade de pequenos negócios em regiões periféricas é bem mais estratégico. E foi exatamente esse o investimento feito pela Fundação Casas Bahia, gerida pela Via Varejo. “Temos como foco atuar sempre com as comunidades e mulheres empreendedoras. Mais ainda num momento como esse pelo qual estamos passando”, disse Hélio Muniz, responsável pela fundação, ao anunciar que microempreendedoras de áreas menos favorecidas da Grande São Paulo e na Grande Rio de Janeiro poderão contar com um Fundo de Doação de R$ 1 milhão criado pela entidade. A expectativa é beneficiar até 1,2 mil empresárias, que serão selecionadas por uma consultoria especializada. “É o momento de somarmos esforços junto às autoridades, associações e grandes empresas para apoiar as pessoas menos favorecidas, que tendem a ser economicamente impactadas pela crise atual”, afirmou.

A quarentena tem sido letal para o setor de alimentação fora de casa. Com o fechamento temporário de bares, restaurantes e lanchonetes, especialmente os que operam dentro de shopping centers, veio a ameaça de uma quebradeira sem precedentes em toda a cadeia de refeições. Na tentativa de evitar o pior cenário, a empresa de delivery iFood está colocando na rua uma série de medidas cujo impacto pode preservar milhares de empregos. Em parceria com o Itaú, por meio da processadora de cartões Rede, a empresa vai antecipar os pagamentos aos restaurantes. Também irá lançar um fundo de assistência de R$ 50 milhões aos parceiros e de R$ 1 milhão aos entregadores. O primeiro vai oferecer desconto médio de 20% na comissão paga pelos restaurantes à empresa. “A medida deve dar um respiro a cerca de 130 mil estabelecimentos em 1 mil cidades pelo País”, diz Diego Barreto, vice-presidente de Estratégia do iFood. Segundo ele, as medidas passam a valer a partir do dia 2 de abril e beneficiarão os 150 mil cadastrados na plataforma. “Se houver a ruptura da cadeia, as pessoas vão sair às ruas e estocar comida. Precisamos de medidas efetivas”, afirma. Ao acelerar o repasse dos valores das compras feitas pelo app, a empresa garantirá que os restaurantes beneficiados tenham o dinheiro em caixa sete dias após a venda — e não mais em 30 dias. Com isso, o iFood calcula que serão injetados na economia R$ 1,2 bilhão já no próximo bimestre. O valor arrecadado em taxas do serviço Pra Retirar (quando o cliente faz o pedido via aplicativo e busca diretamente no restaurante) será repassado integralmente aos parceiros. O fundo de R$ 1 milhão, voltado para os 83 mil entregadores que prestam serviço ao iFood pelo Brasil, é uma medida para assegurar renda ao colaborador caso este se afaste das atividades pela Covid-19 ou por suspeita de contágio.

Garantir recursos para que a roda da economia continue girando, principalmente para os pequenos empreendedores, é uma das preocupações da fintech de serviços financeiros Stone, que opera uma rede própria de meios de pagamento eletrônicos. Para dar fôlego a quem usa suas maquininhas e depende do giro diário de vendas para sobreviver, a empresa lançou a campanha Compre Local, Cuide de um Pequeno Negócio. A Stone vai disponibilizar R$ 100 milhões em microcrédito aos associados do setor de varejo nos Estados onde forem determinadas medidas de contenção à pandemia do coronavírus. O incentivo é válido até maio e deve beneficiar parte dos seus 495 mil clientes no País.

Capital de giro “Serão atendidos os donos dos negócios nos segmentos que mais sofreram suspensão das suas atividades por determinação do governo, como alimentação, educação, turismo e lazer”, diz o presidente da Stone, Augusto Lins. Outros R$ 30 milhões serão destinados a ações que visem estimular o comércio. Estão incluídas isenção de mensalidade para todas as máquinas, além de aparelhos adicionais sem custo para operação delivery, redução de taxas de antecipação para impulsionar o capital de giro e ferramentas para vendas on-line. “Sabemos que muitos negócios vão quebrar e que haverá demissões, como estamos acompanhando em algumas regiões do País. Por isso vamos agir rapidamente. Queremos garantir que o maior número de empresas se mantenha saudável e forte durante todo esse período”, afirma Lins.

Ainda que os estragos da Covid-19 sobre a atividade sejam de difícil mensuração, há algumas certezas em meio ao caos. A primeira é que muitos dos combalidos hospitais brasileiros serão reequipados com doações do setor empresarial. Foi assim no passado, quando entidades beneficentes criaram instituições de saúde para atender a comunidades étnicas. Outra certeza é a de que o medo da doença reforçou a empatia. “Tentem se colocar na posição das pessoas que mais precisam”, disse o fundador da XP Inc., Guilherme Benchimol, durante uma live no Instagram para divulgar a iniciativa Juntos Transformamos (leia mais abaixo). “É hora de compaixão, de solidariedade”.

O diretor-geral da Trevisan Escola de Negócios, Fernando Trevisan, acredita que uma crise tão profunda como a do coronavírus pode ser um divisor de águas em diversas esferas, inclusive na atuação social das empresas. Para ele, o maior ato de responsabilidade social que uma organização privada pode ter neste momento é lutar para continuar existindo. “Passada essa pandemia, é possível que o conceito de responsabilidade social corporativa ganhe força e clareza de que, antes de qualquer coisa, só o fato de uma empresa existir e se sustentar economicamente já significa uma contribuição social altamente relevante para o desenvolvimento do País”, afirma Trevisan. A percepção de que as empresas são a chave para o futuro traz embutida a ideia de que o setor privado pode reorganizar as relações sociais no Brasil e no mundo – o que pode transformar até as bases do capitalismo, criando um sistema pautado não apenas na busca do lucro, mas da igualdade e da justiça social.

Às 11h da quinta-feira 26, o fundador da XP Inc., Guilherme Benchimol, usou a rede social Instagram para anunciar, ao vivo, o lançamento da iniciativa Juntos Transformamos. “Como vocês sabem, o Brasil é um país pobre. Apenas 30% dos brasileiros fizeram poupança em 2019. Temos 40 milhões de autônomos. Quando a economia colapsa, eles não conseguem levar comida para casa. A gente tem a obrigação de mobilizar outros empresários a ajudar quem mais precisa a atravessar esse vale, que deve durar de dois a três meses”, afirmou. “Se não ajudarmos essas pessoas, elas vão morrer de fome”. A iniciativa parte de uma doação de R$ 25 milhões, que deve atingir 100 mil pessoas de comunidades carentes por três meses. Para que o dinheiro chegue a famílias em situação de vulnerabilidade, foram firmadas parcerias com as ONGs Gerando Falcões, Amigos do Bem e Visão Mundial. Segundo o comunicado da XP, o aporte inicial tem como objetivo engajar novos doadores, para que um número ainda maior de famílias seja impactado. “Cada centavo do que arrecadarmos será convertido em assistência para colocar comida na mesa de famílias em situação de vulnerabilidade. Nenhuma família pode ficar sem ter o que comer em casa. Faço um apelo para todos que querem ajudar e não sabem como fazer isso de forma segura e transparente: junte-se a nós”, afirmou Benchimol.

HOSPITAL EM TEMPO RECORDE:

Prefeitura, Ambev, Gerdau e Einstein se uniram para viabilizar o Centro de Tratamento Covid-19, em São Paulo, que terá 100 leitos até o final de abril.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

AMOR E ÓDIO: PAR INSEPARÁVEL

No premiado filme Coringa, riso e choro caminham fisiologicamente pelos mesmos trajetos e mostram que diante de forte estresse é comum que se confunda a expressão de um comportamento

Um filme consagrado pela crítica e pelo público, Coringa (Joker) aborda o prazer e a dor em um limiar tão próximo que o amor e o ódio são par quase inseparável frente aos objetos de investimento. A subjetividade é um emaranhado complexo e nada maniqueísta. Fisiologicamente, riso e choro caminham pelos mesmos trajetos, diante de forte estresse é comum que se confunda a expressão de um comportamento. Não é incomum a troca de expressão diante de algo muito tenso, no caso do personagem principal, ele na verdade padece de uma síndrome neurológica cujo diagnóstico dado pelos especialistas é complexo. O quadro passa desde uma epilepsia gelástica até patologias pseudobulbares ocasionadas por tumores nos lobos frontal ou temporal. Há também os casos conhecidos como pseudobulbares, mas que são mais presentes na população idosa, ligados a uma questão mais senil. Mas essa troca do choro pelo riso ou do riso pelo choro (ou expressão de raiva e descontentamento) não é algo que se possa perceber apenas em quadros mais graves, muitas vezes frente a intensas experiências associadas a uma linha traumática de fixação poderão ser observados padrões mais atenuados disso, como o paciente que, frente ao psicoterapeuta, relata um sofrimento sorrindo ou mesmo emprestando-lhe um ar de coisa engraçada e espanta-se caso seja confrontado com o questionamento de se acha realmente engraçado o que está relatando.

O longa cativou o público e contou com a impressionante marca de 11 indicações para o Oscar, tornando-se assim o filme baseado em quadrinhos com mais nomeações na história da premiação da maior vitrine no mundo cinematográfico. Sem dúvida que o pesado da narrativa mais a densidade que Joaquin Phoenix imprimiu ao personagem constituíram em uma forte mensagem para o público que vive hoje em um mundo bastante Gotham. E o telespectador abraçou essa mensagem com fervor. Alvo das mais variadas críticas e comentários, segue polemizando e ovacionado. Vale ler sobre ele, disponível na web, a resenha do filósofo e psicanalista esloveno Slavoj Zizek.

A imagem de Joaquin Phoenix na pele do Coringa é todo o tempo incômoda, desagradável e angustiante, quase disgusting. O ator perdeu 23 kg para interpretar o personagem, além de compor de forma impactante todos os movimentos e semblantes que o caracterizam. Nota em destaque para a risada que impressionou plateias mundo afora. Contam os noticiários que ele esteve presente em algumas sessões logo no lançamento do filme e que conversou com os espectadores. Alguns pediram-lhe que reproduzisse a risada, o que não pode fazer assim a frio. É preciso estar na pele do personagem para compor daquela forma tão intensa uma presença tão avassaladora que sem dúvida aponta para uma estupefação coletiva frente a um mundo que a cada dia mais se assina em segregação e desalento. Coringa é um pouco esse riso coletivo frente a um social desarticulado e que opera mecanismos cruéis frente às necessidades mais que humanas que vão se transformando aceleradamente em algo da ordem de privilégios. Não é possível compreender o sofrimento na atualidade sem inserir na escuta o coletivo em que essa dor individual nasce e se inscreve. “Eu acho que você nunca realmente me ouviu”, diz Coringa, reafirmando esse mecanismo cruel.

A dor de Arthur Fleck não tem lugar no mundo Gotham, onde o magnata pai de Bruce Wayne, Thomas Wayne, é também candidato a prefeito e diz sobre pessoas como Arthur: “Olharemos para eles como se fossem meros palhaços” e ele pretende que essas pessoas mudem para melhor como ele e todos que são os cidadãos “que fizeram algo de sua vida”. Sabemos o quanto o ideal que alimenta o modelo de identificação tem sempre a ver com símbolos que sustentam justamente as diferenças entre os estratos sociais. O irônico do mundo atual é justamente ver que quase tudo ganha uma imitação de marca, como acontecerá com o personagem do Coringa, que antes de se assumir como tal era apenas o palhaço Carnival. Ódio e revolta latente na desigual cidade de Ghotam explodem a partir de seus assassinatos e falas, o programa de TV que tanto admirava e do qual ansiava participar dá voz ao seu ódio, um basta ao ocupar sempre o lugar de, como ele diz, “lixo da sociedade”. Elevado a modelo é copiado e dá voz a uma rebelião social de gente cansada de ser pária, de não ter perspectivas. E aqui mora o perigo do filme, porque é óbvio que o Coringa é um sujeito em extremo sofrimento, alguém que acusa aquilo que ele mesmo não é mais capaz de fazer, pensar a vida do outro como valiosa, mesmo que esse outro seja tudo aquilo que ele despreza. Tornar criminosa a revolta popular frente à desigualdade e opressão tem sido a estratégia desde sempre para manter o status quo dos Waynes do mundo real. Talvez seja mais prudente manter um olhar crítico em relação à história de um velho vilão das histórias em quadrinhos, história essa composta aos densos anos 40 do século XX, em plena guerra, e depois desenvolvida nos densos anos 50, em tempos de macarthismo e de bigienismo travestido de ciência ao campo da saúde mental, quando os quadrinhos do Batman começaram a ser publicados com maior frequência. Os vilões estavam lá para demonizar o que pregavam, a atualidade tenta resgatar a história do Coringa, um dos vilões mais intrigantes dessa história, mas será que consegue analisar de maneira que possa anular a intenção original de sua existência? Na série que ficou no ar de 1966 a 1968, trazendo Adam West como Batman e Burt Ward como Robin, que acolheu o insólito pedido por parte da produção para que tomasse medicação para encolher sua protuberante genitália, como declarou recentemente à revista Page Six, diria ele: “Santo Batman!”.

O PARADOXO DA PIADA

Fica a dúvida sobre se houve realmente o expediente de tratar sua mãe, Penny Fleck, interpretada pela sempre excelente Frauces Conroy, como louca e isola- la em uma instituição psiquiátrica para que seu suposto caso amoroso com Thomas Wayne não viesse a público, fato que, como sabemos, não foi algo incomum desde a criação dos manicômios, ou se ela havia mesmo desenvolvido alguma espécie de delírio na linha da erotomania. A ficha de sua mãe narra histórias de abuso, negligência e maus-tratos cometidos contra o filho adotivo, Arthur, levando a crer, inclusive, que seu quadro neurológico poderia ser consequência de um traumatismo craniano que sofrera por agressão cometida pelo namorado da mãe. Mas Arthur conclui diante da mãe que sua condição não era uma doença, mas sim que era ele mesmo, alguém feliz, embora em outro momento tenha dito que nunca havia se sentido feliz em toda a sua vida O paradoxo da piada que violenta e faz rir ao mesmo tempo, o humor pesado, que é uma das espécies de humor mais desenvolvida socialmente, há nele sempre um quantum imenso de agressão, há sempre alguém mais frágil a ser atacado, uma vítima para ser ridicularizada. Esse tipo de humor que nossos novos laços civilizatórios andam querendo banir do nosso convívio, a perseguição e reforço de preconceitos que no final acabam fermentando um ódio como o do Coringa.

“Nem eu sabia se eu realmente existia”, diz Coringa, num momento de total paradoxo. Arthur Fleck levava a vida entre desempenhar seu papel de palhaço como ganha-pão e cuidar da mãe enferma em um apartamento de um prédio horroroso, segundo seu julgamento, que poderá ser conhecido em suas fantasias de relacionamento com a vizinha. Sua vida era uma inexistência suspensa entre seus devaneios com o sucesso e suas fabulações anotadas em caderno para compor um show que ainda faria e que seria então seu desenvolvimento como comediante famoso. A violência de Arthur está ali sempre presente, mas ao mesmo tempo sob controle, como quando aponta a arma para a poltrona vazia, lugar onde a mãe se senta para assistir a TV. A relação tóxica entre Arthur e Penny Fleck exemplifica muito bem relações de abuso em que a vítima acaba, por mecanismos variados, presa a uma necessidade de cuidar do abusador, como uma formação reativa (mecanismo de defesa) em relação ao ódio. Todo dispêndio de energia que isso requer faz dele aquela figura meio espantalho, meio vivo e morto ao mesmo tempo, um sujeito que não pode existir.

O SENTIMENTO MÁGICO

É comum em quadros cíclicos pacientes terem um certo apego ao ciclo hipomaníaco, quando o excesso é o manifesto, a euforia, o sentimento de poder, a falta de sono, a hipersexualidade, a compulsão por compras etc., que dão ao sujeito um simulacro de existência feliz, até que o ciclo vire depressão. Diante do desmonte do serviço de assistência social que o acompanhava, Arthur Fleck deixa de tomar seus medicamentos e entra em uma óbvia espiral de onipotência. Seus gestos, sua dança, sua risada, sua agressividade agora são tomados totalmente pelo impulso de destruição. Um sujeito em grave sofrimento abandonado por todos os mecanismos coletivos que deveriam ajudá-lo a não ter como única possibilidade o encarceramento e o isolamento social. Como disse a assistente social que o acompanhava antes, nem a vida dele e nem a dela importavam ao poder constituído. Em época de neoliberalismo selvagem e desmonte de qualquer noção de bem-estar social, Coringa vira um pouco o magnífico Eu, Daniel Blake (2016), de Ken Loach. O sentimento de desamparo que hoje atravessa grande parle da população não é um dado irreal, ele é cruelmente real e presente no cotidiano dos trabalhadores, em novas formas de exploração da mão de obra que apontam para uma sobrevivência impossível. Conflitos explodem atualmente no mundo todo, e talvez a mistificação que houve em torno desse filme aponte para esse sentimento crescente de falta de saída, o que será sempre um perigo. Já vimos como sentimentos coletivos podem ser capturados facilmente por aqueles que desejam o caos para instalar de forma ainda mais profunda seu domínio. Aqui no Brasil se discutem se os fatos recentes não apontariam justamente para isso, criando no final uma turba de Coringas descontrolados cujas teses mais ensandecidas ameaçam laços civilizatórios fundamentais para nossa evolução.  Sentimentos coletivos necessitam de união, reflexão, organização, trabalho continuo, o que é realmente exaustivo e exige muita solidariedade e afeto, uma vez que a convivência dos diferentes é sem dúvida a tarefa humana que mais exige do sujeito. O caos jamais será a solução, e os países que souberam comandar com forças progressistas a explosão da insatisfação popular foram os que tiveram algum avanço, vide a França e a desistência de aumentar a idade da aposentadoria para seus cidadãos. A rebelião é fundamental, mas sem a força da política ela se torna invariavelmente apenas caos, caldeirão que ferve as mais estranhas criaturas que surgem dessa ira sem direção de combate, sem meta e sem elaboração. Os grandes tiranos, ao longo da história, se lambuzaram nesse caos que ajudaram a criar e surgiram de suas entranhas.

É sem dúvida um dado a se pensar que no ano de 2019 os dois filmes mais falados sejam Coringa e Parasita (Parasite), de Bong Joon-ho, ambos sublinhando de forma exemplar esse crescente sentimento de descontentamento. O Brasil colocou-se na cerimônia do Oscar contando ao mundo ao que este caos pode levar com o documentário Democracia em Vertigem, de Petra Costa, que mostra o crescimento do fascismo e de uma ainda maior desigualdade amparada por um poder supostamente “antitudo” que alimenta a desinformação em causa própria. Coringa é uma chamada para a reflexão sobre às insatisfações coletivas, mas é também um alerta de que politizar é preciso.

PROF. DR. EDUARDO J. S. HONORATO – é psicólogo e psicanalista, doutor em Saúde da Criança e da Mulher.

DENISE DESCHAMPS – é psicóloga e psicanalista. Autores do livro Cinematerapia: Entendendo Conflitos.

Participam de palestras, cursos e workshops em empresas e universidades. Coordenam o site www.cinematerapia.psc.br

OUTROS OLHARES

CORRENTE DO BEM

A sociedade se une com o objetivo de proteger idosos, crianças e até pequenos empreendedores para reduzir os riscos do avanço da infecção e do aprofundamento da crise econômica

Em meio da crise, a solidariedade sempre se manifesta. Na última semana, quando a situação começou a piorar e o número de infectados pelo coronavírus passou a crescer exponencialmente, o sindico do condomínio residencial Santa Teresa, Jean Escribano, resolveu decretar a quarentena nas seis torres, com 210 apartamentos habitados por mais de 700 pessoas no Jardim Santa Emília. na zona sul da cidade de São Paulo. “Fechei quadras, playground e todas as áreas comuns do condomínio porque a situação ficou mais grave. Agora, estamos nos revezando nas compras para os idosos, assim eles não precisam sair de casa”, explica. Escribano também colocou dispensers de álcool gel nos corredores e impediu a circulação de crianças pelas áreas comuns. “A situação estava ficando crítica e a molecada achava que estava de férias. Tive que tocar todo mundo de volta aos apartamentos. Coloquei os porteiros mais idosos em férias e até eu estou assumindo a portaria do condomínio. Tudo para impedir a contaminação dos moradores”, disse.

Escribano é apenas mais um dos heróis anônimos que começaram a aparecer na sociedade, espalhando boas ações e criando uma corrente do bem por quase todos os prédios paulistanos. Moradora de um condomínio de duas torres no bairro do Sumarezinho, Sarah Bomtempo, de 27 anos, também se prontificou nas compras para seus vizinhos idosos. “Estamos tentando mantê-los longe das ruas por proteção”, diz ela. Já a psicóloga Valeska Bassan ficou preocupada justamente com esse isolamento involuntário e há uma semana começou a ajudar pessoas com problemas de ansiedade e depressão, cujas patologias podem se acentuar nesses momentos. “Trabalho há muito tempo com pacientes porque sei o impacto que o isolamento pode ter em muita gente. Além disso, muitos não têm dinheiro e nunca procuraram esse tipo de tratamento”, diz ela. O atendimento de Valeska compreende dois contatos por videoconferência para falar exclusivamente sobre o problema da quarentena, atividade conhecida como “plantão psicológico”: “a pessoa pode colocar todos os seus medos em relação ao isolamento e à contaminação e vamos ajudando na medida do possível”.

Celebridades também estão demonstrando sua generosidade em meio à pandemia. É o caso da apresentadora de TV Xuxa Meneghel, que doou R$1 milhão para o Sistema Único de Saúde (SUS). Ela se uniu a uma marca de cosméticos e fez outra doação de 300 mil sabonetes para comunidades carentes de São Paulo e do Rio de Janeiro.

CONEXÃO REGIONAL

Já prevendo a crise econômica que virá depois da pandemia, afetando não só as grandes empresas, mas, principalmente, os pequenos empresários, um grupo de empreendedores resolveu criar a toque de caixa um marketplace para conectar consumidores a pequenos produtores e comerciantes regionais e, assim, permitir que muitos deles consigam sobreviver. Segundo um dos idealizadores, Wesley Barbosa, as grandes empresas terão acesso a saídas mais rápidas, mas os pequenos terão maior dificuldade. “Onde moro tentei encontrar pequenos produtores, mas não foi fácil”, explica Barbosa, ex- executivo do Facebook. “Paralelamente, vimos que muitas escolas de negócios abriram cursos gratuitos, mas esses empresários nem sabem como chegar a isso e a maioria tem pouca formação. Por isso. criamos o portal onde ele pode oferecer seus produtos, mas incluímos pequenas aulas obrigatórias”.

Nas aulas rápidas, os micro e pequenos empreendedores terão acesso a informações sobre higienização, delivery, utilização de ferramentas como WhatsApp para atendimento, gestão de crise e como melhorar seu sistema imunológico. Desde que foi lançado, na segunda-feira 23, o portal http://www.ajudeopequeno.com.br já contabiliza mil cadastros e a expectativa é de um crescimento de 10% a 15% ao dia. “Já formalizamos a ONG, contando com 200 pessoas envolvidas e estamos recebendo contato de interessados, tanto em investidores como em parcerias”, afirma Barbosa, acrescentando que 15 influencers digitais vão divulgar a plataforma. “O interesse em ajudar é tanto que plataformas de delivery como Ifood e o Rappi já incluíram pequenos fornecedores na sua lista de ofertas”, diz.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 30 DE MARÇO

A FELICIDADE DE UMA NAÇÃO

Feliz a nação cujo Deus é o SENHOR, e o povo que ele escolheu para sua herança (Salmos 33.12).

A Bíblia diz que feliz é a nação cujo Deus é o Senhor. A felicidade de um povo não está apenas em sua cultura ou em seu poder econômico. Uma nação é a reunião total de seus cidadãos. Pessoas felizes formam uma nação feliz; pessoas infelizes formam uma nação infeliz. Por isso, uma nação que se volta a outros deuses e se curva diante de ídolos está na rota da infelicidade. Uma nação que chafurda no pântano da imoralidade e promove toda sorte de vícios degradantes labora contra si mesma. Vivemos num mundo inclusivista, que abraça todas as religiões como verdadeiras e diz que todo caminho leva a Deus. Vivemos numa sociedade pluralista que repudia a verdade absoluta e aceita como legítimas todas as divindades criadas pelo homem. Uma sociedade em que Deus é destronado de sua majestade e os ídolos criados pela arte e pela imaginação humana são adorados como se pudessem salvar. Mas essa prática engana e oprime. A impiedade desemboca na perversão, e a idolatria deságua na imoralidade. Uma nação rendida aos ídolos não pode desfrutar da verdadeira felicidade, pois a felicidade pura e genuína está em Deus. Não é feliz a nação que tem muitos deuses, que se prostra diante de muitos altares e que rende cultos a muitos ídolos, mas feliz é a nação cujo Deus é o Senhor.

GESTÃO E CARREIRA

AÇÃO SOLIDÁRIA

Empresas de diversos segmentos oferecem serviços gratuitos e upgrades para minimizar efeitos de uma sociedade em quarentena pela Covid-19.

TVs por assinatura, plataformas de streaming, empresas de telefonia e instituições de ensino abriram gratuitamente parte da programação e serviços – que vão desde mais canais, a cursos on-line e disponibilidade de internet grátis – o que pode aliviar a quarentena das pessoas que estão em casa, em período de isolamento social para conter o avanço do coronavírus, com entrega de informação e entretenimento. Os benefícios são tanto para os clientes, com upgrade no pacote, quanto aos que ainda não são cadastrados. Uma jogada que faz bem para quem está confinado e para a imagem das companhias, que aproveitam para trabalhar seu branding. Professor de Canais digitais da pós-graduação da ESPM, Alexandre Bessa afirma que o momento é ideal para “oferecer experiências” a potenciais clientes. É como promover uma degustação de produtos no corredor do supermercado. Mas, na atual situação, é mais do que uma estratégia comercial. As empresas também têm interesse em resolver a necessidade do consumidor. “Serve de experimentação para as pessoas viverem de fato algo que era vontade, mas nunca se concretizou”, diz. Ofertar esses serviços para as pessoas funciona como uma atração tradicional para um funil de vendas, mas com o diferencial de que há um propósito a mais. “As empresas estão ajudando os clientes, estendendo a mão. E os clientes vão lembrar dessas marcas, que foram positivas num momento singular.”

O especialista ressalta ainda que a sociedade brasileira tem a oportunidade de “finalmente chegar ao século 21”, pois muitas pessoas têm contato com serviços, aplicativos e outras ferramentas tecnológicas que antes não faziam parte de seu cotidiano. “Por exemplo, muita gente usa o internet banking por necessidade, mas antes da pandemia era resistente e ia ao banco. É um período que incentiva a utilização de canais digitais, o que pode mudar o ciclo de consumo a partir de agora.”

Outro exemplo é o ensino a distância (EAD). A Faber-Castell liberou para uso gratuito, desde o dia 20, todos os cursos on-line de sua plataforma. “O único objetivo da companhia foi oferecer conteúdos de qualidade para crianças e adultos que estão em casa, por conta do isolamento social imposto pelo coronavírus”, informou a companhia, que até o momento teve 1 milhão de acessos aos conteúdos. A FGV também abriu o acesso a 55 cursos on-line, com certificado, nas áreas de Administração, Direito, Marketing, RH, entre outras. A Trevisan Escola de Negócios fez o mesmo com os cursos on-line gratuitos ‘Aplicação de Data Analytics’, ‘Compliance, Ética Corporativa e Prevenção a Fraudes’, ‘Contabilidade e Gestão de Custos’, o de ‘Liderança e Inovação em Economia Digital’ e ‘Gestão Orçamentária’. Os cursos têm duração de 20 a 80 horas.

PARA RELAXAR

 Entre operadores de TV por assinatura, a Oi liberou o sinal de 54 canais (satélite e IPTV), além de 66 canais no Oi TV Livre HD. A Vivo, além de upgrade na TV por assinatura, ofereceu bônus de internet para clientes ativos em planos pós-pago e controle. A Claro liberou canais na TV fechada e redes de wi-fi públicas, como em aeroportos e parques, mas com uma condição: o cliente tem de assistir a vídeos informativos do Ministério da Saúde sobre coronavírus. “Estamos fazendo tudo o que está ao nosso alcance para apoiar a população”, informa a empresa. Os clientes de planos pós-pago da TIM também receberam bônus de dados e os pré-pago têm disponibilizados até 100MB adicionais por dia, atrelados a um vídeo educativo sobre a Covid-19. Vale ressaltar que a Claro, Oi, TIM e Vivo, com a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), assinaram compromisso com medidas para manter o Brasil Conectado, mesmo com o aumento da demanda. “As prestadoras adotarão planos para garantir que os serviços operem”, diz o comunicado.

A SKY, maior operadora de TV paga via satélite do País, abriu o sinal de mais de 90 canais para seus clientes. Além da liberação da programação na TV, de forma linear, os clientes também podem assistir a alguns dos canais ao vivo pelo SKY Play, plataforma de vídeo sob demanda da empresa. Entre as plataformas de streaming, a Globoplay disponibilizou para não assinantes mais de 20 filmes da Disney, além de outros títulos infantis e séries. “O foco é principalmente o público infantil, que em várias partes do mundo foi dispensado das escolas. A plataforma também recebeu mais de 50 filmes da Imovision”, informa a empresa. A Spcine, empresa de fomento ao cinema da Prefeitura de São Paulo, liberou o acesso ao catálogo de sua plataforma de streaming, o Spcine Play, com filmes de Zé do Caixão, Hector Babenco e Tata Amaral, entre outros cineastas brasileiros.

Já o portal Vagas.com, de soluções tecnológicas de recrutamento e seleção, oferece de forma gratuita 1 mil minutos de sua ferramenta de videoentrevista para os clientes, permitindo que as companhias sigam com seus processos sem a necessidade de deslocamento dos profissionais. “Neste momento de incertezas, decidimos colaborar com empresas e profissionais por meio dos benefícios que a tecnologia oferece. Com essa medida, contribuímos para que mais pessoas evitem o contato presencial”, afirma Leonardo Vicente, da Vagas.com.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A DOENÇA DO MEDO

Se não tratado, o estresse desencadeado pelo isolamento forçado, devido ao coronavírus, pode agravar transtornos psiquiátricos e doenças como depressão e síndrome do pânico. O que fazer?

Pessoas totalmente isoladas em suas casas, muitas delas idosas, alterando completamente suas rotinas para evitar a contaminação pelo novo coronavírus. Nas últimas semanas, a sociedade passou a viver um mundo completamente novo e, principalmente, foi tomada pela angústia. Medo de sair de casa, de ficar doente, de vir a morrer, de perder o emprego e de não conseguir pagar as contas em dia. Medo até de não conseguir comprar o que comer. Acima de tudo, veio a solidão. Para preservar a saúde, muitos estão impedidos de se relacionar com os filhos, netos e amigos. Ir à academia se exercitar, sair para trabalhar em serviços essenciais, fazer compras ou até mesmo deixar o lixo na rua, tornou-se um grande risco. Por tudo isso, cresce a preocupação com a saúde mental.

AUMENTO DO ESTRESSE

A ameaça de contrair o novo coronavírus mudou totalmente a dinâmica das pessoas. Nessa guerra contra a Covid-19, um fator não pode ser desconsiderado e está levando muita gente a procurar psiquiatras e psicólogos por meio de consultas por aplicativos: o aumento do estresse. Silencioso, porém altamente prejudicial à saúde humana, o estresse e a ansiedade podem desencadear doenças como depressão, síndrome do pânico e até risco de suicídio. “Algumas pessoas estão apavoradas e certamente o número de depressivos vai aumentar muito, sobretudo as pessoas com TOC e hiper preocupadas com o que acontecerá em relação ao contágio e à vida financeira”, diz o psiquiatra Breno Serson. É fato que experiências catastróficas sempre deixam marcas. A China, o epicentro do novo coronavírus, está vivenciando essa experiência. Até 20% de seus habitantes estão com sintomas de transtorno de estresse pós-traumático (TSPT), de acordo com um estudo recente da Universidade Médica Naval de Shanghai.

O mesmo ocorreu em Hong Kong, que sofreu em 2003 a epidemia da síndrome respiratória aguda (SARS). Lá, foi possível constatar que os danos psicológicos foram duradouros: 40% dos que contraíram o vírus, apresentaram o TSPT dez anos depois. É esperado que no Brasil o novo coronavírus também deixe sequelas. Para se ter ideia, 5,8% da população do País sofre com depressão e 32 brasileiros se suicidam todos os dias. Outro tipo de doença que poderá ter consequências em massa é o das pessoas que sofrem síndrome do pânico, ou seja, um número estimado entre 4 e 6 milhões de brasileiros. “Quanto maior for a quarentena, maior podem ser os estragos na mente das pessoas. Claro que os que têm predisposições são os mais afetados nesse momento”, diz Dora Sampaio Góes, psicóloga do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo (IPq/HCFMUSP). Em seus atendimentos remotos, ela constatou um grande aumento nos casos de irritabilidade e ansiedade entre seus pacientes.

TERAPIA ALTERNATIVA

A boa notícia é que medidas simples podem atenuar os efeitos da quarentena e a ameaça do surgimento de doenças psíquicas. Estabelecer uma rotina é fundamental para que as pessoas consigam se organizar emocionalmente. Recomenda-se assistir a filmes de entretenimento não agressivos, ler e realizar trabalhos terapêuticos e manuais, como crochê, por exemplo. “É importante que as pessoas percebam que dominam sua vida e seu tempo, e que estão fazendo escolhas. É possível ser autor da própria história, mesmo dentro de casa”, diz Dora. Além disso, especialistas dizem que esta é uma oportunidade para as pessoas se voltarem para si próprias e seus verdadeiros valores. “Colocar em evidência a empatia e o amor ao próximo causa uma sensação de bem-estar conectada ao todo e ao bem comum. A parte que eu alimentar é a que vai crescer em mim”, explica Dora. Integrante do grupo de dependências tecnológicas do Hospital das Clínicas, ela alerta para a importância de limitar o uso de ferramentas online nesse momento. Mandar mensagens para as pessoas e fazer videoconferências, por exemplo, despertam o sentimento “de pertencimento coletivo e atenuam o estresse”.

O apoio psicoterapêutico também é fundamental e diversas iniciativas gratuitas estão surgindo para atender pessoas por telefone e por videoconferência. Exercícios físicos também estão sendo disponibilizados online, por diferentes especialistas. Essa parafernália eletrônica está funcionando bem para controlar a ansiedade da professora Fernanda Antunes, de uma escola pública de São José dos Campos. Diagnosticada com síndrome do pânico, a doença está sob controle por conta do uso correto de medicamentos, bem como a realização de meditação, como terapia alternativa. Há uma semana sem sair de casa por conta dos pais idosos, ela recorre a aplicativos para manter o equilíbrio e evitar crises neste momento crítico. “Quando vejo que a situação está ficando feia, recorro a alternativas que me deixam melhor. Fiz uma meditação holística em casa, comecei uma novena e à noite rezo o terço”, diz ela, que não vê a hora de voltar ao trabalho presencial. “Além disso, tenho feito exercício físico e pretendo manter o tratamento médico online. Tento não pensar no que pode acontecer no futuro para não enlouquecer”, diz Fernanda.

OUTROS OLHARES

UMA CORRIDA GLOBAL

Em um movimento inédito e bilionário, cientistas de todo o mundo buscam avidamente o desenvolvimento da vacina e de tratamentos adequados para a Covid-19

“Testes, testes, testes.” Assim, com a repetição de três pequenas palavras, como um refrão, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), o etíope Tedros Adhanom Ghebreyesus, resumiu a postura mais adequada para combater a pandemia de Covid-19 – de mãos dadas com o distanciamento social, impositivo e inegociável. Os testes são vitais para quebrar as cadeias de transmissão, ao separar saudáveis de enfermos, e para organizar o fluxo nos hospitais. Não por acaso, em gesto louvável, a mineradora Vale fechou a compra de 5 milhões de kits chineses, que apontam positivo ou negativo a partir da detecção de anticorpos, para doá-los ao governo brasileiro. Uma startup de Curitiba, a Hi Technologies, desenvolveu um equipamento que oferece respostas em até quinze minutos – que em breve começará a chegar às farmácias e aos serviços de saúde. Testar, testar e testar é, enfim, o primeiro passo do mais extraordinário movimento científico e médico de toda uma geração, na luta contra uma doença respiratória que, até a quinta-feira 26, tinha acometido mais de 520.000 pessoas no mundo inteiro, com mais de 20.000 mortes, das quais 77 no Brasil.

A corrida global, para além do compulsório diagnóstico dos doentes, tem duas frentes: a busca por uma vacina e, enquanto ela não surge, o aperfeiçoamento de tratamentos já existentes e a criação de outros remédios. É uma engrenagem emocionante e bilionária (apenas na primeira semana de março, os fundos globais para pesquisa e desenvolvimento de crises arrecadaram 3,5 bilhões de euros, o equivalente a 19 bilhões de reais). A OMS formou um grupo de trabalho global, adequadamente batizado de “Solidariedade”, e não haveria outro nome a lhe dar, de modo a estimular pesquisas cada vez mais aceleradas que abranjam milhares de pacientes, de mais de uma centena de países. Disse o pneumologista Clayton Cowl, diretor de medicina preventiva da Mayo Clinic em Rochester, um dos mais respeitados hospitais dos Estados Unidos, referência incontornável: “O mundo está unido no combate à pandemia de Covid-19. Resolveremos o mistério e impediremos que algo semelhante aconteça nos próximos anos”. É uma promessa, por ora, mas quase uma certeza quando se acompanha a máquina rodando. Não seria exagero afirmar que a velocidade dos saltos científicos na batalha contra o microrganismo feito de RNA é inédita na história da humanidade. Três exemplos emblemáticos ajudam a alimentar essa constatação: a plataforma medRxiv, que concentra os estudos científicos antes de sua publicação em reputadas revistas, já soma mais de 300 artigos sobre o novo coronavírus; a Chinese Clinical Trial Registry, agregador de trabalhos clínicos conduzidos na China, reúne 504 pesquisas protocoladas; a ClinicalTrials, o maior banco de dados de ensaios clínicos do planeta, tem 178 registros. E lembremos: passaram-se apenas quatro meses desde o início da eclosão dos casos da nova infecção, na China, em dezembro do ano passado, país que começa a renascer e a respirar. “É uma situação totalmente excepcional em termos de pressão, rapidez e investimento”, diz o infectologista Celso Granato, diretor médico do Grupo Fleury, no Brasil.

O santo graal, o tesouro tão esperado, evidentemente, é a vacina. Mais de trinta empresas e instituições acadêmicas estão na corrida para criar um imunizante. Dessas, ao menos quatro encontram-se na fase de testes em animais, necessária para garantir uma proteção química capaz de gerar anticorpos contra o vírus, e duas – uma nos Estados Unidos e a outra na China – já iniciaram os testes em humanos. A empresa pioneira americana, a Moderna, conseguiu em apenas 63 dias deflagrar os ensaios clínicos. Essa rapidez só foi possível porque, além dos esforços tremendos, os pesquisadores tinham experiência com a elaboração de vacinas para Sars e Mers, também da espécie coronavírus, só que mais letais e menos contagiantes, durante suas respectivas epidemias em 2003 e 2012 – seus produtos, contudo, nunca chegaram ao mercado em decorrência de um descompasso peculiar. Quando ficaram prontos, os surtos já haviam sido contidos e os investimentos necessários para dar continuidade ao trabalho foram suspensos. Agora é diferente: o conhecimento prévio permitiu a tração, e estima-se o uso experimental, e restrito, da vacina ainda em 2020. No entanto, ela deve ser aprovada apenas dentro de um ano e meio. Há brasileiros no horizonte também. O grupo de pesquisadores do Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração (Incor) da Universidade de São Paulo (USP) usa uma estratégia inovadora: trabalha com as chamadas “cascas virais”, sem material genético, e, portanto, não infecciosas, para induzir respostas do sistema imune. “Esse mecanismo deverá se mostrar ainda mais forte que outras propostas que têm surgido, que injetam uma porção sintética de material genético do vírus no organismo, diz o imunologista Jorge Kalil, diretor do Laboratório de Imunologia do Incor. No Brasil, trabalha-se com um prazo de entrega da vacina maior que o dos Estados Unidos. A previsão aqui é começar os testes clínicos em menos de dois anos. É tempo demais? Não, insista-se, desde que a humanidade seja capaz de identificar as pessoas com resultado positivo para a Covid-19 e os tratamentos se ampliem.

A concorrência, sempre saudável, faz com que eles se multipliquem. Existem, atualmente, quatro apostas promissoras, em estágio avançado de experimentação, para zelar pelas pessoas acometidas de Covid-19, especialmente os idosos.

REMDESIVIR. É um antiviral criado por um laboratório americano para combater o ebola, que emergiu como pioneiro entre os possíveis tratamentos para a Covid-19. Apesar de ter falhado no combate ao vírus, experimentos em laboratório mostraram que o medicamento é eficaz contra Sars e Mers. A ação da droga é desligar a capacidade do vírus de se replicar dentro das células.

RITONAVIR E LOPINAVIR. Usados em pacientes com HIV, conseguiram inibir uma enzima responsável por “cortar” compostos que agem na replicação do vírus dentro das células. Houve um baque, recentemente, depois de se mostrarem ineficazes em um estudo feito com 200 pacientes graves na China. Mas serão testados novamente, agora em pacientes menos graves.

FAVIPIRAVIR. O medicamento japonês é utilizado como tratamento para a gripe comum e causou alvoroço ao diminuir para menos da metade o tempo de infecção pelo novo coronavírus. Um estudo chinês com 340 pacientes mostrou uma tendência de eliminação do vírus em apenas quatro dias naqueles que receberam o medicamento, ante onze dias nos que ficaram sem a droga.

Testes, vacinas e remédios poderão impedir cenas até então inimagináveis em nosso tempo, e que só foram vistas durante a gripe espanhola, no início do século XX: imagens como a do gramado do Estádio do Pacaembu, em São Paulo, transformado em um hospital a céu aberto, preparado para receber os doentes, por falta de espaço em leitos hospitalares. Talvez porque, ao longo dos anos, o Brasil tenha construído mais estádios que hospitais, porque tenha dado mais atenção ao futebol que à saúde – mas essa é outra triste história.

Cabe se debruçar, no aqui e agora, sobre problemas que podemos tocar com os dedos, imediatamente. Apesar da importação de testes – como fez a Vale – e da lida com novos aparelhos – como faz a empresa curitibana -, há escassez na ponta final do preocupante processo da Covid-19. Nos últimos dias, a Anvisa aprovou uma dezena de novos tipos de diagnóstico, e o Ministério da Saúde ampliará para 22,9 milhões o número de unidades disponíveis. Mas dificilmente a quantidade será suficiente para o tamanho da população brasileira. De uma semana para cá, o país passou a escolher quais doentes priorizaria para diagnosticar. Se, num primeiro momento, pacientes com sintomas mais brandos de gripe conseguiam ser examinados com facilidade, agora a recomendação tanto na rede pública quanto na privada é testar apenas casos mais graves. É uma triste escolha. Ela só será superada – e será – com a humanidade focada naquilo que ela tem de mais valoroso: a ciência, o conhecimento.

O TEMPO É O SENHOR DA RAZÃO

Os primeiros passos a caminho da vacina contra a Covid-19 foram mais rápidos se comparados com os casos de outras doenças viróticas

A VERDADE SOBRE A CLOROQUINA E A HIDROXICLOROQUINA

Nas redes sociais, duas drogas viralizaram, com o perdão da expressão, como se fossem o bálsamo definitivo para a Covid-19 – a cloroquina e a hidroxicloroquina, associadas. Comumente usadas no tratamento de malária e doenças autoimunes, como o lúpus, elas se transformaram em portos seguros. Funcionam? Sim, informam alguns estudos ainda em fase inicial de investigação – mas, ressalve-se, o protocolo impõe outras experiências para conceder aval definitivo ao par de drogas. Há ansiedade, porém, é preciso calma, ancorada na ciência. O deflagrador da onda foi um estudo francês com 24 pacientes, amostra pequena, que observou os efeitos positivos dos remédios. “Essas medicações devem ser tomadas com controle, dados os efeitos colaterais, como arritmia e problemas visuais”, afirma Ludhmila Hajjar, coordenadora de ciência, tecnologia e inovação da Sociedade Brasileira de Cardiologia. Os primeiros resultados, animadores, levaram Donald Trump a divulgar a boa ­ nova, com pressa e um tantinho de irresponsabilidade, Bolsonaro seguiu a onda. Para aumentar o alarde, um áudio com informações falsas sobre o assunto começou a ser compartilhado no WhatsApp. De acordo com a gravação, um estudo da Universidade Stanford teria mostrado que o uso das substâncias combinadas com outro composto, o antibiótico azitromicina, teria curado quarenta pacientes com Covid-19. O áudio é falso. Diz Luiz Vicente Rizzo, diretor-superintendente de pesquisa do Albert Einstein: “Não há um heureca, mas um grupo de pessoas trabalhando duro e junto”.

No Brasil, dois amplos estudos com a cloroquina e a hidroxicloroquina foram deflagrados. Um deles já começou e envolve instituições de várias regiões do país, como o Hospital Estadual Geral de Goiânia, a Fundação Oswaldo Cruze a Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto, e é liderado pelo reputado infectologista Marcus Vinicius Guimarães de Lacerda, da Fiocruz Amazônia. A ideia é analisar os efeitos em 880 doentes graves, em doses diferentes. O outro trabalho é resultado da união entre o Hospital Albert Einstein, o Hospital do Coração e o Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, que usarão a medicação em doentes com suporte de oxigênio, em estado mais ou menos grave da enfermidade. Ambos os estudos foram aprovados em menos de uma semana pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa, instituição responsável pela validação dos estudos científicos no Brasil. Há pressa. Afirma Alexandre Biasi, diretor do Instituto de Pesquisa do Hospital do Coração: “O que até então levava seis meses no universo científico agora é feito em dois dias”. As conclusões dos trabalhos sairão em até dois meses, no máximo.

Na quarta-feira 25, o Ministério da Saúde anunciou que vai liberar 3,4 milhões de unidades do medicamento cloroquina para que os médicos possam avaliar sua utilização em pacientes graves. A decisão foi tomada com base em um protocolo detalhado e rigoroso, que prevê cinco dias de tratamento, sempre dentro do hospital e monitorado por um médico. Aviso: não adianta sair comprando as substâncias por aí.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 29 DE MARÇO

JESUS CURA A SOGRA DE PEDRO

Então, aproximando-se, tomou-a pela mão; e a febre a deixou, passando ela a servi-los (Marcos  1.31).

O apóstolo Pedro era casado. Sua sogra estava ardendo em febre, prostrada numa cama. Os discípulos falaram com Jesus a respeito dela. O Mestre foi ao encontro da doente, tomou-a pela mão, e a febre a deixou, de modo que ela passou a servi-los. Devemos contar a Jesus aquilo que nos aflige. Ele é o nosso melhor amigo. É compassivo e misericordioso. Quando ficamos doentes, procuramos um médico. Quando temos problemas com a lei, procuramos um advogado. Quando precisamos de ajuda, procuramos um amigo. Mas, acima de tudo e em qualquer circunstância, devemos procurar o Senhor Jesus. A cura da sogra de Pedro foi imediata e total. Nenhuma enfermidade pode resistir ao poder de Jesus. Ele curou o homem possesso na sinagoga, um ambiente religioso; curou a sogra de Pedro em casa, um ambiente familiar; e também curou uma multidão na rua, um ambiente aberto. A doença, o vento e o mar ouvem a sua voz. Os anjos obedecem às suas ordens. Os demônios não resistem à sua autoridade. Ninguém pode resistir ao seu poder. Febre, ventos, ondas, tempestades, nada disso faz diferença para Jesus. Ele exerce completo controle no céu, na terra e debaixo da terra. Confie agora mesmo sua vida a ele!

GESTÃO E CARREIRA

O DESAFIO DA VIDA À DISTÂNCIA

Pandemia impõe novas rotinas, comportamentos e hábitos e transforma o trabalho remoto numa solução generalizada e conveniente para as mais diferentes funções. O micróbio da Covid-19 é disruptivo e a adaptação à realidade vai ser mais fácil para uns que para outros

O coronavírus é um micróbio disruptivo. Sua capacidade de romper rotinas, alterar a realidade, impor novos comportamentos e hábitos é notável. O medo de contágio, o aumento exponencial no número de doentes, o distanciamento social e o crescente isolamento das pessoas em todo o mundo estão estabelecendo, por exemplo, novas práticas de trabalho e exigindo soluções tecnológicas que antes eram opcionais e, do dia para a noite, se tornam obrigatórias para milhões de pessoas. O que era típico, até agora, de empresas de internet, virou padrão.

E pode ser que isso se perpetue, dependendo do desenvolvimento da pandemia, para muitos profissionais. Quem se adaptar bem ao trabalho remoto vai ter um trunfo em inúmeras funções da sociedade. Teleconferências de baixo custo e com dezenas de participantes são a bola da vez no mercado, na política e nas famílias. Pela primeira vez na história do Senado, uma decisão foi tomada em uma votação à distância, feita por teleconferência. Votou-se o decreto de calamidade pública para combater a disseminação do coronavírus que foi aprovado por unanimidade e entrou imediatamente em vigor. Na terça-feira 24, cinco dias depois, o Senado usou o mesmo Sistema de Deliberação Remota (SDR), para votar a Medida Provisória 899/2019, que inclui empresas optantes do Simples em um programa de acertos de pendências com a União. A decisão de votar remotamente foi tomada depois que três parlamentares da casa contraíram o coronavírus: o presidente Davi Alcolumbre (DEM-AP), Nelsinho Trad (PSD-MS), que esteve na comitiva para Miami com o presidente Jair Bolsonaro, e Prisco Bezerra (PDT-CE). O sistema de debate e votação foi desenvolvido pela Secretaria de TI do Senado, a Prodasen.

“A tecnologia ajudou o Senado a cumprir seu papel neste momento difícil da Nação”, disse o senador Antônio Anastasia (PSD-MG), que preside as sessões interinamente e classificou as primeiras experiências de votação “estáveis e seguras”. “É claro que um processo legislativo tem seus nuances, características e diferenças do ambiente corporativo, mas a conferência à distância é possível e viável, tanto que nós já votamos na semana passada, votamos ontem, ontem, aliás, numa sessão longa com duas mudanças de orientação, com votações nominais, deu tudo certo”, completou o senador. O mais impressionante, segundo ele, foi o quórum altíssimo. Havia 79 presentes, só não estavam os dois que estão afastados em razão da doença, Alcolumbre e Nelsinho. Bezerra, que é assintomático e cumpre quarentena, participou da sessão. “Se você fizer um levantamento, numa medida provisória, matéria de lei ordinária, quórum de 79 é raro”, completou. Alguns senadores votaram em seus gabinetes, outros estão em suas residências em Brasília, outros nos seus estados, em casas ou no escritório.

Como os senadores, governadores de todo o Brasil passaram a semana participando de teleconferências entre eles ou com o presidente Bolsonaro para discutir a crise sanitária. Os debates políticos estão se desenvolvendo à distância e os contatos de alto nível, sem necessidade de locomoção para participar de reuniões, se tornaram mais baratos, simples e práticos. “Claro que o processo fica um pouco mais lento, talvez as discussões fiquem um pouco mais demoradas, as convergências demorem um pouco mais, mas a teleconferência me parece uma forma democrática e eficiente de funcionar”, afirma Anastasia. “Isso jamais vai substituir o contato físico nas votações, aquela conversa de pé de ouvido típica da política, das negociações, mas num caso como esse em que se têm problemas de saúde, é uma forma de manter o trabalho em andamento”. Para o senador, a solução não há outra opção e o Congresso não pode parar. “E o fato do quórum estar alto é muito positivo”, completa.

Grandes empresas estão seguindo a mesma linha e tentam, cada vez mais, resolver seus problemas remotamente. No meio da espinhosa reestruturação do Instituto de Resseguros do Brasil (IRB Brasil RE), Antônio Cassio, que acaba de assumir a presidência da empresa, vê o trabalho remoto como uma âncora de salvação. Cassio está habituado à rotina de trabalho em casa, que ele chama de “smart working” (trabalho inteligente) e consegue produzir tão bem presencialmente como à distância. O IRB tem 400 empregados e, neste momento, estão quase todos na rotina do home office. A exceção é um núcleo da contabilidade que trabalha presencialmente por conta de serviços de fechamento de balanços. O que Cassio sente no seu novo modelo de trabalho é que o dia fica mais longo. Ele acorda às 6 horas, veste uma roupa e vai para seu QG, que é a mesa de jantar. Participa de videoconferências o dia todo. Na segunda-feira 16, participou de dez e fez 13 vídeos. Faz paradas para tomar café, almoçar e à tarde para brincar com o cachorro e se diz preparado, se for necessário, para ficar os próximos 60 dias em home office. “A ida ao escritório não faz falta e a maior dificuldade que estou tendo é não saber a hora de parar. Ontem, fui até as 11 horas da noite”, conta. “A companhia está funcionando normalmente e de maneira eficiente”.

Para quem mergulha no home office, o local de trabalho se torna relativo. Nos últimos cinco anos, Cassio trabalhou na seguradora Generali e atendia oito países com quatros fusos horários diferentes. A maior parte de suas reuniões era feita por videoconferência e o escritório era só um ponto de apoio e não o lugar do executivo. Mesmo à distância, ele se sentia sempre próximo de sua equipe, como acontece agora. O Conselho de Administração do IRB está funcionando perfeitamente e, segundo Cassio, os conselhos nunca funcionaram tão bem. “Acho que devemos aproveitar o momento para fazer uma revolução boa”, afirma. “Quando você descobre que um ser microscópico é capaz de ameaçar sua vida, se pergunta quem é e como encontrar luz no meio da vulnerabilidade”. Até quinta-feira 26, havia no mundo cerca de 500 mil infectados pelo coronavírus e 22,2 mil mortos pelo Covid-19, segundo levantamento da Johns Hopkins University. No Brasil, o número de contaminados passava de 2,6 mil e o de mortos chegava a 61.

CARTEIRA VIRTUAL

Empresas de tecnologia têm sua situação facilitada nesse processo de mudança por estarem mais habituadas ao trabalho à distância. É o caso da PicPay, que controla um aplicativo para a realização de compras online e transferência de valores por meio de uma carteira virtual. A empresa eliminou qualquer atividade nos seus escritórios e, neste momento, só foi mantida a rotina de limpeza duas vezes por semana e a presença dos recepcionistas. Todas as outras atividades da empresa estão sendo feitas por teleconferência. “Sempre fizemos isso de forma alternada e agora está todo mundo remoto”, afirma o co-fundador e diretor de Recursos Humanos, Dárcio Stehling. Os funcionários da PicPay nunca tiveram, por exemplo, telefone na mesa, todo trabalho sempre foi feito na frente de computadores. Desde quarta-feira 11, a empresa colocou seus 1,3 mil funcionários em regime de home office. No dia seguinte, apenas 40 funcionários foram a escritório para buscar alguma coisa ou resolver pequenas pendências. Na sexta-feira, já estavam todos em casa.

“A grande reclamação é a saudade dos colegas, mas tem gente que se queixa da rotina, de pôr a roupa de trabalho para ficar dentro de casa”, diz Stehling. Ele relata que as reuniões se tornaram mais breves e não houve nenhuma queixa de funcionário dizendo que não está conseguindo trabalhar. Participam até 40 pessoas das reuniões. A empresa resolveu todos os problemas de software e de conexão nas máquinas que estão sendo usadas com serviços de suporte. Stehling usa muito o aplicativo de teleconferência Zoom, grande vedete nestes tempos de pandemia. Outras ferramentas que estão sendo usadas nas reuniões à distância são o Skype, Microsoft Teams, Google Hangouts e o WhatsApp. “É preciso um fone de ouvido com um microfone bom e existe uma etiqueta do trabalho remoto a ser seguida”, diz “Quem não está falando fica no mudo para que todos possam ouvir o que está sendo dito”.

Já para quem não é da indústria de tecnologia, as coisas são mais incomodas. O presidente da Associação Brasileira de Alumínio (Abal), Milton Rego, diz que a situação atual traz estorvos para o setor. De um modo geral, as empresas colocaram todos seus funcionários administrativos no home office, enquanto o pessoal das fábricas está recebendo cuidados de saúde diários. A temperatura dos operários está sendo medida periodicamente e departamentos são colocados em quarentena quando há algum trabalhador com suspeita de contágio. Trinta empresas são associadas à Abal e algumas delas, principalmente pequenas e médias, não tinham notebooks para todo mundo e precisaram alugar os equipamentos. O mercado de aluguel de máquinas está em plena expansão neste momento. “Isso é muito novo. Não se faz uma mudança tão drástica sem perder produtividade, mas o impacto disso depende do perfil do empregado”, diz Rego. Na Abal começamos isso na quarta-feira passada, mas ninguém pensava no assunto dez dias antes. Pensava-se na diminuição das pessoas nos escritórios, mas não em interrupção total. Foi tudo muito rápido e algumas pessoas estão com dificuldades com alguns sistemas. Como acontece no Senado, Rego percebe que no home office é tudo mais lento. Na reunião presencial, as pessoas estão a dois metros de distância e você fala e resolve, mas no remoto é preciso mandar mensagem. “A gente está aprendendo de maneira dramática. Se a economia mundial passar por uma mudança total, isso vai causar uma enorme perda de produtividade. É uma disrupção muito grande. Empresas e os países terão que mudar seus protocolos”.

Até os hospitais, em tempos de pandemia, tem que intensificar o trabalho à distância e ampliar e aprimorar seus serviços remotos. No Albert Einstein, em São Paulo, que tem 13 mil funcionários, todos os trabalhadores administrativos estão trabalhando em casa, seguindo as orientações das autoridades sanitárias. Também estão sendo impulsionados os serviços de telemedicina e tele UTI, segundo Felipe Spinelli de Carvalho, diretor de ensino do Einstein. As duas modalidades são oferecidas há vários anos pelo hospital. A telemedicina tem uma importante função social e sua utilização foi aprovada, há duas semanas, pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) para conter o coronavírus. Com a tele UTI é possível dar apoio técnico a outros hospitais que não contam com médicos intensivistas e precisam de apoio. Um programa de telemedicina do Proadi-SUS, na região Norte, permitirá que os profissionais do Einstein atendam pacientes de 120 cidades. “A telemedicina vai ser um grande recurso, principalmente para diagnóstico”, afirma Carvalho. Desde 2012, o Einstein oferece telemedicina, mas o número de atendimentos disparou e atingiu 200 por dia na semana passada. Além do atendimento médico, ferramentas de teleconferência também servem bem para a educação. Mais de 7 mil alunos dos cursos do Einstein, que tem faculdades de enfermagem e medicina, escola técnica e pós-graduação, usam o Zoom ou a plataforma de aprendizagem Canvas para falar com professores e colegas.

Apesar do entusiasmo com as reuniões remotas, a expectativa no mercado, na política e nas famílias é de que a situação volte ao normal. Mas é certo que um novo ciclo de aprendizado de reuniões à distância e home office está sendo impulsionado pela pandemia. E as pessoas estão descobrindo como fazer as coisas de outra forma. Muitas não mais voltarão ao esquema anterior. “Na teleconferência há uma demora um pouco maior, mas a decisão acaba ocorrendo como ocorreu ontem. Foi perfeito. Houve discussão, divergência e a divergência foi decidida no voto, como convêm ao Parlamento”. Mesmo com algumas dificuldades, o trabalho à distância, como prova o Senado, pode ser uma saída perfeita nesses tempos de peste, quando ficar em casa é a melhor decisão.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

IMPACTO EMOCIONAL NAS CRIANÇAS

Uma geração inteira está se desenvolvendo em meio à uma pandemia. O massacre de informações transformou questionamentos adultos em medos infantis. Como sair fortalecido desse trauma?

Se o novo coronavírus, segundo especialistas, poupa as crianças nas vias aéreas superiores e nos pulmões, abala em outro delicado campo suscetível de sequelas: o lado emocional. Contaremos a história de uma família que passa a quarentena no Complexo do Alemão, uma das maiores e mais conhecidas favelas do Rio de Janeiro. Como a doença não diferencia ricos e pobres, da boca do caçula da família Silva sai a frase que amedronta os pais, sejam miseráveis ou milionários, em todo Brasil: “Mãe, a gente vai morrer?”. A pergunta não é feita por um adulto ou adolescente, mas, sim, por uma criança de seis anos, invadida pela morbidez em seu psiquismo. O cenário em que o País vive é esse: crianças deixaram a brincadeira de lado e estão confinadas em casa, apavoradas. A regra clássica de que criança precisa ser criança não dá para ser respeitada. Uma geração inteira será afetada emocionalmente; os resultados são incertos e preocupantes.

A GENTE VAI MORRER?

João Gabriel tem seis anos, mas quando de sua boca sai incômodos e medos sobre o contágio do coronavírus, ele já não parece mais tão pequeno. Da televisão da sala, ele vê reportagens e o corpo estremece: “Não tem hospital para todo mundo, mãe”. Depois de olhar para os parentes confinados, João completa: “Já pensou se a nossa família pega? A gente vai morrer!”. Um tormento que, antes da pandemia, não existia. Quando da rua as vozes dos amiguinhos aparecem, João pede para sair. Quer a rua. Quer brincar. “Deixa eu ficar com os meus amigos?”. Mas, logo em seguida, Joelma da Silva, de 29 anos, ativa a memória do filho sobre a existência da doença. Ainda assim, João não arreda o pé e quer saber: “Não posso brincar porque meus amigos estão com coronavírus?”. Joelma tenta, mais uma vez, explicar a situação do País. Só que parece que na frente dela está um homem maduro e não um menino de seis anos. A Covid-19 está fazendo crianças agirem como idosos. Só que idosos já viveram muito, têm bagagem para questionar a vida. Sozinho, João escolheu como melhor amigo o álcool em gel — carrega-o para todos os cantos da casa.

Joelma está em quarentena com o caçula João, com a filha mais velha, Maria Gabrielle, de 11 anos, e o pai José Manuel de 66 anos. Dentro da casa ninguém entra e ninguém sai. O pouco de mundo exterior está no quintal, mas basta as crianças saírem para movimentar o corpo que, pouco depois voltam correndo. “O vírus está na minha mão, passa álcool”, pedem. A vida meio que perdeu a rotina. E a tentativa de se agarrar na possibilidade está no potinho que promete a morte do vírus. Enquanto os amigos brincam na rua, João passa álcool em gel nas mãos com a mesma fúria que engole balas coloridas. A escola colocou no dever de casa uma perigosa pergunta: “Como você está se sentindo com o coronavírus?”. Um universo intacto é escancarado. “Você está entrando em um território de sentimento que pode aflorar diversas coisas nas crianças, inclusive essa questão das perdas e morte”, explica a psicóloga da Clínica Maia, especializada em neuropsicopedagogia, Daniella Dualib Uvo. “Uma coisa que eu sempre digo, para qualquer situação, é: não dê informações além do que a criança pede”, completa.

A natureza infantil é curiosa e inquieta. Quando a dúvida surgir, as crianças vão perguntar. Eles têm o conhecimento da existência de uma doença e que essa doença mata. Para eles, é como dizer que alguém próximo pode morrer. Estresse pós traumático, ansiedade, fobia social, problemas para lidar com a frustração, e, obviamente, com as perdas. Os pais que, da noite para o dia, passaram a trabalhar em casa, também voltarão para o trabalho da noite para o dia. Assim que eles deixarem a casa, as crianças podem se ver em pânico com a possibilidade de os pais não cruzarem novamente a porta de entrada. A família precisa, de alguma forma, estabelecer uma rotina. Daniella é otimista, gosta de dizer que prefere enxergar o copo mais cheio do que vazio. E esse confinamento, pode, sim, ser positivo para essa geração. De alguma forma, as famílias desaceleraram.

A falta de convívio virou acolhimento. “Há um fortalecimento emocional incrível”, diz a psicóloga. Em meio ao caos, a pequena Maria Gabrielle parece ser a única da família Silva que conseguiu transformar a quarentena em rotina. Agarrou-se aos tutoriais de maquiagem para fazer o tempo passar. Quando tudo isso acabar, ela tende a ser mais experiente do que mulheres adultas acostumadas com a base, o pó e a sombra.

OUTROS OLHARES

MACIA E SUCULENTA

Importado dos Estados Unidos, o dry aged, sistema de maturação de carnes a seco, vira sensação em restaurantes, hamburguerias e açougues-butique

A nova onda para os amantes brasileiros da carne veio de um velho hábito americano. No início do século XX, açougueiros do Texas desenvolveram um processo de envelhecimento das peças para tornar os bifes mais macios e suculentos. Batizada de dry aged, a maturação a seco passou a ser adotada pelos chefs apenas na década de 80, até virar febre nos endereços descolados de Nova York. A onda chegou ao Brasil nos últimos anos e começa a repetir por aqui esse sucesso. Somente na cidade de São Paulo o número de restaurantes que servem a iguaria aumentou de um para oito nos últimos anos, sem contar várias lanchonetes e açougues­ butique que estão investindo no produto. As grandes empresas também entraram no negócio. Em junho de 2019, uma parceria do Pão de Açúcar com a Friboi resultou no lançamento de um espaço exclusivo para a venda desses itens nos supermercados. O projeto vingou e onze lojas nas cidades de Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo começaram a oferecer o serviço.

Marcante para os que experimentam pela primeira vez, o paladar diferenciado da carne se deve ao período em que ela é “envelhecida” em câmaras de refrigeração com temperaturas que oscilam de zero a 2 graus negativos e umidade entre 50% e 70%. O tempo mínimo pode variar de 21 a trinta dias. Nessas condições, enzimas quebram a proteína da peça, e é aí que está o segredo do dry aged: as fibras se tornam mais macias, a acidez desaparece e os aminoácidos liberados intensificam o sabor. “É mesmo algo muito especial”, diz Daniel Lee, um dos maiores entendidos por aqui no assunto. Cozinheiro obcecado por novos sabores, ele fez uma série de cursos nos Estados Unidos sobre esse tipo de corte e foi convidado para ser juiz da maior entidade de churrasqueiros dos Estados Unidos, a Kansas City Barbeque Society (KCBS). Desde 2015, passou a dar aulas sobre a especialidade e virou referência no tema. Em janeiro deste ano, resolveu abrir o próprio restaurante, o Bark & Crust, em São Paulo, que tem como um dos focos os cortes dry aged. “O brasileiro adora carne e agora está descobrindo os prazeres dos cortes premium”, afirma ele.

Do ponto de vista dos negócios, trata-se de um investimento bastante saboroso. Em média, o quilo do corte dry aged custa 150 reais, quase o dobro do valor de uma peça convencional de picanha. Com experiência no mercado financeiro, Rogerio Betti resolveu largar o mundo das ações para apostar na onda do dry aged. Começou com um e-commerce em 2016. O plano era negociar vinte peças por mês, mas não demorou para que elas chegassem a 400. O passo seguinte foi abrir um açougue, que também superou as metas definidas no planejamento de negócios. Por fim, o caminho natural foi inaugurar um restaurante, o Quintal de Betti, que rapidamente se tornaria uma das novas sensações gastronômicas de São Paulo. Em dezembro, o empresário acrescentou mais um endereço ao seu portfólio: a lanchonete Sheikh+QBurgers, que serve hambúrgueres feitos com a mistura de cortes dry aged e carnes tradicionais in natura. “É ainda algo pouco conhecido por aqui”, diz. A fome de expansão também ocorre na parceria do Pão de Açúcar com a Friboi. “Desde que começamos a oferecer o produto nas lojas, a curva de consumo é crescente”, conta Luís Otávio Moura, gerente de desenvolvimento do Pão de Açúcar. A ideia agora é levar o serviço a outras regiões do país. Como se vê, para desespero da turma dos vegetarianos, o apetite por carne continua voraz.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 28 DE MARÇO

DEUS VESTIU PELE HUMANA

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus (João 1.1).

O apóstolo João, no prólogo do seu evangelho, diz: E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai (v. 14). Esse é um mistério sublime. O Deus transcendente tornou-se imanente. Esvaziou-se aquele que nem o céu dos céus pode conter. Nasceu numa manjedoura aquele que criou todas as coisas pela palavra do seu poder. Foi enfaixado em panos como um bebê aquele que é o Senhor do universo. Tornou-se perfeitamente homem aquele que é perfeitamente Deus, sem perder sua natureza divina. Fez-se pecado aquele que é santo. Foi feito maldição aquele que é bendito eternamente. Aquele que é o autor da vida deu sua vida para nos remir do pecado. Deus vestiu pele humana e veio habitar entre nós. Os céus desceram à terra. Cheio de graça e verdade, vimos na face de Cristo a glória do Pai. Ele e o Pai são um. São da mesma essência. Quem vê o Filho vê o Pai e quem tem o Filho tem igualmente o Pai. A encarnação do Verbo é a expressão máxima da graça. Deus não nos abandonou em nosso pecado, mas desceu até nós na pessoa de seu próprio Filho para nos remir do pecado, nos arrancar do império das trevas e nos livrar da ira vindoura. Essa é uma mensagem de esperança. É o caminho aberto por Deus desde o céu, é a porta aberta da graça aos pecadores. É a oferta graciosa do perdão. Por meio de Cristo, podemos achegar-nos a Deus confiadamente, sabendo que ele nos aceita, nos recebe e nos oferece salvação e vida eterna.

GESTÃO E CARREIRA

POR UM PLANETA SEM LIXO

Necessidade de diminuir descarte de resíduos no meio ambiente gera oportunidades para empreendedores engajados

“Se não mudarmos de rumo agora, seremos destruídos pelas mudanças climáticas. “A frase, dita pelo secretário-geral da ONU, António Guterres, no último Fórum Econômico Mundial, que aconteceu no mês passado em Davos, é apocalíptica. Mas dá a dimensão do problema. De acordo com ele, tanto empresários quanto autoridades públicas precisam repensar a dinâmica da economia e o modo como produzimos na indústria, nos movemos e planejamos as cidades. “Isso será essencial”, decretou António no evento, que bateu com força na tecla da preservação ambiental.

Embora figuras importantes, como Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, questionem o aquecimento global, cada vez mais os consumidores se preocupam com as demonstrações de desgaste da Terra. Movimentos como o liderado pela ativista sueca Greta Thunberg, de 16 anos, espalham-se à medida que crescem os desastres no planeta.

Só no último ano, incêndios dizimaram a população de coalas na Austrália, a cidade de Veneza, na Itália, ficou debaixo d’água e fotos de satélite mostraram, em pleno Oceano Pacífico, uma ilha de plástico três vezes maior que o território da França. “Os sinais estão evidentes e vêm sendo propagados por uma série de celebridades. Isso muda a percepção das pessoas, que se sentem inspiradas a ter um comportamento mais sustentável”, diz Angélica Salado, gerente de pesquisa da Euromonitor International, consultoria de inteligência de mercado.

Em 2019, a Euromonitor fez uma pesquisa global sobre estilo de vida com cerca de 30.000 pessoas ao redor do mundo e mostrou que 64% delas acreditam ser possível fazer a diferença melhorando suas escolhas ele consumo, 61% estão preocupadas com as mudanças climáticas e 35% pretendem comprar itens de segunda mão para frear o descarte.

Outro estudo, denominado Who Cares, Who Does, da Kantar, líder global em dados e insights sobre comportamento do consumidor, ouviu mais de 65.000 pessoas em 24 países e detectou que um terço delas está em alerta com as questões ambientais, sendo que 16% já adotam práticas para diminuir seu impacto individual no planeta. Ao aplicar um filtro na América Latina, a consultoria descobriu que 72% dos respondentes carregam sacola reutilizável para fazer compras ou garrafinha de água para refil. “É uma mudança na forma de consumir. E, quanto maior o PIB e o acesso à educação, maior o engajamento com a questão ambiental”, afirma Kesley Gomes, diretora da Kantar Worldpanel.

É possível perceber mudanças até na geladeira do brasileiro. Levantamentos recentes da Kantar, por exemplo, refletem isso. A pesquisa Who Gare, Who Does mostrou que 27% dos lares no Brasil tiveram algum tipo de alteração de hábito alimentar no último ano, como redução do consumo de produtos industrializados, refrigerantes, açúcar e carne vermelha. Além disso, o estudo revelou que quase metade dos entrevistados (48%) espera que as empresas façam mais para cortar resíduos plásticos.

MENOS RESÍDUOS

Atentos, gigantes como Nestlé, Coca-Cola, Unilever, Walmart e Carrefour já se comprometeram a transformar todas as suas embalagens em reutilizáveis, recicláveis ou compostáveis até 2025. No Brasil, a Coca-Cola espera que até o final deste ano 40% das garrafas que produz sejam retornáveis.

É essa onda que surfam os chamados negócios de “lixo zero”. Embora não existam dados consolidados sobre o crescimento desse tipo de empreendimento, especialistas veem uma guinada nas iniciativas. “Nos últimos anos, houve um aumento de empresas voltadas para a temática do lixo zero, principalmente as que comercializam produtos para substituir itens plásticos descartáveis de uso diário, como canudos, copos, sacolas e artigos de higiene”, afirma Denise Hamú, representante do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente no Brasil. “Perfis e páginas que fornecem informações sobre substituição de descartáveis e consumo consciente ganham centenas de seguidores diariamente. E isso indica um interesse da população pela temática”, completa.

A geógrafa Lívia Humaire, de 37 anos, é um exemplo. Em 2014, decidiu mudar os hábitos de consumo e diminuir 85% da produção de lixo de sua família, documentando tudo nas redes sociais (seu Instagram @transicoes_ecologicas tem 12.000 seguidores). Em 2017, ela fez uma viagem à Europa para pesquisar negócios revolucionários de desperdício zero. Voltou convencida de que havia ali uma oportunidade e de que abriria algo com esse viés no Brasil. Foi assim que nasceu, em setembro de 2018, a loja Mapeei – Uma Vida Sem Plástico, em São Paulo.

Para executar a ideia e levantar investimento, ela (que hoje está morando na Suíça) iniciou uma campanha de crowdfunding no Catarse. Arrecadou, na época, 16.650 reais. O restante do aporte, cerca de 100.000 reais, veio do próprio bolso e da sócia, a atriz e designer de moda americana Lori Vargas, de 44 anos. “Tudo que entra é reinvestido na loja. Não temos lucro, mas já alcançamos o breakeven [ponto de equilíbrio nos negócios)”, diz Lori. O foco da Mapeei é vender produtos e ferramentas que possibilitem uma vida com menos embalagens: há de cosméticos em barras a itens como marmitas, copos e canudos reutilizáveis. Os preços variam de 5 a 143 reais. Só entram no estabelecimento artigos cuja cadeia produtiva dispense o uso de plástico. “Nosso maior desafio é encontrar os fornecedores. Quando começamos, não havia opções. Escova de dentes de bambu, por exemplo, só lá fora. Agora já temos alguns produtores locais”, diz Lori. Na abertura da loja, as duas contavam com 200 produtos. Hoje, já são mais de 600. “Em pouco mais de um ano, nossas vendas triplicaram.”

Saíram de um único funcionário para uma gerente e três vendedoras. “Na primeira semana, nós vendemos todos os produtos e ficamos na correria atrás de mais, porque a maior parte da produção ainda é artesanal. Nossa primeira fornecedora de tecido de cera de abelha fazia as peças na sala da casa dela. Hoje ela já possui uma pequena fábrica”, diz Lori, para exemplificar o avanço desse mercado.

ECONOMIA CIRCULAR

De acordo com o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil, realizado pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), o Brasil gerou 79 milhões de toneladas de lixo em 2018. Em média, cada cidadão produziu 380 quilos de resíduos sólidos urbanos, totalizando 1 quilo por dia. E o plástico é um dos principais vilões. “É o mais encontrado nos mares. Hoje, de 60% a 90% do lixo presente nos oceanos é composto de diferentes tipos de plástico. E cerca de 100.000 animais marinhos morrem todos os anos por causa disso”, diz Denise Hamú, das Nações Unidas. Ela pontua ainda que apenas 9% do lixo plástico gerado no mundo é reciclado.

É por essas e outras que especialistas em economia circular, modelo que prega o fim do descarte nas cadeias produtivas, acreditam que o capitalismo terá de se reinventar. “As empresas vão precisar criar produtos que sejam duráveis, reutilizáveis ou, então, que sirvam de matéria-prima secundária em um novo processo industrial”, diz Denise. Aldo Ometto, coordenador do Centro de Pesquisas em Economia Circular do Inova, centro de inovação da Universidade de São Paulo, concorda. “O caminho é o da reutilização. Como desenho um produto que, depois de usado, seja reincorporado ao sistema?”, diz o pesquisador, reforçando que as empresas que saírem na frente, colocando ideias de circularidade em prática, terão um ganho não só de reputação como também de receita. A Boomera, startup especializada em transformação de resíduos em novos produtos, aposta nisso. Fundada há oito anos, ela desenvolveu um método próprio, chamado Circular Pack. O mecanismo, aplicado em grandes companhias, segue seis preceitos: engajamento e sensibilização; estratégia circular; pesquisa e inovação; logística reversa; design e transformação; e novo início. Atendendo mais de 400 clientes, como Unilever, Natura, P&G, Down e Adidas, a Boomera cresce três vezes de tamanho a cada ano. E tem números que impressionam. Hoje, além de prestar consultoria em economia circular para gigantes fabris, a startup dá destino a mais de 60.000 toneladas de lixo anualmente, que são utilizadas como insumo para dois produtos vendidos pela própria Boomera: uma resina reciclada e uma linha de lonas, que podem ser usadas para a cobertura de piscinas, por exemplo. Esses itens, desenvolvidos em um laboratório que a Boomera mantém dentro do Instituto Mauá de Tecnologia, em São Paulo, são produzidos em uma fábrica própria por meio da transformação de garrafinhas, copos e outros produtos plásticos.

Para recolher esses materiais, a startup faz uma parceria com o grupo de supermercados Pão de Açúcar, onde possui mais de 100 postos de coleta. Quem recolhe esse “lixo” e leva para fábrica da Boomera são 8.000 catadores de cooperativas treinados pela própria startup. “Nossa sociedade é pautada pelo descarte. Por isso, precisamos de muitos outros negócios pensando em soluções. Há inúmeras oportunidades nesse ramo”, diz Guilherme Brammer, de 42 anos, fundador e CEO da Boomera, que começou com três funcionários e hoje já conta com mais de 150.

Em 2019, a Boomera contratou 50 pessoas, entre engenheiros de materiais e ambientais e economistas. Neste momento, existem cinco vagas abertas para o departamento comercial.

TENDÊNCIA DE CRESCIMENTO

Na visão de especialistas, quando os clientes se tornarem ainda mais exigentes, as companhias serão obrigadas (por uma questão de reputação e de sobrevivência) a dar uma destinação mais adequada aos artigos que fabricam. Ou seja, no futuro, profissionais e empreendimentos especializados em gestão de resíduos terão um enorme espaço. “Consultorias que souberem dimensionar o real impacto de cada negócio e conseguirem ajudar as empresas a repensar suas estratégias de produção serão muito bem-sucedidas”, afirma Angélica, da Euromonitor.

Esse é o caso da Casa Causa, consultoria de gestão de resíduos criada pela psicóloga Flávia Cunha, de 53 anos, e pela economista Luciana Annunziata, de 48, ambas com experiência em consultoria e transformação de cultura nas organizações. A dupla desenvolveu o modelo de negócios – que envolve palestras, eventos e experiências de sensibilização sobre redução de lixo – durante um programa de inovação social.

O investimento inicial da dupla foi de 50.000 reais, utilizados para viagens de estudo, desenvolvimento do site e ações de marketing para tornar a iniciativa conhecida. Nos últimos dois anos, a consultoria cresceu 40% em faturamento, melhorou a margem de lucro (18% em eventos e 20% em consultorias) e contratou seis pessoas, a maioria para a área de marketing e comunicação.

De acordo com as sócias, os especialistas são contratados por projeto, sob demanda. Para o Carnaval deste ano em São Paulo, a Casa Causa contratou mais de 3.000 pessoas. Isso porque fechou um projeto com a Ambev para dar uma destinação adequada ao lixo produzido no evento. “Há um aumento da pressão dos consumidores sobre as marcas que não fazem gestão de resíduos. E, cada vez mais, grandes empresas nos procuram para conhecer nosso trabalho”, afirma Flávia. A meta para 2020 é aumentar em 30% o número de clientes.

Hoje são dez, entre Casa Santa Luzia, Virada Sustentável e Alelo, que contratou a Casa Causa para sensibilizar os funcionários em relação ao problema dos resíduos. “Começamos com uma palestra no aniversário da empresa, criamos mutirões de limpeza e pensamos, junto com os times, em soluções para reduzir o desperdício. Também montamos comitês para trabalhar temas como resíduos de escritório e de alimentação”, diz Flávia. Um bom sinal de que o assunto avança no mundo corporativo.

TE CUIDA, CAPITALISMO

Pesquisas mostram mudanças no comportamento dos consumidores

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

PODEMOS CURAR O MEDO?

Tendemos a encarar qualquer perigo que presenciamos como ameaça pessoal – mesmo que essa “ameaça está do outro lado do mundo, sendo vista apenas pela televisão. Tomar uma pílula ajudaria a resolver isso?

Era o começo de 2004 e minha filha de quase 3 anos estava tomando banho de banheira. Quando o jato da hidromassagem ligou, ela ficou em estado de choque. Corri até ela e a encontrei de pé, vermelha de tanto chorar.  Muitos meses depois, ela ainda mantinha verdadeiro horror a banhos. Na condição de médico que estudou a neurobiologia do medo, eu sabia que o córtex pré-frontal de seu jovem cérebro tinha acabado de conectar seu “centro de segurança”, onde o raciocínio analítico pode se impor sobre emoções primitivas.

Tentei recorrer a seu centro cerebrais para suprimir o temor de que a banheira sempre produziria aquelas bolhas assustadoras, mas a resposta inata de seu corpo era forte demais. Ao adotar banhos de chuveiro e desviar sua atenção, consegui, pouco a pouco, fazê-la voltar a usar a banheira. Mas até hoje ela tem medo de bolhas.

Porque é tão difícil lidar com o medo? E o que podemos fazer a esse respeito? A terapia tem ajudado muitas pessoas; outros têm se valido da força que tiram de sua fé, de grupos de apoio. No entanto, em um mundo em que constantemente presenciamos acontecimentos de arrepiar os cabelos- como as consequências de um ataque de um homem-bomba, mostradas em cores na televisão de nossa sala, em sites da internet e na primeira página dos jornais – será que esse apoio verbal basta? Em resposta a uma preocupação crescente, estão surgindo remédios para controlar o medo. Resta saber se podemos – e mais, devemos – pura e simplesmente tomar uma pílula para reduzir nossas angústias.

Mais que um estado de espírito, o medo é químico. Surge dos circuitos cerebrais, nas trocas neuroquímicas entre as células nervosas e corresponde a uma reação física ao perigo. Desde que seja direto e real, é perfeitamente normal e ajuda a nos protegermos. Além disso, tem também um componente genético. Um rato irá se apavorar com o cheiro de uma raposa mesmo se tiver passado toda sua vida em laboratório. Da mesma maneira, nós, seres humanos, ficamos automaticamente apreensivos diante de situações que colocavam em perigo nossos antepassados.

Quando uma pessoa se sente ameaçada, seu metabolismo se acelera, antecipando a necessidade iminente de fugir ou de se defender. O “lutar ou correr”, também conhecido como reação ao estresse crônico, foi descrito pela primeira vez na década de 20 por Walter B. Cannon, um fisiologista da Universidade de Harvard. Cannon observou que os animais, inclusive seres humanos, reagem ao perigo por meio de uma descarga hormonal do sistema nervoso. O corpo lança uma torrente de hormônios vasoconstritores e aceleradores, da frequência cardíaca, entre os quais a epinefrina, a norepinefrina e o esteroide cortisol. O coração começa a bater mais rápido e mais forte, os nervos respondem em menor tempo, a pele esfria e fica arrepiada, os olhos se dilatam para enxergar melhor e as áreas do cérebro envolvidas na tomada de decisões recebem a informação de que é hora de agir.

No comando desses processos está uma pequena estrutura cerebral em forma de amêndoa, a amígdala. Joseph E. LeDoux, neurocientista da Universidade de Nova York, pioneiro no estudo dos mecanismos cerebrais de emoção e memória, a descreve como “o centro de comando cerebral do medo”. Nela são processadas as emoções primitivas de medo, ódio, amor e raiva – todas vizinhas no cérebro límbico que herdamos dos animais dos quais evoluímos. Trabalhando em conjunto com outros centros que a estimulam ou respondem a ela, a amígdala recebe informações sensoriais através do tálamo (o ‘receptor’ do cérebro), analisa esses dados com o córtex (responsável pelo raciocínio) e lembra delas por meio do hipocampo (que armazena as memórias).

De acordo com LeDoux, são necessários apenas 12 milissegundos para o tálamo processar as informações sensoriais e mandar um sinal à amígdala. Ele chama esse cérebro emocional de “estrada secundária”. A “estrada principal”, ou cérebro pensante, leva de 30 a 40 milissegundos para processar um acontecimento qualquer. “As pessoas têm medos que não entendem ou não conseguem controlar porque eles são processados pela estrada secundária”, afirma LeDoux.

O FATOR MEDO

Uma vez que uma pessoa aprende a se sentir amedrontada em relação a algo, ele ou ela tendem a associar um sentimento de pavor a essa experiência. E nós, seres humanos, podemos ficar assustados com acontecimentos sobre os quais só ouvimos dizer ou lemos em algum lugar – ou seja, podemos nos preocupar com desastres que talvez nunca nos atinjam. Se, pela ausência de um alvo apropriado, somos incapazes de responder ao causador desse medo, ficamos ansiosos.

Além disso, segundo estudos sobre a avaliação de riscos por seres humanos, realizados pelos psicólogos Robert J. Blanchard e D. Caroline Blanchard, da Universidade do Havaí em Manoa, em geral as pessoas não conseguem determinar com precisão o nível da ameaça. Tendemos a ver o risco como algo que nos afeta direta e pessoalmente, além de sentir o perigo de forma completamente irrealista quando lemos ou ouvimos falar de uma coisa ruim que aconteceu com outra pessoa.

Minha sogra, por exemplo, tem esclerose múltipla em um estágio bastante avançado, o que a mantém em uma cadeira de rodas há 20 anos. Meu cunhado apresentou um caso leve de esclerose múltipla, o que levou minha esposa, que é neurologista, a revelar seu temor – na verdade, quase uma certeza – de que ela seria a próxima. Toda vez que volta ao assunto de que está fadada à doença tento demovê-la da ideia citando estatísticas segundo as quais apenas 4% dos parentes próximos correm risco de apresentar a doença. ”A chance de você não desenvolvê-la é de 96%”, digo. Mas para ela, assim como para muitos outros, o problema está nos 4%. O amor por sua mãe e uma tendência natural a introjetar sua experiência geram o medo e a certeza do “destino certo”, não obstante seus amplos conhecimentos sobre neurologia.

O medo recorrente ou constante tem efeitos deletérios sobre o corpo, comparáveis ao que acontece se sempre andarmos com a canoa 140km/h. Isso aumenta, e muito, a chance de surgirem doenças cardíacas, derrames e depressão. Por isso, devemos concentrar nossos esforços na prevenção dos “assassinos comuns” – como os enfartes, que acontecem em decorrência de nossas constantes preocupações – e não em eventos fora do comum ou em epidemias exóticas. Senão, vejamos, em 2001, 2.978 pessoas morreram nos Estados Unidos em ataques terroristas, incluindo cinco vítimas de ataques com antraz. Naquele mesmo ano, de acordo com o Centro para Controle de Prevenção de Doenças, 700.142 pessoas morreram de problemas cardíacos, 553.768de câncer, 101.537 em acidentes, e 30.622 por suicídio. Assassinatos (sem contar os ataques de 11 de setembro) foram responsáveis por apenas 17.330 mortes.

O que podemos fazer em relação ao medo irracional? Não há tratamento padrão, em parte porque os sintomas variam de um indivíduo para outro. Uma pessoa pode se sentir destinada ao azar e ter um sentimento maior de apreensão em função de determinada tendência familiar. O corpo de alguns libera hormônios do “lutar ou correr” mais facilmente que o de outros. Até o momento, terapias longas que procuram reeducar pacientes para que não ativem seus temores têm sido a principal solução. Mais recentemente, no entanto, estudos sugerem que a terapia poderia ser complementada por uma simples pílula capaz de bloquear os receptores ou a produção dos sinais de medo, ou até por uma “vacina do medo”. Mas o objetivo das pesquisas não é encontrar uma vacina tradicionalmente: o sistema imunológico desenvolve a capacidade de se proteger em resposta à presença de um agente infeccioso induzido no corpo. Em vez disso, a ideia é preparar quimicamente o sistema imunológico para que seja o mais saudável possível, tornando o corpo menos suscetível a reagir de forma exagerada aos medos e ameaças.

Uma das primeiras indicações de que o tratamento do medo poderia se dar impedindo que determinados sinais fossem recebidos ou transmitidos pelos neurônios veio do trabalho do neurocientista Larry Cahill, da Universidade da Califórnia em Irvine. Em 1994, Cahill testou em seres humanos os efeitos da droga propranolol, um betabloqueador que impede a recepção de hormônios do stress chamados catecolaminas. Ele descobriu que essa droga fazia as pessoas se lembrarem melhor de uma história amena e leve que de uma assustadora. Em geral, a ansiedade suave que surge ao escutarmos um relato emocionante faz com que ele seja mais memorável que uma história enfadonha. É comum o uso de propranolol no controle da ansiedade e tratamento de pressão alta e outras doenças relacionadas, mas a pesquisa de Cahill sugere que essa substância tem um grande potencial no tratamento do medo.

Nessa mesma linha, Roger K. Pitman, professor de psiquiatria da Universidade Harvard, formulou a hipótese de que o uso de propranolol pode prevenir tanto a fixação de memórias relacionadas ao medo como atenuar a resposta do tipo “lutar e correr”. Em 2002, Pitman e sua equipe observaram os efeitos da administração de propranolol a 41 pacientes de um pronto-socorro seis horas após a ocorrência de um evento traumático (acidentes de carro em sua maioria). Os participantes do estudo receberam a droga por dez dias. Três meses após o trauma, Pitman observou uma incidência significativamente menor de problemas relacionados ao stress pós-traumático entre aqueles que haviam recebido a droga que no grupo de controle, que não havia usado o propranolol.

Outro modo de obstar as reações causadas pelo medo é impedir a produção de seus sinais. De acordo com LeDoux e Karim Nader, da Universidade McGill, em artigo publicado na edição de 17 de agosto de 2000 da revista Nature, ratos que receberam uma injeção de anisomycin, um antibiótico que inibe a síntese proteica, tinham sua memória do medo bloqueada. Eles eram incapazes de se lembrar de um susto anterior e não desencadeavam a reação de ‘lutar ou correr’ porque a amígdala não podia produzir as moléculas que enviavam os sinais de perigo.

Outra abordagem consiste em reduzir a reação neural desmedida. Um estudo do neurobiólogo Jonathan Kipnis, atualmente no Centro Médico da Universidade de Nebraska, e colegas, publicado na edição de 25 de maio de 2004 do Proceedings of the National Academy  of Sciences, USA, revelou evidências de que vacinas imunológicas poderiam impedir o medo excessivo. Eles injetaram em camundongos normais drogas da família das anfetaminas que causam sintomas psicóticos. Alguns dos animais receberam a vacina protetora, um coquetel conhecido como acetato de glatiramer, ou copolímero-1(Cop-1), um grupo de controle não foi vacinado. A Cop-1 estimula a produção de células T do sistema imunológico, que impedem as células nervosas de se tornar “irritadiças” ou de ter reações “explosivas”. Os camundongos que receberam a Cop-1 conseguiram atravessar um labirinto seguindo padrões conhecidos, mas o mesmo não ocorreu com os do grupo de controle. Aqueles que receberam a Cop- 1 apresentavam um comportamento normal e calmo, o que sugere terem escapado do estado de pânico. Esse tipo de modulação imunológica ainda tem de ser estudado em seres humanos, mas tudo indica que os resultados podem ser positivos.

Atenuar memórias assustadoras com pílulas ou vacinas não é, contudo, o mesmo que treinar o cérebro para lidar melhor com situações futuras. Independentemente do desenvolvimento desses medicamentos, a terapia continuará a desempenhar importante papel no tratamento do medo. O Conselho Presidencial de Bioética americano colocou a situação nos seguintes termos em Beyond Therapy (Para além da terapia): ‘O uso de atenuadores de memórias quando da ocorrência de eventos traumáticos pode interferir nos processos psicológicos normais. (…) Há o risco de que nossos novos remédios farmacológicos possam nos fazer ‘felizes’ ou impassíveis diante de coisas que deveriam ser problemas ou mesmo nosdeixar tristes, revoltados ou inspirados -que nossas almas medicadas ficarão estáveis não importa o que aconteça conosco ou à nossa volta”.

Por anos tenho tentado ajudar pacientes a lidar com seus medos de doenças sem saber se estou tendo sucesso ou não. Ao estudar os circuitos cerebrais do medo, descobri que ensinar pode não levará automaticamente a aprender. O medo é uma reação profundamente enraizada e difícil de ser controlada pelo cérebro. Às vezes é impossível evitá-la. A experiência da minha filha com as bolhas me ensinou que, se o medo é esquecido, é porque uma nova emoção tomou o seu lugar (ela criou coragem para voltar a tomar banho de banheira). Essa cura acontece no seu próprio ritmo, e pais ou médicos em geral têm pouco controle sobre ela.

Para dominarmos o medo, precisamos voltar a suas origens primitivas, um instinto especial para nos proteger de perigos físicos reais. Devemos deixar de fazer dele algo exclusivamente pessoal. Precisamos resistir aos que, na mídia e em outroslugares, acentuamos perigos errados e enfatizam a necessidade de responder a eles – o que faz com que a ameaça pareça ainda mais real. É preciso botar os pés no chão e dominar os aspectos controláveis de nossas vidas. Mais ainda, devemos substituir nossos medos irreais por coragem verdadeira.

OUTROS OLHARES

SÓ POR HOJE EU NÃO VOU…

Como o vício em jogos eletrônicos, já classificado como um tipo de doença pela Organização Mundial da Saúde, afeta a vida de milhões no Brasil e no restante do mundo

Entre 2017 e 2018, João Pedro Meirelles, hoje com 21 anos, passou de 12 a 13 horas diárias ininterruptas em partidas de Rainbow six, jogo de tiro focado em realismo, estratégia, planejamento e trabalho em equipe. Na versão on-line, duas equipes duelam divididas entre ataque e defesa. O superestímulo que ele sentia a cada vitória o impulsionava a seguir a rotina, igualmente marcada pela intensidade da frustração nas derrotas. Estudante de ciência da computação no Insper, Meirelles até tentou parar com o videogame, mas foi em vão. Antes de encontrar ajuda especializada, considerou o suicídio. “Joguei muito nessa época. E isso me consumiu. Acabei sofrendo de depressão. O jogo de fato destruiu minha vida naquela época”, disse Meirelles, diagnosticado como dependente de videogame. Ele não está sozinho.

Depois de décadas de debate, a Organização Mundial da Saúde (OMS) incluiu, no ano passado, o vício em jogo eletrônico em sua Classificação Internacional de Doenças. Pela nova definição, a primeira pista de que algo está errado é quando o usuário eleva o nível de prioridade dos games a ponto de prejudicar aspectos de sua vida pessoal, a convivência com amigos e família, tarefas acadêmicas e ocupacionais – algo que lembra outros vícios, como álcool ou drogas. O padrão deve ser contínuo por, no mínimo, um ano para que o diagnóstico seja feito, dizem as regras da OMS, que estima em, no mínimo, 60 milhões o número de pessoas que sofrem com a falta de controle sobre o tempo que passam jogando. Esse número representa 3% dos 2 bilhões de usuários da videogames no mundo. “O dependente vai secando. Ele faz menos coisas, seu repertório diminui, seu universo existencial vai aos poucos se limitando ao objeto de dependência. Ele deixa de sair com os amigos, de jantar com a família, tranca a faculdade”, disse Aderbal Vieira Júnior, psiquiatra que coordena o ambulatório de dependência de comportamento do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). A decisão da OMS seguiu a da Associação Americana de Psiquiatria (APA, na sigla em inglês), que incluiu “distúrbio de jogo on-line” no Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais em 2013 como uma condição que precisa de atenção. Segundo a APA, o distúrbio apresenta características como abstinência, incapacidade de reduzir o tempo dedicado aos jogos, o ato de enganar membros da família sobre a quantidade de tempo gasto e o desenvolvimento de uma tolerância que faz com que o jogador passe a precisar cada vez mais do videogame. Os psiquiatras americanos pedem mais pesquisas, mas boa parte dos estudos já feitos indica um quadro preocupante.

Inês Caldas e João Reis, pesquisadores do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa (CHPL), em Portugal, fizeram uma revisão dos trabalhos existentes e chegaram à conclusão de que entre 1% e 10% dos jogadores ocidentais sofrem da desordem do videogame. Na Ásia, o número encontrado foi ainda maior, abrangendo de 10% a 15% dos gamers. Isso explica o fato de que os governos do Japão e da Coreia do Sul já tenham aprovado legislação para colocar limites à indústria dos desenvolvedores de games. Recentemente, a China vem dificultando a aprovação de novos jogos. No Ocidente, governos na Europa estudam medidas semelhantes.

Mesmo diante da escalada de ações contra os videogames, críticos no meio científico colocam em xeque a ideia de que videogame pode ser algo viciante. Muitos falam que faltam mais estudos sobre o tema. Outro argumento é que o excesso de horas à frente da tela é um sintoma de um problema mais profundo – de depressão a ansiedade. Laisa Sartes, professora do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), estudiosa do tema, confirma a existência de fatores como insegurança e baixa autoestima entre os jogadores assíduos. “A tela é a fonte da gratificação que eles não encontram na vida real”, disse. Outra crítica é que as pessoas são viciadas em produtos, como cigarros e bebidas, não em atividades, como corrida e pescaria. Esse é um dos argumentos do psicólogo Andrew Przybylski, diretor do Oxford Internet Institute, ligado à Universidade de Oxford, e conhecido contestador da decisão da OMS. “As pesquisas que atestaram a dependência dos games até agora são de má qualidade”, opinou Przybylski.

Embora não haja ninguém sério contra a ideia de fazer mais pesquisas sobre o assunto, existem pelo menos duas boas razões para soar o alarme já agora, antes da aparição de uma maior produção acadêmica sobre os efeitos dos jogos. Como a maior parte dos videogames hoje é on-line, os desenvolvedores têm uma quantidade enorme de dados para analisar e descobrir o que faz os jogadores ficar mais tempo diante da tela do celular ou do computador. Além disso, os dados permitem saber o que faz os usuários querer pagar mais por troféus ou upgrades. Com essas duas informações, é fácil criar incentivos para que crianças e jovens fiquem cada vez mais horas engajados nos jogos e, acima de tudo, gastem mais dinheiro. Usando o exemplo da pescaria do crítico Przybylski, é como se, cada vez que o pescador pensasse em ir para casa, sentisse o anzol sendo fisgado por um peixe maior.

Pode até ser discutível se um governo tem o direito de proibir um adulto de passar o dia inteiro jogando videogame, mas, quando o alvo são crianças e adolescentes, a discussão ganha outra dimensão. Não é mera coincidência que os jogadores de games mais assíduos sejam chamados pelo setor nos Estados Unidos de “whales” (baleias), o mesmo termo usado na indústria dos cassinos para designar os usuários viciados no jogo.

Um jovem de 15 anos do interior de Pernambuco reconhece que não tem mais controle. “Quanto mais a gente joga, melhor fica nosso personagem no game e somos mais respeitados pelos outros usuários. Até temidos. Isso me motivava a jogar cada vez mais”, contou o rapaz, que busca ajuda para parar. “Eu me sinto mal por passar muito tempo jogando. Ando pesquisando sobre relatos de pessoas que deixaram seu vício em redes sociais para ver se me dá ânimo para parar de vez”. O canadense Cam Adair já esteve nessa posição. Aos 21 anos, havia abandonado o ensino médio duas vezes por causa do videogame. “Na escola, eu sofria bullying. Já no videogame, eu não precisava me preocupar com crianças me intimidando porque, se o fizessem, eu poderia bloqueá­ las, mudar para um servidor diferente ou jogar um jogo diferente”, escreveu Adair em sua biografia. Em 2011, quando havia conseguido melhorar, ele escreveu um poderoso desabafo em um blog com o título “Como parar de jogar videogames para SEMPRE”. O artigo viralizou, e ele criou a plataforma Game Quitters. O fórum reúne pessoas de mais de 60 países, incluindo o Brasil, com algum grau de dependência.

Ao redor do mundo, começam a aparecer clínicas de tratamento especializadas. Próximo de Seattle, noroeste dos Estados Unidos, foi aberta a reStart, em Fali City, que cobra US$ 30 mil (R$ 122 mil) pelo tratamento de nove semanas. Em um alojamento, os internos passam por uma espécie de detox de qualquer tipo de tela. Para se comunicar com as famílias, usam apenas um telefone fixo.

“Como eu tenho feito esse trabalho na prática há muitos anos, sei que eles precisam de uma abordagem holística”, explicou a cofundadora e diretora clínica Hilarie Cash. Ela inaugurou sua primeira clínica de tratamento de viciados em internet em 1994. De lá para cá, recebe pacientes dependentes de videogame. A frequência dos casos a levou a abrir um espaço especializado, em 2009. “Eles chegam com a saúde física muito debilitada. Com grave privação de sono, má nutrição e falta de exercício físico. E também precisam de ajuda para desenvolver habilidades emocionais, de socialização e de comunicação. Esses meninos não sabem lidar com suas emoções e se refugiam no videogame”, afirmou.

O Reino Unido inaugurou, em outubro deste ano, uma clínica voltada para o problema dentro do National Health Service (NHS), o sistema público de saúde britânico, que equivale ao SUS. Os pacientes podem se tratar pessoalmente ou via Skype. No Brasil, ainda não há espaços especializados. Atualmente, é possível encontrar tratamento em centros para dependentes em internet, como o ambulatório de dependência de comportamento do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes da Unifesp e o Instituto Delete – Detox Digital e Uso Consciente de Tecnologias, do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), comandado pela psicóloga Anna Lucia King. “A gente oferece tratamento gratuito e faz uma triagem toda sexta-feira”, afirmou a coordenadora do grupo. Já o governo federal criou a Coordenação-Geral de Enfrentamento a Vícios e Impactos Negativos do Uso Imoderado de Novas Tecnologias. O órgão é subordinado ao Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos e planeja iniciar neste ano uma formação de professores à distância para que o tema seja tratado nas escolas. “Queremos conversar sobre jogos. Não queremos demonizar a tecnologia, mas sim falar sobre o uso consciente e adequado”, disse o coordenador, Daniel Celestino.

Acuados pela decisão da OMS e por ações governamentais, representantes do setor de videogame se esforçam para não ser classificados como vilões. A indústria dos games é grande, lucrativa e atende milhões de clientes que não são viciados. “O jogo pode se transformar em dependência ou em uma forma de fuga. Mas também pode ser alguém querendo construir uma carreira, exatamente como um atleta de futebol: ele inevitavelmente vai perder algo para se dedicar ao esporte”, disse Leandro Takahashi, de 41 anos, presidente da Confederação Brasileira de eSports (CBeS). O Brasil é um mercado importante para a indústria de videogames. De acordo com o Global Games Market Report de 2018, o país tem 75 milhões de usuários que movimentam US$ 1,5 bilhão (R$ 6,1 bilhões). Segundo a Newzoo, uma consultoria internacional de análise de dados do mundo dos games, esse é o 13° maior mercado do mundo. Nesse segmento, não há discriminação de gênero – 50% dos homens e 51% das mulheres brasileiras com acesso à internet jogam no celular, enquanto 44% dos homens e 38% das mulheres usam computadores. Além disso, 83% dos jogadores gastaram dinheiro em itens de jogo ou com bens virtuais no segundo semestre de 2018, dado mais recente divulgado. Dentro desse universo, os brasileiros são particularmente engajados em jogos de tiros. Segundo Takahashi, é justamente nesse filão que os jogadores daqui se destacam internacionalmente. Atualmente, cerca de 5 mil pessoas são atletas profissionais de eSports no país em diferentes games.

No Brasil, os atletas são recrutados em todo o país e vivem em sua maioria na capital paulista, em casas nas quais treinam diariamente, em média por oito horas. No tempo livre, eles são liberados para fazer o que desejarem – incluindo continuar jogando. Em algumas dessas equipes, um profissional de psicologia é destacado para acompanhar o desenvolvimento dos atletas – que são, em geral, homens e jovens entre 16 e 25 anos. Na Team Liquid, uma das cinco maiores equipes do mundo, com sede na Holanda e da qual Michael Jordan é um dos acionistas, quem faz esse trabalho é Claudio Godoi. Ele coordena sete rapazes brasileiros que dividem um apartamento de três quartos em São Paulo – cujo endereço não é revelado por causa do grande assédio dos fãs.

ALlMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 27 DE MARÇO

JESUS RESSUSCITA A FILHA DE JAIRO

Tomando-a pela mão, disse: Talitá cumi!, que quer dizer: Menina, eu te mando, levanta-te! (Marcos 5.41).

A morte traz em sua mochila muita dor ao nosso coração. Não fomos criados para morrer. A morte sempre nos deixa atordoados. Depois de demonstrar seu poder sobre a tempestade, libertar um homem possesso e curar uma mulher enferma, Jesus revela seu poder sobre a morte, ressuscitando uma menina de 12 anos. O pai dessa menina é Jairo, o chefe da sinagoga. Era um homem religioso e de grande prestígio na comunidade. Seu dinheiro, sua popularidade e sua religião, porém, não puderam evitar aquele doloroso golpe. Jairo vê a filha única sendo ceifada pela morte precocemente. Vai a Jesus, prostra-se a seus pés e pede ao Mestre que vá com ele à sua casa para curar-lhe a filha. Estavam ainda a caminho quando o pai foi informado que a menina já estava morta. Jesus lhe diz: Não temas, crê somente (Lucas 8.50b). Quando Jesus caminha conosco, não precisamos temer más notícias. Quando Jesus está conosco, o solo da ressurreição prevalece sobre o coral da morte. Quando Jesus manifesta seu poder, a morte não tem a última palavra. Jesus ressuscitou a menina e a devolveu a seus pais. A alegria da vida triunfou sobre a tristeza da morte. Porque Jesus venceu a morte, não precisamos mais ter medo do amanhã.

GESTÃO E CARREIRA

A HORA DA VERDADE

A crise aguda na Bolsa de Valores provocada pelo coronavírus é teste para mais de 1 milhão de novatos que investiram em ações nos últimos dois anos

O primeiro “circuit breaker” a gente nunca esquece – nem o segundo, nem o terceiro, nem o quarto… Ainda mais quando eles chegam juntos, como nesta semana, para mais de 1 milhão de pequenos investidores que entraram na Bolsa de Valores nos últimos dois anos. O mecanismo de paralisação dos negócios foi acionado às 10h30 da segunda-feira 9, quando o índice Ibovespa despencava 10%. Aquele botão de emergência automático não intervinha para acalmar os ânimos desde o chamado “Joesley Day”, quando se conheceu a delação do sócio da JBS, Joesley Batista, em maio de 2017.

Em retrospectiva, o tombo há três anos parece pequeno. Agora o medo é global, provocado pelas projeções dos efeitos que a pandemia do novo coronavírus terá na economia real e pela queda de braço entre sauditas e russos sobre o preço do petróleo. Na quarta-feira 11, a crise sem hora para acabar provocaria uma nova parada nas negociações na Bolsa brasileira. No mesmo dia, o índice Dow Jones, que mede a performance das maiores empresas americanas, tinha uma queda que acabava com um período de 11 anos de buli market, jargão usado para descrever um longo ciclo de alta. Na quinta-feira 12, a parada na Bolsa brasileira se repetiria duas vezes somente pela manhã – e ninguém fazia ideia de quando essa onda de “circuit breakers” teria fim. Para completar, o dólar passou, pela primeira vez, a barreira dos R$ 5.

A primeira grande crise da Bolsa de Valores na era digital – em 2008, apenas 34% da população brasileira tinha acesso à internet, hoje são mais de 70% – tem tido uma boa dose de humor. Um dos vários memes que circularam nos últimos dias fazia referência a uma propaganda do ano passado da Empiricus, uma empresa de análise financeira, que começava com “Oi, meu nome é Bettina e eu tenho 22 anos e R$ 1,04 milhão de patrimônio acumulado” e prometia o enriquecimento com o investimento em ações. Atualizado no começo da segunda semana de março por tuiteiros, a mensagem mudou para: “Oi, meu nome é Bettina, tenho 22 anos e R$ 700 mil de patrimônio”. Na quinta-feira 12, já havia uma nova versão: “Oi, meu nome é Bettina, tenho 22 anos e estou te convidando para o meu bazar de roupas no próximo domingo”.

Travestido de piada, o meme embutia uma crítica a uma certa euforia que, desde o fim de 2018, tomou conta de parte dos “influencers” de investimentos e de casas de análise independentes. Muitos deles esqueceram de falar dos riscos embutidos no investimento em ações com a mesma ênfase que davam às oportunidades. Não faltou quem incentivasse as pessoas a virar day traders, gente que passa o dia comprando e vendendo ações, o que pode dar certo num mercado que só sobe, mas se complica quando o cenário fica turvo e é preciso pagar a escola dos filhos e a conta de luz.

“Com o fim do juro alto e do ganho generoso que vinha das aplicações financeiras de renda fixa, o brasileiro ficou na incerteza em relação a seus investimentos. E, nesse cenário, está vulnerável a todo tipo de informação”, disse Vera Rita de Mello Ferreira, doutora em psicologia social, com especialização em psicologia econômica.

Arnaldo Curvello, sócio diretor da gestora Ativa, brinca que, na alta, todo mundo vira gênio, todo mundo é guru. “O problema da rede social foi que ela gerou a falsa impressão de que tomar risco era sinônimo de ganhar, de vida fácil”, disse Curvello.  A Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o órgão encarregado de fiscalizar o mercado financeiro no Brasil, recebeu, no ano passado, cerca de 40 reclamações contra os chamados “consultores e analistas financeiros” que ofereceram cursos ou dicas em troca de dinheiro. O número, provavelmente subnotificado, é 50% maior que em 2018. Somente casos em que há pedido de dinheiro em troca das informações ou recomendação de ações são investigados. Patrocínios não divulgados de youtubers não viram alvo. Com esse histórico de muitos conselhos exagerados, o temor agora é de uma debandada dos novatos da Bolsa num momento de preços em queda. “Muita gente corre o risco de ter subido de escada e agora descer de elevador”, disse Samy Botsman, sócio diretor da Faros Investimentos, consultoria financeira com sede no Rio de Janeiro.

Ben Bernanke, que pilotou o banco central americano, o Fed, na pior tormenta financeira desde a Grande Depressão, costuma dizer que as pessoas aprendem mais em momentos de grande abalo econômico do que com pequenas crises. Na segunda semana de março, os pequenos investidores brasileiros pareciam se dividir em dois grupos. Um dava sinais de estar resistindo ao derretimento das ações e o outro estava vendendo com perdas pesadas. A Bolsa brasileira ainda não havia consolidado os números oficiais, mas dados preliminares divulgados por corretoras indicavam – até aquele momento – um efeito difuso. Ainda assim, não faltaram brincadeiras nas redes sociais. Um meme do perfil satírico MonkeyStocks dizia: “Dados de mortalidade do coronavírus: 60 a 69 anos – 3,6%. Investidor com seis meses de Bolsa – 98%”.

Na corretora Guide, de São Paulo, as quedas do Ibovespa geraram apreensão e muitos questionamentos de clientes. Num primeiro momento, havia mais gente comprando que vendendo. Na quinta-feira, quando uma nova onda de pânico tomou conta da B3, a situação mudou de figura. “Há muito pequeno investidor se desfazendo de suas posições. O cenário mudou. Agora não é apenas o coronavírus. Há também decisões do Congresso prejudicando as perspectivas da economia”, disse Luís Sales, analista da Guide, em referência à queda de braço dos congressistas com o Planalto.

Guilherme Fernandes, de 25 anos, tomou um susto quando acordou na segunda-feira 9. “Ué, a Bolsa parou? Por que as cotações estacionaram?”, lembrou Fernandes sobre o que veio a sua cabeça. Ele havia estreado na Bolsa em janeiro com recursos do seguro-desemprego. Depois de olhar o noticiário, leu que havia acontecido um “circuit breaker”, algo que até então desconhecia. Naquele dia, apenas observou, aflito. Quando a Bolsa foi forçada a parar novamente nos dias seguintes, ficou ainda mais tenso. “Daqui para a frente, vou avaliar quanto e como vou colocar em ações, estudar mais. Ainda bem que não caí naquele hype absurdo dos influencers da internet no ano passado. Poderia ter perdido mais dinheiro”, disse.

A pergunta de R$ 3,5 trilhões – o valor de mercado das empresas negociadas na B3 – é se a posição dos novatos que estão resistindo à tentação de sair da Bolsa vai se manter e se mais gente vai entrar. Os argumentos do ponto de vista mais otimista sustentam que os investidores têm motivos para “não realizar a perda” (só perde dinheiro quem vende as ações na baixa). O valor dos papéis é um reflexo das expectativas de ganhos futuros das empresas. Se o passado serve de guia, a economia é feita de ciclos e, depois de eventuais quedas, volta a ter altas.

Essa é a visão de longo prazo. A seu favor, tem a perspectiva de que o Banco Central volte a cortar ainda mais a taxa de juros, o que tornaria os investimentos em renda fixa menos atraentes do que estavam quando houve a grande migração de pessoas físicas para a Bolsa. “Não é um trauma que vai afastar os novatos da Bolsa, porque o processo de aculturamento está apenas no início. Na verdade, muita gente vai ver como uma chance de entrar. Para afastar mesmo, teria de haver uma depressão”, observou Márcio Correia, sócio da gestora JGP.

O problema é que o quadro hoje está ainda muito indefinido, com bancos e governos cortando previsões de crescimento para a economia mundial e também a brasileira, que, por sinal, já não vinha bem. O crescimento do PIB em 2019 foi de mísero 1,1 %. As dúvidas quanto ao futuro podem variar em grau, mas tendem a ser as mesmas em todas as partes do mundo. Basicamente, dizem respeito a como a economia de cada país será afetada internamente pela pandemia do novo coronavírus, o que cada governo tem à mão para combater os efeitos negativos e qual vai ser o tamanho da freada do PIB global.

Em países desenvolvidos, algumas medidas já foram tomadas na tentativa de atenuar as consequências negativas da crise. O primeiro movimento de peso veio dos Estados Unidos, onde o Fed surpreendeu ao anunciar um corte emergencial de meio ponto percentual em suas taxas de juros. Embora o corte tenha mais assustado do que tranquilizado os investidores, seu objetivo é estimular a atividade diante da demanda mais fraca com a epidemia. O Reino Unido anunciou um pacote de estímulos econômicos de US$ 38 bilhões, enquanto a Itália, segundo país mais afetado pela doença, vai gastar US$ 28 bilhões para aquecer sua economia paralisada.

No Brasil, restrições fiscais e a lentidão econômica dificultam a tomada de medidas, o que divide economistas. Enquanto os mais ortodoxos defendem reformas estruturais, como a tributária ou cortes nos juros, a ala mais heterodoxa propõe estímulos diretos por meio do caixa bilionário do BNDES e mesmo uma flexibilização do teto dos gastos. No câmbio, a discussão gira em torno da necessidade de mais intervenção pelo Banco Central.

Henrique Bredda, gestor do fundo de ações Alaska, tem 127 mil seguidores na FinTwit, a comunidade de pessoas que comentam mercado financeiro no Twitter. Ele é um dos que atestam a maturidade dos investidores brasileiros. Ao embarcar em um voo de São Paulo para Goiânia no fim do ano passado, Bredda foi abordado pela comissária. “E aí, zerou?”, questionou ela, referindo-se a um tuíte em que o gestor dava conta, naquele mesmo dia, que estava reduzindo sua exposição às ações da varejista Magazine Luiza, um dos papéis mais valorizados da Bolsa. A cena se repetiria com o recepcionista do hotel.

Pelo comportamento dos cotistas do Alaska durante a crise, Bredda está convencido de que esse tipo de cena vai continuar acontecendo. “Esperávamos pânico, mas o que houve foi uma rotatividade. Muita gente pediu para resgatar os investimentos, mas muitas pessoas também decidiram investir mais. O saldo tem sido positivo”, disse.

Quem estuda o mercado de perto tem uma impressão semelhante. Michael Viriato, professor de finanças do Insper, uma universidade em São Paulo, vê um pequeno investidor mais maduro e propenso a risco: “Quem saiu forte foram os investidores internacionais. Ainda não temos os números, mas, pelo que tenho observado, eu diria que muita gente que perdeu a festa do ano passado está aproveitando para entrar”, disse. A negociação dos papéis preferenciais da Petrobras no dia 9 tende a confirmar o que diz Viriato. Corretoras que costumam atender sobretudo clientes institucionais e estrangeiros, como os bancos Goldman Sachs e JP Morgan, venderam muito mais do que compraram. Na ponta contrária, corretoras que, majoritariamente, atendem pessoas físicas, como Clear, Genial, Rico e Easynvest, acabaram intermediando mais a compra das ações.

O universitário Bernardo Rubião tinha tudo para se considerar um azarado na Bolsa. Comprou R$ 500 em ações da Petrobras às vésperas do Joesley Day. “Perdi 40% e traumatizei. Disse: ‘Não quero mais brincar disso”, relembrou. Ficou um ano longe das ações, até que recobrou a confiança no fim do governo Temer. Mais uma vez, tomou um tombo. Apostou na Vale pouco antes do acidente de Brumadinho no ano passado. Mesmo assim, continuou investindo em ações e ganhou muito no ano passado. Na segunda-feira 9, assistiu perplexo a sua carteira na Bolsa desvalorizar em 30%, queda atenuada graças às aplicações em outras categorias, como renda fixa. Mesmo assim, não se desfez dos papéis. “A faca está caindo, não adianta tentar pegá-la em pleno ar, senão você se corta. Mesmo que a Bolsa continue caindo, não vou sair do investimento, porque acredito na recuperação”, afirmou o estudante de Direito.

Para quem quer colocar mais dinheiro em ações ou aproveitar a queda para começar a investir em renda variável, o consultor de investimentos Paulo Bittencourt, que atua no mercado financeiro há quase 30 anos, tem um conselho. Ele argumenta que não é recomendável investir na Bolsa por impulso, especialmente para quem é iniciante. O mais seguro, em sua opinião, é migrar da renda fixa para a chamada renda variável com fundos de ações. Um gestor profissional escolhe vários papéis que considera com maior chance de valorização. Para isso, cobra uma taxa de administração de quem aplica. E toma suas decisões baseado em centenas de informações, que geralmente não chegam à pessoa física. “O investidor vai receber relatórios do gestor, vai saber exatamente por que ele está comprando aquele papel. Se, depois de dois anos, a pessoa tiver perfil para as oscilações da Bolsa, pode começar a aplicar diretamente numa ação”, disse Bittencourt.

Em momentos de crise aguda como a atual, há sempre a possibilidade de novos desdobramentos inesperados. Quem diria há um mês que o príncipe saudita Mohammed bin Salman apertaria o botão da guerra do preço do petróleo com a Rússia, o que aconteceu no começo de março. Após três anos de cooperação, o russo Vladimir Putin discordou dos planos da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) sobre a nova redução coordenada na produção da commodity. Seria uma forma de sustentar a cotação do barril mesmo diante da demanda menor com o coronavirus.

A estratégia russa é derreter os ganhos da indústria americana de petróleo, mais sensível à queda do barril. Em represália à negativa russa, porém, a Arábia Saudita anunciou que cortaria seus próprios preços em mais de 10% e que aumentaria sua produção. Escolheria, assim, compensar a desvalorização com vendas maiores. O impacto nos mercados foi imediato. Já no domingo 8, o petróleo desabou mais de 30% logo na abertura dos pregões asiáticos, no maior tombo desde a Guerra do Golfo, em 1991. Bolsas de todo o mundo despencaram, ecoando temores de uma nova recessão global.

Apesar do desempenho maluco do lbovespa e de outros índices mundo afora, analistas reforçam que não é hora de desespero. Praticamente todos acreditam que, a despeito do sensível aumento do risco com a pandemia, a conjuntura econômica brasileira, com seus juros historicamente baixos, acaba tornando a Bolsa uma opção atraente. Longas séries históricas comprovam que, em horizontes mais estendidos, a tendência da Bolsa é subir. “Estou no meu sétimo circuit breaker e acredito que, no longo prazo, a Bolsa sobe. Hoje, ela já está em nível mais elevado do que em todas as ocasiões parecidas no passado. A humanidade anda para a frente”, disse Tiago Reis, fundador da Suno Research, uma empresa de análise financeira.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

NEM DE MARTE NEM DE VÊNUS

De acordo com um novo estudo sobre gênero, homens e mulheres não são tão diferentes quanto a mídia e alguns psicólogos nos levam a pensar. Meninas não têm a mesma capacidade matemática? Mentira. Os homens não se expressam tão bem quando o assunto é relacionamento? Também não é verdade. Problemas de auto- estima na adolescência, geralmente associados às meninas, afetam igualmente os rapazes.

Pelo menos é o que mostra uma pesquisa desenvolvida pela professora de psicologia Janet Shibley Hyde, da Universidade de Wisconsin, em Madison. Ela procedeu a uma revisão dos 46 estudos sobre gênero mais importantes dos últimos 20 anos. “Claro que há diferenças emocionais e cognitivas entre os sexos. Os homens são, de fato, mais agressivos fisicamente.” Mas para Hyde o estudo mostra que tendemos a nos concentrar mais nas diferenças do que nas similaridades e exageramos qualquer descoberta científica que aponte pequenos contrastes.

“Se aceitamos que os homens não se comunicam bem, quais são as implicações disso para o casamento? Porque uma mulher tentaria conversar com seu marido para resolverem seus problemas se ele fosse incapaz de compreendê-la? questiona. “Se temos certeza de que os meninos são melhores em matemática, ignoramos o talento matemático de muitas meninas. “Isso implica limitação das oportunidades profissionais das mulheres em áreas tecnológicas e científicas.

“Em vez de continuarmos a acreditar em psicólogos de programas de auditório, precisamos dar ouvidos a dados científicos que nos dizem quando estamos nos aferrando a falsos estereótipos”, sugere Hyde.

OUTROS OLHARES

OS ÓRFÃOS DO FEMINICÍDIO

É só o começo da tragédia quando o pai mata a mãe: a vida dos filhos fica marcada por aquela morte

“A pessoa que me disse (para não contar) foi meu pai. Que ele matou minha mãe, narrou, chorando, Eduarda, diante dos sete jurados no tribunal. A menina tinha 8 anos quando participou como testemunha do julgamento do assassinato de Josilene Ferreira de Araújo, de apenas 23 anos, sua mãe. Com a ajuda de uma psicóloga, a menina contou o que vira naquela noite de junho de 2016, no bairro da Paz, em Manaus, onde morava a família.

Aos poucos, com a voz fraquinha em meio a pausas por causa da emoção, a garota conseguiu reconstruir a cena. “Ele deu uma facada no pescoço, depois tirou ela para botar no outro quarto e botou um lençol em cima dela. Eduarda relatou ainda que a mãe tinha vomitado algo de cor “vermelha bem clara”, provavelmente em referência ao sangue pela casa. “Ele botou um travesseiro na cara dela para ela não respirar”, afirmou, quando um choro acompanhado de soluço veio à tona.

O testemunho de Eduarda, hoje uma menina calma, de sorriso tímido e olhos vivos, foi considerado decisivo para condenar o pai, Diego Pacheco. Ele alegava legítima defesa em relação às três facadas que dera em Josilene e negava tê-la asfixiado. O homem foi sentenciado a 17 anos e quatro meses de prisão por feminicídio. Matara a mulher com quem vivia havia dez anos, mãe de seus dois filhos, depois que ela descobrira uma relação extraconjugal e buscara apoio na família para se separar.

Se tragédias como a de Josilene começaram a ser contabilizadas em 2015, quando a legislação brasileira passou a classificar como feminicídio o assassinato em que o fato de a vítima ser mulher é determinante para o crime, o drama dos órfãos dessas famílias permanece invisível. Em muitos casos, perdem ao mesmo tempo a mãe, morta, e o pai, preso pelo crime hediondo. Eduarda e o irmão, ela aos 9 anos, ele aos 8, não estão sequer nas estatísticas, simplesmente porque inexistem dados a respeito dos filhos das vítimas. Nesta reportagem, as crianças serão identificadas com nomes fictícios para proteger ao menos sua identidade, já que o país não conseguiu proteger sua infância.

O Fórum Brasileiro de Segurança Pública projetou que, todo ano, os feminicídios deixam mais de 2 mil órfãos no país. A estimativa é baseada na quantidade de vítimas registradas em 2018, último ano com dados fechados, quando 1.206 mulheres foram mortas por serem mulheres – seja no contexto de violência doméstica, seja pelo menosprezo à condição de gênero, conforme define a lei que criou o feminicídio como circunstância qualificadora do homicídio.

Na memória de Vane Correia Machado, de 54 anos, e dos dois netos, João e Clarice, as pauladas desferidas pelo pai das crianças na mãe ainda estão vivas. Os três viram quando o homem começou a agredir com socos Aline Pâmela Teixeira Machado no quintal da casa onde moravam e, depois, a dar pauladas na mulher. Vane tentou ajudar a filha, mas foi atingida e chegou a desmaiar. A moça, de apenas 23 anos, morreu.

O filho mais novo deixado por Aline tem apenas 2 anos. É um garoto agitado, torcedor do Flamengo, que continua a perguntar pela mãe, morta há cerca de seis meses. Vez por outra, disse a avó, o menino pega algum pedaço de madeira ou cabo no quintal e simula a cena do crime. A reação de Clarice, de 9 anos, é diferente. “Ela não falava nada, nada, depois do que aconteceu. Hoje, ela já chora, olha fotos da mãe”, contou Vane.

Aline, que era caixa de uma grande rede de supermercados na capital do Amazonas, ajudava Vane com as contas de casa. Ela morava com a mãe, os filhos e o marido no mesmo imóvel, depois de resolver dar mais uma chance ao casamento que havia sido rompido. Agressões passadas levaram a jovem a registrar ao menos seis boletins de ocorrência, de acordo com documentos levados à Justiça. A moradia de dois quartos, sala e cozinha, com piso vermelho e móveis modestos, hoje é mantida com os bicos que a avó consegue fazer, como a venda de roupa íntima de porta em porta. Amigas de Aline também ajudam doando mantimentos para a família. Agora com duas crianças para criar, Vane, que nem chegou a completar o ensino fundamental, enfrenta com dificuldade as burocracias decorrentes da morte da filha. Ainda não conseguiu qualquer benefício para os netos no INSS, onde disse já ter feito “vários requerimentos”, nem conseguiu voltar a receber o Bolsa Família que Aline ganhava por causa dos filhos. “Fui lá, levei o atestado de óbito para fazer a coisa certinha. E pedi novamente o benefício como responsável por eles, mas até agora nada”, lamentou.

Nas paredes da casa, recordações dos aniversários das crianças, que Aline não deixava passar em branco. Um cartaz mostra Clarice caracterizada de Elsa, a personagem do desenho infantil Frozen. “Foi muito legal, teve pula-pula, bolo com meu nome, ganhei muitos presentes”, lembrou a menina. Em outro registro, aparece o rosto do irmão, João, no corpo do Pequeno Príncipe, tema da comemoração de 1 ano do menino. “Ela sempre fazia festa e eles me cobram, mas eu já disse que agora vão precisar ter um pouco de paciência”, resignou-se a avó. Professor na Universidade Federal do Ceará (UFC) e autor de estudos sobre feminicídio feitos em parceria com o Instituto Maria da Penha, José Raimundo Carvalho criticou a falta de atenção governamental aos órfãos. “Depois que a mãe é morta, o problema da violência doméstica é riscado e esquecido e as consequências passam a ser da família que assumirá a criação das crianças”, afirmou o pesquisador.

A ausência de um olhar específico para esse público começa a ser superada por experiências pontuais no país, como as desenvolvidas por alguns Centros de Referência de Assistência Social (Cras) e por outros órgãos, a exemplo de Defensorias e Ministérios Públicos nos estados. O objetivo é auxiliar as famílias a chegar aos serviços necessários, como a Previdência, para requerer pensões e auxílio-reclusão – no caso de o pai estar preso e ter contribuído para o INSS -, e ter acesso à rede de saúde para atendimentos psicológicos ou psiquiátricos, entre outros. Procurado, o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos disse que “está estudando ações para tratar a questão dos órfãos do feminicídio”, sem dar detalhes.

“É impossível não ser tocado por toda a tristeza desses casos. As crianças não conseguem expressar em palavras o que sentem, mas estão sempre olhando para o chão, dão aquele sorriso forçado. Ao mesmo tempo, temos de ser serenos para prestar um atendimento profissional”, disse a defensora Pollyana Gabrielle Souza Vieira, que está à frente do projeto Órfãos do Feminicídio, criado na Defensoria Pública do Amazonas no ano passado. “As famílias chegam desamparadas, sem saber como resolver uma série de problemas decorrentes da tragédia”.

Crianças e adolescentes que presenciaram o crime, além do trauma que a cena pode causar, têm de lidar com a ausência da mãe e, muitas vezes, do pai, que em geral vai preso. Um estudo do Ministério Público de São Paulo revelou, a partir da análise de 364 denúncias, a cada quatro feminicídios, um foi cometido na frente de alguém da família ou de terceiros. Dessas testemunhas, 57% eram os filhos da mulher. Um quarto deles também foi atacado no momento do assassinato.

Não há idade definida a partir da qual a criança passa a entender o significado da morte, explicou Carla Bertuol, psicóloga na área de saúde mental e infância e professora na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Segundo ela, isso depende da dinâmica da família responsável por cuidar dos órfãos e da forma como esses temas são trabalhados ao longo de sua vida, entre outras questões.

Bertuol destacou que são necessárias várias abordagens, não há solução única. “Não faz muito sentido fazer só uma psicoterapia ou só tomar remédio. Há coisas que a professora na escola pode fazer, outras que são estimuladas pela família. O importante é não silenciar a criança, mas sim dar espaço para que ela se manifeste, o que pode ocorrer nos desenhos, nos brinquedos, nas perguntas”, afirmou. “Será preciso fazer essas emoções circularem em sua cabeça.”

Na casa de Maria das Graças Castro Ramos, de 71 anos, não há espaço para silêncio sobre a tragédia que destroçou a família há um ano e meio. Um cartaz com a foto da filha, Adriana Castro, permanece na sala desde a missa de sétimo dia da mulher, de 44 anos. Uma semana antes de ser assassinada, ela desabafou com os parentes que não aguentava mais as ameaças do marido, com quem era casada havia mais de 20 anos e tinha um casal de filhos.

Unidos, os cinco irmãos logo se apressaram em ajudar Di, como era chamada na família, a sair de casa para morar com a mãe. Cinco dias depois, o marido de Di foi ao portão da residência de Maria das Graças, sob o pretexto de entregar os materiais escolares dos filhos. As câmeras instaladas na casa vizinha mostraram que a intenção do policial militar Epaminondas Silva era outra.

Sem sinal de discussão ou registro de briga corporal, o homem sacou a arma e deu um tiro no ombro de Adriana, que se virou de costas para ele, talvez para tentar fugir. Ele então a executou com um disparo na nuca. Mirou na sequência a própria cabeça, mas antes se abaixou para olhar mais de perto o corpo da mulher no chão. Em seguida, se matou.

Jéssica e Leonardo, com respectivamente 8 e 12 anos à época, saíram da casa da avó correndo para ver o que tinha acontecido e depararam com os dois corpos estirados na calçada da casa, que fica a cerca de 30 quilômetros do centro de Brasília. Enquanto a avó gritava por ajuda na rua, o garoto tentava acionar os tios por telefone.

A menina, que gostava de vestir roupas iguais às da mãe, numa brincadeira que as duas cultivavam, sonhou com uma tragédia parecida dias antes. “Eles brigavam perto do portão, minha mãe caiu igualzinho aconteceu. Só que ele não se matou, ficou lá olhando para ela e limpando o sangue. Eu acordei à noite, contei para minha mãe, mas ela disse que era só um sonho”, recordou-se Jéssica.

A parede do quarto que as crianças passaram a dividir na casa da avó tem 12 fotos da mãe, lembrada por toda a família como uma pessoa carinhosa e dedicada aos filhos. O mais velho colou também uma carta que recebeu de Adriana quando teve dificuldades na escola. “Você é um menino muito inteligente e eu acredito em sua capacidade. Amo você! Beijos da mamãe”, diz a parte final da mensagem.

“A perda de minha irmã não é assunto proibido, não é tabu. Aqui é cheio de fotos da mãe deles. Aliás, todas as nossas conversas acabam nela”, disse Marcelo Adson de Castro Rosa, tio das crianças. Elas passaram por atendimento psicológico e hoje, na avaliação da família, estão bem. “Elas vão crescer felizes, aprendendo a fazer o bem. Agora sou avó, mãe, pai e tudo delas”, disse Maria das Graças.

O bem-estar das irmãs Alice e Helena preocupa a tia, Cleire Romão, de 31 anos. Foram as meninas, na ocasião com 2 e 4 anos de idade, que chegaram à casa da família chorando e gritando que “o Teteu matou a mamãe”. Steffano Amorim é o pai das duas, mas não tinha uma relação próxima com as filhas, que costumavam chamá-lo pelo apelido.

Elas viram ao menos parte das agressões que levaram à morte de Janaína Romão Lúcio, com cinco facadas, na casa de um tio do assassino. A mãe, que tinha 30 anos, havia se separado do marido e voltado a morar na casa dos pais, em Santa Maria, cidade nos arredores de Brasília. Mas Amorim não se conformava. Perseguia Janaína até no ministério onde ela era funcionária terceirizada.

“Ele matou ela na cama”, disse Helena, hoje com 6 anos, mostrando que prestava atenção à entrevista dada pela família, enquanto brincava com a irmã. Cleire, que ficou com a guarda das sobrinhas e a quem as duas chamam de mãe, contou que a mais nova chorava muito após o crime e até hoje tem pesadelos.

Em 2017, quando as coisas pareciam melhorar, a avó das crianças morreu, cerca de um ano após o feminicídio que vitimou Janaína. O baque foi enorme para as netas. Alice voltou a falar de tudo que havia presenciado na morte da mãe. Helena, que abriu mão do cabelo comprido para fazer um corte “igual ao da vovó”, demonstra medo de novas perdas. “Ela fala para mim que no dia em que eu morrer ela quer morrer comigo”, contou Cleire, que precisou adiar os planos de recém-formada no curso técnico de secretariado para cuidar das sobrinhas.

Um grande retrato de Janaína segurando as duas meninas fica na parede da sala da família. Outras fotos menores são mostradas por elas. Duas estão recortadas, e aparece apenas a mãe. “Cortei tudo para ele aprender”, disse Alice, hoje com 4 anos, referindo-se à imagem do pai na foto original.

O avô das garotas, Edgar Soares Lúcio, não consegue falar da filha sem que os olhos, de um azul-claro bonito, se encham de lágrimas. A família soube depois da morte que a situação entre Janaína e o criminoso era pior do que imaginavam, com dois boletins de ocorrência já registrados pela moça contra ele. “Ela não se abria com a gente, vieram contar depois que aconteceu (o assassinato) das ameaças e agressões. Que amigos são esses?”, questionou o senhor de 68 anos. O assassino foi condenado a 36 anos e nove meses de prisão.

Incorporado em 2015 à legislação brasileira, o crime de feminicídio tem pena que varia de 12 a 30 anos, enquanto para o homicídio simples ela é de 6 a 20 anos. A punição aumenta se a morte for praticada em determinadas circunstâncias, como durante a gestação, nos três meses após o parto ou na presença de filhos ou pais da vítima.

O aumento da pena, no entanto, não é o ponto principal da mudança na lei. Estudiosos afirmam que a maior vantagem foi passar a chamar a atenção para esse tipo de violência, cometido em razão da condição de mulher da vítima. O conceito precisa ser compreendido sob a dinâmica de nossa sociedade, explicou Carmen Hein de Campos, doutora em ciências criminais e pesquisadora na área.

“Não é simplesmente por ser mulher. Mas porque uma sociedade machista e sexista como a nossa coloca as pessoas identificadas com o feminino numa condição de vulnerabilidade”, afirmou a pesquisadora. Campos lembrou que grande parte dos feminicídios registrados ocorre em meio a uma separação consumada ou planejada. “Temos aí, com clareza, o conteúdo machista de que a mulher não pode ter autonomia.”

A brutalidade é a praxe nos crimes de feminicídio. Mais da metade dos assassinatos foi cometida com instrumentos como facas ou machados, de acordo com análise do Fórum Brasileiro de Segurança Pública em relação às mortes registradas em 2017 e 2018. Segundo outra pesquisa, do Ministério Público paulista, em cerca de metade dos casos de feminicídio foram efetuados diversos golpes ou disparos. A conotação de gênero aparece nas partes do corpo muitas vezes destroçadas pelo assassino: seios, vagina, rosto.

Enquanto os homicídios caíram 13% de 2017 para 2018, os feminicídios aumentaram 4%. A alta vem de uma melhoria na notificação do crime, embora não seja possível descartar um aumento real de casos, até por falta de série histórica. O secretário de Segurança Pública do Distrito Federal, Andersen Torres, afirmou que a prevenção dos assassinatos ainda é um desafio para a área, lembrando que o índice médio de vítimas que tinham registrado ocorrência prévia por agressão ou ameaça na capital federal gira em torno de 30%. “Ou seja, em 70% dos casos, a polícia só vai buscar o corpo, porque a informação da agressão não chegou antes. O crime acontece dentro de casa, por algo que está dentro da cabeça do autor e com a arma que fica na cozinha. É preciso uma conscientização sobre esse machismo”, disse.

Uma câmara técnica da Secretaria de Segurança do DF levantou dados de todos os feminicídios já registrados na unidade da Federação para tentar entender o fenômeno. Foram 97 vítimas desde 2015, das quais 36 tinham filhos menores de idade, totalizando 75 órfãos nessa faixa etária.

O DF é um dos locais que seguem as Diretrizes Nacionais para Investigar, Processar e Julgar com Perspectiva de Gênero as Mortes Violentas de Mulheres, uma espécie de guia, adaptado pelo governo brasileiro em 2016 de um documento das Nações Unidas. Uma das regras é registrar qualquer assassinato de mulher primeiro como feminicídio e, depois, reclassificá-lo se for o caso.

Outra orientação é fazer a perícia criminal sob a ótica de gênero. “Os sinais, muitas vezes, são as facas da casa escondidas pela vítima, uma mala pronta, roupas ou fotos rasgadas. Se as partes do corpo mais atingidas são as que denotam a condição de mulher, como seios e vagina, isso também é um dado importante. Esse olhar do perito faz toda a diferença”, explicou Dulcielly Nóbrega de Almeida, do Núcleo de Defesa da Mulher da Defensoria Pública no DF.

As mais de 20 facadas dadas por Bruno Manfredi na companheira, Thaynara Barbosa da Silva, de apenas 23 anos, deixaram a família em estado de choque. O rapaz era querido pelos parentes da vítima, com quem se relacionava havia cinco anos e com quem teve uma filha. Milena, de apenas 3 anos na época do crime, estava no quarto do casal quando tudo aconteceu, contou a irmã de Thaynara, Mayara.

“Minha irmã lutou muito. Tinha marca das mãos de sangue no guarda-roupa. Ele deu golpes nos seios, nas pernas e no pescoço”, lembrou a irmã. Inicialmente, Milena não perguntava pela mãe nem tocava no assunto, mas começou a ter medo de dormir no escuro. Na quarta consulta com um psicólogo, falou sobre o que vira.

A família explica que a mãe virou uma “estrelinha” e diz que o pai está viajando quando a menina, hoje com 4 anos, pergunta. Carinhosa, ela consolou a avó, Maria Lucilene da Silva Barbosa, que se emocionou enquanto mostrava fotografias da filha. “Guarda as fotos, senão ela vai chorar. Já está chorando”, pediu Milena à tia.

Maria Lucilene, Mayara e Milena dividem um quarto no pequeno apartamento de três cômodos onde vivem em Manaus. Barbies e um tablet são a distração preferida da menina espevitada de cachinhos no cabelo. A avó se pergunta por que o companheiro de Thaynara, que ela tinha “como um filho” e considerava um “menino bom”, agiu assim. Ele está preso aguardando julgamento.

Nos últimos seis meses, o casal havia começado a brigar, mas, na avaliação da família, eram desentendimentos normais de um relacionamento. A mãe se ressente de não ter conseguido evitar a tragédia. “Ela disse um dia que ia se separar do Bruno. Eu falei: ‘Se acalme, filha, vocês têm uma criança. Isso fica remoendo aqui dentro de mim”, disse Maria Lucilene, com a mão no peito, aos prantos.

Eduarda, a garotinha do começo desta reportagem que narrou no tribunal como o pai matara a mãe, vive com o irmão na casa da avó, Laíde Ferreira de Lima, de 61 anos. Os dois estudam em uma escola de tempo integral. A menina de cabelos castanhos e pele clara ouviu mais do que falou enquanto a família contou sobre o crime que vitimou sua mãe, Josilene. Vez por outra, balançava a cabeça em concordância com algo que era dito. Os netos são o xodó de Laíde, que colocou uma cama de casal em seu próprio quarto para as crianças. Os outros dois quartos da casa humilde, em uma laje por terminar na capital amazonense, são alugados para reforçar o orçamento da família.

Os irmãos passaram por atendimento psicológico. “Tiveram alta. Estão prontos para caminhar”, animou-se a avó. Apesar do bem­ estar das crianças, os parentes ficam atentos.

“Tem dia que a mamãe avisa que eles estão agitados. Aí eu venho para conversar, ver o que está se passando”, disse Jucineia Ferreira de Araújo, de 38 anos, tia das crianças.

A lembrança de Josilene está nas músicas da igreja que ela cantava como ninguém, segundo os parentes. Está também nas camisetas com o rosto da moça que a família costuma usar ao sair em manifestações de repúdio à violência contra a mulher.

Os parentes de Josilene tentam auxiliar outras vítimas indiretas de feminicídio com base na própria experiência. Foram cerca de três anos de idas frequentes às autoridades da polícia e do Ministério Público e ao fórum de Justiça, para não deixar a morte da jovem impune.

Josilene foi assassinada em 2019, quando a lei do feminicídio era relativamente nova e enfrentava resistências até mesmo no âmbito de órgãos estatais. O julgamento, em julho passado, durou mais de 12 horas, sob sigilo. O depoimento de Eduarda arrancou lágrimas dos presentes.

Ao responder por que não tinha saudade do pai, durante o testemunho, a menina explicou: “Porque ele fez o mal para minha mãe”. A avó reza para que os netos superem a perda. “A lembrança fica, mas um dia a dor vai ter de passar.”

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 26 DE MARÇO

A FELICIDADE COMO RESULTADO DA GENEROSIDADE

A alma generosa prosperará, e quem dá a beber será dessedentado (Provérbios 11.25).

Jesus diz: Mais bem-aventurado é dar que receber (Atos 20.35b). Esse é um caminho seguro para a verdadeira felicidade. Neste mundo marcado pela ganância e nesta sociedade timbrada pela avareza, Jesus nos mostra que o caminho da felicidade não é receber, mas dar. Na ânsia de ser feliz, o ser humano sempre quer mais. Por isso, assalta, rouba, corrompe e toma o máximo do outro, e isso de forma ilícita e desonesta. Contudo, quanto mais acumula os tesouros da impiedade, mais se afunda no desespero e na infelicidade. O caminho da felicidade é o inverso da ganância. Somos felizes não quando tomamos o que é do outro, mas quando damos ao outro. Somos felizes não quando acumulamos para o nosso deleite, mas quando repartimos por amor ao próximo. Somos felizes não quando ajuntamos tesouros na terra, mas quando os entesouramos no céu. Somos felizes não quando armazenamos tudo para nós mesmos, mas quando damos o máximo para o bem do nosso próximo. A felicidade não está em quanto temos, mas em quanto repartimos. A generosidade, além de nos trazer felicidade, ainda nos assegura prosperidade. Não é o avarento que prospera, mas o generoso. Quanto mais semeamos na vida do próximo, mais Deus multiplica a nossa sementeira. A bênção que distribuímos retorna sobre a nossa própria cabeça.

GESTÃO E CARREIRA

COMO CÃES E GATOS

As varejistas Cobasi e Petz se engalfinham pelo mercado de produtos e serviços para animais e tentam conter o avanço de uma rival que cresce na internet

As noites ao relento nos quintais das grandes cidades definitivamente fazem parte do passado. Há algum tempo cães e gatos têm colhido os louros do fenômeno da “humanização” dos animais de estimação no país e agora, além de usufruírem o aconchego do lar de seus donos, tornaram-se um segmento de consumo que atiça a cobiça dos fabricantes e comerciantes de uma infinidade de produtos e serviços. Segundo dados do Instituto Pet Brasil, que contabiliza as estatísticas da área, o país concentra uma população de 139,3 milhões de pets, dos quais 54,2 milhões são cães e 23,9 milhões, gatos – o restante da fauna que habita casas e apartamentos inclui aves, roedores, peixes e até répteis. Tamanho contingente está no foco de um ramo de negócios que movimentou no ano passado 35,4 bilhões de reais, volume 3% maior que o registrado em 2018. E, em meio a uma miríade de lojas, pet shops e clínicas veterinárias de bairro que atendem os donos de bichos domésticos, destacam-se empresas que constituem verdadeiros colossos voltados para o bem-estar de ambos – os donos e os bichos. Trata-se de companhias que oferecem unidades com configuração que lembra a de hipermercados e lojas de departamentos e estão envolvidas em uma disputa feroz pela preferência do consumidor.

A mais antiga no ramo é a Cobasi, empresa que fatura 1,3 bilhão de reais ao ano. Fundada em 1985 como uma loja que vendia, entre outros produtos, ração e medicamentos de uso veterinário, operou por anos sem lucro, sustentando-se com negócios correlatos de seus fundadores, proprietários de fazendas. A partir da década de 90, com o avanço da onda pet, mudou seu foco e refinou seu alvo para os bichinhos que viviam em casas e apartamentos. Atualmente, cravou sua centésima loja em um vistoso shopping center em uma região nobre de São Paulo e se prepara para a abertura de um núcleo de inovação que vai desenvolver soluções digitais direcionadas aos clientes. Batizada de Cobasi Labs, a nova área já tem vinte funcionários dedicados a avançar do modelo de lojas físicas para as chamadas experiências oferecidas em ambiente virtual. Essa empreitada vai além da possibilidade de comprar pelo site e também permitirá ao cliente agendar pelo celular consultas e outros serviços referentes aos animais. “Os pets de certa forma suprem as carências emocionais das pessoas, principalmente no ambiente tecnológico em que vivemos hoje. Acreditamos que é possível associar esses dois aspectos da vida moderna e, é claro, vender nossos serviços e produtos”, raciocina Ricardo Nassar, membro da família fundadora da Cobasi e sócio­ diretor da empresa.

Com sua loja coruscante em um shopping de luxo e seu núcleo de inovação, a Cobasi busca responder aos movimentos de sua principal rival, a Petz, que se expandiu de forma vertiginosa nos últimos anos. Fundada em 2002, em São Paulo, com o nome de Pet Center Marginal, óbvia referência à localização, na Marginal Tietê, a rede ganhou um empurrão considerável ao receber como sócio o fundo de private equity americano Warburg Pincus, que comprou mais de 50% da operação da empresa em 2013. O plano dos americanos não tinha nada de modesto: transformar a já rebatizada Petz em uma das maiores redes do mundo. Com 106 unidades, ela já ultrapassou a pioneira do mercado brasileiro em número de pontos de venda, mas ainda está atrás no quesito faturamento anual, na casa de 1,2 bilhão de reais. Ambas as empresas apostam em lojas espaçosas, em torno dos 1.000 metros quadrados, e em endereços privilegiados, como avenidas de grande tráfego.

Na briga pela liderança absoluta do setor, a Petz se prepara para um passo mais ousado. No último dia 19, a companhia registrou um pedido para oferta pública inicial de ações na B3, a Bolsa de Valores de São Paulo. Na operação, serão vendidas as ações hoje detidas pelo Warburg Pincus e parte dos papéis do fundador da empresa, Sergio Zimerman. Em relação à rival, a Petz se arrisca mais em inovação nos pontos de venda. Foi a primeira rede de pet shop a oferecer um hotel e uma creche para cães e gatos. Algumas de suas 106 lojas contam com self checkout, sistema de autoatendimento por meio de máquinas que dispensa o auxílio de operadores de caixa e que dispõe de recursos de realidade aumentada para entreter a clientela – tanto quadrúpede como bípede.

Embora as duas redes imponham respeito por suas dimensões, elas detêm, juntas, apenas 13,5% das vendas no varejo pet. Ou seja, ainda existe um espaço considerável para expandir-se. O problema é que não estão sozinhas. Outra companhia, a Petlove, cresce com a venda direta a consumidores e veterinários pela internet. Com uma filosofia de startup e faturamento de 315 milhões de reais, a companhia, fundada no fim dos anos 1990, tem comprado concorrentes do mundo on-line e projeta um faturamento de 2,5 bilhões de reais em 2024. Em meio a tal voracidade, haja ração para abastecer as tigelas da bicharada.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

COMER COM INTELIGÊNCIA

Nosso comportamento alimentar, diferentemente do de outros primatas, baseia-se no aprendizado e na imitação: escolhemos provar uma nova comida de acordo com o que fazem os outros

Deixando de lado as diferenças culturais, as atividades humanas inerentes à alimentação – do cultivo à colheita, do preparo ao consumo – são todas influenciadas pela sociabilidade. O contexto social em que vivemos tem um papel importante na determinação de nossas escolhas alimentares e, frequentemente, os alimentos preferidos não são os mais adequados do ponto de vista nutricional, mas os que agradam às pessoas ao lado das quais nos alimentamos. Também os macacos – a espécie mais próxima do homem do ponto de vista filogenético – comem reunidos, prestando atenção ao que fazem os companheiros.

Dada sua semelhança morfológica e comportamental com o homem, sempre se pensou que os macacos aprendem o que devem comer observando o comportamento de outros símios e que a difusão de novos hábitos alimentares seja fruto dessa observação. No caso do macaco-prego – símio sul-americano onívoro como o homem -, porém, a pesquisa experimental não confirmou essa suposição aparentemente verossímil.

Os animais onívoros, que devem procurar frequentemente novos recursos alimentares, enfrentam um difícil dilema. Comer algo desconhecido pode causar intoxicação, mas evitar o novo pode significar perder a oportunidade de descobrir um alimento bom e nutritivo. O que fazer? Para resolver a questão pode-se experimentar o alimento com extrema cautela, e assim aprender pela própria experiência, ou atentar para como se comportam indivíduos mais experientes e fazer o mesmo. Mas como os bebês e os símios se comportam diante de alimentos desconhecidos?

A neofobia – isto é, a pequena aversão a experimentar novas comidas – é um traço cultural característico da alimentação humana. Geralmente, essa característica exibe uma trajetória em forma de parábola, é reduzida nos bebês ainda dependentes do leite materno, atinge o ápice durante o desmame e decresce novamente quando esta fase se completa, momento em que muitos alimentos já fazem parte da dieta.

Além disso, a neofobia é influenciada pelo tipo de amamentação. Os bebês amamentados no seio, precocemente expostos aos vários sabores dos alimentos consumidos pela mãe, são geralmente menos neofóbicos que os nutridos com leite artificial. A oferta constante de novos alimentos pode reduzir a relutância em experimentá-los: na idade pré-escolar as crianças tendem a incluir espontaneamente determinadas comidas na dieta após experimentar pequenas quantidades uma dezena de vezes.

Mas o homem não é o único primata neofóbico: saguis, chimpanzés e macacos-prego também o são. O macaco-prego é extremamente cauteloso em relação a novos alimentos, seja na Natureza, seja no laboratório. Quando, no Parque Nacional de lguazú, na Argentina, Maria Agostini apresentou a um grupo de 25 macacos-prego alimentos familiares (banana) e novos (amêndoas descascadas, maçãs secas e outros alimentos que os macacos de nosso laboratório comiam com entusiasmo), o que era conhecido foi devorado em poucos minutos, ao passo que as novidades quase não foram degustadas. Embora todos mostrassem cautela, os menos temerários foram os adultos, cujo acesso limitado aos recursos do grupo os obriga a procurar alternativas.

Embora representando uma proteção eficaz contra a ingestão de alimento novo em quantidades que podem ser perigosas, a neofobia é uma solução muito radical para uma espécie onívora como o macaco-prego, cuja sobrevivência depende da capacidade de ampliar novos recursos nutritivos. Nesse macaco, assim como no homem, a neofobia é atenuada pela experiência: se a ingestão de novos alimentos não é seguida por mal-estar gastrointestinal, basta um certo número de contatos para que a comida seja aceita e consumida. Mas a neofobia pode ser influenciada pelo comportamento dos outros? Diante de um novo alimento, o indivíduo presta atenção no que fazem o demais e se comporta da mesma forma?

O PRATO DO VIZINHO

Para um bebê, o contexto social em que o novo alimento é encontrado é fundamental para que seja incluído na dieta. Diversos experimentos mostraram que a novidade é aceita mais rapidamente quando um adulto a come e que a observação do que fazem outros bebês pode alterar preferências alimentares já adquiridas. Também para o símio, a alimentação é uma atividade social. Segundo a antropóloga americana Barbara King, quando as símias comem próximas umas das outras, observando e cheirando o alimento e a boca alheios, adquirem informações sobre a comida. É dessa forma, observando os companheiros, que os indivíduos mais jovens e menos experientes aprendem o que comer.

Para verificar a hipótese, realizamos alguns experimentos com macacos-prego. Há alguns anos já havíamos mostrado que, para esse animal, o contexto social influencia a aceitação e o consumo de novos alimentos: um macaco-prego inexperiente é mais inclinado a comer algo novo quando está em grupo, e quanto mais companheiros estiverem presentes, tanto mais ele comerá.

É importante notar, entretanto, que a observação de indivíduos experientes só permite adquirir a dieta correta se a comida que eles consomem e aquela que o animal inexperiente encontra forem a mesma. Por outro lado, não é possível inferir do comportamento de companheiros experientes que ingerem uma comida diferente se o alimento novo é comestível ou não. Portanto, se os símios de fato aprendem o que comer com os outros, então um macaco-prego observador deveria consumir mais alimento novo quando os demonstradores comem algo da mesma cor do que quando ingerem alimentos de cor diferente.

Surpreendentemente, nossos experimentos revelaram que os observadores aceitam um alimento novo prescindindo da cor do alimento ingerido pelos demonstradores. Nem mesmo quando devem escolher entre dois alimentos de cor diferente eles se deixam influenciar pela cor da comida que os demonstradores estão consumindo. Crianças em idade pré-escolar, porém, só aceitam alimento novo quando o adulto observado come algo de cor idêntica.

Embora possa nos parecer óbvio que o indivíduo deva considerar bom e comer o mesmo alimento consumido por outros, esse processo mental não é imediato para o símio. Para chegar a essa conclusão, o animal avalia a semelhança entre os alimentos e emprega um raciocínio de tipo condicional. Ela pensa que, se o seu alimento é igual ao de seus companheiros experientes, então o fato de que estes o estão comendo significa que é bom. Ao contrário, se sua comida difere da consumida pelos outros, então o que estes estão ingerindo é irrelevante para ela.

Nos macacos-prego, as influências sociais reduzem a neofobia, mas não parecem fornecer indicações sobre o que comer. A criança de 3 anos, porém, já está em condições de empregar seu sofisticado raciocínio e, portanto, de comer apenas quando é “seguro” fazê-lo: vale dizer, quando sua comida e a do demonstrador têm a mesma cor.

CONHECER PARA EVITAR

Aprender, mediante observação do comportamento alheio, que um alimento é tóxico deve ser mais vantajoso do que tentar aprender sozinho, por tentativa e erro. Todavia, se para nós isso é óbvio, para os símios não é. Até agora não há provas experimentais mostrando que as símias aprendem a evitar um alimento por meio da observação de indivíduos experientes que não o comem. Quando um grupo de macacos-prego de nosso laboratório deparou com uma comida desagradável, nenhum deles deu atenção ao fato de que os outros a evitaram: todos experimentaram um pouco. Os macacos-prego não são a única espécie que não aprende com os outros a evitar um alimento. Também nesse caso aquilo que nos parece algo óbvio, que requer apenas um raciocínio elementar, é de fato um problema de notável complexidade. Aprender algo observando o que outros não fazem é muito mais difícil, do ponto de vista cognitivo, do que aprender com o que fazem. Para ser instruído por um fato que não se verificou, o indivíduo deve imaginar o evento que deveria ter acontecido, notar a sua ausência e deduzir a possível causa que impediu sua ocorrência.

No fascinante livro Fome e abundância: história da alimentação na Europa, Massimo Montanari – professor de história medieval da Universidade de Bolonha e historiador da alimentação – narra a experiencia de um ermitão que, retirando-se para meditar no deserto, não sabia distinguir entre plantas boas e venenosas. Após dias de jejum, observou o comportamento de uma cabra. Agora que sabemos como é difícil para os animais aprender com os outros, podemos avaliar a inteligência desse homem!

Outra opinião bastante difundida, fruto de nossa visão antropomórfica, é a de que as mães símias ensinam aos filhotes o que comer e o que evitar. Ensinar é uma atividade complexa do ponto de vista cognitivo, para ensinar o que comer é preciso saber se determinado alimento é tóxico ou não, se o outro sabe disso e, caso não saiba, que é necessário instruí-lo.

Sempre que a capacidade de ensinar foi sistematicamente estudada, concluiu-se que as mães não tentam “orientar” a escolha alimentar feita pelos filhotes. De fato, há apenas raras observações sobrea intervenção ativa para evitar que o filhote coma determinado alimento, provavelmente tóxico. O ensino ativo também é raro em outros domínios do comportamento. Por exemplo, ao contrário do que ocorre em nossa espécie, as mães não ensinam ativamente aos filhotes como resolver um problema ou usar certo instrumento.

Do que vimos até aqui, conclui-se que o ensino e o aprendizado com a observação e a repetição de detalhes do comportamento alheio ou com a ausência deste exigem capacidades cognitivas que os símios não parecem possuir. Sabemos, porém, que as diversas espécies de símios evitam predadores, resolvem inúmeros problemas e elaboram uma dieta que não coloca suas vidas em risco.

Observando o comportamento espontâneo dos macacos-prego, nota-se uma série de influências sociais vagas que aumentam a probabilidade de que o indivíduo se comporte como seus companheiros: por exemplo, a tolerância entre indivíduos, a proximidade que favorece o encontro dos alimentos, o ato de pegar a comida da boca do outro ou a ingestão dos restos deixados por um companheiro.

APRENDER COM A EXPERIÊNCIA

A experiência individual pode ser suficiente para a formação de dietas corretas. Os símios, assim como muitos outros animais, têm três características fisiológicas e comportamentais fundamentais para que o indivíduo aprenda, com a própria experiência, a ampliar a dieta evitando riscos fatais: a preferência por certos sabores, a cautela em relação a alimentos jamais experimentados e a aquisição da aversão alimentar.

Os símios revelam acentuada preferência por alimentos doces e evitam os amargos, resultado do processo evolutivo que plasmou o paladar de forma a maximizar a obtenção de energia e minimizar a ingestão de substâncias tóxicas (na natureza, em geral, os alimentos doces não contêm alta concentração de substâncias tóxicas, abundantes nos amargos).

Além disso, as símias são extremamente cautelosas quando experimentam alimento novo. Um mecanismo simples permite que elas aprendam, com a experiência, a evitar comida tóxica: quando experimenta algo novo e sente problemas gastrointestinais, ela associa o alimento ao mal-estar e, assim, aprende a não come-lo mais.

Esse fenômeno – tecnicamente chamado de “aprendizado de aversão alimentar” – é extremamente eficaz, pois exige um número limitado de experiências, persiste por muito tempo e é mais rápido se o alimento é novo. O aprendizado é bastante disseminado no reino animal e, no homem, pode determinar idiossincrasias em relação a novas comidas e às que eram anteriormente apreciadas. As influências sociais, que em nossa espécie têm tanta importância, são abafadas pela força da aversão que a pessoa adquiriu sozinha.

À luz de nossos resultados, parece que no macaco-prego, mas provavelmente também em outras espécies de símios, as influências sociais genéticas e a experiência individual permitem que o indivíduo aprenda o que comer sem que sejam empregados processos cognitivos mais complexos, cuja presença nessas espécies ainda precisa ser demonstrada.

Quando foram oferecidos sete tipos de alimento aos macacos-prego, alguns dos animais estavam sozinhos (condição individual) e outros em companhia de membros do grupo (condição social). Independentemente da condição social ou individual, as preferências se orientaram pelas comidas energéticas. Isso mostra que, também no que diz respeito à aquisição de preferências alimentares, o papel do contexto social é secundário.

 

HERANÇA ALIMENTAR

As tradições são elementos constitutivos da cultura e as relações entre aprendizado social. Tradições e cultura são ainda objeto de pesquisa intensamente debatido. Um comportamento é considerado tradicional ou cultural se: (a) está amplamente disseminado entre os membros de uma ou mais populações e ausente em outras que vivem em áreas ecologicamente similares; (b) a  presença em uma população e a ausência na outra não puder ser atribuída a diferenças ecológicas entre as áreas em que vivem e/ou a diferenças genéticas; e (c) mantém-se ao longo do tempo e é transmitido de uma geração a outra mediante aprendizado social. Alguns primatólogos  observaram diversas populações de chimpanzés por um período que seria equivalente a 151 anos e concluíram que existe entre eles um número considerável de comportamentos culturais. Por exemplo, os chimpanzés de determinada população usam pedras e bigornas para quebrar nozes multo duras, ao passo que em outra população nenhum instrumento é usado. Também a limpeza recíproca dos pelos (grooming) varia entre as populações. Comportamentos culturais estão presentes ainda nos orangotangos e em algumas espécies de cetáceos. Em populações naturais de Cebus capucinus há tradições comportamentais relativas às técnicas de processamento de certos alimentos ou à modalidade de captura de presas. Dado que tais diferenças não parecem ocasionadas por fatores genéticos ou ecológicos, cabe pensar que se trata de tradições. Recentemente, nessa mesma população de C. capucinus, Susan Perry e colaboradores observaram um comportamento singular em que uma símia inseria os dedos no nariz ou na boca de outra símia, que por sua vez fazia o mesmo com a companheira. Os pesquisadores elaboraram a hipótese de que esse arriscado hábito tinha a função de avaliar a qualidade das relações sociais. Mas são necessários estudos controlados de laboratório para compreender quais processos de aprendizagem social permitem a difusão desses comportamentos e para estabelecer o papel da influência social na experiência individual. Nossas pesquisas são um primeiro passo nessa direção.

 

COMO O MACACO-PREGO ESCOLHE

Segundo a teoria do optimal foraging, a seleção natural favorece as espécies que privilegiam a obtenção de energia e de substancias nutritivas, escolhendo os alimentos mais adequados. Todavia, quando se experimenta um alimento, o feedback sensorial devido ao sabor precede as consequências fisiológicas de sua ingestão, geradas pelas substâncias, nutritivas ou tóxicas, que contém. Investigamos se as símias avaliam um alimento novo desde as primeiras mordidas e se essa avaliação muda quando a comida se torna familiar. Pesquisamos ainda se as Influências sociais modificam as preferências alimentares. Gloria Sabbatini e Margherita Stammati ofereceram sete novos tipos de alimentos a 26 macacos-prego. Cada um deles era apresentado em par, cobrindo todas as 21 combinações possíveis: cada alimento devia ser escolhido seis vezes. Após essa limitada experiência, os macacos já efetuavam escolhas conforme o conteúdo de glicose e de frutos e dos alimentos. Alimentos com alto conteúdo de açúcar (como abacaxi) eram preferidos aos que tinham pouca quantidade dessa substância (como couve). Após contatos posteriores em que puderam comer os sete alimentos à vontade, as preferências mudaram e as símias não mais se basearam apenas no conteúdo de açúcar, mas também na energia total, independentemente da fonte dessa energia (açúcar, proteína ou gordura).

Esses resultados mostram que o feedback sensorial imediato, isto é, o gosto doce do alimento, determina inicialmente as preferências. Mas, em seguida, o indivíduo aprende a levar em conta outros fatores, e nesse ponto, privilegia os alimentos com alto conteúdo de energia e que produzem um feedback fisiológico positivo, isto é, uma sensação de saciedade.

OUTROS OLHARES

PRAZER HIGH-TECH

Com produtos tecnológicos e lojas instaladas em bairros residenciais, as novas sex shops têm agora uma clientela majoritariamente feminina

Outro dia mesmo, há pouco mais de cinquenta anos, a sexualidade feminina estava para ser descoberta. O ano é 1968 – os Beatles lançavam o Álbum Branco. Os estudantes saíam às ruas em todo o mundo, nas ditaduras e nas democracias. Martin Luther King e Bobby Kennedy foram assassinados. No Brasil, Caetano, Gil e cia. inauguravam o tropicalismo embebido da antropofagia dos modernos de 1922. E um ensaio, um singelo ensaio, caía como uma bomba americana de napalm a sobrevoar o Vietnã no colo do machismo: O Mito do Orgasmo Vaginal, de Anne Koedt, dinamarquesa radicada nos Estados Unidos, anunciava, sem meias palavras, a existência do clitóris e decretava a possibilidade de chegar ao clímax com um vibrador. Um grosseirão empedernido, o escritor Norman Mailer, encurralado no canto do ringue, esperneou em O Prisioneiro do Sexo, de 1971, surpreso com a “abundância de orgasmos da mulher por toda parte, com aquele dildo de laboratório”. Nada como meio século de permanente revolução, e chegamos ao ponto de hoje: as sex shops vendem brinquedos eróticos sem censura, inclusive no Brasil, e as mulheres as frequentam com mais desenvoltura que os homens.

Hoje, se te em cada dez pessoas que procuram os estabelecimentos de produtos para esquentar o sexo são mulheres da classe A entre 30 e 40 anos. Elas foram atraídas pela transformação das novas lojas. De fachada escura, escondidas, passaram a ter ambientes iluminados e ocupar espaço em bairros residenciais, ao lado do comércio convencional, como padarias, lavanderias e restaurantes. Mas o principal chamariz são as novíssimas traquitanas, de forte apelo tecnológico, com design arrojado e elegante, que nada lembram os manequins esquisitões e feiosos das antigas vitrines. ”As lojas não vivem mais apenas em função do prazer masculino”, resume Susi Guedes, organizadora da Íntimi Expo, em São Paulo, uma das maiores feiras de negócios da América Latina voltada para o segmento. No evento, vale dizer, são vetadas exposições explícitas e imagens de pessoas sem roupa. Sexo é coisa séria.

A sofisticação em nome da excitação – muitas vezes apenas individual, solitária, como sugerem os atuais humores comportamentais, de respeito à vontade feminina – é impressionante. Há consolos que se conectam a distância por aplicativos. Há apetrechos que oferecem aulas guiadas de pompoarismo – como é chamada a prática de estimular o assoalho pélvico por meio de contrações. Há géis que vêm com propriedades regeneradoras da pele.

Um movimento paralelo foi o da formação de vendedores. “As clientes, sobretudo elas, querem detalhes dos produtos e não gostam de ouvir termos chulos”, diz Camila Gentile, sócia da marca Exclusiva Sexshop, que oferece mais de 17.000 tipos de artigos destinados às práticas sexuais. Fez sucesso uma maquininha de apenas 100 gramas criada para estimular partes da anatomia feminina por meio de sucção. O dispositivo (com sistema de carregamento magnético) ganhou fama depois de aparecer no Instagram da cantora Anitta, que agradeceu ao item por “salvá­la”. Peças lançadas inicialmente no mercado americano não demoram a desembarcar pelas bandas de cá. O destaque é uma prótese masculina indicada a uma premiação na mais recente Consumer Electronic Show, em Las Vegas, a maior feira de tecnologia do mundo. A mercadoria tem sensores inteligentes que monitoram o prazer da usuária. Depois do apogeu, podem-se acompanhar na tela do smartphone gráficos que indicam os pontos de maior sensibilidade, para ensinar o caminho das pedras.

Existem, ainda, naturalmente, algum constrangimento e vergonha, e por isso crescem também as vendas on-line. Entre 2018 e 2019, o número de compras via e-commerce do setor aumentou 62%, de acordo com monitoramento da consultoria Compre & Confie. O valor médio das aquisições: 219 reais. Presencialmente ou a distância, o prazer feminino é definitivamente delas, e ponto-final.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 25 DE MARÇO

A NATUREZA DO CASAMENTO

Digno de honra entre todos seja o matrimônio, bem como o leito sem mácula… (Hebreus 13.4a).

O casamento foi instituído por Deus para a felicidade do homem e da mulher. O mesmo Deus que criou o homem à sua imagem e semelhança e criou macho e fêmea, também instituiu o casamento, estabelecendo sua natureza. Foi o próprio Deus quem disse: Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne (Genesis 2.24). Há aqui três princípios básicos sobre o casamento. Primeiro, o casamento é heterossexual. O texto fala sobre um homem unindo-se à sua mulher. A tentativa de legitimar a relação homossexual está em desacordo com o propósito de Deus. Segundo, o casamento é monogâmico. O texto diz que o homem deve deixar pai e mãe para unir-se à sua mulher, e não às suas mulheres. Tanto a poligamia (um homem ter várias mulheres) como a poliandria (uma mulher ter vários homens) estão também em desacordo com o propósito de Deus para o casamento. Terceiro, o casamento é monossomático, pois os dois se tornam uma só carne, ou seja, podem desfrutar da relação sexual com alegria, santidade e fidelidade. O sexo antes do casamento é fornicação. Aqueles que praticam tais coisas estão sob o desgosto de Deus. O sexo fora do casamento é adultério, e só aqueles que querem destruir-se cometem tal loucura. O sexo no casamento, porém, é ordenança divina. Seguir esses princípios de Deus é o segredo de um casamento feliz.

GESTÃO E CARREIRA

AMOR OU HORROR?

Pesquisadores americanos descobriram que pessoas que adoram o que fazem correm um elevado risco de ser exploradas pelos empregadores. Aprenda como evitar que a paixão pelo trabalho o deixe cego

Seu chefe precisa de alguém para fazer plantão nos fins de semana. Sua colega sai de licença-maternidade e você assume as tarefas dela – sem adicional nenhum no salário. Você muda de horário caso a empresa precise. Pega mais conduções para chegar à sede da empresa, que não para de mudar de endereço. Sai mais tarde quando vê um colega atolado de trabalho. Muita gente faz tudo isso com frequência. E não porque espere reconhecimento ou qualquer coisa do tipo, mas simplesmente porque ama a profissão que exerce.

Em alguns casos, o famoso lema “Trabalhe com o que você ama e você não trabalhará um dia”, atribuído ao filósofo chinês Confúcio, parece ser uma falácia. Se você ama o que faz, talvez o trabalho seja dobrado. Exatamente porque você se importa.

Foi isso o que descobriram professores americanos das Universidades Duke, Oregon e Oklahoma em uma pesquisa publicada em abril de 2019. Segundo o estudo, quando adoram suas tarefas, as pessoas tendem a sofrer mais abusos – e vivem um ciclo chamado de “exploração por paixão”.

Para chegar a essa conclusão, os estudiosos ouviram cerca de 2.400 professores e gestores. Os participantes afirmaram ser mais aceitável que indivíduos com uma profissão associada à paixão (como artistas ou assistentes sociais) trabalhassem mais horas sem remuneração extra do que os ocupantes de outros cargos (como contadores e vendedores de lojas). “Nessas situações, fazemos urna psicologia compensatória para falar que uma pessoa está sendo explorada, mas está sendo premiada por fazer o que ama”, explica Troy Campbell, professor na Escola de Negócios da Universidade de Oregon e um dos autores da pesquisa.

DIA DE 40 HORAS

Um dos comportamentos mais comuns de quem ama o que faz é ficar sobrecarregado. Isso acontece, simplesmente, porque esses profissionais sentem prazer no trabalho. “Fazemos 500 coisas ao mesmo tempo porque sentimos que ali é uma zona segura, percebemos que damos conta e fazemos daquilo nosso território”, afirma Pamela Magalhães, psicóloga clínica. “E a grande maioria dos que fazem o que gostam nem se dá conta de como está sendo sobrecarregada”, diz.

Foi exatamente o que aconteceu com Renata*, de 36 anos. “No lugar errado, amar o que faz é extremamente perigoso”, diz – mas a ficha dela demorou bastante tempo para cair. Ela atuou por 14 anos em uma holding educacional, onde foi contratada como coordenadora de imprensa. “Fiquei muito feliz. Eu era encantada com o grupo. Mas desde a primeira semana eu estranhei que todo mundo era solteiro, sem filhos. Então concluí uma coisa: eles moravam no escritório.”

Não demorou para Renata fazer o mesmo. Ela não ia embora antes das 22 horas, mesmo tendo começado o dia às 9 da manhã. Acumular funções havia se tornado o novo normal. A princípio, ela assessorava apenas uma marca, que logo se tornaram três e, num piscar de olhos, dez. “Também organizava eventos, cuidava das redes sociais, tudo porque eu pensava: ‘Se eu não abraçar, ninguém vai fazer’. E fui me entupindo de trabalho”, diz. A situação ficou pior quando Renata teve de organizar um evento de hackathon em 2016. A montagem começou em uma sexta-feira e ela deixou o local às 2 da madrugada. No dia seguinte, às 7 horas, já estava de pé, trabalhando. “Eram coisas insanas que eu fazia só pelo amor à camisa. Era muito natural. Eu não reclamava”, afirma. Depois de 24 horas seguidas trabalhando, uma colega passou mal e teve de ir embora. Renata continuou. O fim do evento estava marcado para as 2 horas da tarde do domingo, mas um problema com a eletricidade adiou o encerramento.

Renata ficou acordada trabalhando sem parar das 9 horas da sexta-feira até as 19h30 do domingo. O expediente, que deveria durar apenas 8 horas, já estava batendo a marca de 40. “Senti o dano quando acabou. Achei que estivesse bem para dirigir, quase bati o carro num ônibus porque não tinha mais reflexo. Cheguei em casa e fiquei alucinando mais de 3 horas. Foi aí que vi que havia algo de errado e que eu estava passando do ponto.”

O relacionamento abusivo com o trabalho só terminou com a demissão. Renata foi desligada da empresa depois de ter denunciado práticas ilegais de um novo chefe. “Foi quando percebi que o sentimento de lealdade era só da minha parte”, diz. Diagnosticada com burnout, depressão e distúrbio alimentar, a profissional ganhou mais de 30 quilos antes de deixar a empresa. Muitas vezes, pulava refeições para trabalhar mais. “Eu não era mais a minha prioridade, fui para o fim da fila porque a empresa estava em primeiro lugar, e em segundo estava minha família cobrando atenção. Agora entendi que eu sou a minha prioridade número 1.”

CEGOS DE PAIXÃO

Um dos grandes problemas do amor excessivo pelo trabalho – que se transforma facilmente em exploração – é o fato de o profissional ficar cego para os prazeres que podem surgir de outras esferas da vida. “Se sou artista e me pedem para fazer arte o tempo todo, posso até gostar disso, mas estão me tirando da minha família, dos meus amigos, das outras paixões que eu possa ter”, afirma Troy, da Universidade de Oregon. A psicóloga Pamela completa: “É muito importante se dar conta de que você tem de tomar cuidado com quanta energia está gastando no trabalho, pois os demais setores também precisam de atenção”.

Essa cegueira impede a compreensão de que vários aspectos são importantes quando falamos de carreira – até mesmo o equilíbrio mental e o ganho financeiro. Apaixão pelo trabalho pode ofuscar, inclusive, a percepção de que a empresa está exigindo demais e pagando de menos. “Quando gostamos muito do que fazemos, queremos tanto aquele trabalho que até abrimos mão do dinheiro”, diz Mónica Barroso, diretora de aprendizagem da The School of Life Brasil e coach.

Mariana*, de 36 anos, sente isso na pele. Ela sempre sonhou em ser professora e conquistou seu objetivo ao ingressar em uma rede pública de faculdades técnicas do estado de São Paulo em 2016. Mas, por gostar da profissão, deixa que a instituição a explore. “Apesar da estabilidade do cargo, eu não tenho nenhum benefício nem hora extra e muitas vezes trabalho cerca de 12 horas por dia. Amo o que faço, mas isso está me prejudicando bastante, física e psicologicamente”, afirma. Até os alunos pedem para que ela trace limites mais fortes em relação à empregadora. “Por gostar do trabalho, acabo aceitando qualquer tipo de exploração. Criei vínculos afetivos com meus alunos e colegas. Preciso aprender a dizer ‘não’ e a superar esse amor que eu sinto.”

Impor limites é um ponto crucial para encontrar o equilíbrio (veja outros no quadro abaixo), mas talvez a questão fundamental seja compreender que nenhuma carreira vale a perda da saúde (física e mental) e da autoestima. Nesse processo de desintoxicação do trabalho abusivo, vale ouvir o conselho de Troy: “Não há justificativa para isso. As pessoas não precisam ser exploradas para se tornar bons profissionais”.

*Os nomes foram alterados a pedido das personagens para preservar a identidade.

COMO QUEBRAR O CÍRCULO VICIOSO?

Cinco conselhos para quem está se deixando explorar por gostar demais da profissão

1 – TENHA PAIXÕES FORA DO SERVIÇO

Pintar, cantar, bordar… Seja lá qual for sua paixão, é bom amar alguma coisa que não seja seu trabalho. “Você pode fazer algo de que goste sem ser sua principal fonte de renda. Eu fiz arte a minha vida toda e não ganhei dinheiro com isso. Sua paixão não precisa ser seu trabalho”, afirma Troy Campbell, professor na Escola de Negócios da Universidade de Oregon.

2 – IMPONHA LIMITES

Negar alguma coisa para os pares e líderes não é fácil, mas é necessário. “Falar ‘não’ dá a sensação de que estamos desagradando às pessoas, mas no fundo estamos apenas deixando de assumir uma carga que não é nossa”, diz Mônica Barroso, da The School of Life.

3 – DESLIGUE

Para desintoxicar da rotina de trabalho e descansar, é importante ter momentos sem nenhuma tarefa relacionada à profissão. Para isso, vale desligar o e-mail e o celular por alguns períodos. “Esse é o momento em que você vai fazer uma atividade que só dá prazer. Pode ser tocar um instrumento ou fazer um esporte. Tem de ser algo que o ajude a se conectar consigo mesmo”, afirma a psicóloga Pamela Magalhães.

4 – CONVERSE COM O CHEFE

Se você estiver acumulando multas atribuições e isso prejudicar sua vida fora do trabalho, vale conversar com a liderança sobre o assunto. Explique por que a quantidade de tarefas está afetando sua qualidade de vida e sua saúde mental e ofereça algumas soluções para equilibrar as atividades.

5 – PRESTE ATENÇÃO NOS SINAIS

Quando o estresse for muito alto ou quando você começar a sentir que está ansioso ou depressivo, procure ajuda. Um psicólogo pode auxiliar nesses casos. “Não negligencie isso só porque tem de entregar um trabalho. Busque avaliação com o profissional especializado”, diz Pamela.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DANÇA MORTAL

Conhecida desde a Idade Média, a doença de Huntington é causada por mutação genética. Manifesta-se principalmente em adultos e provoca dor, fraqueza, espasmos, perda de mobilidade e até problemas cognitivos.

A doença de Huntington é uma patologia genética rara: determinadas áreas cerebrais são destruídas progressivamente. Ela leva inevitavelmente à morte. Desde que a mutação genética causadora da doença foi descoberta, em 1993, a situação se modificou dramaticamente para os grupos de risco: após a maioridade, qualquer um pode realizar testes e saber anos ou décadas antes do surgimento dos primeiros sintomas se vai padecer da doença de Huntington no futuro. Pois esse teste genético fornece um resultado certeiro – todo portador da mutação será, cedo ou tarde, vítima da doença.

O teste de DNA é tão assertivo porque a doença é causada por um único fator genético, o gene da extremidade cromossomo número 4 é um pouco mais longo em pacientes com Huntington que em pessoas saudáveis. Tipicamente, nesse gene, os componentes do DNA citosina, adenina e guanina se sucedem repetidamente. Esse bloco CAG representa o aminoácido glutamina. Quanto mais vezes a combinação CAG aparece no DNA, maior a quantidade de glutamina no produto genético: a proteína também chamada huntingtina. Em um gene saudável, o bloco CAG se repete de dez a 30 vezes. Se, no entanto, ele aparece mais de 37 vezes, então as características da proteína huntingtina se modificam de forma decisiva: quanto maior o número de repetição do CAG no DNA, mais longa a cadeia de glutamina na proteína, mais cedo a doença de Huntington se manifestará e mais penoso será o seu desenvolvimento. Como é essencialmente hereditária – a mutação transmitida por apenas um dos pais já causa a doença – os riscos para parentes consanguíneos podem ser calculados com exatidão, 50% para os filhos, 25% para a geração seguinte.

Antes de realizar o teste de DNA, os consultores em genética humana do Centro Huntington da Universidade de Ruhr, Alemanha, procuram organizar a distribuição da doença na árvore genealógica da família a partir dos dados daqueles que os procuram. “Nossa avó se jogou na frente de um trem. Não deve ter sido acidente, conta Martin, que teve diagnóstico positivo, ao lado da irmã mais nova, Susanne. “E o pai de nossa avó, nosso bisavô, se tornou um pouco estranho com a idade.”

A mãe de Martin teve a doença, mas naquele tempo ainda não era possível confirmar o diagnóstico pela genética molecular. Martin e a irmã tomaram finalmente coragem para realizar o teste a fim de tirar a dúvida e planejar melhor sua vida pessoal e profissional. Susanne também é portadora da mutação.

Seus outros irmãos ainda não se dispuseram a fazer nenhum exame preventivo – por uma boa razão: o resultado do teste transforma pessoas fisicamente saudáveis em futuros doentes. Um teste de DNA, portanto, deve ser feito apenas depois de muita reflexão, pois uma vez que se conhece da predisposição genética, não se pode mais esquecê-lo.

Martin já apresenta os primeiros sintomas, como espasmos nos braços e nas pernas. Susanne permanece até agora sem manifestação, mas ela se pergunta se já não surgiram indícios inocentes que ela mesma não tenha percebido. A doença costuma se manifestar tipicamente entre os 35e 45 anos e pode se desenvolver de formas muito diferentes mesmo entre parentes próximos. Sendo assim, irmãos podem padecer de Huntington em diferentes idades. No caso do filho de Martin,

ninguém queria ou conseguia acreditar – nem mesmo os pediatras que o acompanhavam – que o menino já pudesse manifestar os primeiros sinais da doença antes dos 10 anos.

As crises de dor, a fraqueza muscular e as inexplicáveis dificuldades de movimentação foram atribuídas a outras causas. Após seis anos da doença, o teste de DNA revelou doença de Huntington infantil causada por um gene huntingtina extremamente longo, com desenvolvimento atípico.

Mas por que a doença ataca em fases tão diferentes da vida? Através de exames em pacientes, já conseguimos comprovar que, além da mutação do gene huntingtina, outros fatores hereditários também influenciam. Assim, existem no cérebro diversas variações das chamadas proteínas receptoras que produzem o transmissor glutamato assegurando, dessa forma, a emissão das informações entre as células nervosas. De acordo com a variante desses receptores, a doença se manifesta mais cedo ou mais tarde.

HISTÓRICO DA DOENÇA

Essa moléstia é conhecida há séculos. Na Alemanha da Idade Média, os “dançarinos exagerados” peregrinavam até a Veitskapelle (capela de São Vitus), em Ulm, na esperança de serem curados – dando assim o nome à doença “Chorea Sancti Viti” ou “Dança de Veit”. Em 1872, o jovem neurologista americano George Huntington (1851-1916) descobriu que se tratava de uma doença hereditária. Junto com seu pai, ele acompanhou o destino de uma família afetada em Long Island e conseguiu diferenciar claramente a doença da “Chorea Minor”, uma infecção por estreptococo de sintomas semelhantes. A tríade clínica descrita por Huntington – hereditariedade, tendência a distúrbios psíquicos e surgimento em idade adulta – ainda hoje é considerada típica da moléstia que recebeu o seu nome.

O sintoma que lhe dava o nome originalmente (do grego chorea, “dança”) refere-se aos movimentos “dançantes” exagerados dos membros como uma das suas características mais frequentes e marcantes. No início, os pacientes tentam disfarçar os espasmos abruptos como se fossem um sinal de embaraço, balanço de cabeça ou dar de ombros, ou procuram integrá-los a movimentos voluntários. Mas, pouco a pouco, a pessoa perde o controle da musculatura e faz caretas repentinas. Falar e engolir se tornam tarefas difíceis.

Em estágio avançado, as sequências de movimentos se tornam mais lentas e o tônus muscular elevado provoca a paralisia dos membros numa contração dolorosa. Os diversos sintomas, que vão muito além da “dança”, substituíram a denominação “Coréia Huntington”, por “doença de Huntington”.

Também são características graves distúrbios psíquicos, que antecedem em anos, às vezes em décadas, os sintomas motores. A própria doença pode provocar episódios de depressão – mas, antes, o stress dos pacientes causado pelo resultado positivo do teste eventualmente leva a variações de humor. Muitas vezes, os parentes percebem mudanças na pessoa afetada: eles passam a se comportar de forma paranoica, tiranizam os que estão à sua volta com ciúmes injustificados ou reagem com uma agressividade exagerada para situações insignificantes.

EFEITOS DELETÉRIOS

Eles falam durante dias e semanas sobre coisas irrelevantes, importunando a família e, não raramente, rompendo ligações sociais. A capacidade cognitiva dos pacientes se reduz, sua memória já não funciona bem e eles têm cada vez mais dificuldade de concentração. A doença se transforma por fim em grave demência com total desamparo. Os distúrbios psíquicos podem ter rapidamente efeitos catastróficos sobre a vida pessoal e profissional, sem descartar tentativas de suicídio – algumas vezes até com uma brutalidade fora do comum.

Em compensação, a patologia é bastante rara: na Europa estima-se que há 45 mil afetados e, na América do Norte, 30 mil. Na Alemanha, uma em cada 10 mil pessoas tem Huntington, mas há pelo menos 6 a 8 mil com a mutação genética, e a quantidade de portadores desconhecidos deve ser considerável: a estigmatização social e mesmo a onda de eutanásia que houve durame o período do nazismo têm como efeito o silêncio de muitas famílias sobre doenças hereditárias – muitas vezes com consequências desastrosas para as gerações seguintes.

Apesar da raridade, a doença de Huntington é modelo para várias outras doenças degenerativas – inclusive para males mais frequentes e conhecidos como Parkinson ou Alzheimer. A doença causa a destruição de neurônios em uma parte do cérebro chamada núcleo estriado ou striatum, que produz o neurotransmissor GABA. A redução de liberação desse neurotransmissor determina os movimentos involuntários e a degeneração mental progressiva.

Desde a descoberta do gene huntingtina os cientistas já adquiriram conhecimentos exemplares a respeito dos mecanismos que levam à destruição das células nervosas. Como a proteína huntingtina é a única causadora da doença, ela é perfeita para o estudo dos processos causadores.

A huntingtina em si não é uma proteína “má”. Em animais vertebrados, ela é aparentemente essencial para o desenvolvimento embrionário, pois ratos knock-out, alterados geneticamente para ter o gene huntingtina silenciado, morrem já em estágio embrionário. Supõe-se, porém, que a proteína huntingtina de comprimento anormal se conecte a outras proteínas importantes para a sobrevivência da célula, prejudicando, assim o seu funcionamento.

São afetados por esse processo, por exemplo, os chamados elementos reguladores de transcrição – proteínas que asseguram a leitura ordenada da informação genética. Se a huntingtina, com a sua cadeia alongada de poli glutaminas, se liga a um desses reguladores de transcrição, a atividade genética da célula é sensivelmente prejudicada; a regulação da síntese de proteínas entra cm colapso. Cenas proteínas que eliminam neurotransmissores, como o glutamato, se instalam nas sinapses. Se essas proteínas falham, devido a um defeito no processo de síntese, então sobra glutamato na sinapse que estimula constantemente a célula conectada, a qual é então prejudicada. Tal modelo de toxicidade fatal pôde ser comprovado em experiências com animais: as células nervosas de ratos morreram depois que foi injetada quinolina nos animais substância que age como o glutamato. Os roedores apresentaram sintomas típicos da doença de Huntington.

Há cada vez mais indícios de que huntingtina participa da comunicação entre as células nervosas. Pois uma proteína ligada à huntingtina chamada HIP1 (Hunting-Interacting Protein 1) regula, junto com outras proteínas existentes na membrana celular, a distribuição, assim como a reassunção dos transmissores celulares. Devido à sua longa cadeia de poli glutaminas, a proteína huntingtina anormal não consegue mais se conectar corretamente à HIP1 – com consequências fatais: a HIP1, então desimpedida, entra com a proteína HIP-PI (HIP Protein Interactor) um complexo que dá início a uma cascata de enzimas. Entre vários outros processos, esse complexo ativa as chamadas caspases que, por sua vez, dão início à morte celular programada, a apoptose. A cascata provocada leva, assim, as células nervosas ao “suicídio”.

Devido à longa cadeia de poli glutaminas, a huntingtina corrompida é copiada de forma errada. Quando isso ocorre, entram em ação certas enzimas chamadas chaperonas (de chaperon, ou acompanhante em inglês) que tem como tarefa, assim como as “damas de companhia”, consertar ou eliminar proteínas com defeito. Para tanto, elas transportam as proteínas defeituosas para o núcleo da célula e as decompõem.

COMUNICAÇÃO FALHA

Realmente, podem ser encontrados corpúsculos incrustados nos núcleos de neurônios prejudicados com partículas da huntingtina modificada. Com o desenvolvimento da doença, a quantidade desses pedaços de proteínas aumenta e, por fim, elas podem ser encontradas até mesmo fora do núcleo celular. Ainda não se sabe se as próprias partículas são as causadoras da doença ou se esta seria uma tentativa desesperada, mas fracassada, das células de eliminar os fragmentos de proteína soltos.

Uma outra teoria parte do princípio de que a huntingtina defeituosa atrapalha a transferência de energia das células nervosas. Pois foi possível observar que diferentes membros da cadeia respiratória das mitocôndrias, espécie de “usina energética” da célula, não funcionam mais corretamente. A falta de energia causada por esse fenômeno acaba levando à morte da célula.

E o que se pode fazer contra essa destruição fatal? A resposta é desanimadora: pouco, pois as opções medicamentosas até agora se limitam a combater os sintomas. Portanto, os neurologistas utilizam os chamados neurolépticos, como a tiaprida e a tetra benzina. Originalmente desenvolvidos para o tratamento de psicoses esquizofrênicas, um de seus efeitos colaterais indesejáveis é a redução da capacidade motora dos pacientes- efeito desejável no caso dos afetados pela doença de Huntington.

Os médicos procuram combater os distúrbios psíquicos de seus pacientes com antidepressivos, sedativos ou neurolépticos antipsicóticos. Contra a perda da capacidade intelectual ainda não existe nenhum remédio eficaz.

Enquanto isso, vários grupos de estudo do mundo todo tentam atacar o mal pela raiz: eles procuram substâncias que desacelerem ou mesmo interrompam a decadência dos neurônios. Um exemplo de tais substâncias neuro protetoras são os chamados antagonistas de glutamato, os quais influenciam a liberação do glutamato. O Riluzol, por exemplo, já se mostrou eficaz no tratamento de uma outra doença grave e de desenvolvimento acelerado do sistema nervoso, a esclerose lateral amiotrófica. A substância está sendo testada clinicamente em 450 pacientes de Huntington em um estudo que abrange toda a Europa.

DOCE ALÍVIO

A minociclina, um antibiótico que era usado originalmente contra acne, também traz esperanças.  Ela inibe as caspases, enzimas que causam a morte das células nervosas. O grupo de trabalho de Robert Friedlander, da Escola Médica de Harvard, em Boston, conseguiu, em 2003, interromper assim o avanço dos sintomas de Huntington em ratos.

Outras substâncias, por sua vez, conseguem impedir a aglutinação da proteína huntingtina. A trehalose, açúcar existente em plantas desérticas, por exemplo, promete um “doce alívio”, também em ratos, pesquisadores coordenados por Motomasa Tanaka, do Instituto Riken, em Wako, Japão, conseguiram com isso bloquear a aglutinação da proteína e o início da doença.

Médicos tentam também interferir na transferência defeituosa de energia das células através de substâncias como a coenzima Q e a creatina. A coenzima Q coleta radicais livres de oxigênio na forma de antioxidantes, enquanto a creatina, produzida no fígado e nos rins, funciona como depósito de energia nos músculos e no cérebro. Nesse caso, as experiências com animais também obtiveram sucesso, mas a comprovação de sua efetividade em seres humanos, bem mais cara e demorada, ainda não existe. E, por fim, ainda estão sendo testados medicamentos contra tumores como o fenilbutirato, que deve reabilitar a síntese de proteína, prejudicada pela huntingtina anormal.

Paralelamente a tais estudos farmacológicos, há experiências com terapia genética. Em 2005, cientistas coordenados por Scott Harper, da Universidade de Iowa, conseguiram impedir a leitura do gene huntingtina transmutado. Para tanto, os pesquisadores injetaram no cérebro de animais curtos trechos de RNA exatamente idênticos ao RNA que deveria ser produzido para a proteína huntingtina transformada e que, então, a bloqueavam. Os roedores passaram a produzir uma menor quantidade da proteína que provoca a doença – e a produção da huntingtina saudável não foi influenciada.

Pesquisadores depositam também esperanças nas células-tronco. No ano 2000, Anne-Catherin Bachoud Levi e seus colegas do Centro Hospitalar Universitário Henri Mondor, em Crétel, França, implantaram em pacientes com Huntington células-tronco neurônicas de fetos abortados na esperança de que substituíssem as células cerebrais destruídas. Três anos mais tarde, cientistas coordenados por Robert Hauser, da Universidade do Sul da Flórida, em Tampa, realizaram uma experiência semelhante. Alguns pacientes responderam bem ao tratamento, porém outros sofreram hemorragia cerebral e seus sintomas chegaram mesmo a piorar. Todos os pacientes tiveram de utilizar medicamentos para impedir a rejeição das novas células. E os efeitos de longo prazo do tratamento ainda não são conhecidos.

Portanto, para Martin ainda não existe uma substância que impeça a evolução impiedosa de sua doença. Porém, nunca foram abertas tantas novas possibilidades nas investigações sobre ela. Os cientistas e clínicos europeus se preparam para realizar grandes estudos e já participam do Euro Huntington’s Disease Network (Rede Europeia da Doença de Huntington) a fim de trocar informações e coordenar melhor grandes estudos. Várias pessoas do grupo de risco e afetadas pela doença estão dispostas a participar de tais estudos – sem elas, não seria possível alcançar o seu objetivo. Talvez Martin também consiga encontrar um caminho para lidar com sua doença de forma mais eficaz.

REPETIÇÃO FATAL

No cromossomo 4 está o gene huntingtina no qual o código estrutural do aminoácido glutamina – que é parte integrante da proteína huntingtina – se repete diversas vezes. Se houver mais que 37 repetições, a doença se manifesta.

A destruição do SNC Pela doença de Huntington ocorre predominantemente no striatum, uma região bem interna do cérebro que faz parte de uma estrutura conhecida como gânglios da base. O núcleo estriado está inteiro e saudável em pessoas que morreram por outras causas (esquerdo) e se mostra retraído no cérebro de pessoa com a doença (direito).

OUTROS OLHARES

VIVA A DIFERENÇA

Aos 82 anos, pela primeira vez, Jane Fonda apareceu de cabelos brancos e foi celebrada por atrizes e cantoras que descolorem as madeixas. Até os homens aderiram a esse manifesto de individualidade

Homens envelhecem, os cabelos ficam brancos e tudo bem. Mulheres, não. Aquelas que aparecem em público sem mechas tingidas costumam ser classificadas em três tipos: 1) a muito, muito idosa; 2) alguma estrangeira esquisita, geralmente europeia; e 3) a desleixada, que pouco liga para a aparência. Pois nesse ambiente hostil a cabeça branca feminina vem florescendo nos últimos tempos, impulsionada por jovens famosas que – vai entender – passam horas no salão embranquecendo os cabelos. Dessas garotas ousadas partiram os maiores elogios à atitude de Jane Fonda, atriz e ativista muito cool: ela entrou no palco do Oscar, para apresentar a categoria de melhor filme, com as madeixas, pela primeiríssima vez, no tom natural de seus 82 anos. “A opção pelo branco, como tudo que é moda, tem a ver com o momento. E o atual é de reforço à individualidade”, diz a jornalista de moda Erika Palomino.

A cabeleira embranquecida à força teve seu momento de glória nas cortes europeias por obra do rei Luís XIII, da França. Em meados do século XVII, ele passou a usar uma volumosa peruca para esconder a calvície precoce, no que foi imediatamente copiado pela elite e, na sequência, por soberanos e aristocratas de outros reinos. As nobres perucas, usadas por homens e mulheres, eram generosamente polvilhadas com farinha perfumada por motivos muito práticos: afastar piolhos e disfarçar o mau cheiro. Já a cabeleira branca do século XXI (quando não é natural, claro) exige uma média de quatro horas nas mãos do tinturista e, sim, uma certa força de vontade. “Quimicamente, é um dos nossos trabalhos mais agressivos”, avisa a cabeleireira Carla Morta, do Rio de Janeiro.

Aplica-se o descolorante em duas partes: primeiro nos fios, depois na raiz. “Ela descolore mais rápido”, explica o cabeleireiro Fernando Torquatto. É nessa segunda etapa que o couro cabeludo mais sensível se rebela – a cabeça esquenta e arde conforme o tempo que os fios levam para passar do amarelo ao branco total. “Por fim, aplica-se um tonalizante para reforçar o tom perolado”, diz Torquatto. O cabelo descolorido não deve ser lavado todo dia e não se dá bem com piscina, pois o cloro pode deixá-lo esverdeado. Também requer cuidados em casa.

A cantora Katy Perry foi uma das primeiras a aparecer de cabelo curtinho e branco, desencadeando um movimento em que embarcaram famosas como Jennifer Lawrence, Kristen Stewart e, obviamente, Kim Kardashian, que não ia deixar a onda passar sem mergulhar nela. Bruna Marquezine descoloriu os fios para pular o Carnaval de 2019. A cantora pernambucana Duda Beat, de 32 anos, branqueou as mechas, mantendo a raiz escura, há três anos e nunca mais voltou ao castanho original. “Resolvi fazer porque não tinha nenhuma cantora loirona no Brasil”, diz ela, que retoca a cor a cada quinze dias. “É trabalhoso, mas vale a pena”, garante. O branco também (des) colore a cabeça de homens, como o jogador Gabigol, o surfista Pedro Scooby e – prova de sucesso –   o personagem Ryan, de Amor de Mãe, vivido pelo ator Thiago Martins. “Cabelo artificialmente branco é uma forma de se sentir diferente”, diz a especialista Erika. Até todo mundo imitar e aí chegar a hora de inventar outra moda.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 24 DE MARÇO

JESUS NA CASA DE MISERICÓRDIA

Passadas estas coisas, havia uma festa dos judeus, e Jesus subiu para Jerusalém (João 5.1).

Jesus vai ao tanque de Betesda, onde havia vários enfermos. Dizia-se que, de quando, um anjo descia ao tanque e a primeira pessoa que chegasse às águas seria curada do mal que lhe afligia. Nesse cenário de dor, Jesus identifica um homem paralítico abandonado à própria sorte havia 38 anos. Jesus faz-lhe uma pergunta maravilhosa: Queres ser curado? (v. 6b). Essa pergunta parece óbvia demais. É natural que um doente queira ser curado. Mas por que Jesus perguntou? Para que o paralítico pudesse expor suas angústias. O homem, em vez de responder sim ou não, replica com uma evasiva: Não tenho ninguém (v. 7b). Jesus, então, lhe dá uma ordem poderosa: Levanta-te, toma o teu leito e anda (v. 8b). O mesmo Jesus que dá a ordem também dá o poder para cumpri-la. Imediatamente, o homem se viu curado e, tomando o leito, pôs-se a andar (v. 9a). Não há doença incurável para o Médico dos médicos. Não há vida irrecuperável para Jesus. Ele cura, liberta, perdoa e salva. Talvez você esteja vivendo o drama do abandono, com a esperança morta, amassado emocionalmente, à espera de um milagre que se adia. Hoje mesmo Jesus pode mudar a sua sorte e dar a você paz e salvação eterna.

GESTÃO E CARREIRA

PEQUENO SÓ NO NOME

Conheça o Microlearning, o novo jeito de ensinar (e aprender) que está transformando a educação corporativa

“Há três anos notamos uma mudança significativa no perfil de nossos funcionários e percebemos que os métodos tradicionais de treinamento não faziam mais sentido para eles. O conhecimento se perdia”, diz Márcia Costa, vice-presidente de RH da C&A Brasil. Por métodos tradicionais entenda-se: treinamentos longos, com aulas, workshops, palestras e dinâmicas em grupo, pausas para almoço e coffee break entre as atividades.

Com média de idade de 25 anos, a varejista tem um número considerável de jovens da geração Z. Foi essa constatação que fez a empresa reformular toda a sua universidade corporativa, chamada de Academia da Moda. Há dois anos, a C&A passou a treinar as pessoas utilizando ferramentas de microlearning (ou microaprendizado). A solução consiste em sintetizar e fragmentar os assuntos para que possam ser consumidos – e, sobretudo, assimilados – de forma rápida. São vídeos, podcasts, tutoriais, textos e jogos que compõem o conteúdo e podem ser apreciados em, no máximo, 8 minutos. “Dá para estudar no ônibus, no metrô e até mesmo nas pausas para o café”, diza executiva de RH.

Essa forma de disseminação do conhecimento, mais modular e em multiformatos, desponta como a favorita na emergente economia 4.0. E há razões, inclusive científicas, para isso. Uma pesquisa publicada em 2018 no International Journal of Educational Research Review comparou resultados de aprendizagem de dois grupos de jovens alunos. A conclusão? O pessoal que usou microlearning apresentou aprendizado 18% melhor do que aquele que viu o conteúdo da maneira tradicional. Segundo os pesquisadores, o conhecimento adquirido de maneira compartimentada tende a permanecer na memória por períodos mais longos.

Seguindo essa linha, o psicólogo alemão Hermann Ebbinghaus criou o conceito de “educação espaçada” e demonstrou que o processo de aprendizado é melhor quando a mesma quantidade de estudo é dividida por diferentes períodos de tempo.

Mas isso não significa que pequenas pílulas de informação, sozinhas, sejam suficientes. “O modelo que mistura atividades online, presenciais e em grupo ainda é o melhor. A interação com professores e colegas é insubstituível, afinal, trabalhamos com humanos e fazemos negócios entre pessoas”, diz Adriano Mussa, especialista em educação e inteligência artificial pela Columbia University e reitor da escola brasileira de negócios Saint, Paul. Mari Achutti, CEO da escola de educação corporativa Sputnik, corrobora a preferência do mercado pelos modelos mistos. “A maioria das companhias pede uma parte presencial aliada ao microlearning”, diz ela, que em sete anos já capacitou mais de 10.000 alunos em cerca de 90 empresas, como Google, Facebook, Coca-Cola, Nike e Ambev.

Na Academia da moda, além das chamadas “pílulas de conhecimento”, que separam o conteúdo em micromódulos de diferentes formatos, existe a parte presencial, que é conduzida por um funcionário treinado e mais experiente, sempre dentro das lojas. “Os instrutores seguem scripts e já sabem de antemão as dúvidas mais comuns que surgem em cada tipo de conteúdo”, explica Márcia, da C&A. De acordo com ela, os resultados desse tipo de capacitação se refletem em custos menores – o investimento maior é na implantação da plataforma de microlearning; os gastos com manutenção e atualização são baixos – e melhor percepção dos clientes. Embora não revele números, ela diz que indicadores como qualidade no atendimento das lojas e velocidade das ruas melhoraram muito após a implementação do novo conceito.

Os preços para um programa de treinamento variam muito. Projetos de capacitação custam entre 28.000 e 500.000 reais, dependendo do tipo, da abrangência, do tempo de duração, do conteúdo, do número de alunos, entre outras variáveis. Entre as vantagens de um sistema de microlearning estão os ganhos de escala para a companhia e a facilidade de acesso para os funcionários.

Isso porque os treinamentos presenciais impõem limites físicos: nem todos os funcionários podem estar presentes naquele dia e horário. Empresas dispersas geograficamente, como grandes varejistas, e as organizações com equipes de vendas externas se beneficiam desse modelo.

MODO DE USAR

Não há consenso sobre a origem do conceito microlearning, mas um dos primeiros livros que mencionam a palavra é de 1953, The Economics of Humans Resources, do pesquisador equatoriano Hector Correa. No entanto, o termo não tinha a conotação de hoje. O sentido atual só teve impulso após o advento dos smartphones e, mais precisamente, depois do Lançamento do primeiro iPhone (em 2007), o celular inteligente e intuitivo que influenciou todos os demais modelos subsequentes. A internet na palma das mãos possibilitou uma nova compreensão do aprendizado. Mas o conceito só explodiu mesmo após o Google popularizar em 2013 a ideia de “micromomento”, em que alguém acessa um desses dispositivos para uma necessidade real: “conhecer, ir, fazer ou comprar”.

Foi um pulo até a ideia chegar à educação corporativa. Afinal, o microlearning nada mais é do que um micromomento reservado para o aprendizado. “Não é um modelo teórico, tampouco é modismo. É algo do mundo atual, dinâmico e tecnológico, que exige soluções rápidas, eficientes e flexíveis”, diz Tatiana Iwai, coordenadora do núcleo de comportamento organizacional e gestão de pessoas do lnsper. Para Adriano Mussa, da Saint Paul, o novo formato de escudo subverte paradigmas da educação. Antes, a condução do aprendizado era feita pelos professores e pelas escolas. Hoje, “o controle remoto está nas mãos do aluno, que pode pular de um conteúdo para outro, avançar, retroceder para revisar, dar pausa e prosseguir”. Esse protagonismo exercido pelos estudantes é ótimo para o dia a dia corporativo, onde as pessoas têm horários, responsabilidades e demandas diferentes umas das outras.

Um levantamento da PwC mostrou que 80% dos trabalhadores afirmam não conseguir realizar tudo o que gostariam no âmbito profissional. É nessa escassez de tempo que o microlearning cresce como alternativa de aprendizado fragmentado e assíncrono, encaixado com menos estresse no dia a dia de trabalho. “As novas gerações já se atentaram para a importância da formação continua. São mais voláteis e não estão dispostas a trabalhar em uma única empresa a vida toda, como os pais fizeram. Eles mudam de emprego, de carreira e até de área. Se não estudarem, é impossível fazer isso”, diz Erika Braga, diretora de recursos humanos da PwC Brasil. Até pouco tempo atrás, um bom MBA era um “estoque de competências”, no jargão acadêmico. Hoje, para muitas áreas, ele já não é mais suficiente. “O reskilling (requalificação) e o entendimento de lifelong learning (aprendizado ao longo da vida) ganharam força com as novas tecnologias, que são atualizadas o tempo todo”, afirma Adriano, da Saint Paul. O que é novo hoje, no ano que vem já se tornou obsoleto.

Um bom exemplo da velocidade das mudanças está estampado numa pesquisa do Fórum Econômico Mundial, divulgada no mês passado em Davos, na Suíça. No futuro, estima-se que 42% das habilidades básicas necessárias para a execução dos trabalhos existentes sejam diferentes das atuais. O “futuro” ao qual a elite do capitalismo global se refere é daqui a dois anos, 2022.

O texto menciona que “o mundo está enfrentando uma emergência de requalificação” e defende uma “revolução” no setor educacional, com foco nas sete áreas que mais vão crescer: cuidados humanos (assistente social 2.0, psicólogos, médicos e cuidadores de idosos); engenharia e computação em nuvem; marketing e produção de conteúdo; inteligência artificial; sustentabilidade; cultura e educação; e gestão de projetos.

NÃO É SÓ TECNOLOGIA

Tatiana, especialista do lnsper, explica que microlearning é antes de tudo uma plataforma e, portanto, não dá para dissociá-lo da tecnologia. No entanto, ainda mais importante que a forma, é o conteúdo. Éaí que reside o perigo para as empresas que estão em busca de modernizar seus processos de capacitação e desenvolvimento de equipes.

Por isso, antes de sair contratando sistemas de treinamento, o mais indicado para companhias, sejam elas de pequeno, grande ou médio porte, é saber exatamente quais são os objetivos almejados. A área de recursos humanos, em especial, deve questionar: quais são os propósitos da empresa, desenvolver soft skills ou ensinar hard skills? Precisamos qualificar lideranças? Ou disseminar a cultura corporativa aos mais jovens? O primeiro passo é desenhar o projeto, avaliando as necessidades específicas e a cultura da companhia. Isso ajuda a definir qual é o tipo de formato e quais são as soluções para os desafios encontrados. Muitas vezes, basta um ajuste fino, uma edição ou a troca de plataforma. Como a transmutação de um livro em PDF de 150 páginas para dois vídeos, um game e três textos de dez páginas, por exemplo.

Apesar de alguns treinamentos serem obrigatórios, corno os de compliance, não existe uma regra fixa. Cada companhia deve se ater à sua realidade operacional e de mercado. Ou seja, o momento atual exige customização. E, nesse contexto, os líderes de equipes têm papel preponderante na capacitação, pois convivem diariamente com as equipes e conhecem as deficiências e qualidades de cada uma.

Armando Lourenzo, reitor no Brasil da EY University, da Ernst & Young, conta que há um coordenador responsável só para fazer auditorias internas e verificar as necessidades educacionais de cada time. Ele avalia de projetos a demandas pessoais, satisfazendo as necessidades da companhia e os anseios específicos dos profissionais. A universidade corporativa da multinacional funciona desde 2010, mas adotou o microlearning em 2016, depois que Armando esteve em um evento nos Estados Unidos e viu como o modelo funcionava e agradava aos colaboradores de lá. Na grade da EY University há cursos mandatórios e optativos, todos com certificações. Os obrigatórios são os mais técnicos, que fazem parte da trilha de aprendizagem dos trabalhadores, conhecimentos que eles precisam saber para suas funções. Já os facultativos abordam temas variados, como empreendedorismo interno, gestão, liderança, marketing e outros. Os módulos de ambas as modalidades duram de 3 a 5 minutos e todo o treinamento obrigatório é aliado à experiência, com projetos para praticar o conteúdo estudado. “Fazemos também curadoria de livros e indicações de leituras para quem quiser se aprofundar em determinados assuntos”, diz.

Com 20 anos de atuação no Brasil e cerca de 5.000 colaboradores em 12 cidades, a EY construiu uma série de saberes internos, depurou práticas e protocolos. Todo esse conhecimento é aproveitado na EY University, que tem a maioria dos conteúdos feitos por profissionais da casa e outra parcela elaborada em colaboração com parceiros externos, como a Fundação Dom Cabral.

Mesmo os treinamentos técnicos globais obrigatórios da matriz americana são customizados para o público brasileiro.

Para analisar a aderência dos conteúdos, a empresa aplica provas avaliando os principais pontos do assunto apresentado. E também relaciona teorias a casos práticos ao final de cada curso ou treinamento. “Os resultados são muito bons. A média das notas das trilhas obrigatórias é altíssima, os funcionários se dedicam para progredir mais rápido na carreira”, afirma Armando.

DE OLHO NA EFICÁCIA

Essas ações de monitoramento e a aferição de resultados devem fazer parte da rotina nas capacitações. A professora Tatiana, do lnsper, recomenda atenção na fase das pesquisas de satisfação, quase onipresentes depois de cursos, eventos corporativos e palestras. “Estar satisfeito não significa que aprendeu. Satisfação com o curso ou com o palestrante, não se traduz em desempenho e faturamento. O que gera resultados é o maior conhecimento sobre determinado assunto”, pondera.

Além do básico – como número de pessoas que completaram o treinamento e tempo médio gasto em cada atividade -, hoje é possível analisar detalhes bem específicos, de acordo com a necessidade de cada empresa. Isso porque a maioria dos fornecedores de tecnologia e soluções educacionais de microlearning oferece métricas para medir a eficiência dos treinamentos.

Dá para saber, por exemplo, o custo médio em treinamentos gasto por empregado, mensurar se houve avanços nas avaliações de desempenho (feitas entrapares ou pelos gestores) e avaliar se teve uma diminuição no tempo médio de execução de uma determinada tarefa após a qualificação oferecida. Há casos, segundo fontes de mercado, em que as pílulas de informações fizeram as vendas subir até 30%. O ganho, que é considerável para os negócios, também se reflete nas pessoas, que têm a chance de se capacitar, melhorar a performance e aumentar a própria empregabilidade.

OS PILARES DO MICROLEARNING

MENOS É MAIS

Conteúdo de qualidade fragmentado e enxuto é muito eficaz na aprendizagem. Textos são mais leves e diretos; vídeos e podcasts, mais curtos e focados, gráficos, planilhas e dados são usados apenas quando são indispensáveis, mas sempre com uma apresentação agradável.

PROTAGONISMO DOS ALUNOS

Estuda-se quando, como, onde e por quanto tempo preferir. De frente ao computador ou apenas com o celular nas mãos e fones nos ouvidos, os colaboradores tornam-se gestores de seu desenvolvimento profissional e aprendem em seu próprio ritmo. O protagonismo fomenta engajamento e comprometimento.

CUSTOMIZAÇÃO

Altamente pessoal e personalizável, um projeto de microlearning pode oferecer saberes específicos para cada equipe, departamento, níveis hierárquicos ou mesmo para cada profissional. Pode também portar-se como um hub de aprendizado, com conteúdos de diversos assuntos disponíveis para os empregados escolherem.

ESCALA

A tecnologia possibilita que um mesmo conteúdo possa ser visto e revisto por um número indefinido de pessoas. Os materiais armazenados em nuvem também são mais fáceis de ser constantemente atualizados e consultados.

MENSURÁVEL

Dá para acompanhar, aferir e medir praticamente tudo. Conteúdos que mais e menos agradam; formatos preferidos; resultados de testes de acordo com o cargo que cada funcionário ocupa; efetividade dos treinamentos; reflexos nos custos, vendas e faturamento; entre outras possibilidades.

É CIENTÍFICO

De acordo com uma pesquisa veiculada no Journal of Applied Psychology, publicação mensal da American Physiological Society, os benefícios do microlearning são:

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O GÊNERO DO JOGO

Os games são caracterizados como uma das formas contemporâneas de desdobramento da cibernética com a interação entre homem e máquina, como também entre homens através da máquina

O jogo é um fenômeno humano por excelência, é simbólico, se encontra em uma língua própria de sentidos. Segundo o autor, o jogo é visto como abertura ao mistério, ao inteligível e ininteligível, tensão permanente, luta inconstante entre o real e o imaginário. Por fim, o pesquisador relata que o jogo é muito sério para quem joga. Tal seriedade decorre do fato de que, no processo da prática do jogo, o jogador vai revelando a si próprio aspectos como medos, ousadias, incertezas, coragem e covardia. Por essas definições, com uma resposta tão plural de interpretações e sensações em relação aos jogos eletrônicos, é esperado que cada jogador apresente algumas preferências quanto ao tipo de jogo que utiliza.

Os jogos são comumente divididos em gêneros, para facilitar ao público que compra esses produtos que se familiarize com o que está sendo vendido. Assim como para filmes, há diversos gêneros para os jogos eletrônicos. Os mais comuns são ação, shooter (os famosos jogos de tiro, que podem ser do tipo FPS, ou seja, tiro em primeira pessoa), aventura, simuladores,  role-playing game (RPG, jogos nos quais o usuário utiliza um avatar num universo de múltiplas possibilidades), estratégia, corrida e esportes. Todos eles apresentam as subcategorias, que não são o escopo da matéria. Porém, torna-se importante mencionar rapidamente características de alguns desses gêneros.

AÇÃO: não é simples categorizar os jogos de ação, tendo em vista que quase todos os gêneros apresentam aspectos de movimentações frenéticas e cenas de impacto ou violência. Os jogos de ação são caracterizados, prioritariamente, por requererem do jogador elevada habilidade de reflexo devido ao número exorbitante de informações e movimentos na tela. Normalmente dão ênfase ao combate.

SHOOTER: são, a princípio, os títulos que apresentam maior quantidade de ação. Contudo, devido a sua especificidade, possuem uma categoria própria. São classificados como jogos em que a visão do jogador é a mesma do personagem controlado. O usuário observa apenas a arma que possui em suas mãos e o ambiente ao seu redor, junto aos inimigos com os quais irá se defrontar, simulando-se o mais fielmente possível a visão que o jogador teria caso estivesse naquele cenário.

ROLE-PLAYING GAME (RPG): jogo em que envolvem, em sua maioria, histórias nas quais o personagem tem opções do que deve fazer, moldando, assim, o funcionamento de acordo com seus interesses. Em alguns casos, há a possibilidade de finais diferentes. É possível tornar o personagem mais forte e habilidoso à medida que vai vencendo batalhas, diferentemente de diversos outros gêneros, que possuem uma forma linear neste sentido, poia não permitem sua evolução.

Com múltiplos gêneros de jogos eletrônicos e diversas probabilidades de escolha, será que alguns predispõem o usuário a maiores problemas psicológicos do que outros? Na minha prática clínica, o gênero mais mencionado é o “arena de batalha multijogador on-line,” (MOBA). Porém, os jogos de MMORPG (jogos de RPG que apresentam servidores com um número elevado de jogadores) e FPS são constantemente mencionados pelos pacientes.

Na et ai. (2017) realizaram um estudo com 2.923 participantes que comumente utilizavam jogos eletrônicos. Dos diversos gêneros associados ao uso patológico de games, aqueles relacionados ao MMORPG e FPS estavam vinculados com maior frequência ao transtorno do logo pela internet.

Park, Han, Kim, Cheong e Lee (2016) construíram estudo semelhante analisando 212 pacientes com uso problemático de jogos eletrônicos on-line. Os jogadores foram divididos em quatro grupos: a) MMORPG; b) Estratégia em tempo real (RTS), c) FPS; e d) outros. Os sintomas foram analisados por oito escalas e dois testes relacionados a autoestima, impulsividade, comorbidades, status de interação social e função cognitiva. Os resultados demonstraram que o nível de ansiedade social era mais elevado no grupo de jogadores de MMORPG, porém os outros fatores não mostraram relação de maior predomínio com outros gêneros de jogos eletrônicos.

Ao longo de anos pesquisando a temática, os jogos considerados como potencialmente aditivos para aqueles vulneráveis cognitivamente são aqueles que necessitam da internet para seu funcionamento. Tais jogadores comumente apresentam sintomatologia condizente com outros transtornos psiquiátricos, como transtorno de ansiedade social e transtorno depressivo maior. Apesar de não ser obrigatória a existência de comorbidades, o jogador busca refúgio (escapismo) e interação social no mundo virtual, por ser menos desafiador nas habilidades sociais (não há interação face a face) e por se sentirem mais bem-aceitos nesse ambiente.

IGOR LINS LEMOS – é doutor em Neuropsiquiatria e Ciências do Comportamento pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e especialista em Terapia Comportamental Avançada pela Universidade de Pernambuco (UPE). É psicoterapeuta cognitivo-comportamental, palestrante e pesquisador das dependências tecnológicas. E-mail igorlemos87@hotmail.com

OUTROS OLHARES

TOMARA QUE NÃO CAIA

No rastro do politicamente correto, uma campanha propõe chamar de “blusa sem alça” a icônica peça feminina consagrada há quase oitenta anos. Motivo: seu apelido original seria “sexista”

Os seguidores – em especial as seguidoras – do “politicamente correto” advertem: o “tomara que caia”, por assim dizer, caiu em desgraça. Não, não é que a peça sem alças do vestuário feminino tenha saído de moda. O que está atualmente no alvo da correção política é o próprio termo “tomara que caia”. O acerto de contas com a expressão é encabeçado pela marca de roupas Hering, que propõe o uso de “blusa sem alça” para se referir ao modelo, a exemplo do que ocorre na língua inglesa, que adota uma palavra precisa: strapless. A estrela da campanha é a atriz Mariana Ximenes. “Acho que a gente tem de procurar ter uma sociedade mais igualitária, com mais respeito pela diversidade”, disse ela à edição brasileira da Harper’s Bazaar; revista americana de moda e comportamento feminino fundada em 1867.

Ancorado no avanço dos debates ligados à libertação da mulher, o movimento reflete uma tendência que se espalha por empresas de variados setores: a necessidade de conexão com as causas sociais da contemporaneidade. “É algo que não impacta absolutamente nada nos dias de hoje, mas pode se tornar um legado para as próximas gerações”, diz Carla Cristina Garcia, professora do departamento de pós-graduação em psicologia social da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. “Algo parecido se deu com as piadas sobre loiras, que não são mais ouvidas por aí”, completa.

A bem da verdade, não é possível identificar com segurança a origem do termo “tomara que caia”. “Imagino que seja fruto de um olhar cúpido, de desejo”, arrisca o professor de língua portuguesa Pasquale Cipro Neto. Especialistas em moda lembram que, ao menos no idioma português, a conotação algo machista da expressão não se restringe ao Brasil. Em Portugal, a peça tem também um nome insinuante, ainda que mais leve: cai cai. Não se pode deixar de reconhecer, entretanto, que os apelidos tenham lá um lado técnico. “Como não existia o elastano na época da consagração da peça (na década de 40), ela poderia mesmo escorregar pelo corpo, caso não fosse bem estruturada”, explica a editora de moda Lilian Pacce, autora do livro O Biquíni Made in Brazil. Há quem atribua a sua chegada à moda contemporânea ao reconhecido estilista espanhol Cristóbal Balenciaga (1895-1972). Contudo, o modelo caiu mesmo no gosto popular ao vestir a atriz americana Rita Hayworth (1918-1987) no filme Gilda (1946). Desde então, tornou-se símbolo de elegância e sensualidade, além de ser figurinha carimbada em tapetes vermelhos de premiações.

No Brasil, a celebração do tomara que caia veio cedo, ainda nos anos 1950, quando ele se irradiou por vestidos, maiôs e biquínis. Durante muito tempo, o apelido não provocava nenhuma celeuma. E porque tanto alarde hoje? “No início era só uma piada, não tinha maldade. O que estamos vendo agora é mais um exagero da patrulha do politicamente correto”, critica Marco Sabino, autor de Dicionário da Moda.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 23 DE MARÇO

COMUNICAÇÃO, O OXIGÊNIO DOS RELACIONAMENTOS

A morte e a vida estão no poder da língua… (Provérbios 18.21a).

A maior necessidade da família é por relacionamentos saudáveis. No século da comunicação, estamos perdendo a capacidade de nos relacionarmos saudavelmente. Matamos ou damos vida aos nossos relacionamentos, dependendo da maneira pela qual nos comunicamos. A comunicação é o oxigênio dos relacionamentos. A Palavra de Deus é categórica em dizer: A morte e a vida estão no poder da língua; o que bem a utiliza come do seu fruto (Provérbios 21.8). Havia numa pequena vila um ancião muito sábio que dava respostas boas e adequadas aos grandes dilemas que lhe eram apresentados. Certo dia, um jovem espertalhão decidiu colocar o velho numa enrascada. Pensou o seguinte: “Vou pegar um pássaro pequeno, colocar na concha da minha mão e fechar a mão, perguntando ao velho: ‘Esse pássaro que está na minha mão está vivo ou morto?’. O jovem imaginou: ‘Se ele afirmar que o pássaro está morto, eu abro a mão e o deixo voar. Se ela afirmar que está vivo, eu aperto a mão e o entrego morto’”. Na mente do jovem astuto, não havia saída para esse dilema. Com olhar altivo e peito estufado, o jovem desafiou o velho, perguntando autoconfiante: “O senhor é muito inteligente e tem resposta para tudo, então responda-me: O pássaro que está dentro de minha mão está vivo ou morto?”. O velho olhou-o profundamente e respondeu: “Jovem, o pássaro está vivo ou morto, só depende de você”. Assim também são os nossos relacionamentos: estão vivos ou mortos, só depende da nossa comunicação.

GESTÃO E CARREIRA

DIFÍCIL DE CONFIAR

Apenas três em cada dez profissionais se sentem seguros em relação aos próprios chefes. A dificuldade em acreditar nos gestores gera problemas sérios para as companhias e para os empregados – mas há maneiras de resolver esse impasse

Em quem você confiaria mais: em seu líder ou em um mecanismo de inteligência artificial? Numa pesquisa divulgada no final de 2019 pela Oracle, empresa de tecnologia, 78% dos brasileiros disseram que acreditam mais nos robôs do que nos gerentes. Embora o estudo tenha sido feito para avaliar a aceitação em relação à inteligência artificial, o número de pessoas que parecem não confiar tanto assim em seus líderes não deixa de surpreender.

Outro levantamento, feito pela consultoria Gallup, que investigou seu banco de dados global, também comprova essa desconfiança. Apenas três em cada dez pessoas creem em seus líderes. E esse comportamento tem consequências sérias para as empresas: um profissional que desconfia da chefia costuma estar planejando a saída da companhia, além de não ter interesse em se engajar na estratégia nem em realizar novos projetos. Por outro lado, quando as pessoas confiam, têm duas vezes mais a intenção de permanecer na empregadora no período de um ano. Ainda segundo o relatório da Gallup, é a relação com os gerentes que mais define que tipo de ambiente uma empresa terá – e se as pessoas se sentirão seguras ou não.

CULTURA DE DESCONFIANÇA

Esses dados se tornam ainda mais problemáticos diante de tendências como a autogestão e modelos de liderança coletiva ou compartilhada nas empresas, que vêm testando trabalho por squads e estruturas menos hierárquicas para gerar inovação. Por não se apoiarem tanto na autoridade, esses modelos exigem ainda mais a habilidade de gerar um ambiente de confiança para experimentar novas ideias. Mas, quando isso não acontece, é difícil que a empresa inove. “O ser humano, quando não se sente confortável e confiante, simplesmente reage, não desempenha”, diz Emerson Weslei Dias, consultor de carreira e coach. “Ele procura só se proteger.”

Parte do problema também está nas regras de funcionamento de algumas companhias – ainda muito baseadas no retrógrado comando e controle. “Muitas são desenhadas soba ética da desconfiança: rigidez em relação ao horário de entrada e saída, revistas em funcionários e uma série de elementos que produzem esse sentimento”, diz Marcelo Cardoso, presidente da Chie, consultoria especializada em transformação organizacional. Em multinacionais, a estrutura mais complexa também pode agravar o cenário com pessoas se reportando a vários líderes, cada um com sua agenda e seus interesses de carreira. Isso torna a relação entre lideranças e áreas praticamente um jogo político, não permitindo o diálogo direto e transparente. Até o número excessivo de reuniões em algumas empresas seria um reflexo da descrença. “Para as coisas fluírem, deve haver confiança. Como isso não acontece, todos precisam acertar os detalhes, se alinhar várias vezes”, diz Marcello. Uma das explicações mais recorrentes para essa cultura tóxica é o fato de muitos chefes serem alçados a posições de gestão sem estar realmente preparados para isso. “Os líderes, de maneira geral, não têm uma formação que explique como liderar”, diz Flora Victoria, presidente da SBCoaching. “A maioria chega lá porque é um bom técnico ou devido ao tempo que está na função. “Isso faz com que alguns demorem mais a desenvolver competências que nada têm a ver com capacidade técnica, essenciais para construir boas relações com as equipes.

OS DESAFIOS

Mas estabelecer um ambiente de confiança nem sempre é fácil, mesmo quando o contexto é favorável. Esse é o aprendizado de Max Oliveira, de 34 anos, fundador da Max Milhas, site que comercializa milhas aéreas, em Belo Horizonte. Para gerir a companhia, que começou como um hobby em 2013, ele decidiu usar as características que, até então, fizeram parte de sua vida profissional. “Trabalhei em empresas bastante competitivas, gostava muito de meritocracia e resultado a qualquer custo. Acreditava tanto nisso que até colocava nas paredes do escritório”, diz Max.

Esse perfil foi importante durante os primeiros anos do negócio – época em que os recursos eram escassos e ele precisava se envolver em todos os detalhes. Só que, conforme a empresa crescia, o comportamento não fazia mais sentido. Max não dava conta de estar em todos os lugares, acompanhando tudo de perto. Era preciso ter mais confiança e clareza do que ele buscava. “Estava confuso, acabava falando uma coisa e fazendo outra”, diz. Max percebeu que, mais do que o resultado, valorizava o esforço da tentativa. Isso levava a incoerências como nunca colocar em prática os bônus para quem entregava mais – algo que ele dizia que faria. Era hora de alinhar o discurso e reaproximar o time. Com isso na cabeça, o empreendedor fez um curso de autoconhecimento que o ajudou a mapear seus valores e pontos a desenvolver. “Empatia não é o meu ponto mais forte, então vi que tinha de trabalhar nisso”, diz. “Eu também precisava estimular as pessoas a delegar as tarefas e isso era difícil para mim.”

Abrir-se para uma relação próxima com os colegas passou a ser essencial. “Quando as pessoas se conectam mais, elas entendem que você é um ser humano”, diz. O empreendedor percebeu que tinha de se desfazer da ideia de ser o líder infalível – algo que seria possível mostrando aos outros que ele também tem muito a aprender. Essa percepção o ajudou, também, a notar que todos temos limitações. Agora, Max costuma conversar com cada pessoa do time para decidir, em conjunto, o que será delegado e que funções o profissional está pronto para assumir. “Ao confiar nos outros, você também gera mais probabilidade de confiarem em você”, diz.

ATENÇÃO AOS SINAIS

Nem sempre é fácil perceber quando uma equipe não confia no líder. Pode parecer contraditório, mas, quanto menos confiança existe, menos críticas abertas são feitas. “As pessoas têm medo de sofrer retaliações, então procuram agir como se nada estivesse errado”, diz Emerson. Mas alguns sinais podem indicar que algo não vai tão bem. Os sintomas de um ambiente de descrença são: baixo desempenho, poucas ideias e receio de dar feedbacks honestos.

Um líder que percebe que sua relação não vai bem até poderá mudar a situação, mas apenas se estiver comprometido. Para avaliar o quadro, é preciso saber o que pode estar produzindo a desconfiança. Pode ser, por exemplo, a falta de metas claras. Ou porque o próprio líder não está comprometido de fato com o negócio ou com sua carreira. Ou ainda porque o chefe se fecha para as ideias dos outros. Os gestores que perceberem isso em si mesmos devem fazer como Max e procurar o desenvolvimento. “O primeiro passo é sempre o autoconhecimento e saber quais são as forças e as dificuldades”, diz Flora.

O FATOR COMUNICAÇÃO

Um dos pontos fundamentais para estabelecer relações de confiança é a comunicação transparente. Quando as regras são claras – e cumpridas -, a sensação de segurança cresce. Por mais que exista uma cultura corporativa que envelope os comportamentos, cabe aos líderes passar, no dia a dia, quais são as atitudes celebradas e quais são as prioridades do time. Isso exige que o próprio gestor entenda quais são seus valores e quais objetivos deve cumprir. Se essa compreensão é frouxa, há risco de se contradizer, transmitir mensagens confusas e cair no clássico “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”. Mariana Rodrigues da Cunha Costa, de 36 anos, coordenadora de controladoria numa multinacional do agronegócio em Ribeirão Preto (SP), passou por esse problema no começo da carreira, por volta de 2010. Na época, ela era analista numa empresa de cobrança de crédito em São Paulo e teve problemas com seu gerente. Além de dar orientações confusas, o gestor era fechado e não dava liberdade para que ela sugerisse maneiras de melhorar o dia a dia. “Ele me cobrava uma coisa, combinava outra com as pessoas e depois me pressionava”, diz Mariana. O resultado foi um desânimo total que fez com que ela pedisse demissão – cerca de um ano depois de ter começado no emprego.

Se a comunicação estivesse alinhada, talvez esse problema não ocorresse. E, ao contrário do que muita gente pensa, para transmitir bem uma mensagem não é preciso ser um palestrante nato. “Muitos confundem comunicação com oratória. Para dialogar bem, mais do que falar, é importante saber ouvir os outros e entender o que está sendo dito”, diz Emerson. Além das palavras, gestos e outros sinais não verbais ajudam a entender como cada pessoa pode receber a mesma mensagem.

Essa postura é chamada de “escuta ativa” e tem, entre seus fundamentos, a empatia – habilidade essencial para construir laços reais de confiança. É por meio dela que demonstramos que o outro está seguro para questionar e expor dúvidas e fraquezas. “Você desenvolve intimidade ficando vulnerável”, diz Marcelo, da Chie. E, se isso parte dos gestores, uma conexão fortíssima é criada. “Tenho visto líderes se sentarem com a equipe, contar a história de vida deles e os erros que cometeram”, diz Marcelo. Quando isso acontece, consequentemente as equipes percebem que podem ousar. O cenário perfeito para que a inovação e o engajamento ocupem o lugar dos olhares tortos e sorrisos irônicos.

CINCO ATITUDES PARA CRIAR RELACIONAMENTOS FORTES

1 – CONHECA SEU TIME DE VERDADE

Não basta só saber o nome e falar sobre metas, conexões fortes precisam de um relacionamento constante e diálogos que vão além das questões de trabalho.

2 – DEMONSTRE VULNERABILIDADE

Líderes que mostram que são humanos e que têm dúvidas e fraquezas geram um sentimento de reciprocidade nos times e criam ambientes seguros para os erros.

3 – TRABALHE A INTELIGÊNCIA EMOCIONAL

Procure ler os sinais da outra pessoa para entender se ela está em um momento de fragilidade, tristeza, estresse ou ansiedade. Ao perceber esses sinais, converse para compreender os motivos do comportamento.

4 – ALINHE O DISCURSO E A PRÁTICA

Chefes que falam uma coisa e fazem outra perdem rapidamente a confiança. Procure entender seus valores e objetivos para sempre agir com coerência.

5 – CONVERSE

Essa dica vale tanto para líderes quanto para liderados. Por mais difícil que o relacionamento esteja, a conversa é o melhor remédio para tentar consertar uma situação antes de tomar alguma atitude drástica.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

MÚSICA PARA O CÉREBRO

Novos avanços nas cirurgias feitas com os pacientes acordados abrem uma avenida de descobertas em torno do mais fascinante órgão do corpo humano

O neurocirurgião americano Henry Marsh, autor de um best-seller sobre sua atividade, Não Faças Mal, de 2014, costuma descrever a sala de um centro cirúrgico como um “teatro”. Foi nesse teatro que a alemã Dagmar Turner, de 53 anos, executou ao violino trechos de canções clássicas de George Gershwin, da Sinfonia Nº 5 de Gustav Mahler e alguma coisa do repertório de Julio Iglesias, porque ninguém é de ferro. O espetáculo durou três horas. O detalhe: Dagmar estava sendo submetida a uma intervenção cerebral com o crânio aberto no hospital King’s College, em Londres. O vídeo viralizou nas redes sociais – com o perdão pelo uso de uma expressão um tanto indelicada em tempos de coronavírus.

O recurso, impressionante aos olhos d leigos, tem sido empregado cada vez com mais frequência, uma pequena revolução dentro de uma das áreas que mais avançam na medicina. Diz o neurocirurgião João Vitorino, da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia: “A tendência é operar todos os tumores cerebrais com a pessoa acordada”.

Essa modalidade de procedimento começou a ser usada, há pelo menos três décadas, de modo muito esparso, com risco, em vítimas de epilepsia – os médicos mantinham os pacientes alertas o suficiente para garantir que estavam destruindo os trechos de tecido cerebral que provocavam convulsões descontroladas. Deu-se o salto, agora, com um par de aperfeiçoamentos espetaculares: (1) a introdução da tecnologia de mapeamento cerebral, que permite a criação de uma réplica digital precisa da cartografia da massa cinzenta; e (2) o desenvolvimento de anestésicos altamente sofisticados, afeitos a deixar os profissionais de bisturi nas mãos plenamente confiantes em manter lúcidos os pacientes enquanto os operam.

A vigília é fundamental porque, dados os conhecimentos cada vez mais amplos sobre o funcionamento do cérebro, que o escritor Bill Bryson chama de “a coisa mais extraordinária do universo”, é imperativo acompanhar a atividade neurológica permanentemente, como se os especialistas fossem o maestro de uma sinfonia executada por um órgão com mais de 100 bilhões de neurônios, que formam 100 trilhões de conexões. “O encéfalo aberto permite verificar, em tempo real, a resposta de quem está sendo operado e é sinônimo de redução de danos neurológicos”, diz o neurocirurgião Eduardo Carvalhal Ribas, do Hospital Albert Einstein. Em pacientes com Parkinson, por exemplo, o médico precisa implantar um eletrodo no lugar exato do cérebro que causa os tremores. A única forma de saber se o implante está no local correto, e se houve sucesso, é verificar se o paciente parou de tremer. E isso só pode ser feito com atenção máxima. Já no zelo com tumores, como no caso de Dagmar, há controle absoluto de funções essenciais e delicadas, como a de emitir notas musicais das cordas de um instrumento. A resposta é simples e rápida: se o eletrodo atingir uma região associada a essa função, imediatamente o paciente parará de tocar ou errará. Dessa forma, o médico sabe que não deve remover determinado ponto para manter uma habilidade tão específica. “Além da redução do risco de sequelas graves, os benefícios desse tipo de cirurgia incluem melhores resultados no tratamento, período menor de internação e recuperação mais rápida”, diz o neurocirurgião Guilherme Carvalhal Ribas, do Hospital Albert Einstein. Em tempo: sem dor, porque na carcaça do edifício cerebral não há terminações nervosas.

Anteriormente, a prioridade era retirar o máximo de tumor, preservando os movimentos básicos do paciente, mas não todos. “Hoje, sabemos que não basta o tratamento ser eficaz do ponto de vista oncológico”, diz o neurocirurgião pediátrico Carlos Roberto de Almeida Junior, do Hospital de Amor, em Barretos, São Paulo. “A retomada da vida normal é algo mais do que desejado”. Em adultos, sem dúvida, mas sobretudo entre crianças.

Existia uma certa relutância da classe médica em operar meninas e meninos atentos e ligados em tudo o que se passa debaixo do feixe de luz – há, ainda, um cuidado especial com pré-adolescentes e crianças. “Além de o cérebro infantil estar em constante evolução, a reação e a cooperação da criança ao acordar durante a cirurgia são extremamente imprevisíveis”, diz o neurocirurgião Cario Petitto, do Sabará Hospital Infantil, em São Paulo. Por isso, em geral, a idade mínima para realizar uma cirurgia cerebral com o paciente acordado é 13 anos, fase em que já há mais maturidade, tanto comportamental quanto da própria plasticidade cerebral. Não se trata, contudo, de uma regra. Existem relatos de crianças de apenas 7 anos que passaram com sucesso por uma cirurgia de olhos bem abertos.” Decidi fazer a cirurgia acordado porque o médico disse que seria mais seguro. Tive medo, mas o doutor foi me falando o que estava acontecendo e fiquei tranquilo”, lembra Pedro Henryque Arandas, de 13 anos, que foi submetido, em fevereiro, a uma operação no Sabará, para tratar uma epilepsia de difícil controle. O depoimento de Pedro Henrique, lindamente sincero, é o mais bem-acabado retrato dos cuidados com uma máquina composta de 75% a 80% de água, além de gordura e proteína, que, em 1 único centímetro cúbico de tecido cerebral, tem tantas conexões quanto estrelas na Via Láctea. Por tudo isso, é melhor sonhar acordado.

OUTROS OLHARES

ABAIXO A BELEZA VIRTUAL

Os impactos negativos na autoestima dos usuários levam o Instagram a proibir filtros que imitam procedimentos estéticos faciais – evidenciando sua influência sobre os jovens

Lançado em outubro de 2010, o Instagram é, por excelência, a rede social de compartilhamento de fotos e vídeos. Com um detalhe: desde o início, o Insta – como costuma ser chamado no universo digital – mantém filtros que permitem ao usuário trabalhar em cima das imagens. A princípio, eles se limitavam a melhorar o contraste e simular a aparência de fotografias antigas. Com o tempo, foram se sofisticando, até chegar a modelos capazes de oferecer verdadeiras operações plásticas virtuais.

Lábios carnudos, nariz afilado, olhos de uma cor inebriante – com poucos toques surge na tela um rosto lindo, perfeito. O problema: trata-se de uma perfeição que beira o irreal. Não por coincidência, no caso das mulheres, a beleza proporcionada pelos filtros se aproxima da que é ostentada pelas integrantes do clã Kardashian – na vida real, devidamente esculpidas por bisturis. Kim, a mais badalada das beldades da família, tem no Instagram nada menos que 161 milhões de seguidores.

Um estudo realizado pela Academia Americana de Cirurgia Plástica e Reconstrutiva Facial revelou que 55% dos cirurgiões atenderam pacientes que clamavam por ajustes em suas feições inspirados em fotos do Instagram. Pior: em 2018, pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade Johns Hopkins descobriram que as pessoas estavam levando as próprias selfies filtradas como referência para possíveis procedimentos plásticos, a fim de transformar o virtual em real – num claro sinal de baixa autoestima.

As evidências não poderiam ser mais claras: os filtros não estavam fazendo nada bem aos usuários, ainda que fossem tratados como mera brincadeira. Alarmado, o Instagram decidiu banir o recurso que permitia as alterações mais radicais. O anúncio foi feito por meio de uma plataforma de realidade atrelada ao Insta, a Spark AR. As estatísticas são estrondosas: 1 bilhão de pessoas haviam usado filtros de transformação de rosto apenas no último ano. Essas alterações, que podiam variar de um brilho a mais nas bochechas a uma arrebitada no nariz, também incentivaram os usuários a experimentar distorções no formato do crânio e na cor da pele. Os filtros mais polêmicos eram o FixMe e o Plastica, pois permitiam simulações exageradas – incluindo hematomas comumente resultantes de cirurgias plásticas.

O banimento dos filtros ocorre em meio ao debate sobre a relação entre as mídias sociais, a aparência física e a saúde psicológica dos usuários. Pesquisas recentes apontaram o surgimento da “dismorfia do Snapchat” – termo que se baseia no nome da rede concorrente do Instagram -, descrevendo como tais efeitos visuais conseguem afetar a percepção sobre o próprio corpo de quem os utiliza. A conclusão é que as selfies modificadas poderiam estar “obscurecendo a linha entre a realidade e a fantasia”, fazendo com que alguns indivíduos ficassem hiper fixados em falhas físicas irrelevantes e com aversão a uma aparência não padronizada. Um trabalho publicado no Journal of the American Medical Association mostrou que o uso de filtros faciais está associado a uma inclinação maior para se submeter a cirurgias plásticas.

Nesse cenário, as principais vítimas são os mais jovens, com idade inferior a 20 anos. Um estudo de 2019, nos EUA, registrou um aumento de 72% nas visitas aos centros de cirurgia plástica por pacientes com idade inferior a 30 anos. A influência das redes sobre eles é inegável. O fator agravante é que, na juventude, o córtex pré-frontal – a área do cérebro responsável pelo controle das ações impensadas – ainda não está inteiramente desenvolvido. Isso significa que esse público pode se prestar a uma modificação corporal sem avaliar sua real necessidade. Em agosto, o Instagram já havia restringido o alcance de posts sobre produtos de emagrecimento, como sucos e chás, para menores de 18 anos. Era, então, uma tentativa de mitigar a sua, digamos assim, impressão digital: promover o culto da imagem perfeita. Especialmente a do próprio usuário.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 22 DE MARÇO

DISCUSSÃO SEM PODER

Então, ele interpelou os escribas: Que é que discutíeis com eles? (Marcos 9.16).

O texto de Lucas 9.28-36 mostra que os nove discípulos que ficaram no sopé do monte da Transfiguração também não oraram; antes, travaram uma infrutífera discussão com os escribas (Mc 9.16). Nesse ínterim, o pai aflito de um filho endemoninhado roga aos discípulos de Jesus que socorram seu filho, mas os discípulos não puderam ajudá-lo. Estavam desprovidos de poder. Sua espiritualidade era a espiritualidade da discussão sem poder. Em vez de orarem e jejuarem, eles discutiram. Em vez de fazerem a obra de Deus, discutiram acerca da obra. Em vez de se manterem fiéis à sua vocação, perderam o foco do ministério numa vã discussão com os opositores de Jesus. Enquanto aqueles discípulos discutiam, o diabo agia. Como não oraram nem jejuaram, estavam vazios de poder e, como estavam vazios de poder, não puderam expelir a casta de demônios que atormentava o filho único daquele pai aflito. Ainda hoje, corremos o risco de perder o foco da nossa espiritualidade. Muitas vezes deixamos de orar e de trabalhar porque estamos envolvidos em discussões intérminas e infrutíferas. Discutimos muito e trabalhamos pouco. Fazemos muito barulho com as nossas palavras, mas produzimos pouco com as nossas mãos. Se o êxtase sem discernimento é uma espiritualidade fora de foco, de igual modo é a discussão sem poder.

GESTÃO E CARREIRA

A GRIPE DOS GADGETS

Como o novo coronavírus paralisou a indústria tecnológica altamente dependente da China

O pânico está instalado nas empresas de tecnologia, até há pouco tempo imunes à maior parte das crises. Com o novo coronavirus espalhado por todos os continentes, dezenas de milhares de casos confirmados e mais de 3 mil mortes, surge outra preocupação que transcende a barreira da saúde pública. Como ficará o abastecimento tecnológico do mundo se parte da China, o principal foco da doença, está paralisada? Como muitas plantas industriais reduziram seus trabalhos ou até mesmo estão em pausa temporária, os atrasos nas manufaturas de eletrônicos já colocam em xeque o calendário de lançamentos de produtos e o faturamento das maiores empresas do mundo.

No dia 1 de fevereiro a Apple anunciou o fechamento de todas as suas lojas e escritórios na China. Duas semanas depois, fez seu segundo anúncio público sobre a epidemia, informando que não conseguiria atingir suas metas de faturamento no primeiro trimestre do ano em decorrência dos impactos do novo coronavírus. “A distribuição de iPhones em todo o mundo ficará temporariamente restrita”, informou a companhia, na ocasião. “Nossos parceiros estão localizados fora da província de Hubei (onde o novo coronavírus surgiu e, por consequência, a mais afetada pela epidemia) – e todos já foram reabertos -, mas estão retornando mais lentamente do que havíamos previsto.”

O anúncio de um novo iPhone de baixo custo, que, segundo se especulava, seria feito neste mês, está em risco, algo inédito para a linha de smartphones lançada há mais de uma década pela companhia fundada por Steve Jobs. Desde o ano passado, analistas previam uma versão popular do aparelho, na casa dos US$ 400, mas o novo coronavírus poderá estragar esses planos. Para o analista Dan Ives, da consultoria Wedbush, no melhor cenário as fábricas chinesas retomarão a capacidade total no início de abril, atrasando em pelo menos um mês o lançamento do produto. Já o pior cenário seria a retomada da capacidade apenas em maio ou junho. Nessa hipótese, o iPhone popular ficaria para o segundo semestre e o lançamento do iPhone 12 seria comprometido, com atraso de pelo menos três meses. Nesta semana, a Foxconn, principal fornecedora da Apple, informou que seu faturamento deverá despencar em 15% no primeiro trimestre – isso se a produção for retomada no final de março, conforme prometido pela empresa. A companhia de origem taiwanesa é fornecedora de outras marcas globais, como Sony, Dell e Microsoft. A gigante fundada por Bill Gates também reviu para baixo sua expectativa de faturamento por causa da epidemia. Com a produção de computadores e de seu tablet Surface paralisada, a Microsoft não conseguirá alcançar os US$ 10,5 bilhões previstos em vendas para o trimestre.

Para a consultoria IDC, o mercado global de smartphones deverá encolher 2,3% neste ano, com uma queda no primeiro semestre de 10,6% em relação ao mesmo período de 2019. No caso dos PCs, a previsão é de queda de 9% nas vendas, com retrações de 8,2% no primeiro trimestre e de 12,7% no segundo, com o fim dos estoques e os problemas de abastecimento provocados pela epidemia. “O novo coronavírus se tornou mais um motivo para estender a tendência de contração do mercado de smartphones. Enquanto a China sofrerá o maior impacto, outras regiões sofrerão com a interrupção na cadeia de suprimentos”, previu a analista da IDC Sangeetika Srivastava. “Escassez de componentes, paralisações de fábricas, quarentenas, logística e restrições de viagens criam obstáculos para os fabricantes produzirem aparelhos e lançarem novos dispositivos”, disse.

O setor de tecnologia está sendo duramente impactado, sobretudo entre os hardwares, porque a China concentra as cadeias produtivas de eletroeletrônicos do mundo. A japonesa Nintendo, por exemplo, anunciou que o mercado doméstico já está desabastecido de consoles de videogame Switch e os mercados americano e europeu também serão atingidos. No Brasil, a LG anunciou a paralisação de sua fábrica em razão da falta de componentes para a montagem de produtos.

O impacto econômico do novo coronavírus não se deteve nas fábricas. Eventos previstos para as próximas semanas vêm sendo cancelados mundo afora. A GSMA suspendeu a edição deste ano do Mobile World Congress, maior evento da indústria de telecomunicações, que aconteceria em Barcelona. Na Califórnia, o Facebook cancelou o Market Summit e o F8, seu principal evento anual, que aconteceria em maio, em San Jose. O Google cancelou o Cloud Next e a Game Developers Conference foi adiada após a desistência de participantes com o peso de Sony e Microsoft.

Além do marketing do lançamento de produtos e serviços, esses eventos servem para que a comunidade de desenvolvedores e empreendedores tenha contato direto com o que está sendo produzido e com casos de sucesso, que podem inspirar novas soluções. As apresentações de CEOs são destaques na imprensa, como a fala de Mark Zuckerberg no F8 do ano passado redirecionando o foco da companhia para a privacidade. Centenas de palestras e mesas-redondas acontecem simultaneamente, o que permite a interação das empresas com seus parceiros.

“Esses eventos são muito importantes para conectar as pessoas, descobrir o que os engenheiros das empresas estão pensando e fechar negócios”, disse Ítalo Nogueira, presidente da Federação das Associações das Empresas Brasileiras de Tecnologia da Informação (Assespro Nacional). “A gente pode discutir por plataformas on-line, mas não é como olhar nos olhos.”

Para Robert Janssen, diretor executivo da consultoria OBr.global, os cancelamentos não se devem exatamente ao temor do novo coronavírus, mas pelo risco de esses eventos se tornarem pontos de disseminação da doença e mancharem a imagem das empresas. “Evento provoca 200 infectados e dez mortes pelo novo coronavírus. “Ninguém quer uma manchete dessas”, disse Janssen, destacando que os congressos que seguiram em frente estavam “às moscas”. “A Conferência RSA aconteceu, mas era perceptível a redução do tamanho.”

Mesmo com um pequeno número de casos da doença nos EUA, as empresas do Vale do Silício, coração da indústria de tecnologia, se adiantam tomando medidas de prevenção. Muitas adotaram o home office para evitar contágios em escritórios. Com sede em San Francisco, o Twitter, por exemplo, recomendou a todos os seus 4.900 funcionários que trabalhem de casa. A prática está tão difundida que os congestionamentos acabaram nos arredores da companhia. “O trajeto que faço em duas horas e meia, estou fazendo em uma hora”, contou Janssen, que vive na região desde os anos 1970 e há mais de uma década organiza excursões de empreendedores brasileiros ao Vale do Silício. “Existe um certo pânico, mas ainda não faltam produtos nas prateleiras.”

Os impactos financeiros do novo coronavírus sobre as empresas de tecnologia só serão conhecidos com a divulgação dos balanços trimestrais, que acontecem em abril, mas algumas companhias já dão sinais de terem sido duramente afetadas. O Airbnb planejava sua estreia na Bolsa para este ano, mas deverá adiá-la para 2021 em razão de prejuízos com a falta de hóspedes. Fabricantes de hardwares, como a Apple, começam a repensar sua dependência da China. Um exemplo é a operação da taiwanesa Foxconn no Brasil. Com 1 unidade em São Paulo, a fornecedora mundial da Apple não é capaz de elevar sua produção para fazer frente à queda da fabricação chinesa porque a maior parte das peças que utiliza na montagem de aparelhos vem do país asiático. O mesmo ocorre com todas as demais plantas da gigante pelo mundo. Se, de fato, ocorrer uma mudança de estratégia em relação à China, o novo coronavírus terá trazido ao menos um impacto edificante: o de ensinar à indústria tecnológica a premissa básica do mercado financeiro, de não colocar todos os ovos numa mesma cesta.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O SOM AO REDOR

Com a popularização dos smartphones e das plataformas de streaming, o número de horas que as pessoas passam escutando música deu um salto – e isso tem efeitos no funcionamento do cérebro

O instrumento musical mais antigo tem cerca de 40 mil anos, uma flauta feita de ossos encontrada na Europa. Levando­ se em conta que provavelmente se cantava antes de alguém ter a ideia de fazer um instrumento, escutamos música há ainda mais tempo. Nessa longa história, houve vários pontos de inflexão, e o mais recente deles foi o provocado pela popularização de aplicativos. Pela primeira vez na história, hoje conseguimos escutar qualquer canção a qualquer hora – o que explica que nunca se tenha ouvido tanta música, uma mudança com efeitos em nosso dia a dia e também em nosso cérebro.

Primeiro, os números que comprovam que a música não sai de nossa cabeça: a quantidade de pessoas com smartphones em todo o mundo, pelas estimativas do Pew Research Center, é de 2,5 bilhões. A popularização desses aparelhos é muito maior que a de qualquer outro capaz de reproduzir as canções escolhidas por seus donos. Toca­ discos, walkmans e tocadores de CD nunca foram tão disseminados. Isso explica o tempo cada vez maior que as pessoas de 21 países, o Brasil inclusive, têm dedicado a ouvir música. Pelo último levantamento da Federação Internacional da Indústria Fonográfica, já são 18 horas por semana.

Como a música é intangível, toca no que é impalpável – está na fronteira entre o pensamento e os sentimentos. Já está provado que afeta a liberação de substâncias químicas cerebrais poderosas que podem regular o humor, reduzir a agressividade e a depressão e melhorar o sono. Basta lembrar que a musicoterapia é um tipo de tratamento muito usado em diversas doenças somáticas e psíquicas, como o Alzheimer. Um exemplo clássico e recorrente é o de pacientes em estágio avançado que se sentem estimulados ao ouvirem canções que relembram sua infância, ao mesmo tempo que não conseguem se lembrar dos próprios filhos. Isso acontece porque a região do cérebro em que se concentra a memória musical é uma das últimas a ser atingida pela doença.

Doutora em neurociência e especialista do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (Idor), centro de referência carioca na promoção do avanço científico e tecnológico na área de saúde, Julie Wein explica que o cérebro responde de forma bem global à escuta musical. Ou seja, várias regiões são ativadas ao mesmo tempo a cada som, tanto no hemisfério esquerdo quanto no direito. A atividade do córtex auditivo, por exemplo, codifica os sons que ouvimos, enquanto o lobo temporal processa as informações sonoras, como frequência e amplitude. Regiões envolvidas no processamento das emoções também são ativadas – por isso, temos o sentimento de prazer e, às vezes, chegamos a nos emocionar ou ficar arrepiados quando escutamos alguma música.

Uma pergunta ainda sem resposta é se a escuta musical tem efeitos positivos nas tarefas cognitivas – em outras palavras, se ficamos mais inteligentes com a música. Por anos, um experimento chamado de Efeito Mozart foi usado como referência. Publicado em 1991 pelo pesquisador francês Alfred A. Tomatis, o estudo ficou popularmente conhecido como o experimento que “provava” que crianças e até bebês que ouvissem músicas compostas pelo músico austríaco se tornariam adultos intelectualmente mais capacitados. A histeria coletiva foi tamanha que, em 1998, o então governador do estado americano da Georgia, Zell Miller, tentou aprovar um orçamento para que todos os recém-nascidos pudessem ganhar um CD de música clássica. O neuropsicólogo Sergio Della Sala, professor da Universidade de Edimburgo, chegou a presenciar em uma fazenda de muçarela na Itália búfalos que ouviam Mozart três vezes por dia. Segundo o fazendeiro, a intenção era ajudar os animais para que produzissem um leite melhor. Até hoje é possível encontrar na internet produtos – CDs, livros etc. – que ajudam na missão, prometendo usar o poder da música de Mozart para auxiliar a cognição e a inteligência em todas as idades.

Cientificamente, porém, o experimento é contestado e, hoje, quase folclórico. Não que Tomatis fosse um pesquisador fajuto ou algo assim. No estudo original, o termo “Efeito Mozart” nunca foi usado. E o teste não tinha usado nenhuma criança, sendo feito em 36 jovens estudantes de psicologia. Divididos em três grupos, eles recebiam uma série de tarefas mentais para solucionar. O primeiro grupo ficava em total silêncio por dez minutos antes do teste. O segundo ouvia uma gravação com instruções para relaxamento. O terceiro, dez minutos da “Sonata para dois pianos em ré maior”, de Mozart.

O grupo que ouviu Mozart se saiu melhor nas tarefas em que era preciso criar formas. Por um curto período de tempo, seus integrantes foram superiores em tarefas espaciais em que tiveram de olhar para pedaços de papel dobrados com cortes e prever como pareceriam quando desdobrados. Mas o próprio autor deixou claro à época que o efeito durava cerca de 15 minutos – bem diferente de uma vida mais inteligente, como viria a ser comercialmente divulgado anos depois. “Resultados parecidos foram encontrados com músicas que não eram de Mozart, nem clássicas e até com o que não era música. O grande achado, no fim das contas, era que a pessoa devia fazer algo que a deixasse relaxada, feliz, antes da tarefa”, explicou Wein. Isso foi provado em estudos posteriores, que usaram a música de Franz Schubert e até a audição de um trecho de um romance de Stephen King.

O que se sabe é que aprender a tocar um instrumento musical pode, sim, trazer um efeito benéfico ao cérebro. É o que promete um estudo da cientista cognitiva Jessica Grahn, da Universidade de Western Ontario, no Canadá. Segundo ela, um ano de aulas de piano combinadas com prática regular pode aumentar o Q.I. em até 3 pontos. Nem todo mundo, porém, tem tempo ou recursos para aprender piano. Então, afinal, ouvir música no trabalho pode atrapalhar seu rendimento? Se você optar por ouvir canções com letras enquanto estiver realizando tarefas, seu cérebro vai competir pela informação e, em algum momento, você vai querer prestar atenção no verso, mesmo que seja numa língua que não domina. Para casos de pessoas que perdem o foco com distrações, a música instrumental é mais recomendada, podendo trazer uma sensação de calma e relaxamento. Existem, inclusive, experimentos digitais atuais. Um deles é o site Focus at Will, que conta também com um aplicativo para smartphone. A ideia é desenvolver playlists personalizadas, criadas a partir de um quiz, que prometem potencializar em até quatro vezes a produtividade dos usuários. Os sons e melodias usados buscam maximizar o estado de foco duradouro por meio de um contraste entre distração e abstração (uma música sempre é seguida por outra que não é tão igual nem tão diferente da anterior).

Mais populares e acessíveis, porém, são as rádios do YouTube que prometem fazer o mesmo usando, basicamente, batidas espaçadas, sintetizadores, uma ou outra voz sampleada em um loop aparentemente eterno, adornados com imagens de anime de uma garotinha estudando enquanto seu gato descansa na janela. Com essa fórmula simples, o canal ChilledCow, criado no fim de 2015, virou um fenômeno na plataforma de vídeos, tendo hoje 4,29 milhões de inscritos, e a partir dela gerou-se um mercado com diversos outros canais.

Os nomes das rádios são objetivos. A mais famosa se chama ‘lofi hip hop radio – beats to relax/study to” (em tradução livre, rádio de “hip-hop caseiro – batidas para relaxar/estudar”) e nunca tem menos de 20 mil pessoas ouvindo ao vivo. Na mesma onda, o DJ americano Ryan Celsius, de Washington, também alimenta seu canal, com 450 mil inscritos, que conta ainda com rádio para trabalho.

Celsius explica que o tal gênero “lofi hip hop” nada mais é do que produções de hip-hop mais relaxadas, minimalistas, tipo música ambiente. Ele tem grande apelo como música de fundo quando abafa os vocais em volumes abaixo das melodias suaves, de samples nostálgicos e distorções analógicas – como aquelas que remetem a sons de vinis e de fitas cassete. Além disso, traz um som de bateria padrão bastante direto que permite que o ouvinte faça a audição passivam ente e ainda assim desfrute dela. “Definitivamente, é um tipo de música que pode ser usado como pano de fundo para executar tarefas ativamente. No entanto, devido à sutileza da produção, quando alguém decide fazer uma pausa e se concentrar um pouco na música, essa experiência também pode ser recompensadora”, tentou destrinchar Celsius.

Essa nova onda de popularização da música tem uma pegada solitária. O streaming diminuiu a sensação de que a audição musical possa ser uma experiência coletiva. Nada de chamar os amigos para ouvir um LP novo, como já foi com um no passado.

“Hoje em dia, as listas de melhores discos do ano, por exemplo, tornaram-se ainda mais pessoais do que eram. Não tem mais aquela coisa de todo mundo estar escutando os mesmos sons ao mesmo tempo”, argumentou o jornalista e curador musical Carlos Albuquerque, autor de livros como O eterno verão do reggae e Rio Fanzine: 18 anos de cultura alternativa. ”Fico pensando em um disco como Fatal, da Gal Costa (1971).

Ele foi um grande sucesso porque todo mundo estava falando sobre ele, era papo de bar. O mesmo vale para um Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles (1967). Hoje teríamos essa relação com algum grande disco? De vivenciar, conversar sobre ele? É difícil imaginar.”

Nem mesmo dentro de casas onde moram adolescentes é tão comum ouvir músicas altas como no passado. Perto de cada smartphone costuma haver um par de fones de ouvido. Agora é a vez daqueles pluges sem fio, chamados de “air pods”. Mas isso é saudável? Segundo o otorrinolaringologista Edson Mitre, presidente da Sociedade Brasileira de Otologia, tudo depende do volume em que a música é escutada. Afinal, nossos ouvidos têm alguns mecanismos de proteção contra sons mais altos, mas eles funcionam quando expostos até mais ou menos 80 decibéis. Qualquer intensidade maior do que essa, independentemente do tempo de exposição a ela, pode causar perdas até irreversíveis de audição. “Infelizmente, eu e vários outros colegas temos recebido adolescentes e até crianças de 10, 12 anos, já com perdas irreversíveis por causa do uso de fones de ouvido. Não totais, claro, mas índices de perda altos”, revelou Mitre.

OUTROS OLHARES

O AMOR ESTÁ NO AR

Casamento às Cegas, o novo reality-sensação da Netflix, leva participantes ao altar em “experimento” que põe as emoções à frente da atração física. Resultado: um novelão saboroso

“Quero um homem que vai me amar por quem eu sou, não por minha aparência”, diz uma esperançosa e emotiva mulher de 32 anos para a câmera. Em seguida, um estiloso rapaz de 34 anos, barba farta e blazer azul-celeste, entoa discurso parecido: “Chega um momento em que o homem precisa se acalmar. Estou pronto para achar uma esposa”. As falas piegas, apropriadas para uma mesa de bar após alguns drinques, são ditas entre outras de mesmo tom na abertura de Casamento às Cegas, o novo reality show-sensação da Netflix. Ops, reality show, não. Os apresentadores do programa, Nick e Vanessa Lachey, se recusam a dar o vil rótulo à atração, que é tratada como um “experimento”. A hipótese a ser provada é: a conexão emocional estaria acima da atração física num relacionamento feliz? Resumindo: o amor é cego?

As cobaias são quinze homens e quinze mulheres solteiros, atraentes, entre 24 e 35 anos, apressados em dar início a uma família. Dois ambientes separam os participantes por gênero. A casa-cenário dá acesso a confortáveis cabines individuais, com um sofá e até mantinha, onde rapazes e moçoilas vão conversar com o sexo oposto, sem ver uns aos outros, separados por uma parede azul translúcida. O confinamento dura dez dias. Quem se apaixona já pede o alvo de seu desejo em casamento. O encontro físico só acontece quando os pombinhos estão noivos – com direito a homens de joelhos, flores e um rio de lágrimas.

Até chegar ao altar junto com os casais, o espectador observa as mais variadas reviravoltas e emoções. Um cativante casal inter-racial, Lauren e Cameron, encara a opinião de familiares e amigos: a moça, ativista negra, nunca havia namorado um homem branco. Um triângulo amoroso entre o galanteador Barnett e duas moças, Amber e Jessica, faz a última ganhar fama de vilã: rejeitada, Jessica aceita o pedido de casamento de outro, Mark, como segunda opção – e, do início ao fim, o trata com doloroso desdém. Giannina, uma loira venezuelana, protagoniza brigas acaloradas com o noivo, Damian, que sempre terminam em sexo de reconciliação.

Qualquer similaridade com o horário nobre da Globo não é coincidência. Realities de namoro são farinha do mesmo saco de onde saem comédias românticas, livros açucarados – e, sobretudo, novelas. Em comum, são produtos da idealização do casamento e do amor romântico como fontes da felicidade. “Nossa cultura hipervaloriza a família e os rituais que ela envolve”, diz a antropóloga Mirian Goldenberg. “Vemos jovens casando-se com festa e pompa: um novo reconhecimento da velha cerimônia que confere o selo de ‘essa pessoa é aceita e amada’. Nem por isso, porém, ele ou ela serão, de fato, felizes.”

O mundano dilema da busca pelo amor chegou à TV em 1965, quando a rede americana ABC lançou The Dating Game, atração em que uma pessoa fazia perguntas a três candidatos, os quais só poderia ver após eleger um favorito. O gênero evoluiu desde então, dando origem a programas que são exemplos primorosos do guilty pleasure, o vício prazeroso em produções de gosto duvidoso, da resiliente The Bachelor à caliente De Férias com o Ex, hit da MTV. Não se pode esquecer, é claro, de Sílvio Santos e seu memorável Em Nome do Amor, exibido entre 1994 e 2000. Na atração, rapazes observavam mulheres por binóculos antes de tirá-las para dançar – e azarar.

A popularidade do pioneiro The Dating Game fez dele vitrine para quem estava mais a fim de projeção que de romance – caso dos então anônimos Arnold Schwarzenegger e Farrah Fawcett, que se projetaram ali nos anos 60 e 70. O padrão se repete agora: o reality da Netflix transformou seus participantes em celebridades nas redes sociais – o número de seguidores no Instagram de Giannina subiu de 150.000 para 500.000 na semana de exibição do último episódio, em 27 de fevereiro. Engrossa-se, assim, uma nova tendência: a exploração da fama de influencers novatos e estabelecidos pelos reality shows.

O sucesso de Casamento às Cegas tem gostinho especial para a Netflix: a plataforma fez apostas bem-sucedidas em variados fronts, mas ainda não tinha um hit nos reality shows. Nos Estados Unidos e no Brasil, o programa ficou entre os dez mais vistos no recém-lançado ranking de popularidade do canal. Não à toa: com seu jeitão de folhetim, ele é perfeito para a era das famigeradas maratonas.

Já no segundo dos dez episódios, o melodramático “experimento” forma seus seis casais. A lua de mel em um hotel de luxo em Cancún, no México, é a etapa da pegação. Câmeras voyeurísticas exploram ao máximo o início do contato físico entre os noivos. Ali, uma dupla desanda: a noiva faz as malas ao descobrir que seu quase futuro marido é bissexual. Os cinco casais restantes se mudam para apartamentos em Atlanta, onde devem morar com seus pares enquanto se preparam para as bodas, dali a trinta dias. A decisão final acontece no altar, diante de amigos, familiares e mestres de cerimônias. A marcha nupcial é substituída por composições dramáticas, de um suspense quase hitchcockiano, à espera da resposta: sim ou não? Fazia tempo que ouvir o indefectível “felizes para sempre” não causava tantos suspiros.

A FÁBRICA DE INFLUENCIADORES

Das novelas aos programas esportivos, é patente a tentativa da TV de correr atrás da internet. Os reality shows são o novo palco dessa batalha para se conectar aos jovens e às redes. Explorar a presença de influenciadores digitais entre os participantes virou quase uma regra no gênero. A Globo escalou um batalhão deles para o BBB20. Para ampliar o alcance de uma atração já cultuada, a MTV fez algo semelhante com De Férias com o Ex Brasil Celebs, recheando só com influencers o elenco do show de azaração. A ideia do The Circle, formato que conquistou projeção global na Netflix em sua versão americana, é criar no laboratório televisivo novas personalidades digitais. No dia 11, a plataforma lançou a versão brasileira do reality.

No The Circle, nove participantes que não se conhecem são isolados em apartamentos distintos e se comunicam entre si por mensagens virtuais. Os cinco finalistas só se veem no último episódio, quando tomam parte de um jantar e votam no vencedor (que, na versão brasileira, vai faturar 300.000 reais). Ao menos nos Estados Unidos o programa conseguiu projetar influencers de verdade. Shubham Goel, vice-campeão do The Circle americano, saiu da TV com um sonho nada modesto: quer ser governador da Califórnia. Aos 23 anos, o jovem de origem indiana já se candidatou anteriormente, mas perdeu. “Agora, com a popularidade que conquistei, estou confiante na vitória”, disse ele. “As redes sociais abrem portas em nossa vida.” Antes de entrar no reality, o rapaz não tinha nem perfil pessoal na internet.

A presença de influencers nos realities traz lances reveladores sobre a categoria. A cantora Manu Gavassi era conhecida em um nicho musical específico, mas viu sua popularidade explodir no BBB: entrou no programa com 4 milhões de seguidores e, em menos de dois meses, já soma cerca de 9 milhões. Ela utiliza a vitrine da Globo para aumentar sua popularidade. Passou três dias gravando mais de noventa vídeos para postá-los nas redes enquanto estivesse no confinamento. Manu calculou até como ganhar likes com as roupas que veste no programa: assim que ela entra no ar com certo modelito, sua equipe posta no Instagram imagens dela com as mesmas peças. Os reality shows são bons para os negócios, mas podem também queimar o filme dos influencers. Eliminada há duas semanas, Bianca Andrade, a Boca Rosa, perdeu 80.000 seguidores em uma noite após apoiar os “machos tóxicos” na casa.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 21 DE MARÇO

O DRAMA DO LEGALISMO

Tu, ó homem, que condenas os que praticam tais coisas e fazes as mesmas, pensas que te livrarás do juízo de Deus? (Romanos 2.3).

O legalismo é a ideia de que Deus está mais interessado em normas que em pessoas. Um indivíduo legalista preocupa-se mais com a aparência que com a essência, dá mais valor ao exterior que ao interior. O legalismo é um caldo mortífero que adoece e neurotiza a família e a igreja em nome da verdade. Os legalistas coam mosquito e engolem camelo. Brigam por aquilo que é secundário e transigem com aquilo que é essencial. Em nome do zelo espiritual, ferem pessoas, perturbam a paz e quebram os vínculos da comunhão. Os legalistas agem como os fariseus que acusavam Jesus de pecado por curar no sábado, mas não viam seus próprios pecados enquanto tramavam a morte de Jesus no sábado. Os legalistas são aqueles que reputam a sua interpretação das Escrituras como infalível e atacam como os escorpiões do deserto aqueles que discordam da sua visão extremada, chamando-os de hereges. O legalismo é fruto do orgulho e desemboca na intolerância. Em nome da verdade, sacrifica a própria verdade e insurge-se contra o amor. O legalismo é reducionista, pois repudia todos os que não olham para a vida através de suas lentes embaçadas. O legalismo professa uma ortodoxia morta, sem amor e sem compaixão. Acautelemo-nos desse caldo mortífero.

GESTÃO E CARREIRA

O TRABALHO NA PRÓXIMA DÉCADA

Apenas 9% dos executivos de RH acreditam que as empresas estejam preparadas para o futuro –   mas ele está batendo à nossa porta. Descubra quais serão as principais transformações da década de 2020

Incerteza (ainda) é a palavra que melhor define as perspectivas econômicas para o Brasil ao longo dos próximos anos. Para a crise ficar para trás, é necessária a convergência de vários fatores, que passam pela reforma tributária, a força – ou declínio – da economia chinesa e investimentos em infraestrutura, por exemplo. Em meio a isso tudo, o mercado continua a operar num contexto de alto desemprego, informalidade recorde, falta de profissionais qualificados para diversas áreas e digitalização galopante. E o cenário tende a se tornar mais complicado com o passar dos anos que formarão a década de 20 dos anos 2000. Esses ingredientes trazem um desafio e tanto para as empresas – especialmente para o RH. A gestão de pessoas terá de se desdobrar para manter e engajar uma força de trabalho que mescla CLT e trabalho freelance, ao mesmo tempo que pensa em políticas que consigam ser flexíveis para atender à diversidade de interesses de carreira, tendo em vista os diferentes perfis profissionais. Isso tudo somado às constantes mudanças trazidas pela tecnologia que tem criado modelos de negócios diferentes e novas configurações de trabalho. “Esta década será marcada pela automação das tarefas cognitivas, e não apenas das atividades repetitivas”, diz João Lins, diretor executivo da Fundação Getúlio Vargas (FGV). “Quem estiver no mercado nos próximos dez anos vai trabalhar em constante interação com a máquina, não apenas com a mecânica, mas com a inteligência artificial, que toma decisões junto com as pessoas ou no lugar delas.” Na visão de Aguinaldo Maciente, economista e pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), ao mesmo tempo que as corporações terão de lidar com a transformação digital, vão precisar pensar em mais capacitação interna. “As companhias precisam preparar os trabalhadores tendo em vista a baixa qualidade do ensino no Brasil.”Porém, o contexto complexo ainda é assustador para a maioria dos executivos. Segundo um levantamento feito pela consultoria de tendências Gartner, apenas 9% dos líderes de RH acreditam que as empresas estejam preparadas para o futuro do trabalho. Para ajudar os gestores de pessoas nesse processo, cruzamos dados e mapeamos as dez principais tendências do mundo do trabalho

DE CARGOS PARA TAREFAS

O futuro do trabalho requer que as profissões sejam pensadas de maneira fluida, aceitando mudanças e reinvenções. Nada de estruturas fechadas e caixinhas hierárquicas. É o que aponta um estudo feito pela empresa de tecnologia e negócios Cognizant, com base em análises e insights coletados em dez anos de trabalho do Center for The Future of Work (CFoW) da companhia. Isso quer dizer que cargos serão desconstruídos. “O que vai importar é a capacidade de o profissional tocar determinada tarefa, e não o cargo ocupado”, explica Tatiana Porto, diretora de RH da Cognizant no Brasil. Ou seja, a hierarquia não vale mais: a capacidade de execução da atividade e os objetivos desejados são o foco. “É a chamada carreira em nuvem, em que a organização do trabalho é menos baseada em cargos e mais no potencial de contribuição das pessoas”, explica Rafael Souto, presidente da consultoria de carreira Produtive. Na Visa, isso já acontece desde 2017, com a implantação de squads e de metas compartilhadas. Funciona assim: antes de iniciar um projeto, a liderança monta a equipe de acordo com as competências necessárias para que o resultado seja efetivo. No decorrer do processo, se necessário, outros profissionais são chamados para suprir demandas. Hoje, 11 grupos multidisciplinares trabalham dessa maneira em projetos como o Cidades do Futuro, que busca desenvolver ações para aumentar o uso do pagamento eletrônico em cidades brasileiras nas quais ainda há predominância do uso do dinheiro em papel, e a aceitação de pagamento por aproximação para o transporte urbano no Brasil. Nesses casos, é normal um gerente estar à frente de uma equipe que conta com vice-presidentes e diretores. “É uma forma diferente de trabalhar a hierarquia tradicional”, diz Priscila Mônaco, diretora de RH da empresa.

Essa transformação começou em 2016 com a entrada do novo presidente, Fernando Teles. O executivo percebeu que só mudando a forma como os funcionários trabalhavam seria possível alcançar os objetivos estratégicos da companhia. “Sempre fomos uma empresa extremamente matricial e engessada em termos de estrutura. Mas hoje é essencial acompanhar o dinamismo do mercado e não ter medo de implantar inovações”, diz Priscila. Para isso, a companhia fez uma mudança cultural e dois passos foram muito importantes na busca pela nova mentalidade. O primeiro foi conduzir um workshop para todos os funcionários sobre empresas exponenciais com Salim ls mail, diretor executivo e fundador da Singularity University e coautor do já clássico Organizações Exponenciais. A iniciativa partiu de um trabalho conjunto do presidente com a área de estratégia, e contou com o apoio do RH. O segundo passo foi fazer, também para todos, treinamentos sobre metodologias ágeis. “Fomos referência para os negócios da empresa em outros países. Hoje as metas compartilhadas são uma ação global e os squads fazem parte da gestão na América Latina”, diz Priscila.

TODOS SÃO LÍDERES

Uma das tendências mapeadas pela Scoop&Co, agência de pesquisa de mercado, em parceria com a Tera, escola que desenvolve habilidades digitais, é a autogestão. O estudo, feito com 438 profissionais de indústrias de diversos setores, mostra que 73% acreditam que o modelo seja o caminho mais inteligente para atingir objetivos rapidamente. Leandro Herrera, fundador da Tera, explica que, diferentemente de usar metodologias ágeis para tocar projetos (que sempre necessitam de um líder designado), trata-se de urna gestão mais sociocrática, na qual não há chefes nem subordinados. Os papéis e as pessoas podem variar de acordo com o objetivo. “A filosofia da autogestão é a empresa ter um propósito e se organizar para cumpri-lo. Todos são líderes e podem tomar decisões.” Isso agiliza o processo decisório. Em uma pesquisa realizada no departamento de tecnologia do estado de Washington, o tempo para resolver um problema durante uma reunião e tomar uma decisão caiu 93% depois da adoção de práticas de autogestão. Mas, claro, para funcionar, a empresa precisa estar culturalmente pronta. “A busca deve ser por uma cultura corporativa que gere conexão das pessoas com algo maior e que estabeleça autonomia e transparência para incentivar a inovação por meio do empreendedorismo corporativo”, diz Carla Borges, diretora de pessoas da CI&T, multinacional brasileira de soluções digitais.

FUNÇÕES COMPARTILHADAS

Na Europa e nos Estados Unidos, o chamado jobsharing, ou compartilhamento de cargo, já é um conceito bem difundido. Uma pesquisa feita pela consultoria Robert Half mostra que, já em 2014, 48% das empresas do Reino Unido ofereciam esse formato. No Brasil, isso ainda não é muito comum. Mas, no ano passado, a Unilever criou um projeto piloto da prática quando Carolina Mazziero e Liana Fecarotta, diretoras de recursos humanos, sugeriram o formato de trabalho para Luciana Paganato, vice-presidente da área, que concordou com o teste. O resultado foi positivo e, neste ano, o jobsharing passou a incorporar as políticas de gestão de pessoas da empresa complementando o pacote de ações de flexibilidade no trabalho, como home office e horário flexível. Qualquer funcionário pode manifestar o interesse pelo modelo, basta atender a alguns pré-requisitos previstos na legislação trabalhista brasileira (como ser portador de diploma de nível superior e ter salário mensal igual ou superior a duas vezes o limite máximo dos beneficias do Regime Geral de Previdência Social). Além disso, a multinacional leva em consideração o perfil dos profissionais que vão compartilhar o cargo, a coesão e o alinhamento profissional. A ideia central dessa prática é dar liberdade de escolha para o funcionário investir tempo em outras questões, que podem ser networking, cursos de aperfeiçoamento, empreendedorismo ou, até mesmo, dedicar-se mais à família. “As pessoas buscam autorrealização, o que não vem apenas de uma atividade nem só do trabalho”, diz Ligia Zotini, pesquisadora de futuro fundadora do Voicers. “O formato de 8 horas por dia, cinco dias por semana, é uma conta fabril que não funciona mais. Os profissionais não serão mais pessoas que produzem coisas – as máquinas farão isso -, serão profissionais de talento, de criação”, explica Ligia. Porém, como em qualquer prática, alguns cuidados devem ser tomados. Mônica Ramos, diretora de operações da LHH no Brasil, ressalta que nem todas as empresas têm o perfil para essa ação. “O primeiro passo é que a cultura seja ágil”, afirma. Ela recomenda também analisar bem o perfil dos profissionais que vão compartilhar o cargo. Disciplina, planejamento e alto grau de confiança entre a dupla são essenciais. “Oferecer um processo de assessment auxilia nessa escolha”, diz.

GIG ECONOMY GANHA ESPAÇO

Um levantamento feito pelo Fórum Econômico Mundial, que elencou 30 panoramas para 2030, prevê que o mercado pode se democratizar por meio da gig economy (ou “economia dos bicos”, numa tradução livre). Essa linha de pensamento acredita que haverá mais trabalhadores autônomos e as empresas vão mesclar contratos CLT e terceirização. Segundo Daniel Schwebel, que está à frente da Workana no Brasil, plataforma para o trabalho freelance e remoto, as empresas estão descobrindo que podem contratar freelancers para apoiar áreas mais tradicionais, como finanças e engenharia, e não apenas para os serviços mais convencionalmente terceirizáveis, como programação e design. Há dois pilares importantes nesse sentido. De um lado, é preciso que o movimento seja acompanhado por programas governamentais que protejam as pessoas cujo fluxo de renda seja mais instável e imprevisível. De outro, é necessário que as empresas enxerguem essa mão de obra como, realmente, parte do negócio. “O grande desafio é como gerenciar essa força de trabalho”, diz Luíz Barosa de Oliveira, diretor da Deloitte. “Apesar de não ser um empregado, ele precisa ser engajado e entender os valores e a cultura empresariais para operar em seu nível máximo. Esse pessoal precisa ser bem gerenciado e encarado da mesma forma que os colaboradores.

MAIS ROBÔS COMO FUNCIONÁRIOS

Até 2021, a tecnologia de automação robótica vai substituir quase 4,3 milhões de profissionais em todo o mundo nas tarefas mais repetitivas e rotineiras, de acordo com a Forrester, empresa americana de pesquisa de mercado. No Brasil, os passos são mais lentos. Atualmente, há dez robôs para cada 10.000 trabalhadores, segundo a Federação Internacional de Robótica (IRF). A média global é de 74. Porém, na contramão do que vem sendo dito, projeções da Gartner apontam que, em 2020, a inteligência artificial vai criar mais trabalhos do que tirá-los das empresas: serão gerados cerca de 2,3 milhões de empregos, enquanto apenas 1,8 milhão será eliminado. De acordo com Vitório Bretas, executivo da consultoria, a inteligência artificial vai permitir que as organizações utilizem o conhecimento de pessoas que nunca fizeram parte da força de trabalho e, ainda, promover a inclusão. “Com a tecnologia, aqueles que não poderiam mais sair de casa por causa de mobilidade ou de doenças mais sérias poderão trabalhar via computador”, diz. Mas, para isso, é preciso que os RHs implementem programas estruturados de desenvolvimento interno para capacitar os funcionários em competências que os robôs ainda não possuem, como resolução de problemas e criatividade. Se o desenvolvimento humano não fizer parte da estratégia do negócio, não adiantará nenhum movimento de tecnologia. “O RH precisa entender as implicações da transformação digital, mas ter em mente que não se trata só de tecnologia, as mudanças dependem fundamentalmente da transformação das pessoas no trabalho”, afirma João, da FGV.

De acordo com o relatório Technology Outlook 2030 da DNV GL, que capacita as organizações a avançar na segurança e na sustentabilidade, trata-se de um processo natural: os trabalhadores não podem mais ser empregados para a vida toda, passando seus dias em tarefas difíceis, tediosas ou inseguras. “O desafio para as empresas focadas no futuro é descobrir como usar a robótica para obter uma vantagem competitiva. Isso pode significara identificação da combinação ideal entre trabalhadores humanos e máquinas, ou pode envolver a criação de um modelo de negócios totalmente novo”, diz Mel Wolfgang, sócio da consultoria americana Boston Consulting Group (BCG).

DE SEGUNDA A QUINTA

A jornada de trabalho de 40 horas distribuídas em cinco dias ao longo da semana está com os dias contados em alguns negócios. A tendência é que o fim de semana passe a contemplar, também, a sexta-feira. É o que indica a pesquisa do Centro para o Futuro do Trabalho, da Cognizant, que conta com pensadores e acadêmicos de negócios e tecnologia, e o relatório Technology Outlook 2030, da DNV GL. As funções tradicionais desempenhadas das 9 às 17 noras – serão substituídas por contratos flexíveis, tornando o modelo a norma até 2030. A flexibilidade tem relação com o novo jeito de trabalhar, que pode ser de qualquer hora e lugar, e com o novo perfil dos profissionais, que buscam mais satisfação e propósito. Atenta a isso, a fabricante de alimentos Mars aplica a jornada, reduzida desde 2018. Por lá, o empregado pode sair mais cedo todos os dias da semana (às 17 horas em vez de às 18) ou folgar na sexta-feira à tarde. A ideia surgiu de feedbacks dos próprios funcionários, que nas pesquisas internas pediam por isso. “Criamos as duas opções para que todos pudessem usufruir do benefício. Há profissionais, por exemplo, que interagem com outros países e não poderiam folgar na sexta à tarde”, diz Simone Karpinskas, diretora de pessoas e organização da Mars Brasil. Para colocar o projeto em prática, o RH realizou, primeiramente, um programa piloto de verão, com duração de três meses. O objetivo era checar se a prática prejudicaria o desempenho. “Percebemos o contrário. As pessoas ficaram mais comprometidas e preocupadas em entregar tudo para poder usar o benefício”, diz Simone. A comunicação é crucial nesse processo: a companhia reforça que, com a flexibilização, vem a responsabilidade, e prepara os líderes para engajar e auxiliar o time caso haja necessidade. A jornada não foi reduzida no contrato, o que não afeta o salário nem exige a reposição das horas.

SALÁRIO EM CRIPTOMOEDA

A Nova Zelândia foi o primeiro país do mundo a legalizar que os salários sejam pagos em criptomoedas. Trata-se de uma grande mudança para o setor de moedas virtuais, que em vários locais são barradas por causa de aspectos regulatórios e incertezas quanto à tributação. Para tirar o projeto do papel, a Nova Zelândia criou algumas regras. Uma delas é que a criptomoeda usada nos pagamentos deve ser conversível diretamente em uma corretora e em, pelo menos, uma moeda tradicional (como o dólar ou o dólar neozelandês). Outras regras são: o funcionário tem de aceitar o recebimento nessa modalidade e os valores devem ser regulares e fixos. Depois da Nova Zelândia, outros países, como Suíça, Japão, Estônia e Malta, adotaram os pagamentos em bitcoin. No Brasil, a realidade ainda é distante, segundo Cezar Taurion, sócio e head de transformação digital da Kick Ventures, especializada em venture capital para startups. Segundo ele, há aspectos de regulações que variam de acordo com o país e de maturidade tecnológica. “A tendência é o dinheiro desaparecer, mas no Brasil ainda se discute se os motoristas de aplicativos devem ser CLT”, diz.

RECRUTAMENTO E SELEÇÃO COM IA

Já existem softwares capazes de mapear o candidato ideal, cruzando informações fornecidas por eles com os requisitos estabelecidos para a vaga. O sistema consegue separar as melhores opções para a análise posterior do profissional de recrutamento. Essa pré-seleção é muito mais barata, assertiva e rápida para a empresa. A mesma tecnologia permite acompanhar o desempenho dos candidatos durante os processos de entrevistas, testes ou dinâmicas, apontando as melhores características para o cargo determinado.

Por causa do crescimento médio anual de 60% no faturamento da empresa nos últimos anos, o Grupo Movile (holding de empresas de tecnologia como iFood e Sympla) usa a lA para otimizar as contratações. Depois de alguns testes, a companhia usou a assistente virtual Fabi para conduzir uma das primeiras etapas do processo do Mobile Dream, programa de estágio e jovens talentos da companhia. Ela conduzia conversas de 3 minutos para que os candidatos falassem sobre suas trajetórias, desafios e motivações. “Essa assistente nos ajudou a ocultar dos recrutadores informações como idade, gênero, nome e instituição de ensino”, afirma Lucia na Carvalho, vice-presidente de gente e gestão do Grupo Movile. Na visão da executiva, o uso da tecnologia ajuda a dar chance para que mais pessoas participem do processo, pois, manualmente, o número de currículos que podem ser avaliados é menor e fica mais difícil dar feedbacks para todos os participantes. Nesse processo, a empresa alcançou mais de 25.000 inscrições.

SAI O FEEDBACK, ENTRA O FEEDFORWARD

Com as mudanças no mundo do trabalho, que está mais dinâmico e exige respostas rápidas para alcançar bons resultados, os feedbacks também passam por transformações. Por isso, entra em cena o feed forward, o olhar para a frente: uma conversa entre o gestor e o subordinado para avaliar as possibilidades futuras. Algumas companhias já começam a praticar isso. Uma delas é a Zoom & Buscapé, empresa de comércio eletrônico que há dois anos reformulou a estratégia de gestão de desempenho. A mudança deu-se tanto pela preocupação da empresa com as tendências do mundo do trabalho quanto pelas novas demandas dos profissionais (mais exigentes de conversas frequentes e transparência). A palavra de ordem passa a ser desenvolvimento – não mais desempenho. “Para as pessoas se sentirem motivadas, precisam perceber que estão criando novas habilidades e enfrentando desafios que potencializam seu crescimento”, diz Cristiani Oliveira, gerente de pessoas e cultura do Zoom & Buscapé.

Com o apoio de uma plataforma, a empresa conta com quatro ciclos de feedback, chamados de check­in. As conversas têm como ponto central exatamente o olhar para a frente. Líderes e liderados discutem expectativas, prioridades, competências e carreira. “Falamos também sobre o que passou, mas como uma forma de aprendizado, de tirar lições importantes para a evolução profissional”, explica a executiva de RH. Para que o processo fosse bem absorvido por todos, a área de gestão de pessoas fez treinamentos sobre o novo modelo, e passou a reforçar o tema nas reuniões de liderança. “Além disso, no primeiro check­in de um gestor, o RH acompanha o processo para auxiliá-lo.

A REVOLUÇÃO DO 5G

Computadores e celulares inteligentes mudarão nossa vida, e o 5G, cuja chegada ao Brasil está prevista para 2022 (segundo informações públicas do ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações), deve transformar ainda mais. O principal benefício da tecnologia é o impacto na rapidez elas navegações, com a velocidade podendo chegar a 1 gigabit por segundo. Isso significa, por exemplo, que um download que, geralmente, dura 61 minutos será feito em cerca de 15 segundos. Além disso, as chamadas de vídeo serão mais realistas e não haverá atrasos na comunicação. Um relatório da GSMA lntelligence, área de pesquisa da consultoria GSMA, a perspectiva é que o 5G adicione 2,2 milhões de dólares à economia global nos próximos 15 anos.

As relações profissionais começam a ganhar novas formas de flexibilidade, ganha novos contornos, como explica Ligia, do Voicers. Uma das expectativas é a maturação da realidade imersiva, por exemplo. ”A parte digital começará a ter mais força no dia a dia. Com o tempo, provavelmente os computadores e os celulares não serão mais máquinas físicas. Vamos desmaterializar boa parte das telas, que serão projetáveis com o auxílio da realidade aumentada”, explica. A flexibilidade nasce desse processo, em que o escritório vai estar em qualquer local, num lugar imersivo, por exemplo. As pessoas poderão estar mais próximas, mesmo distantes fisicamente. Com isso, ganham-se proximidade, conexão e mobilidade”, diz. Mas ela ressalta que o contato humano não vai desaparecer, será apenas facilitado. O Facebook, por exemplo, em seu evento mundial de 2019, Oculus Connect 6, apresentou uma ferramenta ainda em testes para seus óculos de realidade imersiva – batizados de “teletransporte social”. A ideia é que os óculos tenham a funcionalidade de escanear um ambiente e, em tempo real, reproduzi-lo virtualmente. O objetivo é fazer com que as conexões virtuais aconteçam de forma cada vez mais realista. Se der certo, será possível reproduzir o espaço em que estivermos instantaneamente e “tele transportar” quem desejarmos, permitindo aos usuários estar em qualquer lugar, com qualquer pessoa, independentemente de fronteiras geográficas. ”As relações de trabalho serão certamente impactadas e modificadas. Não sentiremos mais muita diferença em trabalhar no escritório ou em casa”, diz Ligia.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

MACHISTAS RADICAIS

Ideais misóginos antes cultivados principalmente em fóruns obscuros da internet começam a ganhar espaço no Brasil em canais veiculados pelo YouTube

Até recentemente, eles se escondiam nas sombras da chamada deep web, a camada da internet preferida por traficantes, hackers, pedófilos e afins. Naqueles obscuros e abissais territórios, glorificavam seus heróis – muitas vezes, criminosos como os do massacre de Suzano, em São Paulo, ocorrido há um ano na Escola Estadual Professor Raul Brasil – e professavam toda sorte de radicalismos, entre os quais a defesa da supremacia branca, a homofobia e a misoginia. Nos últimos meses, pelo menos um desses preconceitos, a aversão às mulheres, vem conquistando espaço no Brasil em plena web tradicional, por meio de canais veiculados pelo YouTube.

Com uma vasta produção de vídeos, esses canais e seus apresentadores têm entre o público uma parcela de homens, adultos em sua maioria, que se dividem em dois grupos: os auto­ proclamados incels (uma redução da expressão em inglês para “celibatários involuntários”) e os MGTOW (homens seguindo o próprio caminho, na sigla inglesa). Os incels são aqueles que não conseguem ter relações sexuais com mulheres, ainda que anseiem por isso. Já os MGTOW defendem a tese de que os homens devem evitar casamento e união estável com o sexo oposto, bem como relacionamento com mães solteiras, para fugir da armadilha de mulheres que só teriam motivações financeiras. Para ambos os grupos, o feminino é, por assim dizer, a causa de seus tormentos.

Nos conteúdos que divulgam, os youtubers desses estilos de vida se definem, muitas vezes, como membros da “machosfera” – a parte da internet na qual podem antagonizar com as mulheres. Canais como Newman LM, que tem 100.000 inscritos, classificam as representantes do sexo feminino de hipergâmicas, interessadas em homens com privilégios genéticos e econômicos. Segundo eles, esse comportamento faz com que 80% delas busquem sucesso amoroso com apenas 20% dos integrantes do sexo masculino, justamente os que estão no topo da hierarquia do que consideram como “boas características físicas”. No corte mais baixo, dizem os misóginos “virtuais”- mas bem “reais” em suas atuações -, ficam os 10% dos homens que nunca terão êxito no amor.

Esse modo de interpretar as atitudes das mulheres e a condição masculina levou os machões a criar um vocabulário próprio. Entender o funcionamento das relações entre os sexos sob tal perspectiva, acreditam os misóginos, transforma-os em “homens da pílula vermelha” – uma referência ao filme Matrix (1999), das americanas Lana e Lilly Wachowski. No longa-metragem, o protagonista Neo, interpretado pelo ator Keanu Reeves, ganha duas pílulas e tem de escolher qual delas tomar: a azul, que permite a ele continuar vivendo em um mundo ilusório, e a vermelha, que lhe dará plena consciência da realidade que o cerca. Os integrantes da machosfera estão convencidos de que, na pele de “homens da pílula vermelha”, conseguem enxergar os conflitos criados pelas diferenças de gênero. Quando um representante do sexo masculino admite ideias contemporâneas como a da liberdade feminina e a da igualdade de direitos entre homens e mulheres, ele estaria apenas aceitando uma versão fabricada da realidade – ignorando a tradição de povos antigos que determinavam uma suposta e também natural superioridade do macho. A partir daí, acreditam os misóginos, o indivíduo do sexo masculinos e reduz à posição de capacho feminino. No termo machista que aproxima as palavras homem e vagina, torna-se um “mangina”.

O youtuber Rodrigo Ferrari, formado em filosofia e conhecido pela alcunha de Platinho – uma alusão ao pensador grego Platão -, congrega cerca de 50.000 fãs no YouTube, em que comanda dois canais que têm como público-alvo homens que se identificam com pensamentos antifeministas. Para se ter uma ideia do conteúdo que Platinho veicula, tome-se como exemplo um vídeo deste ano em que ele analisa a possibilidade de se tornar aceitável a troca de esposas de carne e osso por bonecas robóticas de silicone. “Ao se despir de todos os tabus, é racional valer-se de um brinquedo desses para se satisfazer”, afirma ele. “No entanto, não é racional assumir isso publicamente”, pondera. Na área de comentários do vídeo, é exaltado pelos seguidores que uma boneca sexual livraria os homens de recaídas em relacionamentos com mulheres reais, e as condenaria – numa inversão de valores – ao status de mero objeto.

Platinho, todavia, garante que não endossa os comportamentos misóginos que os conteúdos de seus canais alimentam. “O sujeito chega até os vídeos com raiva por causa do que passa na vida e põe isso para fora nesse ambiente.” Na contenção de possíveis discursos de ódio, o youtuber recruta mulheres para moderar os comentários e evitar que as ofensas ao sexo feminino saiam do controle. Os assinantes costumam reclamar da providência.Longe do Brasil, os misóginos virtuais começaram a ganhar notoriedade em 2014 – por meio de atos de extrema violência. Naquele ano, o incel Elliot Rodger matou seis pessoas, feriu catorze e depois se suicidou na Califórnia (EUA). Ele reclamava da rejeição feminina e disse que seu sofrimento seria pago com mortes. Quatro anos depois, seu ato foi lembrado por outro celibatário, em um atentado em Toronto, no Canadá. Alek Minassian atropelou dez pedestres. Antes, deixou uma mensagem no Facebook: “A rebelião incel já começou! Em memória do guerreiro Elliot”. A má fama dos incels deu fôlego aos MGTOW. Juntos, os dois grupos misóginos se aproximam do que de mais retrógrado – e perigoso – a internet pode abrigar. E essa não é uma ameaça só às mulheres.

OUTROS OLHARES

BARRADOS NA AMÉRICA

O pesadelo dos brasileiros que, flagrados ao tentar entrar de forma ilegal nos Estados Unidos, são enviados a abrigos no México ou despachados de volta para cá em voos fretados

Ao embarcarem em Belo Horizonte com destino à Cidade do México para iniciar uma longa, perigosa e incerta jornada, Jones Silva de Brito, de 35 anos, e Tânia Costa Oliveira, 32, carregando a tiracolo uma filha de 6 anos, deixaram para trás as poucas perspectivas profissionais (ela trabalhava por aqui como cabeleireira, enquanto ele tinha acabado de perder o emprego de carregador de caixas) e as muitas ameaças de uma agiota pelo não pagamento de um empréstimo para erguer a casa própria, cuja construção acabou atrasando e consumindo antes do tempo as reservas destinadas à obra. Depois de uma espera de três dias em um hotel, eles encararam 24 horas de estrada até Ciudad Juárez, a última parada antes dos Estados Unidos. No fim da manhã de 22 de janeiro, realizaram uma rápida travessia a pé pelo Rio Grande, com água pelos tornozelos, até a terra prometida. A epopeia terminou em desilusão: depois de cinco dias detida pelas autoridades americanas, sem maiores explicações, a família foi colocada em um ônibus e levada de volta para Ciudad Juárez. “Quando soube que ia ficar no México, bateu um desespero e comecei a chorar”, conta Tânia. Ao lado de outros 100 brasileiros e de muitos outros latinos, os mineiros aguardam – com pouquíssimas chances de sucesso – na Casa del Migrante, albergue mantido pelo governo local, a decisão que determinará se poderão ou não realizar seu sonho: viver nos Estados Unidos.

Nunca foi fácil atravessar a fronteira entre o México e os Estados Unidos. Desde o começo do ano, porém, os brasileiros que tentam acessar clandestinamente o território americano vêm enfrentado uma barreira a mais na conquista da América: uma mudança na regra. Até pouco tempo atrás, quem conseguisse cruzar o Rio Grande entregava-se às autoridades de lá, ingressando imediatamente com um pedido de asilo ao chegar, em uma prática conhecida como “cai- cai”. Passados vinte dias, o prazo máximo que famílias com menores de idade podiam ficar detidas, um magistrado geralmente permitia a entrada no país, desde que elas se apresentassem à Corte periodicamente, até o caso ser julgado. Na prática, abriam-se as portas para a imigração ilegal, pois a condição raramente era cumprida. Os “coiotes”, como são conhecidos os agenciadores que conduzem os imigrantes pelas áreas da fronteira, vendiam seus serviços às famílias no Brasil com a promessa de tirar proveito dessa brecha na legislação. “Eles diziam às pessoas que elas teriam um ‘probleminha’ na chegada, mas acabariam soltas em seguida, podendo ir para onde quisessem nos Estados Unidos”, afirma Nestor Forster, indicado pelo presidente Jair Bolsonaro à embaixada brasileira nos Estados Unidos (ele será submetido à sabatina no Senado em data ainda não definida pela Comissão de Relações Exteriores do Congresso).

A prática do “cai- cai” começou a ficar mais perigosa em 2019, quando o governo Trump criou os Protocolos de Proteção ao Migrante (MPP, na sigla em inglês), também conhecidos como o programa “Fique no México”. De acordo com as novas regras, imigrantes que entraram nos Estados Unidos atravessando a fronteira sul são “devolvidos” e precisam aguardar em território mexicano a decisão sobre o pedido de asilo. Essa definição pode demorar meses, e a possibilidade de uma resposta positiva é remota: apenas 1% dos pedidos recebe aprovação. Em 29 de janeiro de 2020, a novidade nada auspiciosa: Trump incluiu os brasileiros nesse programa. Desde sua implementação, o MPP tem sido alvo de denúncias por expor as famílias com menores de idade a um ambiente de violência. Um levantamento da ONG Human Rights First identificou mais de 1.000 casos de sequestro, tortura, estupro e assaltos contra imigrantes enviados ao México. Ciudad Juárez, para onde eles são transferidos, já foi considerada na década de 90 do século passado uma das cidades mais perigosas do mundo (e não melhorou muito desde então). Ali, a rotina dos hóspedes da Casa Dei Migrante é restrita às refeições diárias, brincadeiras com os filhos no pátio e, no máximo, idas a comércios nas imediações. Por volta das 20 horas, todos os dias, os abrigados devem se recolher para dormir. No último dia 28, houve um clima de comemoração com o anúncio de uma decisão de três juízes de uma Corte de São Francisco que suspendeu o MPP. A euforia durou apenas algumas horas, até que o governo federal ganhou um recurso contra a medida. “Brasileiros, guatemaltecos e hondurenhos fizeram festas, orações, agradeceram… Depois, ficou todo mundo triste, sem saber o que fazer”, relata a mineira Tânia Oliveira.

Enquanto os brasileiros amargam em Juárez os efeitos do programa “Fique no México”, os compatriotas que conseguiram furar a barreira e vivem ilegalmente nos Estados Unidos (mesmo aqueles que estão há anos lá) nunca correram tantos riscos como agora. Em uma mudança de política em relação aos governos anteriores, o presidente Jair Bolsonaro aceitou facilitar as regras de deportação. Em outubro de 2019, o Palácio do Planalto autorizou o despacho para cá, em voos fretados, de brasileiros presos na fronteira – algo não permitido anteriormente, pois o sistema era considerado degradante para as pessoas. Agora, elas têm sido deportadas em massa depois de passar por provações em prisões americanas que pretendem desencorajar a migração. A comida, por exemplo, resume-se a burritos, batatas chips e maçãs. Debaixo de um ar condicionado inclemente, que torna o ambiente extremamente gelado, cada imigrante tem direito a uma manta térmica de alumínio e dorme no chão. Celas com capacidade para quinze pessoas abrigam 35, e as das mulheres são apinhadas de crianças, com pessoas dormindo ao lado do vaso sanitário. Após essa desagradável temporada, o bilhete de volta. Desde outubro, seis aviões decolaram do Texas e pousaram em Belo Horizonte trazendo mais de 400 imigrantes presos na fronteira. Na sexta 6, estava previsto o sétimo desembarque do tipo, com 58 passageiros. O destino é sempre Minas Gerais porque a maior parte dos deportados vem do estado.

Cada voo fretado custa cerca de 230.000 dólares, mas o valor é um fator menos importante para as autoridades americanas. Mais tolerantes com os imigrantes brasileiros no passado, os Estados Unidos começaram a ver o Brasil como porta de entrada para ilegais de outras nações. “O país tem sido um canal para que pessoas mesmo de fora do Ocidente cheguem aos Estados Unidos. As nações da América Central estão policiando as próprias fronteiras, protegendo melhor sua soberania. Esperamos ver o Brasil fazer mais isso, além de expedir o retorno de brasileiros que vieram para cá ilegalmente. Essa é uma parte importante de ser um bom aliado”, cobrou o vice-secretário de Segurança Interna dos Estados Unidos, Ken Cuccinelli, dois dias antes da mudança que afetou os brasileiros. Tais declarações, que poderiam ter sido muito mal recebidas no passado, foram polidamente obedecidas pelo Itamaraty. O “bom aliado” Bolsonaro já declarou que “a maioria dos imigrantes não tem boas intenções”, e seu filho Zero Três, Eduardo, outrora cotado para ocupar a embaixada em Washington, chegou a dizer que “brasileiro ilegalmente fora do país é problema do Brasil, é vergonha nossa”.

Antes da aplicação oficial do programa aos brasileiros e da abertura para as a deportações em massa, o governo Trump já vinha endurecendo sua política de barrar os migrantes que saíam daqui. De acordo com dados do Departamento de Alfândegas e Proteção das Fronteiras dos Estados Unidos para o ano fiscal de 2019, 17.893 brasileiros foram presos nas fronteiras com o México, salto de 1.090 % ante os 1.504 de 2018. Números parciais entre outubro de 2019 e 31 de janeiro de 2020 mostram 5.576 detenções nessas regiões. Apesar do crescimento exponencial no total de prisões, o número de deportações variou apenas 4,7% no mesmo período, de 1.691 para 1.770. ”As pessoas eram detidas na fronteira, mas muita gente ainda entrava”, explica um diplomata com posto nos Estados Unidos a respeito do descompasso. Membros do Itamaraty avaliam que a inclusão no MPP deverá, no entanto, refletir-se em ainda mais deportações de brasileiros do território americano daqui por diante. Entre outubro de 2019 e fevereiro de 2020, 947 já haviam sido deportados. Se a média se mantiver até o fim do atual ano fiscal, em setembro, o número de 2019 será superado em quase 30%.

Além de levarem em conta o desemprego no Brasil e a perenidade de um baixo crescimento econômico, especialistas atribuem a evolução dos números a dois fatores. Um deles é o sentimento de “agora ou nunca” dos imigrantes diante da retórica de Trump, que inclui a construção do famigerado muro na fronteira entre Estados Unidos e México. Um número maior de pessoas começou a se arriscar mais “enquanto é tempo”. O outro fator é a mudança no radar dos “coiotes”, os criminosos que vivem de contrabandear os estrangeiros para dentro do território americano. Recentemente, eles expandiram sua atuação no Brasil para além de Minas Gerais, tradicional polo de imigração para os Estados Unidos, depois que o governo do México dificultou a entrada no país via Guatemala. Um dos estados mais visados pelos criminosos atualmente é Rondônia. “Os ‘coiotes’ são invisíveis, mas acessíveis. Nessas cidades, basta começar a falar do desejo de ir para os Estados Unidos que rapidamente alguém passa o telefone de um desses caras”, diz a socióloga Sueli Siqueira, da Universidade Vale do Rio Doce, estudiosa das migrações de brasileiros para os EUA.

No caso dos brasileiros que foram mandados de volta para o México, as sessões que definirão a entrada ou não deles em solo americano estão marcadas para o fim de abril. Enquanto isso, o governo mexicano lhes fornece documentos que permitem matricular filhos em escolas e ter acesso a assistência médica. A promotora de vendas L.P.S., 32 anos, viajou de Goiânia com o filho de 14 anos e alega sofrer ameaças do ex-marido para conseguir asilo. “Eu vou esperar até abril, porque não posso voltar para o Brasil. Sou divorciada há sete meses, e ele me batia muito”, explica. Por meio de um “coiote”, L. gastou 20.000 reais no percurso Goiânia-Ciudad Juárez. A exemplo de outros compatriotas, ela saiu daqui pouco antes da inclusão do país no programa mais rigoroso, com o objetivo de se estabelecer em Boston, onde vivem aproximadamente 350.000 brasileiros. A maioria dos imigrantes ouvidos viajou na semana anterior à mudança nas regras e relata ter sabido da novidade quando eles já estavam detidos em El Paso. “Meu irmão disse que tinha lido em algum lugar sobre esse assunto, mas o ‘coiote’ falou que “não podemos confiar nessas coisas de internet”, afirma Maria de Fátima Silva, de 27 anos, desempregada que partiu de Carmo do Paranaíba (MG) com uma filha de 3 anos, dois irmãos e dois sobrinhos. Ela também está no albergue em Ciudad Juárez e pretende voltar quanto antes para o Brasil, sem esperar a decisão do juiz de imigração. “Meu sonho americano foi por água abaixo”, lamenta.

As histórias de frustração e as péssimas experiências na tentativa de imigração, no entanto, não tiraram o ânimo de todos os brasileiros que se lançaram à aventura americana. No avião que pousou em Confins em 14 de fevereiro, o técnico de informática Fabiano Xavier Comelli, morador de Buritis (RO), preso por 22 dias com a mulher e dois filhos em El Paso, disse ter ouvido de quatro passageiros que eles procurarão entrar novamente nos Estados Unidos. ”A turma falou que vai tentar atravessar pelo deserto”, contou. Outro recém-deportado, Allan Silva, de 25 anos, morador de Governador Valadares, buscará convencer a mulher a fazer uma nova tentativa no futuro. “Ela ficou traumatizada coma experiência”, conta. “Mas, por mim, se tiver oportunidade de voltar pra lá, eu voltarei sim”, garante. Infelizmente, o desejo de uma vida perfeita na América seduz mesmo aqueles que acabaram de experimentar um autêntico pesadelo. Se a mesma obstinação fosse empregada por aqui, talvez o Brasil fosse diferente.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 20 DE MARÇO

O MILAGRE DA ANUNCIAÇÃO A MARIA

… Maria, não temas; porque achaste graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem chamarás pelo nome de Jesus (Lucas 1.30b,31).

O nascimento de Jesus foi anunciado pelo anjo Gabriel à jovem Maria, em Nazaré da Galileia. Deus escolheu uma jovem pobre, de uma cidade pobre, para ser a mãe do Salvador. Deus escolhe as coisas fracas para envergonhar as fortes. Maria devia ser muito jovem e ainda não tinha sido desposada. Quando recebeu a visita do anjo Gabriel, ficou alarmada. Quando soube que havia sido agraciada por Deus para ser a mãe do Salvador de seu povo, quis saber como isso aconteceria, pois não tinha relação com homem algum. O anjo explica que a sombra do Altíssimo a envolveria e ela conceberia por obra do Espírito Santo, de tal forma que seu filho seria o Filho do Altíssimo. Maria humildemente diz: Aqui está a serva do Senhor; que se cumpra em mim conforme a tua palavra (v. 38b). Parece que Deus chegou adiantado em Nazaré, pois escolheu uma jovem ainda não casada para ser a mãe de Jesus. Maria, porém, está disposta a enfrentar preconceito e ameaça, uma vez que poderia ser abando nada pelo noivo e até mesmo apedrejada pelo povo. Mas ela não teme. Ao contrário, crê em Deus, e o Senhor a exalta.

GESTÃO E CARREIRA

FACILITANDO A AGILIDADE

O agilista, profissional que auxilia na implementação de metodologias ágeis, está em alta

Empresas de todos os setores e portes estão preocupadas em se manter competitivas neste mundo em constante mudança. Tanto é que uma projeção do IDC, consultoria de inteligência de mercado, aponta que os gastos com tecnologia para transformação digital chegarão a 6 trilhões de dólares até 2022. Um dos reflexos desse cenário é o nascimento de novas funções. Uma delas é o agile coach, ou agilista, responsável por orientar as equipes na implementação de metodologias ágeis, fornecendo ferramentas, treinamento e mentoria. De acordo com um levantamento do LinkedIn, entre 2015 e 2019 houve crescimento médio de 53% na procura por esses profissionais. “Todos os negócios, dos mais tradicionais aos mais inovadores, precisam desse funcionário. A agilidade é o combustível dos novos modelos ele trabalho”, afirma Rafael Souto, presidente da Produtive, consultoria de carreira. Segundo ele, muitas das empresas que estão trabalhando nas mudanças exigidas pelo novo mundo do trabalho não obtêm sucesso por não dominarem os métodos ágeis.

No Grupo Zap, plataforma de aluguel e venda de imóveis, há um time de agilistas que atua dentro do departamento de design, produto e engenharia. Diana Neves, de 35 anos, faz parte da equipe. Formada em letras com especialização em antropologia – o que a ajuda a entender o comportamento humano, uma das habilidades necessárias para a profissão -, ela viu na atividade uma forma de tocar projetos com mais fluidez. “Trabalhava com lançamento de produtos e sofria com a dificuldade de os projetos avançarem. A agilidade surgiu ao buscar soluções”, diz. Em 2015, Diana começou a fazer cursos de metodologias ágeis para ter ferramentas que a ajudassem a lidar com equipes multidisciplinares e a encontrar soluções para problemas em cenários complexos.

Há cinco anos na área, Diana garante que o mercado está bem aquecido – o que possibilitou a ela buscar uma empresa alinhada a seus valores. Há sete meses no Grupo Zap, sua função é conversar com os times para auxiliá-los a agilizar e a simplificar processos, priorizando tarefas e focando o que é estratégico para o negócio. “Além de domínio técnico, o agile coach precisa entender de pessoas e saber como influenciá-las. Sem isso, não consegue que o time aplique a metodologia da maneira certa”, diz Caio Arnaes, diretor de recrutamento da Robert Half.

UM DIA NA VIDA

ROTINA DE TRABALHO

Horas trabalhadas: de 8 a 12 por dia

SALÁRIO***

De 9.250 a 18.850 reais***

***Pesquisa feita em janeiro de 2020 no LinkedIn e no Glassdoor

***Valores do Guia Salarial 2020 da Robert Half. Os valores variam conforme níveis de qualificação, eficiência do candidato, complexidade do cargo ou indústria, o setor de atuação e a demanda pela posição.

DIVISÃO DO TEMPO

40% – Em ações de melhoria e facilitação de experimentos

20% – Em reuniões com times e áreas

20% – Medindo resultados e adaptando ações

20% – Compartilhando conhecimentos e resultados

O QUE FAZER PARA ATUAR NA ÁREA:

Certificações referentes a métodos ágeis, como Kanban, Scrum Master e Lean, além de Management 3.0, Learning 3.0 e Cynefin.

PRINCIPAIS COMPETÊNCIAS:

  • Domínio técnico
  • Comunicação objetiva
  • Habilidade em mentoria e multiplicação de conhecimento
  • Inglês fluente
  • Resillência
  • Resolução de problemas
  • Adaptabilidade
  • Facilidade para trabalhar com métricas
  • Liderança

ATIVIDADES – CHAVE:

• Conduzir os times no uso de metodologias ágeis

• Disseminar a cultura ágil

• Organizar sessões de melhorias com os times

• Definir e acompanhar métricas e indicadores das equipes

• Gerir os orçamentos dos processos

PONTOS POSITIVOS:

Poder contribuir com a transformação digital – e de gestão – da empresa, pensando nas novas demandas do mercado, e levar mais agilidade às equipes, proporcionando menos sobrecarga de trabalho.

PONTOS NEGATIVOS:

Em muitas empresas, os profissionais podem esbarrar com a rejeição ao uso de metodologias ágeis ou com a ideia de que se trata, apenas, de conduzir as atividades de forma mais rápida.

QUEM CONTRATA:

Companhias que estejam em processo de transformação digital, principalmente nos setores de tecnologia, serviços e financeiro; e startups mais estruturadas.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

PALAVRAS DITAS, TROCADAS E CALADAS

Lapsos verbais, como a inversão de silabas, a pronúncia de vocábulos, frases que parecem simplesmente “escapar” de nossos lábios e até estranhos esquecimentos pontuais revelam como a comunicação se estrutura além das intenções puramente racionais

Algumas vezes cômicos, outras constrangedores, os lapsos de linguagem dificilmente passam despercebidos. Se o autor do deslize é famoso, na certa o episódio vai parar na internet. Nos últimos dias de dezembro, por exemplo, o apresentador da rede Globo William Bonner falava sobre um eclipse solar quando trocou a palavra ”lua” por “lula”. O erro foi cometido enquanto apareciam imagens do fenômeno.

Porém, foi possível perceber que o apresentador notou o equívoco, pois riu e se corrigiu imediatamente. “Milhões de terráqueos que vivem na Ásia puderam testemunhar hoje um eclipse solar anular. A lula… a lula… a lua (risos) se posicionou entre a Terra e o Sol”, disse Bonner. O engano repercutiu nas redes sociais e muitos associaram a falha à enorme preocupação do apresentador e da emissora com o reconhecimento que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva possa ter, a despeito da aparente antipatia da emissora por ele.

O fato é que, além da diversão que proporcionam ao público e do embaraço que causam aos autores, lapsos podem ser bastante intrigantes? Por que acontecem? O que podem nos dizer sobre o funcionamento da mente? Entre os precursores das pesquisas sobre lapsos de linguagem estão o filólogo Rudolf Meringer e o psiquiatra Karl Meyer, autores do livro Erros na fala e na leitura: um  estudo psicológico, no qual constam cerca de 8.800 erros verbais de escrita e de leitura. O principal objetivo era elaborar classificações, mas os autores também tentaram determinar a existência de  mecanismos psíquicos associados ao fenômeno, particularmente aos sons proferidos, pois atribuíam valor psicológico aos fonemas.

Sigmund Freud abordou o lapso com profundidade em Psicopatologia da vida cotidiana, de 1901. O pai da psicanálise não poupou críticas à abordagem de Meringer e Mayer e propôs que o lapso seria a confissão involuntária de um conflito interior, de um pensamento escondido em si mesmo e removido da consciência. Para Freud, é a dimensão involuntária que dá valor particular ao lapso. “No procedimento psicoterapêutico que utilizo para resolver e eliminar os sintomas neuróticos apresenta-se com frequência a tarefa de encontrar um conteúdo mental nos discursos e nas ideias aparentemente casuais do paciente”, escreveu.

Esse conteúdo tenta ocultar-se, mas não consegue evitar trair-se inadvertidamente de diversas maneiras. É para isso que, em geral, servem os lapsos. Por exemplo, falando da tia, um paciente insiste em chamá-la de ‘minha mãe’ sem perceber seu erro, ou ainda uma senhora que fala do marido como se fosse o ‘irmão.’ Para esses pacientes, tia e mãe, marido e irmão são, portanto, ‘identificados’, ligados por uma associação pela qual se evocam mutuamente”, escreveu.

MEDOS E DESEJOS

Não há consenso sobre as interpretações psicológica e psicanalítica dos “escorregões” da fala. Para alguns autores, a explicação freudiana dos lapsos é útil apenas em um número limitado de casos. Uma hipótese muito mais simples sugere que esse tipo de erro ocorre devido à complexidade cognitiva da linguagem. Segundo essa abordagem, os lapsos revelariam muito mais sobre sua estrutura e uso que sobre nossas intenções inconscientes. Hoje, algumas áreas da linguística e da psicolinguística consideram os equívocos fenômenos esperados no fluxo do discurso e os analisam como reflexos do mecanismo de produção da linguagem.

No entanto, não conseguem explicar por que, quando investigados mais a fundo, os tropeços invariavelmente esbarram em conteúdos psíquicos inconscientes. Essa constatação, entretanto, não elimina a evidência de que o lapso não é uma forma normal de comunicação, mas seu funcionamento fornece informações preciosas que ajudam a compreender certos aspectos cognitivos da fala. Isso não exclui, naturalmente, a interpretação freudiana, segundo a qual os lapsos expressam medos ou desejos que escondemos até de nós mesmos.

Experiências realizadas pelo pesquisador Michael T. Motley, da Universidade da Califórnia em Davis, ampliam o enfoque psicanalítico. Seu grupo elaborou uma série de testes que manipulavam os desejos dos sujeitos, induzindo-os a cometer enganos.

CONTRA O TEMPO

Grande parte do crédito à abordagem moderna do estudo dos lapsos cabe a Victoria Fromkin, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, que nos anos 60 deu início a um paciente trabalho de coleta de milhares de exemplos. De suas pesquisas conclui-se que os lapsos verbais seguem, em geral, as mesmas regras. A troca de palavras (por exemplo, “sacuda os pratos e lave a toalha”), observada quando se invertem dois vocábulos na mesma frase, ocorre quase sempre com termos que pertencem à mesma categoria gramatical ou sintática (verbos por verbos, substantivos por substantivos).

Já os lapsos de substituição, nos quais uma palavra é trocada por outra externa à frase, acontecem entre termos da mesma categoria semântica (“gato” no lugar de “cachorro”). É o caso, extremamente constrangedor, mas não raro, de alguém que vai ao velório e ao se dirigir à família do falecido diz “Parabéns” em vez de “Meus pêsames”.

Existem também erros de deslocamento (de um ponto a outro na frase), de perseverança (reutilização de um elemento depois de sua colocação no lugar correto), de antecipação (utilização de palavra ou sílaba antes de sua colocação correta) ou de amálgama (união de dois elementos para formar um terceiro, quase sempre inexistente).

Um exemplo de lapso de perseverança é dizer que Roma foi fundada pelos irmãos, ”Rômulo e Remolo.”

Rômulo e Rêmolo”, quando o correto é Rômulo e Remo.

Os enganos mais comuns implicam a troca de palavras e de fonemas, o que sugere que esses dois elementos são particularmente importantes na elaboração do discurso. No entanto, segundo a teoria linguística, existe uma hierarquia entre as várias unidades da linguagem (frase, palavra, morfema, sílaba, fonema), mas diversos tipos de lapsos podem ocorrer em qualquer um desses níveis.

Afinal, falar é uma tarefa cansativa. Uma verdadeira corrida contra o tempo. Escolhemos em média três palavras por segundo de um vocabulário de pelo menos 40 mil, que para serem pronunciadas recrutam aproximadamente 100 músculos. As possibilidades de errar, portanto, são inúmeras.

JOGOS LINGUÍSTICOS

Muitos lapsos terminam em brincadeira. Foi o caso do sacerdote anglicano e professor da Universidade de Oxford William-Spoaner (1844-1930), cuja· inclinação para trocar a primeira letra ou sílaba das palavras tornou-se célebre, dando origem a uma categoria particular de jogos de palavras chamados “spoonerismos”.  São atribuídos a ele lapsos com o tons of soil (toneladas de terra) em vez de sons of toil (filhos do sacrifício) e our queer dean (o nosso excêntrico presidente) no lugar de our dear queen (nossa prezada rainha).

O equivalente francês é a contrepeterie, espécie de jogo que parece ter sido introduzido na França  pelo renascentista Francês Rabelais (1483-1553). Entre os notáveis praticantes dessa “arte da palavra” estão outros franceses, como o escritor Victor Hugo (1802-1885), o pintor e escultor Marcel Duchamp (1887-1968 ) e o poeta Jacques  Prévert (1900-1977), autor do trocadilho  Partir c’est mourir un peu/ Martir c’est pourir un peu(partir é morrer um pouco/ martir é apodrecer um pouco).

Na língua portuguesa, quando um fonema (ou um de seus elementos) e deslocado de uma silaba a outra (por exemplo, ”tauba” no lugar de tábua), fala-se em hipértese – fenômeno muito comum no modo de falar caipira. Se essa troca se estender à frase (como no divertido “transmimento de  pensação”) temos; a hipértese intervocabular, o que soaria apenas como uma brincadeira de  palavras, uma informalidade jocosa da língua, tornou-se recurso literário nas mãos de escritores como Millôr Fernandes na fábula “A baposa e o rode”, escrita toda com spoonerismos. No poema “Diversonagens suspersas”, Paulo Leminski (1944-1989) juntou as palavras personagens suspensas, dispersas para falar do fazer poético. Na literatura em geral, os erros linguísticos, longe de constranger, encantam e comovem.

Como disse Leminski: “A única razão de ser da poesia é o anti- discurso. Poesia, num certo sentido, é o  torto do discurso. O discurso torto.

OUTROS OLHARES

O VÍRUS DA DESINFORMAÇÃO

Há algo que pode ser ainda mais preocupante que o coronavírus – a proliferação de teorias conspiratórias e boatos que grassam nas redes sociais

Não se trata, evidentemente, de cobrir com uma máscara, como se fosse inexistente, o coronavírus, um problema de saúde pública que, até a quinta-feira 5, já tinha provocado a morte de 3.281pessoas, majoritariamente na China e sobretudo de pessoas com mais de 70 anos, e mais de 95.000 diagnósticos mundiais confirmados, oito deles no Brasil. Não é o caso, naturalmente, de minimizar as 107 mortes na Itália, atalho para o esvaziamento de cidades e interrupção das aulas. E, no entanto, a epidemia, para muito além de seu poder virótico cada pessoa infectada pode contaminar mais de três, com uma taxa de mortalidade de 3,4% -, esconde outro embaraço, global e assustador: a velocidade com que se dissemina o pânico, banhado em mentiras e estultices. O vírus da desinformação é mais forte que o vírus bioquímico. Na política, o mal tem nome – fake news e se alastrou como ferramenta para vencer eleições, dizimar inimigos, tomar o errado como certo, nos moldes do que Donald Trump alimentou durante a campanha presidencial de 2016 e nunca mais largou mão. Agora, com a lorota infeccionando o mais decisivo capítulo de qualquer sociedade, o da sanidade de seus cidadãos, dá-se a tempestade perfeita e preocupante. Nunca antes uma expressão nascida da ciência e adotada pelas novas tecnologias – a “viralização” – ganhou tanta clareza. “Viralizamos” virtualmente, por meio das redes sociais, uma coleção de lorotas em tom de um vírus real. Não por acaso, já em 1992, uma matéria destinada tratar de uma estúpida onda de balelas estampou a seguinte chamada “O vírus da fofoca e da maldade contamina o país”. O que assustava, naquele momento, era o boato, entre outros, de que a atriz Claudia Raia tinha aids – pressionada, ela convocou uma entrevista para negar a informação e mostrar o teste negativo para o HIV.

Os tempos mudaram, e para pior O que antes ia de boca em boca, e processo lento e gradual, ainda que inevitável e ardiloso, atualmente corre em postagens no Twitter, em tela no Instagram e em comentários no Facebook – além da circulação desenfreada de falsidades pelo WhatsApp. Grassa por aí, como doença se remédio, a notícia atribuída a espertalhões da Rússia de que o coronavírus foi uma criação americana para derrubar a argui- inimiga economia chinesa. Outro rumor informa que tudo começou como desvio inesperado do desenvolvimento de armas químicas pelo governo da China. No Brasil, boas bocas que se apresentam como “guardiões do Bolsonaro” saíram dizendo pela internet, avidamente, que “essa manifestação do dia 15 foi pensada nos porões da esquerda para disseminar o coronavírus entre os apoiadores do presidente, pois ela vai acontecer bem no auge da propagação do vírus” Não, não e não.

Toda pessoa de bom-senso há de notar, rapidamente, as bizarrices dessa coletânea de informações tortas, claramente inverossímeis. Mas existe algo pérfido, e que a própria Organização Mundial da Saúde (OMS) batizou de “infodemia”, a mistura irresponsável e calculada de dados reais, concretos e apuráveis, amparados em pesquisas, com exageros criminosos. O medo – e o medo de adoecer talvez seja o mais humano de todos – é um caldo de cultura para a expansão de teorias conspiratórias. Um estudo de 2018 do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) descobriu que “as notícias falsas se propagam mais rapidamente no Twitter que as reais”. A razão, informam os pesquisadores, é que as fabulações inspiram sentimentos fortes como surpresa, pavor e nojo – atraentes e curiosos demais para ser negligenciados. Para os especialistas da OMS, há um ponto de especial preocupação: a proliferação de falsas curas e tratamentos para o coronavírus pode agravar o impacto do surto. De acordo com o Ministério da Saúde, de 8.000 mensagens recebidas pelo canal de combate às fake news do órgão até agora, 90% se relacionavam ao novo coronavírus – 85% eram contrafações. As barbaridades variam desde o consumo de chás e de vitaminas para matar o vírus até números falsos sobre as mortes provocadas. Uma das invencionices, que pregou a substituição do álcool em gel por vinagre como prevenção da doença, fez o Conselho Federal de Química publicar uma extensa explicação desmentindo a afirmação. No Google, para quem digita “coronavírus”, em qualquer idioma, a primeira entrada é exclusivamente de sites confiáveis, com informações oficiais, sobejamente comprovadas.

As respostas foram medidas urgentes e necessárias, como mostram experiências anteriores. Ao longo dos últimos dez anos, o economista Bhaskar Chakravorti, da Universidade Tufts, dos Estados Unidos, acompanhou o efeito das tecnologias digitais para a saúde do planeta e o desenvolvimento econômico. “Recorrer a terapias inventadas, em vez de seguir conselhos de fontes confiáveis, como o de simplesmente lavar as mãos com água e sabão, pode fazer com que a doença viaje mais rápido que o normal”, diz Chakravorti. Os rumores, definitivamente, são destruidores – e nenhum foi mais daninho que o infame artigo do médico charlatão britânico Andrew Wakefield, que em 1998 inventou de encontrar uma conexão entre a vacina tríplice (rubéola, caxumba e sarampo) e o autismo. O absurdo foi denunciado e Wakefield, proibido de usar seu diploma. E, no entanto, a bobagem se espraiou, maliciosamente.

Para conter contrassensos desse quilate, especialmente depois da eclosão da nova cepa do coronavírus, a OMS criou um grupo de trabalho, o EPI-WIN (acrônimo, em inglês, de WHO Information Network for Epidemies), destinado a frear a engrenagem enganadora. “Confiar em informações erradas é tão perigoso em uma epidemia quanto a doença em si”, diz o infectologista Luiz Fernando Aranha Camargo, do Hospital Albert Einstein, de São Paulo. Há solução? “Precisamos de uma vacina contra a desinformação”, afirma Mike Ryan, chefe dos serviços de emergência da OMS. A desinformação, em seu aspecto mais maligno, pode até provocar mortes. De modo benigno, acelera comportamentos desnecessários.

Em São Paulo, cidade em que foram registrados seis casos brasileiros de coronavírus, colégios de classe alta como o Avenues e o Saint Paul’s sugeriram aos alunos que viajaram para a Itália durante o Carnaval quinze dias de quarentena em casa e exames de laboratório. Muitas empresas ampliaram o trabalho em casa. Prontos-socorros ficaram lotados. Máscaras de cirurgia sumiram das prateleiras. As embalagens de álcool em gel são tratadas como pepitas de ouro. “Há muito exagero, e muitas das medidas são inúteis no intuito de zerar o risco de infecção”, diz David Uip, infectologista convocado pelo governo do Estado de São Paulo para coordenar os movimentos ao redor da epidemia. “Não se contém a propagação de um vírus mandando o funcionário ou o aluno para casa. Ela só seria interrompida evitando-se o contato entre os seres humanos, e isso, obviamente, inexiste.” Parece haver, por ora, um modo de conter o coronavírus – atacando um bichinho danado, eletrônico, insidioso, que se espalha prioritariamente por smartphones.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 19 DE MARÇO

A ALEGRIA DA ESPERANÇA

Ora, a esperança não confunde, porque o amor de Deus é derramado em nosso coração pelo Espírito Santo, que nos foi outorgado (Romanos 5.5).

A esperança é o oxigênio da vida. Não há vida sem esperança. Só os mortos não têm esperança. O apóstolo Paulo diz que devemos regozijar-nos na esperança. A esperança é o farol que ilumina o nosso caminho, o bordão que nos dá sustentação na caminhada, o cenário mais belo que miramos no horizonte. A desesperança é marca daqueles que não conhecem a Deus. Não devemos viver como quem não têm esperança. Não devemos render-nos ao desespero, como se a vida fosse apenas o aqui e o agora. Se a nossa esperança se limitar apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens. Para muitas pessoas, a morte é o fim da vida. Para elas, o futuro é um cenário sombrio. Nosso futuro, porém, não é incerto. Não caminhamos rumo ao desconhecido. Nosso fim não é um túmulo gelado coberto de pó. Há um céu de luz. Há uma cidade celestial. Há uma recompensa eterna. Há um paraíso restaurado. O ocaso de nossa vida não é uma noite trevosa, mas uma manhã cheia de luz. Caminhamos para a glória. Caminhamos para o céu. Caminhamos para a bem-aventurança eterna. Nossa esperança não é uma ilusão, mas uma pessoa. Nossa esperança é Jesus!

GESTÃO E CARREIRA

FALHA NO SISTEMA

Erros no processo seletivo são tão comuns que atingem 74% das companhias. As consequências desse problema são graves – e vão além dos aspectos financeiros

Em agosto de 2016, Guilherme Biondo recebeu uma ótima notícia: ele tinha sido aprovado em um processo seletivo e se tornaria analista de marketing digital da agência Raccoon. Só que o aviso foi feito para a pessoa errada – Guilherme, na verdade, havia sido eliminado. “Nós enviamos por engano o e-mail de aprovação, com boas-vindas e tudo mais. Como ele já tinha pedido demissão no outro emprego e levado os documentos de contratação, não dava para voltar atrás”, lembra Tulio Kehru, sócio fundador da Raccoon e responsável pelo RH na época. Já esperando um desempenho ruim, a equipe se surpreendeu com os resultados do novo empregado. “Ele se mostrou um ótimo profissional, dedicado, com perfil de liderança e alinhado com a cultura da empresa.” Quatro meses depois, ele foi promovido – e ficou sabendo que nem deveria ter entrado na empresa. Hoje, Guilherme é gerente de marketing e mídia e lidera um time de 30 pessoas.

Essa história teve um final feliz, mas erros nas seleções são comuns nas empresas. Um levantamento de 2017 do site de vagas CareerBuilder revela que 74% das organizações admitem ter feito contratações equivocadas. Já dados de um estudo global de 2018 da consultoria Robert Half indicam que 39% das companhias levam apenas duas semanas para perceber que a pessoa não é a ideal para o cargo. “Ao mesmo tempo que os RHs estão se digitalizando e se tornando cada vez mais estratégicos, há despreparo e falta de profissionalismo no setor de recrutamento e seleção. Os processos ainda são muito arcaicos”, diz Maria Elisa Moreira, psicóloga e professora de pós-graduação e educação executiva no lnsper.

REVISÃO TOTAL

Esse era o diagnóstico perfeito para a Raccoon, que percebeu que um procedimento baseado em duas etapas (prova e entrevista) não funcionava – e poderia estar custando à empresa a perda de bons profissionais. Por isso, tudo foi repensado. A companhia desenvolveu testes online para identificar valores pessoais, raciocínio analítico e lógico, e espírito de liderança dos candidatos, além da parte técnica. Na etapa presencial, o RH capacitou os gestores que fazem as entrevistas. Para não perder mais profissionais, a empresa também criou um banco de talentos com reúne os candidatos reprovados que apresentaram alinhamento cultural com a agência.

Manter um banco de talentos é uma recomendação dos especialistas. “Não existe um melhor momento para contratar. Quando você precisa preencher uma vaga às pressas, o risco de errar é alto. A empresa deve criar uma cultura de recrutamento perene. Entrevistar alguns profissionais, ter contato com eles e saber quais são os favoritos”, explica Tiago Yonamine, especialista em recrutamento e CEO do Trampos.co. Além disso, 73% dos possíveis candidatos a uma vaga são passivos, segundo dados do LinkedIn. Ou seja, eles não estão buscando emprego, mas abertos a propostas.

MAIS DO QUE O TÉCNICO

Por mais que um currículo cheio de experiências e cursos salte aos olhos, são as habilidades sociais que determinam as boas contratações. Um estudo da consultoria de treinamento Leadership JQ indica que apenas 12% dos recrutamentos fracassados acontecem por causa da falta de conhecimento técnico. O restante tem relação direta com o comportamento: 26% mostraram problemas do profissional em aceitar e implementar feedbacks, 23% a pontaram a baixa inteligência emocional e 5% destacaram o temperamento. “Alguns processos se preocupam tanto com a questão técnica que acabam eliminando quem não preenche todos os requisitos e esquecem de mensurar características comportamentais. Você não avalia se a pessoa tem iniciativa, se é responsável ou determinada”, afirma Mário Custódio, diretor de recrutamento da Robert Half. ” Uma lacuna técnica você treina, o comportamento é mais difícil mudar.”

Para garantir que os novos funcionários estejam alinhados com os valores, a startup Contabilizei, especializada em serviço on-line de contabilidade, incluiu um novo passo em seu processo seletivo. Desde 2017, os candidatos passam por uma entrevista de cultura. “A gente tem, em média, cinco etapas: pré-seleção; entrevista por telefone para entender o momento do candidato; entrevista com o RH para a validação de competências; entrevista com o gestor da área; e, dependendo do cargo, prova ou entrevista com especialista para validar as competências técnicas. Quando os finalistas são selecionados, eles vão para a entrevista de cultura, afirma Michele Mafissoni  Heemann, gerente de recursos humanos da Contabilizei.

Entre os 370 funcionários da 63% das empresas investem em startup, há 24 “guardiões da cultura”, que acompanham a última etapa do processo. Para selecionar esse time, a empresa fez uma pré-seleção e avaliou fatores como tempo de casa, nível de engajamento e se o empregado é um representante dos valores da companhia. É papel desse pessoal avaliar se o candidato se identifica com a empresa. Quando um guardião fica em dúvida, o profissional passa por uma entrevista com outro funcionário – e o grupo de guardiões tem poder de velo na contratação. Certa vez, uma indicação do CEO e fundador da startup, Vítor Torres, foi barrada na entrevista de cultura, e a contratação não aconteceu.

TECNOLOGIA COMO ALIADA

A quarta edição da pesquisa exclusiva encomendada à consultoria Deloitte, divulgada no ano passado, mostra que o RH está se digitalizando: 63% das empresas investem em tecnologia para a gestão de pessoas. E isso pode agilizar o processo de recrutamento e reduzir as falhas. Na Wavy, empresa de ferramentas de mensageria e plataformas de comunicação, por exemplo, os candidatos são recebidos pela robô Ada, uma chatbot. “Usamos em processos seletivos ­ relâmpago ou naqueles que têm alto volume. Isso ajuda a ganhar agilidade e a garantir devolutivas mais rápidas para os candidatos”, explica Marcela Martins, diretora de RH da Wavy. A inteligência artificial compartilha informações sobre a empresa, recebe os currículos e aplica as provas de lógica, idiomas e cultura.

A executiva afirma que a empresa conseguiu reduzir os vieses inconscientes na avaliação; e que 60% dos candidatos são de grupos minoritários. Isso acontece porque Ada não analisa qual é a universidade que está no currículo. “Nós, humanos, temos uma tendência a gostar do semelhante e ficamos buscando isso. Com o bot, consigo trazer pessoas com realidades diferentes da nossa e que tenham um perfil que combina com a empresa.”

CUSTO ALTO

Apostar em ferramentas de contratação é importante porque recrutar errado pesa no bolso. Um relatório da Recruitment & Employment Confederation (REC), organização britânica de recrutamento, indica que uma má contratação pode custar à empresa três vezes mais do que o salário do funcionário. Do ponto de vista financeiro, a companhia tem de amargar com os prejuízos do que foi gasto durante a contratação, dos investimentos em treinamento e dos possíveis erros decorrentes da atuação daquele profissional.

Para Mário, da Robert Half, embora os custos financeiros sejam danosos, os prejuízos ao ambiente organizacional costumam ser ainda piores. “O impacto no clima pode culminar no desligamento de talentos, na queda de produtividade e no mal-estar entre as equipes. Dependendo do nível profissional, há impacto inclusive na imagem da marca no mercado”, afirma. Essa percepção está alinhada à pesquisa feita pela Robert Half citada anteriormente, que mostra que as três principais consequências de uma contratação equivocada, de acordo com os gerentes entrevistados, são aumento da carga de trabalho (50%), elevação do estresse (39%) e perda de produtividade (33%). Para evitar todos esses problemas, é melhor dedicar mais tempo – e esforço – na hora de recrutar.

ERREI, E AGORA?

É possível aplicar algumas táticas antes de demitir o recém-contratado

TRANSPARÊNCIA: o gestor e o RH devem conduzir uma conversa direta com o novo funcionário e informar sobre a insatisfação, os problemas de desempenho e as expectativas de ambos. Isso pode ajudar a encontrar uma solução conjunta.

TREINAMENTO: embora seja algo difícil, as habilidades sociais podem ser desenvolvidas. Ofereça treinamentos sobre trabalho em equipe, liderança, feedback e cumprimento de prazos.

REMANEJAMENTO: às vezes, o perfil do funcionário não combina com uma área ou equipe específica. Veja a possibilidade de remanejar a pessoa para outro setor.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

COMO O CORAÇÃO ENGANA SUAS PERCEPÇÕES

Pessoas muito sensíveis aos próprios estados internos, como a pulsação do sangue, tendem a ser mais propensas a transtorno de ansiedade e pânico.

Você sente seu coração batendo. A maioria das pessoas, em geral, não consegue, a menos que esteja fisicamente agitada, com medo ou durante um exercício de relaxamento se esforce para colocar atenção no movimento do músculo cardíaco. Não é por acaso que essa constatação só ocorra em circunstâncias específicas. Em condições normais, o cérebro disfarça essa percepção para garantir o equilíbrio delicado e necessário, pois quando nosso coração dispara identificamos o medo ou a excitação. Porém, perceber constantemente nosso ritmo interno causaria distração para a maioria das pessoas e em casos extremos, teria efeito enlouquecedor. Atualmente, no entanto, várias pesquisas sugerem que, devido à forma como o cérebro corrige (e disfarça) nossos batimentos, estamos mais sujeitos a ilusões sensoriais.

Cientistas do Instituto de Tecnologia Federal da Suíça, em Lausanne, conduziram uma série de estudos com 143 participantes e constataram que os voluntários levavam mais tempo para identificar um objeto que “aparecia e sumia” quando surgia em sincronia com seus batimentos cardíacos. Utilizando uma ressonância magnética funcional, os especialistas notaram também que a atividade na ínsula, uma área cerebral associada à autopercepção, era suprimida quando as pessoas viam essas imagens sincronizadas.

Os pesquisadores que conduziram o estudo; publicado no Journal of Neuroscience, sugerem que o objeto era suprimido pelo cérebro. pois se “misturavam com todas as outras alterações do corpo que ocorrem com cada batimento cardíaco, das quais não nos damos conta: os olhos fazem movimentos minúsculos, a pressão ocular muda ligeiramente, o tórax se expande e se contrai. “O cérebro sabe” que o batimento é proveniente da própria pessoa, por isso é como se não se incomodasse com as consequências sensoriais desses sinais”, diz Roy Salomon, um dos autores do estudo. Outra pesquisa já havia mostrado que as pessoas percebem mais prontamente que um órgão ou membro de realidade virtual é realmente o seu próprio quando surge junto a um estímulo que “aparece e some” em sincronia com seus batimentos cardíacos. Na extremidade oposta do espectro estão resultados de estudos que revelam que as sensações cardíacas podem intensificar o processo de identificação de ameaças. Indivíduos detectam com mais facilidade imagens assustadoras que aparecem ao mesmo tempo que os batimentos cardíacos e as consideram mais intensas. Talvez em razão de um batimento cardíaco perceptível estar frequentemente associado ao medo e à ansiedade, o cérebro tende a confundir o estímulo sincronizado, como se estivesse associado à reação de estresse que nos impulsiona a lutar ou fugir.

A descoberta ajuda a explicar por que as pessoas muito sensíveis a seus estados internos, incluindo a consciência de seus batimentos cardíacos, tendem a ser mais propensas a transtornos de ansiedade e pânico. Para a maioria de nós, porém, o coração continua sua labuta sem ser notado – e pode ser que as peculiaridades perceptuais relacionadas também não estejam sendo notadas.

OUTROS OLHARES

NA GARUPA

Avenidas congestionadas e trânsito caótico compõem um cenário que se repete mundo afora. E isso não é diferente em Lagos, capital comercial da Nigéria. Para melhorar a mobilidade na cidade, nos últimos anos surgiram diversas empresas de mototáxi na região – serviço que rapidamente caiu no gosto dos cidadãos nigerianos. Para ter uma ideia do sucesso, as startups Max.ng e Gokad levantaram, cada uma, 5 milhões de dólares em investimentos para expandir suas operações para logística e correio. Contudo, em janeiro, uma decisão do governo mudou os planos dessas companhias. Pelo Twitter, a administração do estado de Lagos anunciou a proibição dos serviços de mototáxi, sob a justificativa de que eles contribuíam para aumentar a desordem do trânsito nos grandes centros. Com a medida, estima-se que 8 milhões de motoqueiros percam o emprego.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 18 DE MARÇO

A FELICIDADE DE TER O SENHOR COMO PASTOR

O SENHOR é o meu pastor; nada me faltará (Salmos 23.1).

A ovelha de Jesus é feliz. Jesus é o bom, o grande e o supremo pastor das ovelhas. Como bom pastor, deu a vida pelas ovelhas. Como grande pastor, vive para as ovelhas. Como supremo pastor, voltará para as ovelhas. Jesus supre todas as necessidades das suas ovelhas. Ele as conduz aos pastos verdejantes e às águas tranquilas. Ele as guia pelas veredas da justiça e refrigera-lhes a alma. Jesus é o pastor que caminha com suas ovelhas pelo vale da sombra da morte e as consola com sua vara e seu cajado. As ovelhas de Jesus têm alegria e honra, pois o Senhor unge a sua cabeça com óleo e faz o seu cálice transbordar. Jesus oferece às suas ovelhas bondade e misericórdia todos os dias e depois as recebe na glória. As ovelhas de Jesus têm provisão, companhia e segurança eterna. Jesus as protege dos lobos e as protege do mal. Mesmo passando pelos vales mais escuros da vida e enfrentando até mesmo as sombras da morte, as ovelhas de Jesus não precisam temer, pois o seu pastor já venceu a morte. Ele já arrancou o aguilhão da morte e agora oferece a elas, de graça, pela fé, a vida eterna. A vida eterna é comunhão profunda e contínua com Jesus. Ele, o bom, o grande e o supremo pastor é a própria essência da vida eterna. Jesus caminha conosco aqui e nós habitaremos com ele por toda a eternidade!

GESTÃO E CARREIRA

FORA DA CAIXA

Com o objetivo de motivar os funcionários e se diferenciar dos concorrentes, companhias investem em benefícios que fogem do padrão. Descubra as vantagens dessa prática

Ver as montanhas lá do alto num passeio de balão, passar a semana inteira fazendo trilhas em meio à natureza, tirar o fim de semana para relaxar em um SPA. Por si sós, essas atividades fazem a alegria de muita gente, mas os olhos brilham ainda mais quando elas são oferecidas pelas empresas, como uma recompensa pelo bom trabalho prestado. Para se diferenciar da concorrência ou aumentar o engajamento, diversas companhias estão apostando em benefícios que vão além dos prêmios financeiros e provocam surpresa – e boas lembranças – aos funcionários.

A ideia, no fundo, está alinhada com um termo que vem ganhando os holofotes das campanhas de marketing e vendas nos últimos anos: a experiência. Em um mercado acirrado, oferecer algo único ao consumidor (seja uma excelente jornada de consumo, seja um atendimento positivamente fora do padrão, seja um brinde singular) é essencial para criar conexão entre consumidores e marcas.

O mesmo princípio se aplica às organizações e a seus funcionários: quanto mais significativas forem as vivências dos empregados dentro das companhias, mais identificados com a empregadora eles ficarão. Isso tem a ver com o novo entendimento de carreira, que deixa de ser mera sequência de cargos e se transforma numa sequência de experiências significativas. Para conquistar isso, é preciso apelar ao emocional – ser o patrocinador de um fim de semana numa praia paradisíaca pode contar mais pontos do que pagar um bônus. Essa percepção é comprovada cientificamente. Uma pesquisa da Universidade de Cornell, publicada em 2014, mostra que, em geral, as pessoas sentem o mesmo nível de felicidade ao receberem uma experiência ou um bem material. Mas, no longo prazo, a satisfação com os bens materiais diminui, enquanto a satisfação com as experiências tende a aumentar.

A demanda por benefícios que incluam experiências e viagens vem, principalmente, do RH. Na Viva! Experiências, companhia especializada nesse mercado, 70% dos pedidos corporativos são feitos pela área de gestão de pessoas. “Abrimos em 2009 para atender o público geral, mas desde 2014 nosso foco é o corporativo, que corresponde a 97% de nossa receita”, diz André Susekind, CEO da Viva! Experiências. O concorrente de André, Jorge Nahas, CEO da O Melhor da Vida, também está de olho nesse nicho. “As empresas veem a rotatividade aumentar e entendem que precisam tratar melhor os funcionários, por isso estão buscando novas formas de se relacionar com eles”, diz Jorge, que viu sua empresa crescer 50% nos últimos dois anos por causa da demanda corporativa. “Esses benefícios dão a oportunidade de os colaboradores fazerem algo novo e de compartilharem com a família ou com os amigos – o que vale mais do que uma TV.”

LOUCOS POR PONTOS

Em 2018, a Dasa, dona de laboratórios como Delboni Auriemo e Lavoisier, começou um movimento para repaginar o relacionamento com os funcionários – o objetivo era prover aos times uma experiência tão boa quanto a que a instituição pretende dar aos clientes. O resultado da pesquisa de clima, que mostrava que os empregados queriam políticas de reconhecimento não financeiro, foi a motivação para o RH ousar nos benefícios. Além de fazer um calendário de comemorações de datas especiais para reunir e engajar as equipes, a Dasa criou um sistema de acúmulo de pontos voltado para todos os 6.000 integrantes da área comercial (incluindo coordenadores e recepcionistas, por exemplo). O investimento da empresa no desenvolvimento do site foi de cerca de 2 milhões de reais e, entre os prêmios, estão ingressos para cinema, viagens e jantares no restaurante Outback – um dos favoritos do pessoal. A pontuação é coletiva: cada uma das mais de 800 unidades comerciais da Dasa tem uma meta que, quando atingida, rende pontos para toda a equipe. “O modelo trouxe um engajamento muito grande, as pessoas conversam sobre o que gostariam de fazer”, diz Eric Telles, analista de novos negócios e responsável pela campanha de incentivos na área comercial.

Até agora, mais de 1 milhão de pontos foram utilizados. Os resultados são divulgados para toda a companhia e a Dasa incentiva os funcionários a compartilhar fotos de suas experiências. “O objetivo é que o funcionário tenha um momento de descontração em algo que faça sentido. Desvinculamos do que é financeiro e permitimos que ele crie uma memória”, afirma Flávia Pontes, superintendente de RH na Dasa.

OLHO NO LANCE

As viagens de incentivo não são do Vale do Silício”, afirma Luís Abrahão, sócio-diretor da Top Service, antiga Stella Barros. “Ao proporcionar uma experiência que de outra forma não seria alcançável, a empresa gera um prêmio que vale muito mais do que o equivalente em dinheiro.”

Na Aon, consultoria de gerenciamento, as viagens para a área comercial existem há mais de uma década. Mas são pensadas no detalhe. “A campanha precisa estar relacionada aos objetivos da empresa e ao perfil dos trabalhadores”, diz Eduardo Takahashi, vice-presidente executivo para soluções comerciais de riscos da Aon Brasil. A campanha gera minipremiações ao longo do ano (corno uma patinete elétrica e outros gadgets tecnológicos), mas o grande prêmio é uma viagem para a equipe vencedora – formada, em média, por 20 funcionários.

Além de levar os empregados para países como Estados Unidos, Irlanda e Inglaterra, um dos diferenciais é proporcionar às equipes a possibilidade de assistir a competições esportivas diretamente do camarote – o pessoal já viu jogos de basquete da NBA, partidas de tênis e campeonatos de golfe masculino e feminino. Além, é claro, de acompanhar disputas do Manchester United da tribuna – a Aon é uma antiga patrocinadora do time inglês. Os funcionários também são convidados a conhecer os atletas e tirar fotos com eles. “Usamos isso para falar de espírito esportivo, competitividade e diversidade”, diz Eduardo. Quando voltam da viagem, os ganhadores compartilham suas histórias com os colegas. “Essas experiências quebram a rotina e tornam o ambiente mais engajado”, diz Adriana Zanni, vice-presidente de RH da Aon para a América Latina.

Além disso, assim como a Dasa, a Aon oferece a seus empregados um leque de premiações – que não se limitam às viagens. Manter essa diversidade é importante porque, nem sempre, as pessoas serão motivadas pelas mesmas coisas. Para encontrar a melhor experiência para cada funcionário, vale a máxima do marketing: “Conheça profundamente seu cliente e antecipe suas necessidades”.

RECEITA BÁSICA

Cinco passos para companhias que querem oferecer premiações inusitadas

SEJA CLARO: As metas das pontuações que geram prémios devem ser transparentes para evitar frustrações e sensação de favorecimento

COMUNIQUE COM EFICIÊNCIA: Os resultados devem ser comunicados para toda a companhia, reforçando que foram atingidos de acordo com os critérios predefinidos pela empresa

PENSE NA DIVERSIDADE: As premiações precisam estar alinhadas com os interesses de cada público – para companhias presentes em várias localidades, vale oferecer benefícios diferentes de acordo com o que faz mais sentido para cada região do país

ABRA OS OUVIDOS: Converse com os empregados e com as lideranças para entender quais são os desejos e definir as recompensas

SEJA COERENTE: Só faz sentido oferecer benefícios fora do padrão se o pacote básico (plano de saúde, vale-transporte e vale-refeição, por exemplo) estiver funcionando e satisfazendo os funcionários.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O LUGAR DAS LEMBRANÇAS

Estudo sugere que as recordações são armazenadas em diferentes regiões do cérebro, de acordo com a “idade” da memória.

Há um século, o psicólogo americano Karl Lashley condicionou camundongos a encontrar a saída de um labirinto. Em seguida, provocou lesões aleatórias no córtex cerebral de cada um dos animais, na tentativa de atingir a região que armazenasse o que ele chamava de “engrama”, isto é, fragmentos de informações, e colocou os roedores novamente no labirinto – ele acreditava que aquele que tivesse o ‘lugar da memória” prejudicado não conseguiria sair. No entanto, todos eles agiram como se já conhecessem o local, achando a saída com facilidade. independentemente da região do córtex afetada. Lashley cogitou que as recordações não eram fixadas em um lugar específico do cérebro, mas armazenadas de forma difusa no sistema neural. O que determinava essa distribuição, porém, permanecia um mistério.

Décadas depois, a neurocientista canadense Brenda Milner descreveu o caso do americano Henry Molaison, conhecido como H.M, que sofria de amnésia e de problemas de memória espacial e tinha dificuldade de aprender novas habilidades motoras. Após relacionar os sintomas e observar o cérebro do paciente. Brenda e outros colegas concluíram que o hipocampo, estrutura localizada nos lobos temporais, parecia ter papel decisivo na consolidação de lembranças, pois é o local onde se dá a conversão da informação em memória de curta e longa duração. Mais recentemente, foi demonstrado que o córtex frontal também está envolvido no processo. Agora, um estudo conduzido pelos neurocientistas Christine Smith e Larry Squire, da Universidade da Califórnia, mostra que as recordações são armazenadas no hipocampo ou no córtex frontal de acordo com a “idade” da memória.

Por meio de ressonância magnética funcional (MRI), foi registrada a atividade do cérebro de 15 voluntários saudáveis e sem histórico familiar de doenças neurodegenerativas, enquanto eles respondiam a 160 perguntas sobre notícias divulgadas pela mídia ao longo dos últimos 30 anos. O experimento parece simples, mas Christine e Squire tiveram de considerar vários fatores que podiam interferir no resultado. Por exemplo, quando somos questionados sobre algo que aconteceu, nosso cérebro, ao mesmo tempo que processa a pergunta, aciona a memória para respondê-la. Dessa forma, os neurocientistas tinham de atentar se o que ativava uma região neural específica era a elaboração da pergunta ou a recordação. Esperaram alguns minutos depois de cada questão e se certificaram de que cada voluntário a havia entendido. Outro fator a ser considerado era se as lembranças estavam associadas a episódios da vida pessoal dos voluntários, o que podia torná-los mais fáceis de evocar.

ARQUIVOS MENTAIS

Em geral, nossa capacidade de lembrar um fato diminui com o tempo. Logo, os voluntários obviamente se recordaram melhor dos acontecimentos mais recentes que dos mais antigos. Os pesquisadores observaram, no entanto, que não havia uma relação direta com o tempo transcorrido desde o acontecimento e a riqueza da lembrança: com frequência, os participantes falaram de recordações muito antigas de maneira muito detalhada. Ao analisarem as imagens cerebrais captadas durante as respostas. Christine e Squire verificaram que a atividade do hipocampo e da amígdala (estrutura do lobo temporal medial que empresta um colorido emocional aos acontecimentos) era menos expressiva quando os indivíduos evocavam fatos remotos. No entanto, essa redução foi verificada apenas em relação a episódios que ocorreram até 12 anos antes – surpreendentemente, quando as recordações tinham mais de uma década,.

essas regiões voltavam a apresentar atividade. Observou-se que a ativação nos lobos temporais frontais, parietais e laterais era mais intensa quando os participantes se lembravam de fatos mais antigos, mas se mantinha constante quando eles falavam de suas memórias mais “frescas”.

Esse estudo pode ajudar a entender distúrbios que causam lapsos de memória, como Alzheimer e Parkinson, e mesmo lesões que não parecem estar associadas a nenhuma doença neurodegenerativa. H.M., que apresentava alterações no hipocampo, não tinha apenas dificuldade de armazenar memórias recentes, mas também fatos anteriores ao surgimento de suas crises de amnésia. Curiosamente, a maioria das pessoas se lembra com nitidez de ocorrências de um passado longínquo, enquanto acontecimentos nem tão antigos nem tão recentes são esquecidos gradualmente. O estudo de Christine e Squire sugere que, com o passar do tempo, o armazenamento de uma lembrança migra do hipocampo para o córtex frontal.

Lashley, em parte, estava certo. Mas por que as velhas lembranças são transferidas do hipocampo para o córtex frontal? Talvez porque acionar memórias antigas exija sinapses mais fortes e um maior número de associações. Pesquisas recentes apontam que a elaboração da memória nessa parte do cérebro é mais complexa, envolvendo uma rede neuronal extensa e mais conexões. Podemos supor, portanto, que o córtex frontal é uma estrutura mais apta a recuperar lembranças codificadas há mais tempo.

DO ESTIMULO À FIXAÇÃO

Quando se forma uma nova memória, uma rede específica de neurônios é elaborada em diversas estruturas cerebrais, principalmente no hipocampo, e depois a lembrança é gravada da mesma maneira no córtex, local de armazenamento definitivo. Durante todo esse processo, são produzidas proteínas que ajudarão na construção das sinapses, a comunicação entre os neurônios.

OUTROS OLHARES

BEM TRAÇADAS LINHAS

Para quebrar a rotina de mensagens curtas e com expressões abreviadas, que marcam a era digital, milhares de jovens no País retomam o antigo comportamento de escrever cartas à mão e colocá-las nos Correios

Nos tempos atuais, em que reinam de forma absoluta as redes sociais, eis que muitos jovens dizem ter descoberto uma forma criativa de quebrar a rotina: escrever cartas como se fazia no passado. Isso significa que eles abandonaram de vez as conexões tecnológicas? Deram um solene adeus às plataformas digitais? Não, a coisa também não é bem assim, não chega a esse ponto — até porque muitos deles, em todo o País, postam as correspondências, que escrevem e recebem, em seus respectivos canais.

Mais: valem-se da internet para reunir orientações de como se deve escrever uma carta. Ou seja, como é o padrão dessa tendência: é de bom tom, em primeiro lugar, cumprimentar educadamente o destinatário, e, imediatamente, apresentar-se sem esquecer de colocar idade, endereço, ocupação principal na vida e quais as atividades nos momentos de descanso e descontração. A internet ajuda também a descobrir quem está disposto a receber e a escrever. Apesar do auxílio das ferramentas tecnológicas, é inegável, no entanto, que há algo de inovador transitando no território brasileiro. E inspirado numa das mais antigas formas de comunicação.

No Brasil já milhares de adeptos, e a mestranda em literatura, Carolina Santiago, 23 anos, pontua de forma objetiva e inteligente esse ato de escrever: “É uma forma de se desligar do ambiente veloz. É bom parar, sentar e escrever para produzir uma coisa à mão. Depois, é preciso sair, ir aos Correios e esperar pela resposta”. Ela conclui: “Sai do contexto atual em que tudo é correria”. Não deixa de ser surpreendente alguém tão jovem falar em “ir aos Correios” em vez de tocar no comando que envia mensagens pelo WhatsApp. Há quem já tivesse o costume de trocar correspondências, abandonou-o, e, agora, até estimulado pela possibilidade de exercer um hobby, retornou à caneta e ao papel. Lygea de Souza Ramos, 36 anos, compõe esse perfil. Cartas na adolescência, tecnologia e só tecnologia na juventude e início da vida adulta, até que em 2017 bateu a saudade das missivas. “Telefone, e-mail, é tudo muito imediatista. Não tem aquele tempo de elaboração como a carta possui”, diz ela. “Escrever cartas é uma forma de demonstrar carinho”.

A antropologia social e a sociologia ensinam que, no campo do comportamento, nada se joga fora definitivamente — muito menos a internet, é claro. Ela vai crescer cada vez mais. Tanto é assim que absorveu a tendência e já existem sites especializados no incentivo ao retorno à letra à mão. É o caso do Envelope de Papel (o nome é culto, original e romântico), montado pela publicitária Mariana Loureiro, 23 anos. “Comecei um grupo de cartas, passei a receber algumas e a me identificar com esse mundo”, diz ela. Com certeza, até recentemente, se um jovem encontrasse na rua um amigo, também jovem, e lhe perguntasse onde estava indo, ficaria incrédulo se a resposta fosse: “até os Correios para enviar uma carta”. Hoje, grupos deles se reúnem e vão juntos postar as suas mensagens. É óbvio que não haveria muita graça, nem sentido, se a juventude voltasse a escrever como nos tempos de seus bisavós – ou seja, nada de “espero que essa lhe encontre bem” ou “escrevo essas mal traçadas linhas…”. Em qualquer atividade cria-se novidades, e um fato que traduz alegria é que muitas dessas cartas são escritas com letras coloridas de diversas cores, combinam-se letras cursivas com letras de forma, e vale enfeitar o papel com adesivos e desenhos.

Como toda tendência sempre contempla o mercado, já são vistas papelarias, cujos proprietários assistiam aos seus negócios minguarem no dia a dia, especializando-se na venda de material — e muitos apostam que o negócio crescerá cada vez mais. “É uma boa resposta para essa época de fake news. Os jovens são espertos e sempre do bem. Ninguém vai espalhar notícias falsas ou ofensas numa carta”, diz o comerciante Joaquim Cohen. Não há a menor dúvida de que ele tem razão. Escrever uma carta é dar um tempo maior de si mesmo para outra pessoa. Existem sentimentos de verdade nessa retomada de comunicação. Além disso, talvez a juventude tenha finalmente se cansado do oco kkk.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 17 DE MARÇO

O PODER DO EVANGELHO

Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê… (Romanos 1.16a).

A carta de Paulo aos Romanos é sua mais importante epístola. Tem exercido influência na história da humanidade. A leitura desta missiva impactou de forma profunda a vida de Agostinho e Lutero, os grandes expoentes da Patrística e da Reforma, respectivamente. No preâmbulo dessa carta, Paulo fala sobre o poder do evangelho. O evangelho é o poder de Deus. Não há limitação nesse poder, pois Deus é onipotente. O evangelho é o poder de Deus para a salvação. Não é um poder destruidor, mas salvador. Não é um poder que mata, mas que dá vida – não apenas vida física e terrena, mas vida espiritual e eterna. Não há salvação fora do evangelho, pois o evangelho é a boa-nova de Cristo. O evangelho trata do que Deus fez por nós por intermédio de Cristo. Não somos salvos por aquilo que fazemos para Deus, mas pelo que Deus fez por nós em Cristo. O evangelho é o poder de Deus para a salvação de todo o que crê. Aqui Deus impõe uma limitação. Somente aqueles que creem podem ser salvos. Somente aqueles que colocam sua confiança em Cristo e o recebem como Salvador e Senhor podem receber a salvação. Grandes e pequenos, ricos e pobres, doutores e analfabetos, judeus e gentios, todos são salvos por Cristo da mesma maneira: pela fé. A fé não é meritória; é um dom de Deus!

GESTÃO E CARREIRA

SAINDO DO VERMELHO

Para 59% dos trabalhadores, as dívidas são a principal fonte de estresse. Diante desse cenário, companhias criam alternativas para ajudar os funcionários a equilibrar as contas e deixar a inadimplência

Contas atrasadas e orçamento que não fecha no final do mês são motivos de preocupação para muita gente: 61 milhões de brasileiros começaram 2020 perdendo o sono por causa das dívidas, de acordo com dados da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do SPC Brasil – um aumento de 4% em relação ao mesmo período do ano anterior. E perder o sono não é figura de linguagem. Segundo um estudo divulgado pelo Instituto Locomotiva, especializado em pesquisas sobre a classe C, em 2019, cerca de 55 milhões de pessoas disseram não conseguir descansar o suficiente quando estão no vermelho.

A tensão causada pelo endividamento gera uma série de consequências emocionais e físicas, como dores musculares, falta de atenção e aumento da ansiedade. E não é novidade para as empresas que funcionários inadimplentes são menos produtivos e corre o risco de cometerem mais erros. “Além de faltar, profissionais nessa situação apresentam a síndrome do ‘presenteísmo’: estão fisicamente no trabalho, mas com a cabeça em outro lugar”, afirma Ana Maria Rossi, presidente do International Stress Management Association no Brasil (Isma-BR).”Outro efeito colateral são os problemas de relacionamento entre as equipes, pois os colegas passam a hostilizar esses trabalhadores que estão rendendo menos, o que piora a situação”, completa Ana Maria. A instituição estima que os males do estresse no ambiente corporativo custaram o equivalente a 3,5% do produto interno bruto (PIB) anual do país em 2018, que foi de 6,9 trilhões de reais. E as dívidas podem ter relação com esse dado: o estudo Employee Wellness Survey, de 2019, feito pela consultoria e auditoria PwC, apontou que para 59% dos trabalhadores as finanças pessoais são a principal fonte de suas preocupações, superando o emprego (15%), relacionamentos (10 %) e saúde (4%).

O problema fica ainda mais grave porque, para esquecer que estão no negativo, as pessoas lançam mão de comportamentos altamente prejudiciais para a saúde. Segundo um estudo realizado pelo Isma-Br em 2018, 56% dos entrevistados usavam bebidas alcoólicas para evitar pensar sobre as dívidas; 53% tomavam medicamentos e drogas para fugir do problema; e 35% descontavam a tensão em junkie food. “O estresse relacionado à saúde financeira afeta todas as idades e níveis da força de trabalho. E a dimensão financeira é tão fundamental quanto o bem-estar físico ou emocional”, afirma Felipe Bruno, líder da área de previdência da consultoria Mercer Brasil.

TECNOLOGIA A SERVIÇO DO BOLSO

Não é de hoje que as companhias desenham estratégias para auxiliar os funcionários a ficar no azul. Uma das mais tradicionais é a criação de cooperativas de empregados, que oferecem empréstimos com juros mais baixos que os bancos. Outras contam com centrais de atendimento para aconselhamento financeiro. Embora sejam úteis, os números citados no início da reportagem deixam claro que só essas iniciativas não evitam a inadimplência dos profissionais.

Algumas empresas, como a startup de conserto de celulares Pitzi, encontraram na tecnologia uma solução para os problemas financeiros do time. “Nossa equipe é composta 70% de pessoas da área de atendimento, muitos no primeiro ou segundo emprego, com salários iniciais. Por meio de  conversas, os empregados manifestaram que gostariam de receber o pagamento em datas diferentes para ajudar a fechar as contas”, afirma Lídia Gordijo, diretora de recursos humanos da Pitzi.

Para atender à demanda, a companhia começou a utilizar uma plataforma que permite o adiantamento de até 80% do salário dos funcionários, com base nos dias trabalhados. Os empregados podem sacar os valores em qualquer data do mês, mediante uma taxa de 9 reais por retirada. As antecipações começaram em outubro de 2019 e, até o final de janeiro de 2020, metade do quadro de 140 pessoas já havia usado o recurso. Em média, as antecipações giram em torno de 400 reais e costumam ocorrer por volta do dia 15.

Além de disponibilizar o serviço, a Pitzi passou a efetuar o pagamento dos salários no primeiro dia do mês, em vez do quinto dia útil, como ocorria anteriormente.

Segundo Lídia, as vantagens de adiantar o salário por meio de uma plataforma digital são confidencialidade e autonomia. “Esse é um tema delicado e muitos não se sentem confortáveis em falar no assunto com seus colegas ou líderes”, afirma. A companhia também disponibilizou o serviço de empréstimo consignado, com desconto em folha, por meio de uma parceria com uma startup de crédito. “Doze funcionários já realizaram empréstimos nesse modelo. Foi uma forma de auxiliar aqueles que necessitavam mais”, afirma a executiva. Para 2020, a Pitzi está preparando cursos e palestras sobre finanças pessoais.

Embora não tenha notado diminuição no absentismo, a companhia afirma que houve um impacto na produtividade da equipe. “Os atendimentos telefônicos ficaram mais ágeis. Isso acontece porque, quando estão estressadas, as pessoas pausam mais o trabalho para dar uma espairecida”, afirma a RH. A qualidade do atendimento do time também melhorou: o índice de clientes que retornavam tentando resolver o mesmo problema pela segunda vez caiu de 24% para 12%. “Sem se preocupar com as contas, é possível criar mais empatia com os consumidores e entender suas questões”, diz Lídia. Além disso, quem está com o bolso tranquilo se concentra mais nas tarefas profissionais. Segundo o estudo da PwC, quase metade das pessoas que têm problemas financeiros (47%) admite que se distrai no trabalho por causa das dívidas.

BENEFÍCIO VALORIZADO

Ajudar nas finanças pessoais dos empregados pode gerar, ainda, uma vantagem competitiva para as empresas: a manutenção de talentos. Isso porque, de acordo com a PwC, 78% dos profissionais endividados ficariam interessados em ir trabalhar em uma companhia que se preocupasse com as finanças pessoais dos empregados. Em contrapartida, apenas 5% das organizações possuem práticas nesse sentido, segundo levantamento da empresa de seguros Metlife.

A Novartis, farmacêutica que emprega 2.200 pessoas no Brasil, é uma dessas exceções. Desde 1988 a companhia oferece um plano de previdência. privada para os funcionários. Atualmente, a Novartis conta com 1.700 participantes ativos – equivalente a mais de 80% do quadro de funcionários – e quase 600 aposentados. Para cada real que o trabalhador aplica no fundo de pensão, a companhia contribui com outro.

Mas em 2017 a multinacional percebeu que só isso não bastava para ajudar os empregados a organizar o bolso. “Eles precisavam de ajuda para lidar com as finanças do dia a dia, pois, sem isso, seria impossível olhar para o futuro”, afirma Renata Desidério, diretora executiva da Previ Novartis, sociedade de previdência privada da companhia. “Eles pediam dicas e orientações de outros assuntos, por isso criamos um programa voltado para educação financeira de forma ampla”, diz a executiva.

Assim surgiu o Futuro Ativo, um programa que reúne palestras e workshops com consultores e gestores de investimentos e ensina os empregados a fazer controle de gastos mensais, economizar e investir. Ao todo, cerca de dez eventos e campanhas educativas sobre educação financeira foram realizados desde a inauguração da iniciativa.

A equipe do projeto de bem­ estar financeiro da Novartis, que possui quatro pessoas, tem recebido retornos positivos dos funcionários. “Eles relatam que a melhora na questão financeira reflete também em seu psicológico, na vida social e até mesmo na condição física”, diz Renata. Por essa razão, a farmacêutica já planeja outras ações, como a ampliação do plano de previdência para dependentes dos empregados e novas iniciativas educacionais.

“Benefícios como esses também aumentam o nível de lealdade à companhia”, completa Renata. Combater o endividamento dos funcionários também tem reflexos econômicos. Isso porque o consumo das famílias é importante para o PIB do Brasil. E uma população altamente endividada não tem renda para consumir, o que impacta diretamente o lucro (e a produção) das companhias. Embora à primeira vista as dívidas pareçam apenas um problema pessoal, ajudar os empregados a entrar no azul é bom para todo mundo – inclusive para o país.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ALEITAMENTO MATERNO PODE INFLUIR NA INTELIGÊNCIA DO BEBÊ

Estudo revela a contribuição da genética e de fatores ambientais para o desenvolvimento da capacidade cognitiva nos primeiros meses de vida

É antigo (e sempre atual) o debate sobre o papel tanto dos genes quanto das vivências proporcionadas pelas experiências sensoriais e interações afetivas e sociais no desenvolvimento da inteligência das crianças.

Hoje em dia, a maioria dos especialistas concorda que a capacidade cognitiva depende tanto da carga genética herdada de nossos ancestrais quanto dos estímulos aplicados na hora certa. Mas isso ainda não satisfaz cientistas ávidos por quantificar a contribuição relativa destes fatores e compreender melhor por que somos tão diferentes dos demais primatas.

Um estudo publicado no periódico científico Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) por pesquisadores do Reino Unido. Estados Unidos e Nova Zelândia mostrou como a genética pode modular a relação entre aleitamento materno (uma influência ambiental) e inteligência. Embora não seja uma regra, alguns experimentos já mostraram que crianças amamentadas no peito costumam obter melhores resultados em testes de quociente de inteligência (QI) quando comparadas a outras que não viveram essa experiência.

Por trás dessa correlação podem estar alguns lipídeos, que só existem no leite materno e têm papel importante no desenvolvimento do sistema nervoso dos bebês. Os cientistas acompanharam vários aspectos da evolução intelectual de crianças – amamentadas ou não – e detectaram variações de um determinado gene, o FADS2, essencial para o controle das vias metabólicas daqueles lipídeos.

Foram analisadas duas amostras populacionais, uma na Nova Zelândia e outra do Reino Unido. Do ponto de vista genético, os participantes do estudo foram divididos em três grupos: sem variação do gene FADS2 (CC), heterozigoto para essa variação (GC) e homozigoto (GG). As amostras foram balanceadas para eliminar a influência de outros fatores, como nível socioeconômico, idade gestacional e peso no nascimento. O OI das crianças foi avaliado aos 7,9, 11 e 13 anos.

Os resultados confirmam a relação entre aleitamento e maior facilidade para apreensão de conteúdo, memorização e resolução de problemas. A exceção foi o grupo GG. Em outras palavras:  para quem é homozigoto para a variação do gene FADS.2, tanto faz ser amamentado ou não, em termos de quociente intelectual. Isso sugere que, para nossos ancestrais, de um tempo em que não havia mamadeira ou fórmulas, tal perfil pode ter tido alguma influência nas diferenças individuais de inteligência.

Segundo pesquisadores, além de serem úteis para estudos sobre a influência da genética no comportamento, esses resultados ajudam a esclarecer que muitas questões de biologia não podem ser reduzidas à dicotomia genética-ambiente, mas vão além delas. As interações entre esses fatores é complexa e pode oferecer incontáveis desdobramentos.

OUTROS OLHARES

NOVE A CADA DEZ PESSOAS NO MUNDO TÊM PRECONCEITOS SEXISTAS

Em torno de 90% da população mundial, sem importar o sexo, têm preconceito contra as mulheres, revela um estudo da ONU.

O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) analisou 75 países, que representam 80% da população global, e concluiu que nove a cada dez pessoas, inclusive mulheres, têm preconceito de gênero.

Estes preconceitos incluem que os homens são melhores políticos e líderes de negócios; que ir à universidade é mais importante para os homens; ou que deveriam ter um tratamento preferencial em mercados de trabalho competitivos.

Os países no topo da lista são Paquistão, onde 99,81% têm ao menos um preconceito em relação às mulheres, Qatar e Nigéria, ambos com 99,73%.

Os países com população menos sexista são Andorra, 27,01%; Suécia, 30,01%; e Holanda, 39,75%.

Em França, Reino Unido e Estados Unidos, os índices de quem tem ao menos um preconceito sexista são de 56%, 54,6% e 57,31%, respectivamente.

Na Espanha, o percentual é de 50,50%.

Na América Latina, a pior situação ocorre no Equador (93,34%), seguido por Colômbia (91,40%), Brasil (89,50%), Peru (87,96%) e México (87,70%).

Argentina, Chile e Uruguai se situam entre 75,4% e 74,6%.

Os números revelam “novas pistas sobre as barreiras invisíveis que as mulheres enfrentam para obter a igualdade”, apesar de “décadas de progresso”, destaca o relatório.

“O trabalho tem sido eficaz para garantir o fim das brechas na saúde ou na educação, mas agora deve evoluir para abordar algo muito mais desafiante: um viés profundamente arraigado, tanto em homens como em mulheres, contra a igualdade genuína”, disse o administrador do PNUD, Achim Steiner.

A agência pede aos governos e instituições que trabalhem para mudar estes preconceitos e práticas discriminatórias através da educação.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 16 DE MARÇO

O DEUS DA RECONCILIAÇÃO

Ora, tudo provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo… (2Coríntios 5.18a).

O pecado é o maior de todos os males. Abriu uma fissura no relacionamento do homem com Deus e levantou muralhas nos seus relacionamentos intrapessoais e interpessoais. O homem está em guerra com Deus, com o próximo, consigo mesmo e até com a natureza. O homem tornou-se um ser beligerante e rebelde. Por si mesmo jamais retornará a Deus. Jamais mudará seu próprio coração. Assim como um etíope não pode mudar sua pele nem um leopardo suas manchas, também o homem não pode mudar sua própria vida. A salvação não é iniciativa humana, mas divina. Deus tomou a iniciativa de nos reconciliar consigo mesmo. O inocente busca o culpado. O agente da reconciliação é Cristo. É por intermédio de Cristo que podemos voltar-nos para Deus. Ele é o novo e vivo caminho para Deus. Ele é a porta do céu. Ele é o Mediador que nos reconcilia com o Pai. Para reconciliar-nos consigo mesmo, Deus não colocou em nossa conta as transgressões por nós praticadas. Ao contrário, colocou-as sobre Jesus. Na cruz, o Filho de Deus anulou esse escrito de dívida que era contra nós e quitou completamente a nossa dívida. Deus foi além, colocando em nossa conta a perfeita justiça de Cristo, de tal maneira que não pesa mais sobre nós nenhuma condenação.

GESTÃO E CARREIRA

COTAS EM XEQUE

Projeto de lei enviado ao Congresso Nacional questiona a obrigatoriedade de empresas com 100 ou mais funcionários contratarem profissionais com deficiência

No fim do ano passado, o governo Bolsonaro enviou ao Congresso Nacional o Projeto de Lei nº 6.159/19, que desobriga as empresas de contratar um percentual mínimo de empregados com deficiência. A contrapartida é que as companhias paguem dois salários mínimos por cargo não preenchido ao Programa de Habilitação e Reabilitação Física e Profissional, Prevenção e Redução de Acidentes de Trabalho, do Ministério da Economia. Se aprovado, o documento coloca em xeque a aplicação da Lei de Cotas, criada há 28 anos, que obriga organizações com 100 ou mais funcionários a manter em seu quadro de 2% a 5°% de pessoas com deficiência (PCDs) ou reabilitadas.

A possível mudança tem dividido opiniões de especialistas, principalmente porque as PCDs já enfrentam diversas barreiras quando o assunto é a busca por um emprego. Dados da Secretaria do Trabalho, com base em informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apontam que só 1% dos 45 milhões de brasileiros com alguma deficiência estão no mercado formal.

Para Fabíola Cassel Ferri, advogada do Pipek Penteado Paes Manso Advogados, muitas organizações não conseguem cumprir a cota porque têm dificuldade de encontrar mão de obra e por atuarem em segmentos que impedem a contratação de profissionais com deficiência. O projeto proposto pelo governo, portanto, seria uma forma de minimizar esses problemas. “Há cargos que exigem plena capacidade física ou sensorial, como as atividades industriais pesadas. Nesses casos, a obrigação da lei se torna inexequível”, diz Fabíola.

CONTRAPONTOS

Mas há críticos do projeto. De acordo com Felipe Sampaio, professor de direito do trabalho do Cers, escola de cursos Jurídicos, o adequado seria que as organizações fossem obrigadas a justificar o motivo pelo qual não conseguiram cumprir a cota. Só após a comprovação é que poderiam ter a opção do pagamento. “Seria uma obrigação alternativa.

Da forma como o documento está hoje, a empresa pode substituir a contratação por um pagamento quando quiser. O projeto transforma uma previsão legal em algo meramente econômico.

Cesar Souza, consultor de empresas e fundador do grupo Empreenda, acredita que, embora a proposta não seja boa, é preciso haver mudanças nas regras atuais. O especialista relembra o caso da Itaipu Binacional, que seria obrigada a destinar pelo menos 40% das vagas em concurso público a pessoas com deficiência ou reabilitadas. Porém, a 24ª Turma do Tribunal Superior do Trabalho derrubou essa obrigação ao afirmar que a empresa não podia ser penalizada, porque buscara alternativas à cota, embora não tivesse conseguido. A geradora de energia tinha sido condenada a pagar multa de 10.000 reais por mês por vaga não preenchida. “A companhia precisou entrar na Justiça e arcar com uma série de custos para reverter essa situação, mas muitas empresas não teriam essa possibilidade. A aplicação da lei é ruim, por causa de uma atitude pouco flexível dos órgãos fiscalizadores”, diz Cesar.

O que também tem gerado polêmica éo fato de o projeto prever que um profissional com limitações consideradas graves (como é o caso dos tetraplégicos) seja contado duplamente. “É como se a pessoa com deficiência fosse um número, uma mercadoria quantificada. É desumano e fere a dignidade”, diz Maria Aparecida Gurgel, vice-presidente da Associação Nacional dos Membros do Ministério Público de Defesa dos Direitos dos Idosos e Pessoas com Deficiência (Ampld) e subprocuradora-geral do Trabalho.

PREOCUPAÇÃO COM A DIVERSIDADE

Aparentemente, o projeto de lei facilita a vida das corporações – que podem deixar de se preocupar em trazer PCDs para seus quadros. Mas essa medida pode ser uma péssima estratégia. Isso porque as companhias que deixarem de contratar esses profissionais perderão, no médio e no longo prazo, o viés da inclusão – o que não é nada bom para os negócios. “A diversidade é o que gera inovação dentro das empresas. Se você tem um grupo com pensamentos e realidades similares, sua empresa vai ter sempre as mesmas ideias e não evoluirá”, diz Alexandre Slivnik, especialista em recursos humanos e diretor da Associação Brasileira de Treinamento e Desenvolvimento (ABTD).

Mesmo com a aprovação da lei, a tendência é que as organizações que tenham políticas de inclusão mantenham a prática. “Essas empresas já entendem a necessidade de ter essa diversidade, de dar oportunidades a pessoas com pensamentos, culturas e contextos diferentes”, afirma Alexandre.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O CORPO FALA

O ser humano desenvolveu um sistema de comunicação variado, que tem como base a expressão dos pensamentos e emoções por meio de um conjunto de sons e gestos.

Em algum momento da vida, você já ou viu a expressão “o corpo fala”. Obviamente, os gestos, posturas corporais e expressões faciais não são tão explícitas e claras como o que é emitido pela boca, porém a maioria das pessoas não se atém a um importante detalhe: é justamente nessa linguagem não verbal, que domina 90% da comunicação, em que são revelados os mais verdadeiros sentimentos de uma pessoa, já que a maioria não consegue expressar pela fala as suas emoções mais profundas.

Por se tratar de uma espécie complexa e com inúmeras maneiras de se relacionar entre si, o ser humano desenvolveu um sistema de comunicação variado, que tem como base a expressão dos pensamentos e emoções por meio de um conjunto de sons e gestos, É por meio dessa linguagem indispensável que é possível sobreviver e conviver em sociedade. Porém, a comunicação vai muito além das palavras escritas ou faladas, com as expressões faciais e movimentos corporais demonstrando milhares de emoções e tendo uma importância ainda maior que as próprias palavras, afinal o corpo não mente.

O estudo das emoções e das expressões faciais tem o especialista norte-americano Paul Ekman como um dos percursores. Após mais de 15 livros escritos e centenas de artigos publicados, o professor da Universidade da Califórnia passou a ser considerado como um dos mais prestigiados psicólogos do século XXI, além de uma das 100 pessoas mais influentes do mundo. Foi Ekman que descobriu as chamadas micro expressões faciais e, a partir dai, passou a defender que as expressões de emoções continham uma raiz biológica universal, independentemente da cultura. Em outras palavras, as emoções de todas as pessoas são inatas, ou seja, fazem parte do indivíduo desde o seu nascimento, havendo traços e comportamentos fixos e que são trazidos desde o ato da concepção, passando pela gestação, nascimento e a primeira infância. Há, evidentemente, traços temporários que a pessoa carrega durante momentos da vida, com a fisionomia sendo alterada o tempo inteiro, mediante situações de estresse do dia a dia. Isso, porém, fica muito visível quando a pessoa passa a entender que toda parte do corpo traz informações profundas.

Ao todo, Ekman estudou as expressões faciais das pessoas por mais de 40 anos. O início se deu em 1954, quando ainda era estudante. Após se formar, inclusive, com as expressões faciais e movimentos corporais sendo temas de sua tese de graduação, deixou de lado a psicoterapia, dedicando-se a observar sessões com terapeutas através de um espelho unidirecional. Foi a partir daí que criou a base de todo o seu estudo, ao observar a importância e relevância dos canais não verbais, passando a entender que a maioria das informações é passada por meio de expressões faciais, gestos e até o tom de voz.

CAMPO INTERCULTURAL

Após receber uma bolsa de estudos, suas pesquisas ganharam um campo intercultural e o professor passou a analisar os gestos e a expressão das emoções de pessoas de diversas partes do mundo, com o intuito de determinar se havia expressões universais. A principal base de apoio da sua pesquisa foi, porém, uma análise com pertencentes à tribo Fore, em Papua-Nova Guiné. Mesmo sem nenhum acesso a meios de comunicação e também com raros contatos com pessoas de fora da tribo, os membros dessa localidade tinham as mesmas emoções que podiam ser vistas em pessoas que moravam nos Estados Unidos, por exemplo. Por meio desse resultado, o professor conseguiu classificar as expressões, chamando-as de emoções básicas, sendo elas universais, primitivas e independentes da cultura. Em um primeiro momento, o estudioso defendeu a existência de apenas seis emoções em todas as pessoas do planeta (raiva, alegria, tristeza, surpresa, medo e nojo). Tempos mais tarde, porém, acrescentou à sua lista o desprezo, chegando às sete emoções básicas.

Basicamente, segundo o que defende, há micro expressões que correspondem às chamadas emoções universais. Quando a pessoa está com nojo, por exemplo, há uma elevação do lábio superior, o aparecimento de rugas no nariz e na área próxima ao lábio e a elevação das bochechas, causando o enrugamento das pálpebras inferiores. Já durante o sentimento de alegria, há a elevação das bochechas e também surgem rugas na pele abaixo da pálpebra inferior e também no nariz, além de ocorrer o mesmo com o lábio superior e na parte externa dos olhos. Quando somos tomados pela raiva, as sobrancelhas ficam baixas, contraídas e a pálpebra inferior tensa. Os lábios também ficam tensos ou mesmo abertos e o olhar é acentuado. Durante o sentimento do medo, as pálpebras superiores e inferiores são elevadas e há a elevação e contração das sobrancelhas. Em alguns momentos a boca chega a ficar aberta. Enquanto isso, na tristeza, a pele das sobrancelhas fica em forma de triângulo e os ângulos inferiores dos olhos ficam para baixo. Quando falamos em surpresa, ocorre a elevação das sobrancelhas, que ficam em posição circular. Já as pálpebras ficam abertas, com a superior sendo elevada e a inferior de forma descendente. Por fim, a emoção de desprezo tem uma característica facial muito típica, com a pessoa levantando um dos lados da boca. Ela é, aliás, a única das expressões em que os movimentos de um lado do resto perdem a simetria com os do outro.

Fica claro, portanto, que, a partir do momento que uma pessoa passa a compreender de forma mais assertiva o que o corpo está querendo dizer, ela abre uma possibilidade única de entender melhor o que o outro está comunicando e, a partir desse momento, é possível determinar uma relação muito mais saudável e orgânica entre as partes, melhorando o convívio de uma forma geral, seja ele na vida pessoal ou profissional, pois se estabelece um movimento mais profundo na troca de informação. Muitos conflitos são desencadeados em virtude de as pessoas não conseguirem se expressar.  Porém, ao começar a entender esses sinais dados pelo corpo, ela passa a compreender o que o outro está querendo dizer.

PARA ENTENDER

Mas como uma pessoa comum pode entender os sinais do corpo? Muitas vezes, as pessoas trazem em uma conversa informações superficiais das suas emoções e sentimentos, mas, por meio de pequenos detalhes, é possível entender mais profundamente todo o processo que aquela pessoa está vivendo. Esses sinais podem ser notados e entendidos de diversas formas, como, por exemplo, pelos gestos das extremidades, seja com as mãos ou mesmo um simples deslocamento da cabeça. Há, ainda, elementos da fala que não necessariamente formam a linguagem verbal, mas que dão uma série de dicas importantes do que se quer verdadeiramente dizer, como o tom de voz, a velocidade da fala e o volume.

Outros subsídios importantes são as expressões faciais e até mesmo a posição corporal, que podem indicar a atitude que uma pessoa apresenta em relação à interação social que está vivenciando. As expressões faciais, os movimentos e os gestos podem, claro, ser mais ou menos sutis de pessoa para pessoa, mas, em diversos momentos, essas mensagens do corpo são enviadas. Muitas vezes, aliás, a linguagem corporal revela algo diferente do que falamos, mandando mensagens contraditórias. Portanto, nem tudo o que é dito está nas palavras, e os gestos e posições têm muito mais a dizer do que a própria boca. Essa percepção é importante para o desenvolvimento pessoal, mas, também, para os relacionamentos interpessoais, nos quais muito do que está acontecendo não é dito e sim percebido.

Há muitos detalhes mostrados pelo corpo que acabam passando despercebidos pelas pessoas que não sabem fazer uma leitura correta. Um dos exemplos práticos é a mão na boca. Quando uma pessoa não está falando o que realmente quer dizer, ela costuma tapar a própria boca, passar a mão nos lábios ou tocar o queixo. Alguns até chegam a colocar objetos na frente da boca. O ato de comprimir os lábios é outra linguagem corporal. Esse ato demonstra que a pessoa está tentando evitar dizer o que realmente pensa ou que não deseja responder alguma pergunta quando questionada. Outra dica se refere às palmas da mão, quando a pessoa está sendo sincera nas palavras, ela tende a expor as palmas para o outro. Quando mentimos, somos inclinados a nos fechar e esconder as mãos, seja no bolso, nas costas ou cruzando os braços. Movimentos rígidos, tensos, repetitivos com mãos, braços ou pernas são outros sinais claros passados pelo corpo, assim como membros encolhidos.

Outra linguagem corporal que denuncia que a pessoa não está falando o que realmente está sentindo é o ato de coçar ou tocar o nariz repetidamente. Isso mostra ansiedade. O aumento na pressão arterial em virtude da ansiedade leva ao aumento do fluxo sanguíneo no nariz e as células liberam histamina, o que faz com que o nariz coce. Além disso, os braços cruzados podem ser um sinal de que ela está na defensiva, com necessidade de se auto proteger de uma situação. O tom de voz também costuma mudar, já que o músculo das cordas vocais fica enrijecido quando a pessoa está sob pressão. O olhar também é importante. No ato de tentar fugir do que quer dizer, a pessoa fica com dificuldade de manter o contato ocular com a outra pessoa.

PERCEPÇÃO

Diante de todos esses exemplos é possível aprender muito sobre a leitura corporal e passar a entender a percepção além da linguagem verbal, melhorando a percepção das próprias emoções e as das pessoas com quem se relaciona, passando a reconhecer em pequenos gestos o que os outros dizem sobre suas emoções. Além disso, os que dominam a leitura corporal e passam a diferenciar pelas micro expressões da face às sete principais emoções dos seres humanos aprimoram a capacidade em prever o comportamento dos outros, melhorando as suas decisões. Aprender a perceber sinais de emoções antes mesmo que a pessoa que está ao lado tenha consciência de que está com esse sentimento também ajuda muito na vida. Isso porque esse conhecimento faz com que se tomem atitudes mais assertivas, por exemplo, numa conversa, sejaela de negócios, relacionamento afetivo ou familiar. Ao ter esse entendimento pleno e amplamente trabalhado, ela tomará a decisão correta no que diz respeito à abordagem, pois fará a leitura perfeita do que está sendo sinalizado pela outra pessoa. O mais importante nesse processo é que as pessoas precisam passar a observar os outros ao invés de apenas olhar, ficando atento a tudo o que está acontecendo e aos importantes sinais que são passados a todo o momento durante uma interação ou conversa.

Mas não é só o pesquisador americano Paul Ekman que defende a importância de aprendermos o que é passado pelo corpo. Dentro da medicina tradicional chinesa (MTC), essas mensagens também são levadas muito à sério, principalmente na avaliação das emoções e também das doenças. Para os chineses, a enfermidade nada mais é do que uma manifestação de desequilíbrio das energias Yin e Yang do corpo, situação que pode ser causada por vários fatores. Se do ponto de vista ocidental o médico cuida do corpo e o psicólogo da mente, para os chineses corpo e mente são uma estrutura única e inseparável. Ou seja, a grande maioria das doenças tem origem emocional e é consequência de sentimentos negativos que deixam uma carga negativa no organismo, que com o tempo pode se transformar em enfermidades. De forma geral, toda vez, que uma pessoa presencia ou toma conhecimento de um fato qualquer, sua mente gera uma emoção de alta ou baixa intensidade e dá a ela um sentido. Assim, quando as emoções são ruins, elas podem também trazer consequências ruins para a saúde.

Diante desse cenário, o aparecimento de uma doença pode ser considerado como uma reação de sensibilidade, isto é, tem-se um primeiro contato com um fato que gera um estado emocional ruim. Na ocorrência de contatos repetitivos, seja do fator ou de acontecimentos (simultâneos), a mente reaviva a memória e , posteriormente, pode desenvolver a doença, que nada mais é do que a resposta a um estado emocional e que pode manifestar-se em dois níveis: no sistema musculo esquelético, quando o sentido dado às emoções refere-se ao movimento; ou no sistema hipotálamo-hipófise-adrenal, quando envolve o sistema imunológico, o sistema autonômico, os hormônios, desencadeando doenças dos órgãos internos. Essa teoria das emoções, aliás, não se restringe, atualmente, à MTC. Ela compõe toda a gama de estudos da neurociência, Psicologia, neurolinguística e de muitas outras vertentes científicas, advindas dessas ciências que estão em pauta há décadas.

De acordo com a teoria do QJ mental, de Ysao Yamamura, que é professor associado livre-docente e chefe do setor de Medicina Chinesa-Acupuntura do Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Universidade Federal de São Paulo, as pessoas estão sujeitas a enfrentar as emoções já durante a gravidez, assim sendo, tudo que a mãe sentir e se emocionar, o feto sentirá junto com ela. Dentro desse campo, o trabalho com as emoções tem se mostrado eficiente na cura, como também tem revelado, entre tantas outras novidades, a origem das doenças, por exemplo, das más-formações em crianças, que pode ser causada por emoções que as mulheres sentiram, mesmo antes de saber que estão grávidas. Isso porque quando a mulher sabe que espera um bebê, ela toma mais cuidado, porém no período que vai da fecundação até ela saber que vai ser mãe, os cuidados não são os mesmos. Dentro desse contexto, aquelas que são submetidas, quando o feto ainda está em formação, a situações de sofrimento, conflito e estresse, em função de brigas com seus parceiros ou outras pessoas da família – que acabam por gerar sentimentos como raiva, revolta, medo e vontade de morrer -, podem gerar um filho com má formação congênita do coração, da coluna vertebral e dos rins.

INFÂNCIA

Fatores que provocam estado de tristeza, desde a infância ou período intrauterino, também podem predispor à asma brônquica e, posteriormente, o desenvolvimento da bronquite crônica e enfisema pulmonar. Os estados de raiva e revolta podem, por sua vez, ser a causa de várias manifestações clinicas, como dor de garganta, dor braquial, dor lombar, parestesia, dor na lateral do membro inferior, aperto no peito. Já as emoções e sentimentos que são reprimidos acabam em doenças como gastrite, úlcera, dores lombares, dor na coluna. Alguém que por situações de vida tem de manter-se firme, rígido nos pensamentos e que não pode falhar, tem chance de desenvolver problemas na coluna, por exemplo. Ou quando, numa situação de briga, em que a raiva vem e aquela vontade de dar um soco é reprimida, isso pode ocasionar um problema no ombro. Esconder o medo também pode ser vantajoso em diversos momentos da vida, mas rugas, uma cor escura na testa e calvície precoce denotam as verdadeiras emoções.

É importante notar que o discurso de qualquer indivíduo pode ser alegre, positivo, socialmente correto, mas pode estar encoberto pela racionalidade, isto é, o que se aparenta – ainda que de forma convincente – nem sempre é o que se sente. Isso porque é muito comum os seres humanos reprimirem as emoções desde a tenra idade. Todos, sem exceção, abafam as emoções para conviver em sociedade e para ser aceito por quem se relaciona. Diante disso, as emoções ruins acabam sendo somatizadas no corpo e, dependendo do significado dado a elas, uma área do corpo, em algum momento, será afetada. O corpo e face falam (muito) sobre o mundo inconsciente, ou seja, tudo que não é dominado pelo racional. Em virtude disso, ao se analisar o todo, está se avaliando a saúde mental, emocional e física de um indivíduo. A cura para as doenças, por sua vez, consiste na ressignificação dos processos, mas, principalmente, no estudo constante e no aprimoramento do autoconhecimento.

OUTROS OLHARES

ENXAQUECA, UM MAL SILENCIOSO

Mais de um bilhão de pessoas em todo o mundo padecem dessa forte dor de cabeça crônica, segundo a OMS. No Brasil, 15% da população sofre com a doença, que atinge principalmente o sexo feminino

O que Júlio César, Napoleão Bonaparte, Friedrich Nietzsche, João Cabral de Melo Neto, Sigmund Freud, Madame de Pompadour e Thomas Jefferson têm em comum? Aparentemente nada, mas todos, em seu tempo, padeceram de um mesmo mal silencioso: a enxaqueca. O sofrimento do poeta João Cabral foi tamanho que ele fez até uma ode para um analgésico que lhe ajudou muito no poema “Monumento à Aspirina”.

Mas os gênios não estão sozinhos. Cerca de um bilhão de pessoas no mundo convivem com esse mal, segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS). É uma verdadeira legião de sofredores. No Brasil, um levantamento feito pelo instituto de pesquisas HSR Health e obtido com exclusividade pela ISTOÉ mostrou que 15% da população têm a doença. Ou seja, mais de 31 milhões de pessoas penam com a dor. E entre as mulheres esse percentual pode até dobrar, por causa dos fatores hormonais, o que provoca duas a três crises por mês.

Diferente de uma cefaléia comum, a enxaqueca se caracteriza por ser uma forte dor latejante, que pode atingir um lado ou a fronte inteira da cabeça, durando mais de seis horas. Normalmente vem acompanhada de náuseas, vômitos e sensibilidade à luz, sons e cheiros. Foi um episódio desses que levou Jéssica Avelino de Souza, de 26 anos, para um pronto socorro pela primeira vez há 15 anos, quando começou a passar mal na escola. “A dor foi piorando, vomitei e comecei a ver pontos claros. Depois os médicos afastaram causas físicas e me encaminharam ao neurologista”, conta. Mesmo tomando os remédios, ela tinha pelo menos uma crise forte por mês. Diante disso, mudou sua alimentação e passou a evitar comidas que pioravam o quadro, como carnes, gorduras e doces e ficou melhor.

Em 2013, Jéssica criou o Grupo de Apoio para o Tratamento de Enxaqueca (Gate), que permite a troca de experiências entre pacientes e já conta 27 mil participantes, que fizeram parte da pesquisa da HSR. Jéssica só se assusta com a busca das pessoas por um remédio milagroso. É exatamente esse o grande problema, segundo o neurologista do Hospital das Clínicas, Fábio Porto. “As pessoas só procuram tratamento quando o remédio da farmácia não funciona mais e o uso indiscriminado de analgésicos só torna o problema crônico porque desregula ainda mais o sistema de proteção de dor”, diz.

PROPENSÃO GENÉTICA

Neste cenário, ainda há a questão de genética. Ou seja, pacientes herdam essa propensão da família, afirma o neurologista do Hospital das Clinicas de São Paulo, Marcio Nattan. É o caso de Regina Helena Pinto. Ela suas três irmãs sofreram a vida toda com o problema e agora sua filha e até as sobrinhas também carregam o fardo. “Conheço quase todos os medicamentos para enxaqueca, mas temos de conviver porque não há cura”, diz desanimada.

“A enxaqueca é a segunda doença mais incapacitante no mundo, mas como não mata, não recebe tanta atenção. Isso começa a mudar”, explica Nattan. Os tratamentos usavam remédios que não foram desenvolvidos para enxaqueca, mas sim adaptados, como anticonvulsivos, ansiolíticos e até para pressão alta. Porém, agora foi aprovado pela ANVISA um medicamento biológico que chegou ao Brasil em fevereiro e usa uma molécula envolvida no mecanismo da dor que impede as crises. “Não é um analgésico, mas sim um bloqueador da dor”, explica o diretor médico da divisão de Farma da Novartis Brasil, Luis Boechat. A novidade, porém, é cara. Uma única injeção para auto aplicação, como insulina, custará cerca de R$ 2 mil.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE ORVALHO PARA A ALMA

DIA 15 DE MARÇO

SUBMISSÃO, UMA MISSÃO HONROSA

As mulheres sejam submissas ao seu próprio marido, como ao Senhor (Efésios 5.22).

A palavra submissão provoca urticária em muita gente. Está desgastada, distorcida e em desuso na nossa geração. A Bíblia ensina a mulher a ser submissa ao marido como a igreja é submissa a Cristo. A rejeição à submissão se deve à falta de entendimento acerca do verdadeiro significado da palavra. Submissão não é ser inferior nem ser capacho. Submissão não é desonra nem privação da liberdade. Somos livres quando andamos conforme os preceitos divinos, e não quando os transgredimos. Somos livres para dirigir nosso carro quando o guiamos pelas leis do trânsito, e não quando as transgredimos. Quanto mais a igreja é submissa a Cristo, mais livre e mais honrada se torna. A mulher não é chamada a ser submissa a um déspota implacável, mas a um marido que a ama como Cristo ama a igreja. A submissão não é incondicional, pois a mulher deve ser submissa a seu marido como ao Senhor, ou seja, por causa do Senhor e em sintonia com sua submissão a Cristo. A submissão é uma missão sob a missão do marido, ou seja, uma missão compartilhada. O papel do marido é amar a esposa como Cristo amou a igreja, e o papel da esposa é dar suporte a seu marido para que se cumpra esse desiderato divino. Nenhuma mulher tem dificuldade de submeter-se a um marido que a ama como Cristo amou a igreja.

GESTÃO E CARREIRA

O FATOR EXPERIÊNCIA

Até 2050, o número de brasileiros acima de 60 anos deve mais que dobrar. Como resultado, haverá muitos profissionais seniores disponíveis no mercado e é importante que companhias criem estratégias para combater o preconceito contra os mais velhos.

Em 2050, o número de brasileiros acima de 60 anos deve mais que dobrar, ultrapassando os 40milhões, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A queda nas taxas de fecundidade e o aumento da expectativa de vida são as principais justificativas para a inversão da pirâmide etária no país. Some-se a isso a reforma da Previdência, que elevou a idade de aposentadoria de homens para 65 anos e de mulheres para 62, e o resultado é que teremos profissionais cada vez mais velhos no mercado. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (lpea), em 2040 a de idade dos funcionários nas organizações será de 45 anos. “Uma pessoa com 60 anos está começando a terceira parte da vida e ainda tem muito a contribuir. Por isso, as companhias devem tornar o ambiente de trabalho fértil para esses profissionais”, diz Ricardo Sales, sócio fundador da consultoria Mais Diversidade. Para contratar e inserir trabalhadores mais velhos, as empresas terão de atacar uma questão que por muito tempo foi ignorada: o preconceito etário. E ele está enraizado. De acordo com um estudo feito em 2013 pela consultoria PwC, em parceria com a Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV­ Eaesp), para 70% das empresas os profissionais maduros custam mais caro. Além disso, 69% acham que eles são resistentes a mudanças e 58% acreditam que esse pessoal é menos flexível.

O preconceito etário é tão generalizado que ganhou até nome: ageísmo. O termo, criado em 1969 pelo psiquiatra e gerontologista americano Robert Neil Butler, é empregado para descrever os estigmas de qualquer faixa etária, mas frequentemente é associado à discriminação contra os mais velhos. Embora muita gente não conheça a palavra, o sentimento de exclusão não é novidade para essa parcela da população.

Segundo o estudo Um Retrato Etário nas Organizações, dos pesquisadores brasileiros Fran Winandy e Darcy Hanashiro, em parceria como site Vagas.com, 50% dos profissionais com mais de 45 anos já foram alvo de piada por causa da idade e 55% afirmam ter sofrido discriminação em processos seletivos. “É comum muitas pessoas deixarem de colocar a idade e o ano em que se formaram para que as empresas deem uma chance a elas. Muitas vezes são recrutadores jovens que não selecionam esses profissionais por falta de identificação”, afirma a pesquisadora Fran, que também é sócia na Acalântis Execulive Search.

DERRUBANDO ESTEREÓTIPOS

O rápido avanço das novas tecnologias contribui para reforçar esses estigmas. Pense por um momento no perfil de profissional ágil, ousado e inovador, que tanto aparece entre os mais desejados pelas empresas. Provavelmente, a primeira imagem que vem à cabeça, é de alguém jovem e descolado.

“Associamos inovação aos nativos digitais. Criamos a percepção de que outras gerações têm dificuldade de se atualizar e são mais lentas. Isso é puro estereótipo”, diz Ricardo, da consultoria Mais Diversidade. Os números comprovam isso. De acordo com o estudo da FGV, para 62% das companhias, os profissionais mais velhos têm dificuldade em lidar com as tecnologias. “É quase como acreditar que essas pessoas apresentam algum declínio cognitivo, uma vez que o acesso à internet e a smartphones hoje é muito mais fácil”, diz Fran. Essa adesão às novas tecnologias é um fato. Segundo dados da Pnad Contínua de 2018, 31% dos idosos acessam a internet diariamente – grupo que mais cresceu entre os novos usuários da rede.

Mas não basta contratar profissionais mais velhos. É preciso integrá-los, oferecendo as oportunidades e os desafios, trabalho semelhante ao que ocorre na inclusão de grupos como mulheres, negros e LGBTQI+. “No fundo, esse é o único tema de diversidade que fala absolutamente com todos os públicos, porque é uma posição que um dia todos vamos ocupar”, diz Ricardo, da Mais Diversidade. Uma das premissas para criar times diversos é que trazer outros pontos de vista para a empresa contribui para gerar inovação. No caso de profissionais mais velhos, isso tem o adicional da experiência e da bagagem que essas pessoas adquiriram com o passar dos anos.

FOCO NA INCLUSÃO

Aos poucos, as empresas começam a criar ações de inclusão de profissionais mais velhos em suas jornadas de diversidade. Segundo outro estudo da FGV, de 2018, 28% das companhias já contam com um pilar etário, por exemplo. Embora baixo, o número é um avanço se comparado com algum tempo atrás, quando a discussão nem existia. O aumento do interesse das empresas é algo sentido pela MaturiJobs, plataforma que conecta profissionais maduros a vagas de emprego. “De um ano para cá vimos nosso faturamento triplicar, com companhias procurando proativamente nossos serviços”, diz Morris Litivak, fundador da empresa.

Uma das companhias que já começaram esse trabalho é a distribuidora de energia EDP Brasil. Em 2019, a multinacional portuguesa deu início à sua política de diversidade e, logo de cara, colocou a questão etária como um dos pilares do programa. Hoje, cerca de 25% do quadro de empregados da EDP tem mais de 50 anos. Batizado de Gerações, o grupo de afinidades voltado para o tema conta com 100 funcionários voluntários. “Desenvolvimento, atração e retenção são os norteadores desse pilar”, afirma Fernanda Pires, diretora de recursos humanos da EDP Brasil. Uma das iniciativas que surgiram por meio do grupo foi a flexibilização de benefícios de acordo com a faixa etária. A ideia é deixar que cada grupo etário monte a própria cesta, partindo do pressuposto de que os interesses podem mudar ao longo da vida. A implantação da iniciativa atualmente está sendo estudada pela empresa.

Antes de lançar o programa de diversidade, entretanto, a EDP realizou uma série de treinamentos e palestras sobre os temas que seriam trabalhados. Para falar de inclusão de profissionais mais velhos, a companhia criou uma campanha, batizada de Talento Não Tem Idade, por meio da qual divulgou peças de endomarketing reforçando a posição de combate ao preconceito etário na organização. Os líderes da EDP também receberam capacitações, e a ideia é criar uma meta de diversidade e inclusão, atrelada à distribuição de lucros da multinacional. “Nosso objetivo é ter equilíbrio e representar as várias gerações, entendendo que cada uma tem com o que contribuir”, diz Fernanda.

ESTAGIÁRIO AOS 60

Embora o aumento da idade produtiva dos idosos tenha como principal razão a questão econômica, também há o fato de que, com maior expectativa de vida, muitas pessoas não querem parar a carreira e suas conquistas profissionais. “No trabalho é onde formamos nossa identidade e construímos nosso legado. Com a ajuda da medicina, hoje envelhecemos com mais vigor. Então, quando chegam à idade de se aposentar, muitos não querem”, afirma Ricardo, da Mais Diversidade.

Esse foi um dos motivos, aliás, que inspiraram Morris a criar a MaturiJobs. Quando sua avó, então com 80 anos, teve de se aposentar repentinamente, ela começou a adoecer. “Continuar produzindo e trabalhando ainda é muito importante para a geração que usa nossa plataforma”, diz ele, que também oferece treinamentos em empreendedorismo para os profissionais cadastrados em seu banco de talentos.

Continuar se capacitando mesmo depois de sair da faculdade e terminar o MBA, o chamado long-life learning, é, inclusive, uma demanda que não tem idade – segundo especialistas, o hábito se tornará essencial para darmos conta das transformações dos próximos anos. E, se vamos continuar sendo eternos alunos, nada mais natural do que a existência de estagiários e trainees mais velhos. “A flexibilização de idade nos programas de estágio ainda é algo pontual, mas é uma ótima alternativa para quem continua estudando ao longo da vida”, diz Ricardo, da Mais Diversidade.

A Unilever foi uma das pioneiras nesse sentido ao lançar, em 2019, um processo seletivo exclusivo para estagiários com mais de 50 anos. “A ideia surgiu durante um Workshop de diversidade e inclusão, vinda de um funcionário”, afirma Luciana Paganato, vice-presidente de RH da Unilever Brasil. O programa, que recrutou três profissionais com 62 anos para a área de vendas, foi batizado de Senhor Estagiário, em referência ao filme estrelado por Robert De Niro. O pré-requisito para participar da seleção era que os candidatos estivessem cursando uma faculdade. “Esses estagiários têm perfis variados: um deles está na primeira graduação, outro buscou o curso para se aprimorar, e o terceiro voltou a estudar para retornar ao mercado. Eles têm vontade de aprender”, diz Luciana.

FAZ BEM PARA O BOLSO

Inserir os mais velhos nas companhias, além do apelo social, tem um viés mercadológico. “Não é apenas a força de trabalho que vai envelhecer, mas também os consumidores. Isso quer dizer que as empresas terão de incluir profissionais que consigam pensar com a cabeça desse público para criar soluções e antever demandas”, afirma Morris, da MaturiJobs. A visão é compartilhada por Luciana, da Unilever. “Para estar em todos os lares, não há como não ter diversidade. Então, é essencial romper e eliminar todos os estereótipos possíveis, incluindo o de idade.” O Itaú Unibanco foi outra empresa que percebeu isso. Em junho de 2019, começou um projeto-piloto, em parceria com a consultoria de recrutamento Labora e com o movimento de longevidade Lab 60+, para recrutar profissionais acima de 50 anos para as agências. O processo seletivo teve recorde de público: 2.000 pessoas se inscreveram para apenas 18 vagas. Os selecionados tiveram treinamentos de desenvolvimento pessoal, novas tecnologias e finanças.

Nas agências, eles receberam a missão de melhorar a experiência de clientes idosos. Entre as responsabilidades estava a de conscientizar o público sênior sobre a importância de poupar e a de incentivar a adesão às novas tecnologias, orientando aqueles que desejassem baixar o aplicativo do Itaú, por exemplo. “Iniciativas como essa preparam o banco e a sociedade para o futuro do trabalho e antecipam tendências de mercado”, afirma Luciana Nicola, superintendente de relações institucionais e sustentabilidade do Itaú Unibanco.

O projeto, que terminou no final de janeiro, foi considerado um sucesso. “Nos meses de outubro e novembro registramos, respectivamente, 39% e 81% de aumento no número de clientes que estão com a jornada digital completa, ou seja, passaram a realizar os serviços pelo app”, comemora Luciana. A expectativa é realizar outras edições do programa até o fim do ano.

Práticas como essa ainda podem aumentar o engajamento do restante dos funcionários, como explica Fran, da Acalântis Executive Search: “Ao contratar profissionais com mais idade, que muitas vezes não encontram chance em outras companhias, a organização mostra que as pessoas não são descartáveis”. Uma mensagem que toca todas as gerações.

9 DICAS PARA COMBATER O AGEÍSMO

Passo a passo para lidar com o preconceito contra os mais velhos

1 – Faça uma pesquisa para identificar seu público interno (sexo, cargo, idade etc.)

2 – Crie um mapa de diversidade: Quais são os pontos críticos? O que a empresa já possui?

3 – Tenha clareza dos objetivos e entenda a relação da diversidade com o seu negócio

4 – Organize grupos de afinidades formados por pessoas que se identifiquem com essas causas

5 – Faça eventos e palestras de sensibilização com histórias de personagens reais

6 – Estimule a troca por meio de mentorias, projetos e fóruns com todo o time

7 – Revise processos seletivos, garantindo que não haja restrições de idade e estimulando a representatividade etária

8 – Observe seus processos anteriores e entenda em que momento pessoas mais velhas foram deixadas de lado

9 – Estipule e acompanhe métricas de capacitação e inclusão de profissionais maduros

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O SUPERPODER DA AUTOCONFIANÇA

Tudo parece caminhar bem, até que uma avalanche de dúvidas parece cair sobre nossa cabeça, minando nossos melhores propósitos. O que podemos fazer quando isso acontece?

Acreditar em si mesmo nem sempre é fácil. Os planos em geral parecem bons: talvez expor uma ideia interessante durante uma reunião, participar de uma importante competição esportiva ou simplesmente abordar o estranho de aparência agradável no café. Mas às vezes simplesmente não temos a confiança necessária para decidir dar o passo decisivo. Então, repentinamente, as dúvidas nos atormentam: estamos realmente dispostos? Podemos fazer isso? O que acontece se der errado? E, em meio a variações de medo, em vez de aproveitar uma oportunidade, podemos deixá-la passar. Ou precisar das palavras encorajadoras dos outros, que muitas vezes parecem confiar em nós mais do que nos mesmos.

Mas, afinal, o que realmente significa “confiar em si mesmo”? Embora os psicólogos estejam lidando com essa questão há décadas, não é tão fácil separar a autoconfiança de outros termos que são frequentemente relacionados. O conceito de autoconfiança geral se refere principalmente à fé em suas próprias habilidades como um todo. Quando se trata de habilidades individuais, os cientistas tendem a falar de autoeficácia ou autoconfiança específica. “Uma pessoa pode ser eficiente em matemática, mas ter baixo desempenho em comunicação”, explica o psicólogo Oin Zhao, professor da Universidade Western Kentucky, nos Estados Unidos, lembrando que a autoeficácia em uma área pode mudar com o tempo.

O conceito de autoestima também costuma entrar em jogo quando se trata de autoconfiança. “Mesmo na literatura científica, os dois termos às vezes são confusos, embora eles realmente descrevam algo diferente”, diz Oin Zhao. A autoestima não se refere necessariamente a habilidades, é na verdade o respeito que você tem por si mesmo, sua própria apreciação. Em 1990, Jennifer Campbell, então professora da Universidade da Colúmbia Britânica em Vancouver, conseguiu mostrar que a autoestima e a autoconfiança estão frequentemente ligadas. Para isso. ela selecionou para um estudo 92 alunos com alta autoestima e 92 alunos com baixa autoestima. Todos preencheram um questionário no qual foram solicitados a declarar em que medida determinados adjetivos se aplicavam a eles. Posteriormente, a pesquisadora quis saber dos participantes quão confiantes estavam em suas respostas. Os voluntários com baixa autoestima mostraram menos confiança em sua própria capacidade de se avaliar.

Mas nem sempre é assim. “Também existem pessoas que têm baixa autoestima, mas têm muita certeza de como funcionam”, diz o professor de psicologia Richard Petty, da Universidade Estadual de Ohio. Isso pode ser desfavorável, pois muitas vezes a pessoa passa a buscar “provas” de que não é boa o suficiente. Nesse caso, a psicoterapia costuma trazer ótimos resultados.

INFLUÊNCIAS EXTERNAS

O quanto acreditamos em nós mesmos e em nossas próprias habilidades tem um grande impacto em nosso comportamento. Por exemplo, pode afetar o quanto estamos dispostos a tomar decisões: aqueles que são atormentados por dúvidas têm mais probabilidade de procurar informações, muitas vezes em fontes pouco confiáveis, e hesitam em se comprometer. As vezes, nosso comportamento de consumidor também é determinado por nossa autoconfiança.

Isso foi demonstrado em 2008 por pesquisadores liderados por Leilei Gao, da Universidade Chinesa de Hong Kong. Os cientistas primeiro abalaram a crença dos voluntários em suas próprias habilidades, pedindo que escrevessem um ensaio sobre sua inteligência com a mão não dominante. Os participantes do experimento deveriam decidir o que gostariam de receber como agradecimento pela participação no estudo: uma caneta-tinteiro ou doces. Nesse caso, a maioria escolheu a caneta, em contraste com os participantes do grupo de controle, que tiveram permissão para escrever sobre suas próprias habilidades cognitivas com a mão dominante, como de costume. Aparentemente, os voluntários tentaram “arrumar” sua autoimagem com o presente “mais inteligente”!

A falta de autoconfiança também pode bloquear oportunidades. Por exemplo, o Relatório de Educação da OCDE de 2015 sugere que, na escola, as meninas costumam fazer menos matemática do que os meninos porque têm menos confiança em sua capacidade de resolver problemas. Se compararmos apenas os resultados de meninos e meninas que têm um nível de crença igualmente alto em suas habilidades matemáticas, nenhuma diferença pode ser vista nos resultados.

Já pesquisadores da Universidade de Witten/ Herdecke foram capazes de mostrar que pessoas que têm mais confiança em suas próprias habilidades se saem melhor nos exames. Para fazer isso, eles fingiram para os voluntários que as respostas para um próximo teste de conhecimento geral seriam apresentadas a eles em uma tela por uma fração de segundo antes. De fato, apenas palavras completamente insignificantes tremeluziam no monitor. No entanto, na sequência, os participantes se saíram melhor no teste do que integrantes do grupo controle, que tiveram de fazer o teste sem a “preparação especial”.

OUTROS OLHARES

A DIVISÃO DO FEMINISMO

Dentro do movimento, novas vozes aparecem para questionar o modelo elitista, de classe média branca e urbana, e mostram a diversidade na emancipação feminina

O feminismo tradicional não representa a luta de todas as mulheres e está repleto de problemas que atrapalham o seu desenvolvimento. Historicamente, o movimento feminista tem oprimido grupos minoritários ao transformar em voz única, uma luta que, na verdade, é plural. Ao não serem contempladas nas reivindicações que surgem principalmente de uma classe média branca, urbana e elitizada, mulheres negras, indígenas, quilombolas e LGBTs apresentam outras narrativas que estão expondo divergências importantes no debate feminista no Brasil. Há diversas formas de ser mulher no mundo e as diferenças sociais e de experiências são mais determinantes do que parecem. “São mulheres pensando em um novo projeto de sociedade, em que não haja hierarquia e que não seja moldado por opressões”, resume a filósofa Djamila Ribeiro, autora de clássicos no tempo como “Quem tem medo do feminismo negro?” e “Lugar de fala”.

Quando as mulheres olham para a luta feminista pensando em suas próprias vivências, surge uma lacuna entre o individual e o coletivo que impede o avanço do movimento. Ao se abrir a discussão coletiva, as mulheres das chamadas bases de opressão defendem a empatia como o principal caminho de união feminina. São trazidas para o debate realidades até então tornadas invisíveis por uma narrativa única e hegemônica. Importante destacar que não se trata de uma competição entre as mais ou menos oprimidas: o que se defende é o fortalecimento da luta a partir de um olhar direcionado para as socialmente mais fragilizadas. “A gente que é mulher e negra não tem como escolher qual opressão é mais importante. A gente pensa nas opressões de maneira indissociável”, completa Djamila.

Há um episódio que narra muito bem a desigualdade social e racial na luta contra o sexismo. Durante um encontro de mulheres feministas brancas, Leila Gonzalez, uma das maiores pensadoras do tema no Brasil, levantou a importância em se debater a falta de saneamento básico entre as classes pobres. O grupo escutou o pedido com desinteresse e Leila explicou que pensar no acesso às necessidades básicas era fundamental porque dizia respeito à sexualidade. “Para uma mulher negra alcançar o que é a exclusão da mulher branca ela tem de dar um salto de qualidade na sua condição social”, diz Rosane Borges, pesquisadora de relações raciais e de gênero no Centro Multidisciplinar de Pesquisas em Criações Colaborativas e Linguagens Digitais (Colabor), da Universidade de São Paulo.

O silenciamento dos discursos minoritários dentro do feminismo, torna único o leque de reivindicações. As mulheres oprimidas não querem brigar por espaços de destaque, mas pretendem, justamente, fortalecer a defesa dos direitos do gênero. Silenciá-las é apagar lutas históricas de negras e indígenas escravizadas, que sempre combateram a opressão. Elas são a base de luta pela emancipação feminina, que, nesse caso, diz respeito à libertação de corpos escravizados. “O gênero sempre foi um marcador da diferença. Pensar na exclusão da mulher é pensar nos traços mais profundos da sociedade”, diz Rosane. Ao dizerem que o feminismo tradicional não as representa, elas gritam que opressão não acontece só no gênero. É preciso pensar também em raça e classe, como defende uma das maiores ativistas negras americanas, Ângela Davis.

DISCURSOS MINORITÁRIOS

Nessa questão de identidade e reconhecimento, a população feminina em áreas rurais ou nas florestas pouco ou nada se identifica com a palavra feminismo. As mulheres indígenas da etnia Baré, povo da região do Rio Negro, noroeste do estado do Amazonas, por exemplo, não acreditam nem nessa divisão de gênero. Elas falam em bem-estar coletivo. “A sociedade não-indígena nos vê como feministas, mas essa palavra não existe para a gente”, diz Nara Baré, coordenadora das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira. Os povos da terra sempre pautaram as suas questões de identidade na defesa da floresta. O que chamamos de meio ambiente, para as indígenas da etnia Baré é corpo e alma, indissociáveis. São problemas que o feminismo urbano não compreende. “Somos um só e, dentro dessa pessoa, o mundo ocidental fala de gênero”.

Aproximando-se um pouco mais do feminismo clássico, a comunidade quilombola se vê, em parte, contemplada por falas de pensadoras como Djamila e Rosane ­— ainda que as discussões urbanas sejam superficiais às mulheres que vivem da agricultura e da terra. “A nossa forma de combate é diferente da urbana, o que não significa dizer que não temos coisas em comum”, pontua Givânia da Silva, destaque na luta de direitos dessa comunidade. Nascida e criada em um quilombo no sertão pernambucano, ela integra a Comissão Nacional de Educação no Campo e confirma: “o feminismo branco passa longe das nossas demandas”.

Há ainda uma ala de mulheres tão radicais, as chamadas “radfem”, que resumem o ser feminino em útero e genitálias, reproduzindo uma lógica tão opressiva quanto a do machismo. Essa visão, duramente criticada por mulheres trans, não contempla a complexidade do gênero e anula a diversidade, aprisionando o movimento que busca a emancipação. “Elas têm a mulher só como um corpo, é literalmente algo muito biológico”, resume Jeanny Lima, mulher trans que não se identifica com o movimento radical elitista. Ainda que falem em fragmentação, a política de dar visibilidade às diferentes concepções busca fortalecer a igualdade coletiva e mostrar que nenhum de nós pode ser livre até que todos o sejam, como ensinou a pensadora e ativistas pelos direitos civis, a americana Maya Angelou, autora do clássico “Eu sei porque o pássaro canta na gaiola”.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE ORVALHO PARA A ALMA

DIA 14 DE MARÇO

A FELICIDADE, UMA UTOPIA NO BANQUETE DO PECADO

Porque o salário do pecado é a morte… (Romanos 6.23a).

As boates estão cheias de pessoas vazias. Os bares estão lotados de pessoas que sorvem cada gota de álcool na busca de preencher o vazio existencial. Os banquetes do pecado oferecem iguarias apetitosas, mas as pessoas saem deles empanturradas de angústia. O profeta Daniel registra no seu livro a festa de Belsazar, rei da Babilônia, cheia de pompa e luxo. Os convidados foram escolhidos a dedo. Era gente da nobreza. Havia muita bebida e muita diversão. Até mesmo os vasos sagrados saqueados do templo de Jerusalém foram usados naquela festa pagã. Os deuses da Babilônia eram invocados e o Deus de Israel era escarnecido naquele banquete do pecado. A alegria promovida pelo álcool e a felicidade prometida pelo pecado duram pouco. Naquela mesma noite, a cidade da Babilônia, que parecia inexpugnável, foi tomada pelos medos-persas. Naquela mesma noite, o rei com toda a sua glória estava destinado à morte. Naquela mesma noite, o julgamento de Deus caiu sobre aquelas pessoas, e a alegria da festa transformou-se em desespero fatídico. No banquete do pecado, a festa não dura para sempre, pois a felicidade verdadeira só habita nas tendas da santidade.

GESTÃO E CARREIRA

INCENTIVO NA BASE

Segundo dados do IBGE, em 2019 apenas 20% dos profissionais que trabalhavam no mercado de TI eram do sexo feminino.

Para tentar mudar esse cenário, a empresa de tecnologia da informação Cognizant criou um programa de jovem aprendiz exclusivo para as profissionais. Batizado de Women in Tech, a iniciativa começou no início de fevereiro e disponibilizou 40 vagas para estudantes de 17 a 21 anos, que cursavam ou tinham concluído o ensino médio. O único requisito para se candidatar era possuir noções básicas do pacote Office. “O objetivo é capacitar e aproximar essas mulheres do mundo da tecnologia, por isso não era necessário ter experiência”, afirma Carla Catelan, diretora da área de Aquisição de Talentos da Cognizant. O programa tem duração de 18 meses e contará ainda com treinamentos comportamentais e técnicos para as selecionadas. “O projeto reforça o compromisso da empresa com a diversidade”, afirma Carla.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

HORA DE DORMIR

A excessiva carga de trabalho e os apelos da vida moderna, para que as pessoas permaneçam acordadas “sequestram” valiosas horas de descanso Por isso mesmo, assumir conscientemente a responsabilidade pela qualidade do próprio sono pode ser fundamental para a saúde física e mental. Para isso, porém, é preciso mudar alguns hábitos bastante arraigados. Aceita o desafio?

A privação de sono é um problema cada vez mais comum em todo o planeta segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), no mundo uma em cada três pessoas tem dificuldade para dormir. Poderíamos atribuir a responsabilidade por essa dificuldade – que muitas vezes se traduz num sintoma – aos inúmeros estímulos que a energia elétrica e as inovações tecnológicas nos proporcionam ou mesmo a enorme carga de trabalho de muita gente. As causas sociais e culturais da falta de sono são inegáveis, mas revelam apenas uma parte da questão. A responsabilidade pela qualidade e também pessoal e intransferível, embora muitos reclamem das noites mal dormidas e milhões recorram ao uso de medicações, em grande parte dos casos os hábitos na hora de apagar a luz e abandonar-se nos “braços de Morfeu”, (o deus grego dos sonhos, na mitologia grega) não costumam ser dos melhores, Não raro, deixamos para o momento valioso que antecede o adormecer, atividades como checar redes sociais que terminam roubando boa parte de nossa disposição para dormir.

Cientistas sabem atualmente que as consequências das noites mal dormidas são sentidas tanto no corpo quanto na mente. Vários estudos já têm associado o sono desregulado ao envelhecimento acelerado, ao aumento do risco de obesidade e a alterações prejudiciais no sistema imunológico e cardiovascular. A boa notícia é que em muitas situações – que não envolvem patologias específicas em que a insônia é um sintoma – dormir melhor pode ser mais simples do que parece. Prestar atenção em alguns hábitos ecomportamentos pode marcar a diferença entre acordar descansado e disposto no dia seguinte como se o mundo estivesse desabando sobre sua cabeça no momento em que o despertador toca de manhã.

1. LEVE A SÉRIO A ILUMINAÇÃO

Ler em tela eletrônica pouco antes de pegar no sono pode inibir a produção de melatonina, um hormônio que ajuda a nos embalar para esse momento. Mas, embora seja verdade que aparelhos digitais possam imitar o efeito da claridade do dia e influenciar o tempo do relógio interno do corpo, o neurocientista Russell Foster, da Universidade de Oxford, que há anos estuda os ritmos circadianos observa que, no final das contas, a quantidade de luz importa mais do que a qualidade. “A luminosidade provoca um efeito de alerta no cérebro, mas a intensidade da luminosidade que esses dispositivos eletrônicos portáteis emitem é relativamente baixa, argumenta Foster”. “Realmente”, para algumas pessoas, a luz dos aparelhos interfere bastante no descanso, mas não podemos deixar de lado o fato de que ironicamente, a última coisa que a maioria de nós faz antes de ir para a cama é acender as lâmpadas mais potentes do banheiro enquanto escovo os dentes, o que ás vezes é até mais prejudicial ao sono.

Além de preferir a leitura em papel às telas digitais (pelo menos à noite), uma providência útil, portanto, onde se investir na instalação de um regulador de luminosidade. Outra opção é se preparar com uma antecedência de uma hora a 30 minutos antes do horário que planeja realmente adormecer e começar a apagar as lâmpadas, mantendo apenas luminárias ligadas, inclusive no banheiro, no momento da higiene bucal ou mesmo no banho.  Seja lá o que decidir fazer, busque minimizar a exposição à luz.

2. TOME “BANHOS DE FÓTONS” DE MANHÃ

As mesmas células dos olhos que dependem de luz baixa para facilitar o sono também necessitam de uma exposição de brilho logo cedo para voltar a sincronizar o ritmo circadiano. “O ciclo do corpo humano dura um pouco mais de 24 horas; por isso, sem esse efeito estabilizador da luminosidade matinal, nosso relógio interno começa a oscilar”, explica Foster. Em outras palavras, isso pode nos levar a ir para a cama cada vez mais tarde, ainda que tenhamos de acordar no mesmo horário todas as manhãs, o que, gradualmente, provoca um acúmulo de déficit de sono. O melhor remédio para combater isso é a luz natural do começo do dia.

Mas, se o emprego, a geografia ou os filhos obrigam você a se levantar antes do amanhecer, procure aumentar a intensidade luminosa da casa ao máximo possível até a hora em que puder tomar sol de verdade. Deixar as janelas abertas para que os primeiros raios dos dias entrem no quarto, por exemplo, costuma ser uma medida simples e eficiente. A maioria das lâmpadas de ambientes internos tem pelo menos o mesmo brilho que o céu ao amanhecer – entre 400 e 1000 lux, (unidade cientifica para medir a iluminância). Foster recomenda “tomar banhos” de 1000 a 2000 lux na parte da manhã. Isso ajuda a garantir o estado de alerta e a acertar o relógio biológico para ter uma diminuição adequada do ritmo no final da tarde. Se desejar maior rigor, é possível baixar aplicativos para smartphones que medem a luminosidade por metro quadrado eapontam exatamente a quantidade de luz em cada ponto da casa.

3. APRIMORE SEUS SONHOS

As funções oníricas provocam polêmicas, mas alguns estudos recentes têm mostrado que os sonhos, de fato, podem nos ajudar a aprender a encontrar soluções para problemas do dia a dia. Uma dessas pesquisas, conduzida pelo bioquímico Robert Stickgold, diretor do Centro do Sono e da Cognição da Escola de Medicina Harvard, mostra que voluntários que foram orientados a encontrar a saída de um labirinto se saíram melhor quando haviam sonhado anteriormente com conteúdos relacionados a tarefa. E o sonho lúcido em que a pessoa se torna capaz de controlar a experiência sem acordar pode ajudar a aumentar a produção de insights oníricos e diminuir os efeitos da ansiedade.

‘“Diversos trabalhos científicos indicam que, pessoas que têm um sonho lúcido por mês ou mais são mais resistentes para enfrentar eventos estressantes”, diz o psicólogo Tore Nielsen, da Universidade de Montreal, pesquisador do sono. Segundo ele, podemos nos preparar para ter essa experiência de forma espontânea, cultivando o hábito de nos perguntarmos durante o dia: “Estou sonhando?”.  A tendência é que façamos o mesmo dormindo, o que pode nos permitir perceber o que acontece e assumir o controle. “‘Evidências mostram que podemos voar, explorar ideias criativas e lidar com pesadelos nessas circunstancias de forma lúcida”, afirma.

Nielsen salienta, porém, que é importante insistir em prestar atenção aos sonhos. Registrá-los e refletir sobre os significados cifrados que se apresentam também pode ser muito útil na resolução de problemas – por isso, ajudaria bastante deixar papel e caneta perto da cama. Com frequência, psicanalistas ajudam seus pacientes a obter compreensões bastante aprofundadas sobre aspectos psíquicos com base na análise dos sonhos que lhes são relatados.

4. GANHE TEMPO

Há uma quantidade aparentemente inesgotável de truques para melhorar o sono, desde um “cochilo de cafeína” ao meio-dia (beber uma xicara de café e depois dormir por 20 minutos) até manter um pé para fora das cobertas durante a noite. Mas segundo Stickgold, a coisa pode ser até mais simples. “Recomendo às pessoas que façam uma experiência: simplesmente ir para a cama 30 minutos mais cedo do que o habitual a cada noite, por uma semana”, diz. Se você costuma se deitar a meia-noite, por exemplo, passe para 23: 30 e assim por diante, até conseguir dormi (ou pelo menos estar pronto) para dormir às 20: 30. “Se depois desse período estiver três horas e meia “para trás”, em tudo, então interrompa a experiência, mas aposto que isso não acontecerá, é mais provável que a pessoa esteja mais eficiente, bem-disposta e com esse tempo extra para dormir”, acredita o bioquímico.

Talvez atitudes como deixar de lado o celular, desligar a televisão, reduzir a luminosidade, acordar com luz natural entrando pela janela, prestar atenção nos próprios sonhos e se propor a deitar mais cedo pareçam banais demais – e até nos remetam à rotina de nossos antepassados. Mas cientistas garantem que podem realmente funcionar.

OUTROS OLHARES

APOSTA ARRISCADA

Depois de 74 anos do decreto que extinguia o jogo no país, Ministro da Economia defende a legalização dos estabelecimentos.

“Não funcionaram mais os cassinos”, estampou a manchete do jornal O Globo do dia 2 de maio de 1946, uma quinta-feira. “O decreto extinguindo o jogo em todo o território nacional, assinado na manhã de terça-feira, já à tarde aparecia no Diário Oficial, e, assim, entrava, automaticamente, em vigor. Por isso mesmo, os cassinos do Rio, por deliberação de seus diretores e obedecendo às determinações da lei moralizadora, já não funcionaram naquele dia”, informava o jornal. Passados quase 74 anos, e depois de muitas voltas na roda da fortuna, as portas dos cassinos nunca estiveram tão perto de ser reabertas no país, escancaradas por um movimento liderado por empresários do jogo, parlamentares e integrantes da cúpula do Executivo.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, já manifestou a pessoas próximas ser favorável à reabertura dos cassinos em resorts; o chefe da equipe econômica tem dito que, hoje, o Brasil tem todas as condições de abrigar os empreendimentos, abrindo as portas para atrair o turismo de luxo. A posição também é publicamente defendida pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e tem apoio do ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, e do presidente da Embratur, Gilson Machado – nome em alta no clã Bolsonaro e que lançou um plano mirabolante para alavancar o turismo no país, que apela a Sharon Stone e a aventuras de Mickey e Minnie pelo Brasil.

A pressão também alcançou o presidente Jair Bolsonaro. Em 2018, o então candidato chegou a dizer que os cassinos serviriam para “lavar dinheiro” e “destruir famílias no Brasil”. Depois da posse, procurou se distanciar do assunto, equilibrando-se para não contrariar os evangélicos, base essencial para sua sustentação política, e os empresários interessados em abrir cassinos no Brasil. No dia 1de fevereiro, Bolsonaro foi questionado por um parlamentar, pelo WhatsApp, sobre sua opinião em relação ao tema. Uma nota publicada no site O Antagonista que levantava a hipótese de o presidente passar a encampar a proposta foi encaminhada a ele. Ao congressista, Bolsonaro disse que era contra o projeto e que não poderia ficar “o dia inteiro” desmentindo a imprensa. Apesar da negativa, um assessor direto do presidente afirmou que ele tem, agora, uma visão favorável à regularização dos cassinos.

A desconfiança sobre a posição de Bolsonaro ganhou força depois da ida do senador Flávio Bolsonaro (sem partido – RJ) para Las Vegas e Miami, no mês passado. Flávio reuniu-se com representantes do setor, como o fundador do grupo Las Vegas Sands, Sheldoo Adelson, que já manifestou publicamente o interesse em abrir cassinos integrados a resorts no Brasil. Deputados da bancada evangélica tentam, inclusive, pressionar a Igreja Batista, da qual Flávio é fiel, a enquadrar o senador.

Além de Flávio, também integraram a comitiva brasileira a Las Vegas e Miami o onipresente Gilson Machado, da Embratur, o senador Irajá Abreu (PSD-TO) e o deputado federal Hélio Lopes (PSL-RJ), além do lutador de MMA Vítor Belfort, embaixador do turismo do Brasil.

“Que alegria poder saber que em nosso corpo diplomático tem pessoas tão incríveis, competentes e de mente aberta. Um grande prazer discutir o futuro do Brasil com nosso cônsul-geral em Miami, embaixador João Mendes Pereira. Estamos juntos trabalhando para um novo Brasil!”, postou Belfort em seu perfil no Instagram, em 21 de janeiro.

A avaliação do grupo que viajou é a de que, se o país for capaz de montar um projeto “conservador”, e que feche as portas à lavagem de dinheiro, uma das principais críticas à legalização dos jogos, a opinião pública pode abraçar a ideia. É mais fácil no discurso do que na prática.

Adelson, o anfitrião do zero um no tour americano, é um velho conhecido do mundo político brasileiro. Dono de cassinos nos Estados Unidos, em Cingapura e em Macau, o empresário visitou o Brasil em 2018 – a indústria do jogo nutriu grande expectativa de que o governo de Michel Temer resolvesse de vez o assunto. A expertise do grupo comandado pelo bilionário é a construção de megacomplexos, reunindo cassino, hotel, restaurante e centro de convenções. A presença é intensa a ponto de um projeto em tramitação na Câmara ser chamado pelos detratores, ironicamente, de “Lei Sheldon Adelson”. “É um discurso sem nexo (a acusação de beneficiar o empresário americano)”, disse o deputado Paulo Azi (DEM-BA), autor do texto. “A gente não quer que nenhum empresário separe a área que ele deseja. O governo vai definir onde os cassinos vão ficar, avaliando as questões de infraestrutura”, argumentou o parlamentar. Ele se disse favorável a outras modalidades, como o jogo do bicho, mas acredita que a proposta dos cassinos tem mais possibilidade de criar o “entendimento” necessário no Congresso para a aprovação.

O ponto levantado pelo deputado dá uma ideia das várias faces da discussão. Além da legalização dos cassinos, abraçada por parte do establishment, a discussão sobre a regularização dos jogos abarca o jogo do bicho, os caça-níqueis e as loterias, que já são exploradas pelo Estado.

No Congresso, onde as apostas são altas, a alternativa já foi desenhada até pensando em possíveis vetos presidenciais: as modalidades de jogos foram divididas por capítulos, e podem ser excluídas sem interferir na essência da proposta.

O embate no Congresso se arrasta ao menos desde agosto de 2016, quando a comissão especial do Marco Regulatório dos Jogos aprovou um relatório que apoia a legalização das atividades de cassinos, jogos do bicho e bingos no país. O texto segue na gaveta. Além da oposição em peso dos evangélicos, também há divisões entre os apoiadores dos jogos. Rodrigo Maia, favorável aos cassinos, já chamou de “tiro no pé” o libera­ geral e lembrou a íntima relação entre caça­ níqueis e milícias no Rio de Janeiro.

Um dos articuladores do movimento pró-legalização e nome influente no Congresso, o senador Ciro Nogueira (PP-PI) tem indicado nos bastidores que não se opõe caso o governo e o Congresso optem apenas pela liberação dos cassinos. Uma ala não admite, no entanto, que a proposta não passe na íntegra. Cita como exemplo o lobby dos comandantes do jogo do bicho e dos caça- níqueis. Esse grupo de parlamentares diz que, ao privilegiar o jogos em empreendimentos de luxo, o Legislativo permaneceria de olhos fechados para a expansão do crime, por meio de atividades clandestinas, nas regiões mais pobres.

Parte da discussão sempre se deu a partir da realidade de que o jogo é, na prática, liberado no país, e tem íntima ligação com o crime organizado e a lavagem de dinheiro. Basta ver a opulência das escolas de samba na avenida neste último carnaval, boa parte delas financiadas pelo dinheiro do bicho – é a época do ano em que contraventores são tratados como figuras sérias, como se o crime fosse suspenso durante a folia.

Trazendo à tona estimativas extraoficiais, defensores da legalização apontam que só o jogo do bicho “emprega” mais de 400 mil operadores e apontadores. “O jogo do bicho, o samba e a cachaça são as únicas criações tipicamente brasileiras”, exagerou o deputado Bacelar (Podemos-BA), presidente da frente parlamentar que trata do tema e defensor do aval irrestrito para os jogadores. “O país joga na clandestinidade, e milhões de reais vão embora diariamente”, acrescentou, em referência à possibilidade de arrecadação com impostos. Nessa mesma matemática extraoficial, cerca de R$ 20 bilhões por ano poderiam ser arrecadados em impostos pelo governo.

Outro filão que na prática é legalizado é o das apostas esportivas on-line. Embora o marco legal tenha sido estabelecido no final de 2018, a regulamentação nunca saiu do papel. Em uma reunião no Brasil, representantes da bet365, uma das principais empresas da área, estimaram um faturamento de até R$ 8 bilhões por ano no país – o que leva o potencial do mercado brasileiro, em tese, para a casa dos R$ 16 bilhões, já que a companhia só atua em países onde consegue dominar ao menos metade do mercado.

A maior parte nem se dá conta, mas essas apostas na prática não são regularizadas no Brasil. Os sites estão todos hospedados no exterior – Malta é o país mais procurado, mas também há operações sediadas em Liechtenstein, Gibraltar e Inglaterra, alguns dos destinos com tributação atrativa para as empresas de apostas. Os valores, enviados por meio de cartão de crédito internacional ou pré-pago, juntam-se aos gastos de milhões de apostadores em todo o mundo. Mesmo com essa gambiarra, a contabilidade extraoficial aponta que os brasileiros já gastam atualmente entre R$ 4 bilhões e R$ 6 bilhões em sites no exterior. Os sites de apostas patrocinaram 12 clubes da Série A do Campeonato Brasileiro no ano passado, e foram responsáveis por 30% do contrato negociado pela CBF para a publicidade do torneio.

Para além do argumento de que os jogos impulsionariam a arrecadação, existe um estrago real provocado pelas apostas em ao menos duas frentes: a de saúde pública, com os dramas dos viciados que não conseguem ter uma relação apenas lúdica com a atividade; e a de combate à corrupção, por causa da facilidade para a lavagem de dinheiro do crime.

A começar por esse último problema, quem combate a corrupção sempre apontou os muitos caminhos para desvios. O procurador Dellan Dallagnol, da Lava Jato, exemplificou: os contraventores poderiam se beneficiar, por exemplo, comprando com dinheiro ilícito os prêmios de outros apostadores pagando ágio, ao retirar a verba no caixa da casa de apostas, o recurso estaria legalizado.

O procurador José Augusto Vagos lembrou, em artigo, que a experiência da legalização dos bingos, entre os anos 1990 eo início dos anos 2000, mostrou que criminosos que já exploravam o jogo clandestino passaram a dominar a atividade, usando laranjas à frente das empresas. Nesse ponto, os defensores da legalização restrita a cassinos afumam que o controle seria mais efetivo. “Não quero entrar na discussão sobre o outro modelo (da legalização irrestrita). A experiência mostra que o padrão dos cassinos em resorts é o mais bem­ sucedido no mundo”, disse o deputado Herculano Passos (MDB-SP), citando o exemplo de Cingapura.

Os efeitos colaterais sociais são um dos principais argumentos da bancada evangélica, que atua quase em bloco contra a legalização dos jogos. Mas há surpresa. O debate pró-legalização ganhou o reforço improvável do prefeito do Rio, Marcelo Crivella. No equilíbrio entre permanecer ao lado de uma posição cara aos políticos evangélicos e a necessidade de atrair investimentos para a cidade e reforçar o caixa da prefeitura, Crivella ficou com a segunda opção. O prefeito tem linha direta com o bilionário Adelson e tenta convencê-lo a erguer um empreendimento na Zona Portuária do Rio – fontes do mercado pontuam que o empresário ainda prefere a Barra da Tijuca. Recentemente, Crivella defendeu que a autorização para apostar nos cassinos ficasse restrita aos estrangeiros. Nenhum modelo em discussão é capaz de agradar ao coordenador da Frente Evangélica no Congresso, o deputado Silas Câmara (Republicanos-AM). “Está errado o conceito (de Crivella). Vai começar assim (liberando para estrangeiros) e depois vai desandar. O argumento dos bons resultados económicos também é equivocado, porque há uma série de gastos em decorrência do vício, corrupção e violência”, apontou o parlamentar que cita um estudo do economista Earl Grinols, para quem cada dólar arrecadado em Las Vegas com o jogo resulta em USS 3 gastos com consequências sociais das apostas.

Passadas mais de sete décadas desde que o presidente Eurico Gaspar Dutra proibiu os jogos para coibir “abusos nocivos à moral e aos bons costumes”, as apostas nunca estiveram tão altas.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE ORVALHO PARA A ALMA

DIA 13 DE MARÇO

O MILAGRE DO NASCIMENTO DE JOÃO BATISTA

… Zacarias, não temas, porque a tua oração foi ouvida; e Isabel, tua mulher, te dará à luz um filho, a quem darás o nome de João (Lucas 1.13b).

Zacarias era sacerdote, e Isabel, sua mulher, era prima de Maria. Esse casal sempre pedira a Deus um filho, mas os dois já estavam velhos e o filho não chegava. Quando já haviam perdido a esperança, o anjo Gabriel aparece a Zacarias no templo e o informa que sua mulher daria à luz um filho, que deveria chamar João. Este seria grande diante de Deus, cheio do Espírito Santo desde o ventre, e converteria muitos dos filhos de Israel ao Senhor, pois seria o precursor do Messias. Se Deus parece ter chegado adiantado a Maria, que não era ainda desposada, parece ter chegado atrasado a Isabel, que já estava avançada em idade. Mas o mesmo Deus que realiza o milagre do nascimento virginal de Jesus abre também o ventre de Isabel para conceber João Batista. O Deus Todo-Poderoso é quem realiza esse duplo milagre na preparação do Natal. O anjo Gabriel mui apropriadamente, diz a Maria: Porque para Deus não haverá impossíveis em todas as suas promessas (Lucas 1.37). O mesmo Deus que operou maravilhas no passado pode fazer maravilhas hoje, e isso em sua vida!

GESTÃO E CARREIRA

A FORÇA DA GESTÃO FEMININA

Pesquisa Panorama da Mulher mostra que ainda é longo o caminho para a ascensão delas a cargos de comando. Mas muitas já provam que são grandes líderes.

Daniela Fagundes (sócia da Méliuz), Lívia Soares (diretora da Emailage), Luanna Toniolo (fundadora da Troc), Paula Gusmão (CEO da eÓtica), Sandya Coelho (diretora do GetNinjas). Uma baita seleção. Cinco mulheres. Cinco histórias de sucesso. Infelizmente, cinco exceções. O estudo Panorama Mulher, elaborado pela Talenses em parceria com o Insper, mostra que em 2019 a participação feminina em cargos de liderança foi baixíssima: 26% no caso de diretorias, 23% em vice-presidência, 16% como integrantes de conselho deliberativo e apenas 13% no papel de presidentes. Nesse caso, o percentual é ainda menor ao da pesquisa de 2018, quando 15% das organizações eram presididas por mulheres, apesar de o resultado estar acima do de 2017, quando elas ocupavam apenas 8% dos postos de CEOs. “O fato é que o avanço das mulheres em cargos de comando está bastante lento”, afirma o economista do Insper Fernando Ribeiro Leite Neto, coordenador da pesquisa.

CEO da eÓtica, empresa nacional de e-commerce de óculos, Paula Gusmão é exemplo de profissional que se preparou muito até conseguir o cargo. Formada em Administração pela Fundação Getulio Vargas (FGV), fez curso em economia pela Stockholm School of Economics e tem mestrado pela Universidade de São Paulo (USP). Começou a carreira no mercado financeiro, de onde saiu por causa da crise de 2008. À época, resolveu tirar um ano sabático. Quando voltou ao Brasil, recebeu convite para atuar no e-commerce do grupo Pão de Açúcar (GPA), na área de pagamento eletrônico, e depois migrou para o projeto de marketplace do Extra. Também teve passagem pela Netshoes e Essilor Latam, antes de ser contratada para presidir a eÓtica. Toda essa bagagem foi primordial para ascender profissionalmente, mas não evitou que ela sofresse algum tipo de preconceito, que credita também aos segmentos.

Segundo Paula, o mercado financeiro é muito machista e preconceituoso com relação à presença feminina. “O setor de e-commerce é mais aberto à diversidade”, afirma a executiva. Mais aberto sim, mas não imune. “Já aconteceu de o representante de um fornecedor perguntar se não havia um superior (homem) acima de mim. Mas a gente não pode dar muita atenção a isso”. O fato é que, desde que Paula assumiu a presidência, a eÓtica tem crescido na casa dos dois dígitos ao ano. Em 2019, foi 200% mais rentável do que em 2018.

LUANNA TONIOLO, Fundadora da Troc.

DRIBLE

Não enfrentar o problema da desigualdade é burrice. Um estudo de 2015, da McKinsey, mostra que a igualdade de gênero poderia adicionar US$ 12 trilhões ao PIB global em dez anos. Liliane Rocha, fundadora e CEO da Gestão Kairós, empresa de consultoria em sustentabilidade e diversidade, diz que uma das formas encontradas pelas mulheres para driblar as barreiras e crescer profissionalmente é montar o próprio negócio. “Eu mesma não conseguia subir de cargo, apesar de comandar um departamento com orçamento de R$ 40 milhões. Percebi que as funções de liderança estavam destinadas aos homens naquela empresa”, diz a consultora. Liliane considera isso um erro, porque equipes com diversidade têm olhares diferentes sobre a mesma situação e probabilidade maior de apontar riscos e soluções. Ela se baseia também numa pesquisa da McKinsey, feita com cerca de mil empresas em 12 países, que aponta que os resultados das companhias melhoram em até 21% quando há mulheres na liderança.

 LÍVIA SOARES, Diretora de Vendas da emailage.

Mas se uma das saídas é montar o próprio negócio, parte-se para esse caminho. Foi a estratégia de Luanna Toniolo desde o começo da carreira. Especializada em Direito Tributário e mãe de dois filhos, a curitibana tinha seu próprio escritório de advocacia e um ganho financeiro que afirma ser bastante satisfatório. Seu sonho, porém, era trabalhar com moda. Após uma viagem com o marido para Boston, nos Estados Unidos, com a finalidade de estudar, Luanna resolveu empreender em algo que a aproximasse do seu sonho.

Depois de muita pesquisa, fundou a Troc, brechó online que só faz crescer desde que entrou em atividade, em 2016. Segundo a empresária, em outubro de 2017 já havia faturado o primeiro milhão e, antes de completar o terceiro ano de funcionamento, já faturava R$ 10 milhões ao ano, com cerca de 2 mil pedidos mensais. A empresa busca as peças de roupas na casa de quem pretende vender, analisa se tem qualidade para ser colocada na vitrine virtual, faz o cadastro, medição, fotografia e anuncia. Mas mesmo o fato de ser dona do próprio negócio não a livrou do preconceito. Ao iniciar a montagem do brechó e buscar apoio de investidores, percebeu que os participantes das reuniões, a maioria homens, não conversavam diretamente com ela, e sim com outros homens que estavam à mesa. “É difícil ter voz em um mundo masculino. Existe preconceito até por parte de outras mulheres. A gente precisa trabalhar o dobro para provar a capacidade”, diz.

PAULA GUSMÃO (CEO da eÓtica).

EXCEÇÕES

A mineira Daniela Fagundes é relações públicas e jornalista por formação, com passagem pela TV Globo e pelo Instituto Inhotim, de Minas Gerais. Ao contrário de Paula, da eÓtica, e Luanna, da Troc, não passou pelos perrengues preconceituosos profissionais. Ela conheceu o mercado de startups em 2016, quando foi contratada para trabalhar na Méliuz, empresa do segmento de cashback – que promove retorno de um percentual de dinheiro gasto em compras para o próprio consumidor. Passou para o cargo de coordenadora de Marketing de Produto da empresa e, há pouco mais de um ano, tornou-se uma das sócias, com base em um instrumento contratual conhecido pelo nome de vesting, adotado pela Méliuz. Esse modelo é muito usado por startups e prevê aquisição progressiva de direitos sobre a empresa, conforme o envolvimento real do funcionário no crescimento do negócio. “As coisas aqui vão na contramão do que acontece no mundo. No ano passado, 50% dos funcionários eleitos para sócio foram mulheres”, afirma Daniela, para quem falta representatividade feminina no mercado em geral. “Por haver poucas mulheres líderes, com algum tipo de poder, é difícil se destacar. Por isso, gosto tanto de trabalhar na Méliuz, pois a política é mais igualitária”, declara.

DANIELA FAGUNDES, Sócia da Méliuz

Sandya Coelho também encontrou no mundo da tecnologia um ambiente menos desigual. Diretora de comunicação do GetNinjas, aplicativo de contratação de serviços que movimenta R$ 400 milhões ao ano, oferece cerca de 200 tipos de soluções e atua no Brasil e no México. Entrou na empresa há três anos, para estruturar a área de Comunicação, e depois se tornou diretora de Comunicação e Novos Negócios, na qual também é responsável pelo relacionamento do GetNinjas com grandes empresas varejistas.

Dentro da companhia, ela diz não ter tido problemas por ser mulher, mas no mercado tradicional, sim. “É muito desafiador ser mulher à frente das negociações. Eu já precisei ter muita firmeza para fazer a outra parte entender que não era necessário buscar alguém acima de mim, que ele poderia falar comigo”, afirma. Nas horas vagas, Sandya é praticante de ioga e dá aula de meditação uma vez por semana. A empresa que ela ajuda a comandar está presente em cerca de 3 mil municípios brasileiros, recebe em torno de 300 mil solicitações mensais e tem dobrado de tamanho ano a ano, conforme afirma a própria executiva.

Os casos de Daniela e Sandya são bem-vindos num segmento ainda predominantemente masculino como o de tecnologia – com apenas 20% de mulheres, segundo PNAD 2018. Mas isso não intimidou Lívia Soares, que hoje atua como diretora de vendas no Brasil da Emailage, fundada por brasileiros nos Estados Unidos e que atua no combate a fraudes online. A executiva iniciou a atuação no segmento há 12 anos, numa empresa pequena, e lembra que na época praticamente não havia mulheres na área. “Hoje, vemos mais mulheres até em cursos de tecnologia”, observa.

SANDYA COELHO, Diretora de Comunicação do getninjas. 

Ela começou como recepcionista e foi crescendo até passar ao cargo de gerente. Chegou a ser sócia da primeira companhia, até ser contratada pela Emailage, inicialmente para o cargo de diretora de Contas Estratégicas. Para a executiva, ter acima uma liderança feminina faz muita diferença. Ela, por exemplo, se reporta a Luciana Lello, gerente-geral para a América do Sul. “Eu fui apenas a segunda mulher contratada na região. Com uma mulher na liderança, fica mais fácil trabalhar unida e não ter medo da concorrência com os colegas, porque há empatia entre nós”, afirma Lívia. A diretora consegue ver mudança na cultura empresarial no que diz respeito à contratação de mulheres para cargos de liderança, mas confirma os dados da pesquisa Talenses/Insper. O processo ainda é extremamente lento.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

QUER FICAR MAIS BONITO? SORRIA!

Rápido, barato e acessível, o sorriso melhora a aparência imediatamente; o córtex orbitofrontal (OFC), parte do cérebro que registra quando algo de bom ocorre que é acionado automaticamente quando vemos urna pessoa bonita, fica ainda mais ativo quando a pessoa sorri.

Um sorriso espontâneo talvez seja a comprovação mais autêntica e inconfundível de bem-estar.  A razão dessa associação tão imediata e pouco questionável é que felicidade e sorriso “começam” no mesmo lugar do cérebro. Faça algo bem feito, receba um presente ou um carinho ou ache graça em uma piada e seu sistema de recompensa se encarregará de fazer com que as regiões cerebrais que organizam movimentos automáticos – aqueles que fazemos sem precisar pensar – estampem um belo sorriso em seu rosto. Essas áreas do cérebro provocam efeitos como elevar os cantos da boca, relaxar as sobrancelhas e, o mais importante, apertar levemente as pálpebras, causando a contração de músculos orbiculares dos olhos. São esses que colocam aquelas ruguinhas nos cantos dos olhos, o sinal mais evidente de felicidade e do sorriso genuíno.

Ao mesmo tempo que o sistema de recompensa lhe dá o prazer do sorriso e essas regiões motoras fazem seus músculos estamparem o prazer no seu rosto, é acionado também o córtex orbitofrontal (OFC), parte do cérebro que registra quando algo de bom acontece – como, por exemplo, a causa do sorriso. E assim que passamos a associar evento e resultado, acontecimento e sorriso. Como consequência, ver a causa do sorriso de novo (uma pessoa em particular, um lugar ou paisagem. por exemplo) torna ainda mais fácil sorrir mais uma vez. E só lembrar do que causou o sorriso também já funciona.

REPETIÇÃO SEM ESFORÇO

Estampar voluntariamente um sorriso genuíno no rosto pode bastar para que comecemos a nos sentirmos bem. O truque funciona mesmo se você instruir um ator a montar um sorriso, músculo a músculo. Quanto mais os atores aprendem a dominar o músculo orbicular dos olhos, aquele que circunda as pálpebras e dá às ruguinhas, adotando uma expressão de felicidade genuína, o corpo passa a se preparar para a felicidade, proporcionando-lhes um bem-estar que eles não sabem explicar. A neurociência explica: estudos recentes mostraram que o sorriso genuíno já basta para ativar o córtex da ínsula, região do cérebro que nos dá sensações subjetivas como a do bem-estar.

Mas não para aqui. Um sorriso espontâneo é contagiante, e espalha a felicidade ao nosso redor. Por meio de neurónios-espelho, células que nos fazem repetir automaticamente ações ao nosso redor, ver um sorriso no rosto de quem fala com você aciona as mesmas áreas do cérebro responsáveis pelo seu próprio sorriso, inclusive a ínsula e o OFC. Como nosso cérebro imita o cérebro alheio sem fazer esforço, ver alguém sorrindo basta para você começar a se sentir sorrindo por dentro também – e acabar sorrindo por fora.

Já o sorriso forçado, aquele que damos tantas vezes para a câmera, não funciona nem convence. Ele parte de regiões do cérebro que comandam movimentos voluntários, e não causa ativação do OFC. Portanto, não diz ao resto do cérebro que algo de particularmente bom aconteceu. Ou seja: você pode até sorrir por fora, mas seu cérebro sabe que você não está sorrindo por dentro.

Felicidade gera felicidade: passa de um cérebro para o próximo através do sorriso. Por isso o bem-estar do outro é contagiante: por isso nos sentimos melhor perto de pessoas sorridentes. E, como se não bastasse, ainda ficamos mais bonitos ao sorrir: o OFC, que é acionado automaticamente quando vemos uma pessoa bonita, fica ainda mais ativo quando essa pessoa sorri. O sorriso, portanto, talvez seja o tratamento de beleza mais rápido, barato e democrático que a natureza já inventou.

OUTROS OLHARES

PEDÁGIO DA FELICIDADE

O governo trabalha com a ideia de elevar impostos para bebidas, cigarros e açúcar. Experiências tributárias semelhantes em outros países mostram que o assunto é mais complexo do que se imagina — mas pode dar certo

Obesidade, diabetes, câncer de pulmão, doenças hepáticas, aquecimento global, congestionamentos, qualidade do ar. São temas que, ao primeiro olhar, passam longe do sistema tributário de um pais, mas que têm dominado as discussões no mundo sobre como usar os impostos para reduzir o consumo de produtos que causem danos à saúde e ao meio ambiente. O debate foi incitado no Brasil pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, ao mencionar o “imposto do pecado” que poderia incidir sobre bebidas alcoólicas, cigarro e produtos com alto teor de açúcar, como refrigerantes, sorvetes e chocolates, em uma reunião do Fórum Econômico Mundial, em Davas, Suíça. Guedes é defensor da ideia desde antes de migrar da iniciativa privada para o governo.

A fala do ministro gerou protestos em razão do temor sobre um novo aumento da carga tributária brasileira, que já está acima de 30% do Produto Interno Bruto (PIB), mas vai ao encontro da tendência mundial de taxar produtos nocivos à saúde. A despeito da declaração de seu subordinado, o presidente Jair Bolsonaro protestou: “Paulo Guedes, desculpa, você é meu ministro, te sigo 99%, mas aumento de imposto para cerveja, não”, disse, rebatendo o economista. A cerveja tem baixa taxação no Brasil – 5% de Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) em média -, mas, se o presidente resolver tomar cachaça, vai pagar cerca 30% de imposto. No Brasil, as alíquotas das bebidas alcoólicas giram entre 5% e 30%, com taxação mais alta para os destilados, com teor alcoólico maior. O Brasil já taxa fortemente cigarros. Em média, 62% do preço do cigarro brasileiro são impostos, acima da média mundial de 50% e da média da América Latina, que é de 45%, de acordo com estudo do professor Nelson Leitão Paes, do programa de Pós-Graduação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

O economista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Rodrigo Orair, vem acompanhando essa discussão entre os países da Organização para a Cooperação e Desenvolvin1ento Econômico (OCDE), grupo composto de economias desenvolvidas no qual o Brasil deseja ingressar. “Tradicionalmente, esses impostos seletivos, como são chamados, são muito focados em cigarros e alcoólicas. Mais recentemente tem havido interesse em bebidas não alcoólicas com alto teor de açúcar ou sódio. Esse imposto não tem função precípua arrecadatória. O objetivo é desestimular o consumo, uma finalidade extrafiscal. O que se quer é coibir o consumo e usar o recurso para fazer campanha de prevenção contra o uso do bem”, explicou. Segundo relatório da organização em 2016, 16 países aumentaram as alíquotas sobre tabaco e bebidas alcoólicas, e 11 países em 2017 tomaram o mesmo caminho. Somente o Reino Unido congelou impostos sobre cerveja, cidra e uísque em 2016. O México adotou o imposto entre 2014 e 2016.

No Brasil, taxação é defendida pela classe médica porque, além de doenças cardíacas e câncer, estão associados ao álcool também os traumas causados por acidentes de trânsito e episódios de agressão relacionados à embriaguez. Um estudo publicado em 2019 pela epidemiologista Katherine Keyes, da Universidade Columbia, em Nova York, cruzou dados de taxação de bebida com levantamentos sobre violência doméstica. A pesquisadora conseguiu detectar uma relação, que considerou “modesta”. “Nossas estimativas de redução no consumo de álcool indicam que um aumento de 10% no preço é associado a uma redução de 20% em episódios de consumo excessivo e diminui a violência ligada ao álcool em 30%”, escreveu a pesquisadora num artigo para o periódico acadêmico Addiction.

Para produtos com alto teor de açúcar, mais países aplicam alíquota maior. De 2016 a 2018, Bélgica, Reino Unido, Portugal, Espanha e Estônia resolveram taxar mais conforme aumenta a quantidade de açúcar, excetuando sucos prontos e naturais. Mas a dificuldade maior está exatamente em taxar produtos em que não é possível determinar a quantidade exata da substância, como em sorvetes e chocolates. “Algumas iniciativas são mais exitosas, quando o teor de açúcar é muito preciso. Outras são mais complexas, como em sorvete, café e chocolate. Alguns países voltaram atrás”, disse Orair, do Ipea. O Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) defende o uso do imposto, inclusive para alimentos ultraprocessados. Igor Brino, diretor de Relações institucionais do ldec, relembrou que a maioria dos refrigerantes tem isenção fiscal por ser produzida na Zona Franca de Manaus. “Quando o ministro Paulo Guedes fala sobre isso, não está inovando, não está inventando. Há diretrizes muito claras da OCDE para os países membros. A má alimentação, com alto teor de sódio e açúcar, gera impacto nos índices de desenvolvimento econômico, na produtividade do mercado de trabalho e nos gastos com saúde pública. Não há o menor sentido em incentivar esses produtos”, disse. Produtoras de refrigerantes da Zona Franca não pagam IPI, mas têm direito a crédito tributário de alíquotas cobrados no restante do país. Até 2018, essa alíquota era de 20%. Foi reduzida ao longo do governo Temer e oscilou de forma errática com Bolsonaro, variando entre 10% e 4%. Se o desejo do ministro Paulo Guedes prevalecer na reforma tributária, os descontos tributários recebidos pelos fabricantes deverão cair ainda mais.

Na comunidade médica também há um alinhamento em torno da ideia de sobretaxar bebidas açucaradas. Especialistas enxergam na proposta aventada por Guedes uma possibilidade de avançar em políticas de prevenção mais eficazes, já que tocam no poder de compra da população. No caso específico do açúcar, há um pleito antigo da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) para que se criem propostas que reduzam o porcentual do ingrediente na produção de alimentos. A entidade considera o alto consumo da substância um problema de saúde pública, ainda que não existam estudos suficientes para comprovar tal afirmação. Como a obesidade e o diabetes, que podem ter origem no consumo de açúcar, são problemas que se manifestam no longo prazo, o impacto das políticas para frear bebidas doces, como refrigerantes, é menos perceptível que o daquelas para combater o tabagismo e o alcoolismo. “A obesidade e o diabetes são duas epidemias mundiais, e por mais que a gente fale em tratamento para elas, nós só vamos ver um impacto significativo nessas epidemias com uma intervenção ampla, num número significativo de pessoas”, disse o endocrinologista Rodrigo Moreira, presidente da SBEM.

Para o médico, o imposto é um caminho para solucionar o problema, mas a entidade também busca mobilizar a sociedade civil pela obrigatoriedade de rótulos de alerta para produtos com muito açúcar, sal ou gordura. “A taxação da adição de açúcar como única medida parece ser insuficiente para afetar a epidemia de obesidade, mas ela precisa ser incluída numa estratégia de múltiplos componentes estruturais”, escreveu um grupo de pesquisadores da Universidade de Navarra, na Espanha, que produziu recentemente uma análise investigando o imposto do açúcar em vários países. Liderados por Miguel Martínez-González, os cientistas afirmaram que, no caso dos impostos sobre refrigerantes, por exemplo, o benefício da redução de consumo pode se perder em outras externalidades. “Um imposto de consumo sobre refrigerantes pode resultar em substituições por sucos de fruta ou chás com conteúdo similar de açúcar, por exemplo. Por isso é preferível que uma taxa de consumo seja implementada sobre todas as bebidas adocicadas, não apenas os refrigerantes”, escreveram os pesquisadores espanhóis.

Para funcionar do ponto de vista de saúde, afirmaram os cientistas, o aumento da taxação precisa ser elevado o suficiente para impedir a indústria de simplesmente absorver os custos do produto em questão e continuar seus negócios sem queda nas vendas. A França, por exemplo, conseguiu derrubar o consumo de bebidas açucaradas em 3,3% impondo uma taxa que aumentou os preços em 5% e acarretou uma receita de € 280 milhões ao ano para o país. Boa parte da comunidade médica e dos representantes da sociedade civil defendem que a arrecadação de “impostos do pecado” seja aplicada diretamente em políticas de saúde pública. “A receita advinda do aumento de imposto sobre produtos de tabaco deveria sustentar os programas de controle do tabagismo”, alegou um relatório da ONG Truth Initiative, que defende a maior taxação do cigarro.

A experiência mais longa e abrangente com a taxação maior de produtos que causam mal à saúde é com o cigarro. Segundo estudo do professor Leitão Paes, da UFPE, o custo econômico do vício no cigarro é de 0,5% do PIB anualmente. As medidas para conter o consumo do produto iniciaram nos anos 1980, mas, a partir de 2008, as alíquotas dos impostos começaram a subir com mais força. Eram 57,15% do preço em 2008, subindo para 59,35% em 2010 e para 63,15% em 2012. E o consumo caiu. Em 1989, quase 32% da população de 15 anos ou mais era fumante, porcentual que se reduziu para 22,4% em 2003 e para 17,2% em 2008. São porcentuais inferiores ao da média mundial, 21,7%, e da América Latina, 19,5%. “De acordo com os números mais recentes, a carga tributária total dos cigarros está agora acima de 50% em quase todos os países da OCDE e atingiu 80% ou mais em dez países”, segundo relatório da organização de 2017.

Mas há visões mais céticas sobre a eficácia desse imposto. O economista Gesner Oliveira, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), que foi diretor do Cade, vê pouco resultado quando as alíquotas aumentam muito. “Colocar alíquota muita alta para determinados bens, por melhor que seja a intenção, aumenta o contrabando. Todos concordamos que seria interessante estimular o consumo saudável e desestimular o que supostamente não é melhor para a saúde, mas alíquotas muita elevadas aumentam a atratividade do mercado ilegal, a sonegação, e diminuem a arrecadação, com as pessoas continuando a consumir”, afirmou.

A questão do contrabando de cigarros é mais presente no Brasil Nos Estados Unidos e em outros países desenvolvidos, a taxação maior não induziu um aumento da ilegalidade. Pelo contrário: houve impacto direto na redução de fumantes. Uma mudança tributária promovida em 2009 pelo governo Obama fez o imposto por pacote subir de US$ 0,39 para US$ 1,01. O sanitarista Jidong Huang e o economista Frank Chaloupka, da Universidade de Illinois, fizeram um estudo encomendado pelo Escritório Nacional de Pesquisa Econômica dos EUA e constataram que a maior redução de consumo se deu entre os jovens. “A porcentagem de estudantes que relataram ter  fumado até um mês antes de serem entrevistados caiu entre 9,7% e 13,3%, logo após a elevação da  taxa”, afirmou. A conclusão: um aumento de 10% no preço do cigarro reduziu a prevalência do tabagismo entre jovens entre 4,4% e 6%. Na conta de Chaloupka e Huang, a medida evitou o surgimento de cerca de 250 mil fumantes no país. No Brasil, o principal argumento que sustenta a tese de que o imposto seletivo estimula o mercado paralelo de cigarros é a extensão das fronteiras, que são pouco fiscalizadas. O cigarro também é considerado uma mercadoria fácil de ser transportada ilegalmente em meio a cargas legais. “O contrabando e a produção informal são responsáveis por quase 30% do mercado brasileiro (nos EUA, o porcentual é de 11%, enquanto na União Europeia está abaixo de 9%). A tributação elevada, os baixos custos de produção no Paraguai, a existência de canais de distribuição e a fragilidade nas fronteiras brasileiras ajudam a compreender um quadro difícil”, afirmou Leitão Paes em seu estudo. No âmbito dos projetos de reforma tributária que tramitam no Congresso, a ideia é usar o imposto seletivo para alguns poucos produtos que “causem externalidades negativas”. Segundo o economista Aloisio Araújo, da FGV, que vem acompanhando as discussões no Parlamento, como o objetivo é unificar ao máximo as alíquotas, produtos que já pagam mais imposto poderão ter redução. O papel do imposto seletivo seria, portanto, impedir essa queda na tributação.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE ORVALHO PARA A ALMA

DIA 12 DE MARÇO

MEL NA CAVEIRA DE UM LEÃO MORTO

Quanto aos moços, de igual modo, exorta-os para que, em todas as coisas, sejam criteriosos (Tito 2.6).

Sansão foi levantado por Deus num tempo de opressão. Seu nascimento foi um milagre. Consagrado a Deus como nazireu desde o ventre de sua mãe, tornou-se um portento. Sua força era colossal. Era um jovem prodígio, um homem imbatível, um verdadeiro gigante. Seu único problema é que ele não conseguia dominar seus impulsos. Um dia viu uma jovem filisteia e disse para seu pai: Vi uma mulher em Timna, das filhas dos filisteus; tomai-ma, pois por esposa… porque só desta me agrado (Juízes 14.2a,3b). Seu pai tentou demovê-lo da ideia, mas Sansão não lhe ouviu. Certa feita, caminhando pelas vinhas de Timna, um leão novo, bramando, saiu ao seu encontro, mas Sansão rasgou a fera como se rasga um cabrito. Depois de alguns dias, passou pelo mesmo local e foi dar uma olhada no corpo do leão morto. Estava ali, na caveira do leão, um enxame de abelhas. Sansão pegou um favo de mel nas mãos e saiu andando e se fartando com a iguaria. Sansão era nazireu e não podia tocar em cadáver. Quebrou ali o primeiro voto de sua consagração a Deus. Procurou doçura na podridão. Comeu mel da caveira de um leão morto. Muitos ainda hoje buscam prazer no pecado e procuram doçura naquilo que é impuro. Por isso, perdem a unção, a paz e a intimidade com Deus.

GESTÃO E CARREIRA

QUEM CASA, QUER CASA

O namoro entre o site de classificados OLX e o portal de imóveis Grupo Zap resulta em uma aquisição de R$ 2,9 bilhões. O plano, agora, é surfar na retomada do setor imobiliário para dominar o segmento na internet.

Em oito meses, a arrumação da casa mudou bastante. O que poderia ser uma simples reforma, com uma reorganização societária, se tornou uma mudança completa. No ano passado, o Grupo Zap – que nasceu em 2017 com a fusão dos dois maiores sites de imóveis do Brasil, o Zap, do grupo Globo, com o VivaReal, de investidores internacionais – começou a procurar interessados por uma participação no negócio. Seria uma forma de os fundos venderem as suas fatias com lucro. A empresa ainda ganharia fôlego financeiro para a forte competição esperada para o setor à medida que o mercado imobiliário brasileiro se reaquece. Um interessado natural seria o site holandês de classificados OLX, controlado pelo grupo sul-africano Naspers e que tem nos anúncios de imóveis o segundo maior volume de seus negócios no Brasil, atrás apenas da venda de automóveis. Ele, logo, entrou na negociação e o namoro foi ficando sério. À medida que as conversas evoluíam, os negociadores percebiam que faria mais sentido para ambas as empresas que, em vez de entrar como um investidor minoritário, ocorresse uma compra completa. “Com uma aquisição, conseguiríamos extrair mais sinergias”, diz Joel Rennó Junior, executivo-chefe de finanças da OLX Brasil. “Ao integrarmos as equipes de tecnologia poderemos ter uma velocidade de inovação muito maior.”

Então, foi o que ocorreu, com o anúncio, na terça-feira 3, de que a OLX pagará R$ 2,9 bilhões pela totalidade das ações do Grupo Zap. A operação, a ser confirmada pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), será concretizada por meio de um aumento de capital feito pelos donos da OLX. “O acordo reforça o comprometimento com o mercado local e com o desenvolvimento de um ecossistema sólido de tecnologia para ajudar usuários privados e profissionais no País”, afirma Andries Oudshoom, CEO da OLX no Brasil. “Isso irá permitir explorar melhor o segmento e acelerar a entrega de uma experiência superior para os consumidores.” Em agosto do último ano, a OLX já havia adquirido a Anapro, dona de tecnologia para a gestão de lançamentos imobiliários.

Esses investimentos, de fato, indicam que os controladores da companhia acreditam não só na capacidade de extrair negócios de sua operação local, mas também no potencial de recuperação da economia e do setor imobiliário brasileiro. “Nos estados mais ricos, como em São Paulo, já vemos um mercado aquecido”, diz Rennó. Segundo o executivo, ainda 90% dos negócios é feito de forma off-line, por meio de corretores e visitas presenciais.

Com a compra, a OLX ganhará força para ser dominante nessa nova tendência. Com um faturamento de R$ 400 milhões no Brasil, frente aos R$ 312 milhões de 2018, e 750 funcionários no País, ela terá agora a vertical de imóveis como o seu maior negócio. O Grupo Zap registrou receita líquida de R$ 217 milhões, em 2018, e possui 800 empregados.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A DIFÍCIL RELAÇÃO COM O DINHEIRO

A maneira pela qual as pessoas convivem com o dinheiro está intimamente ligada aos ensinamentos recebidos na infância ou pontos de vista que a pessoa “comprou” de alguém a respeito desse assunto, pois essas informações ficam registradas no subconsciente

Já parou para pensar em como é a sua relação com o dinheiro? Ela é próspera e abundante? Ou é escassa e difícil? Pensar e falar cm dinheiro é confortável para você? Qual a sensação?

Dependendo dos ensinamentos sobre o dinheiro que você recebeu na sua infância ou pontos de vista que você “comprou” de alguém sobre esse assunto, essas informações ficam registradas no seu subconsciente como uma verdade absoluta e isso impacta diretamente nessa relação de abundância ou escassez.

Hoje em dia esse assunto ainda é abordado como se fosse um tabu na nossa sociedade. É como se você tivesse que escolher entre dinheiro e espiritualidade, como se fossem coisas opostas, ou ainda com o conceito de que se você gosta do dinheiro, é um “ganancioso”.

O dinheiro é importante e faz parte da nossa realidade física para alimentação, vestuário, saúde, transporte, passeios, educação, enfim, tudo que faz parte do nosso dia a dia. A espiritualidade, o universo, ou qualquer nome que você queira dar, não o julga se você tem ou não tem dinheiro para ter essa conexão. O fato é que não ter essa conexão necessária fluindo na sua vida faz com que você perca a paz, gerando ansiedade e medo no seu dia a dia a d ia, o que afasta a prosperidade cada vez mais.

Dependendo de como nos relacionamos com o dinheiro, podemos fazer a repulsa ou a atração dele na nossa vida. Há muitos comportamentos e hábitos diários que influenciam no acesso ou não a essa crença instalada em nosso subconsciente, e a presença dela é um limitador. É importante ressaltar essa informação de que, muitas vezes, a falta de dinheiro está ligada a uma dinâmica que age de forma oculta no seu subconsciente e faz com que seja tão desafiadora de acessar.

Agora, pare e perceba quais são suas crenças em relação ao dinheiro. Elas influenciam diretamente na sua realidade. O quanto você é influenciado pelas notícias do mundo, pelo que você ouve dos seus familiares, ou seu local de trabalho, pelo inconsciente coletivo que “diz” que não há suficiente para todos, que o dinheiro corrompe ou que você possa ter sido ensinado que “dinheiro o afasta de Deus”, que ”rico não entra no reino dos céus”. Enfim, inicie esse inventário interno do que você entende ou aprendeu sobre dinheiro. Esse será um bom começo para que você inicie uma mudança na sua forma de pensar e, consequentemente, mudar essa relação.

Gosto de dar exemplos de como isso funciona dentro de nós para facilitar o entendimento: imaginemos que uma pessoa teve uma infância escassa, na qual dia após dia a dificuldade com dinheiro estava presente. Essa criança presenciou seus pais “matarem um leão por dia” para sustentar a família. Pode ser que tudo isso que ela viu tenha sido registrado no subconsciente como se fossem “‘aprendizados sobre dinheiro”, A mente dessa pessoa vai se encarregar de repetir essa informação de dificuldade como dinheiro na fase adulta para validar o que você registrou quando criança. Como se a vida fosse “difícil mesmo” e assim, por mais que essa pessoa se esforce nos estudos e digamos que seja um sujeito de boa índole e honesto, acaba atraindo para si situações de dificuldade em relação ao acesso do dinheiro. Lembre-se que isso tudo acontece de forma inconsciente. A única coisa que a pessoa sabe é que ela se autossabota em relação a esse assunto e não sabe a razão.

Vamos a outro exemplo: imagine que uma pessoa cresceu em uma família onde o dinheiro era visto como algo ruim e ela escutou frases do tipo: “dinheiro é sujo”, dinheiro o afasta de “Deus e do mundo espiritual”, “quem tem dinheiro não entra nos reino dos céus”, “quem busca prosperidade financeira não tem alma”, “os que estão ligados ao dinheiro não são pessoas do bem”, enfim, essas frases que muitas pessoas escutaram e até riem quando falam da fase adulta. Bem, essas informações certamente ficaram gravadas na mente e acabam virando um “programa”. Isso mesmo, como se fosse um programa de computador que fica executando essa tarefa de lembrar tudo isso que você aprendeu de forma inconsciente.

O que acontece é que a sua mente não o julga e ela vai fazer com que esses programas sejam executados de forma a manter você longe do dinheiro para validar essas informações colocadas no seu subconsciente. Porque, afinal de contas, você não quer se “sujar”, você não quer “se afastar de Deus” e você quer “entrar para o reino dos céus, dependendo da sua crença. Para isso, esses “programas” vão continuar rodando na sua mente até que você troque essa sua forma de pensar para o conceito de que “é permito ter dinheiro e ainda assim estar perto de Deus” e ainda “rico entra nos reinos do céu” ou possuir estrutura financeira abundante e ser uma boa pessoa. Mas para isso é preciso mudar a crença limitante instalada no subconsciente.

INÍCIO

O primeiro passo é entender que a missão da nossa mente é nos manter vivos. E ela sempre vai nos proteger se algo nos colocar em perigo. Se você atrair uma situação diferente daquela que você registrou na sua mente lá, a sua infância como sendo uma “verdade absoluta”, ela rapidamente vai tratar de colocá-lo em segurança, acionando todos os seus autossabotadores e fazer você ficar longe da prosperidade relacionada ao dinheiro.

É importante destacar que escassez não se refere somente ao dinheiro. Há muitas pessoas que viveram escassez de amor, carinho, atenção, cuidado e isso se reflete em todas as áreas da vida, porque é como se a mente registras.se o “não merecimento” de acessar a abundância.

Por causa disso você pode trazer à tona uma sensação de não merecimento, ou seja, todo mundo pode, menos você. Enfim, é como se fosse sempre uma “luta” para acessar esse merecimento dia após dia.

Temos um tesouro dentro de nós chamado subconsciente. É nele que estão todos esses registros e podemos acessá-lo para alterar aquelas informações que não são mais necessárias para a fluidez da vida como ela deve ser.

Além da questão dos limitadores que temos registrados na mente, as pessoas, em geral, perderam a conexão prática com o dinheiro. Acabam bloqueando a abundância por aquilo que pensam e por algumas atitudes no dia a dia que, se mudassem, já começaria a movimentar essa crença de escassez de uma forma diferente.

EXEMPLOS

Vou dar alguns exemplos para que você reflita um pouco mais sobre esse assunto e sobre suas atitudes:

1 – O QUE MAIS SE OUVE SÃO RECLAMAÇÕES. Pessoas se juntam para reclamar da vida, do governo, do trabalho, da empresa que trabalham. Olhe para você, se considera uma dessas pessoas? Se sim, você está vibrando na crença da escassez e ingratidão, principalmente quando você reclama do seu chefe ou da sua empresa. Se esse é o seu caso, saia agora da crença da reclamação e da vitimização. Pense em ser grato pelo que tem na vida, e mãos à obra para mudar aquilo que não está legal sem ficar reclamando de tudo e de todos.

2 – COMPETIÇÃO: o que essa palavra significa para você? O que você aprendeu sobre competir? Você é uma pessoa competitiva, daquelas que acreditam no ditado ‘farinha pouca, meu pirão primeiro?”. Se sim, você vibra na Lei da Escassez, que diz que não tem para todo mundo. Quando você entender que há para todos, você passa a vibrar na Lei da Abundância e as conquistas vão ficando mais fáceis e leves. Nosso inconsciente traz o movimento daquilo que acreditamos, sem a necessidade de conquistar tudo a qualquer preço. Quando resignamos nossas crenças de merecimento, parece que tudo acontece de forma mais natural, sem o peso da Lei da Escassez.

3 – PAGAR AS CONTAS ANTES DA DATA DO VENCIMENTO PENSANDO NA ESCASSEZ: se esse é seu caso, você também vibra na escassez. Pagar contas antes do vencimento não há problema algum, mas fazer isso pensando que vai faltar é escassez. Mude esse pensamento para resignificar os registros do subconsciente e poder assim, mudar a crença do não merecimento ou escassez.

4 – RELAÇÃO COM AS CONTAS RECEBIDAS: vou direto para um exemplo clássico que é quando você financia a compra da sua casa própria. Geralmente, quando você assina a escritura da sua casa própria é uma alegria que não cabe no peito, não é? Quem já passou por essa experiência sabe do que estou falando. Porém, as prestações vão chegando religiosamente todos os meses e muitas pessoas reclamam disso, esquecendo completamente do momento de alegria que sentiram. Acontece que, com essa atitude, você vai direto para a ingratidão, que é um sentimento que bloqueia a sua abundância. O primeiro pensamento que vem na mente é da dívida feita e não da conquista alcançada. Olhe para as suas contas com generosidade. Lembre-se dos momentos bons que essa conta proporcionou, a luz na sua casa que possibilita ver urna televisão, ligar seu ventilador ou ar condicionado, o cartão de crédito que você usou para comprar algo que o fez feliz naquele momento, que você foi ao cinema e se divertiu. Talvez seja um olhar “estranho” num primeiro momento, mas faz toda a diferença na hora de resignificar a mente. Afinal, sabemos que nosso cérebro é plástico e pode ser alterado sempre que quisermos.

OUTRAS SITUAÇÕES

Perceba também, como é a influência de suas crenças em situações que parecem bobas do cotidiano, mas que têm total influência com esse tema que estamos tratando aqui.

1 – VOCÊ VÊ TELEVISÃO? Que canais de televisão você assiste? Eles nutrem com informações ricas? Dependendo do canal, você só vai acessar informações de total escassez que vão causar ansiedade, medo, angústia e desencadear, por exemplo, uma síndrome do pânico ou insônia. Notícias do tipo: que não tem emprego para todos, que a economia vai mal, canais que só falam de violência, corrupção, revolta, crise, mortes e tragédias. Essas notícias trazem sentimentos que bloqueiam a sua expansão e abundância. Viver no medo é limitante. Você tem o poder de escolha, lembre-se disso.

FILTROS CONSCIENTES

Filtre aquilo que você quer ver e ouvir.

 2 – FOCO NO QUE NÃO TEM: você é dessas pessoas que só olham para o que você não tem? Pior ainda, olha para o que o outro tem e ainda fica com ressentimento? Procure mudar seu olhar de direção, o que você tem de bom na sua vida? Olhe para isso e agradeça. Você provavelmente vai perceber que pode olhar o “copo mais cheio”. Pare de ver a vida do outro e enxergue a sua vida e o que você pode criar nela.

3 – ENERGIA DO DIRECIONAMENTO DO DINHEIRO QUE ESTÁ SENDO POUPADO: você faz reserva de dinheiro? Se sim, faz para quê? Direciona essa reserva para caso alguma coisa de ruim aconteça? Então, que tal a partir de agora você direcionar esse dinheiro para utilizá-lo em algo que vai proporcionar prazer? Quando você direciona para algo bom, uma viagem, um estudo, uma festa, você está intencionando que ele será investido em algo prazeroso. Acredite, isso muda completamente. Faça esse exercício de pensar diferente e intencionar algo maravilhoso para essa reserva.

4 – PEGAR AQUILO QUE NÃO É SEU: já se deparou com aquele momento quando, por exemplo, a caixa do supermercado dá um troco a mais? Qual a sua reação? Você devolve o dinheiro ou fica calado e guarda? Se você devolve, você está de parabéns, a honestidade potencializa a sua abundância, Porém, se você guarda, automaticamente a sua consciência sabe que aquilo está errado. E, certamente, alguma situação vai ocorrer para que você se desfaça desse dinheiro que  não é seu.

Enfim, se quer potencializar e vibrar na abundância, primeiro verifique como você funciona, o que aprendeu, o que contaram a você sobre o dinheiro, para que faça esse trabalho interno de alteração dessas crenças que o estão limitando. Seu inconsciente é uma ferramenta poderosa que  pode mudar essa relação com simples técnicas de resignificação de crenças que envolvem a Lei da Escassez e a Lei da Abundância. A plasticidade cerebral nos permite novos e grandes aprendizados que com certeza influenciarão nas outras áreas da vida que também podem estar estagnadas nas crenças de escassez. O Thetarealing e o Access Consciousness são técnicas poderosas, que podem ajudar nessa direção. Existem caminhos gratuitos que você pode explorar sem custo para colocar.

OUTROS OLHARES

EVANGELHO NAS ALTURAS

A entidade religiosa da qual o novo dirigente da Funai para índios isolados já foi missionário compra helicóptero para chegar a aldeias nos confins da Amazônia

No dia 26 de janeiro, um pequeno hangar em Anápolis, interior de Goiás, parecia um templo evangélico. Cadeiras de plástico ocupavam o pátio enquanto um homem entoava canções gospel ao violão. Diante do pequeno grupo, materializada, estava a graça alcançada: um helicóptero R66, avaliado em RS 4 milhões. Numa mensagem em vídeo gravada e transmitida aos fiéis, o missionário Edward Luz dava graças ao Senhor.

“Nós estamos vivendo um momento muito especial nesses dias, quando única e exclusivamente, pela graça e bondade do Senhor, Ele nos supriu com um helicóptero Robinson 66 que será usado no Acre, precisamente na cidade de Cruzeiro do Sul. Um helicóptero que nos ajudará em todo o processo de chegar com mais facilidade nas aldeias onde não há pista de pouso”, disse o missionário.

De longe, o culto diante de um helicóptero poderia parecer apenas incomum. De perto, no entanto, as palavras de Luz indicavam algo mais. Ele é diretor da Missão Novas Tribos do Brasil (MNTB), entidade religiosa que atua no país desde os anos 1950 e cujo foco é evangelizar índios.

A promessa de Luz, porém, esbarra em uma barreira legal. Segundo a Fundação Nacional do Índio (Funai), a entidade dirigida pelo missionário não tem autorização para entrar em terras indígenas. Procurado, o ministério disse que o encontro foi realizado a pedido de Luz e que o tema debatido foi a questão indígena. A MNTB não deu respostas. A reportagem questionou a Funai sobre quais providências o órgão tomaria diante da promessa da MNTB de usar seu novo helicóptero para evangelizar indígenas, mas até o fechamento deste post, o órgão não havia respondido à questão.

Três dias depois do “culto do helicóptero”, a 154 quilômetros de Anápolis, em Brasília, o delegado da Polícia Federal e presidente da Funai, Marcelo Xavier, mudou o regimento da entidade para permitir que indivíduos de fora da administração pública pudessem ocupar a coordenação-geral de proteção a índios isolados e de recente contato.

Para a vaga, nomeou o antropólogo Ricardo Lopes Dias, ex- missionário da MNTB. Durante quase dez anos, ele atuou no Vale do Javari, no Extremo- Oeste do Amazonas, evangelizando índios da etnia matsé. O especialista enalteceu a entidade nos agradecimentos de sua tese de mestrado. “À Missão Novas Tribos do Brasil por ter sido tão importante em minha formação e por ter viabilizado meu tempo no campo”, escreveu Lopes Dias.

Desde 1987, a política oficial do governo brasileiro em relação aos isolados é evitar o contato o máximo possível para impedir que se tornem vítimas de não índios ou das doenças transmitidas por eles e para as quais a maioria dos isolados não tem proteção imunológica.

A chegada de um ex- missionário ao cargo fez com que lideranças indígenas e entidades que atuam na defesa dos direitos humanos reagissem com receio de que a política de não contato pudesse ser flexibilizada ou até mesmo revertida.

“Nesse governo, a gente percebe que essas entidades, que antes tinham de atuar nas sombras, agora estão mais ousadas. Essa declaração de que vão, sim, usar o helicóptero para evangelizar índios mostra a confiança deles em uma mudança do cenário”, afirmou a professora do Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília (UnB) Marcela Stockler Coelho de Souza.

Em entrevista ao jornal O Globo no fim de janeiro, antes de sua nomeação ser confirmada, Lopes Dias defendeu sua indicação. “Acho que está havendo até uma discriminação pelo fato de eu ser evangélico. Eu sou antropólogo, tenho mestrado e acabei de concluir um doutorado. Tenho conhecimento técnico sobre a situação dos índios no Brasil”, afirmou.

Ele disse que sua atuação será técnica. “Não vou promover a evangelização de índios.” Além disso, afirmou que vai apenas implementar as diretrizes já estabelecidas: “O que posso dizer é que não vou mudar o que vem dando certo. É claro que, se houver coisas que a gente deva mudar, vamos mudar”.

O Ministério Público Federal (MPF) chegou a mover uma ação civil pública contra a nomeação, alegando que a ida de Lopes Dias para o cargo representava um claro conflito de interesse por causa de sua ligação com a entidade. A Justiça Federal rejeitou o pedido de liminar para anular a escolha.

Antes mesmo de a nomeação ter sido confirmada, o filho de Luz, o antropólogo Edward Mantoanelli  Luz, afirmou que a comunidade  missionária  influenciou na indicação de Lopes Dias ao cargo.

No dia 29 de janeiro, na sede da Funai em Altamira, Pará, o antropólogo comemorava. “Nós vamos colocar um novo presidente na CGIIRC (a coordenação Para os Índios isolados). Acabamos de indicar uma nova pessoa para a CGIIRC, acho que você já deve ter lido, e vamos formalmente mudar essa política”, disse, em áudio transcrito pelo MPF na ação para tentar anular a nomeação de Lopes Dias.

Edward filho foi preso há duas semanas ao tentar impedir uma fiscalização do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (lbama) em uma terra indígena no Pará.

Fundada nos Estados Unidos, a MNTB originalmente se chamava New Tribes Mission. Chegou aqui na década de 1950 e, de lá para cá, despertou a desconfiança de autoridades brasileiras.

Em 1961, por exemplo, um inquérito policial elaborado por militares que atuavam na região do AltoRio Negro, Amazonas, dizia que os missionários estrangeiros estavam “doutrinando inúmeros índios da etnia baníua, criando com isso um ambiente tão hostil que padres brasileiros eram recebidos agressivamente”.

O Inquérito informava ainda que os missionários haviam criado um clima de ”ódio” e que, em algumas áreas, eles proibiram o contato entre índios católicos e protestantes. Foi em 1991 que a missão sofreu seu maior golpe desde sua chegada ao Brasil. Naquele ano, a Funai expulsou missionários da MNTB da área em que vivem índios da etnia zoé, que foram contatados recentemente. A expulsão aconteceu após a morte de, pelo menos , 37 indígenas que teriam contraído gripe transmitida pelos religiosos.

Mais recentemente, missionários ligados à entidade viraram réus acusados pelo MPF de aliciar índios zoés para trabalharem como escravos na coleta de castanha no Oeste do Pará. O caso ainda está tramitando na Justiça Federal.

Luz, que prometeu usar o helicóptero para chegar às aldeias, se encontrou com a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, no dia 28 de Janeiro de 2019.

Damares é uma das fundadoras da organização não governamental Atini – Voz Pela Vida, que também atua com a questão indígena. A ministra é protagonista da polêmica adoção de uma índia da etnia camaiurá.

À época da reunião, a Funai tinha acabado de ser retirada do Ministério da Justiça e Segurança Pública e estava sob a responsabilidade de Damares. Na pauta: a questão indígena e a educação familiar.

Deacordo com um levantamento realizado pela 6° Câmara de Coordenação e Revisão da Procuradoria-Geral da República, responsável pelos casos envolvendo os direitos indígenas, entre 2005 e 2019 foram instaurados 22 procedimentos, entre ações civis públicas e inquéritos, para investigar o ingresso de missionários em terras indígenas.

ALIENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 11 DE MARÇO

A FELICIDADE É UMA ORDEM DE DEUS

Alegrai-vos sempre no Senhor; outra vez digo: alegrai-vos (Filipenses 4.4).

A felicidade é o cardápio do dia na mesa da humanidade. Ansiamos por ela e a desejamos com todas as forças da nossa alma. Fomos criados para a felicidade. Fomos salvos para a maior de todas as felicidades. A felicidade não é uma opção, é uma ordem de Deus. O apóstolo Paulo, mesmo numa prisão, escreveu aos filipenses: Alegrai-vos sempre no Senhor, outra vez digo: alegrai-vos. A alegria não é uma emoção superficial e passageira, porém a mais profunda felicidade que coexiste com a dor. Paulo diz que devemos alegrar-nos sempre. É claro que a vida não é um parque de diversões. Enfrentamos lutas e cruzamos vales escuros. Mas nossa felicidade não é um bem-estar epidérmico e fugaz, mas uma experiência profunda e duradoura. Nossa alegria, além de imperativa, é também ultracircunstancial. Não depende de circunstâncias. Mas qual é o núcleo dessa felicidade: Dinheiro? Prazer? Sucesso? Não! Paulo diz: Alegrai-vos sempre no Senhor. Jesus é o cerne dessa alegria. Ele é o conteúdo da nossa felicidade. Nossa felicidade não é um sentimento. Nossa felicidade não é apenas ausência de coisas ruins nem apenas presença de coisas boas. Nossa felicidade é uma Pessoa, nossa felicidade é Jesus!

GESTÃO E CARREIRA

O CORPO FALA NO TRABALHO

A linguagem não verbal não é valorizada e falta treinamento nas empresas a fim de capacitar colaboradores. Ela pode ajudar no relacionamento de uma equipe multi e interdisciplinar

Segundo alguns estudos realizados nos EUA, vários tipos de comportamentos e sinais da linguagem corporal podem construir um sentimento de inclusão e fortalecer os laços entre os membros e os lideres de uma equipe. Assim, a linguagem não verbal quando bem usada como elemento de formação de equipes inclui uma remoção de barreiras físicas e eletrônicas entre as pessoas.

São gestos simples que não necessitam de uma elaboração complexa para que possam auxiliar no processo de uma cultura organizacional positiva. Como, por exemplo: uso do movimento com as mãos abertas ao falar, acenos de cabeça positivamente para incentivar a continuar falando e sincronizar a própria linguagem corporal com os outros criando um espelhamento.

Qualquer pessoa, de forma sutil, pode replicar em sua própria postura o que o outro está demonstrando com as posições dos braços e expressões faciais. Essa é uma boa maneira de fortalecer o relacionamento entre os membros de uma equipe.

O psicólogo Adrian Furnham, em seu livro A Linguagem Corporal no Trabalho, apresenta um repertório gestual básico comum em muitas culturas ocidentais com seus respectivos significados, que demonstram como determinados gestos possuem um código preestabelecido dentro de alguns grupos sociais.

Ele mesmo, que é britânico nascido na África do Sul, especialista em gerenciamento e professor de Psicologia na University College London, afirma que a maior parte das pessoas já tem um grande conhecimento desses gestos conscientes que podem, inclusive, ter um significado diferente em outras culturas.

Assim, já existe um código que funciona como um cabedal inicial para uma comunicação por meio de sinais não verbais emitidos por uma pessoa. Da mesma forma que existe uma norma social para que duas pessoas escolham, de forma automática e inconsciente, quem vai abrir espaço na calçada para não ocorrer um choque entre elas. Esse código muda dependendo da cultura local, embora nunca tenha sido escrito ou divulgado.

Na verdade, esses códigos comunicacionais só têm real valor quando os dois indivíduos que participam da comunicação atribuem significado. Dessa forma, cada ambiente cultural pode ter muitos signos próprios, já que estão imersos nas pessoas que deles fazem uso de forma natural e espontânea. Os gestos surgem como complementação do que está sendo dito ou funcionam sozinhos sem que nenhuma palavra seja emitida.

Isso reforça o pensamento de que é possível a elaboração de um gestual de apoio à comunicação no ambiente de trabalho, principalmente quando os colaboradores, por um motivo ou outro, não podem usar a linguagem verbal. Nesse caso pode ser criado um código através de posturas, gestos e expressões faciais de forma consciente para potencializar o entrosamento da equipe e o próprio relacionamento com o mercado consumidor, quando da relação direta.

Os gestos conscientes, que podem variar de uma cultura para outra, também informam bastante sobre a própria cultura e a ausência de um vocabulário extenso. Esses gestos são simbólicos, carregam informações que só os integrantes do sistema (cultura) podem decodificar.

Quando não há palavras que completem o significado de algo, os membros dessa comunidade são levados a usar as mãos para completar o que querem dizer. Assim, acentua Charles Darwin, povos com um universo de linguagem diminuto são levados a gesticular mais que outros que possuem amplo vocabulário.

Nem tudo pode ser transposto pelos gestos. Um exemplo da dificuldade de expor o pensamento sem recursos linguísticos é tentar explicar para outra pessoa, no idioma português, o que é uma escada caracol sem usar o apoio das mãos para desenhar no ar o formato dessa estrutura. Desmond Morris, zoólogo inglês, em seu livro Body talk: a World Guide to Gestures, apresenta quase mil gestos que têm o propósito de complementar a linguagem falada em vários países do mundo.

Alguns países, como a Itália, possuem um imenso arsenal de posturas que só têm um significado para a população local. A origem desses gestos, que são direcionados a uma comunidade específica, como a cidade de Nápoles, na Itália, por exemplo, se perde no tempo, quando a miscigenação de diferentes culturas com idiomas distintos provavelmente levou os indivíduos a criarem formas alternativas de comunicação.

Muitos são os gestos conscientes que podem ser entendidos em uma cidade ou em um país e podem ter outro ou nenhum significado em um local distinto.

Da mesma forma, cada empresa pode elaborar um cabedal linguístico próprio visando uma interação maior entre os integrantes da equipe e uma linha de afeto maior com os seus clientes.

Isso não é novidade: a Disney usa em seus parques.

Todos os membros do elenco – como são chamados os colaboradores da Disney – aprendem, durante seu período de treinamento, que gestos devem usar e quais jamais podem apresentar durante o tempo que atuam dentro dos parques temáticos. Gestos estudados e elaborados para não criar resistências entre as diferentes culturas que visitam as atrações e que permitem uma comunicação clara para os outros integrantes do elenco.

Não se trata de uma solução para todos os problemas comunicacionais: é uma ferramenta que pode ser usada para aprimorar os resultados.

Nada pode ser dispensável quando falamos de melhorar desempenhos. Qualquer elemento que possa alavancar a produtividade deve ser levado muito a sério para quem deseja alcançar bons resultados.

O professor Dr. JOÃO OLIVEIRA é doutor em Saúde Pública, psicólogo e diretor de Cursos do Instituto de Psicologia Ser e Crescer (www.isec.pscb.br). Entre seus livros estão: Relacionamento em Crise; Perceba Quando os Problemas Começam. Tenha as Soluções; Jogos para Gestão de Pessoas/ Maratona para o Desenvolvimento Organizacional; Mente Humana; Entenda Melhor a Psicologia da Vida e Saiba Quem Está à sua Frente – Análise Comportamental pelas Expressões Corporais e Faciais (Wak Editora).

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

QUAL O VÍNCULO POSSÍVEL?

A educação se inicia em casa, primeiro com o exemplo dos pais no desenvolvimento intelectual, social e cognitivo dos filhos. Mas o mundo moderno traz a culpa de nem sempre poderem estar tão presentes

A correria do dia a dia, desde o momento em que acordamos, quando temos que preparar os filhos para o colégio, o café da manhã, o lanche das crianças e o próprio material de trabalho, entre tantos outros assuntos que precisam ser resolvidos, mantém o nosso ritmo acelerado. Assim começa o dia de milhares de pais que, por conta das dificuldades enfrentadas nas grandes cidades, precisam se virar para terem tempo de exercer um dos maiores desafios da vida, que é ser pai e mãe.

Partindo desse pensamento e de uma demanda de consultório, surgiu a ideia de escrever algo que pudesse ajudar os pais a enfrentar o dia a dia e cuidar de seus pequenos sem se culparem por não poder estar o dia todo ao lado deles. É sabido que durante o período de desenvolvimento das crianças é necessária uma atenção especial, pois esses pequenos absorvem tudo que está a sua volta e ninguém melhor que os próprios pais para passar o que é mais saudável aos seus filhos. Com tantos estímulos hoje em dia, os pais se veem perdidos para chamar a atenção de seus filhos e compartilhar momentos agradáveis em família. A partir do momento em que decidimos ser pais, já temos que saber sobre a responsabilidade de educar e ensinar um ser, que é como um livro em branco, pronto para se escrever uma linda história, é ai que os pais ficam confusos por conta de tantos compromissos, mas precisamos lembrar sempre a eles que essa história será repleta de ensinamentos, preparações, experiências a partir da óptica de vivências e experiências dos próprios pais, de suas condutas, de seus valores.

VÍNCULO DE SEGURANÇA

Anne Fishel, psicóloga e professora clínica associada de Psicologia na Harvard Medical School e diretora e co­ fundadora do projeto The Family Dinner Project, acredita que jantares em família são uma parte vital para nosso bem-estar físico e emocional, e eu vou um pouco além dessa importante pesquisa, não somente os jantares, mas sempre que possível realizaras outras refeições em família, pois, além de trabalharem o bem-estar físico e emocional, também ajudam as crianças a criar e aprender a importância de estarem juntas com a família, para que possam falar sobre seus anseios, desejos e decepções do dia a dia, é um momento único, em que se pode agregar sensações e paladares diferentes a um bom papo, descobrindo assim uma maneira de se sentirem próximos, tanto os filhos como os pais.

Criar esse vínculo de segurança ainda pequenos – as dúvidas e questões que permeiam as crianças durante a  fase de desenvolvimento, a adolescência, fase em que muitas dúvidas surgem, e nessa transição para a vida adulta faz com que eles não precisem utilizar meios não saudáveis para resolver seus problemas, os níveis de estresse, problemas físicos como diabetes, obesidade, problemas cardíacos gerados pela má alimentação também podem ser minimizados quando podem contar com a ajuda dos pais, sabendo que suas dúvidas e problemas poderão ser resolvidos por aqueles em quem confiam, isso faz com que haja uma aprendizagem emocional sem danos maiores ao menor.

Outro ponto importante a ser lembrado é sobre o incentivo. Quando temos alguma situação que pode não ser prazerosa no início, como provar um alimento, por exemplo, ela pode ser modificada e ainda ser estimulada. Nossa memória registra fatos importantes de nossa vida, sejam elas boas ou ruins, mas o que pode fazer a diferença é quando as boas vivências podem ser estimuladas de diversas formas, com atenção, carinho, um ambiente agradável, uma boa relação entre os pais e as pessoas que estão ao redor dessa criança, harmonia no ambiente, todos esses parâmetros ajudam a criança a registrar e fazer uma ligação entre o que está sendo apresentado e a dinâmica em que isso acontece, com isso a possibilidade de ela ter uma receptividade favorável ao alimento recebido, por exemplo, aumenta.

LIMITES E PERMISSIVIDADE

A personalidade e o caráter vão se moldando à medida que os pais passam valores e experiências adquiridos ao longo da vida para que a criança possa ter uma orientação a ser seguida. No ambiente familiar, além dos pais, os avós e tios também entram com a reponsabilidade de dar bons exemplos aos pequenos, uma vez que eles são como um ímã, irão absorver e atrair tudo que estiver ao alcance para a aprendizagem física, motora, intelectual e psicológica. Uma família mais estruturada emocionalmente e financeiramente tem possibilidades de ter acesso a um conhecimento maior e atualizações sobre como agir em situações adversas durante esse período de aprendizagem da criança.

Asfamílias menos favorecidas deveriam ter a oportunidade do alcance a essas informações em escolas, rede pública, entidades que trabalham com esse assunto, mas infelizmente sabemos que isso é mais difícil de acontecer, gerando problemas sociais e psicológicos para essas crianças epais, que são demonstrados diariamente através dos canais de comunicação.

Quando falamos de limites e permissividade, entramos num campo muito delicado, pois os limites são necessários para nossas crianças aprenderem que nem tudo podemos, e quando ela for maior saberá lidar com as frustrações impostas pela vida e sociedade. A dificuldade dos pais em falar “não” vai ao encontro da culpa que sentem de não poder estar ao lado do filho, acompanhando seu desenvolvimento intensamente e diariamente, e com isso “acreditam” que estão fazendo a coisa certa quando se propõem a deixar a criança fazer o que quer e quando quer, criando uma ilusão de eliminação de sua “culpa” porém estudos e pesquisas demonstram que os jovens hoje percebem a necessidade de limites, pois se sentem livres demais e preocupados em ter que decidir sobre as adversidades que aparecem em sua vida, mesmo que aparentemente possam dizer que preferem resolver sozinhos. Quando os pais impõem limites, não estamos falando de algo genérico, e sim de cuidado, carinho, atenção, tão necessários para uma criança. A partir do momento em que uma mãe ou um pai diz “não” ao seu filho, ela ou ele está tentando, dentro de sua certeza, proteger seu filho de algo que os pais acreditam ser prejudicial a ele, pois ninguém nasce sabendo como resolver os problemas que aparecem e não temos um manual que vem junto com a criança dizendo como será cada passo, vamos aprendendo a resolver as questões à medida que as experienciamos, que vivemos, e isso não significa que os filhos não podem opinar. Seria muito bom se houvesse diálogo entre pais e filhos e os problemas fossem resolvidos em conjunto, se chegassem a um veredito melhor para todos, e se você acredita que os pequeninos não podem participar está enganado.

DIÁLOGO ENTRE TODOS

Se for mantido o diálogo, a atenção, o carinho, e se passar clareza e objetividade para resolver uma dificuldade apresentada pelo seu filho, ele terá condições de entender. Pode ocorrer de, no primeiro momento, não haver um entendimento e aparecer a birra, que também pode ser trabalhada em cima do problema apresentado anteriormente, mas se os pais conseguirem fazer com que a criança vivencie e discuta essa relação, a probabilidade de compreensão da criança aumentará diante das ações e resultados obtidos. Isso é aprendizagem! Ela levará para sua vida tudo que vivenciar e aprender durante sua vida, sabendo lidar melhor com as situações difíceis esaberá comemorar suas vitórias, pois não é necessário somente resolver os problemas, mas a comemoração pela finalização de um problema leva a pessoa a se estimular cada vez mais para enfrentar os outros desafios, afinal, saberá que depois vêm o bem-estar e a realização em vencer o obstáculo.

É possível criar um hábito a partir da inserção e participação intensa dos pais e das crianças, como por, exemplo, a preparação de uma alimentação saudável com a ajuda dos pequenos. Essa pode ser uma aprendizagem mútua com resultados incríveis de descobertas, experimentações, limites, permissões, cumplicidade, confiança, prazeres e muito mais conhecimento desse mundo infantil delicioso de vivenciar ao lado dos nossos filhos, e se não vivenciarmos isso, para que serviria todo o desejo de ser pai e mãe, tudo na vida tem o ônus e o bônus, só precisamos aprender a lidar e utilizar o ônus em nosso favor, transformando-o em crescimento e aprendizagem, e o bónus nós podemos compartilhar com quem amamos e com quem desejamos que também consiga vencer seus obstáculos.

OUTROS OLHARES

A ERA DO POP DEPRÊ

Uma análise de dados feita com mais de 150 mil letras escritas nos últimos 50 anos atesta: as pessoas, hoje, tendem a preferir músicas tristes.

As músicas populares de hoje são mais felizes ou mais tristes do que as de 50 anos atrás? Nos últimos anos, por causa da disponibilidade de grandes conjuntos de dados digitais e da relativa facilidade de processá-los, conseguimos fornecer respostas precisas e fundamentadas a questões como essa. Uma maneira simples de medir o conteúdo emocional de um texto é contar quantas de suas palavras remetem a sentimentos. Quantas vezes termos associados a emoções negativas – dor, ódio ou tristeza – são usados? E palavras associadas a emoções positivas – amor, alegria ou felicidade? Por mais simples que pareça, esse método funciona bem, dadas certas condições. Por exemplo, quanto mais longo o texto disponível, melhor o resultado da análise. Essa é uma possível técnica para o que chamamos de “análise de sentimento”. A análise de sentimento costuma ser aplicada a posts em redes sociais ou mensagens políticas contemporâneas, mas também pode ser usada em escalas de tempo maiores, como décadas de artigos de jornais ou séculos de obras literárias.

A mesma técnica pode ser aplicada a letras de música Em nossa análise, utilizamos dois conjuntos de dados diferentes. Um continha as músicas incluídas na lista Hot 100 da Billboard do final do ano – aquelas que alcançaram grande sucesso, pelo menos nos Estados Unidos, e vão de “(I can’t get no) Satisfaction”, dos Rolling Stones (de 1965, o primeiro ano levado em consideração), a ”Uptown funk”, de Mark Ronson (de 2015, o último ano analisado). O segundo conjunto de dados foi baseado nas letras fornecidas pelo site Musixmatch. Com ele, analisamos as letras de mais de 150 mil músicas em inglês. Como incluía exemplos do mundo todo, fornecia uma amostra maior e mais diversificada. Nele, encontramos as mesmas tendências identificadas nos dados da Billboard.

As músicas populares em inglês têm se tornado mais negativas. O uso de palavras relacionadas a sentimentos negativos aumentou em mais de um terço desde a década de 1960. Tomemos como exemplo o conjunto de dados da Billboard. Se cada música contém uma média de 300 palavras, então todo ano há 30 mil palavras nos 100 hits mais ouvidos. Em 1965, cerca de 450 termos estavam associados a emoções ruins, enquanto em 2015 esse número cresceu para mais de 700. No mesmo período, o número de termos relativos a emoções positivas diminuiu. Havia mais de 1.750 palavras associada a sentimentos bons nas músicas de 1965 e apenas 1.150 nas de 2015. Observe que, em números absolutos, sempre há mais palavras associadas a emoções positivas do que a emoções negativas. Essa é uma característica universal da linguagem humana, também conhecida como princípio de Pollyanna – originado da protagonista impecavelmente otimista do livro que leva seu nome -, e isso dificilmente mudará. O que importa, no entanto, é a direção das tendências.

Pode-se observar o efeito inclusive quando consideramos palavras únicas: o uso do termo amor, por exemplo, diminuiu pela metade em 50 anos, caindo de 400 para 200 ocorrências. Por sua vez, a palavra ódio, que até os anos 1990 nem ao menos era mencionada em qualquer uma das 100 músicas mais ouvidas, é usada agora entre 20 e 30 vezes todos os anos.

Nossos resultados condizem com outras análises independentes do sentimento em músicas. Algumas pesquisas usaram metodologias completamente diferentes e se concentraram em outras  características. Por exemplo, pesquisadores analisaram um conjunto de dados de 500 mil músicas lançadas no Reino Unido entre 1985 e 2015 e encontraram um declínio similar daquilo que definem como “felicidade” e “animação”, associado a um leve aumento de “tristeza”. Esses rótulos foram resultado de algoritmos que analisaram características acústicas de baixo nível, como o  tempo musical ou a sonoridade. O tempo e a sonoridade das 100 músicas da Billboard também  foram examinados; esses hits têm se tornado mais lentos, e decibéis menores aparecem com  maior frequência, o que impacta a tendência de melancolia.

O que está acontecendo? Descobrir e descrever tendências é importante e prazeroso, mas também precisamos tentar entendê-las e explicá-las. Em outras palavras, grandes volumes de dados demandam grandes teorias. Uma delas é a da evolução cultural. Como o nome indica, essa teoria estipula que a cultura evolui ao longo do tempo seguindo, em parte, os mesmos princípios da seleção natural de Darwin. Portanto, se há variação, seleção e reprodução, então podemos esperar que mais traços culturais bem-sucedidos se fixem na população e que outros sejam extintos.

Por “cultura”, estamos nos referindo a qualquer traço que seja transmitido socialmente, em vez de geneticamente. Alguns exemplos são o idioma que falamos, que depende de onde nascemos, as receitas que usamos para cozinhar e, também, a música de que gostamos. Essas características são transmitidas socialmente, pois um indivíduo aprende-as ao observar e imitar outros indivíduos. Em contrapartida, a cor do cabelo e a cor dos olhos são geneticamente transmitidas de pais para filhos.

Não é nenhuma surpresa que muitos comportamentos sejam socialmente aprendidos. No entanto, para que o aprendizado social seja adaptativo – ou seja, para que aumente a probabilidade de o indivíduo sobreviver e se reproduzir -, ele tem de ser seletivo. É melhor aprender com um adulto que sabe cozinhar bem do que com irmãos que ainda estão aprendendo. Copiar de preferência o comportamento de indivíduos bem-sucedidos é conhecido, no linguajar da evolução cultural, como “transmissão por viés de sucesso”. De forma parecida, há muitos outros vieses de aprendizado que podem aparecer, como o viés de conformidade, de prestígio ou de conteúdo. Ao longo dos anos, os vieses de aprendizado têm sido empregados para compreender uma série de traços culturais em populações animais humanas e não humanas e provaram-se frutíferos no entendimento de padrões culturais complexos. Para tentar entender por que as letras de músicas aumentaram em negatividade e diminuíram em positividade ao longo do tempo, empregamos a teoria da evolução cultural para ver se o padrão pode ser explicado por meio dos vieses de aprendizado social.

Procuramos pelo viés de sucesso testando se as músicas apresentavam letras mais negativas caso as dez mais ouvidas de anos anteriores seguissem esse padrão. Em outras palavras: os compositores eram predominantemente influenciados pelo conteúdo das antigas músicas de sucesso? De maneira similar, o viés de prestígio foi testado ao checar se as músicas de artistas bem-sucedidos de anos anteriores também produziram mais letras negativas. Esses artistas eram os que apareciam nas paradas da Billboard um número desproporcional de vezes, como Madonna, que tem 36 músicas entre as 100 mais ouvidas. O viés de conteúdo foi investigado ao checar se músicas cujas letras eram mais negativas também ficavam acima nas paradas. Se fosse o caso, isso daria a entender que havia algo no conteúdo das letras negativas que as tornava mais atrativas e, portanto, mais populares.

Apesar de termos encontrado algumas evidências de vieses de sucesso e prestígio nos conjuntos de dados, o efeito mais confiável para explicar o aumento de letras negativas foi o viés de conteúdo. Isso é condizente com outros achados em evolução cultural, nos quais informações negativas parecem ser mais lembradas e transmitidas do que informações neutras ou positivas. Entretanto, também descobrimos que incluir transmissão sem vieses em nossos modelos analíticos diminuiu bastante a aparição de efeitos de sucesso e prestígio e pareceu ser a melhor explicação para os padrões. Pode-se encarar aqui a transmissão sem viés de maneira similar à deriva genética, na qual os traços parecem ser levados à fixação por meio de flutuações aleatórias e da aparente ausência de qualquer pressão de seleção. Verificou-se que esse processo explicava a popularidade de outras características culturais, variando de decorações em cerâmicas do Neolítico a nomes de bebês e raças de cachorro contemporâneos. É importante frisar que encontrar evidências de transmissão sem viés não quer dizer que os padrões não tenham explicação ou que sejam predominantemente aleatórios, mas que existe provavelmente toda uma série de processos para interpretá-los – e que nenhum dos processos pelos quais procuramos foram sólidos o suficiente para dominar a explicação.

O crescimento de letras negativas em músicas populares em inglês é um fenômeno fascinante, e mostramos que isso pode ocorrer devido a uma preferência bem difundida por conteúdo negativo, além de algumas outras causas, ainda não descobertas. Dada essa preferência, o que precisamos explicar é por que as letras de músicas pop anteriores aos anos 1980 eram mais positivas que as de hoje. Talvez uma indústria fonográfica mais centralizada tivesse mais controle sobre as músicas produzidas e vendidas. Um efeito similar pode ter sido trazido pela difusão de canais de distribuição mais personalizados – das fitas cassete virgens aos algoritmos sob medida do “Feito para você”, do Spotify. E outras mudanças sociais, mais amplas, podem ter contribuído para que fosse mais aceitável, ou até digno de recompensa, expressar, de forma explicita, sentimentos negativos.

Todas essas hipóteses poderiam ser testadas usando os dados aqui descritos como ponto de partida. É sempre um bom sinal, na ciência, perceber que há mais trabalho a se fazer para entender melhor o padrão. Dá margem para aperfeiçoar as teorias, melhorar os métodos de análise ou, às vezes, voltar à estaca zero e fazer perguntas diferentes.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 10 DE MARÇO

A PLENITUDE DE DEUS

… para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus (Efésios 3.19b).

A mais ousada oração de Paulo foi realizada quando ele estava preso em Roma. O velho apóstolo teve a ousadia de pedir ao Senhor que os crentes de Éfeso fossem tomados de toda a plenitude de Deus. Embora sejamos frágeis vasos de barro, podemos ser habitados pela plenitude do Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo. A grande pergunta é: Quem é Deus? Deus é transcendente. Nem o céu dos céus pode contê-lo. Ele é maior que tudo aquilo que ele criou. Os astrônomos dizem que o universo tem mais de dez bilhões de anos-luz de diâmetro. Isso significa que, se conseguíssemos entrar numa nave espacial, voando à velocidade da luz, demoraríamos dez bilhões de anos para ir de um extremo ao outro do universo. Pois Deus criou tudo isso, é maior que tudo isso e está além de tudo isso. Agora, Paulo ora de joelhos para que sejamos tomados de toda a plenitude de Deus. Os mais apressados poderiam pensar que Paulo estava delirando, mas ele antecipa esse questionamento, afirmando: Ora, àquele que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos, conforme o seu poder que opera em nós, a ele seja a glória, na igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações, para todo o sempre. Amém! (Efésios 3.20,21). Você pode conhecer a Deus e ainda ser tomado de toda a plenitude de Deus!

GESTÃO E CARREIRA

A GERAÇÃO Y NO PODER

Os nascidos depois de 1981 chegam a cargos de chefia e surpreendem seus patrões ao expor publicamente, e em grupo, suas insatisfações com os rumos das empresas

Lidar com levantes de clientes insatisfeitos nas redes sociais já entrou para a rotina corporativa. Consultorias fazem fortuna ensinando às empresas como manejar as revoltas digitais protagonizadas pelos membros da geração Y, também chamados de millennials, assim definidos os que têm, hoje, entre 23 e 38 anos. O que vem inquietando muitos executivos, agora, é deparar com críticas públicas dos próprios funcionários, especialmente nos gigantes de tecnologia. O alvo mais recente foi a Amazon, empresa avaliada em quase 1 trilhão de dólares. No início de abril, começou a circular um abaixo-assinado endereçado a seu fundador, o bilionário Jeff Bezos, e ao conselho de administração da companhia. Em menos de dez dias, mais de 6.700 funcionários, de estagiários a diretores, deixaram o nome e o cargo no documento, facilmente identificáveis numa busca pelo LinkedIn.

Numa espécie de rebelião de crachá, eles foram a público demandar políticas ambientais mais amplas e detalhadas, além de criticar contratos com petroleiras, que usam o braço de computação em nuvem da companhia. A carta pede o apoio dos patrões à aprovação de uma resolução no encontro anual de acionistas, marcado para 22 de maio, em que a Amazon se comprometa a especificar publicamente como pretende reduzir o uso de combustíveis fósseis em sua operação. Como uma parcela dos funcionários recebe como benefício participação na empresa, eles são acionistas minoritários e têm direito a levar suas exigências à reunião. A Amazon, num documento oficial, recomendou aos demais acionistas que vetem a resolução, mas o estrago em sua reputação já está feito.

O movimento mostra um lado menos glamouroso, ou menos agradável para as empresas, do comportamento dos millennials no mercado de trabalho. Até há pouco tempo, muitas companhias se esforçavam para se abraçar a eles, que prezam um propósito de vida como valor fundamental do trabalho e do emprego. Ao garantirem (ou fingirem garantir) que fazem do mundo um lugar melhor, companhias, especialmente de tecnologia, atraíram os melhores talentos da geração Y. “Quando esses profissionais não enxergam o discurso na prática, a reação é chamar a empresa à coerência”, diz Francine Lemos, presidente da consultoria Cause. Os millennials têm o poder de ampliar sua voz: críticos e adeptos do engajamento digital, eles fazem barulho e chamam a atenção de outras gerações, que podem não ter o mesmo desprendimento em relação à discrição e privacidade, mas também estão nas redes sociais acompanhando tudo.

Só no ano passado, o Google recebeu uma avalanche dessas chamadas. Primeiro, cerca de 4.000 profissionais assinaram uma carta-denúncia sobre a participação da empresa num programa do Pentágono que usava inteligência artificial para identificar imagens obtidas por vídeo. “O Google não deve estar no mercado da guerra”, afirmava o texto, endereçado ao CEO, Sundar Pichai. A empresa agiu. Lançou um código de conduta para o uso de inteligência artificial e não renovou o contrato. Desistiu também de outra licitação com o órgão que poderia trazer 10 bilhões de dólares a seus cofres. Em novembro, milhares de funcionários saíram às ruas no meio do expediente, em diversos países, após uma reportagem do jornal The New York Times revelar que executivos acusados de assédio sexual teriam sido dispensados da companhia com altas indenizações. Pouco depois, cerca de 800 profissionais assinaram outra carta, contra os planos de atuação do Google na China, o que o levaria a adequar-se a políticas de controle e censura do governo. A empresa já deixara o país, pelo mesmo motivo, em 2010.

A liberdade com que os jovens empregados atacam seus patrões não se deve unicamente à idade dos ativistas de crachá. Trata-se de uma força de trabalho bastante qualificada e disputada a tapa nos Estados Unidos (que goza de níveis baixíssimos de desemprego), o que garante certo poder de barganha. Também são profissionais que se formaram em meio a uma cultura nascida no Vale do Silício de transparência radical, resumida no lema “a informação quer ser livre”. O próprio Google sempre defendeu essa ideia e abriu espaço para as opiniões de todos. O ativismo dos millennials, porém, pode servir de inspiração às empresas. Deve haver um ponto de encontro entre as transformações do mercado, com mais transparência e responsabilidade socioambiental, e a necessidade de lucro – imperativa – para que um negócio sobreviva. Ouvir os millennials e convidá-los a debater questões e propor soluções é uma forma de manter-se a par de suas movimentações e compartilhar, assim, a realidade dos negócios. Foi o que fez a Salesforce. O gigante de softwares também recebeu seu abaixo-assinado digital. Seus funcionários exigiam o fim das relações comerciais da companhia com a agência americana de controle de fronteiras, que na época ganhava as manchetes por separar crianças de pais que tentavam entrar nos Estados Unidos ilegalmente. Após muito barulho, a empresa criou uma diretoria executiva, o “Escritório de Uso Ético e Humano da Tecnologia, para definir diretrizes e promover discussões com os empregados. ”Apesar de o capitalismo caminhar numa direção mais responsável, mercado ainda é mercado”, diz Pedro Waengertner, CEO da Ace Startups, consultoria e aceleradora de negócios.

No Brasil, as empresas tentam aprender com os erros dos estrangeiros antes que o problema apareça. No Nubank, um dos maiores exemplos brasileiros de companhias da nova economia, o fundador David Vélez, de 37 anos, passa uma hora e meia por semana respondendo a perguntas de qualquer funcionário que quiser se sentar com ele. As cadeiras andam concorridas. Desde 2018, sua força de trabalho dobrou para 1.500 pessoas. Delas, 80% têm até 35 anos. Nos cargos gerenciais e com equipes para liderar, a idade média dos profissionais é 32 anos. Para evitar percalços, houve um trabalho de preparação com a equipe original, em especial com quem estava na empresa desde o início, para lidar bem com novos millennials cheios de opinião. Muitos disseram que as inovações da companhia, inclusive internas, precisavam ser divulgadas. “Eles queriam ser mais reconhecidos também fora da empresa,” diz Ana Paula Maia, de 31 anos, gerente de employer branding, responsável por fazer com que a marca da empresa continue atraindo novos profissionais – função que ocupa há um ano e que foi criada justamente para ajudar a companhia neste momento de expansão de uma equipe tão particular.

A preocupação do Nubank pode parecer distante para empresas de perfil mais tradicional. Não deveria. Além de questões mais óbvias, como o avanço demográfico, cedo ou tarde, em ao menos algum aspecto dos negócios será impossível concorrer sem empregar novas tecnologias, o que exigirá contar com a força de trabalho dos maiores especialistas no assunto: os millennials. “Como todas as empresas precisaram da eletricidade em algum momento, todas dependerão das tecnologias digitais”, diz Denis Balaguer, diretor do Centro de Inovação da EY no Brasil. O Magazine Luiza é uma das companhias brasileiras mais adiantadas. Em 2011, sua divisão de desenvolvedores de softwares, o Luizalabs, contava com dois profissionais. Hoje, são 850, e já correspondem a 30% da área administrativa da empresa. Do laboratório, saem inovações empregadas no site, lojas e sistemas do Magazine Luiza, com base em tecnologias como análise de dados e inteligência artificial. Entre as políticas de comunicação, uma delas, criada especialmente para esse grupo, e um encontro mensal para discutir questões caras aos funcionários, de diretrizes da empresa a mudanças na estrutura da equipe. “Quase toda a estratégia passa por esse departamento”, diz Patrícia Pugas, diretora executiva de gestão de pessoas do Magazine Luiza. “São profissionais de perfil mais questionador, o que, para nós, é de grande valor.” Pois é preciso ouvi-los, antes que saiam fazendo abaixo-assinados.

CHOQUE DE GERAÇÕES – Funcionários do Google tiveram sucesso em seus protestos

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

VIDA AUTÔNOMA

Viver só não é uma modinha nem algo isolado. É uma opção de vida que se cristalizou no Brasil nos últimos 50 anos e provavelmente em outras partes do mundo

Se você ainda acredita que quem vive sozinho é porque não encontrou uma companhia, está na hora de mudar de opinião. Há 30 anos as pessoas entravam nos consultórios terapêuticos querendo saber quem elas eram. Hoje, invariavelmente, todos os meus pacientes sofrem porque têm muitas opções e não conseguem escolher uma delas, sem que com isso sofram pelas outras deixadas – o fenômeno da frustração. Esse é o motivo de pelo menos 5 em cada 10 pacientes atendidos no consultório psicanalítico.

Muita gente sofre porque não suporta mais um casamento, para o qual já percebeu que não tem nenhum apreço, ou porque nem mesmo pensa em entrar num desses, pois já conhece, de antemão, sua incapacidade de gerenciar um. Ou seja, muitos vivem com medo do que os outros vão dizer ou pensar deles e acabam sofrendo por não ter força suficiente para escolher o que ele pode levar adiante pela vida. Nesse caso, optam por agradar os outros e o sofrimento psíquico chega, cedo ou tarde. Essa indecisão não vive quem optou pela vida autônoma, como eu prefiro chamar.

Aquela imagem de uma tia solteirona vivendo sozinha na casa dos pais lá nos anos 70, quem diria, era a grande revolução do mundo dos brasileiros. Revolução esta que hoje podemos constatar em pesquisa, como as do IBGE no último tempo demográfico. Hoje os idosos que vivem sozinhos, viajam, consomem, gastam em lazer e têm qualidade de vida; em parte graças a essas “tias solteironas” dos anos 70 e 80. Elas, de maneira silenciosa, construíram uma revolução no modo de vida, sobretudo se considerarmos a ideia dos latinos americanos, de que não se pode viver sozinho e que “cada panela tem sua tampa”.

Os números dos brasileiros que vivem sozinhos não mentem, porém a maior prova desse fenômeno é mudança da dinâmica da população. Há muita gente em torno de nós ostentando a vida autônoma, homens e mulheres vivem sozinhos, sem casamento formal e filhos e muitas vezes até sem relacionamentos estáveis.

De acordo com o IBGE, de 2005 para 2015 a quantidade de pessoas que vivem sozinhas saltou de 10,4% da população para 14.6%. O número de pessoas que moravam sozinhas no Brasil aumentou de 1,4 para mais de 4,4 milhões em 10 anos. Os idosos são maioria entre os que vivem só: 44.3% deles têm 60 anos ou mais. Em 2005, eram 40,6%, número que aumenta a cada dia. De todo esse universo de números, o que me interessa é o fenômeno social, a ação mental, a condição psicológica dessa população. O que faz um sujeito decidir pela vida autônoma?

A primeira coisa que vem à nossa mente é que pessoas que escolheram viver sozinhas o fizeram porque não conseguem se encaixar nos padrões da coletividade, são egoístas e apresentam diferentes dificuldades de relacionamento, de partilha e de altruísmo. Já no caso de quem vive sozinho não pela opção, mas pela falta dela, porque os pares já morreram ou tiveram outro fim, parece que a percepção social é sempre a mesma – vivem sozinhos porque não têm opção. Mas a compreensão desse fenômeno precisa ir muito além. Não é possível que esse fato passe desapercebido pelas políticas públicas, pelas igrejas e, sobretudo, pela noção de saúde coletiva a que todos nós, terapeutas e profissionais de saúde estamos conectados. É preciso repensar toda a oferta de terapias e amparo psicológico para esse grupo de pessoas porque elas não são compreendidas ainda e nossas técnicas terapêuticas para elas estão obsoletas, já que a maioria não sofre com depressão nem com solidão conforme apontam os números. Por exemplo, 72% deles acreditam que viver sozinhos dá mais liberdade para gastar dinheiro. Ou seja, o solteiro autônomo tem uma paixão e um comportamento de ter. Os que vivem só querem dizer que possuem um plano de vida, meta de bem-estar, opção de caminhada – ser só no mundo e feliz, sem filhos, sem casamento, sem relações afetivas fixas.

Parece triste para alguns, mas a opção desses brasileiros adultos precisa ser observada para que orientações de diferentes segmentos possam acolher essa população, e não simplesmente avaliá-la e julgá-la com critérios de exclusão ou de preconceitos. As novas religiões já descobriram essa população – de budistas, hares, mindfuness, (quase uma religião) e outras; essa população já está achando seu lugar nas religiões que não obrigam o casamento e os modelos tradicionais de família. O comércio e a indústria também.

Hoje já há porções individuais de refeições, que vão das orgânicas às comidas rápidas. Planos de saúde, títulos de clube, automóveis e bens de toda a natureza pensados e construídos para quem optou por viver sozinho. Quer dizer, a sociedade já está apresentando soluções para esse grupo, no entanto, quando o assunto é amparo psicológico, o preconceito impera. É preciso combater, entre os profissionais de saúde mental e educação, primeiramente, a ideia de que quem vive sozinho é triste e infeliz e tem problemas de convivência. Essa é uma ação urgente e imprescindível.

O que essa população de autônomos apresenta é:privacidade (50%), independência (25%): sensação de liberdade (23 %); paz (12%); solidão (10%), tristeza (3%); abandono (1%). Ou seja, solidão e abandono não são, definitivamente, as características mais importantes deles. Eles querem e buscam outra coisa que ainda não percebemos, mas por isso mesmo é urgente que se debruce sobre esses sujeitos para compreendê-los. Os humaniês (gente que optou em ser sozinha), que é como eu os chamo agora, são nosso desafio no campo terapêutico. Eles são unimultiplos nos sentidos e homo mobilis nas ações. Agora precisamos escutá-los.

Prof. Dr. GERALDO PEÇANHA DE ALMEIDA é psicanalista, educador e escritor. Autor de mais de 70 livros, dentre eles: Em Busca da Paz Interior, No Coração da Mente Livre, Meditações para Começar o Dia e Felicidade Sempre Viva. Fundador e diretor do Projeto Coração de Pólen – Centro de Tratamento, Estudo e Pesquisa na Área da Saúde Mental, em Curitiba.

OUTROS OLHARES

UM MUNDO NEM TÃO DESIGUAL

A pobreza e as disparidades persistem, mas nem tudo é sombrio. Segundo um dos papas no assunto, seis em cada sete pessoas já têm padrão de vida “decente”

Bombardeadas de informações a torto e a direito, as pessoas hoje em dia têm a impressão de que sabem tudo sobre o mundo – e de que ele vai de mal a pior. O balanço de 2019 é um amontoado de protestos disseminados na América Latina, conflitos no Oriente Médio, avanço do obscurantismo no planeta e relatos de desigualdade extrema, inclusive nos países ricos. Calma, porém: o apocalipse não está na esquina, como prova, com números, o livro Factfulness – O Hábito Libertador de Só Ter Opiniões Baseadas em Fatos (Editora Record). Escrito pelo estatístico sueco Hans Rosling, que morreu em 2017, vítima de um câncer no pâncreas, o título está na lista dos mais vendidos da Europa e dos Estados Unidos. O fundador da Microsoft, Bill Gates, comprou 3,6  milhões de cópias digitais para distribuir nas faculdades. Para o ex- presidente dos Estados Unidos Barack Obama, trata-se de “uma esperançosa projeção do potencial humano de progredir”. Rosling, de fato, vai na contramão das más notícias. Sob o prisma do que as pessoas conseguem comprar com o que ganham, e não o da renda absoluta – essa é a novidade -, suas planilhas mostram que seis em cada sete habitantes do planeta já desfrutam o que ele qualifica de “padrão de vida decente”, com boa dose de conforto cotidiano. Isso inclui filhos na escola, fornecimento de eletricidade estável e gastos em lazer, como viagens de férias. Assim, a sociedade como um todo está mais avançada do que se pensa. Oitenta por cento da população mundial utiliza contraceptivos e está protegida por vacinas e 88% dispõem de água potável.

Os estudos de Rosling tiveram tal impacto que levaram o Banco Mundial a alterar a forma como classifica os países. Indo além da conhecida divisão entre desenvolvidos e em desenvolvimento, o órgão criou quatro subdivisões de renda diária que redefinem níveis de classe social e reveem o conceito de desigualdade. Há meio século, a maioria das pessoas estava paralisada no piso da pirâmide social e muito afastada do que o termômetro de Rosling aponta como classe média – daí a imagem do camelo e suas duas corcovas separadas por um profundo vale com que ele representa aqueles anos 1970. Só que a roda girou, e a escalada em massa rumo à faixa mediana engoliu uma corcova, em um retrato de mais bem-estar (veja o gráfico). Sim, a pobreza e os contrastes sociais persistem, mas Rosling traz um ângulo que proporciona algum respiro: de cinquenta anos para cá, a miséria global encolheu de 50%para 9%, alçando muita gente a patamares em que as necessidades básicas estão bem equacionadas.

Em sua argumentação, o estatístico sueco mostra que, entre os 7 bilhões de moradores da terra, embora 1 bilhão ainda viva na faixa das altas precariedades, outros 3 bilhões têm no mínimo acesso a fogão, geladeira, eletricidade e os filhos na escola. Sobra mais uma multidão de 3 bilhões de indivíduos que conseguem investir em lazer e em pequenos luxos, como carro próprio –  entre esses, 1 bilhão ainda  vão à universidade, frequentam restaurantes e viajam de avião. A nova ordenação dissolve as fronteiras geográficas para reagrupar a humanidade de acordo com o que ela acessa. Rosling se deteve sobre o cotidiano de 300 casas em cinquenta países. Foram destrinchados 130 aspectos, com itens de higiene e pratos de comida. E a conclusão é que muito mais gente do que se imagina galgou posições sociais em todos os cantos, visão que se choca com a da turma liderada pelo francês Thomas Piketty, autor do livro-referência Capital e Ideologia.

Para ela, baseada no clássico coeficiente de Gini, a desigualdade se agrava (o Brasil, onde 1% da população concentra atualmente 30% da renda, é um exemplo). Rosling sabe disso, mas pondera: “A visão tradicional ignora a ascensão social de 4 bilhões de pessoas, ou 60% da humanidade, nas últimas décadas”.

Um dos motores da melhora está no avanço dos países asiáticos da segunda metade do século XX para cá, sobretudo a Índia e a China. Em 1858, a Guerra do Ópio chinesa e uma tentativa frustrada de independência indiana deixaram um rastro de miséria, o que só começaria a ser revertido nos anos 50 para se acelerar nos 70 com reformas econômicas. As estatísticas ainda apontam para um fosso regional nos dois países, mas já há localidades ali em que o padrão de vida é tão bom quanto na Inglaterra ou nos Estados Unidos – um morador de Xangai acessa um sistema de saúde superior ao americano. Se as desigualdades, que represam o mercado interno e criam instabilidade social, forem atenuadas, em três décadas chineses e indianos terão rendimento médio semelhante ao dos britânicos.

Mesmo a diferença de renda no Brasil é relativizada por Rosling. Um dos gráficos mostra que os 10% mais ricos ficavam com metade da renda em 1989, mas esse porcentual caiu para 40% em 2015, o nível mais baixo em décadas. “A maioria dos brasileiros saiu da extrema pobreza e está bem instalada na classe média, ponto em que dá para economizar para pagar o ensino médio.” Em resumo: “Em um dos países mais desiguais do mundo, grande parte das pessoas já está no meio”, sustenta. É verdade que a crise dos últimos anos fez o fosso brasileiro se agravar, mas o otimismo de Rosling não esmorece. A tirar pela lógica que regeu a humanidade até este momento, mesmo com solavancos ela sempre avança.

DE CAMELO A DROMEDÁRIO

Interpretada na forma de corcovas, a renda da população mundial, que há melo século estava concentrada na faixa da pobreza e ficava a um precipício de distância da classe média, ascendeu significativamente para este patamar, agora o predominante

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE ORVALHO PARA A ALMA

DIA 10 DE MARÇO

A PLENITUDE DE DEUS

… para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus (Efésios 3.19b).

A mais ousada oração de Paulo foi realizada quando ele estava preso em Roma. O velho apóstolo teve a ousadia de pedir ao Senhor que os crentes de Éfeso fossem tomados de toda a plenitude de Deus. Embora sejamos frágeis vasos de barro, podemos ser habitados pela plenitude do Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo. A grande pergunta é: Quem é Deus? Deus é transcendente. Nem o céu dos céus pode contê-lo. Ele é maior que tudo aquilo que ele criou. Os astrônomos dizem que o universo tem mais de dez bilhões de anos-luz de diâmetro. Isso significa que, se conseguíssemos entrar numa nave espacial, voando à velocidade da luz, demoraríamos dez bilhões de anos para ir de um extremo ao outro do universo. Pois Deus criou tudo isso, é maior que tudo isso e está além de tudo isso. Agora, Paulo ora de joelhos para que sejamos tomados de toda a plenitude de Deus. Os mais apressados poderiam pensar que Paulo estava delirando, mas ele antecipa esse questionamento, afirmando: Ora, àquele que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos, conforme o seu poder que opera em nós, a ele seja a glória, na igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações, para todo o sempre. Amém! (Efésios 3.20,21). Você pode conhecer a Deus e ainda ser tomado de toda a plenitude de Deus!

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE ORVALHO PARA A ALMA

DIA 09 DE MARÇO

JESUS ANDA SOBRE O MAR

Na quarta vigília da noite, foi Jesus ter com eles, andando sobre o mar (Mateus 14.25).

Jesus já havia acalmado uma tempestade no mar da Galileia quando estava com seus discípulos. Agora, depois de multiplicar pães e peixes para uma multidão faminta, compele os discípulos a entrarem no barco e atravessarem o mar, enquanto sobe ao monte para orar por eles. Em obediência à ordem de Jesus, os discípulos partem e são surpreendidos por outra avassaladora tempestade. Mesmo conhecendo aquele lago de águas doces como a palma da mão, os discípulos não logram êxito na jornada. O barco era varrido de um lado para o outro por fortes rajadas de vento. Já era alta madrugada, e eles ainda estavam no pivô da crise, no miolo da tempestade, arremessados de um lado para o outro, sem nenhuma esperança de livramento. Nesse momento, Jesus vem ao encontro deles. Jesus sempre vem ao nosso encontro para nos socorrer, ainda que na quarta vigília da noite, quando o problema já parece insolúvel. Jesus foi ao encontro dos discípulos andando sobre as ondas, para mostrar que aquilo que os ameaçava estava literalmente debaixo dos seus pés. Jesus acalma os discípulos, ordenando-os a terem bom ânimo, e também acalma o mar, subindo no barco e levando os discípulos salvos e seguros ao destino desejado. Jesus sempre vem ao nosso encontro na hora da tempestade e, com ele no barco, tudo vai muito bem.

GESTÃO E CARREIRA

TRANSFORMAÇÃO PARA O ANO TODO

O fenômeno do “como seria se…” não é exclusivo nas promessas habituais que representam um novo ciclo, mas permanece firme por toda a vida

Quem não inicia um ano com a cabeça cheia de reflexões sobre o ano que fica para trás e ansioso sobre o que está por vir? É uma mistura de sensações positivas e negativas que varia de indivíduo para indivíduo, mas normalmente inclui alívio, satisfação, alegria, esperança, medo, ansiedade, frustração, entre muitas outras. Por isso, independentemente do estado atual, nos primeiros meses do ano é preciso diminuir e reorganizar a mente para vivenciar tudo de maravilhoso que a vida pode oferecer.

É comum nesse período desenharmos planos e projetos para os próximos meses, agregando diversas promessas e já sonhando com os resultados. Conseguimos até visualizar como será quando aquele objetivo for alcançado, sentir a felicidade de quando finalmente cumprirmos com tais promessas e até ouvir todas as palavras de incentivo e conforto como se fossem trilha sonora de nossas vidas. Mas qual o verdadeiro saldo dos resultados dessas promessas depois dos primeiros meses do ano?

Todos os sonhos tomam conta dos nossos pensamentos, mas muitas vezes ficamos presos no “como seria se…” e deixamos todos os objetivos guardados cm uma gaveta esperando o momento certo de serem realizados. Desse modo, não vivemos a vida em plenitude, já que permitimos que as desculpas e os medos falem mais alto, limitando-nos a achar alternativas para transformar em realidade tudo aquilo que desejamos.

Quantas pessoas brilhantes, corajosas, determinadas e comprometidas vivem dessa forma? Elas simplesmente deixam de lado os seus próprios objetivos devido às interferências que surgem no meio do caminho e nem tentam ir além por medo de errar, de não serem aceitas ou de simplesmente não dar certo.

A sensação é de que há um grande abismo entre onde se está e o lugar que se quer chegar. Parece que sempre há mais problemas do que soluções e que surgirão mais obstáculos do que caminhos livres. Daí, então, deixamos o medo e outras sensações limitantes tomarem as rédeas da nossa vida, fazendo-nos acreditar que essa é uma opção mais segura, calma e tranquila de viver. É assim que deixamos para trás nossas ideias, objetivos, sonhos de criança e essência, tudo para viver com medo do nosso futuro, mas não nos damos conta de que esse mesmo futuro que tememos já está sendo criado, porém, por outras mãos: as mãos do medo.

Para alcançar as metas, sejam pessoais ou profissionais, e deixar de lado tudo aquilo que nos aborrece e não nos serve mais, precisamos desmascarar as falsas seguranças que os hábitos nos propiciam, e sobre as quais constantemente construímos a vida. Para realizar uma mudança, precisamos morrer metaforicamente para o que já não faz sentido no momento. É como a metamorfose da lagarta. Para se transformar em borboleta, ela desaparece e “morre” para aquela identidade que não terá mais propósito dali em diante.

Antes de promover uma transformação, é necessário fazer uma verdadeira autoavaliação, considerando alguns aspectos que vão guiar as nossas ações e decisões durante o ano.

Estar consciente de onde se encontra no momento e para onde se deseja ir é uma delas. Autoavaliação e identificação das próprias competências, qualidades, experiências e potencialidades são importantes, assim como os pontos fracos a serem melhorados. É importante refletir ainda sobre as motivações e os valores mais importantes da sua vida. Analise a situação de partida e a possível evolução e desenhe detalhadamente como irá chegar ao estado desejado e o que precisa ser feito para isso. Ou seja, lenha claro quais serão as suas estratégias, o plano de ação, a execução e a forma de verificar se os resultados estão de acordo com cada etapa desenhada. Ter um prazo para a finalização do processo é importante para que o compromisso seja assumido, e ele deve ser real, ou seja, possível de ser alcançado.

É fundamental, ainda, treinar a auto­disciplina, pois é dessa forma que evitamos que o medo nos domine e que comecemos a nos autossabotar. Treinar a flexibilidade é outro exercício essencial para que possamos compreender as mudanças no caminho e manter a resiliência necessária para alcançar aquilo que tanto desejamos.

Nada é mais desafiador do que viver de acordo com nossos sonhos, assim como nada é tão emocionante que criar objetivos no pensamento, antecipando-se ao futuro. Nessa busca pelo sucesso e do que o faz feliz, recorde-se sempre de que há momentos na vida em que nós também precisamos “morrer” para o velho e viver o que escolhemos. Somos capazes de decidir sobre pontos limitantes para transformar tudo o que ousamos sonhar em realidade.

Comece hoje mesmo! Não precisa esperar outro ano iniciar para colocar os planos e objetivos em prática. Afinal, a vida tem que ser vivida todos os dias e não apenas nos primeiros meses de um novo ano. Colher os melhores resultados sempre é uma tarefa constante e prazerosa.

E lembre-se: sonhos e metas nunca deixarão de existir, pois eles são combustível para a vida. Portanto, tenha em mente que a busca pela realização é constante e periódica, por isso não atrase nem deixe para trás aquilo que pode realizar hoje.

EDUARDO SHINYASIKHI – é palestrante, consultor organizacional, especialista em Desenvolvimento das Competências de liderança e Preparação de Equipes.

É presidente do Instituto Eduardo Shinyashiki e também escritor e autor de importantes livros como Transforme seus Sonhos em Vida (Editora Gente), sua publicação mais recente. www.edushin.com.br