A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A NEGAÇÃO DA VIDA NA NEGAÇÃO DA MORTE

A descrição das características psicológicas encontradas nos vícios e compulsões é importante, contando com a análise reichiana, na qual a dor é secundária, pois a ênfase fica no alívio e prazer, depois a culpa

No século XIX, diante do pouco interesse dos chineses pelos produtos europeus – e estes, por sua vez, compravam dezenas de toneladas de chá dos primeiros -, a Inglaterra passou a comercializar ópio ilegalmente. O ópio era trazido das colônias inglesas na Índia e embarcado em direção à China.

Seu consumo produziu uma verdadeira epidemia, quase levando o Império Chinês à falência, e resultou numa guerra quando a mesma China tentou proibir o uso do produto.

Merece destaque o interesse dos chineses pelo ópio, em contraste com outros produtos frutos da nascente revolução industrial. Os malefícios já eram conhecidos pelo fato de seu uso ter se tornado frequente por grande parte da população. Mesmo assim, prevaleceu a busca dos efeitos inebriantes do ópio – “por favor, minha amiga, transforme em sonhos meus pesadelos”.

Numa pesquisa recente do Levantamento Global de Drogas (Global Drug Survey – GDS), quase 10% dos entrevistados, usuários de maconha, admitiram ficar cerca de 12 horas por dia sob efeito da substância. Ou seja, praticamente o período em que estão acordados. Estarão acordados quando isso está se dando? É uma questão não meramente retórica.

O ângulo abordado é diferente da maneira habitual como a dependência das drogas é tratada, pelo viés da dependência química, que usualmente não se ocupa dos fatores (ligados ao desejo) que levam ao consumo. Não é de se estranhar igualmente que compulsões e vícios estejam listados no título, há um denominador comum presente. Resumidamente: numa desordem conhecida como transtorno de escoriação, as pessoas usam unhas, dentes, pinças etc. para arrancar alguma coisa da pele, como uma espinha ou pelo encravado. Podem passar horas nesse fazer, um fazer compulsivo, que a vontade não consegue deter, ficando às vezes com marcas por todo o corpo e retiradas da vida social. A descrição das características psicológicas frequentemente encontradas é importante, mas sublinho um elemento-chave com sentido especial na ótica reichiana: a dor é secundária, a ênfase fica no alívio e prazer, depois culpa.

Na cleptomania, o “roubar” é compulsivo. Não confundir com furto. Na primeira, o ato é determinado menos pelo objeto subtraído e mais pelo ato em si de subtrair, e isso independe da condição financeira da pessoa. O quadro psicológico também merece atenção, mas novamente o sublinhado é: pacientes relatam sentimentos de tensão que antecedem a realização, seguida posteriormente por sentimentos de satisfação e prazer. Após, vergonha e culpa.

A mesma experiência de tensão pré­ realização, seguida de satisfação. Depois, culpa.

”Algo” que pressiona por descarga e evoca prazer. Satisfação erótica. Num plano simbólico, mas físico, somático também. A culpa que se segue revela o conflito inconsciente envolvido e associado à obtenção de satisfação.

Nem toda experiência de prazer envolve “descarga” de excesso de excitação. Esse primeiro tipo é da ordem do econômico-energético e envolve o que seria chamando de satisfação pulsional num referencial freudiano. Mas há também aquele prazer decorrente da retirada da dor, do desprazer – como o alívio que sente o leão quando o escravo Androcles retira o espinho de sua pata-, ou a evitação dos mesmos, num plano psíquico. A retirada do espinho evoca prazer (pelo alívio), mas não satisfação pulsional.

DESPRAZER

O mecanismo psíquico da negação igualmente não traz satisfação pulsional, mas evita o desprazer. E que papel desempenha a negação no escopo do que examinamos? Veremos que tanto a satisfação erótica quanto a negação têm importância central nos vícios, compulsões e dependências. “Por favor, minha amiga, transforme em sonhos meus pesadelos”. Mas o que são esses pesadelos? Seria impossível descrever o sentido do que é feito numa abordagem reichiana sem primeiro comentar algo sobre a teoria, aquilo que fundamenta as ações e intervenções clínicas. As manifestações do inconsciente são visadas, e isso mesmo numa abordagem clínica em que a corporeidade é vista como constituinte do psiquismo. Há outra complicação: na Psicologia, há centenas de escolas, linhas de trabalho diferentes, baseadas em concepções diversas sobre o que constitui o cerne do psiquismo, da vida emocional. É o contrário do que se passa se procuro, por exemplo, um ortopedista. Posso procurar dezenas de profissionais diferentes que o ponto de partida será sempre o mesmo: os ossos, músculos, ligamentos etc.

Na Psicologia e na Psicanálise o quadro é completamente diferente. Por isso, a importância de uma apresentação inicial. A teoria reichiana inicia-se com a freudiana, mas diferencia-se desta ao englobar a corporeidade no tratamento das questões psíquicas e emocionais. Há o inconsciente e seus subterrâneos, quer dizer, processos mentais extremamente atuantes, mas invisíveis num primeiro momento. E para se chegar ao exame dos “vícios”, na ótica reichiana, será necessário primeiro apontar algumas características desses processos mentais. E, posteriormente, comentar como o ingresso da corporeidade se segue à redefinição de psiquismo como somatopsiquismo.

Um jeito simples de fazer isso é dizer que nossos principais atos, nossas escolhas na vida, nossas simpatias e antipatias têm por detrás a ação de “forças” que ativam a nossa mente nessa ou naquela direção. E, mais ainda, que essa ativação guarda relação com experiências de vida que foram emocionalmente importantes na infância. E “importantes na infância” quer dizer que nosso psiquismo é marcado não só pelo passado – essa definição é parcial, mas suficiente agora -, mas também pela existência ou não de satisfação erógena ligada a elas. Mas o passado é referência apenas. A desordem só se mantém porque há uma permanente atualização econômica, ou seja, as representações se mantêm ativas porque permanecem os investimentos energéticos nestas, no presente.

Pode-se dizer que todo adulto portador de uma neurose ou desordem específica está inconscientemente vivendo algo da sua infância que ficou “complicado”, “inacabado”, mal resolvido. Faz isso sem saber, faz indiretamente. Há fases de desenvolvimento na criança. Essas fases são períodos definidos de tempo, em que a observação permite relacionar as formas como ela, criança, lida com o mundo a sua volta, e a existência de processos internos de desenvolvimento desenrolando-se.

Esses processos são vistos como somatopsíquicos, quer dizer, envolvem zonas específicas do corpo ligadas a modos particulares de funcionamento mental. Para continuar nos exemplos que utilizamos, isso é como dizer que, para uma criança pequena, o mundo é percebido numa referência oral, ou seja, se é bom ou ruim de se colocar na boca. Existem outras fases além da oralidade, e esses períodos, ou fases de desenvolvimento, são entendidos como universais, ou seja, uma experiência necessária de todo ser humano, relativo à espécie.

O “bom ou ruim de se colocar na boca” pode existir como um registro definidor de um alcoolismo ou na “fome de conhecimento”. Um sujeito pode ser marcado pelas experiências da amamentação e depois, quando adulto, reproduzir a busca de satisfação de uma forma sublimada. Esse “registro” por sua vez, pode ter expressão numa boca com músculos endurecidos, cronicamente tensionados, lábios apertados, quando houve uma interrupção abrupta e antecipada da amamentação.

Então, encontramos vários fatores constituintes na descrição do psiquismo: o inconsciente, a relação entre o presente e o passado e o sexual como força atuante. O sexual é a busca no presente de uma satisfação de um impulso ou desejo com marcas do passado representadas no tipo de busca.

DISTÚRBIOS PROMOVIDOS

E os vícios, distúrbios, compulsões? Mencionei os processos inconscientes, há uma finalidade subterrânea buscada, mas a pessoa não sabe disso. Em cada alcoolismo, em cada compulsão, vício, é o que se passa. E não sabe por que outros processos inconscientes, as defesas, estão em ação. Agem no sentido de produzir “esquecimento” daquilo que inicialmente, na história de alguém, foi uma espécie de causa inicial, e essa produção de esquecimento tem uma segunda consequência: o contato com a realidade fica reduzido, alterado, e o contato que a pessoa tem com ela mesma também. Para a neurose e suas desordens existirem, é necessário existir um empobrecimento da consciência. De si mesmo e do mundo em volta.

Mais uma recapitulação dos fatores em jogo: inconsciente, relação passado ­ presente, o erógeno e agora o empobrecimento do contato com si mesmo e a vida. E como no cerne de toda desordem e neurose há um componente infantil, e um modo infantil – infantil do ponto de vista do amadurecimento-, essas desordens sempre revelam, como característica do funcionamento dessas personalidades, uma dificuldade no lidar com a realidade frustrante. Frustrante nos seus anseios e modos de buscar satisfação. O modo infantil definido inclui até a satisfação sexual, que é buscada de forma substituta, como no comer excessivo no lugar de uma relação com uma parceira ou parceiro. Infantil, portanto, é sinônimo de fixação em fases pré – genitais do desenvolvimento psicossexual.

O psiquismo não é apenas um “suco” do cérebro. O corpo, a corporeidade – em especial no fator econômico-energético – constituem igualmente os nossos processos emocionais. Uma pessoa “cabeça-dura” tem, literalmente, uma cervical rígida, não é somente um modo mental de ser. E a abordagem reichiana tem, além das ferramentas de abordagem verbal, na transferência (via a análise do caráter) a possibilidade de reconhecer a configuração corporal que é contraponto da expressão subjetiva da neurose e da desordem e atuar sobre isso. Toda personalidade tem uma configuração corporal, na forma de arranjos musculares, posturais etc. Uma pessoa muito tímida “encolhe-se’ não tem uma expressão corporal do tipo “peito aberto” ou “nariz erguido”.

PROCESSOS CORPORAIS

Trabalhar clinicamente a condição dos vícios, compulsões e desordens inclui de forma especial, portanto, não só romper o circuito onde predominam a busca disfarçada e infantilizada de satisfação de algo que não é atividade ou a concretude da substância ela mesma, mas também os processos corporais emocionalmente significativos envolvidos, ajudando a pessoa a lidar com a realidade da própria existência. Processos corporais mais bem definidos como psicorporais que envolvem, como dito no início, tanto a descarga da estase de energia que alimenta as fixações pré-genitais quanto a manutenção da função defesa do mecanismo de negação.

Se é patente em todos os casos o valor simbólico de um impulso à transgressão, de um ponto de vista psicodinâmico, não menos importante no entendimento dessas desordens é o elemento apresentado na ideia do “ser capaz de lidar com a realidade da própria existência”.

Ernest Becker, na obra The Denial of Death (A Negação da Morte), em síntese, afirma que todas as instituições sociais, atividades laborais, práticas espirituais etc. não passam de tentativas organizadas pela humanidade para distrair-se da inexorabilidade da ideia da morte. Todos se ocupariam para simplesmente evitar essa constatação e, segundo este, a miserabilidade essencial aterrorizante da nossa existência. Noção próxima à de Schopenhauer: “Todas as ordenações do ser humano são de modo a que o traço básico e trágico da vida sem sentido não seja vivido”. Aqui teríamos, eventualmente, a matriz de todo mecanismo inconsciente de negação, a autoconsciência da perspectiva da morte, segundo esse enfoque. Seria esse o pesadelo que se tentaria transformar em sonhos?

A expressão linguística “o mundo lá fora” reflete epistemologicamente, no caso das disciplinas que se ocupam de tentar descrever e definir a consciência e a autoconsciência, o alienamento da noção simples de que nós e nosso psiquismo somos parte do mesmo mundo que incluiu o “lá fora”: Como se fôssemos e estivéssemos fora na natureza.

Freud postulou que a tendência de toda matéria viva é voltar a ser inorgânica – princípio do nirvana – numa incorporação de uma perspectiva teleológica errônea, que tomou conta da teoria e da teoria da clínica. O vivo não busca um “estado de zero tensão’ e sim produz homeostase através da alternância da carga e descarga. Essa é uma síntese da postulação reichiana, que rege, com um princípio fundante, sua teoria da clínica, postulação justificada e argumentada na sua obra A Função do Orgasmo.

Casos clínicos apresentados permitem apreender como o “medo de cair” – presente no reflexo de Moro encontrado nos bebês humanos – é posteriormente sequestrado na neurose para apresentar-se como medo de morrer ou ficar louco – perder o controle -, cerne de toda defesa muscular e caracterológica, e surgir como medo das intensidades da vida na categorização reichiana angústia orgástica. A desordem, que através dos seus sintomas melhor evidencia isso é a desordem do pânico.

Os mecanismos de negação, nessa ótica, têm a função de evitar as intensidades emocionais e sensoriais do estar vivo – o que incluiu as intensidades da dor e do sofrimento, mas não se resumem a estas – e não impedir a consciência da finitude. Não é medo da morte, e sim medo da vida, através da onipresença da neurose.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

Uma consideração sobre “A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS”

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