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DENGUE: O MOSQUITO ESTÁ DE VOLTA

Chuvas intensas e a incompetência do poder público no combate à doença abrem caminho para retorno do Aedes Aegypti

O sofá na casa de Caroline Garcia, 21 anos, em Votuporanga, no interior de São Paulo, ficou até aquecido, tamanha a quantidade de horas que a estudante de Direito passou tentando encontrar a melhor posição para o seu corpo, minado pela febre alta, que já havia alcançado picos superiores a 39º C. Diagnosticada com dengue no início do mês, a tarde do dia 2 de fevereiro, quando soube que estava com a doença, foi marcante para a estudante, que passou a ter dores horríveis no corpo. Picada pelo mosquito Aedes aegypti durante uma viagem a Belo Horizonte, no final de janeiro, Caroline faz parte de uma estatística cada vez mais preocupante no Brasil.

CENÁRIO CRÍTICO

Enquanto o temor com a possível chegada do Coronavírus mobiliza a atenção de autoridades, algo que não se confirmou até o momento, os casos de dengue explodiram no Brasil. Segundo dados do Ministério da Saúde, são 94 mil casos somente este ano, o que representa um aumento de 71% em relação ao mesmo período do ano passado. Em 2019, foram registrados mais de 1,5 milhão de casos, com 782 mortes, o que representou uma alta de 488% em relação a 2018. “Alguns fatores justificam o aumento. Em primeiro lugar, não está sendo dada a atenção devida à dengue, em razão da preocupação mundial com a epidemia do novo vírus surgido na China. Não podemos nos descuidar do combate ao Aedes aegypti, ainda mais no verão, quando temos períodos chuvosos”, diz o infectologista Leonardo Weissmann, da Sociedade Brasileira de Infectologia.

A explosão dos casos de dengue, provocada pelas chuvas de verão, demonstra que as autoridades declaram-se incompetentes para resolver o problema, que vai do combate ao mosquito, à limpeza dos logradouros públicos, à vacinação em massa contra a doença. No Brasil, existem quatro tipos de dengue: os sorotipos 1, 2, 3 e 4. Uma das maiores preocupações de médicos e especialistas na endemia é a volta da circulação do sorotipo 2, que estava fora do radar há mais de uma década. “Como não temos imunidade para esse vírus e estamos em uma época favorável para a sua circulação, houve esse surto não combatido pela sociedade”, explica Rodrigo Said, coordenador-geral de Vigilância das Arboriroses do Ministério da Saúde.

Ainda segundo o Ministério, em boletim epidemiológico divulgado no último dia 19, 14 pessoas haviam morrido vítimas da dengue. Esse número, no entanto, pode ser ainda maior. A Secretaria de Saúde de Minas Gerais investiga ao menos dez mortes que podem ter sido causadas pela doença. O Paraná possui 17.500 mil casos confirmados e São Paulo tem mais 19 mil infectados. Se olharmos por região, teremos o seguinte mapa: Norte (5.286), Nordeste (4.899), Sudeste (41.142), Sul (25.588) e Centro-oeste (17.234). Em Votuporanga, cidade de Caroline, mais de 600 casos já foram constatados. “Só na minha turma da faculdade tem umas seis pessoas infectadas”, relata.

ATENÇÃO NA FOLIA

Diante do surto iminente, é preciso intensificar as medidas para diminuir os focos de proliferação do mosquito. O roteiro é conhecido, mas repeti-lo nunca é demais. Evitar acúmulo de água e tampar caixas d’água são algumas das tarefas primordiais. De acordo com Leonardo Weissmann, o poder público não pode arcar sozinho com o problema. A população também tem um dever a cumprir. “É claro que o governo precisa manter as ações de vigilância para combater o Aedes aegypti. Mas vale destacar que esta ação não é exclusiva das autoridades. É necessário que a população faça tudo o que estiver ao seu alcance para combater o mosquito continuamente, não apenas quando há o aumento no número de casos”, aponta. Para diminuir o avanço do mosquito, Rodrigo Said ressalta que governo antecipou campanhas de conscientização e tem visitado os estados para dialogar com gestores estaduais. Além disso, a pasta vai modificar o inseticida utilizado nos últimos anos. O novo produto entra em circulação a partir de março.

O Carnaval também está no radar das autoridades. A aglomeração de pessoas e, em consequência, do lixo, pode ser um fator a mais na batalha contra o aedes aegypti. Em Porto Rico, na região noroeste do Paraná, as festas já foram canceladas. A cidade tem 75 casos confirmados. “O que nós pedimos é que as pessoas tenham atenção com as garrafas plásticas e latinhas. Brinquem o Carnaval com segurança, mas o lixo produzido precisa ter destino correto, para que não haja nenhum acúmulo e os mosquitos se propaguem”, reforça Rodrigo Said. “Além do cuidado com os resíduos, usem e abusem do repelente”, conclui Weissmann.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE ORVALHO PARA A ALMA

DIA 25 DE FEVEREIRO

UMA FAMÍLIA SALVA DA TRAGÉDIA

Disse o SENHOR a Noé: Entra na arca, tu e toda a tua casa… (Genesis 7.1a).

Noé foi um homem justo no meio de uma geração perversa. As pessoas do seu tempo comiam e bebiam, casavam-se e davam-se em casamento, até o dia em que o dilúvio veio e engoliu a todos. Noé creu em Deus quando as pessoas à sua volta simplesmente seguiam a vida sem levar Deus em conta. Não há nenhum mal em comer e beber, casar-se e dar-se em casamento, mas, quando fazemos essas coisas sem pensar em Deus, estamos em sério perigo. A geração de Noé só pensava nas coisas terrenas. Não fazia provisão para as coisas espirituais. Por isso, não ouviu a mensagem de Noé nem se preparou para o encontro com Deus. Noé, ao contrário dessa geração ímpia, levou toda a sua família para a arca. O dilúvio veio e como torrente arrastou a todos para a morte irremediável. A família de Noé estava segura e salva. Alguém já disse, com muita propriedade, que Noé foi o maior evangelista da história; pois, embora não tenha levado nenhum de seus contemporâneos para a arca, conseguiu levar toda a família. A sua família já entrou na arca da salvação? O dinheiro, o sucesso, a fama, os prazeres e os troféus conquistados na terra não podem salvar a família de grandes tragédias. A ciência, a riqueza e a religião não podem salvar a família desse dilúvio de tragédias. Jesus é o único porto seguro para a família. Só nele encontramos refúgio!

GESTÃO E CARREIRA

POR QUE ESTAMOS TÃO ANSIOSOS?

Os brasileiros são o povo com o maior índice de ansiedade do mundo. Descubra como combater esse problema que prejudica o raciocínio, a criatividade e a produtividade – e que, no limite, pode levar ao desenvolvimento de depressão e Burnout

O Brasil é o país mais ansioso do mundo. É o que diz o relatório mais recente da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre transtornos mentais, divulgado em 2017. São mais de 18 milhões de brasileiros convivendo com a ansiedade, o equivalente a 9,3% da população, sendo a maioria mulheres. No mundo, os ansiosos ultrapassam 264 milhões – um aumento de 15% na última década, em boa parte devido ao crescimento e ao envelhecimento da população, mas também às transformações no estilo de vida ao redor do planeta.

Estamos falando aqui do chamado transtorno de ansiedade generalizada, considerado o tipo mais comum de ansiedade. Outros distúrbios são síndrome do pânico, fobia social, estresse pós-traumático e transtorno obsessivo-compulsivo, para citar somente alguns. Cada um deles apresenta suas peculiaridades no que diz respeito a sintomas, tratamentos, prevalência na população e impacto no cotidiano.

Para começar, é importante saber que nem toda ansiedade é uma patologia. Sentir-se apreensivo, naquele “modo expectativa”, que define o estado ansioso antes de uma entrevista de emprego, de um primeiro encontro romântico ou de uma viagem muito desejada é normal e saudável. Essa sensação está prevista no funcionamento cerebral e pode-se dizer que tem efeito protetor: serve de estímulo para a pessoa se preparar. Depois de passado o acontecimento, volta-se ao equilíbrio. “O problema começa quando a resposta ansiosa é desnecessária ou desproporcional, em duração ou intensidade, ao contexto ou evento que está adiante”, diz o médico neurologista Leandro Teles, especialista pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e autor do livro O Cérebro Ansioso.

Ansiedade vira doença, portanto, quando o sujeito vive em estado de alerta permanente, como se algo ruim, importante ou perigoso estivesse prestes a acontecer o tempo todo. No trabalho e na vida, o ansioso tem a sensação de estar sempre devendo alguma coisa, correndo para chegar a algum lugar, para cumprir um prazo ou para bater uma meta. Essa expectativa (também chamada no jargão dos especialistas de “resposta de luta ou fuga”) aciona comandos cerebrais e a liberação de hormônios cortisol e adrenalina. Juntos, eles promovem uma porção de reações físicas (respiração ofegante, coração acelerado, tensão muscular), psíquicas (medo, irritação, vontade de chorar) e cognitivas (dificuldade de raciocínio e concentração), que constituem sintomas bem conhecidos pelos ansiosos (veja o quadro ”Atenção aos sinais”).

Os prejuízos não são apenas para o equilíbrio emocional e para o bem-estar. A descarga de mudanças no organismo desregula os hormônios, a imunidade e o metabolismo. A tensão constante eleva a probabilidade de desenvolver pressão alta, aumento do colesterol, obesidade, insônia, distúrbios alimentares (como anorexia e bulimia) e abuso de álcool, drogas, cigarro e remédios. Além disso, a ansiedade é considerada fator de risco para depressão e Burnout – somadas, as três doenças mentais afetam cerca de 700 milhões de pessoas no mundo, segundo dados da OMS. No limite, a ansiedade pode levar ao suicídio.

UM PROBLEMA, MUITAS CAUSAS

As demandas do mundo Vuca (volátil, incerto, complexo e ambíguo), a velocidade e o volume de informações a que estamos expostos o tempo inteiro, a hiperconexão e o mito da felicidade certamente colaboram para elevar os níveis de ansiedade em muitos lugares do mundo. Vivemos na expectativa da notícia nova, da resposta imediata, do próximo like.

Há que incluir nesse conjunto de fatores, ainda, os conflitos impostos pelo mundo do trabalho: relacionamentos difíceis, pressão por resultados, intolerância ao erro, cargas horárias excessivas, metas inalcançáveis e pouca autonomia. No Brasil, a crise econômica sem previsão para terminar, a radicalização na política, o desemprego que não recua e a realidade social cruel se somam à fórmula que faz de nós o povo mais ansioso do mundo. “Por causa da falta de vagas, dos salários baixos e do custo de vida alto, muita gente precisa acumular empregos e vive com medo de ser demitido, além de exausta. É uma sobrecarga enorme para a saúde mental”, diz Paulo Almeida, professor de liderança e gestão de pessoas na Fundação Dom Cabral.

É verdade que certas profissões são normalmente mais estressantes do que outras, como algumas ligadas às áreas de saúde e segurança. Mas existe também uma espécie de glamourização de comportamentos ansiosos em alguns meios profissionais, o que só contribui para agravar o problema. São pessoas que se gabam (ou, no mínimo, negligenciam os prejuízos) de trabalhar incansavelmente, de fazer mil coisas ao mesmo tempo ou de manter-se produtivas à base de litros de café ou de remédios. Só que isso não funciona no médio e no longo prazo porque esgota a mente, afetando o desempenho e as emoções. “Pense no cérebro como um músculo ou como o motor de um carro: se você o faz trabalhar o tempo todo em intensidade ou velocidade máxima, ele logo entra em colapso”, afirma Leandro Teles. “Para garantir boa performance cognitiva com longevidade, é preciso saber gerenciar o estresse e a ansiedade, e não recorrer a meios para evitá-los.”

IMPACTO NOS NEGÓCIOS

Transtornos mentais como ansiedade e depressão custam à economia global algo em torno de 1 trilhão de dólares por ano em queda de produtividade, de acordo com um levantamento da OMS. Esse prejuízo não se dá só por demissões e absenteísmo. “Cerca de dois terços das perdas vêm da queda no desempenho do funcionário quando está no trabalho, por falta de concentração e dificuldade para tomar decisões”, explica o psiquiatra Wagner Gattaz, presidente do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo e da Gattaz Health & Results, empresa que desenvolve programas de saúde mental para corporações.

Não é à toa que, no Fórum Econômico Mundial de 2019, o bem-estar psicológico foi incluído pela primeira vez no relatório que trata dos fatores de risco à economia global. Isso porque estimativas mostram que os gastos relacionados a doenças emocionais poderão chegar a 6 trilhões de dólares em todo o mundo até 2030 – mais do que a soma das despesas com diabetes, doenças respiratórias e câncer, segundo dados do Fórum. De acordo com o documento, o que vai determinar o crescimento de uma economia baseada no conhecimento, como a do século 21, é a capacidade das empresas ele desenvolver práticas e políticas que ajudem a construir ambientes de trabalho acolhedores e a manter profissionais mentalmente sadios. E equipes equilibradas são um bom negócio: cada dólar gasto em iniciativas de bem-estar mental gera às organizações 4 dólares de retorno em produtividade, segundo estudo da OMS.

QUEBRANDO O TABU

Dados da Secretaria da Previdência do Ministério da Fazenda mostram que a ansiedade é motivo de dois em cada dez afastamentos do emprego por doenças comportamentais (fica atrás apenas de depressão). De 2012 a 2016 houve aumento ele 17% na concessão de auxílio-doença por transtornos de ansiedade. Mas os especialistas acreditam que o número de trabalhadores ansiosos precisando de ajuda seja bem maior. E isso pode ocorrer tanto por subnotificação do empregador (que frequentemente comunica outras causas para a licença), quanto por omissão do empregado.

O estigma em torno das doenças emocionais, aliás, é considerado o principal obstáculo para que ansiedade, depressão e Burnout sejam tratados com seriedade no contexto do trabalho. “O preconceito começa no próprio paciente, que evita compartilhar o drama com colegas e com o chefe porque não quer demonstrar fragilidade e tem medo de ser mandado embora”, diz o psiquiatra Wagner.

Aí é que entra, mais uma vez, a ação das empresas. Uma das principais missões da área de recursos humanos deveria ser justamente a educação emocional de líderes e liderados para que eles consigam falar sobre questões de saúde mental com naturalidade e sem medo de se mostrarem vulneráveis. “Assim eles serão capazes de entender e lidar com o que sentem, ver as coisas como são, sem imaginar cenários que não existem, e negociar demandas e necessidades”, diz Edwiges Parra, psicóloga organizacional, coach executiva e fundadora da E Mind Mente Emocional. Falando em liderança, o modelo de gestão baseado em comando e controle é visto como um dos principais fatores ligados à ansiedade que nascem no trabalho. “O foco em resultado pressiona o funcionário e não dá margem para experimentar, errar, inovar”, diz Paulo, da Fundação Dom Cabral. Os próprios chefes precisam trabalhar autoconhecimento, ferramentas de inteligência emocional, comunicação, empatia e resiliência em nome de fomentar culturas organizacionais positivas. Para o professor, lideranças coletivas, que colocam a gestão da performance sob responsabilidade de todos e tiram o foco do indivíduo, colaboram muito para criar ambientes corporativos seguros psicologicamente.

COMO RETOMAR O EQUILÍBRIO

Ansiedade e outros transtornos psíquicos surgem de uma combinação entre causas genéticas, ambientais e do contexto individual. O primeiro passo para tratar esses problemas é reconhecer que a saúde emocional está pedindo socorro. Daí, é preciso buscar auxílio. “A psicoterapia pode ajudar a identificar comporta mentos-gatilho da ansiedade, a manejar crises e a mudar hábitos”, afirma a psicóloga Edwiges. “Pessoas com personalidade controladora, perfeccionistas, auto exigentes e inflexíveis são mais sensíveis a se tornarem ansiosas e podem trabalhar esses traços na terapia.”

Remédios só devem ser usados com recomendação médica – apenas o especialista pode avaliar a droga mais adequada, assim como a real necessidade de usá-la, a dosagem certa e o momento de interromper ou modificar o tratamento. Mesmo assim, manter na gaveta do trabalho um remedinho para aliviar a ansiedade em momentos críticos ou para aumentar o foco e conseguir trabalhar mais horas sem interrupção parece ter virado algo banal.

Ainda que calmantes e anfetaminas (as drogas mais usadas para esse fim) só possam ser vendidos com receita médica, muita gente burla as regras, pega emprestado do colega, compra de forma clandestina e, com isso, acaba se expondo a riscos para a saúde. “Tomar essas substâncias sem orientação pode gerar dependência e tolerância, que vai fazer com que a pessoa precise de doses cada vez maiores para conseguir o efeito desejado”, diz o psiquiatra Wagner. Além disso, como os medicamentos agem momentaneamente sobre o sintoma, sem tratar o que está causando a ansiedade, recorrer a eles é empurrar o problema com a barriga e permitir que ele escale, levando a prejuízos maiores. E muitas vezes os remédios nem sequer são necessários. Um estudo recente da Faculdade de Enfermagem da Universidade Colúmbia, nos Estados Unidos, concluiu que técnicas de relaxamento como mindfulness, ioga e hipnose usadas no tratamento de pessoas ansiosas podem substituir o uso de pílulas em alguns casos.

No fim, cuidar de si mesmo é a atitude mais importante. Criar momentos para nutrir a autoestima e relaxar é indispensável para retomar o equilíbrio mental. As atividades são variadas e cada um encontra a sua – pode ser ler um livro, fazer pequenas viagens, cozinhar, contemplar a natureza, praticar algum exercício ou simplesmente não fazer nada. O fundamental é achar algo que o ajude a se conectar consigo mesmo e que deixe claro que o trabalho é apenas uma das dimensões da vida. Nem sempre é fácil mexer na agenda, mas empregar esforços e desapegar de costumes nocivos faz parte de se autorresponsabilizar pelo próprio bem-estar. Que tal começar agora?

ATENÇÃO AOS SINAIS

Não existe exame de laboratório capaz de detectar um transtorno de ansiedade. É importante que paciente e médico estejam atentos e preparados para reconhecer os sintomas físicos, cognitivos e emocionais que indicam que há algo fugindo do controle. Mas não basta haver um ou outro indício isoladamente – é o conjunto de sinais, associado à duração e à intensidade deles (se estão presentes a maior parte do tempo e persistem há seis meses ou mais), que determina o diagnóstico preciso. É necessário também considerar o momento de vida do paciente. Mas o mais importante é avaliar o impacto negativo que a avalanche de alterações físicas e psicológicas causa na qualidade de vida da pessoa. “Não há doença psíquica se não houver prejuízo para o rendimento e para o bem-estar do indivíduo afetado e daqueles que o cercam”, avisa o neurologista Leandro Teles. Conheça alguns sintomas comuns da ansiedade.

ESTRESSE, ANSIEDADE E O AMBIENTE CORPORATIVO

O estresse é o principal alimento da ansiedade. Mal gerenciado, ele se acumula e deixa o sujeito em estado de alerta constante, exposto a todos os malefícios à saúde física e emocional. Não dá, portanto, para separá-los totalmente. Entenda como esses males se manifestam no local de trabalho.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A NEGAÇÃO DA VIDA NA NEGAÇÃO DA MORTE

A descrição das características psicológicas encontradas nos vícios e compulsões é importante, contando com a análise reichiana, na qual a dor é secundária, pois a ênfase fica no alívio e prazer, depois a culpa

No século XIX, diante do pouco interesse dos chineses pelos produtos europeus – e estes, por sua vez, compravam dezenas de toneladas de chá dos primeiros -, a Inglaterra passou a comercializar ópio ilegalmente. O ópio era trazido das colônias inglesas na Índia e embarcado em direção à China.

Seu consumo produziu uma verdadeira epidemia, quase levando o Império Chinês à falência, e resultou numa guerra quando a mesma China tentou proibir o uso do produto.

Merece destaque o interesse dos chineses pelo ópio, em contraste com outros produtos frutos da nascente revolução industrial. Os malefícios já eram conhecidos pelo fato de seu uso ter se tornado frequente por grande parte da população. Mesmo assim, prevaleceu a busca dos efeitos inebriantes do ópio – “por favor, minha amiga, transforme em sonhos meus pesadelos”.

Numa pesquisa recente do Levantamento Global de Drogas (Global Drug Survey – GDS), quase 10% dos entrevistados, usuários de maconha, admitiram ficar cerca de 12 horas por dia sob efeito da substância. Ou seja, praticamente o período em que estão acordados. Estarão acordados quando isso está se dando? É uma questão não meramente retórica.

O ângulo abordado é diferente da maneira habitual como a dependência das drogas é tratada, pelo viés da dependência química, que usualmente não se ocupa dos fatores (ligados ao desejo) que levam ao consumo. Não é de se estranhar igualmente que compulsões e vícios estejam listados no título, há um denominador comum presente. Resumidamente: numa desordem conhecida como transtorno de escoriação, as pessoas usam unhas, dentes, pinças etc. para arrancar alguma coisa da pele, como uma espinha ou pelo encravado. Podem passar horas nesse fazer, um fazer compulsivo, que a vontade não consegue deter, ficando às vezes com marcas por todo o corpo e retiradas da vida social. A descrição das características psicológicas frequentemente encontradas é importante, mas sublinho um elemento-chave com sentido especial na ótica reichiana: a dor é secundária, a ênfase fica no alívio e prazer, depois culpa.

Na cleptomania, o “roubar” é compulsivo. Não confundir com furto. Na primeira, o ato é determinado menos pelo objeto subtraído e mais pelo ato em si de subtrair, e isso independe da condição financeira da pessoa. O quadro psicológico também merece atenção, mas novamente o sublinhado é: pacientes relatam sentimentos de tensão que antecedem a realização, seguida posteriormente por sentimentos de satisfação e prazer. Após, vergonha e culpa.

A mesma experiência de tensão pré­ realização, seguida de satisfação. Depois, culpa.

”Algo” que pressiona por descarga e evoca prazer. Satisfação erótica. Num plano simbólico, mas físico, somático também. A culpa que se segue revela o conflito inconsciente envolvido e associado à obtenção de satisfação.

Nem toda experiência de prazer envolve “descarga” de excesso de excitação. Esse primeiro tipo é da ordem do econômico-energético e envolve o que seria chamando de satisfação pulsional num referencial freudiano. Mas há também aquele prazer decorrente da retirada da dor, do desprazer – como o alívio que sente o leão quando o escravo Androcles retira o espinho de sua pata-, ou a evitação dos mesmos, num plano psíquico. A retirada do espinho evoca prazer (pelo alívio), mas não satisfação pulsional.

DESPRAZER

O mecanismo psíquico da negação igualmente não traz satisfação pulsional, mas evita o desprazer. E que papel desempenha a negação no escopo do que examinamos? Veremos que tanto a satisfação erótica quanto a negação têm importância central nos vícios, compulsões e dependências. “Por favor, minha amiga, transforme em sonhos meus pesadelos”. Mas o que são esses pesadelos? Seria impossível descrever o sentido do que é feito numa abordagem reichiana sem primeiro comentar algo sobre a teoria, aquilo que fundamenta as ações e intervenções clínicas. As manifestações do inconsciente são visadas, e isso mesmo numa abordagem clínica em que a corporeidade é vista como constituinte do psiquismo. Há outra complicação: na Psicologia, há centenas de escolas, linhas de trabalho diferentes, baseadas em concepções diversas sobre o que constitui o cerne do psiquismo, da vida emocional. É o contrário do que se passa se procuro, por exemplo, um ortopedista. Posso procurar dezenas de profissionais diferentes que o ponto de partida será sempre o mesmo: os ossos, músculos, ligamentos etc.

Na Psicologia e na Psicanálise o quadro é completamente diferente. Por isso, a importância de uma apresentação inicial. A teoria reichiana inicia-se com a freudiana, mas diferencia-se desta ao englobar a corporeidade no tratamento das questões psíquicas e emocionais. Há o inconsciente e seus subterrâneos, quer dizer, processos mentais extremamente atuantes, mas invisíveis num primeiro momento. E para se chegar ao exame dos “vícios”, na ótica reichiana, será necessário primeiro apontar algumas características desses processos mentais. E, posteriormente, comentar como o ingresso da corporeidade se segue à redefinição de psiquismo como somatopsiquismo.

Um jeito simples de fazer isso é dizer que nossos principais atos, nossas escolhas na vida, nossas simpatias e antipatias têm por detrás a ação de “forças” que ativam a nossa mente nessa ou naquela direção. E, mais ainda, que essa ativação guarda relação com experiências de vida que foram emocionalmente importantes na infância. E “importantes na infância” quer dizer que nosso psiquismo é marcado não só pelo passado – essa definição é parcial, mas suficiente agora -, mas também pela existência ou não de satisfação erógena ligada a elas. Mas o passado é referência apenas. A desordem só se mantém porque há uma permanente atualização econômica, ou seja, as representações se mantêm ativas porque permanecem os investimentos energéticos nestas, no presente.

Pode-se dizer que todo adulto portador de uma neurose ou desordem específica está inconscientemente vivendo algo da sua infância que ficou “complicado”, “inacabado”, mal resolvido. Faz isso sem saber, faz indiretamente. Há fases de desenvolvimento na criança. Essas fases são períodos definidos de tempo, em que a observação permite relacionar as formas como ela, criança, lida com o mundo a sua volta, e a existência de processos internos de desenvolvimento desenrolando-se.

Esses processos são vistos como somatopsíquicos, quer dizer, envolvem zonas específicas do corpo ligadas a modos particulares de funcionamento mental. Para continuar nos exemplos que utilizamos, isso é como dizer que, para uma criança pequena, o mundo é percebido numa referência oral, ou seja, se é bom ou ruim de se colocar na boca. Existem outras fases além da oralidade, e esses períodos, ou fases de desenvolvimento, são entendidos como universais, ou seja, uma experiência necessária de todo ser humano, relativo à espécie.

O “bom ou ruim de se colocar na boca” pode existir como um registro definidor de um alcoolismo ou na “fome de conhecimento”. Um sujeito pode ser marcado pelas experiências da amamentação e depois, quando adulto, reproduzir a busca de satisfação de uma forma sublimada. Esse “registro” por sua vez, pode ter expressão numa boca com músculos endurecidos, cronicamente tensionados, lábios apertados, quando houve uma interrupção abrupta e antecipada da amamentação.

Então, encontramos vários fatores constituintes na descrição do psiquismo: o inconsciente, a relação entre o presente e o passado e o sexual como força atuante. O sexual é a busca no presente de uma satisfação de um impulso ou desejo com marcas do passado representadas no tipo de busca.

DISTÚRBIOS PROMOVIDOS

E os vícios, distúrbios, compulsões? Mencionei os processos inconscientes, há uma finalidade subterrânea buscada, mas a pessoa não sabe disso. Em cada alcoolismo, em cada compulsão, vício, é o que se passa. E não sabe por que outros processos inconscientes, as defesas, estão em ação. Agem no sentido de produzir “esquecimento” daquilo que inicialmente, na história de alguém, foi uma espécie de causa inicial, e essa produção de esquecimento tem uma segunda consequência: o contato com a realidade fica reduzido, alterado, e o contato que a pessoa tem com ela mesma também. Para a neurose e suas desordens existirem, é necessário existir um empobrecimento da consciência. De si mesmo e do mundo em volta.

Mais uma recapitulação dos fatores em jogo: inconsciente, relação passado ­ presente, o erógeno e agora o empobrecimento do contato com si mesmo e a vida. E como no cerne de toda desordem e neurose há um componente infantil, e um modo infantil – infantil do ponto de vista do amadurecimento-, essas desordens sempre revelam, como característica do funcionamento dessas personalidades, uma dificuldade no lidar com a realidade frustrante. Frustrante nos seus anseios e modos de buscar satisfação. O modo infantil definido inclui até a satisfação sexual, que é buscada de forma substituta, como no comer excessivo no lugar de uma relação com uma parceira ou parceiro. Infantil, portanto, é sinônimo de fixação em fases pré – genitais do desenvolvimento psicossexual.

O psiquismo não é apenas um “suco” do cérebro. O corpo, a corporeidade – em especial no fator econômico-energético – constituem igualmente os nossos processos emocionais. Uma pessoa “cabeça-dura” tem, literalmente, uma cervical rígida, não é somente um modo mental de ser. E a abordagem reichiana tem, além das ferramentas de abordagem verbal, na transferência (via a análise do caráter) a possibilidade de reconhecer a configuração corporal que é contraponto da expressão subjetiva da neurose e da desordem e atuar sobre isso. Toda personalidade tem uma configuração corporal, na forma de arranjos musculares, posturais etc. Uma pessoa muito tímida “encolhe-se’ não tem uma expressão corporal do tipo “peito aberto” ou “nariz erguido”.

PROCESSOS CORPORAIS

Trabalhar clinicamente a condição dos vícios, compulsões e desordens inclui de forma especial, portanto, não só romper o circuito onde predominam a busca disfarçada e infantilizada de satisfação de algo que não é atividade ou a concretude da substância ela mesma, mas também os processos corporais emocionalmente significativos envolvidos, ajudando a pessoa a lidar com a realidade da própria existência. Processos corporais mais bem definidos como psicorporais que envolvem, como dito no início, tanto a descarga da estase de energia que alimenta as fixações pré-genitais quanto a manutenção da função defesa do mecanismo de negação.

Se é patente em todos os casos o valor simbólico de um impulso à transgressão, de um ponto de vista psicodinâmico, não menos importante no entendimento dessas desordens é o elemento apresentado na ideia do “ser capaz de lidar com a realidade da própria existência”.

Ernest Becker, na obra The Denial of Death (A Negação da Morte), em síntese, afirma que todas as instituições sociais, atividades laborais, práticas espirituais etc. não passam de tentativas organizadas pela humanidade para distrair-se da inexorabilidade da ideia da morte. Todos se ocupariam para simplesmente evitar essa constatação e, segundo este, a miserabilidade essencial aterrorizante da nossa existência. Noção próxima à de Schopenhauer: “Todas as ordenações do ser humano são de modo a que o traço básico e trágico da vida sem sentido não seja vivido”. Aqui teríamos, eventualmente, a matriz de todo mecanismo inconsciente de negação, a autoconsciência da perspectiva da morte, segundo esse enfoque. Seria esse o pesadelo que se tentaria transformar em sonhos?

A expressão linguística “o mundo lá fora” reflete epistemologicamente, no caso das disciplinas que se ocupam de tentar descrever e definir a consciência e a autoconsciência, o alienamento da noção simples de que nós e nosso psiquismo somos parte do mesmo mundo que incluiu o “lá fora”: Como se fôssemos e estivéssemos fora na natureza.

Freud postulou que a tendência de toda matéria viva é voltar a ser inorgânica – princípio do nirvana – numa incorporação de uma perspectiva teleológica errônea, que tomou conta da teoria e da teoria da clínica. O vivo não busca um “estado de zero tensão’ e sim produz homeostase através da alternância da carga e descarga. Essa é uma síntese da postulação reichiana, que rege, com um princípio fundante, sua teoria da clínica, postulação justificada e argumentada na sua obra A Função do Orgasmo.

Casos clínicos apresentados permitem apreender como o “medo de cair” – presente no reflexo de Moro encontrado nos bebês humanos – é posteriormente sequestrado na neurose para apresentar-se como medo de morrer ou ficar louco – perder o controle -, cerne de toda defesa muscular e caracterológica, e surgir como medo das intensidades da vida na categorização reichiana angústia orgástica. A desordem, que através dos seus sintomas melhor evidencia isso é a desordem do pânico.

Os mecanismos de negação, nessa ótica, têm a função de evitar as intensidades emocionais e sensoriais do estar vivo – o que incluiu as intensidades da dor e do sofrimento, mas não se resumem a estas – e não impedir a consciência da finitude. Não é medo da morte, e sim medo da vida, através da onipresença da neurose.