OUTROS OLHARES

DE COSTAS PARA O PRESENTE

Efeito colateral do avanço do conservadorismo, a ala tradicionalista da Igreja Católica atrai cada vez mais jovens no Brasil

O silêncio sepulcral é quebrado pelo canto gregoriano, entoado solenemente pelos mais de 200 fiéis que acompanham a celebração. Mulheres de saia abaixo dos joelhos cobrem a cabeça com um véu de renda, branco para as solteiras, preto para as casadas. Todos os rapazes usam calça comprida e camisa abotoada. À esquerda, um dos dez vitrais coloridos resume o ambiente: nele se veem uma imagem de São Paulo e a frase “Guardai-vos das novidades”. Assim é a missa de domingo na Capela São Pio X, em plena Vila Mariana, um bairro da Zona Sul de São Paulo. Depois de ficar décadas praticamente relegada à memória dos mais velhos, a missa tridentina (referência ao Concílio de Trento, em meados dos anos 1500, quando o ritual foi consagrado), aquela que é toda celebrada em latim, com o padre de costas para a congregação, está passando por uma ressurreição, atendendo à recente multiplicação do rebanho conservador.

Esse movimento, como outros que reforçam as diversas vertentes do conservadorismo no mundo, tem raízes no burburinho incessante de informações que cria e derruba certezas absolutas a cada segundo e exacerba os ânimos e as inquietações das pessoas. “Quando o futuro parece muito incerto, a volta ao passado tem o apelo de um porto seguro”, diz o cientista das religiões Vinícius Mérida, da PUC-­MG. Em 1990, havia no Brasil inteiro apenas treze paróquias que rezavam missas tridentinas. Hoje, são 133 listadas em um site especializado, fora as muitas que oferecem os dois ritos, o antigo e o atual, dependendo do horário. Recentemente, igrejas no Espírito Santo e em Alagoas começaram a oferecer a celebração em latim como opção, em um repertório misto que se repete em templos instalados em roteiros turísticos como a Igreja São José e o Outeiro da Glória, no Rio de Janeiro, e o Mosteiro de São Bento, em São Paulo — famoso justamente pelo coral gregoriano.

O credo que move os autoproclamados guardiões da doutrina — entre eles, surpreendentemente, uma vasta legião de jovens — é a urgência de evitar o que entendem como o iminente colapso da Igreja Católica. “Desde o Concílio Vaticano II a instituição está envolta na fumaça de Satanás”, acredita o maranhense Thadeu Nunes, de 20 anos, frequentador da missa tridentina de domingo na capela paulistana. O Vaticano II, iniciado pelo papa João XXIII e encerrado em 1969, por Paulo VI, aprovou diretrizes destinadas a modernizar a Igreja, como a chamada “missa nova”.

Desde o Concílio de Trento até exatos cinquenta anos atrás, a missa seguiu uma fórmula absolutamente rígida, sem nenhuma abertura para padres cantores e instrumentos musicais como guitarra e bateria no serviço religioso. O Concílio Vaticano II foi um divisor de águas no catolicismo e criou um racha entre religiosos favoráveis às mudanças (ou conformados com elas) e aqueles que as rechaçaram completamente. Além de mudar os ritos, o concílio flexibilizou o conceito de extra ecclesiam nulla salus — “fora da Igreja (católica, claro) não há salvação” —, aproximando o catolicismo de outras religiões e ganhando dos tradicionalistas acusações de “herético”, “judaizante”, “maçônico” e “comunista”. Os líderes do rebanho que viu na reforma uma afronta sem perdão à fé católica foram o arcebispo francês Marcel Lefebvre e o brasileiro Antônio de Castro Mayer, responsável pela diocese de Campos dos Goytacazes, no Rio. Os dois continuaram a rezar missas tridentinas, indiferentes à exigência de autorização especial de Roma para fazê-lo.

Mesmo excomungados, eles nunca deixaram de ter seguidores, que agora se multiplicam. Em São Paulo, o empresário Paulo Victor Santana, de 22 anos, milita na cartilha tradicionalista. Há duas semanas, compareceu a um encontro de jovens que comungam desse mesmo catecismo na Praça da Sé, no centro de São Paulo, trajando uma camiseta com a frase “Lefebvre tem razão”. Diz ele: “Quando conheci a tradição, tive receio de seguir as ideias de um bispo que chegou a ser excomungado. Hoje, com o paganismo à solta na Igreja e Pachamama no Vaticano, entendo que ele estava certo”. A imagem de Pachamama, deusa amazônica exposta em uma igreja na Itália, foi roubada e atirada no Rio Tibre por grupos ultraconservadores.

Em 2007, o papa Bento XVI, em um afago à linha tradicionalista, revogou a burocracia para a celebração do rito antigo, e ele começou a ser discretamente oferecido em paróquias de regiões mais conservadoras. Aí veio o papa Francisco, falando em dar comunhão a divorciados, respeitar os homossexuais e até — coisa que nunca se viu — permitir padres casados na Amazônia, e as hostes do tradicionalismo se inflaram com a adesão de católicos indignados com os ventos modernistas. “A Igreja não deve se adequar ao tempo. Sua missão é salvar almas. Cada vez que ela se abre a uma novidade, pessoas são condenadas ao inferno”, acredita piamente o estudante de jornalismo Darwin Schmidt, de 21 anos, que rejeita o nome de batismo, do pai da teoria da evolução, e prefere ser chamado de Domenico, em homenagem a São Domingos Sávio.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 23 DE FEVEREIRO

UM HOMEM RESTAURADO POR JESUS

Depois de terem comido, perguntou Jesus a Simão Pedro: Simão, filho de João, amas-me mais do que estes outros? (João 21.15a).

Pedro desfrutou de especial comunhão com Jesus. Em três momentos especiais (transfiguração, ressurreição da filha de Jairo e a vigília no Getsêmani), Pedro fez parte, ao lado de Tiago e João, do grupo mais íntimo de Jesus. Porém, essa estreita relação não impediu Pedro de cair vergonhosamente e negar covardemente a Jesus por três vezes. Pedro chegou a praguejar, afirmando com todas as letras que não conhecia Jesus de Nazaré. O Senhor, então, olhou para Pedro que, arrependido, desatou a chorar. Enquanto Jesus era levado na calada da noite ao Sinédrio para ser julgado, Pedro com o rosto empapuçado de lágrimas saiu correndo pelo meio dos olivais, com a alma coberta de dor. Na manhã seguinte, Jesus foi colocado diante do pretório, julgado e condenado à morte. O Filho de Deus foi levado ao Gólgota e crucificado, mas Pedro nem sequer apareceu por lá. Sentia-se arrasado. Pensou em desistir de tudo. No terceiro dia, Jesus ressuscitou e mandou um recado a Pedro: queria encontrá-lo na Galileia. Pedro retornou à sua terra com o coração apreensivo. Jesus foi ao seu encontro e, longe de humilhá-lo, perguntou-lhe: Simão, filho de João, tu me amas? Pedro responde: Sim, Senhor, tu sabes que te amo (v. 16). Pedro é perdoado, restaurado e reconduzido ao ministério. Raiava um tempo novo em sua vida. Hoje, também, Jesus pode restaurar você. Volte-se para Cristo, arrependido, e encontre nele uma fonte de cura, alegria e liberdade.

GESTÃO E CARREIRA

COLABORATIVOS E EXIGENTES

As características da nova geração de profissionais que está mudando a cultura das empresas brasileiras

Quando falamos sobre gerações no mercado de trabalho, é importante notar que as marcas geracionais brasileiras são diferentes das europeias, americanas e canadenses. A nova geração no país começa a nascer em 1986 e traz consigo características dos Y e Z: foram socializados com a internet e vivenciaram, ainda na adolescência, as redes sociais.

Esses jovens iniciaram a trajetória profissional entre 2009 e 2010 e, naquela época, encontraram empresas totalmente despreparadas para recebê-los. A reação inicial das companhias foi de hostilidade. Apenas depois de algum tempo as empregadoras entenderam que necessitavam desesperadamente desse pessoal, pois o Brasil vivia um momento de grande oferta de vagas e falta de mão de obra.

Nesse mesmo período iniciamos nossa pesquisa As Melhores Empresas para Começar a Carreira, com o objetivo de compreender a relação desses jovens com o mercado de trabalho e de mapear as políticas e práticas das organizações para atraí-los e retê-los. Já são nove anos de análise e três pontos chamam a minha atenção:

*** Nossos respondentes têm de 18 a 26 anos de idade, e ainda não percebemos uma grande mudança geracional. Isso quer dizer que esses profissionais têm visão de mundo e valores semelhantes aos daqueles que ouvimos de 2009 a 2011. Temos indícios de que os que nasceram a partir de 2005 constituirão, estes, sim, uma nova geração. Mas eles só entrarão no mercado de trabalho no início de 2020;

*** Os mais novos dão importância à cooperação ainda mais os que já se conectaram com a inteligência artificial. Esse comportamento é natural para eles, ao passo que minha geração (dos Baby-Boomers) e a Geração X têm dificuldade para isso. Nós fomos educados para competir;

*** Em pesquisas qualitativas, percebemos uma relação de amor e ódio dos X com a nova geração. Amor por perceber que os mais jovens possuem coragem para tomar atitudes que eles nunca tomaram – e ódio exatamente pela mesma razão. Esse sentimento ambíguo estimula os mais velhos a refletir sobre o equilíbrio entre vida pessoal e profissional, algo fundamental para os mais novos. Quando são perguntados sobre o que é trabalho, a maior parte desses funcionários diz que é fonte de satisfação e prazer.

Essa nova geração entrou no mercado em um momento de escassez de talentos, e as organizações foram pressionadas a se ajustar às suas exigências. Esse fato gerou, em algumas empresas analisadas por nós, mudanças culturais, revisão dos parâmetros de contratação e valorização das lideranças. Creio que no início dos anos 20 deste milênio poderemos avaliar o impacto dessa geração obstinada na transformação das organizações.

Desde já, no entanto, eu percebo esses jovens como artífices de um Brasil melhor para todos os cidadãos. Afinal, são pessoas mais predispostas à colaboração, menos tolerantes às inconsistências e à falta de coerência na gestão organizacional e mais exigentes quanto ao espaço para se posicionar nas questões que lhes dizem respeito.

JOEL DUTRA – É professor do departamento de administração da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo e especializado em gestão de pessoas

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DIFERENTES DESDE O NASCIMENTO

Desde a mais tenra idade meninos e meninas comportam-se de forma diversa. Será tudo questão de educação? De jeito nenhum, atestam as mais recentes pesquisas

O pequeno Félix, de 4 anos, quer a pazinha com que Ana, da mesma idade, está brincando. Ele puxa, sacode, dá socos, empurra até que a menina cede e começa a chorar. A professora balança a cabeça – “Esses meninos”. Cenas como essa ocorrem às centenas todos os dias nos jardins de infância, e na maior parte das vezes são os homenzinhos que usam a força. Qual a razão disso? Por que pirralhos de quatro palmos de altura já apresentam esses comportamentos característicos de um papel “masculino”?

Nos últimos 30 ou 40 anos sociólogos, pedagogos e psicólogos colocaram quase sempre a culpa na socialização, isto é, na influência dos modelos que a criança encontra em seu ambiente. Segundo opinião amplamente aceita, pais e adultos em geral inculcam nos pequenos estereótipos usuais de conduta e com isso desde o princípio dirigem seu comportamento segundo os caminhos trilhados no passado.

Assim, o dominante comportamento agressivo dos meninos seria simplesmente produto da educação – uma antecipação das futuras exigências da vida militar ou da sobrevivência no selvagem mundo dos negócios, onde são justamente os homens que dão o tom.

Outros pesquisadores, porém, passaram a questionar essa ideia. O ambiente não é tudo, e talvez nem mesmo o fator principal. “Os homens são por natureza diferentes das mulheres”, afirma a psicóloga Doris Bischof-Kõhler, livre-docente da Universidade Ludwig-Maximilian, em Munique. “Várias diferenças comportamentais tipicamente ligadas ao sexo já se manifestam desde o nascimento.”

Essa conclusão, de fato, já era conhecida desde 1967, quando uma pesquisa conduzida por V. H. Moss demonstrou que os meninos, desde o primeiro ano de vida, são mais impulsivos, mais difíceis de apaziguar e tomados pelas emoções de modo mais rápido. Aos 6 meses de idade já fica evidente que impor a própria vontade é mais relevante para eles do que para as meninas, e são eles que mais frequentemente tomam os brinquedos de outras crianças. Com 1 ano, Ana e suas amiguinhas gostam de brincar com ursinhos e bonecas, enquanto Félix e seus amiguinhos preferem carrinhos e outras máquinas – qualquer coisa que faça algum tipo de movimento. Eles também se interessam mais por coisas proibidas, têm maior tendência a desobedecer a regras e a fazer coisas arriscadas e, a partir dos 3anos, gostam de lutar.

Sempre há exceções, mas as tendências são claramente distintas. As diferenças de comportamento entre os sexos são particularmente notáveis quando se trata de lidar com situações de conflito. Enquanto os meninos desde a idade pré-escolar rápido constroem hierarquias estáveis no grupo ao qual pertencem, tentando evitar os confrontos, o mesmo não ocorre com as meninas. Eles procuram se impor primeiro pela força física, com ameaças e postura autoconfiante. Com isso se tornam, por volta dos 3 ou 4 anos, verdadeiros experts em promover a própria imagem. Elas, ao contrário, raramente recorrem à força corporal, o que não significa, claro, renúncia total à agressividade. Seus métodos, porém, desde a idade pré­escolar são mais sutis: elas empregam, por exemplo, a ameaça de romper a amizade com outras meninas.

Essas diferenças surgidas desde cedo estão também no centro das discussões sobre como alcançar a igualdade de oportunidades entre homens e mulheres. Sociedades como a nossa continuam um baluarte da dominação masculina. É preciso procurar com lupa cargos executivos ocupados por mulheres em grandes empresas. E, mais uma vez, o meio social é considerado a causa única das divergências de comportamento entre os gêneros. Assim, se moças e rapazes se comportam de modo diverso, é apenas porque foram tratados diferentemente desde o nascimento. Em consequência, as discussões sobre igualdade de oportunidades concentram-se sobretudo na questão de como impedir essa injusta influência do meio social. Nos últimos anos, contudo, pesquisadores têm questionado se o ambiente social é a única causa das especificidades de comportamento de cada sexo.

É fato que os pais tratam de forma diferente os filhos e as filhas – isso é bem conhecido e está documentado em muitos estudos científicos. Mas não se fala muito na razão essencial dessa distinção, a saber, que os pais reagem de modo diferente às solicitações feitas por seus rebentos do sexo masculino ou feminino, e isso logo após o nascimento. Os meninos, desde que abrem os olhos, demandam mais atenção, são mais exigentes e, para resumir, mais “difíceis”. As meninas, ao contrário, são em geral mais estáveis emocionalmente, mais tranquilas e procuram mais vezes o contato visual.

Em pouco tempo as crianças também desenvolvem preferências muito nítidas em relação a seus companheiros de folguedos. Com 2 anos as crianças – principalmente os meninos – preferem brincar com o progenitor do mesmo sexo. Os garotos acham mais atraentes as brincadeiras – muitas vezes pouco convencionais e surpreendentes – propostas pelo pai. A partir dessa idade, as crianças são atraídas cada vez mais pelos seus iguais (ou seja, meninos e meninas se separam), e a maioria só se relaciona com alguém do sexo oposto quando é expressamente recomendada a fazê-lo, caso não tenha escolha. Torna-se cada vez mais visível que as brincadeiras de crianças do mesmo sexo as interessam mais, e isso ocorre numa fase do desenvolvimento em que não são sequer capazes de dizer com segurança qual é seu sexo e qual é o outro.

Parece haver, portanto, um germe implantado nas crianças que as leva a buscar diferentes estímulos em seu ambiente de acordo com seu sexo. Mas isso contradiz a opinião mais popular, ainda hoje defendida por muitos pesquisadores, de que suas condutas sejam apenas fruto da aprendizagem e ­ resultado de uma longa socialização. As primeiras dúvidas sobre essa suposição surgiram exatamente de uma experiência feita em jardins-de-infância alternativos em 1968. Naquela época, alguns jovens casais decidiram romper definitivamente com os papéis sexuais tradicionais e as consequentes relações de dominação, proporcionando a seus filhos uma educação não repressiva e neutra quanto à divisão sexual. Acreditava-se então que, nessas circunstâncias, a ação de meninos e meninas logo se igualaria, ou nem mesmo chegaria a se diferenciar. Para isso os pais organizaram seus próprios jardins-de-infância, nos quais os conflitos deveriam ser resolvidos, na medida do possível, sem nenhuma agressão, priorizando a cooperação e a solidariedade. Procurava-se questionar especialmente o exercício dos papéis tradicionais de gênero e, portanto, não se permitia que bonecas fossem exclusivamente para meninas.

Os psicólogos Horst Nickel e Ulrich Schmdit-Denter, então ligados à Universidade de Düsseldorf, Alemanha, simpatizaram com a proposta de educação antiautoritária e quiseram documentar cientificamente em que medida os fins propostos teriam sido alcançados. Com esse objetivo, compararam o desenvolvimento de 400 crianças, de idades entre 3 e 5 anos, das quais uma parte frequentou jardins de infância tradicionais, e outra parte, as escolas alternativas. À primeira vista os resultados confirmaram as expectativas dos pesquisadores, os jogos e as brincadeiras nos jardins de infância alternativos mostraram-se, como se esperava, menos conflituosos. Mas a razão disso, como se verificou, era que as meninas envolvidas em conflito quase sempre davam o braço a torcer e não se defendiam.

Descobriu-se, por fim, que a diferença de comportamento entre os sexos nos jardins de infância alternativos era até mais acentuada – e correspondia melhor aos estereótipos usuais – que nas escolas tradicionais. Os meninos se revelaram mais agressivos, resolvendo frequentemente seus desentendimentos à força. As meninas, ao contrário, mostraram-se em geral retraídas e comportaram-se de forma mais angustiada e dependente que as de instituições convencionais. Só aos 5 anos de idade pareciam ter aprendido a valorizar-se.

Pesquisas subsequentes também falharam na tentativa de mostrar convincentemente que a socialização seja a causa dos comportamentos típicos de cada sexo. Segundo Doris Bischof Kõhler, “durante os primeiros anos de vida da criança, os pais não reforçam os comportamentos ligados aos papéis sexuais tanto quanto seria preciso para explicar só com isso as diferenças”. Isso vale especialmente para os casos de auto­ afirmação e agressividade, em que as diferenças de conduta vão muito além do que se poderia atribuir exclusivamente à influência de adultos.

Experiências semelhantes foram realizadas nos kibutzim israelenses durante o século XX. Um dos seus objetivos era dar a ambos os sexos tratamento equitativo, e liberar as mulheres do encargo da criação dos filhos. Assim, todas as atividades estavam igualmente abertas à participação de homens e mulheres, que inclusive se vestiam do mesmo modo, sendo malvisto o uso de roupas femininas e maquiagem. Em vez de crescerem em uma família tradicional, as crianças dos kibutzim viviam em casas com unitárias e eram cuidadas por pessoas contratadas especialmente para essa função. Com essa educação completamente unissex pretendia-se – assim como nos jardins de infância alternativos alemães – impedir o surgimento dos papéis sexuais preestabelecidos.

PREFERÊNCIAS COSTUMEIRAS

Entre 1956 e 1958, o antropólogo cultural americano Melford E. Spiro investigou mais detalhadamente os efeitos da educação em um kibutz, e surpreendeu-se ao observar que tanto meninos como meninas continuavam a desenvolver as preferências costumeiras para brinquedos “masculinos” ou “femininos”. O que lhe chamou mais a atenção foi que as meninas adoravam brincar de mamãe-e-bebê. O quadro era exatamente o mesmo que nas escolas alternativas alemãs: apesar de toda a doutrina pedagógica oficial, as crianças se comportavam segundo os estereótipos usuais de seu sexo.

Mas Spiro deu um passo a mais: 20 anos depois ele retomou suas anotações e foi visitar as crianças do kibutz, agora adultas. O que mais o interessava era saber o que havia acontecido com as meninas. Teriam elas se tornado mulheres completamente emancipadas, perseguindo os mesmos objetivos que os homens de sua geração e com a mesma tenacidade? Interessavam-se pelas mesmas carreiras e atividades profissionais que eles? Longe disso, o que o pesquisador descobriu foi uma espécie de contra revolução das mulheres criadas no kibutz, a maioria delas adotou conscientemente os papéis e as divisões de tarefas tradicionais. Em vez de insistirem na eliminação das restantes desigualdades e preconceitos, elas exigiam energicamente o direito de cuidar de seus filhos na própria casa, resistindo ao tão propagado ideal de igualdade absoluta.

Como quase todos os seus colegas, Spiro até então acreditava que os papéis sexuais fossem estabelecidos exclusivamente pelas práticas culturais, mas foi forçado a concluir que deveriam existir “fatores determinantes pré-culturais”, ou seja, fatores biológicos que determinavam intrinsecamente o comportamento feminino.

Se as distintas tendências comportamentais dos sexos não são de fato completamente definidas pela educação, mas vêm de berço, elas deveriam, segundo Doris Bischof-Kõhler, ter sentido e utilidade do ponto de vista biológico. Pois, na evolução, só têm chance de estabilizar aquelas disposições comportamentais que dão a seus portadores alguma vantagem no aspecto reprodutivo. Para a psicóloga de Munique, as diferenças sexuais de comportamento são biologicamente muito apropriadas, pois as estratégias reprodutivas de homens e mulheres são distintas.

A mãe, durante os nove meses de gravidez, investe muito mais energia, tempo e riscos em cada descendente do que o pai. Os biólogos falam, nesse caso, de um “investimento parental” essencialmente mais alto por parte das mulheres. A consequência imediata e mais importante é que as mulheres não podem ter tantos descendentes quanto os homens, ao passo que estes, ao contrário, após uma fecundação bem-sucedida, têm pelo menos em principio a possibilidade de olhar em volta e procurar de imediato outra parceira para transmitir seus genes.

Bischof-Kõhler resume assim essa diferença: “Enquanto um homem pode optar por uma estratégia reprodutiva do tipo ‘quanto mais, melhor’, para as mulheres o mais apropriado é a estratégia qualitativa. Para elas é necessário, além disso, investir tempo e dedicação também após o nascimento dos filhos, para dar-lhes o melhor ponto de partida na luta pela sobrevivência. Essa distinção nas estratégias reprodutivas reflete-se também em suas disposições comportamentais gerais, para as mulheres, uma inclinação para a solicitude e o cuidado é de primordial importância, em vista do elevado investimento parental em sua prole; para os homens, ao contrário, a atitude competitiva é particularmente adequada.

Em todas as culturas conhecidas são sobretudo as mulheres que assumem o cuidado das crianças. O que não surpreende: afinal, ao longo dos milhões de anos da história de nossa espécie, a sobrevivência dos recém-nascidos sempre dependeu exclusivamente da atenção e cuidado maternos. É difícil imaginar, portanto, que o ato de cuidar – manifesto quando Ana brinca de mamãe-e bebê, mas não nas corridas de carrinhos de Félix – tivesse de repente se tornado puro produto da educação. Numerosos estudos confirmam que a atividade de cuidado infantil traz para a maioria das mulheres uma profunda satisfação. Isso não é afetado pelo exercício de uma profissão, pois a maioria das mulheres que tem emprego planeja sua vida prevendo um período para criar os filhos.

Há naturalmente outras importantes atividades para o sustento da família que as mulheres costumavam desempenhar em todas as culturas, como a coleta de frutas e de outros suplementos alimentares e a confecção de roupas e utensílios. Hoje a técnica e a industrialização ocuparam esses clássicos domínios de atuação feminina, e com isso elas agora tentam justificadamente ingressar nas ocupações típicas “masculinas”, inevitavelmente competindo com o outro sexo. Que elas – para desgosto dos partidários da emancipação e igualdade de direitos – em geral levem a pior nessa disputa depende, mais uma vez, de tendências comportamentais inatas e, sobretudo, de particularidades das estratégias masculinas.

Essas estratégias também se desenvolveram no curso da evolução e relacionam-se ao investimento mais baixo do pai em sua prole. Se para os homens é biologicamente vantajoso espalhar ao máximo seus genes entre as mulheres, então é também essencial levar a melhor sobre seus concorrentes, já que as parceiras disponíveis para acasalamento são em número bem limitado, exatamente por causa do elevado investimento parental que delas se exige. É em meio a essa constante rivalidade que se desenvolvem, em última análise, as formas características de comportamento masculino que tanto trabalho dão hoje a sociólogos e promotores da igualdade.

Assim, o típico comportamento masculino de impor-se aos demais, manifestado claramente desde a idade pré-escolar, representa apenas o produto de uma história evolutiva em que os homens disputam incessantemente as parceiras sexuais disponíveis. Nessa competição o importante não é aniquilar um eventual rival, ele precisa apenas ser convencido a desistir do favor das fêmeas e submeter-se. Para não chegar a lutar realmente, correndo o risco de ferimentos, os homens se tornaram especialistas no cultivo da própria imagem, o que já é visível mesmo em meninos bem pequenos. Trata-se de impressionar o oponente, desencorajando-o, para que desista de suas pretensões. É a tática utilizada também por vários animais. Nos “duelos rituais” os machos procuram, durante o confronto, intimidar o rival por meio de posturas imponentes e ameaçadoras, evitando ao máximo ter de chegar a um embate para valer. Por isso muitos machos são dotados de apêndices puramente ornamentais para realçar sua aparência, como grandes jubas ou chifres.

Para quem deseja se impor por meio desses recursos, é importante acreditar ser mesmo o melhor candidato, pois a autoestima confere à postura uma forma adicional de convencimento. Com efeito, meninos e homens têm força e habilidades em mais alta conta que as mulheres – beirando muitas vezes a cega supervalorização. Numa pesquisa realizada nos Estados Unidos, durante vários anos, foi pedido a estudantes que fizessem uma previsão das notas que obteriam nos exames de final de semestre. Os meninos, ao contrário das meninas, regularmente previram notas mais altas do que as obtidas, e nenhum dos grupos aprendeu com a experiência a ser mais realista nos semestres subsequentes.

PRAZER NA COMPETIÇÃO

Para os hominídeos primitivos, porém, confiar em si mesmos não era suficiente: eles também precisavam estar muito motivados para disputar incessantemente as fêmeas. A longo prazo, só os que obtêm prazer na competição conseguem ser bem-sucedidos. E hoje isso se reflete não só na predileção dos meninos por brincadeiras de luta: vários estudos confirmam que os homens em geral sentem mais prazer em situações de competitividade valorizam mais as diferenças de status entre os membros do grupo, ao passo que as mulheres tendem a preferir a igualdade e procuram ficar longe da rivalidade.

A competição estimula a iniciativa, mas sua desvantagem é que nem toda disputa por fêmea será bem-sucedida. Aqueles com tendência a se desencorajar facilmente diante do fracasso tiveram pouca chance de chegar ao acasalamento e transmitir essa característica aos descendentes; ou seja, desistiram muito cedo. Mas os outros munidos de uma casca grossa, que continuavam tentando incansavelmente aproximar-se de uma fêmea, tiveram maior possibilidade de passar adiante seu material genético. O resultado foi o aparecimento de uma das mais marcantes características do comportamento competitivo masculino: a capacidade – verdadeiramente assombrosa do ponto de vista feminino – de resistir com obstinação ao insucesso.

Essa peculiaridade é facilmente observável em meninos que brincam tentando apoderar-se de uma bola. Eles se lançam todos ao mesmo tempo, incansável e fortemente motivados, ao objeto do desejo, embora a maioria deles não tenha de fato a menor chance de pôr as mãos nele. As meninas agem de maneira muito mais realista e só se empenham quando a ocasião lhes parece oferecer alguma chance de êxito. Quando, porém, as meninas jogam contra os meninos, essa diferença de comportamento – isto é, o seu próprio realismo – faz com que elas fiquem em desvantagem, e isso apesar de serem tão capazes de apanhar a bola quanto os meninos. Situação semelhante ocorre em relação a habilidades intelectuais, como documentou um estudo da psicóloga Carol Weisfeld, de Chicago, no início dos anos 80, sobre competições em que as crianças devem soletrar palavras. Se um grupo de meninas julgava que seus concorrentes eram mais fortes, os que se apresentavam para dar a resposta eram quase sempre os meninos. Com isso, mais uma vez, as meninas tiveram menos acertos, embora soubessem soletrar melhor.

A constante rivalidade dos machos explica também sua forte tendência a estabelecer hierarquias, pois, sem uma estrutura hierárquica desse tipo, a coesão do grupo ficaria ameaçada. Mas para isso é preciso que o indivíduo esteja naturalmente disposto a submeter-se a alguém mais forte. A hierarquia de dominação aparece entre os meninos já na idade pré-escolar, as relações de poder podem ser estabelecidas pela força, se necessário, mas prefere-se recorrer às posturas ameaçadoras e impositivas. Se alguém percebe não ter chances, subordina-se. Essas estruturas de grupo tipicamente masculinas permitem alcançar o consenso de forma relativamente rápida, e estabelecer cooperação com um antigo rival.

As mulheres, por sua vez, não se submetem de bom grado umas às outras e, por isso, muitas vezes até preferem um chefe homem, como revelaram várias sondagens. As chefes, segundo as entrevistadas, seriam “parciais” e “injustas”, ao passo que as mulheres em cargo de chefia reclamaram da falta de motivação e das exigências desmedidas de suas colaboradoras. Mulheres em grupos exclusivamente femininos têm, portanto, dificuldade em obedecer a uma hierarquia bem definida. Isso não ocorre porque uma chefe tenha menos autoridade pelo fato de ser mulher. Surpreendentemente, os homens aceitam com maior facilidade uma superior do sexo feminino. O que remete mais uma vez à inata disposição masculina de adaptar-se a uma ordem hierárquica estabelecida, que continua valendo também quando o superior é uma mulher.

No grupo feminino, ao contrário, predomina uma “hierarquia de prestígio”. Como as posições elevadas decorrem do reconhecimento pessoal, as mulheres do grupo esforçam-se para conquistar a admiração e a estima das demais. Mas isso torna a hierarquia do grupo instável e permanentemente vulnerável a novos conflitos, pois o reconhecimento não pode ser conquistado de forma definitiva, exigindo esforço contínuo para ser mantido. Isso significa também que a hierarquia do grupo não confere nenhum privilégio, por isso a mulher em posição de comando procura primeiramente, nos casos de conflito, convencer suas subordinadas da correção de seu ponto de vista, em geral por meio de longas discussões – o que não deixa de ser um procedimento mais agradável e civilizado do que aqueles característicos das hierarquias de dominação, muitas vezes sintetizados na fórmula “ordens não se discutem”. Essa última estratégia tem, sem dúvida, suas vantagens quando

é necessário chegar a decisões rápidas em situações de crise, por exemplo. Ao contrário, numa hierarquia feminina, as rodadas de discussões podem estender-se indefinidamente, sem que se chegue a um consenso. Nesses casos não resta à chefe outra alternativa senão emitir uma ordem explícita para descontentamento de suas colaboradoras.

Para Bischof-Kõhler,”uma diferença essencial entre os sexos consiste em que ambos, na verdade, empregam a hierarquia de prestígio, mas só os homens dispõem de uma segunda estrutura efetiva de poder, a hierarquia de dominação, à qual podem recorrer quando necessário”. É claro que essas duas formas de ordenação hierárquica têm vantagens e desvantagens, e a pesquisadora não pretende tecer um juízo de valor. A base da democracia está, sem dúvida, na hierarquia de prestígio, poisos políticos são eleitos em virtude de sua reputação. E quando chegam ao poder podem exercer ilimitadamente esse direito, mas só até a próxima eleição. Os problemas aparecem sobretudo quando homens e mulheres entram em competição direta. Nesse momento os dois sistemas – dominação e prestígio – não têm como se conciliar com os diferentes padrões de comportamento, e a herança filial genética dos homens coloca facilmente a mulher em posição desvantajosa. Quando se diz, portanto, que os homens “passam por cima” das mulheres, isso não tem a ver exclusivamente com o estilo de disputa mais duro dos homens ou sua maior competitividade. Para desestimular as mulheres e levá-las à desistência basta muitas vezes a simples confrontação com a autoestima mais elevada, resistência à derrota e descarada autopromoção dos homens.

Para ilustrar do quanto é capaz a mera resistência ao fracasso, Bischoí-Kõhler apresenta um experimento hipotético. Suponha que cinco homens e cinco mulheres – todos com capacidade equivalente – estejam concorrendo a um cargo executivo. Após uma mulher ter sido escolhida, uma das candidatas preteridas sente-se tão desestimulada que abandona definitivamente os planos relativos à sua carreira profissional. Os homens não se deixam abater tão facilmente. Na seleção seguinte um homem é escolhido, e mais uma vez uma mulher desiste para sempre, de tal modo que restam agora apenas duas mulheres na competição, contra quatro homens. Isso já permite concluir que mais homens que mulheres ocuparão os futuros cargos em disputa, e isso sem que os homens tenham jamais adotado um comportamento abertamente agressivo em relação às suas concorrentes.

É claro que esse é um exemplo fictício, e que muitos homens também desistem no decorrer das maratonas da concorrência. Mas não se tem dado a devida atenção ao importante papel que a menor resistência feminina ao fracasso desempenha no fato de que estejam sub-representadas nas posições profissionais de maior prestígio. Haveria, então, obstáculos biológicos intransponíveis no caminho da igualdade de oportunidades? Podemos aposentar todos os funcionários das agências promotoras de igualdade? Ou será afinal possível corrigir nossa herança filogenética por meio da educação?

O comportamento humano não é determinado de maneira inflexível pela natureza – muito podemos aprender. Mas nossa disposição natural tem um peso que os pesquisadores nas últimas décadas não consideraram com o necessário cuidado, como agora se percebe. Certos comportamentos são mais fáceis para os homens que outros, e certos objetivos dão às mulheres satisfação maior que outros. Seria em princípio possível agirmos contra essas inclinações naturais, mas nesse caso será necessário um grande esforço e dispêndio de energia. E, ao final, poderíamos não nos sentir tão contentes quanto o esperado, pois nosso mecanismo de gratificação interna não corresponde tão bem à situação criada.

Uma coisa, no entanto, está clara, o tão propalado tratamento igualitário como remédio para a discriminação contra as mulheres só funcionaria se meninos e meninas não fossem essencialmente diferentes. Na realidade eles são por natureza tão distintos que o tratamento igualitário se torna contraproducente. Como o exemplo das escolas alternativas alemãs demonstrou, a única coisa que se consegue é um acirramento das disposições características dos sexos.

Pelo mesmo motivo as classes mistas – isto é, a educação em conjunto de meninos e meninas – tampouco conduzem a uma equiparação dos interesses e das oportunidades. Ao contrário, vários estudos mostram que os estudantes em classes mistas adotam com maior vigor as preferências comumente ligadas ao seu sexo. Em comparação com as classes formadas por estudantes de mesmo sexo, é mais frequente os meninos escolherem as especialidades ligadas à matemática e às ciências da Natureza, e as meninas inclinam-se mais pelas áreas da linguagem e das artes. Por outro lado, nas escolas e universidades que mantêm classes separadas, as mulheres desenvolvem maior confiança em suas próprias capacidades, incluindo-se o desempenho no setor das ciências naturais, e depois aspiram a posições de direção com maior frequência que aquelas diplomadas em escolas mistas.

As mulheres devem se impor com maior firmeza na competição com os homens, e os homens devem empenhar-se mais no cuidado das crianças – essas exigências estão hoje muito difundidas e se tornaram quase lugar comum. Mas para que os indivíduos tenham sucesso nessas empreitadas eles devem estar bem conscientes de que impedimentos internos a essas atividades podem estar fundados em nosso substrato biológico, embora não de maneira alguma inflexível. Afinal, diz Bischof-Kõhler,’ aquilo que mais nos distingue como seres humanos é sermos capazes de superar nossas tendências e instintos naturais, e até mesmo extrair disso, em certas circunstâncias, grande satisfação”. Mas para tanto é preciso que homens e mulheres desenvolvam conscientemente aqueles aspectos negligenciados pela Mãe Natureza: no caso dos homens, principalmente o cuidado diário das crianças, e, quanto às mulheres, a resistência ao insucesso e a autoconfiança.