OUTROS OLHARES

A CULTURA EM XEQUE

Como as atuais mudanças nas políticas artísticas do país estão mexendo com a vida dos profissionais que trabalham nesse setor

Nos últimos sete anos, Daniela Mazzilli, de 33 anos, trabalhou com formatação de projetos culturais para editais e leis de incentivo. Nesse período, ela ajudou a aprovar e levantar recursos para mais de 30 produções artísticas. A carreira como produtora cultural ia de vento em popa.

Até o início deste ano, quando dois e-mails mudaram os ventos. O primeiro chegou em janeiro, anunciando que o contrato para desenvolver uma série, iniciado ainda em 2018 havia sido cancelado. O segundo veio três meses depois e informava o cancelamento, por tempo indeterminado, de um importante edital de cinema. “Passamos meses preenchendo formulários e reunindo documentos. Dez dias antes de o processo ser encerrado, o governo anunciou a suspensão”, diz. “A sorte é que trabalhamos com quatro projetos ao mesmo tempo, em diferentes estágios, para haver equilíbrio no cronograma”, diz a gaúcha.

As interrupções abruptas, que pegaram Daniela de surpresa, são consequência da atual crise na Agência Nacional de Cinema (Ancine) – que regulamenta o setor audiovisual no país – e dão o tom do que acontece na área cultural neste momento. Em março, o Tribunal de Contas da União (TCU) questionou a metodologia da prestação de contas da Ancine e ameaçou congelar os recursos do Fundo Setorial do Audiovisual. Em resposta, o atual diretor-presidente, Christian de Castro, suspendeu tudo que estava em andamento, alegando “segurança jurídica”. Ao saber das paralisações de todos os projetos e editais, o TCU convocou o diretor e oito assessores da agência fomentadora para se explicarem. No final de maio, quando esta reportagem foi concluída, o imbróglio seguia, apesar de a Ancine ter anunciado que voltaria a operar normalmente.

Exagero ou não, a confusão tem levado alguns profissionais a comparar o cenário atual ao do governo Collor. Em 1990, no início de seu mandato, o então presidente extinguiu a Embrafilme e o Concine, dois órgãos importantes, causando um apagão no cinema nacional

Daniela e a companheira, Letícia Vieira, sua sócia na produtora Primeira Fila, que fica em Porto Alegre (RS), já estão se preparando para o pior. Como o pró-labore dos próximos meses deve ser menor, elas já reavaliam o orçamento pessoal, revendo custos fixos da casa, por exemplo. “Nossa sensação é que haverá uma onda de cortes. Temos planos até o final deste ano, depois disso não sei se iremos para outras áreas dentro do setor ou se venderemos sanduíche”, diz.

Assim como ela, muitos profissionais que trabalham com arte amargam com a incerteza. Segundo levantamento mais recente da organização sem fins lucrativos que promove o desenvolvimento da indústria do estado do Rio de Janeiro havia 64.863 pessoas empregadas diretamente pela cultura em 2017. Mas o número, de acordo com especialistas, é maior. Isso porque as produções culturais, em geral, são empregos sazonais. “Há uma carência de métricas para esse setor no Brasil. Infelizmente, existem poucos estudos e números que nos ajudem a argumentar a favor”, afirma Ana Paula Souza, doutora em sociologia da cultura pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Áreas como cinema, teatro, dança e artes plásticas começaram a acumular perdas maiores desde janeiro deste ano, quando o presidente Jair Bolsonaro (PSL) extinguiu o Ministério da Cultura e, no lugar, criou o da Cidadania, que concentra Cultura, Esporte e Desenvolvimento Social.

Para Miguel Jost, pesquisador de políticas públicas para a cultura na PUC-Rio, a manobra reduziu a importância da pauta na agenda nacional. Hoje, segundo ele, há uma paralisia nas estruturas responsáveis por fomentar a arte no país. Numa pasta tão ampla, é evidente que a cultura passou a ter menor relevância. Não há informações claras sobre quais são os planos do governo para o segmento. “E isso gera insegurança em toda cadeia produtiva, que envolve desde a costureira que produz os figurinos até os serviços de catering para alimentação de artistas e funcionários

Por duas semanas, procuramos insistentemente tanto o Ministério da Cidadania quanto a Secretaria Especial de Cultura. O intuito era saber quais são os objetivos da pasta para o mercado cultural em 2019. Ao todo, enviamos 20 e-mails e fizemos dezenas de ligações e o secretário especial da Cultura Henrique Medeiros Pires, chegou a agendar uma entrevista, mas depois a cancelou sem justificativa clara. Questionada, a pasta informou que o único autorizado a falar sobre as atividades do setor cultural é o ministro da Cidadania, Osmar Terra. Ele, no entanto, declinou o pedido de entrevista e informou, via assessoria, que falaria numa próxima oportunidade”.

LEI ROUANET NA BERLINDA

O principal movimento de Osmar Terra, até agora, foi reestruturar a Lei de Incentivo à Cultura, conhecida como Lei Rouanet. Criada em 1991, ela permite que empresas direcionem até 4% do imposto devido (6% para pessoas físicas) a projetos culturais. No final de abril, o governo anunciou que reduziria o teto de captação da lei. Se antes artistas e produtores conseguiam levantar até 60 milhões de reais para realizar shows, musicais e exposições, agora o limite é de 1 milhão. O valor que as empresas podem abater também encolheu: de 40 milhões para 10 milhões de reais.

Mexer na mola mestra da indústria cultural brasileira abalou as estruturas do segmento. Sozinha, a Lei Rouanet faz o setor movimentar cerca de 1 bilhão de reais em captação por ano. Um estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV) mostrou que, a cada 1 real investido por meio do mecanismo, pelo menos 1,59 retorna à sociedade em forma de empregos, contratações de serviços e impostos.

As novas medidas furam justificadas em um vídeo publicado pelo ministro Osmar Terra no Twitter em 22 de abril. “Os brasileiros estão cansados de ouvir falar nos abusos da Lei Rouanet. Vamos enfrentar concentração de recursos públicos, disse ele. E concluiu: “Com menos dinheiro, mas melhor distribuídos, teremos muito mais atividades culturais e artistas apoiados”.

A concentração dos recursos em grandes produtores do eixo Rio-São Paulo é, de fato, um problema apontado há anos por estudiosos do sistema. “A Lei de Incentivo à Cultura é um instrumento liberal de mercado. Logo, reproduz a estrutura financeira do país. Quem patrocina musical tem interesse em dialogar com esse tipo de público e não migrará de atividade”, diz Ana Paula, da Unicamp. Na visão dela, o teto de 1 milhão de reais não vai resolver essa assimetria. Se o governo quer apoiar produtores de outras regiões, tem de criar políticas que incentivem a descentralização dos recursos. Caso contrário, o dinheiro continuará nas mãos de poucos.

É por isso que, a princípio, acredita-se que a redução do valor de patrocínio não terá efeito prático para a maior parte dos artistas independentes. Pesquisadores da FGV analisaram todos os projetos financiados pela Lei Rouanet desde 1993 e concluíram que nem 19 deles teve aporte acima de 80.000 reais. Cerca de 90% das iniciativas captaram de 1.000 reais a 10.0000 reais, sendo que a maioria esmagadora dos proponentes não arrecadou nem 1 real. Em 2017, dos 54.000 projetos aprovados pelo extinto Minc, apenas 2.800 alavancaram recursos.

Quem concentra a atenção das companhias, no fundo, são os grandes espetáculos, como os musicais. É esse tipo de atividade que deve ser afetado pelo teto de 1 milhão de reais.

A questão é que esses eventos têm equipes consideráveis e movimentam toda uma gama de profissionais, de figurinistas a maquiadores, passando por músicos e técnicos de som e luz. “Só na cidade de São Paulo, no ano passado, o setor teatral gerou 80.000 empregos diretos. Os impactos são significativos”, diz Gabriel Paiva, presidente da Associação de Produtores Teatrais Independentes (APTl).

O ator, diretor e produtor Bruce Gomlevsky, de 44 anos, já sente a retração dos investimentos na área. Neste semestre, ele teve duas temporadas de peças canceladas: Memórias do Esquecimento, monólogo que dirigia e interpretava, e Um Tartufo, peça também dirigida por ele e inspirada no clássico de Moliere. Os espetáculos, que tratam, respectivamente, da ditadura militar e de conflitos religiosos, seriam sediados por um teatro público da capital carioca, mas o espaço cancelou-os de modo repentino.

Em 2018, Bruce já havia tirado 100.000 reais do próprio bolso para custear as mesmas apresentações. Com 25 anos de experiência nos palcos, diz que só os apaixonados conseguem enfrentar tantos altos e baixos. “Não tenho imóvel próprio e sustento dois filhos. Já me endividei, já paguei os débitos, já juntei e já perdi dinheiro. A vida do artista no Brasil é uma montanha-russa de emoções”. Ele afirma que só consegue pagar as contas porque se desdobra em diversas frentes. “Sou ator, diretor, produtor, compositor, captador de recursos, professor de teatro e tradutor”. Nos últimos quatro anos, Bruce atuou em quatro novelas e duas séries da TV Globo, emissora onde segue contratado para a série de terror Desalma, protagonizada por Claudia Abreu e cuja estreia está prevista para o segundo semestre.

EFEITO CASCATA

Além das mudanças na Lei Rouanet, há outros fatores inquietando os profissionais da cultura, como possibilidade de corte nos repasses ao grupo composto de Sesc, Sesi Senai entre outros.

Pouco antes de assumir o Ministério da Economia, em dezembro, Paulo Guedes disse que era preciso “meter a faca nos sistemas”. Em maio, Jair Bolsonaro deu o primeiro passo rumo à promessa e assinou um decreto que obriga essas entidades a detalhar gastos com salários e serviços prestados à sociedade. Além disso, grandes empresas públicas anunciram contenção em seus programas de marketing cultural. A Petrobras, por exemplo, cancelou o patrocínio de festivais. Outras estatais também reduziram seus investimentos. No final de maio, a Caixa Econômica Federal informou que não manteria o custeio da versão itinerante do Festival de Cinema de Vitória, o tradicional cinema na Praia. A instituição também encerrou a parceria com o consagrado cinema de rua Caixa Belas Arte na capital paulista. O espaço, que possui seis salas, só continuará com as portas abertas porque conseguiu patrocínio da iniciativa privada – cervejaria Petra, do Grupo Petrópolis, fechou contrato de cinco anos para manter o local.

Alegando a necessidade de “rever políticas internas”, os Correios, que já tinham derrubado pela metade o valor dos investimentos em cultura entre 2017 e 2018, não fizeram nenhum aporte na área em 2019. Para piorar, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) pisou no freio. De janeiro a maio, o órgão aportou 25,8 milhões de reais no segmento – valor bem mais baixo que o dos últimos anos. Como comparação, no ano de 2018 o BNDES destinou 858 milhões para atividades artísticas.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 22 DE FEVEREIRO

JOVENS SEM NENHUM DEFEITO

Jovens sem nenhum defeito, de boa aparência, instruídos em toda a sabedoria… (Daniel 1.4a).

Daniel e seus três amigos foram levados cativos para a Babilônia depois de uma invasão truculenta à cidade de Jerusalém. Esses jovens hebreus perderam suas famílias, seus bens e sua independência política. Tornaram-se escravos em terra estranha. Porém, no meio de tanta tragédia, uma oportunidade descortinou-se diante deles. Entre os cativos, Nabucodonosor buscou jovens sem nenhum defeito e selecionou-os para irem ao palácio aprender a língua e a cultura dos caldeus, garantindo-lhes depois emprego no primeiro escalão do governo. Esses jovens comeriam na mesa do rei e beberiam do seu vinho. Mas por trás dessa oportunidade escondia-se uma armadilha mortal. Esses moços precisariam passar por uma aculturação e teriam de banir de sua mente a fé em Deus. Daniel resolveu firmemente no seu coração não se contaminar. Ele não negociou seus valores. Não transigiu com sua consciência. Manteve-se fiel tanto na adversidade quanto na prosperidade. Deus o honrou e tanto ele como seus amigos foram aprovados e distinguidos entre os demais jovens. Você tem sido fiel a Deus na adversidade e na prosperidade? Tem influenciado o meio em que vive? Tem resistido às pressões e seduções? Tem-se mantido fiel mesmo diante dos riscos e das oportunidades? Lembre-se: Deus honra aqueles que o honram!

GESTÃO E CARREIRA

O ALTO PREÇO DA OMISSÃO

Estima-se que 1 trilhão de dólares sejam perdidos em produtividade todos os anos em decorrência da ansiedade e da depressão no trabalho

A depressão e o transtorno de ansiedade fazem parte de uma espécie de epidemia global e afetam fortemente as economias. Estima-se que 1 trilhão de dólares sejam perdidos em produtividade todos os anos em decorrência de ambas as doenças. No Brasil, a Organização Mundial da Saúde calculou que 6% da população sofre com depressão, enquanto 9% têm algum transtorno de ansiedade. Os números correspondem ao triplo da média global.

Mesmo assim, poucas empresas brasileiras criaram medidas para amenizar a ocorrência desses problemas. Um estudo da consultoria americana Mercer Marsh, realizado em 11 países da América Latina, aponta que apenas 21% das companhias brasileiras mantêm políticas ou programas para cuidar da saúde mental dos funcionários. Na região, três países ultrapassam esse percentual: Colômbia (45%), Porto Rico (35%) e México (22%).

A maioria das empresas ainda se concentra em fazer apenas o básico para a identificação dos problemas: o foco está nas avaliações psicológicas obrigatórias por lei e nas realizadas nos processos de seleção de pessoal. Medidas preventivas, como pareceres periódicos (5%), continuam sendo raras.

“De cada dez atestados médicos de afastamento, cinco são relacionados a doenças psicoemocionais. Mesmo assim, as empresas que cuidam da saúde mental dos funcionários são minoria”, diz Antonietta Medeiros, superintendente de gestão de saúde da Mercer Marsh Benefícios.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

MEMÓRIAS ESTRESSADAS

Um pouco de agitação pode até fortalecer a memória. Mas, depois de uma situação prolongada de stress, o cenário mental já não é tão satisfatório

O primeiro beijo. O casamento. O dia em que o carro saiu do controle na estrada e passou raspando pelo caminhão. Onde você estava quando houve uma inundação, quando Kennedy foi assassinado, durante o ataque de 11 de setembro de 2001. Cada detalhe desses eventos marcantes é gravado a fogo na sua mente, ainda que você não consiga se lembrar de absolutamente nada do que aconteceu nas últimas 24 horas. Ocasiões excitantes, emocionantes e grandiosas, inclusive as estressantes são arquivadas facilmente. O stress pode melhorar a memória.

Todos nós também já passamos pela experiência oposta quando estamos estressados. Na primeira vez em que encontrei a família da minha futura esposa, estava com um nervosismo dos diabos; durante um jogo de palavras terrivelmente disputado depois do jantar, pus a perder a liderança da equipe composta por mim mesmo e por minha futura sogra com a total incapacidade, num momento crítico, de lembrar a palavra “caçarola”. Alguns casos de falha da memória estão ligados a traumas infinitamente maiores: o veterano que passou por alguma catástrofe de batalha impronunciável, alguém que sofreu abuso sexual na infância – para quem os detalhes se perdem numa névoa amnésica. O stress pode atrapalhar a memória.

Para pesquisadores que estudam o fenômeno como eu, essa dicotomia é bastante familiar. O stress melhora algumas funções em certas circunstâncias e as atrapalha em outras. Pesquisas recentes mostram como situações estressantes leves ou moderadas melhoram a cognição e a memória, enquanto as fortes ou prolongadas prejudicam essas capacidades.

Para entender como o stress afeta a memória, vamos a alguns dados básicos sobre como as memórias são formadas (consolidadas), como são recordadas e como podem desaparecer.

A memória não é monolítica, pode ter vários “sabores”. Uma dicotomia particularmente importante é a entre memórias de curto e longo prazo. Com a primeira, você lê um número de telefone, corre pela sala antes de esquecê-lo e martela os dígitos. Depois o número se perde para sempre. Já a memória de longo prazo é a que você usa para se lembrar do que comeu no jantar de ontem, quantos netos tem ou onde fez a faculdade.

Outra distinção importante é entre memória explícita (também conhecida como declarativa) e implícita (que inclui um subtipo importante, a chamada memória processual), memória explícita se refere a fatos e eventos, ao lado de sua percepção consciente de sabê-los: sou um mamífero, hoje é segunda-feira, meu dentista tem sobrancelhas grossas.

Já as memórias implícitas processuais têm a ver com habilidades e hábitos, com fazer coisas mesmo sem ter de pensar conscientemente nelas: mudar as marchas do carro, andar de bicicleta, dançar foxtrote. Com prática suficiente, essas memórias podem ser transferidas entre as formas explícita e implícita de armazenamento.

Assim como existem diferentes tipos de memória, áreas distintas do cérebro estão envolvidas no armazenamento e na recuperação de informações. Um dos lugares críticos é o córtex, a enorme superfície cheia de circunvoluções do cérebro. Outro é a região espremida logo abaixo de parte do córtex, o hipocampo. Se quiser uma metáfora computacional totalmente simplista, pense no córtex como seu disco rígido, onde as memórias são guardadas, e no hipocampo como seu teclado, o meio que você usa para distribuir e acessar as memórias. Finalmente, estruturas do cérebro que regulam os movimentos do corpo, como o cerebelo, também estão envolvidas na memória implícita processual.

Agora, vamos aumentar a ampliação do nosso microscópio e examinar o que acontece no nível dos conjuntos de neurônios dentro do córtex e do hipocampo. O que sabemos é armazenado nos padrões de excitação de vastos conjuntos de neurônios – no jargão da moda, “redes” neuronais. Tiramos partido dessas redes convergentes sempre que tentamos recordar uma memória que está na ponta da língua. Imagine que você esteja tentando lembrar o nome de um pintor, aquele cara, qual é o nome dele? “Era aquele cara baixinho com barba (ativando suas redes ‘cara baixinho’ e ‘cara com barba’). Ele pintou aquele monte de dançarinas parisienses; não era o Degas (mais duas redes entram no jogo). Ah, lembra daquela vezem que eu estava no museu e tinha aquela gata que eu estava tentando paquerar na frente de um dos quadros dele… como era mesmo aquele trocadilho tonto sobre o nome do cara, aquele do nó no treco?”. Com redes eficientes funcionando, você finalmente chega ao único fato que é a intersecção de todas elas, Toulouse-Lautrec.

SINAPSES COMPLEXAS

Hoje, os neurocientistas consideram que tanto a aquisição quanto o armazenamento das memórias envolve o “fortalecimento” de algumas redes em detrimento de outras. Para observar como isso ocorre, vamos aumentar ainda mais a ampliação, para visualizar os espaços minúsculos entre os ramos tortuosos dos neurônios, as chamadas sinapses. Quando um neurônio quer transmitir alguma fofoca sensacional, quando uma onda de excitação elétrica atravessa essa célula nervosa, desencadeia-se a liberação de mensageiros químicos – neurotransmissores -, que flutuam através da sinapse e excitam o neurônio seguinte. Existem dezenas, provavelmente centenas de tipos de neurotransmissor e as sinapses do hipocampo e do córtex fazem uso desproporcional do que provavelmente é o neurotransmissor mais excitatório, o glutamato.

As sinapses “glutamérgicas” têm duas propriedades essenciais para a memória. Primeiro, sua função é não-linear. Numa sinapse comum, um pouco de neurotransmissor do primeiro neurônio faz com que o segundo fique um pouco excitado, se um pouquinho mais de neurotransmissor ficar disponível, um pouquinho mais de excitação ocorre, e assim por diante. Nas sinapses glutamérgicas, certa quantidade de glutamato é liberada, e nada acontece. Uma quantidade maior é liberada, e ainda assim nada acontece. Mas, quando determinado limiar é ultrapassado, abrem-se as comportas do segundo neurônio, e o que se segue é uma onda maciça de excitação. É essa onda que se torna essencial para o aprendizado.

A segunda característica é ainda mais importante. Nas condições adequadas, quando uma sinapse tem uma quantidade suficiente de experiências superexcitatórias causadas pelo glutamato, ela se torna mais excitável permanentemente.  Essa sinapse acabou de aprender algo, ou seja, foi “potencializada” ou fortalecida. Daí em diante, basta um sinal mais sutil para recordar uma memória. Agora, podemos ver o que acontece quando o sistema reage ao stress.

O primeiro ponto, claro, é que o stress leve ou moderado melhora a memória. Trata-se do tipo de stress ótimo que nós chamaríamos de “estimulação” – ajuda a nos sentirmos alertas e focados. Larry Cahill e James McCaugh, da Universidade da Califórnia em Irvine, fizeram um teste particularmente elegante nessa seara. Pessoas que ouviam uma história com uma passagem particularmente emocionante se lembravam mais dos componentes emocionais da trama do que as que ouviam uma história uniformemente desinteressante. O estudo também indicou como esse efeito atua sobre a memória. O sistema nervoso simpático entra em ação, despejando epinefrina e norepinefrina na corrente sanguínea. A estimulação simpática parece ser essencial, porque quando Cahill e McCaugh deram aos pacientes uma droga que detém a ativação do sistema (o bloqueador beta propanolol, medicamento usado para baixar a pressão), o grupo não se lembrou mais da história mais animada do que o grupo controle se lembrava da sua. Não é que o propanolol impeça a formação de memórias. Na verdade, a droga atrapalha a formação de memórias auxiliada pelo stress. Em outras palavras, as pessoas se lembravam das partes chatas da história tão bem quando os controles, mas não obtinham o aumento da memória proporcionado pela parte emocionante.

O sistema nervoso simpático leva o hipocampo indiretamente a um estado mais alerta e ativo, o qual, por sua vez, facilita a consolidação das memórias. Isso envolve uma área do cérebro que também é essencial para entender a ansiedade, a amígdala. O sistema nervoso simpático também faz com que as necessidades energéticas de potencialização dos neurônios sejam satisfeitas mobilizando glicose na corrente sanguínea e aumentado a força com que o sangue é bombeado para o cérebro. Um grupo importante de hormônios liberados em resposta ao stress é o dos glicocorticoides. Secretados pela glândula adrenal, eles muitas vezes agem como sua prima mais famosa, a epinefrina (também conhecida como adrenalina). Ela age em segundos; os glicocorticoides apoiam essa atividade ao longo de minutos ou horas.

De fato, uma elevação leve dos níveis de glicocorticoides facilita o processo pelo qual as sinapses do córtex e do hipocampo se tornam mais sensíveis aos sinais do glutamato, a potencialização de longo prazo que é a base do aprendizado.

Uma elevação desse nível também facilita a potencialização de longo prazo no hipocampo. Finalmente, há alguns mecanismos obscuros pelos quais o stress moderado, de curto prazo, torna os receptores sensoriais mais sensíveis. Papilas gustativas, receptores olfativos e células nucleares do ouvido exigem menos estimulação, sob stress moderado, para ficar excitados e transmitir informação para o cérebro.

Agora, podemos ver como a formação e a recuperação de memórias podem ficar desajustadas quando os fatores de stress são grandes ou prolongados. Vários estudos com ratos de laboratório – usando diferentes fontes de stress, como restrição, choque e exposição ao odor de um gato – mostraram declínio na memória explícita. Um déficit parecido surge quando doses elevadas de glicocorticoides são administradas a ratos. Outros aspectos da função cerebral, como a memória implícita continuam bem.

EFEITOS DO STRESS

O quadro é bastante parecido em humanos. Problemas com a memória explícita aparecem em pacientes que sofrem de uma doença chamada de síndrome de Cushing, na qual rumores geram a secreção de toneladas de glicocorticoides. O tratamento prolongado com a versão sintética dessas moléculas, que muitas vezes é dada a pessoas que precisam controlar doenças inflamatórias ou autoimunes, resulta também em problemas com a memória explícita. A evidência mais clara disso é que apenas alguns dias de doses altas de glicocorticoides sintéticos bastam para afetar a memória explícita em voluntários sadios.

Como o stress prolongado atrapalha a memória dependente do hipocampo? Uma hierarquia de efeitos foi demonstrada em animais de laboratório.

Primeiro, os neurônios do hipocampo expostos a níveis altos de glicocorticoides não funcionam mais tão bem. O stress pode afetar a potenciação de longo prazo nessa região cerebral, mesmo na ausência de glicocorticoides (como num rato em que as glândulas adrenais tinham sido removidas). A excitação excessiva do sistema nervoso simpático parece responsável por esse efeito.

Em meados dos anos 80, Ron de Kloet, da Universidade de Utrecht, Holanda, descobriu os mecanismos por trás dos problemas causados pelos níveis elevados de glicocorticoides. O hipocampo tem grandes quantidades de dois tipos de receptores para essas substâncias. O interessante é que o hormônio se liga com dez vezes mais facilidade a um desses tipos (o chamado “receptor de grande afinidade”) do que ao outro. Se os níveis de glicocorticoide subirem só um pouco, a maior parte do efeito hormonal sobre o hipocampo é mediada por esse receptor de grande afinidade. Entretanto, o hormônio liberado durante um evento muito estressante ativa muitos receptores de baixa afinidade. E, logicamente, o que acontece é que a ativação do receptor de grande afinidade melhora a potencialização de longo prazo, enquanto o outro receptor faz o oposto.

Na segunda posição da hierarquia de efeitos, durante eventos muito estressantes a amígdala envia uma projeção neural grande e influente para o hipocampo. A ativação dessa cascata celular parece ser um pré-requisito para que o stress atrapalhe as funções do hipocampo. Basta destruir a amígdala de um rato ou cortar suas conexões com o hipocampo para que o stress não dificulte mais o tipo de memória que o hipocampo media, mesmo em níveis altos de glicocorticoide.

As redes neurais no hipocampo também começam a se desconectar. Bruce S. McEwen, da Universidade Rockefeller, mostrou que, em ratos, depois de poucas semanas de stress ou exposição a glicocorticoides excessivos, os cabos de comunicação celulares conhecidos como dendritos começam a afinar, atrofiar e se retrair. Por sorte, parece que, no fim desse período, os neurônios conseguem recuperar essas conexões. As memórias não são perdidas, só se tornam mais difíceis de acessar.

O stress prolongado inibe o nascimento de novos neurônios no hipocampo, um dos dois únicos locais onde, segundo descobertas recentes, essas células ainda nascem no organismo adulto. Quando o stress cessa, a neurogênese se recupera e, se sim, com que rapidez? Ninguém sabe. E qual a importância de o stress impedir a neurogênese adulta? A questão implícita nessa pergunta é a utilidade da neurogênese adulta. Ainda não há um veredicto sobre isso também.

Se os neurônios do hipocampo sofrem um trauma (como um derrame ou ataque), o stress pode torna-los mais suscetíveis à morte. Depois de cerca de 30 minutos de stress contínuo, a chegada de glicose ao local não é mais aumentada e volta aos níveis normais. Se o fator estressante se mantiver, a chegada de glicose ao cérebro é inibida. Meu laboratório e outros mostraram que os problemas de energia relativamente leves causados por essa inibição fazem com que se torne mais difícil para um neurônio deter as milhares de coisas que dão errado durante os traumas neurológicos.

Finalmente, alguns estudos parecem sugerir que os glicocorticoides e o stress podem até matar neurônios diretamente, embora os resultados sejam preliminares e controversos.

Esses achados têm implicações perturbadoras. Cerca de 16 milhões de receitas médicas de glicocorticoides são prescritas por ano nos EUA. Boa parte do uso é benigno – um pouco de pomada de hidrocortisona para alergia, uma injeção da mesma substância para um joelho inchado, inalação de esteroides para asma. Mas centenas de milhares de pessoas tomam doses altas de glicocorticoides para suprimir o sistema imunológico em doenças autoimunes (como Aids, lúpus, esclerose múltipla ou artrite reumatoide). Então, será que deveríamos evitar o uso de glicocorticoides contra essas doenças para contornar a possibilidade de envelhecimento acelerado do hipocampo mais tarde? É quase certo que não: essas doenças muitas vezes são devastadoras, e os glicocorticoides conseguem trata-las com eficiência. E provavelmente os problemas de memória sejam um efeito colateral sombrio e inevitável.

DESPERDICIO DE ENERGIA

Os neurologistas também usam versões sintéticas dos glicocorticoides (hidrocortisona, dexametasona ou prednisona) para reduzir o inchaço do cérebro depois de um derrame. Essas substâncias fazem maravilhas ao bloquear o edema que surge depois de um tumor cerebral, mas parece que elas não ajudam muito os edemas pós-derrame. Pior ainda, há evidências crescentes de que esses famosos anti-inflamatórios podem, na verdade, ser pró-inflamatórios em certas lesões cerebrais. Uma implicação ainda mais perturbadora desses achados é que o que consideramos níveis comuns de dano cerebral depois de um derrame ou uma convulsão são, na verdade, piorados pela liberação natural de glicocorticoides, como parte das respostas do corpo ao stress nessas situações.

Veja como tudo isso é bizarro e pouco adaptativo. Um leão persegue você, e seu corpo secreta glicocorticoides, cujo efeito primário sobre o metabolismo geral é transferir energia para seus músculos da coxa e melhorar a corrida: bela tática. Marque um encontro com uma desconhecida, fique nervoso, e você secretará glicocorticoides que transferem energia, provavelmente ierrelevante, para seus músculos da coxa. Tenha um derrame sério, faça a mesma coisa – e seu dano cerebral se agravará ainda mais.

Como essas respostas pouco adaptativas surgiram? A explicação mais provável é que o corpo simplesmente não evoluiu a tendência para não secretar glicocorticoides durante uma crise neurológica. O processo funciona mais ou menos do mesmo jeito em todos os mamíferos, pássaros e peixes, e foi só no último meio século que as versões ocidentalizadas de uma única dessas espécies tiveram alguma chance de sobreviver a eventos como um derrame. Simplesmente não houve muita pressão evolutiva para que a resposta do corpo a lesões neurológicas maciças se tornasse mais lógica.

Não faz mais que 50 ou 60 anos que consideramos que úlceras, pressão sanguínea ou a vida sexual são sensíveis ao stress. Também reconhecemos hoje as maneiras pelas quais o stress interfere em nosso aprendizado e memória. O famoso “neurocientista” Woody Allen disse uma vez: “Meu cérebro é meu segundo órgão favorito”. Acho que a maioria de nós colocaria o cérebro numa posição ainda melhor.