OUTROS OLHARES

UMA VIAGEM FUTURISTA AO PASSADO

Novas tecnologias transformam a velha tática de envelhecer atores em filmes, com um resultado impressionante

Em Projeto Gemini, filme de ficção cientifica em cartaz nos cinemas, o personagem de Will Smith, de 51 anos, luta contra um clone de 23 anos. No filme Capitã Marvel, Samuel L. Jackson, de 70 anos, na pele do herói Nick Fury, surge em flashbacks ambientados no passado, muito mais jovem. Em O irlandês, superprodução de Martin Scorsese que estreará no final de novembro na Netflix, o trio Robert De Niro, de 76 anos, AI Pacino, de 79, e Joe Pesci, de 76, relembra os tempos de juventude. Em comum, os três filmes viajam para o passado com a ajuda do que há de mais avançado em termos de computação gráfica.

No passado, os produtores normalmente usavam um dublê jovem para imitar as expressões faciais do ator mais velho. Depois, a equipe de efeitos visuais manipulava digitalmente seu rosto até alcançar algo parecido com o do astro de verdade. No caso de Capitã Marvel, cuja trama é ambientada nos anos 1990, o caminho foi inverso. Jackson atuou em todas às cenas sem ajuda de um modelo. Em seguida, sua aparência foi rejuvenescida no computador. Segundo os produtores, ajudou o fato de o veterano ter mantido a pele jovial ao longo dos anos. Já em Projeto Gemini, o clone jovem que o assassino de elite interpretado por Smith precisa enfrentar foi criado inteiramente por computação gráfica. O que vemos na tela é uma animação hiper­ realista – não muito distante do que foi feito em Final Fantasy (2001), primeiro longa de animação a criar personagens semelhantes a seres humanos de verdade. Em Projeto Gemini, no entanto, houve um trabalho muito mais atento a detalhes como os poros e a textura da pele, além do branco dos olhos. A interpretação desse ator “de mentirinha” foi moldada a partir de um estudo minucioso das emoções de Smith, o que foi possível graças a uma tecnologia conhecida como “captura de movimento”, na qual um capacete instalado na cabeça do astro registra cada detalhe de suas feições, que depois são transferidas para o personagem animado.

Mas, dos três lançamentos, O irlandês é considerado o mais inovador. Na trama, o mafioso Frank Sheeran (Robert De Niro) começa a relembrar os eventos que o fizeram entrar na vida do crime. Trata-se de um épico que atravessa várias décadas, começando nos anos 1950. Os atores não vestiram capacete, nem marcas – pontos de referência usados pela captura de movimento para determinar o relevo da pele – foram pintadas em seu rosto. “O maior problema (dos capacetes e das marcas) é a iluminação. Você precisa iluminar bem os rostos, senão as câmeras não leem as marcas. Então inventamos algo jamais usado antes”, explicou Pablo Helman, supervisor da empresa Industrial Light & Magic, ao site lndieWire. Os produtores de O irlandês, então, deixaram os atores livres para atuar no set, sem carregar nenhum aparato na cabeça. Câmeras chamadas “testemunhas” ajudaram a filmar, a partir de vários ângulos, a geometria de seus rostos, que na pós-produção foram rejuvenescidos por computação gráfica dependendo da década em que cada cena é ambientada. O resultado é tão impactante que, em entrevista à revista britânica Sight & Sound, uma das publicações de cinema mais respeitadas do mundo, Scorsese chegou a afirmar que a maquiagem poderá, um dia, ser completamente substituída por reparos digitais.

Para o diretor americano, o espectador tem plena consciência de quando está diante de maquiagem excessiva, por mais bem-feita que seja. “Existe alma em O homem elefante (1980), porque o ator John Hurt era ótimo, mas eu sabia que ele estava sob muita maquiagem. Eu tinha de me deixar levar pela ilusão do cinema”, afirmou Scorsese, referindo-se ao clássico de David Lynch sobre um homem que tem o rosto desfigurado. Scorsese acredita que o rejuvenescimento por meio de efeitos visuais representa um “outro nível” de ilusão, já que não interfere tanto na interpretação dos atores e está cada vez mais realista. Parte da crítica especializada não apenas duvida que isso acontecerá tão cedo como também aponta imperfeições no rosto dos atores quando jovens no próprio filme de Scorsese, que teria cenas cujos efeitos de computador ficaram claros.

“Não tenho tanta certeza de que um dia os efeitos visuais vão atingir o nível de realismo necessário para substituir a maquiagem”, observou o mexicano Martin Macias Trujillo, que se consolidou no Brasil como um dos maiores caracterizadores e maquiadores do cinema nacional, tendo vencido seis troféus no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro – equivalente nacional ao óscar – por filmes como Casa de areia (2005), Tropa de elite (2007) e Getúlio (2014). Trujillo elegeu Casa de areia como um de seus trabalhos mais desafiadores. No drama de Andrucha Waddington, Fernanda Montenegro e Fernanda Torres interpretam mãe e filha ao longo de várias gerações. Na última cena, Montenegro contracena com ela própria – uma é a filha vinda da cidade; a outra, sua progenitora que nunca saiu do deserto. “É a mesma atriz, mas rejuvenesci uma delas. O cabelo de uma precisava ser mais urbano, a unha também era pintada. A outra tinha mais rugas e uma pinta na boca”, lembrou o caracterizador. “A maquiagem é uma arte complexa e linda, mas pode virar um problema quando é espessa demais, o que limita as expressões faciais do ator. De qualquer forma, estamos avançando nesse sentido. Para viver Winston Churchill em O destino de uma nação (2017), Gary Oldman usou uma grande prótese. E a atuação dele seguiu intacta.”

Para Anna Van Steen, que trabalha como caracterizadora no cinema desde os anos 1980 e tem no currículo obras como Cidade de Deus (2002), Carandiru (2003), Elis (2016) e Bingo: o rei das manhãs (2017), a computação gráfica pode andar de mãos dadas com a maquiagem, como uma espécie de “retoque” extra. Em As horas, por exemplo, retoques digitais foram aplicados na prótese nasal usada por Nicole Kidman para viver a escritora Virginia Woolf. Mas a função do maquiador, disse Van Steen, dificilmente será extinta, por causa de particularidades de cada produção. Outros desafios de ordem prática são custo e tempo.  Estúdios de Hollywood injetam milhões e milhões de dólares em efeitos especiais – luxo que o Brasil muitas vezes não tem.

O irlandês foi rodado com um orçamento astronômico de mais de US$ 160 milhões, enquanto a pós-produção se prolongou por mais de um ano. Paulo Barcellos Jr., da O2 Filmes, acredita que a tecnologia será mais acessível – e rápida – no futuro. “Sem dúvida a maquiagem digital pode substituir a tradicional”, disse Barcellos Jr., que utilizou a técnica em Chico Xavier (2010), no qual Ângelo Antônio vive o médium entre as décadas de 1930 e 1960. “A técnica tende a baratear. Temos recebido cada vez mais pedidos nesse sentido. Atualmente temos dois filmes em pós-produção utilizando a ferramenta.” Uma evidência de como as tecnologias de manipulação digital vêm se desenvolvendo numa velocidade impressionante está na web, mais precisamente no deepfake, prática em que usuários na internet inserem imagens do rosto de celebridades em vídeos de outras pessoas, geralmente em contextos absurdos. Se há dois anos o recurso tinha um resultado tosco, hoje é possível confundir o falso com o real. E, como diz Scorsese, no cinema, o fake que engana é ouro.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 20 DE FEVEREIRO

A FELICIDADE COMO RESULTADO DO QUE EVITAMOS

Pois quem quer amar a vida e ver dias felizes refreie a língua do mal e evite que os seus lábios falem dolosamente (1Pedro 3.10).

A felicidade é resultado daquilo que evitamos e não apenas daquilo que fazemos. O Salmo 1 assim inicia o saltério: Bem-aventurado o homem que não anda no conselho dos ímpios, não se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores. Há três progressões neste versículo. A primeira é: andar, deter-se e assentar-se. A segunda é: conselho, caminho e roda. A terceira é: ímpios, pecadores e escarnecedores. Somos felizes na proporção em que fugimos de determinados lugares, recusamos determinadas propostas e nos afastamos de determinadas pessoas. Frequentar lugares errados, viver de acordo com padrões errados e andar na companhia de pessoas erradas formam o caminho mais rápido para a infelicidade. A felicidade consiste na coragem de rompermos com determinadas amizades, dizermos um sonoro não a determinadas propostas e fugirmos de determinados lugares. Quando deixamos de fazer essas coisas, somos felizes, muito felizes. Esse conceito está na contramão do hedonismo contemporâneo. A mídia tenta influenciar-nos dizendo que a felicidade é a iguaria mais deliciosa servida no banquete do pecado, mas esses aperitivos, embora doces ao paladar, são amargos no estômago; embora proporcionem instantes de prazer, acarretam tormentos eternos.

GESTÃO E CARREIRA

SEM LERO-LERO

Empresas estão investindo cada vez mais em diversidade. Mas, para que haja resultados efetivos, é necessário ir além de comitês e grupos de discussão

Investindo em inclusão há quatro anos, a Basf, multinacional alemã do setor químico eleita uma das Melhores Empresas para Começar a Carreira, percebeu que tinha de tomar um rumo pragmático se quisesse abrir – de fato – espaço ao diferente. Como as discussões de gênero já estavam amadurecidas, a organização deu protagonismo ao grupo de afinidade de raça, chamado internamente de BIG (abreviação em inglês para Black lnclusion Group). “Entendemos que tínhamos de acelerar o processo. Se esperássemos a inclusão acontecer de forma natural, isso levaria anos”, diz Luciana Amaro, vice-presidente de RH da Basf para a América do Sul. Para começar, a instituição determinou que 100% dos contratados no programa de estágio de 2018 seriam negros. Para recrutar esses 12 estudantes, firmou uma parceria com a Faculdade Zumbi dos Palmares, instituição de ensino superior localizada em São Paulo com corpo discente majoritariamente negro. E mais: para garantir um processo seletivo realmente diverso, definiu que 50% dos candidatos devem pertencer a grupos minoritários e 50% dos recrutadores também. “Não adianta ter a diversidade de um lado e do outro apenas homens brancos entrevistando”, explica Luciana.

O programa de estágio, com duração de dois anos, ofereceu aos jovens negros mentoria, aulas de inglês, cafés da manhã com a liderança e apoio do grupo de raça da Basf. Além disso, ao longo de 2019, foram realizados os chamados BIG Talks, nove palestras abertas com historiadores que falaram com funcionários e público geral sobre história e cultura negra, escravidão no Brasil e estereótipos.

Atitudes concretas como as da Basf são fundamentais para tirar as ideias de inclusão do papel e mudar as estatísticas nas planilhas de Excel. Dados de 2018 do IBGE, divulgados em novembro, mostram que negros e pardos representavam 64% da população desocupada e 66% da subutilizada. Na informalidade, a situação é a mesma: enquanto 35% dos trabalhadores brancos estavam em ocupações informais, o percentual era de 47% entre negros e pardos. Já o rendimento médio mensal das pessoas brancas ocupadas, de 2.796 reais, foi quase 74% superior ao das negras – de 1.608 reais. Esses números deixam claro que, enquanto as ações se limitarem a discussões herméticas e atividades esporádicas em datas comemorativas, o mundo corporativo não vencerá o estigma da homogeneidade nos quadros profissionais. Para Ricardo Sales, sócio fundador da consultoria Mais Diversidade, o que mais atravanca o avanço na inclusão dentro das companhias é a resistência para falar sobre preconceito. Por isso, segundo ele, o primeiro passo é assumir que o problema existe no Brasil. O segundo é pensar em como promover a multiplicidade de talentos em três momentos estratégicos: atração, desenvolvimento e manutenção. “As empresas têm dificuldade de atrair mulheres em áreas majoritariamente masculinas, de desenvolver PCDs e de promover negros”, afirma o especialista. Segundo ele, saber onde buscar esses profissionais – tal qual fez a Basf ao recorrer à Faculdade Zumbi dos Palmares – é essencial. Outro ponto importante para que a estratégia de diversidade atinja resultados é conquistar o apoio da liderança.

Sem que os chefes estejam comprometidos com a causa, dificilmente a organização conseguirá empregados de diferentes origens. Na petroquímica Braskem, 700 gestores passaram recentemente por treinamentos sobre privilégios, vieses inconscientes e barreiras ocultas que certos grupos enfrentam no mercado de trabalho. “Nosso setor é muito masculino. Além de conscientizar os líderes, fizemos um diagnóstico para entender quais eram os pontos críticos. A partir daí, começamos a mudar as coisas: construímos mais de 70 banheiros femininos, fizemos salas de amamentação em todas as unidades, produzimos uniformes para mulheres e criamos vagas de estacionamento para gestantes”, diz Debora Gepp, responsável pelo programa de Diversidade & Inclusão da empresa. Hoje, 22% dos funcionários são mulheres, sendo que 28% dos cargos de liderança são femininos. Em 2020, a meta é aumentar o índice para 30%.

Para alinhar o discurso à prática, a Braskem passou a investir em programas sociais voltados para o público feminino. Lançou o Empreendedoras Braskem, programa de capacitação para fomentar a participação de mulheres nos negócios, e fez um trabalho com professores da rede pública sobre combate da violência contra a mulher em Camaçari, polo industrial da Bahia.

EFICÁCIA COMPROVADA

Engana-se quem pensa que os resultados do investimento em diversidade demoram a aparecer. Na empresa de tecnologia KingHost, com sede em Porto Alegre (RS), as iniciativas de inclusão começaram esporadicamente em 2016 e se fortaleceram no final de 2018, após a criação de um comitê. “Sempre tivemos uma cultura aberta, mas percebemos que existem muitos preconceitos que estão na cultura brasileira e gaúcha. Então, começamos a nos questionar se não deveríamos gerar mais consciência interna sobre o tema”, afirma Caren Cazorla, coordenadora de RH da empresa. Além de realizar campanhas pontuais uma vez por mês, a companhia passou a organizar o Café Filosófico, roda de conversa com palestras sobre preconceitos, vieses inconscientes, expressões racistas, entre outros temas. “Neste ano, trabalhamos o fomento do debate e nos posicionamos como uma companhia que defende a diversidade.” Ciente de que não adianta ficar só no lero-lero, a KingHost colocou a diversidade como parte do planejamento estratégico, com envolvimento do CEO. De acordo com Joel Dutra, vice­ coordenador do curso de MBA de recursos humanos da Fundação Instituto de Administração (FIA) e coordenador metodológico deste Guia, tratar abertamente o assunto traz benefícios comprovados para as corporações, que passam a oferecer produtos melhores quando há pessoas de realidades diversas atuando. “Não é uma questão ideológica ou politicamente correta, é algo pragmático. Se a empresa não se esforçar nessa direção, terá limitações no futuro”, avalia. Levantamento feito pela McKinsey & Company em janeiro de 2018 mostra que incluir diferentes grupos dentro das companhias impacta diretamente na lucratividade: corporações com diversidade étnica são 33% mais rentáveis, enquanto as com diversidade de gênero têm performance financeira 21% maior do que as demais. Além disso, ter a inclusão como pauta prioritária é uma excelente forma de atrair e engajar as novas gerações. Segundo um estudo da Deloitte de 2018, a diversidade é palavra de ordem para a geração Z, dos nascidos a partir de meados dos anos 90. Em suma, além de turbinar o desempenho dos negócios, a diversidade acaba sendo um diferencial competitivo. Isso porque essa novíssima geração, que está saindo da universidade, não enxerga o trabalho apenas como uma fonte de renda, mas, sim, como uma chance de fazer a diferença e tornar o mundo um lugar melhor.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SOMOS O QUE TEMOS

Por que lutamos por novas compras mesmo depois de alcançarmos um padrão de vida confortável

Em 1859, cerca de 450 passageiros do Royal Charter, que voltava das minas de ouro da Austrália para Liverpool, afogaram-se quando o veleiro naufragou na costa norte do País de Gales. Entre incontáveis outros desastres marítimos, essa tragédia é notável porque muitos daqueles a bordo afundaram por causa do peso do ouro em suas carteiras, que não queriam abandonar tão perto de casa. Os humanos têm uma obsessão por suas posses especialmente forte e, às vezes, irracional. Todo ano, donos de carros são assassinados ou seriamente feridos ao tentar impedir o roubo de seus veículos – uma escolha que poucos fariam se parassem para pensar racionalmente. É como se existisse um demônio em nossa mente que nos obriga a nos preocuparmos com as coisas que possuímos e nos leva a fazer escolhas de vida arriscadas em busca da riqueza material.

Acho que estamos possuídos. É claro que o materialismo e a aquisição de riqueza são incentivos poderosos. A maioria das pessoas concordaria com a frase atribuída à atriz Mae West: “Já fui rica e já fui pobre. Acredite, ser rica é melhor”. Mas chega um momento em que alcançamos um padrão de vida confortável e, ainda assim, continuamos a lutar por mais coisas. Por quê?

É comum gostarmos de ostentar nossa riqueza por meio de posses. Em 1899, o economista Thorstein Veblen observou que colheres de prata eram os marcadores da posição social da elite. Ele cunhou a expressão “consumo conspícuo” para descrever a disposição das pessoas em comprar bens mais caros em vez de bens – equivalentes em função – mais baratos. A razão seria sinalizar status para os outros. A biologia evolutiva tem uma explicação para isso.

A maioria dos animais compete para se reproduzir. No entanto, rechaçar concorrentes traz consigo o risco de ferimento ou morte. Uma estratégia alternativa é anunciar como somos bons para que o outro sexo escolha acasalar conosco em vez de com nossos rivais. Muitos animais desenvolveram atributos que indicam sua adequação enquanto parceiros potenciais: plumagens coloridas, chifres requintados ou comportamentos ostentosos, como os rituais de acasalamento complicados e delicados que se tornaram marcadores da “teoria dos sinais” – ou “teoria da sinalização”. Por causa da divisão desigual de trabalho em se tratando de reprodução, essa teoria explica por que são os machos que normalmente têm o visual e o comportamento mais chamativos em comparação com as fêmeas. Esses atributos custam caro, mas devem valer a pena, porque a seleção natural teria se desfeito de tais adaptações caso não houvesse benefícios.

Tais vantagens incluem a robustez genética. A teoria da sinalização “custosa” explica por que esses atributos aparentemente dispendiosos são marcadores confiáveis de outras qualidades desejáveis. O garoto-propaganda da sinalização custosa é o pavão, dono de uma cauda em leque elaborada e colorida que evoluiu para sinalizar a pavoas que ele possui os melhores genes. A cauda é um apêndice tão ridículo que, em 1860, Charles Darwin escreveu: “Tenho nojo só de olhar uma pena da cauda de um pavão”. A razão de sua repulsa era porque essa cauda não é otimizada para a sobrevivência. É muito pesada, cultivá-la e mantê-la requer muita energia e, assim como um grande vestido armado da era vitoriana, ela é incômoda e pouco aerodinâmica, o que não garante movimentos eficientes. No entanto, mesmo que demonstrações de pesadas plumagens possam indicar uma desvantagem sob algumas circunstâncias, também sinalizam uma proeza genética, pois os genes responsáveis pelas lindas caudas também são aqueles associados a melhores sistemas imunológicos. Tanto o ser humano “macho” quanto o ser humano “fêmea” desenvolveram atributos físicos que indicam aptidão biológica, mas, com nossa capacidade para a tecnologia, também podemos demonstrar nossas vantagens por meio de posses materiais. Os mais ricos entre nós têm maior probabilidade de viver por mais tempo, geram mais filhos e estão mais preparados para resistir às adversidades que a vida nos impõe. Sentimos atração por riqueza. É mais provável que um motorista frustrado buzine para um carro velho do que para um carro esportivo caro, e pessoas que vestem orna­ mentos de riqueza – como roupas de marca – são mais bem tratadas por outros, além de atraírem um maior número de parceiros. Embora ter coisas sinalize um potencial reprodutivo, a riqueza também traz uma razão pessoal muito poderosa – um argumento feito por Adam Smith, o pai da economia moderna, quando ele escreveu, em 1759: “Um rico se glorifica em sua riqueza porque acredita que ela naturalmente atrai para ele a atenção do mundo”. A riqueza material não só nos garante uma vida mais confortável, como nos traz satisfação ao percebermos a admiração de outros. A riqueza faz bem. Compras luxuosas ativam os centros de prazer de nosso cérebro. Se você acha que está bebendo um vinho caro, ele se torna mais gostoso, e o sistema de avaliação do cérebro associado à experiência do prazer demonstra uma ativação maior, em comparação com a experiência de beber o mesmo vinho quando você acha que ele é barato. Sobretudo, nós somos o que temos. Mais de 100 anos depois de Smith, William James escreveu sobre como nosso “eu” era, além de nosso corpo e nossa mente, tudo aquilo que poderíamos reivindicar como nosso, incluindo a propriedade material. Mais tarde, isso seria desenvolvido no conceito da “extensão do eu” do guru do marketing Russell W. Belk, que argumentou, em 1988, que desde muito novos usamos a propriedade e as posses como uma maneira de formar nossa identidade e estabelecer nosso status. Talvez isso explique por que “Meu!” seja uma das palavras comumente usadas por crianças e por que mais de 80% dos conflitos em creches e parquinhos tenham a ver com a posse de brinquedos.

Com a idade (e advogados), desenvolvemos maneiras mais sofisticadas de resolver disputas de propriedade, mas a conexão emocional com nossas posses como uma extensão de nossa identidade permanece. Por exemplo, um dos fenômenos psicológicos mais robustos da economia comportamental é o “efeito posse” ou “dotação”, relatado pela primeira vez em 1991, por Richard Thaler, Daniel Kahneman e Jack Knetsch. Há várias versões desse efeito, mas a mais convincente é provavelmente a observação de que damos igual valor a bens idênticos (por exemplo, canecas) até que um vire uma posse. A partir disso, o dono ou a dona crê que sua caneca vale mais do que um comprador em potencial está disposto a pagar. O interessante é que esse efeito é mais acentuado em culturas que promovem um auto­ entendimento mais independente comparado com aquelas que promovem noções mais interdependentes do eu. Novamente, isso vai ao encontro do conceito de extensão do eu no qual somos definidos exclusivamente por aquilo que temos.

Normalmente, o efeito posse começa a aparecer em crianças de 6 ou 7 anos de idade, mas em 2016 meus colegas e eu demonstramos que você pode induzir isso em crianças mais novas se você as leva a pensar em si a partir de uma manipulação simples de um retrato fotográfico. O que é extraordinário é que o efeito posse não tem força na tribo hadza, da Tanzânia, um dos últimos grupos de caçadores-coletores restantes, para quem a propriedade tende a ser comunitária, além de exercer uma política de “compartilhamento por demanda” – se você tem e eu preciso, então dê para mim.

Belk também reconheceu que as posses que vemos como as mais indicativas de nós mesmos são aquelas que consideramos como as mais mágicas. São os objetos sentimentais insubstituíveis e muitas vezes associados a alguma propriedade ou essência intangível que define sua autenticidade. Originada da noção de forma de Platão, a essência é o que confere identidade. O essencialismo está desenfreado na psicologia humana conforme imbuímos o mundo físico com essa propriedade metafísica. Isso explica por que atribuímos um valor maior a obras de arte originais do que a suas cópias idênticas ou indistinguíveis; por que carregaríamos alegremente a biografia de Adolf Hitler, detalhando suas atrocidades, mas sentiríamos repulsa ao carregar seu livro de receitas, que não menciona seus crimes. O essencialismo é a qualidade que torna sua aliança de casamento algo insubstituível. Nem todo mundo reconhece o próprio essencialismo, mas ele está na raiz de algumas das mais amargas disputas de propriedade – quando elas se tornam sagradas e parte de nossa identidade. Dessa maneira, as posses não só sinalizam quem nós somos para outros, como também nos lembram de quem somos para nós mesmos e reiteram a necessidade do autêntico num mundo cada vez mais digital.