OUTROS OLHARES

CASEM-SE, POR FAVOR

O Japão, país que abriga a população mais idosa do planeta, arranjou um jeito de estimular o nascimento de bebês: criou apps oficiais no estilo do Tinder para incentivar as uniões

Governos cuidam de economia, segurança, educação, saúde e, no Japão, dedicam-se ainda a uma função insólita: estimular casamentos. Parece estranho, mas é só o começo. Na Terra do Sol Nascente, 43 das 47 prefeituras lançaram aplicativos de paquera no estilo do Tinder para facilitar encontros. Se os usuários derem match (para usar o termo comumente empregado nessas redes), podem acabar no altar. O que move o Estado nessa direção é uma constatação que tem deixado os japoneses preocupados, como se o rastilho de uma bomba estivesse aceso – em 2019, pelo sexto ano consecutivo, houve queda nos registros de casórios. Pouco mais de 580.000 foram selados em 2018, o menor índice desde a ll Guerra. Por que o governo se incomoda tanto com isso? A demografia tem a resposta: menos uniões significam menos bebês, o que, para uma nação que vem perdendo meio milhão de habitantes por ano e concentra o maior porcentual de idosos do planeta (eles representam um terço da população), é um terremoto com potência para abalar os planos de crescimento do país.

A busca por uma cara-metade na internet ganhou até nome: konkatsu, uma variação de shukatsu, a procura por emprego. Embora os pioneiros aplicativos tenham surgido há dez anos, apenas agora se disseminaram e se sofisticaram, dando conta de juntar gente que vive em todo o território. Esse é, aliás, um objetivo declarado desses apps, que miram atenuar o desequilíbrio entre homens e mulheres em um pontilhado de cidades de menor porte. “Nesses lugares, os homens ficam para perpetuar os negócios da família em atividades como a agricultura, enquanto as mulheres, sem oportunidades, migram para os grandes centros atrás de trabalho”, diz o sociólogo Hiroshi Onu, da Universidade Hitotsubashi. Esse unmatch (ou desencontro, para sair do jargão) está na raiz do esvaziamento de regiões inteiras, onde a população encolhe 1% ao ano. Em certos vilarejos ninguém tem menos de 70 anos e imperam as chamadas “ruas das venezianas”. Como as lojas não abrem, elas estão sempre fechadas.

O Japão conserva uma tradição milenar de casamentos arranjados, intermediados por alguém de respeito na comunidade que examina o passado das famílias do noivo e da noiva e seu status social (o do homem deve ser superior ao da mulher). Essa prática, que já não se vê em cidades grandes como Tóquio e Osaka, está rareando também no campo – e é aí que entram os aplicativos, versão moderna, digamos assim, do bom e velho casamenteiro. “Esperamos que as pessoas entrem no aplicativo e decidam morar e casar-se em Akita”, diz Rumiko Saito, do Centro de Suporte ao Casamento (eis o nome do departamento) do município, que fica no norte do país.

Mas algumas tradições muito anteriores à internet e mais ainda ao Tinder persistem e contribuem para que os jovens adiem a troca de alianças – ou mesmo desistam do anel. “O homem se sente obrigado a desempenhar o papel de provedor do lar e, como os salários estão achatados, muitos não se veem aptos para o casamento”, observa Kumiko Namoto, especialista em gênero da Universidade de Kioto. Já as mulheres têm fugido do altar para evitar um destino que lhes soa incontornável: viver limitadas às tarefas domésticas. Houve outro momento na história japonesa em que o governo deu um empurrãozinho (ou seria pressão?) aos pombinhos: “Deem à luz e multipliquem-se pela nação” era o slogan de uma campanha que visava reanimar as taxas de natalidade, derrubadas pela II Guerra. Naquela época não havia o peso das arrepiantes projeções de hoje – a população nipônica deve diminuir de 126 para 95 milhões em cinquenta anos, quando quatro de cada dez cidadãos terão passado da barreira dos 60 anos.

Todo esse caldo demográfico começa a entornar sobre a economia, que se ressente da falta de braços e cérebros. Não existe hoje no Japão gente em número suficiente para preencher as vagas de emprego, e o país (outra tradição) nunca foi afeito à ideia de abrir suas portas à imigração. O governo até elaborou um pacote de medidas para suavizar o batente dos casais com um bebê: a ideia é ampliar o número de creches e fazer uma reforma nas regras trabalhistas, de modo a que fiquem mais amigáveis para os que têm filhos. Quem sabe mais pessoas não se animam? Por ora, o Japão encabeça a tendência mundial de queda da natalidade – a média atual é de 1,4 nascimento por mulher, abaixo da chamada taxa de reposição de duas crianças por casal, necessária para que a população não mingue. Daí a função de cupido dos governantes, que ainda organizam tours para a zona rural com o propósito declarado de elevar as chances de encontros amorosos. Feito isso, é cruzar os dedinhos e torcer por um match.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 19 DE FEVEREIRO

A OVELHA ENCONTRADA

Achando-a, põe-na sobre os ombros, cheio de júbilo (Lucas 15.5).

Na parábola da centésima ovelha, o pastor procurou, encontrou e festejou a recuperação da ovelha perdida. Ao encontrar a ovelha, não a esmagou com seu cajado, mas a tomou em seus braços. Não a mandou embora por ter criado problemas, mas a carregou no colo. Não se aborreceu com o preço do resgate, mas festejou com os amigos a recuperação da ovelha perdida. Precisamos não apenas ir buscar a centésima ovelha, mas também nos alegrar com sua restauração. Há festa nos céus por um pecador que se arrepende. A igreja é lugar de vida e restauração. A igreja é lugar de cura e perdão. A igreja é lugar de aceitação e reconciliação. Não basta nos alegrarmos com as ovelhas que estão em segurança no aprisco; devemos buscar a centésima ovelha que se dispersou. Jesus foi ao encontro de Pedro depois de sua queda para lhe restaurar a alma. Nós, de igual modo, devemos ir buscar aqueles que outrora estiveram conosco e hoje estão distantes. Essas pessoas devem ser alvo da nossa oração e do nosso cuidado pastoral. Não devemos descansar até vê-las restauradas por Deus e integradas ao seu rebanho.

GESTÃO E CARREIRA

MUSICA: O DIGITAL DÁ LUCRO

Pela primeira vez, os serviços de streaming de música vão alcançar 1 bilhão de ouvintes no mundo. E seu crescimento deve fazer a indústria fonográfica dobrar de tamanho na próxima década. É uma virada e tanto para um setor que antes estava em declínio

Até o fim dos anos 2000, a imagem da indústria da música era a de mercado em decadência. As vendas de álbuns – o pilar de seu modelo de negócios – haviam perdido o sentido depois do surgimento da música digital, distribuída e compartilhada pela internet (muitas vezes ilegalmente). Naquela época, poucos investidores em sã consciência colocariam suas fichas nesse segmento apostando numa recuperação. Passados mais de dez anos, o que se vê é exatamente o oposto. A receita da indústria fonográfica não apenas parou de cair como vem crescendo num ritmo que não era visto havia muito tempo. No ano passado, as vendas globais do setor somaram 19 bilhões de dólares – quase 10% mais do que em 2017 – e a tendência é de crescimento.

Até os analistas do mercado mudaram de ideia. Neste ano, o banco Goldman Sachs revisou sua previsão e agora estima que a indústria musical terá um faturamento de 45 bilhões de dólares em 2030, mais do que o dobro do atual.

A virada é puxada pelo crescimento dos aplicativos de música por streaming, que oferecem um amplo acervo pelo preço de um único álbum por mês. Enquanto as vendas de CDS continuaram caindo, o faturamento com os serviços de streaming explodiu nos últimos anos e chegou a 9 bilhões de dólares em 2018, quase a metade do total. Segundo um estudo recente da consultoria de mercado alemã Statista, ainda em 2019, pela primeira vez o mercado de streaming de música deverá alcançar 1 bilhão de ouvintes, entre assinantes e pessoas que acessam os serviços gratuitamente. É um marco para um setor que vendeu míseros 52 milhões de CDs em 2018 nos Estados Unidos, 94% menos do que os 943 milhões comercializados em 2000, segundo a associação americana que representa o setor, a Riaa.

Fundada em 2008, a empresa sueca Spotify é a grande expoente e a líder entre os serviços de música. Ela está presente em 79 países e parte do segredo de seu sucesso é o modelo de negócios que mistura assinaturas, que permitem fazer o download e acessar um acervo de mais de 50 milhões de músicas, e receitas com publicidade, veiculada para os ouvintes que preferem não pagar. Os planos custam cerca de 20 reais. A empresa não para de crescer. No terceiro trimestre de 2019, o número global de usuários chegou a 248 milhões, 30% mais do que um ano antes. Dessa base, 113 milhões são assinantes – pouco menos do que os 158 milhões de clientes do serviço de vídeos da Netflix. Os resultados financeiros do Spotify acompanharam a multiplicação dos ouvintes. O faturamento foi de 1,9 bilhão de dólares no terceiro trimestre, um aumento anual de 28%. O lucro também subiu, chegando a 490 milhões no trimestre. “Além de ter um vasto acervo musical, investimos em podcasts como forma de diferenciar. Já são mais de 500.000 programas”, afirma Mia Nygren, diretora­ geral do Spotify para a América Latina.

Grandes empresas de tecnologia também estão de olho em uma fatia do bilionário mercado de música. A Amazon e a Apple têm aplicativos de música online. O Apple Music foi lançado em 2015 e tem 60 milhões de usuários graças à força da marca e do mais de 1 bilhão de iPhones em uso no mundo. Já a Amazon oferece acesso ao Amazon Music para os clientes do programa de fidelidade, o Prime. O plano de benefícios, que chegou ao Brasil em outubro, também inclui um serviço de vídeo e vantagens como frete grátis. O acervo da Amazon é pequeno perto das rivais, com 2 milhões de músicas. Por isso, a empresa tem um segundo app, mais caro, com uma biblioteca musical parecida com a do Spotify. Para Matteo Ceurvels, analista de pesquisa da consultoria eMarketer para América Latina, o crescimento dos aplicativos de música acompanha a tendência dos serviços de vídeo, puxada pela Netflix. “Com o surgimento de grandes plataformas, como o Spotify, as empresas digitalizaram um amplo acervo e recomendam músicas que o usuário tem boa chance de gostar de ouvir. Vivemos hoje uma ascensão do mercado de música via internet”, diz Ceurvels.

DIRETO AO REFRÃO

A dominância do streaming no setor musical causou impacto até na forma de compor as canções. Elas têm ficado mais curtas. Cada vez que alguém ouve uma música, é gerado um valor pequeno, inferior a 1 centavo de dólar, para gravadoras e artistas. Uma música precisa de milhões de reproduções para ser lucrativa. Por isso, as músicas pop perderam as introduções longas. A banda irlandesa U2 adaptou-se ao novo modelo. Na música Where Streets Have no Name, de 1987, o vocalista Bono Vox só começa a cantar perto dos 2 minutos, entre os quase 6 de duração. Numa música deste ano do U2, Ahimsa, com menos de 4 minutos, a introdução tem pouco mais de 10 segundos. Segundo a Associação Americana de Editores Musicais, 13% do valor das reproduções de uma caução vai para o bolso do artista. Em busca de diferenciação, a francesa Deezer, uma das maiores rivais do Spotify, segue um modelo de pagamento que contempla os artistas que não têm milhões de reproduções. “Se alguém ouve música sertaneja o dia todo em São Paulo, o dinheiro gerado [por esse assinante] vai para esses artistas”, diz o executivo alemão Hans-Holger Albrecht, presidente mundial da Deezer. Em outras plataformas, o dinheiro das assinaturas é somado, para depois ser dividido entre os artistas do mundo todo com base no número de reproduções.

O Brasil não tem empresas relevantes no mercado global de streaming de música. A de maior renome por aqui é a gaúcha Superplayer, que oferece um serviço baseado em listas temáticas. Para Robson Del Fiol, sócio da consultoria KPMG, as empresas que saíram na frente no mercado global têm grande vantagem. “Esse é um mercado consolidado e dominado pelas plataformas estrangeiras. Elas já têm grandes bases de usuários e dificilmente serão vencidas por startups”, diz Del Fiol. Para ele, até o Google tem dificuldade de fazer crescer o serviço YouTube Music, que tem 15 milhões de assinantes, uma vez que as pessoas preferem ouvir músicas nos vídeos do YouTube, de graça. No novo cenário da indústria da música, o papel dos aplicativos é posicionar-se como emissoras de rádio particulares para cada usuário, tarefa que só pode ser feita com a ajuda da tecnologia. “Quem conseguir entender o comportamento do consumidor e oferecer as melhores experiências vai se diferenciar”, diz Clarissa Gaiatto, diretora de transformação digital da consultoria Deloitte. Na música, as mídias físicas viraram um nicho, e a receita, agora, vem dos aplicativos, cada vez mais personalizados.

A DIGITALIZAÇÃO DÁ O TOM

O mercado de transmissão de música via internet chegará a 1 bilhão de ouvintes no mundo em 2019

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

 ENGRENAGENS DA DEPENDÊNCIA

Malhação desenfreada, jogo, trabalho, sexo, internet. É possível ficar dependente dessas atividades? Psiquiatras e neurobiólogos confirmam: a dependência é um estado de espírito

A internet cria dependência? Em Roma, no ano 2000, um homem foi hospitalizado depois de navegar durante três dias e três noites na rede. Na Dinamarca, uma pessoa admite enviar em média 217 mensagens por dia e pagar uma fatura mensal de 2 mil euros a cada trimestre. Consciente de seus problemas, procura uma clínica para submeter-se a um tratamento imediato. A Suíça, onde se estima que 3% das pessoas que têm acesso à internet sejam vítimas desse fenômeno, foi o primeiro país a criar um grupo de discussão para os “viciados em internet”.

Dependência da internet, de relações amorosas, do trabalho, do celular, dos exercícios físicos, seriam os homens seres dependentes? É preciso reconhecer que o fumo e as drogas pesadas já não têm o monopólio da dependência. Mas seria possível dizer que a caminhada matinal e a nicotina criam o mesmo tipo de sujeição? A ciência que estuda a dependência, a adictologia, está em vias de se tomar um dos grandes ramos dos estudos médicos e psicológicos. Ela abrange as antigas toxicomanias, o alcoolismo e o tabagismo, e as dependências sem drogas, entre elas, em primeiro lugar, a ludopatia: o jogo patológico.

Mero modismo ou realidade médica? A mídia e o grande público se apropriaram dessa concepção. Como no caso das drogas e da toxicomania, as adições encarnam o medo da loucura e da alienação, e o fascínio pelos prazeres extáticos, as mesmas imagens (estou viciado, não consigo parar, estou perdendo o controle…) terminam por figurar nas mensagens de advertência assustadoras e em slogans publicitários atraentes (Addict virou marca de água-de-colônia, assim como O pium, de perfume). Sem dúvida é hora de saber o que se entende por adição, se existem diversas maneiras de tomar­ se dependente, as possíveis causas – biológicas, genéticas, psicológicas, existenciais – e qual é o arsenal terapêutico de que dispomos para tratar dos vícios comprovados.

Segundo o psiquiatra e psicanalista francês Jean Bergeret, o termo “adicto” – do latim addicus, – designa a pessoa que sofreu prisão por dívidas. Bergeret propõe uma abordagem psicanalítica do problema, afirmando que a dependência do corpo reflete uma tentativa inconsciente de pagar uma dívida, “Trata-se de procurar as carências afetivas que levaram o dependente a pagar, com o sacrifício do próprio corpo, os compromissos contraídos e não honrados”.

Em 1945, o psicanalista americano de origem austríaca Otto Fenichel descreveu pela primeira vez as “adições comportamentais” sob o nome de “toxicomanias sem drogas”. Fenichel as definiu como questões egossintônicas, isto é, problemas das condutas normalmente de acordo com o eu consciente. Seriam distintas de obsessões e compulsões, pensamentos obsessivos que voltam insistentemente e obrigam a pessoa a executar uma ação custe o que custar, sem considerar o bem ou o mal que ela pode acarretar (a necessidade imperiosa de lavar as mãos o dia inteiro, num obsessivo-compulsivo, por exemplo).

Mais tarde, adição se impôs como simples transposição do termo inglês addiction, usado em expressões como drug addiction, tobacco addiction e addiction to gambling (dependência do jogo). Atualmente, aplica-se às toxicomanias, ao alcoolismo, ao tabagismo, ao jogo patológico e até aos problemas do comportamento sexual ou alimentar, ou a relações amorosas “alienantes”. A nova classificação justifica-se em primeiro lugar porque esses problemas se parecem, todos eles se caracterizam pela repetição de um comportamento, que a pessoa supõe ser previsível, controlável, contrapondo-se à incerteza das relações regidas pelo desejo, ou simplesmente existenciais, que governam os relacionamentos.

Além disso, alcoolismo, tabagismo, toxicomanias e mesmo distúrbios da conduta alimentar são frequentes entre jogadores patológicos, indicio de que eles têm uma ”tendência à adição”, no sentido lato. Um toxicômano pode, por exemplo, tornar-se alcoólatra, depois jogador, e então comprador compulsivo, existem tantas pontes entre as diversas formas de adição que quase justificam dizer, “Não importa o vício, desde que traga prazer”. E finalmente cabe ressaltar a semelhança dos tratamentos propostos. A existência de grupos de ajuda mútua, baseados nos “tratamentos em 12 passos”, adotados principalmente pelos Alcoólicos Anônimos, é de fundamental importância. Com efeito, propõem-se os mesmos princípios de tratamento, convencimento e redenção moral aos alcoólatras, toxicómanos, jogadores, aceitos por muitos deles.

É importante notar um aspecto inevitável em todas as adições. Trata-se de condutas que sempre se inseriram no âmbito da moral, antes de serem pensadas em termos médicos: não há dúvida de que a alimentação, o sexo, o álcool e as drogas pertencem ao campo das condutas regidas por prescrições e interdições religiosas e normas morais. Cabe acrescentar o jogo, na medida em que sabemos que os primeiros “jogos” – atirar ossinhos (ossos do carpo do carneiro) – eram, já na Suméria e na Babilônia, procedimentos oraculares (usados para consultar os deuses sobre o futuro) ou ordálicos (uma forma de indagar os deuses sobre a culpabilidade de um suspeito).

As abordagens clínicas atribuem papel cada vez mais importante, na própria definição das dependências ou adições, à sensação de encarceramento e de alienação experimentada pelo sujeito. E nessa abordagem chamada de “adictologia clínica”, as dependências sem drogas têm a mesma importância que o uso e abuso das substâncias.

Diante do surgimento desse conceito geral de adição, alguns clínicos temem que se perca de vista o caráter específico da doença da dependência, a toxicomania, e que esta seja banalizada e considerada um simples hábito incômodo ou socialmente “indesejável”: não haveria então nenhuma diferença entre o drogado convicto, cuja existência trágica foi descrita por William Burroughs em Junky, a paixão pelo chocolate ou o hábito de assistir a um seriado idiota na televisão. E, inversamente, outros receiam que os hábitos anódinos sejam qualificados como doenças, e que a medicina, por meio dessa ampliação do conceito de adição, termine por querer tratar o conjunto das condutas humanas. Esse risco de ampliação infinita, de deriva, de passagem da metáfora à explicação, justifica sem dúvida o fato de as adições ainda não constarem nos manuais estatísticos das doenças mentais.

Esse debate coloca a questão do limite entre o normal e o patológico. O filósofo Georges Ganguilhem, autor de O normal e o ´patológico, já levantou algumas questões fundamentais sobre esse tema: haverá uma continuidade entre normal e patológico, sendo as variações mera questão de grau? Ou, ao contrário, existirá uma diferença de natureza entre a condição normal e a de enfermo?

A pergunta costuma ser ignorada nos sistemas de saúde. O critério que importa é o estado de vitalidade das pessoas, e não as razões que as levaram a arruiná-la. Assim, quem bebe demais ou abusa do jogo não se diferenciaria de um alcoólatra ou de um jogador patológico. Os “doentes” e, antes, os dependentes ou “adictos” só seriam vistos como a extremidade, quase desprezível, de uma curva de probabilidades de Gauss. Partindo-se daí, falar de um estado normal é criar outros tantos estados patológicos que estão além ou aquém desse limite; por exemplo, toda pessoa que consome mais de dois copos por dia ou joga mais de 10% de sua renda.

Na realidade, o único critério capaz de garantir ao clínico sua condição de terapeuta, e não de mero instrumento de normalização, é a demanda do paciente. Para que haja doença e possibilidade de cuidados médicos, é preciso que seja expresso um sofrimento; a reunião de critérios objetivos e mensuráveis (a frequência do uso por dia, por semana) não basta. Em suma, apesar de toda a vontade de objetivação dos cientistas, não poderia haver patologia sem um sentimento de alienação, de estranhamento de si mesmo, de doença, relatado pelos próprios pacientes.

Dito de forma mais simples, há um momento em que se deixa de ser “gordo”, passando-se a integrar a categoria dos “obesos”. E esse momento implica uma modificação da percepção de si mesmo na sociedade, existe uma especificidade do ser no mundo anoréxico, assim como na obesidade, ainda que anoréxicos e obesos sejam apenas os extremos da curva de peso da população em geral. Todos esses elementos devem nos levar a uma atitude prudente em relação às classificações e escalas de adições de todos os tipos, como, por exemplo, o sexo virtual e vício em trabalho.

A dependência seria uma maneira de ser provocada. tanto por uma substância química, como por um mecanismo cerebral. Como reunir esses conceitos separados? As abordagens biomédicas valorizam principalmente os mecanismos cerebrais da dependência, os neurotransmissores (endorfinas, serotonina, dopamina); as abordagens psicossociais buscam os fatores sociológicos e psicológicos que determinam o consumo de substâncias psicoativas ou que levem às dependências em drogas. Um diagrama global, denominado esquema tríplice das dependências, faz a combinação dessas abordagens.

Segundo o psiquiatra francês Claude Olievenstein, os toxicômanos são o “encontro de um produto, uma personalidade e um momento socio- cultural”. Por melhor que seja, essa fórmula não oferece nenhuma explicação – mas tem a vantagem de indicar a maneira com que se deve abordar um fenômeno complexo, com vários eixos e variáveis. Examinemos agora, desses três pontos de vista, um caso significativo de dependências em drogas, o jogo patológico, reconhecido como doença pela Organização Mundial de Saúde desde 1992.

O jogo patológico, a atração exercida pelos cassinos, máquinas caça-níqueis e roleta, é inegavelmente a forma mais difundida de adição sem drogas. A literatura científica internacional a reconhece como patologia. Os critérios são próximos aos propostos pelo psiquiatra Aviel Goodman, aplicáveis às adições no sentido lato. Responsável por dívidas astronômicas, depressão, atos de delinquência, estima-se que o jogo patológico atinja de 1% a 4% da população dos Estados Unidos, da Inglaterra e da Austrália.

Há muito se conhece a afinidade entre a paixão pelo jogo e o uso da droga, mas resta saber o que, no jogador patológico, faz as vezes da droga. Da perspectiva biológica, o jogo é uma maneira de viver momentos de stress repetidos, o instante em que a bola da roleta vai parar, ou em que os cavalos vão ultrapassar a linha de chegada, provoca sensações fortes. Assim, o jogador ficaria dependente da própria adrenalina, e o jogo seria comparável a drogas como cocaína e anfetaminas.

Essa visão é corroborada por dados clínicos, grande número de jogadores faz essa comparação, especialmente com a cocaína. Segundo o esquema, essas pessoas buscariam situações capazes de romper com o cotidiano, já que se cansam do que lhes parece constante. Por isso, adotam comportamentos que possam levá-las a descobertas cada vez mais vastas, espantosas, insólitas.

Para explicar a dependência do ponto de vista biológico, sempre se recorre a dois mecanismos: a tolerância e a sensibilização. Trataremos aqui apenas do primeiro e de uma teoria que visa explicá-lo, o modelo dos processos opostos. O fenômeno da tolerância se manifesta quando a repetição de uma conduta ou o uso repetido de uma substância leva a um esgotamento dos efeitos de prazer ou de anestesia e a um consequente aumento das doses para alcançar os mesmos resultados. Depois de certo tempo, a pessoa já não obtém as sensações iniciais (o prazer da droga ou do jogo), mas continua, “só para se sentir normal”. De fato, quando suspende a conduta, tem sensações desagradáveis: é a síndrome da abstinência.

Assim, todos os jogadores patológicos conhecem a espiral das apostas. Na primeira vez, apostam pouco e ficam excitados com isso. Em seguida, essa quantia já não provoca excitação. Por meio desse esquema psicológico pode-se compreender a maior vulnerabilidade das pessoas inclinadas para a “busca de novidade”: elas logo se cansam. Aumentando a “dose”, o jogador consegue manter o mesmo nível de excitação, mas de certo modo desloca o nível inicial (ele aposta somas cada vez maiores).

DUPLO MECANISMO

A teoria dos processos opostos explica esse comportamento. Formulada pela primeira vez pelo psicólogo Robert Solomon, popularizada em seguida por Jean-Didier Vincent, afirma que a tolerância resulta de um duplo mecanismo, os efeitos da droga continuarem num nível inconsciente, tão fortes como no primeiro dia, mas o organismo reage a essa cota regular com um movimento contrário: ele “secreta’ sofrimento para equilibrar o prazer. O efeito desses dois processos é o enfraquecimento progressivo das sensações. Em caso de interrupção, a inércia do sistema faz com que a “produção” de sofrimento continue ainda por algum tempo, sentimento este que não é compensado pelo uso da droga. Assim se explica a síndrome de abstinência.

Vejamos agora as consequências desse mecanismo no jogador patológico. Ao entrar no bingo pela primeira vez, ele sente um nível médio de satisfação. O fato de apostar R$10,00 lhe propicia uma excitação e um prazer superiores ao de sua satisfação mediana. Não obstante, bem rápido seu nível de contentamento volta ao patamar inicial, apesar de manter a aposta. Os que aceitam a teoria dos processos opostos diriam que entrou em cens um mecanismo oposto ao do prazer, contrabalançando rápido o prazer ligado ao fato de apostar essa quantia. No momento seguinte, o jogador busca aumentar sua satisfação aumentando a “dose”, aposta R$ 100,00 e obtém prazer análogo que sentira ao apostar RS 10,00. Não obstante, esse nível de prazer bem depressa volta ao patamar inicial, agora é preciso apostar R$ 100,00 para ficar apenas razoavelmente satisfeito. Se apostasse apenas R$ 10,00, iria se sentir frustrado. Se nada apostasse, seria tomado por uma profunda angústia. O processo oposto ao do prazer que se tinha instalado para fazer voltar o nível de satisfação ao seu patamar inicial, agora é o único em funcionamento.

Esse esquema explica não apenas a patologia do jogo, mas também o fato de o organismo habituar- se a drogas como a heroína ou os barbitúricos. Ele está presente onde quer que haja bem-estar ou mal-estar, nas relações afetivas às vezes se fala de co-dependência de uma pessoa em relação ao cônjuge. Pode-se recorrer ao esquema dos processos opostos para explicar a evolução no longo curso das relações de um casal, os arroubos amorosos do início vão diminuindo, mas depois de algum tempo os parceiros imaginam não mais poder separar­ se, por medo do sofrimento daí decorrente.

A abordagem psicanalítica contribui para a compreensão das dependências em drogas. No esquema das três variáveis, a psicanálise considera o produto não como uma sensação de excitação, uma descarga de dopamina ou de adrenalina, mas como um esquema relacional entre o indivíduo e sua família. Estudando a paixão do jogo em Dostoievski, Freud identificou duas fases na sequência de jogo: num primeiro momento, por meio do ganho ou da esperança de ganho, o jogador regride a uma posição de onipotência infantil que corresponde, em termos edipianos, ao assassinato imaginário do pai e à posse da mãe. Em seguida, pune-se pela realidade da perda, por ter ousado transgredir os tabus mais fundamentais.

O “caso Dostoievski” mostra que o jogo constitui um equivalente ao julgamento de Deus, uma verdadeira prova ordálica. Durante toda sua vida o escritor se debateu coma questão de sua culpabilidade imaginária na morte violenta do pai, ocorrida quando ainda era adolescente. A pergunta feita ao acaso (designada por Aristóteles pelo termo automaton, e também por Tykhe, deusa do acaso e da fortuna) é a própria questão da vida do sujeito, de seu direito de continuar a viver. Assim, para alguns psicanalistas as adições seriam mero sintoma e não uma entidade mórbida, seriam um deslocamento de conflitos inconscientes. Como entender essa afirmação Freud deu muitos exemplos desse fenômeno que está na origem da constituição de um sintoma. Como acontece muitas vezes na psicanálise, quando um recalque se opõe a uma pulsão, a saída encontrada pelo psiquismo é um sintoma. Imaginemos por exemplo um rapaz com paralisia num braço, sem explicação neurológica. Essa paralisia “neurótica” ou “histérica” é a tradução corporal (o sintoma) de um conflito psíquico, surgido, nesse caso, quando das primeiras práticas masturbatórias do menino, que se teriam chocado com o interdito moral (real ou no inconsciente dele) imposto pelo pai, pelo meio social etc. No dia em que toma consciência de que, por um lado, é habitado por uma pulsão, e, por outro, é submetido a um recalque, o menino recupera a função do braço.

Com frequência, no caso dos jogadores patológicos, identificamos nos familiares inextrincáveis. O esquema detectado por Dostoievski é de notável precisão. Os pacientes quase sempre têm um conflito com o pai. Aos 18 anos, um dos jogadores descobre que o pai, pessoa bastante respeitada em sua cidade provinciana, é um rufião. De um só golpe, o jovem sente todas suas referências morais desmoronar. Que pode ele considerar confiável, de tudo o que lhe foi ensinado? Não há ninguém a quem fazer essa pergunta. Então, tal como Dostoievski, ele se volta para a roleta e para as máquinas caça-níqueis, esperando uma resposta que seria um sinal do destino.

A dependência é o encontro entre uma personalidade e um produto em determinado contexto. O que se entende por personalidade? Para os psicobiólogos, fatores hereditários explicariam, em parte, as diferenças de temperamento. É preciso também levar em conta a marca da infância na personalidade. Inúmeras pesquisas investigam as relações entre o tipo de ligação precoce do filho com a mãe e os riscos de dependência que o filho corre quando se torna adolescente e adulto.

Em termos esquemáticos, a ligação de uma criança com a mãe pode ser do tipo “seguro”, ansioso, esquivo ou confuso. Uma criança que tem um laço seguro com a mãe não teme vê-la ausentar-se, pois está acostumada a vê-la de volta dando ­ lhe muita atenção. A criança ansiosa fica inquieta quando a mãe sai, talvez porque em determinadas circunstâncias críticas ela lhe deu a impressão (ou a criança teve a impressão) de não atender satisfatoriamente a suas expectativas. Essa criança não está habituada a esperar, com toda a confiança, que mais tarde lhe deem aquilo de que precisa. Sente apenas a ausência daquilo que ama e a incerteza sobre a possibilidade de reencontrá-lo. Essa angústia explicaria o esquema de dependência, o jovem que se entrega às drogas ou a um comportamento típico de vício reencontra essa situação de falta, mas, ao contrário do que viveu com seus pais, acha a solução porque sabe como conseguir a droga ou o prazer do jogo.  

Finalmente, nesse esquema de três variáveis atua a sociedade. Segundo alguns sociólogos, a dependência é anatematizada pela sociedade. Serve para distinguir determinadas categorias sociais, marginalizá-las ou rotulá-las. Essa norma evolui com o tempo e de acordo com as sociedades, tanto que, há 30 anos os fumantes não eram estigmatizados como o são atualmente. E entre as diversas etnias da África ou da América do Sul o consumo de substâncias entorpecentes é apenas uma maneira de viver em sociedade. A ninguém ocorreria dizer serem essas pessoas dependentes.

Que lugar ocupam as “novas dependências” nesse esquema? Aqui não se trata, necessariamente, de novas dependências, mas de novos objetos de dependência. No caso das adições cibernéticas, cumpre distinguir dois tipos de dependência. O primeiro é o first player shooter, jogos que os adolescentes apreciam, como Doom, Resident Evil ou Tomb Raider, o jogador movimenta-se num meio hostil em que abate todos os inimigos que lhe cruzam o caminho. Esses jogos propiciam descargas de adrenalina: “recompensas” sob a forma de ativação do sistema dopaminérgico, que causam prazer intenso e excitação. No modelo que apresentamos, o “produto” (a “droga”) é uma sensação.

Os jogos de aventuras, como o Everquest ou Dark Age of Camelot, por exemplo, criam dependência próxima das causadas pelos opiáceos. O jogador busca uma sensação de bem-estar. O mesmo acontece no caso da dependência dos esportes de resistência, nesses esportistas, verifica-se a liberação de encefalinas, substâncias sintetizadas pelo organismo eque pertencem à família da morfina. Elas foram descobertas a partir do seguinte raciocínio: se os opiáceos atuam sobre o organismo é porque eles têm receptores e tais receptores existem no organismo, é porque substâncias endógenas nele se fixam. Foi assim que se descobriram os opiáceos endógenos, as encefalinas, que provocam uma sensação de euforia e de analgesia (elas combatem a dor). Entre os jovens dependentes de videogames, praticamente não se encontram pessoas “inclinadas” a “correr riscos” ou personalidades “em busca de sensações”. Sua atitude assemelha-se a busca de refúgio, evitando os riscos inerentes à vida “de verdade”.

A dependência do trabalho certamente pode ser entendida da mesma maneira: ela compreenderia uma vertente “doença”, de busca de analgesia. e uma vertente “sintoma”, que a psicanálise interpretaria como o efeito de um recalque. Outras dependências sem drogas não são novas, são afetivas: as dos casais infelizes, que ficam juntos, apesar de tudo, pelas razões já apontadas, principalmente a incapacidade de se separar de uma pessoa pela qual já não se sente nada de especial (pois já se desenvolveu uma “tolerância” a esses sentimentos)  em compensação, a “falta” se faria sentir em caso de separação.

Deve-se concluir daí que as dependências tolhem nossa liberdade e nosso bem-estar? Não vamos tão longe. Uma pessoa livre de toda e qualquer dependência seria incapaz de criar laços, quaisquer que fossem eles. Esses laços são sinal de uma vitalidade benéfica, o que importa é saber manter o equilíbrio entre as diversas formas de dependência que se é obrigado, inevitavelmente a contrair. Quem serve a vários senhores, evita submeter-se a um tirano.

TRÍPLICE DEPENDÊNCIA

Uma toxicomania nasce ao encontro entre uma personalidade e um produto, em determinado contexto. No caso do jogo patológico, a abordagem psicanalítica supõe rupturas do esquema familiar (por exemplo, uma dúvida sobre os valores transmitidos pelos pais), que podem criar um  contexto de dependência; em busca de respostas, o jogador interrogaria o acaso inconscientemente: o caráter aleatório do jogo – o produto – seria um juiz invisível; enfim, o  jogador seria um temperamento em busca de novidade e de sensações. Os biólogos consideram o contexto um conjunto de índices disparadores, e o produto como a excitação por causa da liberação de adrenalina e de dopamina no cérebro. Eles buscam no âmbito da personalidade genes que criam maior reatividade do cérebro a esses hormônios de prazer.

VOCÊ É DEPENDENTE?

Para definir o que é uma “adição”, recorre-se muitas vezes à definição proposta em 1990 pelo psiquiatra americano Aviel Goodman:

A. Você é incapaz de resistir aos impulsos que o impelem a ter esse tipo de comportamento.

B. Imediatamente antes do início dessa ação, você sente tensão cada vez maior.

C. Enquanto ela dura, você sente prazer ou alívio.

D. Enquanto você o realiza, sente uma perda de controle.

E. Alguns elementos da síndrome duraram mais de um mês ou se repetiram por período mais longo.

F. Você se enquadra em pelo menos cinco dos nove critérios abaixo discriminados:

1) Sua mente está sempre ocupada pelo comportamento ou por sua preparação.

2) Os episódios são mais intensos e duradouros do que o inicialmente pretendido.

3) Com frequência você procura reduzir, controlar ou abandonar o comportamento.

4) Você passa muito tempo preparando os episódios, concretizando-os e se recuperando deles.

5) Com frequência você recorre a esse comportamento quando precisa cumprir obrigações profissionais, escolares ou universitárias, familiares ou sociais.

6) Atividades sociais, profissionais ou recreativas importantes são sacrificadas pelo comportamento em questão.

7) Você perpetua o comportamento, mesmo sabendo que ele causa ou agrava um problema persistente, de caráter social, financeiro, psicológico ou físico.

8) Você sente necessidade de aumentar sua intensidade ou sua frequência para obter o efeito desejado. Pouco a pouco, um comportamento de mesma intensidade vai perdendo o efeito inicial.

9) Se você não consegue realizá-lo, torna-se agitado ou irritadiço.