OUTROS OLHARES

A CORRIDA VIROU BALADA

No Brasil, há quase tanta gente que corre quanto pessoas que jogam futebol. Essa turma descolada agora quer variar e achou um jeito: mover-se sob a luz da Lua – para tudo acabar em festa

Muitas luzes coloridas fumaça, DJ. À primeira vista, parece ser uma balada como outra qualquer. Mas o que dizer do invariável figurino tênis, short e camiseta? E das bandejas onde só há água e, com um pouco de sorte, isotônico? Cardápio: barrinha de cereais, banana, maçã. Bem­ vindo à reunião de uma tribo que une o útil ao agradável e embala a toda na onda das corridas de rua noturnas. O exercício é para valer, com percursos de 5 ou 10 quilômetros, mas diferentemente da malhação tradicional, sempre começa e acaba em festa. O crescente entusiasmo dos brasileiros pelas corridas sob a luz da Lua tem a ver com o conhecido pendor humano para a novidade. Como o Brasil já é considerado há pelo menos uma década uma nação de corredores de rua com 4,5 milhões de praticantes – a modalidade só perde para o futebol -, essa turma vive em busca de variedade. E a resposta do mercado veio com o ”corujão”. ”A gente foge do sol e ao mesmo tempo se diverte”, diz a enfermeira Anier Siqueira, 26 anos, contando os minutos para a travessia Up Night, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro. Detalhe: o visual esportivo com profusão de cores, comum nessas pistas, se adapta à dupla função.

As corridas-balada vêm se disseminando por todo o país, promovidas por empresas que detectaram nelas um bom negócio. Paras ter uma noção de seu vigor, do início dos anos 2000 para cá os trajetos noturnos se multiplicaram quase vinte vezes. Estima-se que, a cada três desses eventos de rua, um aconteça à noite. A engrenagem para pôr tudo de pé envolve os mesmos desafios diurnos – autorização para fechar vias, busca de patrocinadores – e mais alguns. O pioneiro Night Run, que apareceu acanhado em São Paulo, em 2006, hoje realiza corridas noite adentro em nove cidades. “Trazemos canetas de neon para o pessoal colorir o rosto e sair bem na foto, o que; aliás, é essencial pois o nosso público adora uma selfie”, entrega Guilherme Accursio da Night Run.

Há sempre um palco animado – no cardápio, de música eletrônica a rock e funk. A balada fit promovida pela carioca Corre Eventos tem até tema. Um deles, “O cupido”, falou direto a um grupo que está lá para fazer amigos, conhecer pessoas e, por que não? dar uma corridinha. Cores distinguiam o estado civil do atleta: verde (solteiro), amarelo (enrolado); vermelho (comprometido). “Conseguimos reunir 2.000 corredores”, calcula Simone Laeto, 47 anos, que deixou o trabalho em agências de publicidade para investir no profícuo mercado de corridas e cada vez mais se dedica aos notívagos, que desembolsam uma média de 100 reais pelo pacote.

Pergunta que não quer calar: do ponto de vista estritamente fisiológico, correr à noite oferece alguma vantagem? Sim, concordam os especialistas. “O gasto calórico é igual, mas correr longe do sol e sob menos calor é melhor porque o corpo perde menos água, cansa menos, e a pessoa tende a estender o tempo da atividade”, explica o ortopedista Sérgio Maurício. Mas a tribo do turno coruja (da concentração, onde a festinha se inicia, ao fim da balada, passam­ se cerca de quatro horas, tudo terminando por volta das 10 da noite) deve ficar atenta a certos cuidados com a saúde. Eles vão da alimentação ao alongamento, que precisam se adaptar ao horário mais adiantado – e são, em certos aspectos, distintos daqueles indicados para quem se exercita ao longo do dia.

Nessas festas, bebidas alcoólicas são quase tão raras quanto maquiagem (quem vai se arriscar a ver a sombra deslizar suor abaixo?), mas às vezes o corredor-baladeiro se permite uma dose aqui outra ali, embora elas não constem no menu oficial. Como as corridas são ao ar livre, em praças praias e parques, passa um ambulante vendendo cerveja e a tentação pode falar mais alto. A faixa etária local gira em torno de 25, 30 anos, muita gente vai em grupo e, sim, esbanja energia para dançar. Dito assim, parece que sobra alegria e falta foco nas pistas. Errado. A maioria leva a sério o momento da corrida. Seus adeptos estão assim mantendo viva uma modalidade primeiro praticada por trabalhadores ingleses no século XVII, que teve como marco histórico a primeira maratona olímpica, de 1896, em Atenas. Foi em 1968; porém, que o médico americano Kenneth Cooper popularizou o esporte ao descrever seus benefícios no célebre livro Aerobics: músculos fortalecidos sistema cardio respiratório em pleno funcionamento pressão arterial reduzida. Mister Cooper só não poderia prever um acréscimo que trouxe um novo ganho à corrida: a diversão.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 17 DE FEVEREIRO

O DRAMA DO LUTO

Então, Jó se levantou, rasgou o seu manto, rapou a cabeça e lançou-se em terra e adorou (Jó 1.20).

O luto é a dor mais aguda que assola a nossa alma. Não existe nenhuma família que escape desse drama. Não é fácil ser privado do convívio de alguém que amamos. Não é fácil enterrar um ente querido ou um amigo do peito. Não é fácil lidar com o luto. Já passei várias vezes por esse vale de dor e sombras. Perdi meus pais, três irmãos e sobrinhos. Sofri amargamente. Passei noites sem dormir e madrugadas insones. Molhei meu travesseiro e solucei na solidão do meu quarto. A dor do luto ecoa na alma, aperta o peito, esmaga o coração, arranca lágrimas dos olhos. Jesus chorou no túmulo de Lázaro, e os servos de Deus pranteavam seus mortos. Há, porém, consolo para os que choram. Aqueles que estão em Cristo têm uma viva esperança, pois sabem que Jesus já venceu a morte. Ele matou a morte e arrancou seu aguilhão. Agora a morte não tem mais a última palavra. Jesus é a ressurreição e a vida. Aqueles que nele creem nunca morrerão eternamente. Agora, choramos a dor da saudade, mas não o sentimento da perda. Só perdemos quem não sabemos onde está. Quando enterramos nossos mortos, sabemos onde eles estão. Eles estão no céu com Jesus. Para os filhos de Deus, morrer é deixar o corpo e habitar com o Senhor. É partir para estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor. Os que morrem no Senhor são bem-aventurados!

GESTÃO E CARREIRA

A GERAÇÃO DO BILHÃO

A onda de startups brasileiras que chegam a um valor de mercado de 1 bilhão de dólares está ganhando corpo. Elas estão em setores diversos, como logística e jogos, e inserem o Brasil num mercado global em ebulição. Oportunidades – e riscos – não faltam

Quando se formaram na escola politécnica da Universidade de São Paulo, os irmãos paulistanos Victor e Arthur Lazarte seguiram rumos comuns a jovens engenheiros brasileiros no fim dos anos 2000. Foram trabalhar, respectivamente, em um banco de investimento e em uma consultoria. Mas, pouco tempo depois, eles deixaram o emprego e voltaram para a casa dos pais em São Paulo decididos a abrir uma empresa de jogos para celular. Na casa dos 25 anos, os dois não sabiam sequer programar jogos – e precisaram aprender com vídeos online. Oito anos e quase 2 bilhões de downloads depois, os irmãos Lazarte assinaram em novembro uma rodada de investimentos que avaliou a empresa fundada por eles em 2011, o estúdio de games Wildlife, em 1,3 bilhão de dólares. O aporte de 60 milhões de dólares, liderado pelo fundo de investimento americano Benchmark, coloca a Wildlife como o mais novo membro de um clube seleto: o de startups “unicórnios”, companhias de capital fechado avaliadas em mais de 1 bilhão de dólares. No Brasil, há pelo menos nove delas. Enquanto viviam longe dos holofotes, os Lazarte colocaram a Wildlife – que até agosto se chamava TFG, sigla para Top Free Games – entre as dez maiores empresas de games móveis do mundo, chegando a um quadro de 500 funcionários e escritórios em quatro países. “Queremos criar os jogos que vão marcar esta geração”, diz Victor Lazarte, o caçula da dupla e que hoje, aos 33 anos, mora na Califórnia para tocar a expansão global da empresa. Seu irmão Arthur, de 35 anos, fica em São Paulo.

Pergunte aos principais investidores, empreendedores e consultores brasileiros e pouquíssimos já ouviram falar da companhia dos irmãos Lazarte. Até o aporte mais recente, a empresa tinha apenas um sócio, Brian Feinstein, do fundo Bessemer Venture Partners, com investimento secundário nos fundadores. Mas o sucesso dos games foi chamando a atenção. E dando origem a histórias curiosas. Lucas Lima, diretor de operações, trabalhava na tradicional consultoria Bain&Co quando foi sondado pela Wildlife. Como ele resistia, Victor pediu que batesse um papo com um “amigo”. No outro lado da linha estava o investidor Jorge Paulo Lemann, do fundo 3G Capital e maior bilionário brasileiro. Lima aceitou, claro. Carlos Saldanha, diretor de animações famosas, como A Era do Gelo, é mentor da dupla. O vice-presidente de realidade virtual do Facebook e ex-Xiaomi e Google, Hugo Barra, também entrou como investidor na rodada de novembro. Para os próximos anos, a meta é usar o novo aporte para continuar crescendo no ritmo de 80% ao ano, criar um braço para distribuir jogos de outros estúdios menores e, sobretudo, contratar talentos globais para brigar com uma concorrência que fica cada vez mais pesada.

A história dos irmãos Lazarte coroa um ano especial no capitalismo brasileiro. Desde junho, quando a empresa de entregas Loggi recebeu um aporte de 150 milhões de dólares liderado pelo grupo japonês SoftBank e tornou-se o primeiro unicórnio de 2019, não se passaram dois meses sem que o Brasil visse uma nova startup atingir o patamar bilionário. Também chegaram lá neste ano a Gym pass, que vende planos de academias, a Quinto Andar, de aluguéis, e o Ebanx, de pagamentos. Por trás desse movimento está o financiamento de fundos de capital de risco, como FTV, SoftBank, Kaszek, Valor Capital, Monashees, Redpoint e Benchmark. Até o banco Credit Suisse criou, neste ano, um fundo de venture capital para empresas promissoras. “Passou a ser uma demanda de nossos clientes”, diz Camila Detomi, responsável pela área de investimentos alternativos do Credit Suisse. Sinal de novos tempos. Os fundos escrutinam o mundo em busca de startups com potencial de virar gigantes. A esperança é encontrar as sementes de um novo Google, Amazon ou Facebook, capazes de fazer o valor de mercado de 1 bilhão de dólares chegar a 100 bilhões ou mesmo 1 trilhão de dólares, compensando os fracassos que podem ocorrer com o restante do portfólio. “As maiores empresas da China e dos Estados Unidos não existiam no século passado. O Brasil também terá gigantes de tecnologia. Estamos todos à caça”, diz o gestor de um fundo de investimento.

A competição é impulsionada por um momento de liquidez abundante, com taxas de juro historicamente baixas. No Brasil, o dólar em mais de 4 reais também é um atrativo que faz o país ficar “barato” para os investidores. “O Brasil está deixando de ser um país em que era mais vantajoso manter o dinheiro em alguma aplicação financeira do que investir no capital produtivo”, diz Michael Nicklas, sócio da gestora de investimento Valor Capital Group. Criado em 2010, o fundo investe em negócios brasileiros inovadores com potencial de crescimento nos Estados Unidos, e vice-versa. Cerca de 65% de seu portfólio está alocado em startups brasileiras, como a Gympass e a Stone, de meios de pagamento.

O Brasil deverá fechar o ano com 2,5 bilhões de dólares em rodadas de investimento, quase o dobro de 2018 e mais de 60% do capital de risco da América Latina, segundo cálculos da fintech Distrito com base em dados da Lavca, associação latino-americana de venture capital. Em 2016, a região inteira havia recebido 500 milhões de dólares. Dois anos depois, em 2018, a foodtech iFood captou sozinha a mesma quantia em um único aporte. Neste ano, a colombiana Rappi levou o dobro, 1 bilhão de dólares, em uma rodada liderada pelo SoftBank. Os investimentos de fundos de capital de risco passaram de 36 bilhões de dólares, em 2009, para 287 bilhões no ano passado, período em que o capital foi se espalhando pelo mundo – o domínio dos Estados Unidos no dinheiro investido caiu de 75% para 48% em uma década, segundo dados da empresa de inteligência PitchBook.

Com tanto dinheiro disponível, o número de unicórnios mundo afora também dobrou em dois anos. Já são mais de 420 dessas startups estreladas, a maioria nos Estados Unidos e na China, segundo levantamento da CB Insights. A primeira bilionária brasileira veio só em janeiro de 2018, quando a empresa de transporte por aplicativo 99 foi comprada pela chinesa Didi, concorrente da Uber. No ano passado, chegaram também ao valor de 1 bilhão de dólares o banco digital Nubank e o iFood e sua companhia-mãe, a Movile, que tem uma dezena de empresas de tecnologia. Muitas das histórias dessas startups mostram engenheiros, administradores e desenvolvedores que, em outras épocas, talvez tivessem decidido ficar no exterior ou trabalhar em grandes bancos. “Para muito além de uma avaliação de 1 bilhão, o importante é que hoje os melhores talentos das universidades brasileiras conseguem colocar sua ideia para rodar”, diz Diego Barreto, diretor financeiro do iFood. Sob vários aspectos, é apenas o começo de uma revolução. Os fundos de capital de risco já representam 0,5% da economia chinesa, onde investiram 100 bilhões de dólares em 2018, mas apenas 0,04% da economia da América Latina. Se a proporção do investimento por aqui alcançar a chinesa, em tese, o número de unicórnios no Brasil – hoje são nove – poderá se multiplicar por 10 ou mais nos próximos anos.

Se há algo que a lista dos unicórnios de 2019 mostrou é que não existe uma receita óbvia para o sucesso. E isso é um sinal de maturidade do mercado brasileiro. Há startups que trouxeram para o Brasil formatos promissores no exterior (como a 99), as que resolveram problemas especificamente brasileiros ou latino-americanos (como o Nubank e a Loggi) e aquelas que criaram negócios inovadores (como a Gympass). Nenhuma das novatas é tão global quanto a Wildlife, que tem apenas 3% dos usuários no Brasil. “Da cozinha da nossa mãe, já precisávamos fazer produtos para o exterior”, diz Arthur Lazarte. O último jogo lançado, Tenis Clash, foi o mais baixado em mais de 100 países na semana do lançamento. Alguns dos maiores sucessos do portfólio incluem ainda o Sniper 3D, de 2014 – que, até o lançamento do game Fortnite, em 2017, foi o jogo de tiros mais baixado do mundo. Os jogos da Wildlife são no modelo freemium, gratuitos para jogar, mas com itens pagos dentro do jogo, algo que permite à startup ser lucrativa desde os primeiros anos. A Wildlife teve o mérito de entrar no início da ascensão dos smartphones e cresceu com o mercado de games móveis. “Quando começamos, ninguém pensava em jogos para celular”, diz o diretor de tecnologia, o chileno Michael Mac-Vidar, que deixou um emprego no Vale do Silício para apostar na Wildlife, há sete anos. Hoje os jogos para smartphones e tablets faturam quase 70 bilhões de dólares ao ano (ou 45% do mercado de games, ante 18% em 2012), segundo a consultoria especializada em games Newzoo. “Mesmo grandes empresas de console, como EA e Sony, vêm lançando versões para mobile”, diz Candice Mudrick, analista da Newzoo. A Gympass, fundada em 2012 em São Paulo, é outro unicórnio que mirou o mundo: já está presente em mais de 8.000 cidades de 14 países. A companhia foi fundada pelos empreendedores Cesar Carvalho, JoãoThayro e Vinicius Ferriani, e começou a expansão internacional em 2015, quando foi aberto um escritório no México. De lá para cá, a empresa estendeu a operação para os Estados Unidos e para diversos países europeus. Agora a Gympass se organiza para entrar no mercado asiático. A índia e a China são dois países que estão sendo analisados com atenção. O novo salto de crescimento será possível graças ao aporte de 300 milhões dólares que a startup recebeu em outubro dos fundos americanos Atomico, General Atlantic e Valor Capital Group. Caso saia tudo como o esperado, a Gympass será a primeira startup brasileira com operações nos quatro continentes. Até chegar lá, o modelo de negócios precisou passar por ajustes. Primeiro, a Gympass tentou vender cartões de uso diário em academias para pessoas físicas. O custo para expandir a clientela era alto, já que era preciso investir em marketing e propaganda. Os donos das academias começaram a reclamar porque alunos já matriculados cancelavam o plano para adquirir o cartão com desconto. Alguns usuários sugeriram que os sócios da Gympass apresentassem o negócio às empresas em que eles trabalhavam. O primeiro cliente corporativo foi uma consultoria multinacional, com 4.000 funcionários no Brasil. “Os novos investimentos nos permitem ganhar uma escala global”, diz Leandro Caldeira, presidente da Gympass.

Se ainda não há aqui um unicórnio 100% digital – como já foi, por exemplo, o Facebook -, o Brasil tem se notabilizado por startups que usam a tecnologia para atacar gargalos do mundo real. O Quinto Andar, por exemplo, sobressaiu ao entrar com tecnologia num mercado em que tudo era feito em papel: o aluguel de imóveis. O campineiro Gabriel Braga, um dos fundadores do Quinto Andar, penou para conseguir alugar um apartamento em São Paulo quando recebeu uma oferta de emprego na cidade. “Precisava ter fiador e tudo era feito pessoalmente, de uma forma bem lenta”, diz. Durante um curso de MBA na Universidade Stanford, nos Estados Unidos, ele conheceu o mineiro André Penha, que tinha passado pelo mesmo problema. O Quinto Andar, fundado em 2013, começou como um site com boas fotos de imóveis para alugar, pesquisados em imobiliárias, e agendamento online das visitas. O atendimento aos proprietários dos imóveis também é feito pela internet. Até os contratos são digitais. O primeiro aporte, de 20 milhões de reais, veio dois anos depois da fundação da startup. Neste ano, fundos como General Atlantic e SoftBank colocaram mais de 1 bilhão de reais no Quinto Andar. Com esses recursos, a empresa passou a oferecer pequenos empréstimos para proprietários que precisam reformar o imóvel antes de alugar. O Quinto Andar também ajuda o cliente a saber quanto cobrar pelo aluguel para o imóvel não ficar fechado durante muito tempo. “Fazemos diversos cruzamentos de dados, usando uma forte base tecnológica, para chegar a essa conta”, afirma Braga. O lucro vem do valor do primeiro aluguel e de 6,9% a 8% cobrados nos meses restantes do contrato. “A meta é chegar a 1 milhão de imóveis alugados nos próximos anos.” Hoje, são mais de 5.000 por mês.

Em comum, os unicórnios brasileiros têm mais de cinco anos de estrada até entrar na mira dos fundos bilionários. A Movile, dona de diversas empresas de tecnologia, nasceu em 1998, época em que se “contava cada centavo”, segundo o cofundador Eduardo Henriques. Os primeiros anos tendem a ser uma fase de aprendizado que obriga os empreendedores a ser mais ciosos com recursos do que os pares do Vale do Silício, por exemplo, habituados a grandes cheques para turbinar mesmo as ideias mais mirabolantes. “Dinheiro aqui nunca foi fácil, e os brasileiros têm noção de que precisam andar com as próprias pernas porque amanhã pode não haver mais dinheiro”, diz Hugo Barra, diretor do Facebook e investidor e mentor da Wildlife. Por aqui, investidores costumam cobrar não necessariamente um balanço no azul, mas a evolução de indicadores importantes para esse fim, com o avanço na margem bruta e redução no custo de aquisição de clientes. Com esses dados em ordem, as startups têm mais segurança para dar passos ousados. É o caso da empresa de logística Loggi. A companhia surgiu como resposta aos complexos problemas de logística no Brasil, e hoje cobre 40% da população brasileira, conectando motofretistas a empresas que desejam fazer uma entrega. O fundador Fabien Mendez é francês, mas fez intercâmbio na Fundação Getúlio Vargas de São Paulo quando mais jovem e, mais tarde, voltou à cidade e decidiu empreender. Em um país onde uma entrega no comércio eletrônico leva em média 13 dias, a oportunidade de mercado era clara. Mas encontrar o modelo ideal foi duro. “A vida do empreendedor não é linear, há muitos altos e baixos até estabilizar o negócio”, diz Mendez. Com um aporte de 150 milhões de dólares feito em junho por SoftBank, GGV Capital, Fifth Wall e Velt Partners, além da Microsoft, a empresa planeja expandir os serviços de entrega para além das grandes cidades e alcançar os mais de 5.000 municípios do Brasil até o fim do ano que vem, por meio de um braço de parceiros franqueados – projeto chamado de LoggiLeve e no qual a companhia trabalhou secretamente ao longo deste ano. O objetivo é fazer entregas em até 48 horas mesmo em locais remotos. Em outra frente, pretende adquirir até aviões para se consolidar como uma grande operadora logística.

O Brasil é o carro-chefe de um momento de otimismo na América Lati na. Além das startups brasileiras e de empresas de capital aberto, como a argentina Mercado Livre (fundada em 1999 e que vale 29 bilhões de dólares na bolsa de Nova York), a América Latina tem somente a colombiana Rappi como unicórnio – e a startup, por sua vez, tem no Brasil seu principal mercado. A PitchBook passou a classificar como unicórnio a fintech de pagamentos argentina Ualá, que recebeu neste mês aporte de 150 milhões de dólares liderado por Tencent e SoftBank, embora a avaliação ainda não seja confirmada. Assim, a região, que tem problemas semelhantes aos do Brasil, pode ser também um celeiro de oportunidades para as empresas nascidas aqui. O Ebanx, com sua plataforma de gestão de pagamentos “sem fronteiras”, começou em 2012 oferecendo a empresas estrangeiras a possibilidade de vender no Brasil, mesmo para clientes que não tinham cartão internacional. Logo a empresa percebeu que o problema era o mesmo em toda a América Latina, e hoje opera em oito países da região, além de estar entrando também em pagamentos locais, usando a expertise que já possui. No começo, foi difícil explicar às empresas estrangeiras o que eram especificidades latino-americanas, como um boleto bancário ou pagamento em parcelas – além de convencer gigantes globais a apostar em uma startup sediada na então pouco conhecida cidade de Curitiba. Mas foi, em parte, graças a essa ponte feita pela fintech curitibana que nomes como o AliExpress, do grupo Alibaba, conseguiram fincar a bandeira no Brasil. “Virar unicórnio não muda nosso dia a dia, mas é uma validação importante de um movimento que começamos na região”, diz o cofundador do Ebanx e seu diretor financeiro, Wagner Ruiz.

Ao mesmo tempo que foi um ano animador para o empreendedorismo nacional, 2019 trouxe dúvidas sobre o modelo de crescimento ancorado em capital de risco. Na vida real, há um detalhe conceitual importante: unicórnios são empresas avaliadas em 1 bilhão de dólares que não necessariamente valem essa cifra. Quantas vão conseguir? É uma questão a ser respondida com o tempo. “Daqui a uns cinco anos vamos saber de fato quanto valem as startups brasileiras mais promissoras”, diz Marcos Toledo, sócio do fundo Canary. Claro que os aportes crescentes são um bom sinal. Em julho, a empresa de pagamentos Nubank levantou 400 milhões de dólares em sua sétima rodada de captação de investimento, junto ao fundo americano TVC. Avaliado em 10,4 bilhões de dólares, o Nubank vale mais do que empresas tradicionais listadas em bolsa, como a fabricante de cosméticos Natura ou a petroquímica Braskem. Seria a 20ª empresa mais valiosa da bolsa brasileira caso estivesse listada. Todos os unicórnios, com a desvalorização do real, estariam pelo menos entre as 60 empresas mais valiosas do Ibovespa, principal índice da bolsa. A prova real costuma vir justamente da abertura de capital, que dá saída para os investidores. É um passo que foi dado pela empresa de pagamentos Stone, que levantou 1,5 bilhão de dólares ao abrir o capital na bolsa americana em 2018. Fundada em 2012, a startup de meios de pagamento investe em ferramentas de gestão, acessadas com as maquininhas, essenciais para a sobrevivência e para a rentabilidade dos milhares de restaurantes por quilo, salões de beleza e mercadinhos que acende. Agora, prepara-se para lançar funcionalidades específicas para as necessidades de cada segmento. “Um restaurante ou um mercado talvez tenham mais necessidade de uma gestão de estoque refinadíssima do que um salão de beleza”, diz Augusto Lins, presidente da Stone. A empresa também lançou neste ano uma conta digital, sem cobrança de tarifas.

A abertura do capital (IPO, na sigla em inglês) é um momento de vai ou racha que tem feito estragos em algumas das empresas que já foram os unicórnios mais incensados do mundo. Desde o IPO no primeiro semestre, a Uber e a rival americana Lyft já perderam mais de 30% do valor de mercado, assim como a ferramenta de mensagens corporativas Slack. O “sinal vermelho” definitivo veio com o “não IPO” da empresa de aluguel de escritórios compartilhados WeWork, acompanhado como capítulos de uma novela nas últimas semanas. Ao mostrar no prospecto que perdeu 1,9 bilhão de dólares só em 2018 (e que o prejuízo quadruplicou desde 2016), a empresa fez os potenciais acionistas fugir do IPO. O valor de mercado implodiu – de 47 bilhões para 8 bilhões de dólares -, revelando uma faceta pouco conhecida da onda de investimentos bilionários em startups. Quando o valor para de crescer, ou cai, os empreendedores costumam ser as primeiras vítimas. Adam Neumann, fundador do WeWork e acusado de várias ações reprováveis, foi expulso da companhia por seu maior investidor, o fundo SoftBank. O SoftBank, por sua vez, virou o símbolo maior de uma espécie de distorção do capitalismo mundial, com valores fora da realidade aplicados pelos fundos em empresas sem projetos estruturados de como dar retorno. A chegada de novos recursos pode fazer uma companhia dobrar apostas equivocadas. “Não recomendo a nenhum empreendedor buscar o status de unicórnio porque pode cair em armadilhas. Uma rodada de investimentos menor do que a anterior pode deixar os fundadores sem nada”, diz Romero Rodrigues, sócio do fundo de investimento Redpoint Ventures e ex-dono do site Buscapé.

Segundo Rodrigues, as empresas precisam estar preparadas também para uma eventual redução da liquidez global. Riscos não faltam. Entre eles estão os novos capítulos da guerra comercial de Donald Trump não só com a China, mas com países como o Brasil e a França; a possível retomada dos juros brasileiros em 2020 com desvalorização do real; as eleições nos Estados Unidos e no Reino Unido. Uma redução na liquidez pode levar à lona dezenas de startups bilionárias. “Muitas empresas que hoje são unicórnios deixariam de fazer sentido em um cenário de capital caro”, diz Peter Felron, do Benchmark, que esteve no Brasil para fechar o negócio da Wildlife. O maior desafio é saber qual é a hora de parar de crescer e passar a direcionar os esforços para tornar positiva a última linha do balanço. O primeiro unicórnio brasileiro, a empresa de transportes 99, por exemplo, está aproveitando o bom momento para crescer em novos nichos. A 99 anunciou neste mês o 99Food, que marcará sua entrada no segmento de alimentação – um mercado altamente concorrido, com Rappi, iFood e Uber Eats, e do qual a espanhola Glovo já desistiu no ano passado. “A operação da 99 é sustentável e está muito perto de atingir lucro”, diz o chinês Tony Qiu, presidente da 99. Quanto antes os unicórnios nacionais passarem do discurso do lucro futuro para a prática rentável, melhor para o ecossistema empreendedor. O ideal é que, no futuro, o Brasil seja celeiro não de uma dezena de promessas mas de um punhado de grandes empresas sólidas, lucrativas e entre as maiores do país e do mundo.

CRESCIMENTO VITAMINADO

O avanço dos fundos de capital de risco tem impulsionado o aparecimento de startups bilionárias. E faz acender alertas de bolhas em alguns mercados

ONDE ESTÃO OS UNICÓRNIOS NO MUNDO

O valor de mercado global de todos os unicórnios passa de 1,3 trilhão de dólares

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A ESCOLA DO AMOR

Quando os filhos se aventuram pelos caminhos do amor, frequentemente só uma coisa ainda pode ajudar os pais: a confiança

Um dia os pais se dão conta de que os filhos não são mais crianças. A filha volta para casa de madrugada, e na manhã seguinte, quando aparece para tomar o café da manhã, está um trapo. Diante das perguntas dos pais, responde com monossílabos ou desvia o olhar. Fracassam todas as tentativas de saber algo sobre os motivos daquele estado de espírito.

Muitos pais veem as primeiras aventuras amorosas de seus rebentos com sentimentos contrastantes: sentem-se chamados à responsabilidade, mas também constatam que os filhos estão se esquivando de seu controle. Qual a profundidade do primeiro amor e quando se manifestam as primeiras relações sentimentais que se caracterizam, pela atração sexual? Os psicólogos do desenvolvimento, espantosamente, só se perguntaram essas coisas há pouco tempo.

Em 1999 Wyndol Furman, pesquisador da Universidade de Denver, Estados Unidos, dividiu a adolescência em quatro fases, iniciação, status, afeição e vínculo. No final da infância meninos e meninas ainda brincam na maior parte das vezes, em grupos rigorosamente separados. Apenas por volta dos 12 anos, na fase da iniciação, estreitam-se os primeiros vínculos de afeto, quase sempre dentro do grupo de amigos da mesma idade. Os encontros sentimentais são espontâneos e de breve duração. Os amigos oferecem um ambiente protegido, no qual os encontros com o sexo oposto podem ter lugar sem receios. Os adolescentes na verdade se amam intensamente, sem, contudo, distinguir a fantasia da realidade.

Entre 14 e 16 anos passam a se perguntar se o par seria realmente a pessoa “certa”, e qual consideração ele teria entre os melhores amigos e no grupo? Tornam-se cada vez mais decisivos, para o desapontamento dos pais, os aspectos exteriores. Nessa fase do status, importam a marca do jeans ou o corte de cabelo, assim como a maturidade física. Se um garoto continuar pequeno em comparação aos meninos da mesma idade, é quase inevitável uma queda de status.

As análises a respeito do modo como garotos e garotas dividem seu tempo confirmam a importância dos amigos nessas duas fases. Meninos entre 13 e 16 anos convivem com os amigos cerca de metade do tempo livre e as meninas ainda mais. Os grupos são mais íntimos que os das crianças; neles a lealdade, a exclusividade e a troca de informações confidenciais desempenham um importante papel. Para as meninas, a melhor amiga é como um espelho, com a ajuda do qual podem continuar a desenvolver a própria identidade.

Nessa fase desenvolve-se uma ideia de intimidade física e emocional: um protótipo de relacionamento. As experiências com os amigos determinam quanta proximidade emocional e física esses adolescentes, uma vez adultos, irão esperar de seus parceiros.

A fase seguinte, a da afeição, em geral vai da metade para o fim da adolescência, ou seja, dos 16 aos 18 anos. Nela, pela primeira vez, caracteriza-se a figura do parceiro. Os jovens passam a ser vistos cada vez mais em casais isolados, e a relação se torna mais exclusiva, íntima e duradoura. São típicos fortes sentimentos positivos, mas também sensações contraditórias, como manifestações de exultação ou angústias fúnebres. O tempo com os amigos diminui e a relação sentimental de casal vira prioridade.

Na idade de jovem adulto – de 18 a 20anos – a relação sentimental muda mais uma vez. Nessa, a fase do vínculo, o profundo envolvimento emocional é mantido, mas surge uma visão mais pragmática. Os jovens refletem sobre a consistência do casal que formam e avaliam se o parceiro seria adequado para uma longa convivência ou para formar família. O casal passa junto cerca de 50% de todo o tempo livre.

A força do vínculo do casal aumenta e com ela a frequência dos conflitos: desse momento em diante, o jovem terá de decidir quanta liberdade individual será concedida ao parceiro. Nas primeiras duas fases, a questão era equilibrar as relações com os amigos e com o par amoroso. Na adolescência adiantada, o objetivo, ao contrário, é estabelecer um vínculo harmonioso e íntimo entre o casal.

INFLUÊNCIA DOS PAIS

Estudos psicológicos mostram que crianças que se sentiram seguras e protegidas com os pais quando adultas vivem maior intimidade em seus relacionamentos amorosos e sentem mais satisfação sexual. Se a relação com os pais foi distante e com pouca confiança, no futuro terão escassa intimidade emocional e uma dedicação ao outro bastante modesta. Filhos que recearam ser “abandonados” pelos pais têm relações amorosas na idade adulta frequentemente dominadas pelo sexo e não conseguem estabelecer uma relação emocional plena.

No início da puberdade, a proximidade física dos pais é sentida como incômodo e os filhos já não expressam tanto seus sentimentos. Passam a discutir os problemas mais com os amigos. Ainda assim, mantêm uma forte ligação emocional – até latente – com os pais.

Outros fatores determinarão a qualidade dos relacionamentos de casal dos jovens adultos, sobretudo a maturidade física e sexual. Os psicólogos americanos até agora pesquisaram esses fatores quase exclusivamente como “fatores de risco” para relações sexuais precoces demais. Devemos considerar que a crescente “pressão das pulsões” não se transforma diretamente em afeto amoroso. Os meninos, a partir do início da puberdade, com certa frequência têm o problema de se verem com o membro ereto nos momentos menos apropriados. Por outro lado, ainda são tímidos para ter relações sexuais com o sexo oposto.

Uma postura positiva com o próprio corpo influi sobre os próprios atrativos sexuais e sobre em que medida amizade e intimidade se expressam nos relacionamentos amorosos dos jovens adultos.

É tempo de definir seu papel com os amigos, na família, na escola e na escolha de uma profissão. Aprender a perceber os próprios traços essenciais, antes de integrá-los à imagem que têm de si. Somente quem alcançou uma identidade própria viverá de modo pleno a união com o outro sexo.