OUTROS OLHARES

LUZ, CÂMERA, POST

O aplicativo chinês Tik Tok atrai milhões de adolescentes com vídeos curtos e banais que lançam modismos e agitam a concorrência. O Facebook já criou uma cópia

Talvez o leitor nunca tenha ouvido falar do Tik Tok ou, se ouviu não entendeu nada – e isso é bastante compreensível. O aplicativo chinês d vídeos rápidos que emplacou o primeiro lugar entre o apps mais baixados do planeta em agosto fala direto ao integrante da geração Z, uma turma nascida entre 1995 e 2010 dona de olhar e vocabulário muito próprios. À primeira vista, parece só besteirol de rede social – o que dizer de um sujeito que lança uma melancia no teto de um supermercado corre para que a fruta não despenque sobre sua cabeça e… fim? Essa impressão pode persistir na segunda, na terceira incursão, mas o fato é que meio bilhão de pessoas fizeram o download e, ao seu modo, o app já influencia o jeito como elas cantam, dançam, se vestem e até contam piada. Os que conseguem arrastar milhões para a tela dos smartphones são promovidos a tiktoker, um mestre nos vídeos de até um minuto. “Nenhuma rede hoje alcança tão rápido o público jovem”, diz o paraibano Apollo Costa 22 anos, veterano no YouTube. Ele ostenta no TikTok mais de 830.000 seguidores e contrato publicitário, entre os quais o de uma marca de refrigerante que estrela um de seus filmetes.

O sucesso de gente como ele ajuda a desvendar o que encanta no recém­ descoberto aplicativo bem adaptado a um mundo ligeiro e afeito às imagens. “Um forte traço dessa geração que nasceu nas redes é a preferência por vídeos curtos no lugar de textos longos. Ela lê, sim, mas busca informação rápida”, analisa Francisco Brito Cruz, diretor do Internet Lab, da USP. O tiktoker Apollo, por exemplo, oferece ao espectador coreografias animadas por hits dublados, proporcionando um flash de humor, assim como vários outros que se encontram por lá. A espontaneidade é a grande marca dos vídeos, seja ela exercida por um adolescente que canta firme debaixo do chuveiro e trava quando sai do boxe (a hashtag cantando no chuveiro recebeu 4,1 milhões de menções), seja em um dueto de gêmeos que dançam coordenados (3,6 milhões de curtidas). “Esqueça o menu de 21 pratos. Aqui você terá beliscas com um pouco de tudo: drama, comédia música, dança”, frisa o crítico de TV americano James Poniewozik. Por “de tudo” entenda-se a espécie humana agindo sem amarras nem preocupação com o que vão pensar.

Criado em 2017 pelo conglomerado ByteDance, gigante de tecnologia na China (de novo ela) o TikTok bebeu da fonte do finado aplicativo de vídeos Vine e comprou o conterrâneo Musical.ly com sua base de usuário para dar a partida em um negócio cuja receita anual gira em torno de 2,5 bilhões de dólares. A empresa não revela cifras, mas sabe-se que fatura com anúncios em sua página e com uma parcela do que os fãs doam aos tiktokers. Entre os chineses, o app pegou logo (apesar das acusações de que a censura local anda passando a peneira) e aos poucos, chegou aos Estados Unidos e ao Brasil, onde fincou base em São Paulo, com o plano de se espalhar pela América Latina. O Facebook de Mark Zuckerberg sentiu o baque: há quase um ano, criou um app à imagem e semelhança do TikTok. O Lasso foi baixado 250.000 vezes no EUA (uma vírgula perto do 1 bilhão de downloads do chinês). “Vamos ver se conseguimos fazer o Lasso funcionar em países onde o TikTok ainda não é muito grande antes de competirmos com ele onde é muito popular”, disse Zuckerberg em uma reunião em julho, cuja gravação vazou.

É verdade que o Instagram também oferece, com seus stories, a possibilidade de pílulas visuais – só que com menos ferramentas. Mas as diferenças que estão deixando a concorrência atenta são de outra ordem. O TikTok liberta o usuário de ritos como criação de perfil, convite a amigos, pedidos para segui-los. Quem quer postar precisa de cadastro; os demais abrem o app e saem assistindo. Para a garotada, parece um ambiente mais leve, onde as relações se dão por afinidade momentânea. “Não é como o Instagram, no qual um tenta convencer o outro de sua alegria, nem como o Twitter, no qual a persuasão se dá pelas ideias. No TikTok é: olha que legal o que eu fiz; você pode. É inclusivo”, resume Poniewozik. Um dos motores para a socialização são os desafios – imitar um personagem de videogame, copiar uma coreografia funk, formar a asa de um cisne com a perna. Daí vão surgindo modinhas e conexões, com um mundo de desconhecidos se seguindo. Essa multidão catapulta figuras como o rapper americano Lil Nas X, 20 anos, que, de ilustre anônimo, disparou no ranking da Billboard e foi premiado no Vídeo Music Awards depois que a canção Old Town Road viralizou em um desses desafios. Isso é TikTok.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 16 DE FEVEREIRO

LAR, LUGAR DE RESTAURAÇÃO

Acima de tudo, porém, tende amor intenso uns para com os outros, porque o amor cobre multidão de pecados (1Pedro 4.8).

O lar não deve ser um campo de batalha que mata seus feridos, mas um hospital que cura seus enfermos. A família é o lugar no qual aqueles que caíram podem levantar-se. É o cenário no qual o perdão triunfa sobre a mágoa e a reconciliação prevalece sobre a hostilidade. Vemos hoje com tristeza muitas famílias em crise, muitos casamentos desfeitos, muitos lares destroçados. Assistimos, com lágrimas nos olhos, a pais se revoltando contra os filhos e a filhos matando seus pais. Constatamos com profunda dor uma inversão de valores na família: as coisas substituindo os relacionamentos e a avareza destronando o amor. Não podemos concordar com essa marcha inglória. Precisamos colocar o pé no freio e impedir essa corrida galopante rumo ao desastre. O lar não pode ser o território da mágoa e da indiferença, das brigas raivosas ou do silêncio gelado. O lar precisa ser um paraíso na terra, um jardim no deserto e uma antessala do céu. O lar precisa ser um canteiro fértil onde floresça o amor que cura e restaura, que perdoa e esquece, que abençoa e celebra. O lar é o lugar onde os perdidos são encontrados e os que estavam mortos em seus delitos e pecados recebem vida e restauração. O lar é o lugar onde choramos nossas dores e celebramos nossas vitórias. O lar é o lugar onde somos amados não apenas por causa das nossas vitórias, mas apesar dos nossos fracassos.

GESTÃO E CARREIRA

DEU MATCH

“Sabe o que seria legal no dia da Consciência Negra? Você, branco privilegiado que se diz antirracista, comprar um livro que um negro precisa e enviar para ele.” Era 20 de novembro de 2018. Nascia assim, com um post no Twitter, o projeto WinnieTeca. Idealizado pela gaúcha Winnie Bueno, 31 anos, a proposta é tão simples quanto genial – conecta quem precisa de um livro a quem se dispõe a doar. Uma espécie de “Tinder de livros”. Até o mês passado, o processo era manual. Com o apoio do Geledés Instituto da Mulher Negra e graças a uma parceria com o Twitter, o “match” agora está automatizado – basta acessar https :// t.co/y3cNJxrTXU?amp=l. Em pouco mais de um ano, cerca de mil exemplares já foram despachados Brasil afora. Bacharel em Direito e aluna de doutorado com tese sobre o pensamento da socióloga americana Patrícia Hill Collins, Winnie sugere que os livros doados sejam novos. “Para quem não ganha nada, ganhar algo novo tem um significado importante”, diz. “E eu adoro o cheiro de livro novo.”  Assim como as madeleines transportavam o escritor francês Marcel Proust (1871-1922) para a juventude, a memória olfaltiva de Winnie a leva para a infância. À alfabetização com a avó materna, Eli, hoje com 90 anos, que só tem a quarta série, mas nunca parou de ler. Às obras que a mãe, Sandrali, psicóloga, trazia das reuniões do movimento negro. E a Joel Rufino dos Santos, autor de A Botija de Ouro, seu livro de criança, sobre uma escrava que, faminta, rói a parede da cela onde está presa e encontra um pote encantado

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

HERANÇA GENÉTICA

Certas pessoas são viciadas em álcool, enquanto outras bebem com moderação. A explicação vem, em certa medida, dos genes: Alguns tornariam o cérebro mais ou menos passível de dependência

Nenhum de nós é igual diante da dependência. Uma pessoa contenta-se com dois ou três cigarros por dia, outra consome até dois maços. Porquê? O que as diferencia? Personalidade, história, situação profissional, meio?

Vamos examinar aqui a hipótese de que fatores genéticos predisponham à dependência. Segundo essa tese, quando alguém se vê diante de um comportamento compulsivo, seja uso de drogas, dependência da internet ou ainda dependência do trabalho, determinados genes são ativados. A identificação precoce desses genes permitiria descobrir quem corre risco de se tornar dependente e impediria que mecanismos da adição se desenvolvessem.

Na última década, a ciência empenhou-se na buscada identificação dos genes que predispõem o indivíduo para o uso abusivo de drogas. Há muito os médicos associam a dependência à farmacodependência, situação de quem depende de uma droga. Enquadram-se nessa categoria as pessoas que apresentam sintomas característicos da privação, tais como dores, mal-estar geral e uma sensação de carência quando o consumo é interrompido. O inconveniente de se basearem tal critério é que só é possível fazer o diagnóstico naqueles com grau avançado de adição. A intervenção precoce e, portanto, eficaz, é praticamente impossível.

Para além da farmacodependência, o vício no álcool, heroína ou maconha, ou ainda no jogo, esporte ou bulimia, têm características comuns: a incapacidade de controlar o consumo ou comportamento apesar das evidências de que tais hábitos são nocivos. O bulímico constata que livrar-se da comida forçando o vômito ou tomando laxantes pode ter consequências perigosas, enquanto o fumante sabe que está exposto ao risco de câncer ou doenças cardiovasculares. Por esses motivos e por outros relacionados ao meio social, às dificuldades enfrentadas nos períodos de privação, às atitudes compulsivas ou à marginalização, os comportamentos que levam à dependência geram sofrimento tanto para dependentes como para quem convive com eles. Constituem um impedimento para saúde, trabalho, relações sociais, vida cotidiana.

Durante muito tempo, o principal critério de identificação da dependência foi a necessidade irresistível de consumir a droga ou entregar-se ao comportamento compulsivo, incapacidade de desempenhar normalmente diversas atividades na ausência da droga, e os sintomas que acompanham os períodos de privação.

Atualmente, três mecanismos cerebrais e psicológicos que levam à patologia da adição são estudados com mais atenção: a apetência, a busca de sensações e a impulsividade. A apetência é a vontade de conseguir o produto e consumi-lo, enquanto a busca de sensações e de novidade é característica em certas pessoas que logo se cansam de qualquer atividade repetitiva e só são estimuladas por comportamentos que as levem a descobrir sensações ou domínios sempre renovados. Finalmente, a impulsividade é a incapacidade de adiar determinados atos considerados imperativos. Esses diferentes aspectos são estudados no plano da genética: o objetivo é descobrir os genes que favorecem tais tendências.

Os estudos genéticos concentram-se essencialmente no composto tóxico mais acessível e mais consumido: o álcool. Pesquisas sobre a dependência do álcool no âmbito das famílias são praticamente unânimes: a existência de um alcoólico na família aumenta a frequência da doença em seus parentes, e tanto mais quanto se trate de um parente próximo. A incidência do alcoolismo na população em geral varia de 2% a 5%. Entre irmãos e irmãs de um alcoólico, sobe para 10% e 50%.

Além disso, comparando-se a frequência da doença em gêmeos monozigóticos (que têm o mesmo patrimônio genético) e em dizigóticos (que partilham apenas metade desse patrimônio), mostrou-se que os fatores determinantes do nível de consumo de álcool são: para 43%, fatores genéticos, para 37%, o meio em que foi educado (o fato de ter crescido, por exemplo, num clima de forte consumo de álcool aumenta o risco de crianças terem, mais tarde, o mesmo comportamento); e para 20%, outros fatores, não elucidados, ligados ao ambiente não familiar.

Os pais adotivos de filhos alcoólicos são em geral menos alcoólicos que os biológicos, o que confirma o caráter genético do alcoolismo. O psiquiatra americano Roben Cloninger salienta que não apenas o alcoolismo é herdado, mas principalmente um tipo de consumo (com início precoce e abusivo), devendo-se considerar também outros fatores associados (o sexo masculino e uma conduta anti social). Ele distingue dois subtipos de alcoolismo, segundo a importância do determinismo genético: o tipo I, ou abuso condicionado ao meio que se manifesta tanto no homem como na mulher, caracteriza-se por abuso moderado, com início na idade adulta, sem antecedentes criminais nos pais biológicos. O tipo, lI ou vinculado ao sexo do alcoólico, começa precocemente, é marcado por grave abuso, grande índice de criminalidade nos pais biológicos e componente genético pronunciado.

Cloninger mostrou que o peso da herança genética varia de 21% no tipo I a 88% no II. Além disso, os comportamentos associados a cada subtipo diferem, indicando diferenças no funcionamento cerebral. Assim, os pacientes do tipo II se caracterizariam por um perfil psicológico de “busca de novidade” (comportamentos de risco frequentes e procura por sensações intensas), temeriam menos a dor e menos necessidade da recompensa que os outros, isto é, seriam menos sensíveis às recompensas não imediatas, a raciocínios do tipo “se eu parar de beber agora, minha situação familiar vai melhorar, e logo vou arranjar um emprego”. Nos do tipo I, acontece exatamente o contrário.

Em 2000, a equipe de Marc Schuckit, da Universidade da Califórnia, publicou os resultados de uma pesquisa realizada ao longo de 20 anos, com mais de 500 pessoas escolhidas ao acaso. O estudo visava descobrir os marcadores precoces (antes de qualquer consumo) que permitiriam identificar os potenciais dependentes. Os resultados mostram que nem o temperamento da pessoa, nem o meio familiar, tampouco o nível intelectual teem influência considerável. O único fator determinante é a tolerância inicial ao álcool. Aqueles que toleram muito bem o álcool, sentem menos embriaguez, têm menos problemas de coordenação motora, de equilíbrio e correm um risco maior de desenvolver mais tarde uma dependência ao álcool. Ora, essa tolerância inicial é em larga medida determinada por fatores genéticos: segundo estudos com gêmeos, em que se observou especificamente esse traço, sua influência é de 60% (em 60% dos casos, se um gêmeo apresenta uma forte tolerância ao álcool, o mesmo acontecerá com seu irmão).

Como o álcool não é a única substância que cria dependência, a maconha também foi alvo de estudo para se identificarem fatores precoces de risco de dependência. Como no caso do álcool, é o impacto inicial do princípio ativo da droga, nas primeiras vezes em que é consumida, que indica o risco de uma evolução para a dependência. Com uma diferença, porém: aqui o fator determinante não é a tolerância neurológica e cognitiva, mas a euforia provocada. Tanto que, nas pessoas que ficam eufóricas nos primeiros contatos com a maconha, o risco de criar dependência é sete vezes maior que naquelas cuja experiência não tenha sido agradável.

Outra particularidade transmitida hereditariamente é a de ruborizar-se depois de tomar os primeiros copos de bebida alcoólica. Essa reação é mais frequente nas mulheres, e muito mais comum entre asiáticos que entre europeus. A pessoa empalidece, enrubesce, sente calor no rosto, fica aturdida e às vezes chega até a desfalecer, ainda que tenha ingerido uma quantidade muito pequena de álcool. Essa forma de intolerância ao álcool muitas vezes é determinante: não se pode tomar mais nada. Isso ocorre porque normalmente o álcool é degradado por enzimas em acetaldeído, que é eliminado por outras enzimas. Em algumas pessoas, as enzimas que degradam o acetaldeído são pouco eficazes: o acetaldeído se acumula, provocando a reação. Os genes que codificam as enzimas de degradação pouco eficazes passam de pai para filho.

A situação se complica quando se considera as patologias hereditárias que predispõem à dependência. Muitos pacientes alcoólicos tiveram transtornos psiquiátricos na infância ou adolescência, entre eles a hiperatividade com déficit de atenção, caracterizada por instabilidade motora, impulsividade e dificuldades de concentração. Esse problema é dos mais frequentes nas crianças, e atinge de 3% a 5% das que estão em idade escolar, afetando sua vida familiar, social e escolar. Multiplica por oito o risco de desenvolver o que se chama de distúrbios de comportamento (roubos, fugas e acessos de brutalidade). Muitas vezes se seguem atos ilegais (um risco 12 vezes maior que na média das pessoas), além disso, os pacientes correm um risco 13 vezes maior, em relação à média da população, de desenvolver uma personalidade psicopática na idade adulta. E, para encerrar essa cadeia, o fato de ter personalidade psicopática multiplica por 21 o risco de dependência. A sequência que acabamos de descrever leva da hiperatividade ao alcoolismo, ela não é inelutável, mas existe.

Sabemos que os marcadores elementares da dependência ao álcool são personalidade psicopática, apetência, tolerância, euforia. Resta estabelecer uma relação entre eles e eventuais genes. Para tanto, deve-se considerar o fato de que o comportamento de dependência corresponde, em termos neurobiológicos, a uma alteração do funcionamento cerebral. Em situação de dependência, alguns mensageiros químicos cerebrais não são liberados da mesma maneira, ou não têm exatamente o mesmo efeito sobre os neurônios. Toda a comunicação entre células nervosas se encontra modificada, levando a pessoa a procurara substância de que se tornou dependente. No caso da tolerância ao álcool, o receptor do neurotransmissor CABA funcionaria de forma ligeiramente diferente em cada pessoa, criando um terreno mais ou menos sensível ao álcool.

Por sua estrutura molecular, o álcool facilita a fixação do GABA em seu receptor. Assim, variações genéticas que dotam o indivíduo de formas mais ou menos ativas do receptor GABA têm consequências sobre as reações dessas pessoas ao álcool. Mais precisamente, o GABA é um mensageiro inibidor, fixando-se em seus receptores, provoca uma entrada maciça de íons cloreto nos neurônios, o que impede, por algum tempo, a propagação de toda e qualquer informação na rede de neurônios. Facilitando a fixação de GABA em seu receptor, o álcool interrompe a transmissão das informações nervosas por um período prolongado. Com certeza aí está a causa de certos efeitos depressivos do álcool, mais acentuados em indivíduos com receptores do GABA especialmente ativos.

Além disso, o álcool potencializa a ação do GABA no cerebelo, o que poderia explicar os problemas de coordenação motora observados nos casos de intoxicação etílica, uma vez que essa estrutura é responsável pela coordenação dos movimentos. Observe-se também que o receptor do GABA (mais especificamente o receptor de tipo GABA) é o alvo preferencial dos tranquilizantes, benzodiazepínicos e barbitúricos. O álcool age como tranquilizante: a pessoa que se dispõe a parar de beber se priva, de certa maneira, de um sedativo, que até então atuava sobre seus receptores GABA. Isso provoca um estado de ansiedade, e às vezes convulsões.

Pesquisadores demonstraram em ratos de laboratório que os genes codificadores de receptores do GABA determinariam o nível de sensibilidade ao álcool. A um desses genes, em especial, atribui-se a responsabilidade por essas diferenças, ele comanda a síntese da subunidade C6, uma das peças destacadas” do receptor GABA. Os ratos têm formas diversas dessa subunidade e, por causa de seu tipo, estão sujeitos a problemas de coordenação motora e de sono mais ou menos graves, depois da ingestão de álcool.

Continuando esse estudo em humanos, a equipe de David Goldman, da Universidade de Bethesda, Estados Unidos, constatou em 2004 que, nas populações indígenas da América, o alcoolismo passa de uma geração a outra simultaneamente à transmissão de uma porção de cromossomo que contém o gene da subunidade C6 do receptor GABA. Por fim, uma das formas desse gene associa-se efetivamente a uma melhor tolerância ao álcool na idade de 20 anos, tolerância que, como assinalamos, é o único marcador específico do risco posterior de dependência ao álcool.

Além do gene do receptor do GABA, o neuropeptídeo Y (NPY) também interviria nos fatores de risco de dependência. Esse pequeno peptídeo participa dos mecanismos de controle do apetite, da recompensa, da ansiedade e do equilíbrio energético. Por meio da engenharia genética, foram criados ratos cujo organismo produz diferentes quantidades de NPY. Quanto mais neuropeptídeo Y for secretado, menor a tendência a beber álcool e maior a capacidade de suportar seus efeitos. Os trabalhos de Robert Stewart, da Universidade de lndianápolis, mostraram que o neuropeptídeo Y, injetado no cérebro de ratos, reduz seu consumo de álcool. Assim, essa molécula constituiria um sinal de satisfação para o rato, pois ativa os neurônios de dopamina.

Um estudo finlandês mostrou que, no homem, uma variante particular do gene do neuropeptídeo Y (o alelo P.07) está associada a um consumo médio de álcool 34% superior à média. Supõe-se que a variante Pro7 seja uma forma menos ativa do peptídeo, que ativaria sinais de satisfação menos intensos. Como consequência, o organismo deve secretar uma maior quantidade para provocar a mesma satisfação. Como a secreção é comandada pela ingestão de álcool, para se sentir bem, a pessoa consome mais.

Essa relação seria incompleta sem a família dos receptores que foram objeto do maior número de pesquisas sobre o alcoolismo, a família dos receptores da dopamina. É a dopamina que fixa a dependência no cérebro. Proporciona prazer, associando-o ao produto consumido ou ao comportamento que causa dependência. Pode-se estimular artificialmente os neurônios de dopamina do cérebro de ratos, implantando neles eletrodos e dando descargas elétricas. Os ratos aos quais se dá a possibilidade de ativar os eletrodos pressionando uma pequena barra não desejam outra coisa, a ponto de se esquecerem de alimentar-se e de se reproduzir. No homem, os mesmos estímulos provocam uma sensação de prazer e de satisfação.

O álcool atua sobre esses neurônios do prazer. Com efeito, observou-se que pequenas doses de álcool induzem à liberação da dopamina na área tegmental ventral, uma região do cérebro essencial ao prazer associado a droga, alimentos ou relação sexual. O ponto de partida da ação do álcool é certamente o já mencionado receptor do GABA. Neurônios que contêm esse receptor inibem neurônios intermediários que param de inibir os neurônios de dopamina. Essa “inibição da inibição” termina por produzir uma ativação do neurônio de dopamina e uma sensação de prazer.

Os neurônios de dopamina são ativados na área tegmental ventral, que constitui um mecanismo de exploração. Ativada, ela desencadeia comportamentos de busca de tudo o que possa propiciar novamente o mesmo prazer. Assim, ativada pelo álcool, ela suscitará, em seguida, uma exploração voltada para a busca do álcool.

A área tegmental ventral não é ativada apenas pela dopamina, mas também pelas moléculas que imitam sua ação e ativam os mesmos receptores (é o caso, principalmente, das anfetaminas e da cocaína). Os receptores da dopamina, que a fixam e transmitem-lhe os efeitos de uma célula a outra, constituem o outro elo da cadeia da dependência. Determinadas variantes do receptor da dopamina do tipo D, provocam uma hiper-reatividade do circuito de exploração e de busca de álcool. Em nosso laboratório, comparando os resultados de 40 estudos realizados por diversas equipes em todo o mundo, concluímos que um dos alelos, o A, do gene codificador do receptor D, da dopamina, aumenta em 30% o risco da dependência ao álcool. O gene do receptor é uma porta de entrada da dependência: um estudo realizado em junho de 2004, com mil doentes alemães e chineses e mais mil pessoas sãs, mostrou que outra de suas variantes está associada à dependência de heroína.

O conjunto desses trabalhos nos leva a crer que a dependência de substâncias como álcool, maconha, heroína, cocaína, anfetaminas ou de comportamentos repetidos de forma descontrolada (determinados casos de jogo compulsivo ou de esporte desenfreado) é atribuída em cerca de 50%, ao patrimônio genético. Resta saber quais os genes envolvidos nesse processo, onde eles atuam e com que fatores ambientais interagem. Para isso, é preciso investigar os genes responsáveis pela tolerância inicial à substância, pelo efeito que se sente nas primeiras vezes de consumo e pelas diversas características da personalidade que predispõem à dependência. Nesse sentido, os genes que induzem à busca de novidade e de sensações constituem um campo de exploração privilegiado.

0602