OUTROS OLHARES

VITÓRIA CONTRA O CÂNCER

Com diagnósticos precisos, engenharia genética, terapias celulares e a descoberta de novas drogas, ganha força a chamada oncologia de precisão, que preconiza tratamentos personalizados e sob medida. As esperanças contra a doença se renovam

As células modificadas voltam para o corpo e favorecem uma reação imunológica para combater a doença. A técnica usada, consagrada nos Estados Unidos, a CAR-T, é uma solução médica em fase de testes, cujos riscos ainda estão sendo reconhecidos. Vamberto só passou por ela porque era considerado um paciente compassivo, que tinha uma última chance de sobreviver, avaliada pela família e pela Comissão de Ética do hospital. Os resultados, porém, foram altamente positivos. Exames pós-tratamento mostram que dores e outros sintomas e as células tumorais desapareceram.

Apesar de impressionante, o uso da terapia celular — capaz, pelo que se vê, de interromper e regredir totalmente uma metástase – é só mais uma espantosa surpresa no aumento do arsenal contra o câncer nos últimos tempos. Em todas as frentes, há uma evolução notável nos tratamentos, que começam com a precocidade e a precisão do diagnóstico com sistemas inteligentes e equipamentos poderosos e contam cada vez mais com recursos para aumentar a sobrevida de uma pessoa em uma década ou até mesmo para acabar de vez com o tumor. Fala-se hoje em oncologia de precisão, em que a terapia é desenhada especificamente para o paciente, a partir de suas informações clínicas e genéticas do tumor.

No caso da CAR-T é assim que funciona. É um tipo de tratamento personalizado em que se leva em consideração a assinatura molecular do câncer para que se possa fazer uma arma específica contra ele. As células T modificadas com antígenos são usadas apenas no próprio indivíduo que as cedeu. “Se soubermos qual é a estrutura do tumor, a fechadura, podemos criar uma chave adequada para tratar o paciente”, diz o médico Renato Abreu, diretor do Centro de Terapia Celular do Hospital das Clínicas, responsável pelo tratamento de Vamberto. “E nesse caso a CAR-T foi um sucesso absoluto”.

“É uma terapia muito promissora e tem potencial para tratar diversos outros tipos de tumores”, diz a médica Yana Novis, coordenadora da onco-hematologia do hospital Sírio-Libanês. “Há estudos sobre seu uso no linfoma Hodgkin, mieloma múltiplo (que atinge a medula) e glioblastoma (um tipo de câncer no cérebro comum e agressivo), mas as técnicas ainda não têm a aprovação da FDA.” Por enquanto, nos Estados Unidos, a terapia celular é oferecida para o linfoma não Hodgkin de célula B e para a leucemia linfoblástica aguda e, mesmo assim, em casos extremos, para quem já vez diversos tratamentos prévios e passou por quimioterapia, imunoterapia e tentou tudo que se conhece. Pacientes tratados com células T modificadas nos Estados Unidos, como a garota Emily Whitehead, hoje com 14 anos, continuam vivos e apresentando um quadro de recuperação. Emily foi diagnosticada com leucemia linfoblástica aguda em 2012, aos seis anos, e ficou à beira da morte. A cura de um câncer é atestada depois de cinco anos de desaparecimento dos tumores.

Seja como for, não se imagina uma panaceia no tratamento do câncer, uma solução para todos os males. Junto com a terapia celular, não faltam outras soluções personalizadas. No leque de tratamentos inovadores e desenvolvidos sob medida há drogas chamadas de “alvo dirigidas”, que funcionam como mísseis destruidores de células cancerígenas e que atuam contra proteínas produzidas no próprio tumor. A chave do sucesso é reconhecer exatamente de que tipo de câncer se trata, quais as proteínas e anomalias associadas a ele e usar os recursos tradicionais e de engenharia genética disponíveis para cada caso. Cada tumor tem a sua assinatura no DNA e o câncer não é uma só doença, mas inúmeras. O que se busca é um tratamento mais focado em que se detecta a presença de determinadas moléculas derivadas do processo cancerígeno e se procura oferecer uma solução integrada compatível com o organismo do paciente.

MUTAÇÕES E DEFEITOS

“A oncologia generalista não faz mais sentido”, diz o médico Artur Katz, diretor geral de oncologia do hospital Sírio Libanês. “O caminho é a precisão e o grande passo para essa evolução é o aperfeiçoamento de técnicas de patologia molecular que permitem o reconhecimento de alterações nos tumores que podem ser exploradas pelo tratamento”. Esse tipo de abordagem tem funcionado bem contra o câncer de pulmão de não pequenas células, por exemplo. Nesse tipo de tumor são reconhecidos em laboratórios de patologia algumas mutações e defeitos como a EGFR, ALK, ROS1 ou HER2. Uma vez identificado o defeito, existem medicamentos específicos que podem ser empregados com excelentes resultados. Não por acaso, cada vez mais tipos de cânceres são enfrentados com a ingestão de um ou mais comprimido

Uma pílula contra o câncer de próstata foi apresentada no último congresso anual da American Urological Association. A droga em questão é a enzalutamida, que bloqueia o efeito da testosterona em células de indivíduos com tumores avançados. Pesquisa feita com 1125 homens que receberam uma injeção de medicamento supressor de testosterona e um comprimido por dia de enzalutamida mostrou que o risco de morte pela doença caiu em 33%. Outro medicamento que tem dado resultado é a apalutamida, já aprovada no Brasil, que reduz o risco de metástase ou morte em 72% dos casos de tumor na próstata.

Um medicamento lançado pelo laboratório Bayer e aprovado recentemente no Brasil, chamado larotrectinibe, cujo nome comercial é Vitrakvi, também revela bem essa tendência. É uma droga que pode impedir a evolução de qualquer tipo de câncer sólido (que não surge nas células do sangue), seja de mama, pulmão, cérebro ou intestino, desde que exista uma mutação incomum, conhecida como fusão do gene NTRK. Estima-se que 1% dos tumores sólidos apresente essa anomalia. Se a fusão for reconhecida em laboratório, o Vitrakvi se torna uma poderosa opção de tratamento e faz desaparecer os sintomas da doença. Normalmente indicado para casos em que o câncer se espalhou pelo organismo e não há outras opções terapêuticas, ele bloqueia a ação de substâncias que aceleram o crescimento de células cancerosas.

Menos agressivo que a quimioterapia, o Vitrakvi vem sendo usado com sucesso no Brasil pelo garotinho Levy Batista Nogueira, de 2 anos, que sofre de fibrossarcoma infantil, câncer raro e maligno que atinge os tecidos moles. Sua mãe, a médica cardiologista Monique Nogueira, diz que Levy toma o remédio desde novembro do ano passado e leva hoje uma vida normal. “Meu filho não apresentou nenhuma reação ao medicamento”, diz Monique. O caroço que comprometia a vida do garoto teve uma redução de mais de 70%. Com a estabilização tumoral ele não será submetido a um procedimento cirúrgico no momento. O tratamento de Levy está sendo bancado pelo laboratório farmacêutico.

A evolução do tratamento do câncer de mama, que atinge uma em cada oito mulheres, também dá motivos para otimismo. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), cerca de 60 mil novos casos da doença são diagnosticados anualmente no Brasil. Em 20% deles, por exemplo, aparece uma proteína chamada HER-2, que aumenta a agressividade do tumor. Há pouco tempo a presença da HER-2 era apenas um motivo de preocupação com o agravamento do caso. Agora é uma oportunidade de cura. O uso de medicamentos à base de anticorpos monoclonais, que atuam diretamente contra as células tumorais, é uma pequena revolução. Um medicamento injetável específico chamado T-DM1, desenvolvido pela Roche e aprovado em julho pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), reduz em 50% o risco de recorrência do câncer ou de morte do paciente, segundo o estudo Katherine, publicado no New England Journal of Medicine.

Outra terapia alvo conhecida como inibidora de CDK, que interrompe a atividade de enzimas promotoras de células cancerosas chamadas de quinases, também vem sendo usada com sucesso em alguns tipos de câncer de mama. O mais agressivo deles, chamado de triplo negativo, só era tratado por quimioterapia. As pacientes viviam em média 15 meses. Mas, agora, com drogas “alvo dirigidas” e imunoterapia, outro tratamento que tem se tornado mais inteligente e eficaz, a sobrevida aumentou para 25 meses. Usa-se o medicamento atezolizumabe, aprovado pela Anvisa em maio, nos casos em que existe a proteína PD-L1, que esconde as células tumorais.

O presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, Sergio Simon, diz que é fundamental, hoje, fazer testes genéticos para procurar alterações celulares a fim de fazer uma oncologia precisa. “Você pode encontrar muitos defeitos para os
quais não existem remédios, pode não encontrar nenhum defeito e pode encontrar defeitos que podem ser explorados”, afirma. Há dez anos a escolha do tratamento era mais simples e ineficaz, mas hoje prevalece a terapia agnóstica, em que não importa qual é o tipo do tumor, ou onde ele surge e sim o defeito que apresenta. “Não há uma conduta de trabalho único, como costumava acontecer, e estamos cada vez mais distantes de uma época em que havia simplicidade na definição do tratamento”, afirma Simon.

MARCADORES GENÉTICOS

O que se vislumbra para daqui três a cinco anos é a elaboração de painéis com marcadores genéticos específicos que fazem o sequenciamento das células doentes em busca de mutações para cada paciente. Esses painéis guiarão o tratamento na escolha de quimioterápicos, imunoterápicos, drogas “alvo dirigidas” ou no desenvolvimento de terapias CAR-T, que chegarão a diversos tipos de cânceres sólidos especialmente agressivos e com prognósticos ruins, como no cérebro ou no pâncreas. O tumor de pâncreas, por sinal, por sua dificuldade de detecção, malignidade e altas taxas de mortalidade, merece especial atenção.

Exames de DNA têm permitido combater com mais eficácia a doença em pacientes que apresentam as alterações genéticas BRCA 1 ou BRCA 2, característica de 7% dos afetados pela doença. Uma droga chamada olaparibe, da Astra Zeneca, já usada contra nódulos malignos na mama, interrompeu a progressão do câncer de pâncreas num teste clínico em voluntários com metástase. Descobriu-se que esse tipo de câncer pode estar associado à proliferação no órgão (que secreta enzimas digestivas no intestino delgado), de fungos do gênero Malassezia, encontrado no couro cabeludo e causador da caspa. Um estudo publicado pela revista Nature revelou que os fungos penetram no pâncreas e se multiplicam três mil vezes mais do que o tecido saudável.

Não há dúvida de que a medicina tem obtido vitórias decisivas contra o câncer e que o futuro é promissor. Mas existe uma importante barreira para o acesso às novidades terapêuticas: o custo. As novas drogas dirigidas atingem preços inacessíveis para a maioria dos doentes. O tratamento com o Vitrakvi, por exemplo, sai por US$ 32,8 mil por mês e com o concorrente Rozlytrek, da Roche, também eficaz nos casos em que existe a fusão do gene NTRK, o custo chega a US$ 208 mil por ano. Com a terapia celular a situação não é muito diferente.

A aplicação da técnica CAR-T nos Estados Unidos chega a custar US$ 450 mil. No Brasil, no Hospital das Clínicas da USP, em Ribeirão Preto, o custo ficou em 10% desse valor. De qualquer forma, mais do que o preço, o que importa no tratamento do câncer é a esperança. Depois do êxito da terapia em Vamberto, o médico Renato Cunha passou a receber até 800 pedidos diários de consultas e pareceres, o que mostra a importância dessa nova conquista médica brasileira. Inúmeros pacientes sem perspectivas têm agora uma base sólida em que se apoiar para tentar recuperar a saúde. Um novo caminho de cura se abriu. E o que se espera é uma longa vida para Vamberto.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 15 DE FEVEREIRO

OS SINAIS DA SEGUNDA VINDA DE CRISTO

Mas vós, irmãos, não estais em trevas, para que esse Dia como ladrão vos apanhe de surpresa (1Tessalonicenses 5.4).

Não podemos marcar datas, mas podemos observar os sinais da segunda vinda de Cristo. Ele não nos deixou sem claros sinalizadores enquanto caminhamos rumo à glória. A segunda vinda de Cristo é precedida por sinais naturais. Jesus disse que o tempo do fim seria marcado por epidemias, pestes e terremotos. As epidemias sempre assolaram a humanidade ao longo da História, como a peste negra que matou 1/3 da população da Europa no século 13. Nestes últimos tempos, contudo, as epidemias têm-se multiplicado com consequências devastadoras. Doenças epidêmicas e pandêmicas desafiam a ciência. A aids e a gripe suína são apenas alguns exemplos mais recentes. Isso sem mencionar as pestes que devastam campos e lavouras e assolam a terra. Destacamos outrossim os terremotos. Apenas no século 20 aconteceram mais terremotos e maremotos do que em todos os séculos anteriores.

Ainda guardamos na memória a devastação do tsunami que engoliu cidades inteiras na costa da Ásia. O mundo está ainda perplexo com o devastador terremoto em Porto Príncipe, capital do Haiti, em 12 de janeiro de 2010, quando a cidade foi arrasada e cerca de cem mil pessoas pereceram debaixo dos escombros. Precisamos estar atentos para o fato de que é mais tarde do que jamais imaginamos. Você está preparado para a volta de Jesus? j

GESTÃO E CARREIRA

EMPREGOS EM EXTINÇÃO

A automação e o uso da inteligência artificial prometem arrasar o trabalho como o conhecemos hoje – e abrir caminho para oportunidades inimagináveis há alguns anos.

Em uma das previsões mais marcantes que faz em seu livro Sapiens, o escritorisraelense Yuval Noah Harari imagina um mundo em que a inteligência artificial avança de tal forma que torna obsoleto o trabalho de boa parte da humanidade. O mais alarmante nesse futuro  possível é quanto ele está próximo da realidade atual. Um estudo realizado pela consultoria americana Gartner mostra que, já em 2020, o uso de máquinas que reproduzem o raciocínio humano deve extinguir 1,8 milhão de empregos e algumas profissões se tornarão completamente ultrapassadas devido ao avanço da tecnologia incluindo carreiras técnicas e com remuneração mais elevada em áreas de produção e administrativas. No Brasil, por exemplo, entre 2009 e 2019, não foi registrado um único ano sequer de crescimento do emprego formal com mais de dois salários mínimos, segmento típico das ocupações médias   nos escritórios e fábricas.

Parece incontestável que, no Brasil, boa parte do atual contingente de 11,9 milhões de desempregados jamais retornará às suas antigas funções. A indústria e o comércio, em um ambiente de pouco crescimento, estão realizando rapidamente a transição para o ambiente digital como forma de substituir a mão de obra demitida, ganhar eficiência e deixar de pagar pesados encargos trabalhistas com novas contratações com a melhoria do cenário econômico. A situação é igualmente séria para os jovens que buscam o primeiro emprego, e que tem pouquíssimas chances de obtê-lo nas mesmas condições que as gerações anteriores. “Em breve, será muito difícil ver um jovem conquistar um padrão de vida melhor que o de seu pai”, prevê o economista José Pastore, professor da USP e presidente do Conselho de Emprego e Relações do Trabalho da Fecomércio de São Paulo. “Nós assistiremos a uma inversão de boa parte da lógica social. Em vez de o filho cuidar do pai na velhice, o pai continuará contribuindo para a subsistência do filho por muito mais tempo”.

Com o avanço da tecnologia e a automação de linhas de produção, a curva de crescimento de riqueza pessoal, que era ascendente, passou a ser descendente e reflete na qualidade dos empregos. Pode-se pensar que isto está acontecendo de forma mais acentuada no Brasil devido à crise econômica vivida pelo país nos últimos seis anos. Pastore, no entanto, ressalta que o fenômeno faz parte de uma transição global. Até mesmo nos Estados Unidos, um país que registra índices de desemprego ínfimos e onde se criam mais de 150 mil postos de trabalho mensalmente, a qualidade do emprego é baixa e piora ano a ano. Estudo realizado recentemente por pesquisadores da Universidade de Cornell demonstrou como essa degradação se deu. Para isso, os economistas cruzaram o valor pago por hora aos trabalhadores com o volume de horas trabalhadas para definir a qualidade dos empregos. Em novembro de 2019, quando foram gerados 266.000 postos de trabalho nos Estados Unidos, a proporção era de oitenta funções bem remuneradas para cada 100 mil mal remuneradas. Em 1990, a diferença eras muito menor – 94 funções bem remuneradas para 100 mal remuneradas. O estudo é claro ao apontar o avanço da tecnologia como o responsável pela piora da remuneração.

 Outra grande mudança no mundo do trabalho é a migração da fabricação de produtos de consumo duráveis para países com grande contingente de mão de obra não qualificada e com regulamentação trabalhista baixa ou inexistente. Foi tal fenômeno que transformou nações como China, Índia, Paquistão, Bangladesh e Vietnã em “fábricas do mundo”. Estudiosos acreditam que a associação da evolução tecnológica com essa transferência teve impacto severo sobre as camadas da população de países mais industrializados que se beneficiavam de salários mais elevados nas indústrias globais de produtos de consumo. Com menos mão de obra empregada nas fábricas, a grande maioria da massa trabalhadora tende a migrar para o setor de serviços, o que acaba por concentrar os recursos no topo da pirâmide social. “Como resultado, a maior parte do crescimento do mercado se dá na forma de vagas que não apenas pagam menos por hora trabalhada, como também têm carga horária menor”, afirma Daniel Alpert, um dos autores do estudo da Universidade Cornell.

Definida por especialistas como um novo ciclo da Revolução Industrial, o momento que vivemos está muito distante dos tempos em que os chamados Ludistas pregavam a destruição dos teares a vapor por substituírem a mão de obra humana e consequentemente deixarem uma massa de desempregados nas cidades industriais da Europa. Isso não significa, entretanto, que não sejam necessárias medidas que permitam uma transição menos traumática entre os modelos de produção. Os pesquisadores de Cornell, por exemplo, defendem ações públicas pata mitigar esse impacto que vão de alterações no sistema educacional à modernizações das relações trabalhistas. No Brasil, essa também é a linha defendida por quem está atento ao assunto. Em 2019, o governo federal montou o Grupo de Altos Estudos do Trabalho (Gaet), que visa ao desenvolvimento de políticas específicas para o setor, O objetivo dos economistas e sociólogos que participam do grupo é mudar a mentalidade corrente de que os trabalhadores são “executores de tarefas”, de modo que eles passem a ser “resolvedores de problemas”.

Trata-se de uma mudança brutal que exigirá o aperfeiçoamento contínuo e grande capacidade de adaptação. “As pessoas vão precisar estudar ao longo de toda sua vida, mas elas não poderão se dedicar a apenas uma área. Os especialistas vão perder mercado”, diz Ricardo Paes de Barros, economista do Insper e chefe do Gaet. “No passado, nossos páis diziam para nos dedicarmos a uma área para nos tornarmos uma sumidade em determinado assunto. Isso já não vale mais de nada.” Para Paes de Barros, o primeiro passo no sentido de adaptar os brasileiros a esse novo cenário já foi dado pelo governo do presidente Michel Temer com a reforma trabalhista e a reorganização do ensino médio, mas ele classifica essas medidas como tímidas. A previsão é que os resultados do Gaet sejam apresentados em fevereiro para o governo, que deve formular consultas públicas para decidir como vai abordar o desafio.

O uso da automação na produção em processos burocráticos foi uma maneira de padronizar e aumentar a escala do trabalho em tarefas mecânicas, repetitivas e maçantes. Essa foi a porta de entrada para os robôs nas linhas de montagem de carros e até produtos mais prosaicos, como escovas de dente. O impacto foi o fim das vagas nessas áreas. A evolução de tecnologias como sistemas de voz automatizados e a chegada de novos dispositivos de pagamentos eletrônicos já apontam para o fim de empregos como operador de telemarketing, caixas de banco e supermercados, que começam a trilhar um processo de extinção irreversível. Por outro lado, carreiras como as de programador e especialista em computação tornam-se cada vez mais requisitadas, e muitas vezes em aspectos até então inimagináveis. O paulistano Estefan Martin, de 36 anos, tem uma profissão de nome complicado: designer de experiência do usuário. Seu trabalho, em uma empresa do setor financeiro, é avaliar – e melhorar – a interface que os clientes têm com o site e os dispositivos eletrônicos por meio dos quais contratam serviços e realizam operações. “É um ramo novo e que só agora começa a ser explorado em escala maior, mas que é extremamente promissor e será decisivo no futuro”, diz Martin.  

Assim como as disciplinas ligadas à experiência de usuário outras profissões despontam e implicam um desafio adicional aos gestores de recursos humanos. De acordo com uma pesquisa da consultoria americana Capgemini Research Institute, 64 % das empresas enfrentam dificuldade de encontrar no mercado profissionais especializados na área de inteligência artificial. As competências requeridas têm mudado drasticamente, e hoje a familiaridade com modernas tecnologias é apenas parte da equação. Habilidades bem mais humanas como originalidade, pensamento crítico, persuasão, inteligência emocional e liderança são igualmente valorizadas. A mudança radical no mercado de trabalho é um caminho sem volta e exige um esforço triplo: governo, empresas e os próprios indivíduos precisam se aprimorar para garantir seu espaço no futuro.

DÉCADA PERDIDA

Total de postos de trabalho, criados ou destruídos, no Brasil (em milhões)

PERTO DO FIM?

As profissões com maior e menor tendência de da substituição de funcionários por robô

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

EMOÇÕES E SEXUALIDADE

As emoções ligadas ao sexo são uma interessante fonte para testar a possibilidade de conciliar o nível fisiológico com o fenomenológico

As emoções estão hoje no centro de debates e teorias de neurocientistas, psicólogos e filósofos. O tema foi vivificado pelos experimentos de Joseph LeDoux, que descreveu quais relações existem entre emoções fortes e estruturas do sistema límbico, particularmente a amígdala. Asobservações de LeDoux referem-se sobretudo ao medo, uma emoção primária que tem forte significado de adaptação, na medida em que permite a sobrevivência em ambientes de risco. Sem a amígdala, afirma LeDoux, não perceberíamos uma série de sinais de perigo: nos animais e nos humanos esses sinais são interpretados primeiramente pelo sistema límbico, que organiza reações, e em seguida pelo córtex, que pode potencializar ou reprimir essas reações.

Mas o que sabemos sobre o medo nos autoriza a generalizar? As raízes fisiológicas são igualmente importantes para as outras emoções? Filósofos e psicólogos que pertencem à corrente fenomenológica acreditam que a fisiologia das emoções teria pouco a ver com aqueles sentimentos individuais e complexos que não é possível descrever em termos de estruturas e mediadores nervosos. Eles citam emoções como o apaixonar-se e o prazer ligado ao sexo, que têm uma forte diversificação individual. As emoções ligadas à sexualidade representam, por isso, um bom tema para compreender se é possível conciliar a dimensão fisiológica com a fenomenológica. Por exemplo, no cérebro de um adolescente totalmente absorto em sua primeira paixão verifica-se algo que o iguala a outros adolescentes ou a outros seres humanos. E naquelas emoções podemos reconhecer alguns aspectos “universais”, como a dependência, o desejo de novidade, o prazer, o ciúme?

Freud e muitos psicólogos consideram a sexualidade uma necessidade primária que contribui para satisfazer as exigências do organismo uma mola que dá direção ao comportamento. Algo similar a comer, beber ou dormir. Essas necessidades – pulsões encobertas por superestruturas culturais – estariam inscritas em nosso cérebro e encontrariam uma gratificação no prazer e na satisfação e gerariam descontentamento quando não satisfeitas.

Em seu aspecto mais reducionista, as necessidades implicam um programa biológico que se traduz em escolhas quase automáticas: um mecanismo inteligente do ponto de vista instintivo que se manifesta desde a fase neonatal. Os fisiologistas descreveram no âmbito dos núcleos profundos do encéfalo, e particularmente do hipotálamo, aqueles mecanismos que percebem os estados internos do organismo e que colocam em prática programas úteis para satisfazer necessidades ou carências. Por exemplo, quando os níveis de açúcar do organismo caem, ativam-se receptores que provocam a sensação de fome e nos impelem rumo a comportamentos de busca de comida. Reações semelhantes se manifestam também no caso da ativação sexual que em sua forma mais mecanicista depende dos níveis dos hormônios e de estímulos apropriados.

Mas, para que as pulsões se realizem, para que sejamos impelidos rumo a comida ou sexo, é preciso existir o prazer, um “reforço” que manifeste a satisfação de nossas necessidades. Esse tema foi desvendado pelas pesquisas de James Olds, que demonstraram a existência dos chamados “centros do prazer”. Em última análise, o prazer é uma descarga de mediadores nervosos em algumas estruturas do cérebro.

Estritamente vinculada à pulsão sexual é a busca de novidades capazes de “estimular” nosso cérebro. Segundo Donald E. Berlyne, existe uma verdadeira pulsão que nos impele a procurar estímulos novos e excitantes, sem os quais nossos impulsos correm o risco de encalhar na monotonia. Mas, quando do sexo passamos para o enamoramento, eis que emerge uma componente que de algum modo se contrapõe à busca de novidades: o apego. John Bowbly, o psicólogo que descreveu o apego em termos evolutivos, apontou como desde pequenos somos envolvidos emotivamente com uma figura de referência e como a separação dessa figura implica emoções dolorosas. Mesmo quando nos apaixonamos, o apego tem um papel fundamental e se um dos parceiros se sente abandonado vive uma espécie de “luto” ligado ao fato de ter sido privado de uma forma de segurança que representa o pólo oposto da busca de novos estímulos.

Segundo o psiquiatra Michael Liebowitz, o apego (comum a muitas espécies animais) entraria, nas relações amorosas, numa segunda etapa. Numa primeira fase, aquela da atração e do entusiasmo da paixão, os parceiros vivem um estado de euforia que os isola do mundo. Após um tempo variável, surge um estado emotivo mais tranquilo, durante o qual o cérebro segrega as endorfinas, substâncias naturais similares à morfina que acalmam a mente e causam as sensações de segurança e de paz que estão na raiz do apego. Assim, num relacionamento, as turbulências iniciais são substituídas por um sentimento caloroso e seguro.

Paixão e apego são emoções que ligam as pessoas e são funcionais para relacionamentos duradouros. No entanto, também existe um impulso oposto que pode nos impelir a buscar outro parceiro. Alguns estudiosos, como o etologista Norbert Bischof, consideram esse comportamento de exploração como uma reação ao “excesso de segurança”, uma sensação à qual se reage afastando ­se do objeto de apego, nada mais, nada menos do que os adolescentes fazem quando sentem a exigência de se desvencilharem dos afetos infantis.

Alguns neurofisiologistas não hesitam em falar de ‘resposta de saciedade’, uma espécie de dessensibilização do cérebro em relação a um estado que durou demais. Todavia, a experiência não para de demonstrar o quanto são variáveis os indivíduos e as condições existenciais: existem os “garanhões”, em constante busca de novas aventuras, mas também pessoas cujo apego perdura longamente, existem as diferenças de temperamento que dividem, as afinidades eletivas que unem, os casos da vida. As culturas, enfim, têm o poder de amplificar um ou outro aspecto do amor, acrescentando complexidade a nossos comportamentos, escolhas e emoções.

A complexidade nesse campo é notável. Vejamos o apego, por exemplo. Se ter apego representa uma vantagem evolutiva, na medida em que consolida o vínculo do casal e facilita os comportamentos parentais, um excesso de apego leva à obsessão e ao ciúme. Este pode aparecer a qualquer momento da relação, na fase da atração, na do apego, mas também depois de uma separação “definitiva”. É na força do apego que afundam as raízes, as ambivalências e as lutas daqueles que, ao se separarem, têm de resolver o conflito criado entre o desejo de novidade e a força da dependência.

Romper um relacionamento não é fácil, a racionalidade tem de entrar em acordo com a emotividade, o dito com o não-dito, muitas vezes também é preciso sair em busca de uma nova identidade para substituir aquela que, com a falta da ligação, se desagrega. Como o apego, o processo do “desapego” também, em seus prazos, é preciso se desacostumar, como acontece com a droga, diria o psicobiólogo.