OUTROS OLHARES

PRAZER PARA OS OUVIDOS

Os audiobooks, sucesso nos Estados Unidos, começam a ganhar novo impulso no Brasil. E uma pergunta já ecoa: ouvir tem o mesmo valor educativo que ler?

Os livros para ser ouvidos sobejamente conhecidos pelo nome em inglês – audiobooks -,   nasceram em 1932, nos Estados Unidos como ferramenta de inclusão social. Começaram a ser feitos no estúdio de gravação de uma fundação para cegos, registrados em discos de vinil, com capacidade de no máximo quinze minutos para cada lado do LP. No ano seguinte, deputados e senadores aprovaram uma emenda que autorizava a Biblioteca do Congresso a entrar no negócio, que não parou de crescer. Inicialmente eram as peças de Shakespeare, a Constituição etc., e o céu virou o limite. A partir dos nichos dedicados à deficiência visual os volumes de viva voz extrapolaram as fronteiras de mãos dadas com os avanços da tecnologia. Hoje, por meio de um smartphone, com acesso a lojas de aplicativos, é possível baixar qualquer um dos 4.000 títulos lançados anualmente nos Estados Unidos – é um naco que responde, por enquanto, por 65% do mercado livreiro, mas que se expande rapidamente. Os lançamentos surgem em ritmo mais veloz que o de volumes em capa dura. É uma febre que começa a desembarcar com força no Brasil.

Em junho deste ano, três grandes editoras se uniram para criar a plataforma de venda Auti Books, que lançará no próximo mês um plano de assinaturas. A Ubook, pioneira por aqui, anunciou planos de expansão. A Toca livros juntou-se ao Google Play Livros e à Kobo. O gigante sueco Storytel acaba de estrear seu serviço no Brasil, e a Amazon deve aportar no país nos próximos meses com um serviço de literatura para os tímpanos. Diz Claudio Gandelman, CEO da AutiBooks: “O brasileiro lê pouco e passa muito tempo no trânsito uma combinação extremamente promissora para decidir ouvir um livro. Estamos no início de uma revolução”. Trata-se de uma reviravolta que já possui alguma cara: mais da metade dos usuários tem até 34 anos e é do sexo masculino. Nos Estados Unidos, cerca de 60% dos ouvintes realizam atividades como a lição de casa e o almoço enquanto escutam, por exemplo, Nicole Kidman emprestando a voz a Ao Farol de Virginia Woolf, em inglês. Afirma André Palme, gerente da Storytel Brasil: “Se voz e texto não combinam, dificilmente o audiobook vai para a frente”. Vozes aveludadas são adequadas para histórias românticas. Tons dramáticos, empostados, servem ao suspense. Outro recurso que atrai ouvintes é o próprio autor (desde que seja uma celebridade, logicamente) narrar sua obra. Gisele Bundchen lê a introdução de seu livro Aprendizado, Lázaro Ramos narra Na Minha Pele e Drauzio Varella, Estação Carandiru.

Dada a velocidade de expansão dos livros para ser ouvidos e sua natural adoção pela juventude plugada aos fones, agora preferencialmente sem fios, os educadores indagam: escutar um livro vale tanto quanto lê-lo? Alguns estudos nos Estados Unidos chegaram a sugerir que o cérebro é incapaz de memorizar os livros apenas narrados em voz alta, sem que os olhos acompanhem as palavras, as frases, os parágrafos. Essa impressão era um lugar­ comum até que, em 2016 o psicólogo americano Daniel Willingham, da Universidade de Virgínia fez uma pergunta cuja resposta mudou tudo: ouvir um livro é trapaça? Não, não é, concluiu Willingham. “Não há real diferença entre ouvir um livro e lê-lo”, diz ele. O argumento da contrafação pressupõe que o leitor ficou apenas com a recompensa (o conteúdo) sem a contrapartida (o trabalho de leitura) e que, para nossos mecanismos cerebrais, ouvir é mais fácil do que ler. Isso é verdade até algum momento da infância, em torno dos 10 anos, um pouco após a alfabetização. Depois, a rigor, não existe diferença do ponto de vista neurológico e de aprendizado. E, no entanto, não há audiobook que consiga, por mais perfeito que seja o narrador, entregar o balé de vírgulas, pontos (quando há) e frases longuíssima de um escritor como José Saramago de Ensaio sobre a Cegueira: “ … O médico perguntou-lhe, Nunca lhe tinha acontecido antes, quero dizer, o mesmo de agora ou parecido. Nunca, senhor doutor, eu nem sequer uso óculos, (…)’. O bom-senso recomenda não abandonar as versões em papel ou digitais, com as letras impressas, seja para saber como se escrevem as palavras, seja para sentir o prazer inigualável, e automático, de cotejar o escrito com o lido mentalmente.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 13 DE FEVEREIRO

COISAS VISÍVEIS TEMPORAIS E INVISÍVEIS ETERNAS

Sabemos que, se a nossa casa terrestre deste tabernáculo se desfizer, temos da parte de Deus um edifício, casa não feita por mãos, eterna nos céus (2Coríntios 5.1).

O apóstolo Paulo mostra o aspecto aparentemente contraditório e paradoxal da vida cristã. O que vemos é temporal e passageiro, mas o que não vemos é o que existe para sempre. Ele escreve: Não atentando nós nas coisas que se veem, mas nas que se não veem; porque as que se veem são temporais, e as que se não veem são eternas (4.18). O visível e tangível que enche nossos olhos e tenta seduzir nosso coração não permanecerá. Tem prazo de validade e não durará para sempre. Mas as coisas que não vemos são as que têm valor e permanecerão para sempre. Investir apenas naquilo que é terreno e temporal é fazer um investimento insensato, pois é investir naquilo que não permanece. Investir, porém, nas coisas invisíveis e espirituais é investir para a eternidade. Jesus diz que devemos ajuntar tesouros lá no céu, pois o céu é nossa origem e nosso destino. O céu é nosso lar e nossa pátria. Lá está o nosso Senhor. Lá está o nosso tesouro. Lá está a nossa herança. É lá que devemos investir o melhor do nosso tempo e dos nossos recursos. Atentar apenas às coisas que se veem e são temporais é viver sem esperança no mundo; mas buscar as coisas que os olhos não veem nem as mãos apalpam é viver na dimensão da eternidade, com os pés na terra, mas com o coração no céu.

GESTÃO E CARREIRA

LUCROS, LIVES E LIKES

Antes avessos à exposição, empresários e CEOs de companhias que faturam bilhões viram influenciadores digitais falando sobre o que todo mundo quer saber: como ficar rico

Com 5.000 funcionários e faturamento de 1,7 bilhão de reais previsto para 2019, João Adibe Marques, de 47 anos, dono da farmacêutica Cimed, especializada em remédios e itens de higiene e beleza populares, acorda todos os dias às 5 da manhã, dez minutos depois começa seu treino e, de cima da esteira, realiza a leitura de três jornais. Não demora muito para entrar no batente – e no ar. Seu Instagram, que tem cerca de 150.000 seguidores, é uma espécie de reality show profissional. Fazem parte do conteúdo visitas técnicas a fábricas, reuniões de trabalho e viagens de negócios a bordo de uma de suas aeronaves (o helicóptero Agusta Westland ou o avião Global 6.000 Bombardier). Às vezes, Marques transmite lives às 6h15. “Falo de estratégias de vendas, de metas e de planos futuros”, enumera. Ele começou a se dedicar mais ao Instagram em meados de 2018, antes das últimas eleições, quando notou a falta de gente que falasse sobre como movimentar a economia e desse conselhos sobre carreira. “Há público carente de aprender sobre empreendedorismo e ver exemplos positivos”, entende.

A postura do dono da Cimed e a de outros homens de negócios da nova geração diferem bastante da discrição dos membros mais velhos da elite empresarial do país. Os dez maiores bilionários brasileiros do ranking mais recente da revista americana Forbes, incluindo o número 1 da lista, o empresário Jorge Paulo Lemann, 80, não têm conta pessoal no Instagram. Além de João Adibe Marques, vários empreendedores e grandes executivos mais jovens exibem sua rotina no Instagram com o objetivo de passar suas “experiências”. Apesar das boas intenções, o resultado é desigual. Espécie de pop star do empreendedorismo, com livro e dezenas de palestras no currículo, Tallis Gomes, fundador da Easy Taxi, empresa vendida em 2017 à Cabify, soma 151.000 seguidores. Ele tem uma pegada de autoajuda e posta platitudes. “Você nunca vai mudar o mundo se não conseguir mudar a si mesmo antes” e “Não é o que você sabe que causa problemas, mas o que você não sabe” estão entre os exemplos. Não à toa, à boca pequena, há quem diga que Gomes é o Paulo Coelho dos empreendedores: faz sucesso e tem um currículo de respeito, mas está longe de ser uma unanimidade de crítica.

Antes discreto com a vida pessoal, Alexandre Birman estreou no Instagram há três semanas e já soma mais de 22.000 seguidores. CEO da Arezzo & Co, ele controla uma empresa avaliada em 5 bilhões de reais, com itens como bolsas e sapatos finos vendidos em mais de 3.000 pontos de venda pelo mundo. “Sou apaixonado pelo que faço e, se puder compartilhar humildemente meus aprendizados e inspirar pelo exemplo, vou usar todos os canais disponíveis”, diz Birman. Para isso, dá-lhe fotos de reuniões de negócios e vídeos que motivam seu time a bater as metas da Black Friday. Entre as mulheres, nenhuma empreendedora tem a projeção de Rachel Maia, CEO da Lacoste no Brasil. Com 52.000 seguidores, a executiva coordena a grife francesa, presente em 850 multimarcas no país. Ela representa 0,04% do universo de CEOs por ser mulher e negra.

Como tudo o que envolve o mundo virtual, não é só de trabalho que se alimenta uma audiência. Em outras palavras: ganha mesmo muitos seguidores quem expõe sua vida particular e, de alguma forma, comprova com imagens seu sucesso. Rachel mistura posts de itens da marca para a qual trabalha com partidas de tênis e selfies ao lado de celebridades como Bruno Gagliasso e Giovanna Ewbank. Entre um e outro compromisso profissional, Marques, da Cimed, deleita os seguidores com a decoração do quarto de sua filha caçula (o berço imita um balão da Capadócia e os lustres têm formato de nuvens) na mansão onde vive em São Paulo. Muitas vezes, o Instagram substitui o antigo “Pergunte ao presidente”. Os fãs enviam questões sobre negócios e, inevitavelmente, vários pedem emprego em mensagens diretas. Para aumentar o engajamento do público, Marques criou a #2biem20 (isso mesmo: o plano de faturamento da sua empresa em 2020 será de 2 bilhões de reais). “Virei um garoto-propaganda da marca, e, não raro, os seguidores viram clientes”, conta. Ou seja: a exposição faz bem ao bolso e, claro, também ao ego.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

AS FONTES DO PRAZER

Pesquisas recentes lançam nova luz sobre os mecanismos do prazer e do amor e mostram semelhanças entre desejo sexual e vontade de comer chocolate. Romeu e Julieta só estariam viciados um no outro?

Inesgotável fonte de inspiração para a arte e a literatura, o amor é um sentimento capaz de nos levar ao desespero ou ao êxtase. E talvez até à guerra, a se dar crédito à história do rapto de Helena e à campanha contra Tróia. Examinados do ponto de vista biológico, porém, muitos dos véus românticos que recobrem o fenômeno do amor desprendem-se facilmente. No entanto, um permanece, o do desejo sexual. Quando buscam sua origem, os cientistas logo esbarram numa série de enigmas. Porque desejamos uma pessoa específica? A que se deve o fato de sentirmos desejo ou prazer sexual?

E ainda: será que o tête – a- tête com o parceiro ou parceira pode ser substituído por uma sinfonia de Brahms ou por uma caixa de bombons?

Em primeiro lugar, há que se dizer que o prazer não é pura e simplesmente prazer, e ponto final. Existe uma diferença fundamental entre o prazer por alguma coisa e o prazer em alguma coisa – ou seja, entre as sensações que temos quando almejamos algo e o que sentimos ao obtê-lo. Especialistas diferenciam aqui o prazer ou desejo apetitivo (por algo do consumado (em algo). Além disso, desejo, prazer e amor não constituem um fim em si mesmos, mas têm por alvo metas biológicas palpáveis e concretas.

Ao contrário do que se pensa o prazer sexual não se desenvolveu visando a satisfação pessoal, mas para encorajar a reprodução. Tampouco as sensações profundas comumente etiquetadas como “amor” podem negar seu pano de fundo biológico: elas auxiliam no estabelecimento e na manutenção de um vínculo entre parceiros. Esses mecanismos são comandados por estruturas cerebrais particulares e por neurotransmissores. Prazer e amor são, portanto, essencialmente produzidos no cérebro e determinam nosso comportamento em função de um objetivo estabelecido.

Quando se trata de considerar quem nos desperta a libido, uma pergunta fundamental se impõe: o objeto desse desejo pertence ao sexo oposto? A orientação sexual depende em primeiro lugar do nosso próprio sexo. E isso não se define apenas pelas características físicas do corpo, mas também no cérebro. Fundamental importância tem aí os hormônios, e sobretudo, os sexuais. Muito antes da puberdade, eles encaminham o desenvolvimento não apenas de nossos órgãos sexuais, mas também de partes do cérebro rumo ao masculino ou feminino.

Antes mesmo do nascimento, eles começam a atuar. Num feto geneticamente masculino, pequenas quantidades do hormônio sexual testosterona chegam ao cérebro no último terço da gravidez, influenciando seu desenvolvimento. Receptores sensíveis a esses hormônios sexuais encontram-se em numerosas regiões cerebrais. Pela determinação do sexo respondem, sobretudo, receptores hormonais situados no hipotálamo. Quando a testosterona exerce sua influência durante a fase pré-natal crítica, o cérebro será masculino. Na ausência desse hormônio, feminino. Curiosamente, não é a testosterona em si que surte seu efeito nesse processo, antes, ela é transformada em estrogênio, em geral conhecido pelos leigos como o hormônio sexual feminino. Fetos geneticamente femininos se protegem dessa ação específica do estrogênio auxiliados pela alfa fetoproteína. Durante o desenvolvimento do cérebro, a testosterona interfere num processo natural mediante o qual células nervosas supérfluas são descartadas. Graças a essa interferência, morrem menos neurônios, razão pela qual a região frontal do hipotálamo dos mamíferos de sexo masculino é bem maior e mais rica em neurônios. Nos humanos, porém, essa diferença é menor do que, por exemplo, nas ratazanas.

O hipotálamo é de especial importância na orientação e no comportamento sexual. Isso se evidencia no fato de as células nervosas do hipotálamo anterior exibir em intensa atividade quando um animal macho se aproxima de um parceiro sexual ou quando copula. Se essa região estiver lesada, o comportamento sexual dos machos no tocante à cópula será prejudicado, ainda que mantenham o interesse em fêmeas.

STRESS E TESTOSTERONA

Certas experiências durante a gravidez também podem influenciar a orientação sexual dos descendentes. Dentre elas, sobretudo o stress parece desempenhar papel importante. Se uma ratazana em gestação for exposta a stress, o cérebro de seus rebentos machos terá em média menos características masculinas. Além disso, eles apresentarão com frequência orientação homossexual e exibirão comportamento mais maternal. O motivo é que, por causa do stress, a necessária testosterona se apresentou cedo demais no cérebro. Os descendentes “feminilizados” nem sempre são homossexuais; se criados com fêmeas sexualmente ativas, em geral desenvolvem orientação heterossexual. Isso mostra de forma clara que o comportamento sexual não pode ser explicado apenas pelos hormônios. Ao contrário: fatores hereditários, influências hormonais e experiências individuais atuam aí em estreita vinculação.

Como pode, porém, o stress atuar sobre cérebros masculinos, preferência sexual e conservação da espécie? Para a sociobiologia, sob condições de vida difíceis, a feminilização dos cérebros reduziria a taxa de natalidade em uma comunidade, o que possibilitaria oferecer cuidado maior aos raros descendentes.

Essa explicação bem poderia se aplicar aos seres humanos, que têm comportamento sexual em pane desvinculado da meta da reprodução e voltado à obtenção do prazer. Pesquisas realizadas até agora com humanos confirmam as descobertas oriundas dos modelos animais. Também no nosso caso o hipotálamo anterior desempenha papel decisivo no tocante à preferência sexual. Os homossexuais do sexo masculino possuem menos neurônios nessa região do cérebro que os heterossexuais, exibindo, sob esse aspecto, uma estrutura cerebral mais aparentada à feminina. Além disso, também nos seres humanos o stress pré-natal parece conduzir com mais frequência à orientação homossexual em descendentes do sexo masculino. Até o momento, no entanto, os conhecimentos adquiridos em relação ao ser humano são escassos e, em boa pane, indiretos. Não admira que suscite m controvérsia – ou mesmo completa rejeição, baseada no argumento de que, nesse âmbito, os resultados advindos de experiências com animais não seriam transferíveis à esfera humana.

Entretanto, admite-se cada vez mais que existem bases biológicas na preferência por um parceiro de mesmo sexo ou do sexo oposto. Está claro que a formação individual do cérebro desempenha papel tão importante quanto a educação ou sociedade, e a definição do caminho a trilhar parece ocorrer nos primeiros estágios do desenvolvimento.

Sexo e desejo de certo não são tudo na vida. Para a maioria dos seres humanos, a qualidade do relacionamento com o parceiro possui, no mínimo, importância equivalente. De resto, a atração sexual e o vínculo com o parceiro atendem ao mesmo propósito biológico, assegurar a reprodução da espécie. Um rápido exame de nossos parentes mais próximos nos mostra a multiplicidade de relacionamentos possíveis. Os orangotangos, por exemplo, só se unem para a fecundação e vivem o resto do tempo como eremitas, os gibões são monogâmicos enquanto os gorilas formam haréns e os chimpanzés vivem trocando de parceiro. Entre humanos, encontramos todas essas variações, embora a tendência à monogamia seja predominante.  A variedade dos tipos de relacionamento aponta para o fato de que o vínculo com o parceiro está sujeito a fortes influências culturais e sociais.

Bases biológicas da monogamia foram encontradas em pequenos roedores americanos que vivem nas pradarias dos Estados Unidos. Estritamente monogâmicos, preocupam-se bastante com seus descendentes. Mas seus vizinhos que habitam as Montanhas Rochosas, ao contrário, trocam de parceiro com frequência e logo abandonam a prole à própria sorte. A semelhança física e genética entre essas duas espécies é muito grande. Mas dois hormônios presentes no hipotálamo revelam diferenças notáveis entre elas: a vasopressina e a oxitocina. O roedor monogâmico exibe no cérebro um número bem maior de receptores para a vasopressina e a oxitocina que seu parente promíscuo.

Em geral, a concentração sanguínea desses hormônios aumenta claramente durante a cópula, de acordo com o sexo do animal: nos machos, sobe o nível de vasopressina, nas fêmeas, o de oxitocina. Também nos humanos esses dois hormônios parecem importantes na estimulação sexual, na ereção e na capacidade de orgasmo. Nos homens, o nível de vasopressina no sangue aumenta durante a expectativa sexual, e o de oxitocina, durante o orgasmo. Na mulher, acreditam alguns pesquisadores, a vasopressina reduziria o desejo sexual, e a oxitocina desempenharia seu papel tanto durante a fase do flerte quanto na da cópula. Contudo, essas são apenas transposições de resultados experimentais obtidos com animais. As normas sociais, a educação, as expectativas podem prevalecer sobre a influência exercida por um hormônio específico.

Mas e quanto ao vínculo entre os parceiros? De fato, no caso dos roedores, os dois hormônios desempenham papéis importantes também nesse âmbito. O macho das pradarias, de cérebro rico em vasopressina, apresenta vínculo mais forte com sua parceira e se preocupa mais com a prole, ao passo que, nas fêmeas, é antes a oxitocina que estimula o cuidado com a cria. É de supor que o nível hormonal elevado durante o acasalamento ajude a fortalecer o vínculo entre parceiros. Também entre humanos a vasopressina e a oxitocina parecem ter, ao menos em parte, as mesmas funções. Considerando-se o amor como vínculo entre parceiros, teríamos dado aí um primeiro passo para a compreensão biológica desse fenômeno.

Como se articulam, então, o amor e as funções cerebrais? Existem centros de prazer ou neurotransmissores da felicidade? Nesse contexto, o ano de 1954 representa um marco para a pesquisa. Nesse ano, os neurocientistas americanos James Olds e Peter Milner implantaram no cérebro de ratos pequenos eletrodos que transmitiam estímulos elétricos. Os animais gostaram tanto que se detinham constantemente nos lugares em que os cientistas realizavam a estimulação.

Além disso, aprenderam por conta própria a pressionar uma alavanca que lhes proporcionava tais estímulos. O resultado foi que passaram a se estimular milhares de vezes por hora, negligenciando até mesmo suas necessidades naturais – um comportamento que lembra a forte dependência de drogas ou, em certo sentido, o de um ser humano muito apaixonado. A suposição óbvia a que isso conduziu foi que o estímulo elétrico ativava no cérebro um centro de recompensa ou mesmo de prazer.

Muitas regiões do cérebro são sensíveis à auto estimulação elétrica, mas apenas em algumas poucas áreas o estímulo conduziu os animais ao excesso, o que se verificou sobretudo na lateral do hipotálamo. Não se encontrou aí o suposto centro do prazer, na verdade, a estimulação instigava também feixes de nervos que percorriam toda a região estimulada. Logo um sistema de células nervosas ocupou o centro das atenções – um sistema que se origina no mesencéfalo, percorre a lateral do hipotálamo e abastece com o neurotransmissor dopamina grande parte do prosencélalo.

Com isso, aumentou o interesse nas funções desempenhadas pela dopamina, que os pesquisadores viam, em parte, como uma espécie de sinal de prazer. Basearam essa conclusão na observação de que sua atividade aumenta quando da prática de todo tipo de ação vinculada a sensações agradáveis – seja quando os animais se auto estimulam com a eletricidade, quando ingerem comida saborosa, quando da copulação ou estão sob a influência de drogas, como a cocaína, a anfetamina, a heroína ou a nicotina.

Assim como aprendem a se auto­ estimular, os animais descobrem como administrar por conta própria essas substâncias, sobretudo quando são injetadas diretamente no sistema de células dopaminérgicas do cérebro. Se esse sistema é experimentalmente desativado, recompensas elétricas, químicas ou naturais deixam de surtir efeito – como se, então, inexistissem sensações de prazer em virtude das quais os animais seguem repetindo determinada tarefa. Não está claro, porém, se os ratos são de fato capazes de experimentar o prazer, na forma como nós o concebemos.

Ainda que sejam, isso significaria dizer que os pesquisadores encontraram um centro do prazer, bem como neurotransmissores do prazer? Não é bem assim. Na verdade, a estimulação elétrica do hipotálamo lateral conduz a uma continuada atividade das vias nervosas e simula, assim, antes o prazer – apetitivo – por alguma coisa do que o prazer – consumado – na obtenção do que se queria. Além disso, a dopamina faz com que, já durante as fases de expectativa e de preparação, o organismo oriente seu comportamento para as metas almejadas e possa aprender a utilizar novas informações que prenunciam a viabilidade de alcançá-las.

ORGASMO POR ELETRODOS?

A implantação de eletrodos no cérebro de humanos só é admitida quando da necessidade de intervenção médica, razão pela qual são poucas as pesquisas existentes nessa área. Pacientes que sofreram estimulação elétrica do hipotálamo lateral relatam sensações difíceis de descrever, como se algo de interessante e excitante fosse acontecer”. Sensações agradáveis e positivas verificaram-se, por outro lado, na estimulação de outras regiões do cérebro, como, por exemplo, do septo lateral. As experiências vividas nesses casos foram descritas como um prazer semelhante ao orgasmo. Se um paciente podia se auto estimular nessa região, ele o fazia em grande medida, sem, contudo, atingir o orgasmo de fato.

Nos últimos anos, com o auxílio dos métodos de diagnóstico por imagens, como a tomografia nuclear ou a tomografia por emissão de pósitrons, cientistas puderam verificar em seres humanos e expandir muitos dos conhecimentos adquiridos em experiências com animais. O estudo dessas imagens identificou uma série de regiões cerebrais que, diante de emoções diversas, revelam intensa atividade. Uma mesma estrutura cerebral pode, no entanto, ser estimulada tanto por sensações de prazer como por sentimentos indesejados, como, por exemplo, o do medo. A existência de centros específicos de prazer não pôde até o momento ser comprovada de modo inequívoco.

Experiências com pessoas conduzidas à excitação sexual mediante a contemplação de imagens ou cenas eróticas ou pornográficas revelam fortes mudanças de atividade em diversos pontos do cérebro, especialmente em sua extremidade anterior.

O padrão dessas mudanças de atividade é bastante semelhante em mulheres e homens. É de supor que os cérebros masculino e feminino processem sensações de prazer de forma parecida.

Os estímulos e situações capazes de provocar em nós sensações de prazer são bastante diversos e variados: um pôr-do-sol, a presença da pessoa amada, o prêmio da loteria, uma boa refeição, sexo ou drogas. Isso propõe tarefas difíceis a nosso cérebro: devemos reconhecer e avaliar as diversas situações, talvez associá-las a alguma lembrança e, então, reagir – com ações, por exemplo. As demandas ao cérebro podem ser, portanto, bastante diferenciadas. Seria de esperar, pois, que também as mudanças de atividade nas diversas áreas do cérebro apresentassem forte diferenciação de um caso a outro. Mas certas regiões cerebrais permanecem ativas durante as situações emocionais mais variadas, o que significa que respondem pelo processamento de sensações de todo tipo.

Uma fonte de prazer muito importante para grande número de pessoas não foi mencionada até agora: a música. Não há pelo menos uma peça musical que, dependendo do seu estado de espírito, provoca um arrepio na espinha? Medições recentes da atividade metabólica no cérebro indicam que, durante tais fases de prazer provocadas pela música clássica, as regiões cerebrais que apresentam mudança de atividade são as mesmas em que isso ocorre quando do prazer sexual. A dor, ao contrário, pode ativar algumas das mesmas regiões ativadas pela euforia. Seria essa uma “prova” neurobiológica da proximidade de amor, prazer e dor? No nosso cérebro, ao menos, dor e prazer parecem próximos.

Não é fácil localizar com segurança o prazer e o amor no cérebro. O que, aliás, não há de nos surpreender, uma vez que, do ponto de vista científico, a compreensão desses sentimentos nos escapa. Só os conhecemos de verdade a partir de nossa experiência pessoal ao longo dos anos. Portanto, talvez estejamos fadados a continuar expostos ao furacão emocional do amor, com todos os seus efeitos colaterais – da autodestrutiva dor amorosa à inspiração para elevados voos artísticos.

GLOSSÁRIO

DOPAMINA: neurotransmissor presente no sistema nervoso central que desempenha papel importante no controle dos movimentos e nos circuitos de recompensa do cérebro, cuja atividade produz sensação agradável.

HORMÔNIOS SEXUAIS: controlam desenvolvimento e função dos órgãos sexuais. Também exercem influência sobre o sistema nervoso e comportamento.

HIPOTÁLAMO: parte do cérebro que governa o sistema nervoso vegetativo e o hormonal e regula emoções e afetos. É onde se formam a oxitocina e a vasopressina.

OXITOCINA: hormônio procedente do hipotálamo que faz contrair o útero e as glândulas mamárias, controlando assim o parto e a secreção do leite. Parece Influenciar também o comportamento sexual.

RECEPTORES: estruturas nas superfícies das células que ligam determinadas moléculas, como neurotransmissores e hormônios, enviando sinais para o interior da célula.

SEPTO: parte do telencéfalo.

SISTEMA NERVOSO VEGETATIVO: parte do sistema nervoso que regula processos vitais e em grande parte inconscientes do organismo, como a respiração, a digestão e as funções sexuais. Está subordinado ao hipotálamo.

TESTOSTERONA: hormônio sexual masculino produzido nos testículos, controla a definição de características sexuais e influencia o comportamento.

VASOPRESSINA: hormônio do hipotálamo que controla a reabsorção da água nos rins. Exerce ainda variados efeitos sobre o sistema nervoso, influenciando, por exemplo, o ritmo de sono e vigília, a memória e a sensação da sede.