OUTROS OLHARES

VAMOS FALAR SOBRE SEXO?

Damares Alves começa a pôr em prática o incentivo à abstinência como um dos pilares para combater a gravidez precoce no país

Quando descobriu a gravidez, aos 15 anos, S. Logo pensou em fazer um aborto. Mas os 400   reais necessários para realizar o procedimento em uma clínica clandestina estavam longe de ser uma possibilidade em seu orçamento minguado. Expulsa da família e abandonada pelo pai da criança, a adolescente foi pulando de casa em casa de amigos e começou a vender brigadeiro em uma avenida na Zona Leste de São Paulo para conseguir o dinheiro. “Mas cheguei aos quatro meses sem juntar tudo”, diz ela, referindo-se ao limite máximo de tempo para interromper a gestação de forma segura. Hoje, a garota aguarda o nascimento de Anita, previsto para ocorrer daqui a duas semanas dentro de um abrigo público. Ela busca a proteção no local porque afirma ter descoberto um plano do ex-namorado para vender o bebê em uma transação de adoção clandestina. “Tinha certeza de que iam me matar para abrir minha barriga e tirar de lá a criança”, conta. 

Após dar à luz S. planeja concluir o ensino médio (está frequentando aulas do 1º ano), e seu sonho maior é poder sair do abrigo quando completar 18 anos. “Quero trabalhar, alugar uma casa e sustentar minha bebê.”

O drama de S. se repete em proporções absurdas no Brasil, que tem uma das mais altas taxas de gravidez precoce do mundo: 62 casos para cada 1.000 jovens entre 15 e 19 anos, índice aproximadamente 50% maior que a média mundial (veja o quadro abaixo). Até agora o poder público fracassou no combate ao problema, que é provocado por desinformação sobre métodos anticonceptivos e desestruturação de famílias devido à situação de pobreza; entre outros fatores. No governo atual, Damares Alves, a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos veio com um novo remédio para o mal: ela acredita que o incentivo à abstinência sexual pode ser uma arma para frear o registro de novos casos. “O método mais eficiente para a não gravidez não é a camisinha, não é o DIU, não é o anticoncepcional. Por que não falar sobre isso? Por que não retardar o início da relação sexual? Eu defendo essa tese” afirmou, em maio a ministra, que logo no início do governo contou ter visto Jesus Cristo numa goiabeira, depois de um traumático caso de abuso quando criança. Respeita-se evidentemente a visão religiosa de qualquer pessoa, mas é muito preocupante quando esse tipo de discurso começa a permear políticas públicas. Damares já apoiou o recolhimento em escolas dos ensinos fundamental e médio de cartilhas com instruções de métodos anticoncepcionais, material visto por ela como um incentivo à erotização precoce.

A defesa da abstinência também vai respingar em uma nova campanha do governo de alerta contra a gravidez na adolescência, a ser veiculada a partir da segunda-feira 3. As peças devem explicitar as consequências de gerar uma criança precocemente como dificuldades de concluir os estudos e de entrar no mercado de trabalho. A intenção é fazer com que os jovens pensem na decisão de adiar a iniciação sexual. Damares diz que as propagandas vão combinar esse discurso com a educação sexual tradicional, sem deixar de enfatizar a necessidade do uso de preservativos, mas deixa claro que considera a abstinência o único método 100% eficaz. “É mais fácil entregar o preservativo na mão do que conversar. Escolheram o método mais fácil. Acharam que o jovem não estaria pronto”, afirmou a ministra.

A nova campanha gerou grandes discussões entre a equipe técnica da pasta de Damares e a do Ministério da Saúde, comandado por Luiz Henrique Mandetta, de onde saiu o dinheiro para custear as propagandas.  Segundo reportagem, notas técnicas responsáveis por embasar o projeto e que foram trocadas entre as duas pastas em janeiro mostram a dissonância na abordagem.  O documento do Ministério dos Direitos Humanos dizia que a educação sexual “normaliza” o sexo entre adolescentes enquanto o da Saúde considerava a orientação de métodos contraceptivos uma forma de prover ferramentas para que os jovens tomem decisões mais qualificadas. Na última semana, Mandetta veio a público afirmar que o lema principal da campanha não deveria ser a abstinência. Damares então foi ao Twitter declarar que sempre falou em “política complementar”, e não em única e principal.

Como base cientifica para defender a abstinência a ministra cita um estudo feito no Chile em uma escola só para meninas em 2005. A pesquisa dividiu 1.200 alunas do 1º ano do ensino em dois grupos: um recebeu um programa centrado na abstinência, o outro não. As meninas foram acompanhadas por quatro anos, e chegou-se à conclusão de que o primeiro grupo, o da abstinência, teve incidência de gravidez cinco vezes menor que a do segundo. Embora antiga, a pesquisa é válida, mas não pode ser analisada de forma isolada. Para a produção de uma política pública, costuma-se levar em conta um conjunto de pesquisas acadêmicas. E a maioria delas diz que teses voltadas para a abstinência são ineficazes no controle da gravidez precoce. “Já se investiu muito dinheiro nisso nos Estados Unidos e no Chile e os programas se mostraram ineficientes”, afirma a ginecologista Albertina Duarte Takiuti, coordenadora do Programa Saúde do Adolescente e de Políticas Públicas para Mulheres do governo de São Paulo. “No Japão e no Canadá, onde as taxas de gravidez na adolescência são baixíssimas, ninguém fala em abstinência” completa a especialista, que trabalha também como médica-chefe do Hospital das Clinicas em São Paulo. Ali, ela atende casos de meninas grávidas com até 10 anos.

Um amplo estudo feito por pesquisadores da Universidade de Exeter, na Inglaterra, que analisou mais de 220 pesquisas sérias sobre educação sexual nas escolas concluiu que intervenções focadas apenas em abstinência são ineficazes para promover mudanças positivas no comportamento sexual, diferentemente da instalação de clínicas em escolas e de programas centrados na prevenção. Não por acaso a Inglaterra virou referência no combate à gravidez precoce. Educação sexual em peso nas escolas foi o que fez, o país reduzir a taxa de natalidade entre adolescentes. Uma das maiores da Europa nos anos 90: 62%, porcentual semelhante ao que o Brasil tem hoje. Nos anos 2000, o governo britânico tornou gratuito o acesso a métodos contraceptivos, o que incluía até a pílula do dia seguinte. Os resultados demoraram a aparecer, mas vieram: hoje, o índice está em 14%. Nos últimos dez anos, a diminuição foi ainda mais acentuada, de mais de 50%, seguindo a mesma proporção da queda no número de abortos no país, procedimento permitido desde1967.

Na contramão das melhores práticas internacionais, a ministra Damares quer inserir o incentivo à abstinência nas políticas públicas. Concebido em sua pasta, o Plano Nacional de Prevenção ao Risco Sexual Precoce prevê a contratação de uma consultoria que vai avaliar resultados de países que mantêm a recusa ao sexo como método de controle de gravidez entre adolescentes, como Uganda, Chile e Estados Unidos. Previsto para ser elaborado ao longo deste ano, o plano terá um a versão piloto a ser desenvolvida em escolas públicas e unidades de saúde em três municípios e depois, replicado ao restante do país.

Embora Damares sempre negue que esse tipo de atuação seja motivada por suas crenças religiosas (é ministra da Igreja Batista) a confusão é evidente. No ano passado ela chamou um colega de crença o pastor Nelson Júnior, para capacitar funcionários de sua pasta durante um seminário na Câmara dos Deputados. O religioso convidado para o evento encabeça o movimento ‘Eu Escolhi Esperar”, que encoraja os solteiros cristãos a esperar até   o casamento para viver suas experiências sexuais. Considerada hoje uma das figuras mais populares do ministério de Bolsonaro; Damares também afirmou certa vez que “o país é laico, mas esta ministra é terrivelmente cristã”.

Seu perfil se encaixa perfeitamente em um governo que muitas vezes confunde Igreja com Estado, entidades separadas no Brasil desde a segunda Constituição da República; de 1891 Em algumas áreas, o slogan de Bolsonaro (“Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”) se materializa em ações direcionadas a implementar a chamada agenda conservadora de costumes, que agrada em cheio à base política e eleitoral evangélica do bolsonarismo. O aparelhamento vai desde a criação de critérios para determinar que tipo de produção cultural deve receber financiamento público até uma possível seleção de membros do Supremo Tribunal Federal (Bolsonaro prometeu indicar um ministro terrivelmente evangélico para a Corte). Na área da saúde, a pregação da abstinência é o exemplo mais preocupante dessa política. Educação sexual e liberdade de escolha (a possibilidade de um aborto legal) se mostram ao redor do mundo os métodos mais eficazes para combater a gravidez na adolescência. O único mérito de Damares foi ter posto esse tema na pauta de discussões nacionais. Mas é preocupante que ela esteja prescrevendo o remédio errado para evitar novos dramas como o da adolescente S. e de tantas outras jovens brasileiras.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 12 DE FEVEREIRO

O DRAMA DA DOR

Se eu falar, a minha dor não cessa; se me calar, qual é o meu alívio?  (Jó 16.6).

A dor é a experiência mais comum da vida. Há dor física e dor emocional. Há dor que atinge o corpo e dor que assola a alma. Um dos retratos mais dramáticos dessa amarga experiência é a família do patriarca Jó, que passou pelo terrível drama da dor. Jó era homem rico e pai exemplar. Sua vida estava certa com Deus e com os homens. Deus testificou de sua integridade, mas Satanás questionou suas motivações. Deus permite a Satanás tocar nos bens, na família e na saúde de Jó. Deus, então, constitui Jó seu advogado, e Satanás tira do servo do Senhor seus bens, seus filhos e sua saúde. Jó vai à falência. Perde seus dez filhos num único acidente e enterra todos eles no mesmo dia. Assolado por uma dor indescritível, prostra-se, adora a Deus e diz: O SENHOR o deu e o SENHOR tomou; bendito seja o nome do SENHOR! (1.21). O sofrimento de Jó não parava aí. Ele foi afligido também por uma doença terrível. Seu corpo ficou tomado por chagas. Sua pele necrosou sobre os ossos pontiagudos. Ele perdeu o apoio da mulher e ainda recebeu injustas acusações dos amigos. Nesse mar revolto de dor, Jó não blasfemou contra Deus. Ao fim, o Senhor lhe restaurou a sorte e lhe devolveu o dobro de tudo quanto possuíra. O Deus de Jó é também o seu Deus. Espere nele, e sua restauração brotará sem detença!

GESTÃO E CARREIRA

UM NOVO PARADIGMA

O ritmo das mudanças no mundo dos negócios coloca em xeque a busca por melhores resultados. Como o desenvolvimento da liderança positiva pode potencializar altos níveis de performance e engajamento

Tanto quanto uma empresa precisa estar constantemente atualizada para se destacar no mercado, os líderes necessitam se manter na dianteira de inovação e criatividade para garantir seu espaço ao sol. Nesse contexto, ganham destaque as competências da liderança potencializadas por conceitos e premissas da Psicologia Positiva – a liderança positiva.

O líder positivo, direcionado a obter de seus liderados os mais altos níveis de performance, deixa de ser um líder comum ao transformar as forças da sua equipe em molas propulsoras de desempenho.

Em sua posição de liderança, ele possui a habilidade de nutrir as características positivas de seus colaboradores, dando oportunidades para que eles alinhem suas atividades às suas forças e valores.

Peter Drucker, considerado o pai da administração moderna, atribui o sucesso ao autoconhecimento: “O sucesso vem para aqueles que conhecem a si mesmos – suas forças, seus valores e como eles obtêm sua melhor performance”. Mas o que torna uma pessoa um líder extraordinário? E mais, como esse líder pode utilizar a liderança positiva para elevar os resultados de seus liderados e, ao mesmo tempo, engajar- se em um processo de autodesenvolvimento?

A figura do líder não é nova; ela está presente e vem se transformando ao longo de diferentes épocas, contextos e de acordo com variáveis cenários e complexidades. Ao longo dos séculos, os significados atribuídos ao que constitui e origina a liderança foram se transformando de acordo com a investigação de diferentes teorias.

Considerando-se a evolução da liderança na contemporaneidade, percebe-se que a figura do líder evoluiu de um perfil centrado em si mesmo e nos próprios interesses até chegar ao perfil valorizado atualmente, prezando por relações orgânicas que buscam equilibrar desejos e diversidade em direção a objetivos comuns.

John Zenger e Joseph Folkman, autores do best-seller O Líder Extraordinário, após analisarem 200 mil assesments de 20 mil gerentes, concluíram o seguinte: os líderes fora d o comum alcançam de forma constante resulta dos que ultrapassam aqueles atingidos pelos líderes considerados apenas “bons”.

Além disso, a partir de sua liderança, o turn over diminui drasticamente, a motivação entre os liderados aumenta, assim como os níveis de satisfação dos clientes. Ou seja: a liderança eficaz gera ondas de resultados positivos de ponta a ponta.

A liderança, de fato, costuma atrair a atenção dos pesquisadores que buscam entender o que constitui o perfil dos indivíduos que se destacam à frente de equipes e do próprio desenvolvimento. Sob esse ponto de vista, num aspecto crucial para a liderança positiva é o elo que no uso das forças dos indivíduos.

Há quase uma década, o Instituto Gallup divulgou os resultados de um projeto de pesquisa de 30 anos que iniciou uma conversa global sobre o tema das forças no contexto da liderança positiva.

Foram pesquisados 1 milhão de times, 50 mil líderes e 200 mil liderados, e descobriu-se que houve 73% de aumento no engajamento quando o líder valorizou as forças individuais versus 9% de aumento no engajamento quando o líder não valorizou as forças individuais.

Os resultados, publicados no livro Strengths-Based Leadership (Liderança baseada em forças), indicam que não basta que o líder conheça suas forças; ele também deve saber usá-las de modo a evidenciar o que ele possui de melhor e extrair o melhor das pessoas mesmo em face de situações desafiadoras ou adversas. Dessa forma, o uso das forças de caráter e virtudes do indivíduo, entre outros pontos, é um tema extremamente caro para a liderança positiva.

De forma complementar, a pesquisa do Gallup se concentra não apenas em observar como os líderes se comportam, mas também os liderados. Um líder que avança sem seguidores caminha em direção a nada. Dez mil liderados foram analisados e responderam a duas perguntas: (1) Qual líder tem a influência mais positiva em sua vida diária? (2) Liste três palavras que melhor descrevam o que essa pessoa contribui para sua vida.

Os resultados foram notavelmente simples e profundos. As quatro coisas que os liderados querem de seus líderes são confiança, compaixão, estabilidade e esperança. Na verdade, não muito longe do que Aristóteles disse há 2.500 anos – as pessoas querem que os líderes tenham ethos (confiança), pathos (compaixão) e logos (estabilidade e esperança).

O perfil do líder é, portanto, marcado pela pluralidade de forças que, atuando conjuntamente, distinguem-no em meio aos líderes meramente ordinários. Assim, uma das características que mais se destacam nos líderes de sucesso é sua postura como modelo de atitudes e comportamentos positivos que ele deseja enxergar refletidos em outras pessoas.

Para tanto, isso se dá pela via do exemplo. Quando o líder se destaca por suas atitudes, e essas, por sua vez, concretizam-se em forma de comportamentos exemplares, o líder se torna uma referência, alguém que está ali como fonte de inspiração para que todos à sua volta busquem a excelência incansavelmente e com prazer.

É por isso que, ao representarem modelos positivos para seus liderados, esses líderes conquistam mais comprometimento, cooperação, apoio e resultados.

FLORA VICTORIA – é presidente da SBCoaching Trainng, mestre em Psicologia Positiva Aplicada pela Universidade da Pensilvânia, especialista em Psicologia Positiva aplicada ao coaching. Autora de obras acadêmicas de referência, ganhou o título de embaixadora oficial da Felicidade no Brasil por Martin Seligman. É fundadora da SBCoachng Social.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

AMOR E SEXO EM TEMPOS DE INTERNET

Sites eróticos, páginas que prometem a oportunidade de encontrar o “par perfeito”, fóruns destinados aos mais inusitados fetiches, serviços on-line para pessoas interessadas em relações extraconjugais – o anonimato e a variedade de estímulos proporcionados pela rede permitem experimentar novas formas de se relacionar; nesse “laboratório de comportamentos”, é possível expressar os aspectos mais sombrios de nós mesmos

Na década de 70, um grupo de universitários ficou confinado por cerca de uma hora dentro de uma sala completamente escura no Swarthmore College, na Pensilvânia. Eram 50 homens e mulheres com idade entre 18 e 25 anos que não se conheciam. Sabiam apenas que participavam de um estudo de psicologia e que, principalmente, não seriam apresentados uns aos outros. O psicólogo Kenneth Gergen instalou um gravador no local e depois entrevistou cada participante sobre o que ocorreu. Segundo ele, poucos minutos depois do início do experimento, os voluntários começaram a se movimentar pela sala e a conversar em voz baixa com uma ou outra pessoa, abandonando ou prolongando o contato de acordo com seu interesse. A maioria confessou que sentiu curiosidade, ansiedade e excitação sexual durante aqueles minutos. Metade deles abraçou alguém e uns poucos chegaram a trocar beijos, o que não aconteceu quando o psicólogo repetiu o experimento com outro grupo. mas com as luzes acesas.

“Imagine uma câmara escura muito maior que a de Gergen, capaz de comportar milhões de pessoas que acreditam estar no anonimato. Essa pode ser a internet”, compara o neurocientista Ogi Ogas, professor na Faculdade de Educação da Universidade de Harvard e um dos autores do maior estudo já feito sobre sexualidade. Com o neurocientista Sai Gaddam, Ogas mapeou mais de 400 milhões de consultas feitas em cinco idiomas nos sites de busca Google, Yahoo! e Bing entre julho de 2009 e julho de 2010 – 55 milhões destas relacionadas a sexo, o equivalente a 13% das buscas. Segundo os pesquisadores, isso corresponde a 2 milhões de pessoas. Os resultados, divulgados no livro A billion wicked thoughts (“Um bilhão de pensamentos pervertidos”, sem edição em português, Dutton, 2011), mostram que, apesar da variedade oferecida pela rede, 90% das buscas estão concentradas em apenas cinco tipos de material pornográfico.

Os neurocientistas analisam alguns dos dados da perspectiva da psicologia evolutiva. Por exemplo, a grande procura por vídeos e fotografias de mulheres mais jovens (13,5% das buscas continham palavras referentes à juventude) por usuários do sexo masculino é resquício segundo eles, da atração ancestral por parceiras capazes de gerar filhos saudáveis. No entanto, o ponto de vista evolucionista não explica alguns conteúdos populares na rede, como os designados pela sigla MILF, que se refere à fantasia de fazer sexo com mulheres da idade da própria mãe, e pelo termo cuckhold – simulação na qual um homem é forçado a assistir à sua mulher fazendo sexo com outros -, o que mostra que o desejo sexual não é regido apenas por fatores biológicos.

Para o psiquiatra Alexandre Saadeh, especialista em sexualidade do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (IPQ-USP), o anonimato proporcionado pela rede permite dar vazão a algumas fantasias de forma tranquila, isto é, sem expor o desejo à possível rejeição ou ao julgamento do outro. Segundo a psicóloga Rosa Farah, coordenadora do Núcleo de Pesquisas da Psicologia da Informática da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (NPPI/PUC-SP), o espaço virtual funciona como um laboratório de comportamentos, no qual projetamos aspectos criativos e sombrios de nós mesmos. “Na frente do computador, o internauta está sozinho e, ao mesmo tempo, ‘em relação’. O ‘outro’ está suficientemente distanciado para permitir que seu ‘eu’ se expresse com maior liberdade e de modo mais protegido”, diz.

INVENTÁRIO DA SEXUALIDADE

Antes do estudo de Ogas e Gaddam, o maior “banco de dados” sobre interesses sexuais foi o formado por informações colhidas pelo zoólogo americano Alfred Kinsey nos anos 40. Ele entrevistou 18 mil americanos e constatou que homossexualidade e masturbação feminina não eram tão raras como se imaginava – segundo o pesquisador, 37% dos homens e 13% das mulheres haviam tido relações homossexuais que resultaram em orgasmo. Suas conclusões se tomaram popularmente conhecidas como “relatório Kinsey” e ainda são citadas como uma espécie de inventário da sexualidade, apesar de o zoólogo haver reunido dados de uma população muito específica – todos os entrevistados eram brancos, de classe média e tinham menos de 35 anos.

Mais de meio século depois é difícil estimar a proporção de usuários da rede que procura conteúdo erótico. Mas a amostra de Ogas e Gaddam pode ser significativa, considerando que, no período da pesquisa, 13% das buscas totais na web eram associadas ao tema, e o filtro virtual CYBERsitter bloqueava 2.5 milhões de páginas com material pornográfico. Segundo os dois pesquisadores, o site adulto Livejasmin.com, no qual usuários interagem ao vivo por meio de webcam, recebe sozinho cerca de 32 milhões de visitantes por mês, o que equivale a 2,5% do total de usuários da rede.

Segundo Rosa, ainda estamos aprendendo a lidar com as oportunidades que a rede nos oferece. Ela pode funcionar como via de autoconhecimento, na qual facetas da sexualidade se tornam mais visíveis e perceptíveis. Alguns aspectos da pesquisa de Ogas e Gaddam chamam a atenção, como a diferença entre o tipo de conteúdo procurado por homens e mulheres e a relação de ambos com o sexo virtual.

Ao cruzarem a busca por conteúdo relacionado a sexo com o histórico virtual dos usuários e cadastros de visitas a sites adultos os dois pesquisadores puderam criar hipóteses sobre o sexo e a orientação dos autores das consultas. Eles constataram que a pornografia visual é de interesse principalmente masculino. No entanto, cada vez mais mulheres usam a rede para satisfazer sua curiosidade e alimentar algumas fantasias. Elas são as principais visitantes de sites de contos e romances eróticos.

“Há alguns anos o simples pensamento de ser surpreendida alugando um filme erótico impedia uma mulher de buscar esse tipo de conteúdo. Hoje ela pode satisfazer sua curiosidade teclando e clicando, segura com a ideia do anonimato”, escreve Ogas. Um estudo do Departamento de Psicologia da Universidade de New Brunswick, no Canadá, divulgado em 2011, mostra que, se por um lado homens consomem mais pornografia, as mulheres fazem sexo virtual – isto é, interagem eroticamente com uma ou mais pessoas por meio da rede – tanto quanto eles. A pesquisadora Krystelle Shaughnessy entrevistou 217 adultos jovens. Os resultados apontam que 8 % dos homens já assistiram a vídeos ou viram cenas de sexo explícito on-line, contra 31% das mulheres. No entanto, em média, voluntários de ambos os sexos fazem sexo virtual de duas a três vezes por mês. Há outro estudo em andamento na instituição, sobre o tipo de parceiro que as pessoas procuram para o sexo on-line. Os resultados não foram divulgados, mas os autores constataram que, ao contrário da ideia que se tem de sexo virtual (a de dois estranhos que provavelmente nunca se encontrarão ao vivo), a interação intencional entre usuários do mesmo círculo social é algo muito comum.

SOLIDÃO E LAÇOS FRÁGEIS

Acessar a internet com propósito sexual parece ter virado rotina em países do Ocidente e do Oriente, entre ambos os sexos. “É difícil imaginar outra mudança tão impactante no campo da sexualidade. Ao visitar um site adulto é possível ver em 30 segundos uma infinidade de corpos nus e obter todo tipo de estímulo sem ter de interagir com ninguém”, analisa Ogas.

Segundo Saadeh, o uso frequente de material pornográfico envolve um ciclo de busca constante por estímulos. “Há casos em que a pessoa deixa de sentir prazer e satisfação com o sexo ‘natural’, e o hábito começa a prejudicar o sono e o desempenho no trabalho por causa das horas investidas em procurar sexo na rede”, explica o psiquiatra, descrevendo sintomas da compulsão por consumir pornografia na internet. O uso excessivo da rede, não apenas com fins sexuais parece afetar as relações sociais e afetivas. Um levantamento feito em 2011 pelo site de relacionamentos americano OK Cupid mostra que usuários com conta ativa na rede Twitter têm namoros e casamentos em média dois meses mais curtos. Os resultados foram baseados no histórico amoroso e na média de tempo passado na rede social por 800 mil usuários. A hipótese é que a vida social na web demanda tempo e atenção. o que interfere nos relacionamentos “reais”. Talvez o sexo virtual seja atraente porque pode proporcionar prazer imediato, sem o risco da frustração. ”A satisfação afetiva e sexual é uma ‘batalha’ diária, que depende do desejo e da disponibilidade do outro. Ela leva tempo e exige intimidade para ser conquistada”, diz Saadeh.

REGRA 34:  FANTASIAS ON-LINE

“Se uma coisa existe, há pornogralia sobre ela. Sem exceções.” Referida como regra 34 da internet”, a frase faz parte de uma espécie de lista de conduta para usuários da plataforma de imagens 4chan, a maior comunidade anônima da web, com cerca de 12 milhões de membros. um território “livre”, no qual pode ser postado todo tipo de conteúdo. Os neurocientlstas Ogi Ogas e Sai Gaddam decidiram verificar o alcance da regra e analisaram a busca de palavras relacionadas a sexo em inglês, português, italiano, híndu, japonês e russo. Algumas das preferências que identificaram:

• Ser traído é uma das fantasias sexuais mais populares: conteúdosde cuckhold porn (simulações em que homens são forçados a assistir à sua mulher fazendo sexo com outro) compreendem 3.4% das buscas.

• Homens preferem o corpo das jovens (13,5%das pesquisas fazem menção à juventude) , mas há uma grande procura por vídeos de sexo com mulheres idosas –  4.3% das consultas continham a sigla MILF, que se refere ao fetiche de fazer sexo com mulheres que parecem ter a idade da própria mãe.

• Usuários do sexo masculino buscam por vídeos e fotografias que evidenciem pênis de tamanho acima da média. As cenas de sexo grupal são muito clicadas, principalmente aquelas em que há mais homens que mulheres.

• A palavra “gay”está entre as dez mais pesquisadas.

• Animações japonesas de sexo explícito, conhecidas como hentai, estão entre os vídeos mais acessados.

• Homens heterossexuais buscam mais por filmes pornográficos amadores, segundo os autores por preferirem cenas de orgasmos verdadeiros. Uma pesquisa antérior, do Center for Behavioral Neuroscience, já havia comprovado que, ao assistriem a filmes pornôs, homens focam mais o olhar na face da atriz na tentativa de verificar o que lhe causa mais prazer.

• Um terço dos usuários cadastrados para receber o boletim informativo da revista Todays Christian Woman (“Mulher cristã de hoje”) também procura por conteúdo erótico.

• A procura por partes específicas do corpo varia entre as culturas. Há préferência geral por seios, pés e pénis “grandes”. Na Índia, por exemplo, há maior curiosidade por barrigas. Na maioria dos países latinos, principalmente no Brasil, por nádegas. No Japão, pela região chamada zettal ryouiki, a parte da coxa que fica exposta quando a mulher usa saia curta e meias três quartos – um sem-número de produções hentoi retrata esse fetiche.