A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

OS LIMITES DA SIMULTANEIDADE

Ler e-mails, analisar dados e falar ao telefone simultaneamente – parece que não dá mais para trabalhar sem fazer mil coisas ao mesmo tempo. Mas esse “processo paralelo” nos poupa realmente tempo? Depende, dizem os pesquisadores.

Você se reconhece nessa situação? Chega ao trabalho de manhã, dá uma rápida olhada em sua lista de 20 coisas a fazer e sente um apeno no estômago. Para economizar tempo, “ataca” todas ao mesmo tempo: foz ligações e olha os e-mails, enquanto ouve seu colega contar como foram as férias dele e seleciona a correspondência. Dedica a tarde a um relatório interminável – atendendo telefonemas e olhando para o computador cada vez que aparece o ícone de nova mensagem. Nem bem começou a preparar sua apresentação de amanhã e seu chefe pede uma atualização do balanço de vendas. Então um de seus clientes mais importante liga. Você continua totalizando as vendas – segurando o fone no ombro – até que, 15 minutos depois, finalmente consegue se livrar dele educadamente. Sente-se um polvo, fazendo as coisas com oito braços, tentando desesperadamente evitar que eles terminem num grande nó.

Mas não adianta reclamar. Quem quiser progredir na carreira hoje precisa dominar a arte de fazer tudo ao mesmo tempo. Pelo menos é nisso que muitos acreditam, tanto chefes como funcionários. De acordo com uma pesquisa feita pela Intel, 60% dos entrevistados acreditam poder obter vantagem competitiva nos negócios se conseguirem fazer mais de uma coisa simultaneamente. A maioria acha que consegue se dedicar a várias coisas ao mesmo tempo.

Mas esse parece ser um grande engano. Um número cada vez maior de estudos mostra que tentar fazer malabarismo com as tarefas em vez de completá-las em sequência pode levar mais tempo e deixar o trabalhador malabarista com habilidade reduzida para desempenhar cada uma dessas tarefas. Isso porque o cérebro é apenas muito de longe comparável a um computador em seu modo de operar.

O computador é o rei das multitarefas. Enquanto registra as palavras digitadas num processador de textos, está baixando um clipe da internet – e também verificando se há vírus nos e-mails que chegam. Tente você somar 14 e 3 e ao mesmo tempo multiplicar os dois números. Seu PC faria isso facilmente. E você? Não se preocupe, ninguém consegue! Mas, diferentemente dos computadores, muita gente é capaz de participar de uma animada discussão sobre reforma tributária enquanto tricota, corre ou dirige. Ainda é especulação, pelo menos por enquanto, imaginar se nos daríamos melhor com um disco rígido maior ou um processador a mais na cabeça para executar multitarefas.

Na busca pelo segredo do trabalho simultâneo, psicólogos descobriram três coisas nas últimas décadas. A primeira é óbvia: tarefas simples quase não causam esforço ao cérebro. Atividades uniformes e banais podem ser combinadas com outras mais difíceis. Comer (fácil) e falar ao telefone (difícil) ao mesmo tempo ou distrair-se – (difícil) enquanto lava a louça são dois exemplos da execução de multitarefas.

A “dificuldade das tarefas” é crucial. Mas também é possível combinar duas tarefas relativamente difíceis – desde que não sejam muito parecidas: pianistas, por exemplo, conseguem tocar uma nova peça, lendo a partitura, enquanto repetem um texto lido em voz alta para eles a uma velocidade de 150 palavras por minuto. Os pianistas recebem a informação por canais diferences (olhos e ouvidos), usam as regiões do cérebro que processam música e discurso, respectivamente, e no fim realizam essas “tarefas” com instrumentos diferentes: falando e utilizando os músculos da mão e do braço.

A regra geral para a similaridade de tarefas diz: quanto mais diferentes duas tarefas forem, mais provável será que usem partes do cérebro distintas, o que reduz o perigo de darem trombada em nosso processador.

A sabedoria popular que diz que “estrelas se fazem, não nascem prontas” aplica-se à arte da multitarefa. Até certo ponto, ela parece ser treinável. A experiência mais conhecida foi realizada nos Estados Unidos por três psicólogos, Elisabeth Spelke, William Hirst e Ulrich Neisser, de Harvard, da Universidade de Nova York e de Cornell, respectivamente. Eles deram a voluntários textos para ler e ao mesmo tempo pediram que escrevessem as palavras que iam sendo ditadas em voz alta.

No começo os voluntários acharam extremamente difícil fazer as duas coisas e tiveram de ler muito mais devagar. Mas depois de seis semanas de treino, conseguiam ler na velocidade normal. Os pesquisadores se surpreenderam ao notar que os participantes não tinham mais consciência do que estavam escrevendo. Eles automatizaram a escrita – e a transformaram numa tarefa simples.

ALOCAÇÃO DE RECURSOS

Os processos automáticos não se caracterizam apenas pelo fato de serem realizados com rapidez, inconscientemente e quase sem exigir do cérebro. Em casos extremos – por exemplo na leitura – quase nunca conseguimos eliminá-los quando queremos. Isso pode ser um problema. Só de olhar para uma palavra a deciframos automaticamente. Sem termos consciência, determinamos seu significado. Se isso contradisser outras informações fornecidas ao mesmo tempo, o resultado é uma “interferência”, que pode causar atrasos consideráveis no processamento (quadro acima).

Os três fatores da realização de multitarefas – dificuldade, semelhança e prática – dependem de um dos mais importantes recursos do cérebro, a consciência. O Prêmio Nobel em Economia Daniel Kahneman explica em seu “modelo de alocação e de recursos” que nossa consciência é limitada pela extensão de nossa atenção, mas é flexível o suficiente para se concentrar em uma tarefa ou para se dividir em várias. Tarefas difíceis exigem mais recursos; as mecânicas ou mais fáceis, menos.

Qualquer pessoa que dirige com frequência consegue, por exemplo, conversar sem fazer esforço, na maior parte do tempo. Se chega a um cruzamento perigoso, no entanto, pára automaticamente de falar – até que volte a haver atenção suficiente. Podemos imaginar um cano que contenha um ou mais fluxos de informação. Uma unidade especial de processamento (a “CPU”) divide o recurso da atenção e fornece frações dela aos vários fluxos de informação.

Se uma das tarefas for mais ou menos automática – talvez porque já a tenhamos treinado – poderemos concentrar parte de nossa atenção nela e ao mesmo tempo usar o restante dela para controlar outras ações.

JANELAS DE TRÊS SEGUNDOS

Além das teorias que consideram a alocação flexível de recursos, existem outros modelos explicativos. Um é o da “atenção modular”, e outro é o da “teoria do canal único”. De acordo com este último, pedaços individuais de informação precisam se alinhar numa fila, conforme são processados pelo cérebro, para passar por um funil antes de sofrer novos processamentos.

O psicólogo e pesquisador Ernst Põppel, do Instituto para Psicologia Médica da Universidade Ludvig Maximilian, em Munique, Alemanha, também acredita ser impossível, estritamente falando, realizar duas ou três tarefas simultaneamente com o mesmo grau de concentração. Segundo sua hipótese, a consciência simultânea e o processamento de informação acontecem em “janelas de três segundos”.

De acordo com Põppel, o cérebro capta em bloco todos os dados provenientes do ambiente durante três segundos, fatos subsequentes são processados na janela seguinte. Seria então simplesmente impossível realizar várias coisas ao mesmo tempo, processando assuntos diferentes simultaneamente, mas de forma independente.

Para suprir demandas como essa, apesar das limitações, nosso cérebro seria capaz, acredita Põppel, de saltar muito rápido de um contexto para outro – concentrar-se numa conversa por três segundos, depois três segundos para o bebê que chora e três para o computador -, como alguém que muda de canal com o controle remoto. Apenas um fica no primeiro plano de nossa consciência – os outros ficam no fundo até que ganhem acesso ao processador central. Por esse esquema, a arte de realizar tudo ao mesmo tempo não está na capacidade de fazer duas coisas de uma vez, mas em alternar rapidamente e sem percalços entre várias tarefas.

Em outras palavras, precisamos treinar nossa massa cinzenta a pular, e pular rápido. Mas, na verdade, Ernst Põppel não tem muita fé nessa “alteração de canais” mental. Durante esse “pensamento esquizóide”, conexões são perdidas e, em consequência, não se cria uma representação neuronal duradoura da informação processada desse modo.

Essa preocupação parece ser confirmada pelos resultados obtidos pelas equipes de pesquisa no Centro para Imagens do Cérebro Cognitivo da Universidade de Carnegie Mellon, em Pittsburgh. Pesquisadores mensuraram a atividade cerebral em voluntários submetidos a duas tarefas: avaliar um trecho lido em voz alta e depois que girar duas figuras tridimensionais. As imagens de tomografia revelaram uma “semelhança de tarefas” mínima. As regiões do cérebro ativadas quase não se sobrepunham; portanto deveria ser fácil combinar as duas tarefas. Quanto tiveram de lazer as duas coisas ao mesmo tempo, os voluntários conseguiram, mas não com a mesma rapidez nem tão bem.

O mais surpreendente foi a atividade do cérebro, bem limitada, enquanto tentavam realizar as duas tarefas juntas. Em comparação com as tarefas isoladas, o cérebro reduziu sua atividade em vários locais: a atividade combinada representava menos de dois terços da soma das duas tarefas individuais. “O cérebro humano não consegue simplesmente dobrar seu esforço quando há dois problemas para resolver ao mesmo tempo”, concluiu Marcel Just, que comandou o estudo.

Nosso cérebro aparentemente fica sobrecarregado com a obrigação de realizar tarefas simultâneas, mesmo quando parece dar conta delas. Muitos pesquisadores acreditam que esse fenômeno, comum em muitas profissões, leve ao stress e a problemas de concentração. Os psicólogos Edward Hallowell e John Ratey, de Harvard, veem a tendência crescente às multitarefas como causa de um “pseudo -TDA”, diferente do TDA (transtorno de déficit de atenção). Os afetados estão permanentemente em busca de novas informações e não conseguem se concentrar em seu conteúdo.

O fato de o hábito de executar várias tarefas simultâneas ser tão disseminado, apesar de suas desvantagens, mostra que “economizar tempo” se tornou um elemento central da vida de muita gente. Para medir a quantidade de tempo economizada com tarefas paralelas, o psicólogo David E. Meyer, da Universidade de Michigan, pediu a voluntários que escrevessem um relatório e verificassem seus e-mails ao mesmo tempo. O resultado, aqueles que alternaram as duas coisas constantemente levaram cerca de 50% mais tempo para terminar, se comparados aos que primeiro fizeram uma coisa e depois a outra.

SURFE MENTAL, PERDA DE TEMPO

Outro teste envolveu voluntários que tinham de alternar entre solucionar problemas matemáticos e classificar figuras geométricas, quanto mais difíceis os problemas e mais complexas as instruções de classificação, mais tempo perderam na alternância. Cada troca de foco exigia novos pensamentos, portanto envolvia mais recursos neuronais. “Fazer várias coisas ao mesmo tempo só é mais rápido quando se trata de tarefas rotineiras e relaxadas”, acredita Meyer.

Portanto quem quiser adotar o tudo – ao – mesmo – tempo – agora deve se perguntar se isso vai realmente ajudá-la a atingir suas metas mais rápido. É claro que não podemos deixar vários projetos abandonados o dia inteiro em cima da mesa até que o primeiro que começamos esteja concluído. Mesmo assim, deve-se evitar uma alternância rápida entre tarefas diferentes.

É comum termos a sensação de que estamos sendo criativos e produtivos por fazer várias coisas de uma vez – mas não concluímos nenhuma delas. Além de tudo, acabamos nos privando de um sentimento importante de satisfação que surge quando conseguimos mergulhar de cabeça num trabalho e fazê-lo bem feito.

MODELOS DE MULTITAREFA

A psicologia cognitiva desenvolveu, com várias experiências, três explicações para as capacidades humanas limitadas de executar multitarefas.

TEORIAS DO CANAL ÚNICO OU DO FUNIL

Haveria apenas um canal de processamento de dados; processar simultaneamente várias tarefas é basicamente impossível. Os partidários dessas teorias se baseiam num modelo de processamento “em série”: é claro que muitos sistemas sensoriais trabalham em paralelo, mas em determinado ponto os dados chegam a um funil em que as unidades de informação têm de passar uma de cada vez. As teorias diferem no quão cedo esse afunilamento ocorre. Associar tarefas só é possível se pularmos rapidamente de uma para outra. A execução aparente de várias coisas ao mesmo tempo é explicada pela “redundância”. Não precisamos, por exemplo, processar cada palavra para ler e compreender um texto. O cérebro pode então utilizar esses momentos para dedicar sua atenção a outra tarefa.

TEORIAS DE CAPACIDADE CENTRAL

Baseiam-se na limitação dos recursos de atenção. Esses recursos podem ser realocados entre tarefas diferentes com flexibilidade. Quando duas tarefas são realizadas, o desempenho depende de quantos recursos cognitivos requerem. Se a soma exceder os recursos de atenção disponíveis, o desempenho cai. O fator essencial para a execução de multitarefas é, de acordo com essa teoria, sua dificuldade – quanto mais complicada, mais atenção exige.

TEORIAS MODULARES

Fundamentam-se na ideia de que o cérebro trabalha como um computador – um PC com processamento paralelo maciço, um sistema de redes criado a partir de subsistemas especializados. O fator decisivo para a realização de multitarefas nesse modelo é sua semelhança entre si. Quando o desempenho cai, pode-se concluir que as duas tarefas estão usando os mesmos recursos ou subsistemas. Os neuropsicólogos cognitivos, mais que todos, são favoráveis a essas teorias.

CAMPEÃS NAS ATIVIDADES SIMULTÂNEAS

As mulheres são melhores que os homens na arte de fazer várias coisas ao mesmo tempo? Se depender do resultado do teste da escovação de dentes, a resposta é sim. Enquanto eles normalmente ficam parados diante da pia fazendo sua higiene bucal, elas usam o tempo para outras tarefas – limpar prateleiras, verificar se o xampu está acabando, talvez folhear uma revista. De acordo com um estudo com mil mulheres e homens alemães, dois terços dos homens preferiam fazer uma coisa só, enquanto cerca de metade das mulheres achava melhor fazer várias coisas de uma vez. Ainda são necessárias mais pesquisas para determinar se o cérebro feminino realmente lida de modo diferente com as multitarefas.

OUTROS OLHARES

NA BALA E NA FÉ

A expansão de uma facção de traficantes evangélicos faz explodir ataques a outras religiões em favelas do Rio

Aos 23 anos, Wendel Rodrigues Oliveira é um homem de fé. Em 27 de junho, postou no Instagram uma foto da Bíblia em seu colo, com a legenda: “Indo à casa do pai agradecer por cada dia de vida e pela paz que ele vem concedendo à comunidade do Parque (Paulista) e pelo seu povo”. No mês passado, publicou por seis dias, bem cedo pela manhã, a frase “Bom dia com Jesus, povão”, com duas mãos espalmadas em oração. Mas ele é também um homem do crime, e o relógio de ouro na foto com o livro sagrado é só um indicativo de seu poder. Na comunidade que cita em suas preces, o Parque Paulista, um bairro em que moram mais de 30 mil pessoas de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, o jovem é conhecido como Noventinha e comanda o tráfico de drogas. Foragido da polícia, tem mandados de prisão em seu nome por isso e por assassinato.

Em meio às postagens de louvor a Deus, há ameaças aos rivais. “Nunca duvide do poder de Deus. Se Ele transformou água em vinho, pode transformar sua vida em bênçãos e vitórias”, publicou o evangélico em 4 de setembro. Em duas oportunidades, compartilhou vídeos de clipes de cantoras gospel. No dia seguinte, o tom era outro: “Alemão nunca mais coloca o pé aqui e se tentar colocar é bala neles firme. Depois, eles que se preparem que já sabem bem a resposta. Tamo junto até a última bala do pente”, escreveu o traficante, em resposta a uma homenagem feita por um comparsa no dia de seu aniversário, 5 de setembro. Duas semanas depois, postou outro recado aos inimigos: “Se tentar contra a tropa do Parque Paulista, vai entrar no metal”. Noventinha também faz, eventualmente, propaganda de sua mercadoria, com fotos de drogas prontas para a venda — “maconha hidropônica, qualquer violação, reclamar na boca”, diz a embalagem —, roupas camufladas e armas.

Apesar de procurado pela polícia, o criminoso frequenta religiosamente igrejas evangélicas da comunidade ao menos uma vez por semana e não deixa de contribuir com o dízimo. Esse fenômeno paradoxal dos traficantes evangélicos não é novo no Rio, mas vem se alastrando rapidamente nos últimos dois anos, em razão da ascendência de uma das principais facções criminosas do estado. Desde 2017, dobrou o número de favelas que o grupo de Noventinha domina no Rio, na esteira da derrocada de uma das facções rivais. Antes concentrada na Zona Norte do Rio, a facção se espraiou por outras regiões e chegou à Baixada Fluminense. Um estudo da Secretaria de Segurança, do ano passado, estima que mais de 300 mil pessoas vivam em áreas sob o jugo do grupo, quase o dobro de uma década atrás.

A trajetória de Noventinha ilustra bem essa expansão. Ele saiu de Parada de Lucas, uma favela a cerca de 40 quilômetros de Parque Paulista, onde era mais um “soldado na hierarquia do tráfico”. Escolhido para invadir a comunidade em Duque de Caxias, até hoje envia ao quartel-general da facção, em Vigário Geral, na Zona Norte do Rio, o lucro da venda de drogas. “Sigo em silêncio e concluindo os objetivos que os BTB (sigla para Bonde dos Taca Bala, nome usado para se referir à facção) têm na Baixada”, afirma em uma postagem nas redes sociais.

O crescimento desses “narcopentecostais” acrescentou uma chaga a mais nas favelas que essa facção domina. Além do tráfico de drogas e da violência cotidiana, a devoção torta aos Evangelhos se reflete na intolerância em relação às religiões de matriz africana — o que, vale sempre ressaltar, não encontra respaldo entre os verdadeiros evangélicos, que pregam a convivência pacífica e a tolerância.

Embora sempre tenha havido episódios pontuais não só nas comunidades, mas também no asfalto, de agressões a seguidores de religiões de matriz africana, elas se tornaram a regra nessas áreas. Impulsionados por uma visão deturpada dos Evangelhos, esses criminosos perseguem e oprimem umbandistas e candomblecistas, entre outros — muito presentes na Baixada, aonde a facção chegou com força nos últimos tempos.

Um episódio do dia 11 de julho, no Parque Paulista, ilustra bem o terror que se instalou. Passava das 11 horas quando batidas no portão assustaram a mãe de santo de um terreiro de candomblé que funcionava ali havia mais de 50 anos — o mais antigo da região. Assim que a senhora de 86 anos abriu a porta, um homem apontou uma pistola para seu rosto e ordenou que destruísse todas as imagens e objetos do terreiro: “Não pode mais macumba aqui. Ordem do patrão”, disse.

Os homens nem sequer encostaram nos objetos. Sem conseguir mover as esculturas mais pesadas, a mulher precisou da ajuda de dois filhos de santo que estavam no local para levantar e arremessar no chão cerca de 20 imagens de orixás e esculturas de barro e ferro. Em seguida, os bandidos entraram nos vestiários, onde os seguidores se trocavam antes das cerimônias, e mandaram que todas as roupas brancas fossem jogadas no meio da rua, em frente ao terreiro. A pilha foi incendiada. “E agora? Seu orixá vai te proteger?”, zombou um dos invasores.

Assustados com a fogueira, vizinhos ligaram para a Polícia Militar. Um carro da polícia chegou uma hora depois, quando os homens já tinham partido. O que sobrou do terreiro foi levado em um caminhão. Antes do final da tarde, a mãe de santo partiu de lá, para não mais voltar. “Ela morou naquela casa por 50 anos. Está traumatizada até hoje, não consegue falar sobre o que aconteceu. Agora, estamos arrumando um outro espaço para retomar a rotina do terreiro”, contou uma filha de santo.

A invasão é um dos episódios mais recentes de uma escalada de casos de ataques de traficantes a templos de religiões de matriz africana no Rio. Só em 2019, até setembro, a Comissão de Combate à Intolerância Religiosa, organização que reúne membros de várias religiões e representantes do Tribunal de Justiça e do Ministério Público, contabilizou 176 terreiros fechados após ataques ou ameaças de traficantes — mais da metade dos casos na Baixada Fluminense. No ano passado, a comissão não recebeu nem 100 denúncias.

As investigações da Polícia Civil revelam que o aumento dos casos está diretamente ligado a um plano expansionista da facção. Quem está por trás das ordens para os ataques são os traficantes que se dizem evangélicos e se apresentam nas redes sociais como o “Exército do Deus Vivo”, como os pastores evangélicos costumam se referir aos fiéis. Ao longo das últimas semanas, entrevistamos pais, mães e filhos de santo, policiais civis e militares, promotores, defensores públicos, pastores e pesquisadores e analisou processos judiciais e inquéritos em andamento para mostrar como a intolerância religiosa e o crime organizado andam cada vez mais de mãos dadas no Rio.

Antes de continuar, uma explicação se faz necessária. Embora professem a fé evangélica, esses bandidos não têm respaldo das igrejas para suas atividades criminosas e tampouco para a perseguição a outras religiões. O bispo Robson Rodovalho, líder da igreja Sara Nossa Terra e presidente da Confederação dos Conselhos de Pastores do Brasil, afirmou: “Pessoas com esse comportamento são bandidos. Eles combatem terreiros com vandalismo e ameaças. Essas são as armas que eles têm contra locais que consideram demoníacos. Mas isso está errado, porque o Brasil é um país laico e de liberdade religiosa para todas as fés. É possível dizer que não concordo com religiões diferentes da minha, mas jamais terei o direito de destruir símbolos de outras denominações”. Para ele, que considera inaceitáveis os ataques aos centros, os traficantes evangélicos podem estar tentando se “legitimar com suas consciências”.

Em Vigário Geral, onde fica o comando do grupo criminoso, quem manda é Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, outro devoto traficante. O discurso religioso se confunde com práticas bárbaras. Seu bando cria porcos dentro da favela de Vigário Geral para desaparecer com cadáveres de vítimas da quadrilha. Nos últimos dois anos, pelo menos nove vítimas — moradores de favelas dominadas por grupos rivais ou pessoas que desobedeceram a alguma regra interna da comunidade — foram jogadas aos animais pelos criminosos. Sua quadrilha também é acusada de pagar R$ 300 mil por mês à polícia para ter informações antecipadas sobre operações.

Lá, tremula uma bandeira de Israel, possível de avistar da Avenida Brasil, a principal via do Rio. Uma teoria prevalente em algumas correntes evangélicas, particularmente as neopentecostais, prega que a criação do Estado de Israel foi o prenúncio da volta de Jesus Cristo, que se daria após um período de grande turbulência e da conversão dos judeus ao cristianismo.

O símbolo do Estado judeu é onipresente. Dentro da favela, a bandeira aparece num muro. Uma foto, ostentada nas redes sociais, mostra 14 fuzis enfileirados pelos criminosos com a imagem ao fundo. A estrela de Davi também enfeita a camisa de um time de futebol de Vigário Geral, financiado pelo traficante. No Parque Paulista, o baile funk realizado todo sábado passou a ser chamado de Baile de Israel. A festa — anunciada na internet com bandeirinhas da nação judaica — começa com músicas gospel, tocadas ainda no início da noite. Depois, a vodca é liberada por toda a madrugada.

A obsessão de Peixão pela fé judaica já foi testemunhada durante uma operação da Polícia Civil em um de seus domínios, Parada de Lucas. Num esconderijo subterrâneo usado pelo traficante para se esconder durante incursões policiais, agentes da Delegacia de Roubos e Furtos de Cargas (DRFC) encontraram — além de munição para uma metralhadora antiaérea e coletes balísticos — um exemplar de luxo da Torá , o livro sagrado do judaísmo. A obra estava acondicionada em um receptáculo de metal, parecido com um baú.

Um dos desenhos mais recentes feitos nos muros de Vigário Geral, grafitados com salmos e frases religiosas, traz a inscrição “12 anos, até aqui nos ajudou o Senhor”, em referência ao tempo que o grupo domina a comunidade. Sempre que uma nova favela é controlada pela facção, a primeira providência é escrever a frase “Jesus é o dono do lugar”. Na vizinha Cidade Alta, tomada há três anos, logo circulou um aviso, colocado nas portas dos moradores da comunidade: “Não sujar, esculachar nem ficar fazendo essas macumbadas, servindo a deuses estranhos, pois vocês nunca poderão esquecer que a gente só colhe do fruto que planta”. Junto, veio uma explicação “divina”: “Só estamos na luta porque foi ordenação do senhor Jesus que a comunidade da Cidade Alta se liberte desse mal e viva dias melhores”, diz a carta. De lá para cá, barracões foram depredados e mães de santo foram expulsas da favela. Atualmente, não há mais terreiros de candomblé na região.

Até meados dos anos 2000, o Parque Paulista era um bairro predominantemente rural. O acesso ao local se dava somente por uma estrada de terra que saía da Rodovia Rio-Magé. Devido ao isolamento, à tranquilidade e ao contato com a natureza, a região era um ponto muito procurado por candomblecistas para cultuar os orixás. Segundo moradores, desde a década de 1970, seis terreiros foram abertos ali numa área de poucos quarteirões. Em finais de semana de festas importantes, milhares de filhos de santo iam ao local. Era comum ver pessoas com roupas brancas dos pés à cabeça circulando por ali.

A partir de 2010, a paisagem começou a se modificar. Dois condomínios do programa Minha Casa Minha Vida foram inaugurados no bairro para abrigar moradores de áreas de Duque de Caxias ameaçadas de deslizamento. Junto, chegaram também comércios, serviços e até o asfalto: em 2014, as obras da principal via do bairro foram concluídas.

O progresso atraiu também o tráfico de drogas. Moradores mais antigos contam que homens armados com pistolas passaram a circular pelas ruas vendendo pequenas quantidades de droga. A opressão do crime chegou, mas a vida dos religiosos de matriz africana seguiu imperturbada. “Nós conhecíamos as famílias dos traficantes, muitas deles cresceram ali, nunca havia tido caso nenhum, nem sequer de xingamento”, contou um religioso que mora na região.

A situação mudou em 2016, quando o local, até então sob a influência da maior facção do estado, foi tomada pelo outro grupo criminoso. A tomada das bocas de fumo foi seguida pela expansão do domínio do território e pela imposição das novas leis. Mas foi neste ano que a intolerância se acentuou. O primeiro aviso do tráfico aos pais e filhos de santo chegou de bicicleta, logo no início de 2019. Um traficante, desarmado, passou pelos barracões comunicando as determinações da “nova gestão”. A partir daquele momento, o uso de roupas brancas — vestimenta dos candomblecistas para cultuar os orixás — pelas ruas da favela estava proibido. Se quisessem continuar a usar a indumentária, os frequentadores teriam de se trocar após a entrada nos barracões. O toque dos atabaques só seria tolerado até as 20 horas, mesmo nos finais de semana. Os avisos foram somente o prelúdio do que estava por vir.

Em maio, três adolescentes armados com pistolas bateram num dos terreiros na região em meio a uma festa. A casa estava cheia. “Ninguém quer mais macumba aqui. Tem uma semana para acabar com isso tudo!”, disse um dos jovens, segundo uma testemunha. Os três saíram dali dando tiros para o alto. No mesmo dia, o barracão fechou as portas. O pai de santo, que morava numa casa anexa, seguiu vivendo no local, mas não há mais nenhuma atividade religiosa no lugar. “Orientei os membros a deixarem de vir para consultas ou jogo de búzios, não havia mais condição. Tirei todos os objetos sagrados e roupas de lá. Passei a frequentar outro terreiro, num lugar seguro, como um refugiado”, contou o sacerdote.

Atualmente, todos os seis terreiros do Parque Paulista estão fechados por determinação do tráfico. Quinze igrejas evangélicas funcionam no bairro — 11 delas são da Assembleia de Deus.

A relação bizarra entre o tráfico e a religião evangélica no Rio começou no início dos anos 2000, com a conversão de Fernando Gomes Freitas, o Fernandinho Guarabu, influenciado por um pastor local. Então chefe do tráfico em uma favela na Ilha do Governador, na Zona Norte do Rio, tornou-se evangélico fervoroso, tatuou “Jesus Cristo” no braço e passou a dedicar um dia por semana ao jejum e à oração. Durante quase 20 anos, foi o maior chefe da facção fora da cadeia, até ser morto em uma operação policial, em junho deste ano. Tanto Peixão quanto Noventinha, e centenas de outros, são discípulos diretos de Guarabu.

Pastores e líderes evangélicos ouvidos por ÉPOCA são unânimes em apontar a incompatibilidade entre a fé evangélica e o tráfico de drogas. Neil Barreto, da Igreja Batista Betânia, afirmou que esses criminosos não podem ser considerados religiosos: “Eles ouvem a palavra de Jesus, simpatizam com ela, mas não a praticam. Ela é só um discurso, não uma prática. Esse uso da religião, como símbolo de destruição, é perverso”.

A dinâmica de crescimento desse exército da fé e do pó está condicionada a causas muito terrenas, como a luta com outras facções pelo território das favelas do Rio e um combate eficiente das forças de segurança ao narcoterrorismo, seja ele laico ou com notas religiosas. Enquanto isso, às vítimas, resta rezar, seja para que Deus for.

GESTÃO E CARREIRA

QUAL É SUA MARCA PESSOAL?

Construir uma boa imagem profissional – dentro e fora da organização – é importante para ganhar a confiança de chefes e colegas e crescer na carreira

A reputação é um dos temas de carreira mais nebulosos. Alguns motivos tornam o conceito complexo. De modo geral, o mundo corporativo atrela o sucesso no trabalho à evolução na carreira à qualidade técnica das atividades desempenhadas. Logo, quem bate as metas está cumprindo sua missão e, consequentemente, vai se desenvolver. Mas, em minha opinião, esse entendimento focado em resultados é uma visão ingênua.

Isso porque, no dia a dia dos negócios, as pessoas tomam decisões com base nas percepções sobre o outro; e não somente pelo cumprimento ou não das metas. O best-seller de Daniel Kahneman Rápido e Devagar (Objetiva, 69,90 reais) ilustra bem essa questão. Na obra, ele alerta, inclusive, para o risco de formar rápido demais uma opinião. O fato é que somos seres biologicamente treinados para coletar impressões e nossas decisões sobre pessoas são tomadas com base nessas percepções.

A maneira como alguém se relaciona ou apresenta um trabalho, a postura ao atender às solicitações, a disponibilidade para ajudar e a relação que mantém com colegas de outras áreas moldam a visão de pares e gestores e constroem a reputação.

O grande desafio é tornar esse pilar importante de carreira algo consciente no indivíduo. É despertar em cada um a necessidade de pensar sobre o tema e elaborar suas estratégias, o que exige interesse em descobrir como está a própria imagem – e a tratá-la como parte do trabalho. E isso não é papel da área de recursos humanos, do chefe ou de algum consultor. O responsável pela construção de uma marca pessoal é o indivíduo. Ele poderá buscar ajuda, mas sempre será o personagem principal.

Reforço aqui que não estamos tratando apenas da visão de um líder sobre seu time. A reputação é a imagem de uma pessoa dentro da organização – e fora dela também, ou seja, no mercado. Isso inclui redes sociais, empresas em que já trabalhou e até mesmo colegas de universidade. Tudo vai compondo uma marca pessoal.

O protagonista na carreira está sempre atento a isso e pensa em estratégias para cuidar de sua imagem, corrigir distorções e melhorar seu posicionamento. Para aqueles que acham isso uma conversa sem foco e preferem os números de suas planilhas, sugiro que repensem sobre como são tomadas as decisões de promoção ou desligamento. Reflitam a respeito do que leva um chefe a promover – ou não – alguém.

Basta fazer uma análise cautelosa e veremos que a reputação estará sempre presente nos movimentos de carreira. Faça a pergunta: qual é minha imagem na empresa e no mercado? Reflita sobre a resposta e, se necessário, redesenhe suas atitudes.

RAFAEL SOUTO – é fundador e CEO da consultoria Produtive, de São Paulo. Atua com planejamento e gestão de carreira, programas de demissão responsável e de aposentadoria.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 2 DE FEVEREIRO

ARREPENDIMENTO E FRUTOS DE ARREPENDIMENTO

Os preceitos do SENHOR são retos e alegram o coração (Salmos 19.8a)

Jesus perdoa o pecado da mulher apanhada em adultério e a despede em paz, mas com uma condição: Vai e não peques mais (João 8.11). Não é arrependimento e novamente arrependimento, mas arrependimento e frutos de arrependimento. Arrependimento implica mudança de vida, significa não voltar às mesmas práticas de pecado. Cristo nos perdoa, mas temos de trilhar o caminho estreito da nova vida e abandonar a estrada larga do pecado. Não se iluda: o pecado parece doce ao paladar, mas é amargo ao estômago. O pecado parece atraente e apetitoso, mas o seu fim é a escravidão e a morte. O pecado é uma fraude, e o diabo, um estelionatário. Ele doura a pílula e mostra o pecado como algo apetitoso, mas por trás dessa isca esconde-se o anzol da morte. O pecado promete prazer e paga com tormento; promete liberdade e escraviza; promete vida e mata. O prazer é momentâneo, mas seu tormento não tem pausa. O pecado é uma farsa, pois deságua na solidão e depois conduz à condenação eterna. O pecado é o maior de todos os males. É pior que a solidão, a dor, a pobreza e a morte. Todos esses males, embora sejam cruéis, não podem afastar você de Deus, mas o pecado o afasta de Deus agora e eternamente. Não fuja de Deus por causa do pecado; fuja do pecado para Deus. Nele há perdão, salvação e paz!