OUTROS OLHARES

ENVELHECIMENTO SEM AMPARO

Aumento da expectativa de vida, em meio à precariedade dos serviços do governo, condena idosos à permanência indefinida no mercado de trabalho. Gastos adicionais com a saúde dos mais velhos serão de R$ 50 bilhões até 2027

A empregada doméstica gaúcha Tereza Beatriz Viega, de 77 anos, moradora da região central de São Paulo, é o típico caso de uma idosa brasileira desamparada. Ela poderia estar em casa, aproveitando sua pensão alimentícia e cuidando dos netos. Mas a realidade torna isso impossível. Ela não ganha o suficiente e precisa trabalhar duro. Para conseguir um posto de trabalho depois de dois anos sem emprego formal, Tereza circulou pelas ruas da cidade e no transporte público com um cartaz em suas mãos, com a inscrição “o trabalho fica, a esmola vai embora, por misericórdia me arrume um emprego. Obrigado”. Felizmente ela conseguiu o tão sonhado emprego. Seu pedido chegou aos ouvidos do gerente geral de recursos humanos do supermercado Extra, do grupo Pão Açúcar, Anderson Brugnera, que a contratou. “Ela nos surpreendeu com sua coragem e dedicação”, afirma Brugnera. Tereza, por sua vez, não reclama de sua situação e diz que pretende trabalhar até os 100 anos. “Você não pode imaginar quanta dignidade esse emprego me trouxe”, desabafa.

O que resta aos idosos hoje no Brasil é arrumar um emprego porque, se depender do Estado, eles ficarão numa situação de abandono. O aumento da expectativa de vida dos brasileiros, que cresce três meses ao ano, pressiona os cofres públicos, expõe a precariedade da previdência pública, aumenta a necessidade de uma previdência privada para aumentar a renda e acaba com o sonho da velhice tranquila. Os brasileiros com mais de 60 anos somam, atualmente, cerca de 30 milhões de pessoas, o equivalente a 15% da população. Desse total, pelo menos 350 mil idosos estão em busca de emprego e 41% dos ocupados, na informalidade. A situação de falta de trabalho ocorre por diversas causas. Uma delas é o preconceito de muitas empresas brasileiras com os trabalhadores idosos. Outra é a baixa escolaridade ocasionada pelo histórico de pobreza da maioria, que dificulta ou torna impossível uma reinserção no mercado de trabalho. Nesses casos, as pessoas acabam se virando como podem ou contam com a ajuda de familiares para sobreviver.

Desde 1940, quando o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) realizou o primeiro censo demográfico no País, a expectativa de vida da população subiu de 45,5 anos, em média, para mais de 76. Houve um aumento de 30 anos na longevidade e nem a sociedade nem o poder público se prepararam para esse envelhecimento. “O processo de modernização da sociedade contribuiu para que as pessoas vivessem mais, mas o Estado não se preparou para acolher essa nova população idosa”, diz o geógrafo do IBGE Marcio Minamiguchi. “Ano após ano percebemos o aumento contínuo da longevidade”. Junta-se a isso, para aumentar a pressão sobre a Previdência Social, uma importante diminuição na taxa de fecundidade. “Desde 1970 notamos que houve uma diminuição do índice de fertilidade”, afirma o geógrafo. Há 50 anos, as mulheres brasileiras tinham mais de cinco filhos e hoje a média é de dois filhos. A tendência, já confirmada em números, é de que um em cada quatro brasileiros tenha mais de 65 anos, em 2060. Então, pela primeira vez, haverá mais idosos de que crianças no País.

GASTOS PÚBLICOS

Em 2018, segundo o IBGE, a parcela da população com mais de 65 anos era de 10,5%, mas esse percentual vem crescendo e alcançará 15% em 2034 e 25,5% em 2060. Diante desse quadro, haverá uma pressão permanente para a elevação dos gastos públicos, principalmente na área da saúde. Uma estimativa da Secretaria do Tesouro Nacional divulgada na semana passada indica que haverá necessidade de gastos adicionais de R$ 50,7 bilhões entre 2020 e 2027 para garantir serviços de saúde e medicamentos para a população que está envelhecendo. A maior parte dessas despesas estará concentrada em assistência farmacêutica e em atendimentos hospitalares e ambulatoriais, que envolvem casos de média e alta complexidade. Apesar da necessidade crescente de recursos, no ano passado o governo deixou de aplicar R$ 9 bilhões em saúde.

Além de necessário, já que o Estado não garante proteção suficiente aos idosos, o trabalho dos mais velhos é uma forma de conter o ônus demográfico que se verifica quando o crescimento da população em idade ativa acontece em ritmo inferior ao do aumento da população total. É exatamente o que vem sendo registrado desde 2018 no País. Há cada vez menos gente em idade ativa. E cada vez mais dependentes de aposentadorias e pensões, que vão exigir os gastos adicionais na saúde nos próximos anos. O ônus demográfico tende a se intensificar na medida em que cai progressivamente a taxa de natalidade e a população em idade ativa envelhece e deixa o mercado de trabalho. Indivíduos mais produtivos param de atuar e dão espaço para os teoricamente menos produtivos. Mas a máquina não pode parar. Uma atenuante para o ônus demográfico é a continuidade do trabalho dos idosos.

EMPREGOS PARA IDOSOS

Pensando na precariedade da situação dos mais velhos, a Secretaria de Envelhecimento Saudável, Qualidade de Vida e Eventos do Rio de Janeiro lançou o programa Empregabilidade, que oferece 250 vagas para o pessoal da terceira idade. “Induzimos as empresas a serem amigas da terceira idade”, diz Felipe Michel, secretário da pasta. O programa conta com a participação de quinze companhias de grande e médio porte e, segundo o secretário, em apenas um mês 700 pessoas foram empregadas. “Com o apoio da imprensa, das empresas e da sociedade, o nosso programa vai crescer”, afirma. Graças a essa iniciativa da secretaria, a auxiliar de enfermagem Enídia dos Santos, de 66 anos, moradora da Pavuna, na zona norte do Rio, conseguiu voltar ao mercado de trabalho, depois de dois anos desempregada. Ela não se aposentou porque não comprovou a contribuição para o INSS. “Vi o anuncio na televisão e corri para a Prefeitura. Quem contrata diz que, na minha idade, não temos mais saúde e disposição para o trabalho”, conta. “Tenho plenas condições de trabalhar e adoro minha profissão”. Empresas como o Pão de Açúcar, onde Tereza Viega foi empregada, também tem uma política de recursos humanos que destina uma parte de suas vagas para os mais velhos. Dos 30 mil funcionários da empresa, 10% têm mais de 50 anos.

No Brasil, infelizmente, quando alguém ultrapassa os 65 anos entra numa zona de risco de abandono e precariedade. A Organização Mundial de Saúde (OMS) considera que uma nação é idosa quando o número de pessoas com essa idade ultrapassa 8% do total da população. O País atingiu essa condição há muito tempo e as condições como os brasileiros estão envelhecendo causam enorme preocupação. Segundo o médico José Mário Tupiná Machado, chefe do serviço de geriatria da Santa Casa de Curitiba, é muito difícil num país subdesenvolvido garantir uma velhice adequada para a população e há entraves socioeconômicos que impedem que a maioria das pessoas consiga envelhecer mantendo uma boa qualidade de vida, com acesso à renda e a cuidados essenciais. Pensar nos gargalos da administração pública e nas deficiências na implementação do Estatuto do Idoso e da Política Nacional do Idoso é algo desanimador, segundo Machado. A população de baixa renda tem pouco acesso a geriatras e dificuldade para ser atendida por médicos especialistas.

O Sistema Único de Saúde (SUS) que é o grande aparato de prestação de saúde em nível nacional sofre com problemas de gerenciamento e as pessoas demoram a receber atendimento. Acrescenta-se a isso questões referentes ao governo federal, que dificulta para boa parte dessa população o Beneficio de Prestação Continuada (BPC), que garante um salário mínimo para maiores de 65 anos que não conseguem manter-se e nem ser mantidos por suas famílias. Cerca de 20% das pessoas que conseguem receber o benefício precisam fazer isso pela via judicial. As despesas do governo com o BPC cresceram de R$ 6 bilhões em 2004 para R$ 53,8 bilhões em 2018, mostrando que há uma crescente demanda dos idosos em situação de penúria pelo benefício. Nos próximos anos, essas despesas devem crescer ainda mais. Enquanto aumenta a expectativa de vida, o risco da miséria absoluta ronda a população de idosos brasileiros.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 29 DE FEVEREIRO

A LEI DO SENHOR RESTAURA A ALMA

A lei do SENHOR é perfeita e restaura a alma… (Salmo 19.7a).

Os céus manifestam a glória de Deus e o firmamento anuncia as obras de suas mãos. Vemos no esplendor do universo seu poder e na obra da criação sua majestade. Deus deixou suas digitais impressas na criação. A vastidão dos mundos estelares, as galáxias com seus múltiplos sóis e estrelas, tudo é prova da grandeza insondável do Criador. Se a natureza, porém, proclama uma mensagem aos olhos, a lei do Senhor anuncia uma mensagem aos ouvidos. Se a criação anuncia o poder de Deus, sua lei fala a respeito de sua graça. A lei do Senhor é fonte de consolo, porque é perfeita e restaura a alma. Os corações mais atribulados encontram na Palavra de Deus uma fonte de refrigério. Os que andam errantes veem nela uma luz a lhes clarear o caminho. Os que jazem nas sombras espessas da confusão mental recebem da Palavra verdadeira sabedoria. Por intermédio da Palavra encontramos vida, pois ela é espírito e vida. Encontramos libertação, pois Jesus disse: Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará (João 8.32). Por intermédio da Palavra somos sondados por Deus, pois, à medida que a lemos, ela nos investiga. Pela Palavra somos santificados, pois Jesus afirmou em sua oração: Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade (João 17.17). Dwight L. Moody disse com razão: “A Palavra afastará você do pecado, ou o pecado afastará você da Palavra”.

GESTÃO E CARREIRA

CHOPE PERFEITO COM AJUDA DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Com sede em São Francisco, Pubinno planeja expandir operação pela Europa e alcançar valor de mercado acima de US$ 1 bilhão até 2023

A busca pela temperatura ideal e colarinho perfeito em uma tulipa de chope motivou o uso de inteligência artificial para controlar o fluxo entre o barril e a torneira.

E a startup que idealizou esta solução se tornou uma empresa com potencial para alcançar um valor de mercado acima de US$ 1 bilhão até 2023.

Esta é a expectativa dos sócios da Pubinno, que atualmente opera mais de 2 mil torneiras de chope na Espanha, no México, em Israel e no Chipre.

De acordo com a Bloomberg, a startup planeja expandir sua operação para Reino Unido e República Tcheca. Can Algul, cofundador da empresa, espera que sua valorização cresça para US$ 30 milhões na rodada de investimentos em andamento.

“Nós estamos conversando com investidores da Turquia, de Israel e dos EUA”, disse Algul à Bloomberg. “Nós queremos completar a rodada no fim do segundo trimestre”.

Fundada em Istambul, a Pubinno transferiu posteriormente sua sede para São Francisco, na Califórnia.

A solução tecnológica desenvolvida pela empresa consiste em projetar e produzir hardwares e softwares que são acoplados às torneiras de chope com objetivo de extrair a bebidas em condições ideais, além de reduzir o desperdício.

Os atuais investidores, que incluem o cofundador da Trivago, Rolf Schroemgens, e Nevzat Aydin, diretor executivo e fundador da Delivery Hero, são donos de 30% da companhia.

Apesar da sede nos Estados Unidos, os equipamentos da Pubinno são produzidos em um fábrica localizada na Turquia, sendo que cada unidade é composta por mais de 160 peças adquiridas de fornecedores de países como China e Suíça.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SEDUTORAS CALORIAS

Calorias – o valor energético dos alimentos ativa o sistema cerebral da recompensa tanto quanto o sabor, desencadeando o desejo por determinadas comidas; descobertas devem ajudar no combate a transtornos alimentares e obesidade

QUANDO COMER E QUANDO PARAR?

Se há algo que nos iguala é a fome. Mas que mecanismo biológico é esse que nos diz quando comer e quando parar? Há muito tempo se considera que, em grande parte, dois processos neurobiológicos influenciam a ingestão de comida: um, que controla a necessidade de comer, e outro, que rege o desejo por determinados alimentos. No cérebro, o hipotálamo regula o controle homeostático da dieta, recebendo, coordenando e reagindo aos indícios e sinais metabólicos enviados pelo sistema digestivo. Essa área cerebral integra as informações e nos “diz” quando precisamos comer para manter o peso corporal em um nível preestabelecido, como se fosse um termostato programado para avisar quando o ambiente atingisse uma temperatura específica.

No entanto, é evidente que os centros neurais superiores que -controlam o apetite também tenham influência sobre nossos hábitos alimentares. Um desses centros é o sistema de gratificação e recompensa da dopamina. É fácil identificar a ação desse sistema: por exemplo, quando temos vontade de uma taça de sorvete de chocolate depois do jantar, ou seja, de uma comida em um momento em que não estamos sentindo fome, mas sim porque a desejamos.

Em muitas situações, este anseio por certos pratos prevalece sobre a necessidade, levando-nos a consumir produtos saborosos, mesmo quando não precisamos suprir nosso organismo. De forma geral, nossa incapacidade de renunciar a esses alimentos que tanto nos recompensam derrota o controle homeostático, contribuindo para o surgimento da obesidade.

Sabemos que o hipotálamo regula a quantidade do que consumimos com base nos valores metabólicos (quando temos fome, procuramos alimentos com mais calorias); mas ainda falta entender se o sistema de recompensa da dopamina também é sensível ao valor energético da comida. Em outras palavras, o sistema de recompensa da dopamina se ocupa também das calorias, ou somente do gosto e do prazer, como durante muito tempo os cientistas acreditaram?

ESTUDOS TENTA ENTENDER “O PRAZER” NA INGESTÃO DE COMIDAS CALÓRICAS

Na Universidade Duke, o pesquisador brasileiro Ivan de Araujo e um grupo de colegas tentaram descobrir isso usando uma linhagem de ratos geneticamente modificados para que não tivessem um receptor específico, sem o qual não é possível sentir sabores doces. Os resultados do trabalho, publicados em um artigo no periódico científico Neuron, mostraram que qualquer mudança no comportamento de recompensa desses animais não poderia ser atribuída à percepção do sabor. Se os roedores preferissem as comidas doces, não seria por causa do gosto, mas porque esses alimentos têm mais calorias, o que traria satisfação independentemente da sensação despertada no paladar.

Na primeira fase de testes os pesquisadores demonstraram que os ratos geneticamente modificados eram insensíveis às doces propriedades de recompensa da sacarose (o açúcar de mesa) – e preferiam a água pura. Os animais sem a mutação, ao contrário, mostravam uma forte preferência pela água em que a sacarose tinha sido dissolvida.

Posteriormente, foi oferecido aos dois grupos de roedores tanto água pura quanto adoçada. A ideia era descobrir se os ratos geneticamente modificados podiam associar as soluções adoçadas à contribuição calórica – porque alimentos doces contêm mais calorias. O resultado foi que todos consumiram muito mais sacarose: embora não fossem capazes de sentir o sabor doce, os espécimes geneticamente modificados haviam aprendido a preferir a água adoçada. Isso indica que os animais sem os receptores para o doce conseguiram diferenciar as propriedades calóricas da sacarose sem sentir seu sabor – o que faz os cientistas supor que existe algo que, por sua própria natureza, é prazeroso na ingestão de comidas calóricas.

COM SACAROSE: em um estudo, mesmo os ratos geneticamente modificados para não sentir sabores mostraram preferência por água adoçada

Para tirar a prova, os testes foram repetidos usando-se um adoçante artificial, a sucralose, que tem sabor doce, mas não contém calorias. Os ratos normais continuaram preferindo o sabor doce e consumiram mais água com sucralose, mas os geneticamente modificados, não. Esses resultados já indicavam que a percepção do valor metabólico pode influenciar a ingestão de comida. Porém, ainda faltava saber se o sistema de recompensa da dopamina, do qual se conhece a ativação em resposta ao sabor doce, também estava envolvido no controle das calorias.

Araújo e seus colegas utilizaram uma técnica conhecida como microdiálise nos ratos geneticamente modificados e constataram que a contribuição calórica aumenta os níveis de dopamina em uma área específica do cérebro, o núcleo accumbens, independentemente do gosto que tenha o alimento. De fato, enquanto nos ratos normais tanto a sacarose como a sucralose provocavam o aumento da dopamina além dos níveis considerados padrão, nos modificados o aumento de dopamina surgia apenas com o açúcar “de verdade”, indicando assim que era a contribuição calórica (e não o sabor doce) que ativava o sistema de recompensa.

Embora isso prove que as calorias influenciam o sistema cerebral nos ratos geneticamente modificados qualquer que seja o sabor dos alimentos ingeridos, nos normais a sacarose não aumenta os níveis de dopamina mais que o adoçante artificial. Isso leva a pensar que as calorias não aumentam a sensação de recompensa mais que a presença do sabor. E há ainda um ponto a ser enfatizado: em todas as experiências conduzidas por Araújo estava previsto que os animais passassem um período de privação de comida e água. A ativação do sistema de recompensa da dopamina, por parte da contribuição calórica descrita na pesquisa, poderia ter sido alterada pelas condições de privação alimentar das cobaias.

ALÉM DA SATISFAÇÃO

Esse estudo traz à tona novas perguntas. Como o sistema de recompensa da dopamina reconhece a quantidade calórica? Existem açúcares (a frutose, por exemplo) que influenciam o sistema cerebral de maneira diferente? E o fenômeno se verifica também quando as calorias provêm de tipos variados de comida? São perguntas a responder, para que seja possível compreender as verdadeiras causas da obesidade. Entender a capacidade que determinados alimentos têm de estimular o sistema da recompensa nos ajudará a elaborar métodos eficazes para reduzir o desejo por comida uma vez que a necessidade tenha sido satisfeita.

A pesquisa acrescenta informações a estudos que indicam que processos metabólicos não são de domínio exclusivo do hipotálamo. Entre os sinais captados por essa área cerebral e os centros superiores neurais que determinam o desejo por comida existe uma relação muito mais complexa do que durante muito tempo se acreditou. Classificar a alimentação como prática hedonista ou homeostática pode ser não apenas redundante, mas levar a um caminho errado. Afinal, quando se trata de alimentação, necessidade e desejo não são assim tão separados.

POST Nº 3.000

O PODER DOS ALIMENTOS

Entenda como uma alimentação equilibrada é uma importante aliada para o equilíbrio emocional

Está cada vez mais comprovado que os alimentos que consumimos causam algum impacto em nosso organismo – e isso vale tanto para os efeitos positivos quanto para os negativos. E, como sabemos, uma alimentação equilibrada é importante em diversos aspectos de nosso bem-estar, principalmente para nossa saúde mental.

DO PRATO PARA O CORPO

”A alimentação para situações de transtorno psicológico tem uma grande importância, contribuindo com muitos benefícios para o organismo, pois o nutre com vitaminas, sais minerais e demais nutrientes que estão faltando para seu equilíbrio. Por isso, que tudo que você come se aplica também ao seu bom humor”, explica a nutricionista Andrea Marim.

E, assim como nos casos de dietas para emagrecimento, não existe segredo: uma alimentação balanceada pode fazer a diferença também para o seu humor. “Sabemos que dietas restritivas levam alterações de humor, como irritabilidade, alterações de humor e fadiga. Por outro lado, dietas equilibradas com aporte adequados de macronutrientes (carboidratos, proteínas e lipídios) e micronutrientes (vitaminas e minerais) auxiliam na formação de hormônios e neurotransmissores capazes de regular a atividade cerebral”, salienta a nutricionista Patrícia Cruz.

COLOQUE NO PRATO

Apresentamos algumas sugestões de alimentos ricos em substâncias e nutrientes essenciais para a saúde mental

Foto de página inteira

É BOM EVITAR!

• AÇÚCAR: de vez em quando, um doce melhora o ânimo de qualquer pessoa. O problema é quando a pessoa consome um alimento cheio de açúcar. Nesse caso, a glicose é liberada rapidamente na corrente sanguínea e absorvida pelas células do corpo para satisfazer suas necessidades energéticas. Isso ativa o pâncreas, que tende a liberar uma grande quantidade de insulina a fim de auxiliar na absorção desse açúcar. Dessa maneira, o nível de glicose no sangue sofre uma variação muito abrupta, que pode interferir no humor: inicialmente, a pessoa se sente eufórica com a ingestão de açúcar, mas pode sofrer uma rápida redução dos níveis no sangue, que leva à tontura e à dor de cabeça. Nesses casos, o indivíduo sente-se agitado e confuso porque o cérebro é privado do seu combustível maior.

• DIETAS MUITO RESTRITIVAS: “dietas ricas em gorduras e proteínas que isentam os carboidratos podem acentuar quadros de irritabilidade ou agressividade, por exemplo”, reforça Patrícia. Então, antes de partir para um cardápio diferente, consulte um especialista para saber se isso não vai afetar seu organismo de maneira negativa.

• ÁLCOOL: o álcool presente em várias bebidas é rapidamente absorvido pelo organismo, em um processo parecido com o açúcar. E, da mesma maneira, aumenta os sintomas de hipoglicemia após o consumo.

• CAFEÍNA: o consumo excessivo de bebidas à base de cafeína, como refrigerantes de cola, alguns tipos de chá e café, podem causar malefícios para o humor. “Um experimento concluiu que 480 gramas de cafeína, o equivalente a cinco xícaras de café expresso, em apenas 15 minutos foi o suficiente para desencadear crises em pacientes com pânico ou depressão associada ao pânico”, explica Andrea Marim. Isso porque a substância provoca uma descarga de hormônios do estresse, além de intensificar os sintomas de nervosismo e agitação.

SEM FOME, SEM ESTRESSE

A nutricionista Andrea Marim dá uma dica valiosa: não ficar de barriga vazia. “Ficar muito tempo sem comer reduz os níveis de glicose, o que pode afetar negativamente o humor. Assim, o correto é alimentar-se sempre, de três em três horas”.

OUTROS OLHARES

A LUTA CONTRA OS FRAUDADORES DE COTAS RACIAIS NAS UNIVERSIDADES PÚBLICAS

Só na UFRJ já foram 280 denúncias de possíveis crimes desde a implantação do sistema. Segundo a universidade, dos 186 já analisados, 96 foram considerados aptos a ocuparem as vagas reservadas para pretos, pardos e indígenas (PPI)

Loira, de cabelos lisos, com a pele branca e os olhos verdes, uma das estudantes aprovadas no curso de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) justificou sua entrada pelo sistema de cotas raciais dizendo “se considerar parda” e ser de uma família de negros.

Outros alunos brancos, já avançados no curso de Medicina da Unicamp, faziam até deboche e contavam piadas para colegas sobre o fato de terem passado no vestibular se valendo das cotas — cujo objetivo é reduzir a desigualdade racial.

Negros ainda são sub-representados nas universidades públicas brasileiras, compondo 50,3% dos alunos, apesar de corresponderem a 55,8% da população, segundo dados do IBGE em 2018.

Diversas universidades públicas estão recebendo e investigando denúncias sobre alunos que tentaram driblar o sistema.

Só na UFRJ já foram 280 denúncias de possíveis fraudes nas cotas raciais desde a implantação do sistema. Segundo a universidade, dos 186 já analisados, 96 foram considerados aptos a ocuparem as vagas reservadas para pretos, pardos e indígenas (PPI).

Na Universidade Estadual da Bahia, um aluno branco de cabelo ruivo entrou no curso de Medicina neste ano através das cotas — o que está sendo investigado.

A USP investiga 41 denúncias. A Unicamp desligou nove alunos e a Unesp expulsou 30 que tiveram as autodeclarações consideradas inválidas.

As denúncias são resultado de uma grande mobilização do movimento negro para identificar e combater fraudes nas cotas e evitar que haja abusos no direito, conquistado após anos de luta.

“A gente não queria estar discutindo isso, queria que existisse um bom senso e um respeito à lei. Mas, como não existe, temos que recorrer a métodos mais eficazes”, diz o advogado Lucas Módolo, que criou com colegas um grupo de combate à fraudes quando ainda era aluno de Direito da USP.

“Quantos alunos negros tiveram o direito de estudar tolhido por culpa desses fraudadores?”, questiona frei Davi, da ONG Educafro, que fez denúncias de fraudes em cotas para mais de 20 universidades.

As reclamações chegaram até a entidade de diversas formas. “A gente garante total tranquilidade e anonimato para quem faz”, diz Davi.

“Aconteceu muito de alunos da Educafro e outros alunos solidários, dentro de sala de aula, ouvirem comentários e deboches sobre pessoas fraudando as cotas”, conta.

Módolo explica que o Comitê Antifraude da USP, criado por alunos e com caráter extraoficial, não tem o objetivo de avaliar se alguém pode ou não ser considerado pardo.

“Somos um canal de recepção de denúncias que depois repassamos para as faculdades”, afirma. “Não temos como finalidade fazer essa avaliação, nem temos competência. O objetivo é pressionar para que essa avaliação aconteça.”

“Na USP nenhum fraudador foi expulso”, diz Módolo. “Por causa da inércia da universidade, as fraudes têm sido usadas como argumento por grupos revisionistas para defender que não existam cotas.”

“Ainda existe a necessidade de reconhecer que a desigualdade racial é um problema de racismo, não só um problema socioeconômico.”

Nas redes sociais, a hashtag #afroconveniência tem sua sido usada para denunciar a prática de brancos se dizerem afrodescendentes quando convém — para abusar de cotas, por exemplo —, mas usarem os privilégios de ser branco durante todo o resto do tempo. Diversos ativistas negros postaram fotos dizendo “Meu avô é branco, logo sou branco. Estranhou?” para reforçar essa ideia.

“O argumento do ‘tenho um avô pardo’ não faz sentido no Brasil, onde você é julgado e sofre preconceito pelo fenótipo”, diz à BBC News Gislaine Silva, que também faz parte do Comitê Antifraude da USP.

“Nós negros não vamos deixar que se use a universidade para beneficiar pessoas brancas desonestas”, diz Frei Davi.

COMBATE E PREVENÇÃO

A USP foi uma das últimas universidades públicas a implementar o sistema de cotas, em 2018. Para participar, é preciso se declarar preto, pardo ou indígena e optar pela opção de concorrer pelas cotas.

A universidade não faz análise das autodeclarações feitas no vestibular, e não existe um grupo específico só para analisar denúncias de fraude à cotas raciais. Elas são avaliadas pela Comissão de Acompanhamento da Política de Inclusão da USP, a mesma que avalia questões socioeconômicas.

O movimento negro defende que deveria existir um grupo para analisar as denúncias e que haja não apenas combate, mas prevenção às fraudes.

“A universidade já tinha que, desde o início, ter reconhecido a necessidade da prevenção na entrada, de avaliar as declarações após o vestibular”, diz Módolo.

Isso normalmente é feito através da chamada heteroidentificação, quando uma comissão avalia se a autodeclaração racial feita pela pessoa é autêntica.

Frei Davi defende que o processo seja sempre no ingresso, o que é muito menos traumático para a pessoa e muito mais simples de ser resolvido do que desligar um aluno que já faz o curso há anos. “Todas as universidades justas, éticas e responsáveis têm comitê preventivo”, afirma.

Além do desligamento de 30 pessoas, a Unesp implantou um comitê de heteroidentificação em 2017. A Unicamp também implantou um comitê de verificação no ingresso.

O pró-reitor de graduação da USP, Edmund Chada Baracat, diz que a questão é de extrema importância para a universidade, mas que o processo de avaliação das denúncias leva tempo e que é preciso “uma averiguação que seja respeitosa”.

“Esse processo é um processo muito delicado, porque lida com pessoas, portanto temos que ser muito sensatos na avaliação”, diz Baracat.

Ele afirma que, devido ao tamanho da universidade e ao grande número de ingressos, fazer uma avaliação das declarações no vestibular seria inviável.

“Esse ano foram pouco mais de 2 mil alunos pretos, pardos e indígenas. Se a gente chamar 2 mil estudantes, demorando 15 ou 20 minutos cada um, quanto tempo vai levar? Isso seria inviável”, afirma.

O Comitê Antifraude recebeu mais de 450 de vários cursos da USP e elaborou três dossiês: um para a faculdade de Direito, um para a de Medicina e um terceiro para os outros cursos.

Baracat diz que 41 denúncias “com indícios mínimos de materialidade” estão sendo avaliadas pela universidade. Também há dois processos administrativos em andamento contra estudantes que, segundo a sindicância feita pela USP, podem ter fraudado suas declarações.

O movimento negro criticou uma recomendação da USP de que fossem feitos boletins de ocorrência em casos de suspeitas de fraudes. “Apesar de muitas pessoas falarem que isso é um crime e pode ser resolvido no Ministério Público, a USP tem a competência para fazer isso por si própria e evitar uma judicialização difícil e custosa”, afirma Lucas Módolo.

Mas Baracat diz que os BOs não são uma exigência, mas uma das modalidades em que a universidade aceita denúncias. “Pode fazer uma denúncia sem ter um boletim, mas precisa ter indícios de que a denúncia é verdadeira. Ou seja, fotos, perfis da pessoa nas redes sociais, algum tipo de prova. Isso elimina o denuncismo irresponsável”, afirma.

A QUESTÃO DA MISCIGENAÇÃO

Além de analisar as denúncias de fraudes, a UFRJ implantou neste ano um comitê de 54 pessoas para fazer a heteroidentificação para todos os ingressantes pelo sistema de cotas no vestibular.

Foram cerca de 1,5 mil alunos ingressantes avaliados nas duas primeiras chamadas, em um processo que durou uma semana. Diversos não foram considerados aptos para ingressar pelas cotas — o número exato ainda não foi consolidado porque o processo acabou de terminar.

Mas afinal, como é feita essa avaliação e como lidar com as sutilezas de identificar a identidade racial de alguém em um país miscigenado como o Brasil?

“A miscigenação sempre foi usada no Brasil para alimentar o mito da democracia racial, ou seja, de que no Brasil haveria uma categoria homogênea de mestiços que seriam tratados de forma igual”, diz a especialista em História dos negros no Brasil Denise Góes, que coordena o comitê de avaliação de denúncias da UFRJ.

“Isso só serve para perpetuar a desigualdade em um país que não trata todos como iguais”, diz ela.

“Historicamente o racismo no Brasil é baseado no fenótipo, ou seja, nas características aparentes das pessoas, como cor de pele, traços e cabelo”, afirma Marcelo Pádula, que coordena o comitê de heteroidentificação da UFRJ.

“Quanto mais características que identificam uma pessoa como negra, mais chances de sofrer com o racismo. Quanto mais características brancas, maiores as chances de inclusão social.”

COMO É FEITA A IDENTIFICAÇÃO RACIAL

Denise Goés afirma que autodeclaração foi uma vitória no fortalecimento do movimento, porque muitas pessoas não conseguiam nem se ver como negras devido ao mito da democracia racial. “Por um lado, foi vitória da afirmação da identidade negra. Mas, do ponto de vista de política pública, ela não é suficiente.”

Por causa da forma como o racismo funciona no país, diz, a identificação para avaliar se alguém está apto para ocupar as vagas destinadas aos negros é feita com base no fenótipo, não com base em questões culturais ou ancestralidade.

Isso significa que ser filho ou neto de negros não é suficiente para garantir o acesso às cotas raciais se a pessoa é lida pela sociedade como branca, ou seja, se não sofre preconceito racial.

“As cotas são uma política de reparação para quem sofre racismo”, diz Pádula.

Na prática, a heteroidentificação na UFRJ é feita por uma comissão avaliadora, formada por alunos, docentes e funcionários que passaram por uma capacitação de 60 a 90 horas.

A capacitação inclui a história da constituição do racismo no Brasil, tem um contraponto com o racismo norte-americano (mais baseado em origem e questões culturais) e em outros países, e há exercícios práticos de heteroidentificação.

No total são 54 pessoas, mas cada ingressante é avaliado por uma subcomissão de 5 pessoas.

Cada ingressante comparece pessoalmente a uma entrevista, no qual os avaliadores observam se a pessoa tem fenótipos negros, ou seja, características físicas — cor de pele, cabelo, traços do rosto — que as identificam como negros.

“Não é só uma única característica, é o conjunto da percepção e integração de todos esses sinais”, explica Pádula.

Ter a pele mais escura nem sempre é suficiente. “Há uma série de pessoas que tem tons de pele não-brancos, como descendentes de árabes ou japoneses de okinawa, mas que não são vítimas do racismo”, diz Lucas Módolo.

Pádula afirma que a comissão não é um ‘tribunal racial’ para definir a identidade das pessoas, mas apenas uma avaliação sobre se ela está apta ou não para ter acesso às vagas de cotas.

Além disso, quem discorda do resultado tem a possibilidade de recorrer.

“A gente pega casos muito óbvios, que comprovam que não é uma questão de dúvida sobre a identidade de uma pessoa parda, mas de abuso mesmo. Não é à toa que, de longe, o curso com mais fraudes foi medicina, o mais difícil de entrar”, afirma Goés.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 28 DE FEVEREIRO

A FONTE DA FELICIDADE

Tu me farás ver os caminhos da vida; na tua presença há plenitude de alegria, na tua destra, delícias perpetuamente (Salmo 16.11).

A felicidade é um anseio legítimo. Nós a buscamos todos os dias da vida. No entanto, a felicidade não é um lugar aonde se vai, mas uma maneira como se caminha. Salomão procurou a felicidade na bebida, na riqueza, no sexo e na fama, mas descobriu que tudo era vaidade. A felicidade que ele procurou em todas essas fontes, encontrou-a em Deus. O verdadeiro propósito da vida é a felicidade, pois o fim último da vida é Deus. O propósito principal do homem é glorificar a Deus e nele se deleitar para sempre. Deus nos criou para a maior de todas as felicidades, a felicidade de amá-lo, fruí-lo e desfrutar de sua intimidade. É na presença de Deus que existe plenitude de alegria. É na sua destra que encontramos delícias perpétuas. Muitos buscam a felicidade no dinheiro; outros na fama e no prazer; e outros ainda no sucesso. Mas descobrem que no fim dessa linha só existe uma miragem, não a verdadeira felicidade. A felicidade verdadeira não está no ter, mas no ser. A fonte da felicidade não está nas coisas, mas em Deus;

Tu me farás ver os caminhos da vida; na tua presença há plenitude de alegria, na tua destra, delícias perpetuamente (Salmo 16.11).

A felicidade é um anseio legítimo. Nós a buscamos todos os dias da vida. No entanto, a felicidade não é um lugar aonde se vai, mas uma maneira como se caminha. Salomão procurou a felicidade na bebida, na riqueza, no sexo e na fama, mas descobriu que tudo era vaidade. A felicidade que ele procurou em todas essas fontes, encontrou-a em Deus. O verdadeiro propósito da vida é a felicidade, pois o fim último da vida é Deus. O propósito principal do homem é glorificar a Deus e nele se deleitar para sempre. Deus nos criou para a maior de todas as felicidades, a felicidade de amá-lo, fruí-lo e desfrutar de sua intimidade. É na presença de Deus que existe plenitude de alegria. É na sua destra que encontramos delícias perpétuas. Muitos buscam a felicidade no dinheiro; outros na fama e no prazer; e outros ainda no sucesso. Mas descobrem que no fim dessa linha só existe uma miragem, não a verdadeira felicidade. A felicidade verdadeira não está no ter, mas no ser. A fonte da felicidade não está nas coisas, mas em Deus; não está na terra, mas no céu. Os encantos deste mundo não podem nos fazer felizes, mas Deus pode, pois ele nos criou, nos formou, nos remiu, nos chamou pelo nome e dele somos. Quando nós o conhecemos e o amamos, então somos verdadeiramente felizes.

GESTÃO E CARREIRA

CONTRATAM-SE FUNCIONÁRIOS MOTIVADOS

Entenda como os novos conceitos de motivação influenciam as empresas e qual a importância para os funcionários

Nos últimos anos, tornou­ se constante ouvir que uma nova geração de profissionais está surgindo no mercado de trabalho e que outra está prestes a desaparecer. É comum vermos notícias de que os inovadores membros da geração Y (pessoas nascidas entre os anos de 1981 a 1997) vieram para revolucionar todos os conceitos mercadológicos que possuímos. Além disso, informações de que eles têm trazido propostas como novas ideias ao ambiente empresarial são constantes nas revistas especializadas no assunto. E um dos muitos novos princípios trazidos pelos millennials (outro dos nomes da geração Y) se refere ao entendimento sobre o que é motivação no trabalho. Essa nova geração de profissionais traz diferentes valores sobre o que realmente estimula o trabalhador. Tal alteração rebate conceitos antigos sobre questões motivacionais, como aumento de salários. “Cada pessoa se motiva de uma forma diferente e em diferentes momentos da vida. Por exemplo, um jovem solteiro e recém-formado provavelmente se motivará mais com desafios ou com um líder inspirador do que com dinheiro. Agora, para um profissional que acabou de ter um filho, talvez o fator financeiro seja importante neste momento ou a flexibilidade de horários”, conta a coach empresarial Leylah Macluf. A afirmação de Leylah demonstra que nem sempre questões como dinheiro são o suficiente para deixar um profissional engajado com suas funções na empresa. Uma pesquisa da Corporate Responsability Magazine demonstrou que os novos conceitos dos millennials já estão em prática no mercado, quando 81% dos entrevistados afirmaram que não aceitariam uma oferta de trabalho feita por uma empresa com má reputação, mesmo estando desempregados. Ou seja, a investigação mostrou que o fator financeiro fica de lado quando o assunto é motivação em se trabalhar em determinado lugar. Porém, o que de fato é ser motivado no trabalho e o que devemos fazer para alcançar esse status?

CONHECENDO A TAL MOTIVAÇÃO

De acordo com Daniela do Lago, especialista em comportamento no trabalho, as pessoas frequentemente confundem motivação com outros sentimentos, o que dificulta a compreensão sobre o que realmente significa essa palavra. “Elas acham motivação tem a ver com animação, e com estado de espírito, com energia, e não tem nada a ver”, explica. “Motivação significa: motivo para ação. Tem a ver com necessidade. Isso quer dizer que ela muda a cada momento. Quando se alcança uma necessidade, ela se altera e, em seguida, vem a próxima. Ela também é diferente para cada pessoa. E, se eu tenho um motivo, eu vou agir na direção desse objetivo”, completa a especialista. Daniela esclarece que essa confusão com estado de espírito é um dos erros mais comuns que empregadores e empregados cometem. “Tem dias que eu estou feliz, tem dias que eu estou chateado. E mesmo chateado, eu continuo na direção do meu motivo. Há várias pessoas alegres que são desmotivadas e pessoas tristes e motivadas. Mesmo estando chateadas, a pessoa segue em busca do objetivo.

ALÉM DE PAGAR AS CONTAS

Quando o funcionário está motivado na empresa em que trabalha, as melhoras para a companhia podem ser significativas. Não somente por questões de produtividade, mas também qualidade na produção. Um dos maiores erros para o funcionário se sentir de fora do ambiente de produção é ele não entender a importância da sua ação para o todo, ou mesmo não ter conhecimento sobre o motivo de realizar aquela atividade. “Quando você tem consciência da razão no seu trabalho, você emprega mais energia, analisa melhor as situações e, automaticamente, seus resultados serão melhores”, comenta Daniela. “Tudo começa com autoconhecimento. As pessoas precisam despertar para o que elas estão fazendo, para o motivo que as faz trabalhar. Sem responder que trabalham para ‘pagar as contas’. Ora, todos fazem isso! Mas não é somente por isso que você trabalha. Temos que entender nosso propósito, nossa atuação nisso tudo” opina a especialista.

COM OS MESMOS PRINCÍPIOS

Outro fator fundamental para que o funcionário se sinta adaptado à produção em que trabalha é conhecer os princípios que regem sua companhia. “A cultura da empresa é algo muito forte, ela é fator predominante para motivação. Molda o comportamento das pessoas, dos líderes e muda a maneira de se fazer negócios. Pessoas extraordinárias podem falhar em uma empresa e em outras, brilharem. Por isso, o conselho é: ‘busque empresas que você tenha alinhamento cultural e de crenças”‘, recomenda Leylah. “Uma companhia pode ser a empresa dos sonhos de uma pessoa e o pior pesadelo de outra – não existe uma cultura perfeita, existe uma cultura apropriada para cada estilo profissional”, complementa. “Todos nós escolhemos nosso trabalho. Se você tem essa consciência, o porquê de fazer o que faz, sua contribuição fica melhor. Assim, o indivíduo não se sente refém de um lugar, ele entende por que deve estar ali”, explica Daniela do Lago. “Se todo mundo deseja um bom ambiente, deve começar por si mesmo, com cada um fazendo sua autoanálise, de dentro para fora e não de fora para dentro”, indica.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ELES SÃO “FORTES”, ELAS SÃO “CHATAS”

Mulheres e poder – O homem que grita e dá um murro na mesa pode ser considerado grosseiro, mas também é visto como forte. Se uma mulher agir de forma semelhante, fala-se de descontrole, loucura e, não raro, surgem comentários maldosos sobre sua vida particular

Apesar dos avanços e das transformações sociais, é possível que muita gente ainda acredite que, para não terem problemas no âmbito profissional, as mulheres devessem aceitar os modelos que ainda imperam no imaginário masculino: aquela que deseja ser conquistada, a secretária que faz tudo sem nunca pedir nada em troca, a mãe que acolhe e apoia. Mas felizmente muitas já se sentem em condições de assumir o protagonismo, mostrando capacidade, exigindo seus direitos e competindo pelo que desejam. Essa atitude deixa muitos – e muitas – colegas desconfortáveis. Disso resulta uma equação simplista: mais poder para “elas”, menos para “eles”. Mesmo em cargos de chefia, muitas mulheres enfrentam a resistência velada, por exemplo, quando decisões tomadas em sua ausência, como se houvesse um nível sutil de acesso que não lhes é permitido.

A reação explícita a essa situações, entretanto, pode custar caro. Em geral, existe uma crença tácita: só quem tem taxa elevada de testosterona está autorizado a revelar a própria arrogância e a intervir de forma agressiva. O homem que grita e dá um murro na mesa pode ser considerado grosseiro, mas também é visto como forte. Se uma mulher agir de forma semelhante, fala-se de descontrole, loucura e, não raro, surgem comentários maldosos sobre sua vida pessoal. Quando uma mulher tem prestígio e é determinada, geralmente já é definida como intransigente – mesmo por aqueles que não convivem com ela. Possivelmente, prevalece um estereótipo difícil de superar: a competência feminina ameaça mais que a masculina – e isso vale tanto para homens quanto para outras mulheres. Além disso, neles a arrogância costuma ser perdoada, mas nelas não: ele é forte; ela é chata.

Recentemente uma pesquisa da Universidade de Michigan indicou que os estrógenos podem ter papel semelhante no organismo, independentemente do gênero. Um teste revela o aumento da produção de hormônios nas mulheres que têm um comportamento dominante nas situações de conflito. Outros estudos, entretanto, mostram que elas são menos propensas à dominação social e mais inclinadas a tomar atitudes que favoreçam o igualitarismo, enquanto eles tendem a favorecer as hierarquias. Além disso, estão mais propensos a valorizar o próprio trabalho, aceitando compensações e reconhecimentos, ainda que não merecidos.

Já as mulheres muitas vezes sentem que devem render ainda mais, como se as rondasse a culpa de ter feito “um pouco menos” – mesmo que na prática isso não se confirme. E as críticas mais mordazes, não raro, vêm de outras mulheres – o que é compreensível, pois pretendem que as outras também sejam perfeitas. Em geral, o processo se repete em casa, na relação entre mães e filhas. Resultado: espera-se de uma mulher na chefia mais compreensão e de uma subordinada, mais esforço. Talvez não seja por acaso que as mulheres se afirmem principalmente em alguns setores. Quando não estão ocupando posições importantes por motivos familiares, geralmente são as executivas de setores como jurídico, comunicação, finanças. Porém, é pouco provável que se tornem figuras carismáticas, que arrebatam as massas.

OUTROS OLHARES

DO QUE SOMOS FEITOS?

Revelações científicas mostram que resquícios de neandertais também estão presentes no genoma do homem africano

Descobertas científicas estão, quase sempre, ancoradas em duas chaves: de um lado, a solução de problemas que vão prolongar a vida humana. Do outro, a revelação de evidências que podem nos dizer de onde viemos e o que fomos. Ao vasculhar o passado, o presente se modifica e novas narrativas são incorporadas aos estudos antropológicos. É o caso, por exemplo, da pesquisa divulgada recentemente na revista norte-americana Cell, que contesta a informação disseminada nas últimas décadas de que europeus e asiáticos são os únicos povos com resquícios do DNA neandertal.

O estudo, de autoria do Instituto Max Planck, da Alemanha, também identificou traços genéticos de ascendência neandertal em populações modernas de toda a África. Esses genes foram descobertos pela primeira vez em 2010, em um trabalho realizado com fósseis antigos. A partir do DNA recuperado nesses ossos, os pesquisadores deduziram que os humanos modernos cruzaram com os neandertais cerca de 60.000 anos atrás, depois de deixar a África. “O legado do fluxo gênico com os neandertais provavelmente existe em todos os seres humanos modernos, dentro e fora da África.”, diz o antropólogo Michael Petraglia, do Instituto Max Planck, em entrevista à revista Science.

Para analisar e compilar os resultados sobre os vestígios de DNA neandertal em genomas africanos modernos, o biólogo Joshua Akey, da Universidade de Princeton, comparou o genoma de um neandertal da região russa de Altai, na Sibéria, com outros 2.504 genomas modernos, catalogados no 1.000 Genomes Project, que reúne genomas de todo o mundo. Os pesquisadores calcularam, então, a probabilidade de que cada trecho de DNA fosse herdado de um ancestral neandertal. O resultado chocou os cientistas. O estudo mostrou que o DNA de africanos modernos é composto de, aproximadamente, 0,3% de material neandertal. Isso equivale a cerca de 17 milhões de pares de bases. Estudos que analisaram populações europeias e asiáticas apontam presença entre 1% e 2% de DNA neandertal. “Isso foi completamente contrário às minhas expectativas. Demorou um pouco para nos convencer de que o que estamos descobrindo com essa nova abordagem era realmente verdade”, disse o Dr. Akey.

OUTRAS DESCOBERTAS

Apesar da reputação de serem brutos, pesquisas recentes sobre neandertais mostraram sinais de notável sofisticação mental e capacidade de socialização. Eles possuíam crânios mais achatados, com parte do rosto saltada para frente, ossos angulares na face e um nariz protuberante. Os dentes da frente eram largos e utilizados com frequência na preparação de comida e ferramentas. Seus corpos, fortes e musculosos, eram mais baixos e atarracados que os do homo sapiens. Os adultos chegavam a ter entre 1,50 e 1,75m de altura e pesavam de 64 a 82 kg. Os hábitos alimentares eram basicamente carnívoros, com base na caça de grandes mamíferos.

Os traços neandertais encontrados em populações africanas despertaram a curiosidade dos pesquisadores europeus. A hipótese? O encontro entre neandertais e homo sapiens ter ocorrido antes do que sabemos hoje. De acordo com a nova tese, somos mais complexos do que imaginamos. Atualmente, a teoria mais difundida é que os Homo sapiens surgiram na África e migraram para fora do continente em algum momento entre 80 e 60 mil anos atrás. O novo estudo, entretanto, sugere que essa movimentação pode ter ocorrido não uma única vez, mas em fases, que datam de até 200 mil anos atrás. Esse novo estudo também pode basear outras observações sobre o deslocamento dos neandertais pela Terra. No ano passado, uma equipe de cientistas encontrou um crânio humano moderno na Grécia que remonta a mais de 210.000 anos.

Nos últimos anos, David Reich, geneticista da Universidade de Harvard, e outros exploradores, descobriram evidências de que os povos antigos do Oriente voltaram para a África nos últimos milhares de anos e espalharam seu DNA para muitas populações africanas. Segundo Joshua Akey, essa migração de fato aconteceu, embora seu estudo sugira que ela possa ter ocorrido por um período muito mais longo e tenha introduzido muito mais DNA nas populações do continente do que revelado até agora. Uma nova pesquisa, desenvolvida na Universidade da Pensilvânia, sob coordenação da geneticista Sarah Tishkoff, tem buscado novos vestígios de DNA neandertal em africanos vivos para testar as hipóteses descobertas por Akey. Andamos para frente, para desvendar o passado.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 27 DE FEVEREIRO

O CONSOLO DO AMPARO DIVINO

Porque, se meu pai e minha mãe me desampararem, o SENHOR me acolherá (Salmo 27.10).

No plano humano, ninguém nos ama com amor mais acendrado do que pai e mãe. Aqueles que nos geraram e cuidam de nós nutrem um amor desinteressado e verdadeiro por nós. Nossos pais nos amam não apenas por causa das nossas virtudes, mas apesar dos nossos fracassos; não apenas por causa dos nossos méritos, mas apesar dos nossos deméritos. Todavia, até mesmo os pais podem fracassar no amor aos filhos. Muitos enjeitam seus filhos. Muitos deserdam seus filhos. Muitos pais matam seus filhos. Mesmo que você, porém, chegue a essa situação extrema, o salmista diz: … se meu pai e minha mãe me desampararem, o SENHOR me acolherá (Salmo 27.10b). O amor de Deus por você é eterno e perseverante. A causa do amor de Deus por você está n’ele mesmo. Ele jamais abre mão de ter você, de amá-lo e de conquistar o seu amor. Ele provou seu amor por você, entregando seu Filho Unigênito para morrer pelos seus pecados. Enviou o Espírito Santo para habitar em você, para que o regenerasse e o selasse como propriedade exclusiva dele. Por meio de Jesus, você pode ser filho de Deus, herdeiro do Senhor e cidadão do céu. Mesmo que nessa caminhada rumo à glória você cruze estradas juncadas de espinhos, Deus jamais o desamparará. Quando você se sentir fraco, ele o carregará no colo.

GESTÃO E CARREIRA

CARTEIRA VAZIA

Novas relações de trabalho facilitaram a contratação de mão de obra por menos de um salário mínimo e levaram parte da população economicamente ativa voltar a consumir apenas por necessidade.

Em 1987, em um discurso histórico, a então primeira ministra do Reino Unido, Margareth Thatcher, ao explicar o aumento dos lucros dos bancos no país, afirmou que os socialistas aceitam que os pobres sejam mais pobres, desde que os ricos fiquem menos ricos. As palavras, que sustentam defensores do liberalismo até hoje, mostram que em muitos países o fortalecimento da economia acontece se a base e o topo da pirâmide social crescerem. No Brasil a ascensão da classe média de 2002 a 2013 tinha essa premissa. Se por um lado os bancos e empresários nunca lucraram tanto, por outro o salário mínimo foi de US$ 108 para US$ 270 e 36 milhões de pessoas saíram da miséria. Mas, quando a crise chegou, o cinto apertou mais para os menos abastados e após a reforma trabalhista, em 2017, o resultado foi que 40% dos trabalhadores intermitentes receberam menos de um salário mínimo por mês, 38 milhões de brasileiros estão subempregados e mais de 1 milhão de mães aguardam a liberação do Bolsa Família.

Na prática, o enfraquecimento da base da pirâmide econômica afeta a capacidade de produzir riquezas em um país, colocando o consumo no nível da necessidade e tirando a espinha dorsal do capitalismo, que é gerar riqueza. Segundo pesquisa do Dieese, o trabalho intermitente – que permite ao contratante solicitar os empregados em horários ou dias específicos – empobreceu a mão de obra. “Muitos contratos ficaram engavetados, gerando pouco ou nenhum trabalho e renda”, diz diretor técnico do Dieese, Fausto Augusto Jr. Além disso, para cada três meses de trabalho intermitente dois são à espera de serviço. “Só 17% dos vínculos geraram remunerações equivalentes a dois salários mínimos ou mais (R$ 1.908), naquele mês.”

Outro problema do mercado de trabalho é o subemprego. Hoje 38 milhões de brasileiros gostariam, ou poderiam, trabalhar mais se houvesse oportunidade. “Mesmo depois de passada a recessão técnica entre 2015 e 2016, indicadores de emprego em renda seguem ruins, evidenciando a dificuldade dos brasileiros em recompor a renda”, diz Sérgio Castanhari, doutor em política econômica e professor da Universidade de Campinas (Unicamp). Na avaliação do acadêmico, o ciclo de avanço visto entre 2002 e 2013 não se repetirá pois o atual governo freou a transferência de renda “Antes havia forte estímulo ao crédito e programas de transferência de renda, dando à população mais pobre a oportunidade de comprar produtos de maior valor agregado”, diz ele, que classifica programas habitacionais e de financiamento estudantis como importantes. “Nunca um pedreiro recebeu tanto, mas nunca uma construtora vendeu tanto também.”

Mesmo depois de a recessão técnica acabar, o mar seguiu revolto para os mais pobres. A título de comparação, a renda domiciliar per capita dos 5% mais pobres caiu 3,8% na passagem de 2017 para 2018. Ao mesmo tempo, a renda da fatia mais rica (1% da população) subiu 8,2%. “Continuam no mercado de trabalho aqueles que ganham mais”, afirmou Maria Lucia Vieira, gerente da Pnad. Outro fator ressaltado por Castanhari, da Unicamp, é a fila de espera de 1 milhão de famílias pelo Bolsa Família. Ainda que o benefício esteja passando por uma série de atualizações, como sinalizou o ministério da Economia, essa renda é a única medida atual que ataca, diretamente, a desigualdade social. “Uma pesquisa da ONU [Organização das Nações Unidas] mostra que se dermos US$ 100 a uma pessoa rica, US$ 75 vão para o sistema financeiro. Quando a pessoa é pobre, US$ 95 vão para economia real.”

Com o emprego melhorando (ainda lentamente), outro fenômeno aconteceu: a massa de renda de todas as fontes cresceu de R$ 264,9 bilhões em 2017 para R$ 277,7 bilhões em 2018. Mas como a concentração de renda subiu, os 10% mais pobres somam 0,8% da massa de rendimentos, enquanto os 10% mais ricos têm 43,1% desse bolo. Assim, a fatia de 1% mais bem remunerada recebeu 33 vezes mais que os piores remunerados, na maior diferença salarial da série histórica – contrariando Margaret Thatcher: aqui, o rico ficou mais rico e o pobre mais pobre…

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O PREÇO DA DESCONFIANÇA

Suspeitar demais das intenções alheias prejudica a capacidade de ganhar dinheiro; em vez de nos proteger, descrença na honestidade alheia pode provocar prejuízos

A maior parte da população mundial vive hoje em cidades. Isso significa, entre outras coisas, que menos gente conhece seus vizinhos. Em algum momento parece inevitável nos perguntarmos se devemos nos aproximar de outras pessoas ou levantar a guarda e nos fecharmos para fugir de eventuais perigos.

Alguns pesquisadores acreditam que a falta de confiança pode não apenas prejudicar o convívio social (e nos privar de benefícios que isso traz para a saúde mental), mas também custar dinheiro.

Um número cada vez maior de estudos revela um dado intrigante: pessoas que confiam pouco em seus colegas ganham menos em transações financeiras.

Num estudo realizado há uma década em laboratório, e várias vezes replicado, os voluntários que subestimaram o número de parceiros que dariam retorno a seu investimento, em um jogo que seguia princípios da economia, investiram menos e acabaram com receita menor do que poderiam ter conseguido.

Um novo artigo publicado no Journal of Personality and Social Psychology estabelece algumas relações curiosas entre o mundo real do prejuízo financeiro e a descrença.

O cientista Daniel Ehlebracht, pesquisador da Universidade de Colônia, na Alemanha, constatou que as pessoas que reconheceram ter “visão cínica” da natureza humana tiveram renda menor (em milhares de dólares, após dois e nove anos), em comparação aos seus colegas mais otimistas.

Para obter dados mais confiáveis, os pesquisadores excluíram várias explicações sugeridas para a ligação entre desconfiança e renda, como traços de personalidade dos participantes, condições de saúde, educação, idade, gênero e situação profissional. Ehlebracht sugere que o cinismo aumenta o sentimento de suspeita, o que dificulta – e às vezes impede – a cooperação.

Se isso é verdade, essa característica não deve ser prejudicial em lugares em que um alto grau de suspeita é justificado. Examinando a situação em 41 países europeus, os pesquisadores constataram que em nações com os índices de criminalidade mais elevados e menos cooperação, o cinismo não se correlacionava com menor renda.

Então, conceder aos outros o benefício da dúvida pode não significar oferecer a possibilidade de ser enganado. Em vez disso, parece ser bastante compensador.

OUTROS OLHARES

VOLTA À TRADIÇÃO

Estudo mostra que a antiga cirurgia aberta para tratamento de câncer do colo do útero é mais eficaz do que a moderna videolaparoscopia e tem menor risco

Um estudo publicado recentemente pela revista científica New England Journal of Medicine chacoalhou a comunidade médica mundial e trouxe à tona discussões sobre qual o melhor método de cirurgia nos casos de câncer do colo do útero, um dos que mais atinge mulheres. Ao longo de dez anos, 33 centros médicos espalhados pelo mundo trabalharam intensamente avaliando quase 700 pacientes para saber qual era a melhor técnica de operação e chegaram à conclusão de que a mais antiga, a aberta, ainda era a melhor porque garantia êxito de 93% contra a recidiva da doença comparado aos 85% de efetividade da moderna videolaparoscopia.

O choque foi grande entre os médicos, que viam na cirurgia por aparelhos, menos invasiva, um grande avanço para pacientes. Afinal, a recuperação era mais rápida sem um grande corte na barriga. Por isso, a técnica evoluiu para outras intervenções abdominais desde a década de 90. Mas, no caso do câncer de útero, não foi o que o se viu na prática, conforme detectou o estudo, que contou com a participação da equipe do Hospital Albert Einstein.

Para surpresa geral, o grupo tratado por laparoscopia tinha um risco de 1,6 até 8,5 vezes maior de ter a doença de volta e, portanto, mais chance de morte. Isso porque, diferente da aberta, a manipulação por equipamentos pode elevar as chances de contato das células cancerígenas e contaminação abdominal.

BUSCA DE RESULTADO

Segundo o ginecologista do Einstein responsável pelo estudo no Brasil, Mariano Tamura, a medicina sempre busca melhorar procedimentos para que o paciente tenha recuperação rápida, menos sequelas e maior sobrevida. “Em países em desenvolvimento, como o Brasil, onde as pessoas não têm acesso à prevenção, a sobrevida é crucial”, diz.

O câncer de colo de útero afeta mulheres entre 40 a 45, sexual e economicamente ativas, tornando o cenário dramático. Em 99% dos casos há ocorrência de HPV e, geralmente, este câncer é mais agressivo. “Diferente do câncer de mama que atinge mulheres acima de 50, o de colo de útero tem uma etapa pré-maligna, o que ajuda nas chances de sobrevida”, diz ele.

Para o ginecologista do Hospital Sírio Libanês, Alexandre Pupo, o estudo mexeu com o mundo médico porque representa um refluxo da tecnologia. “Nas mudanças, deixamos de fazer coisas importantes, como isolamento da massa tumoral para que não haja contaminação de células cancerosas na cavidade abdominal. Mas medicina é baseada em estudos e comparações para oferecer o melhor aos pacientes e teremos de dar um passo atrás”, diz o especialista em oncologia ginecológica.
Mas para o Sistema Único de Saúde (SUS) pode representar uma economia, uma vez que os equipamentos são caros. “Como a cirurgia aberta requer menos recursos, os profissionais devem usar as técnicas tradicionais”, diz Tamura.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

26 DE FEVEREIRO

O DRAMA DAS DROGAS

… e não sirvamos o pecado como escravos (Romanos 6.6b).

A “cracolândia”, na cidade de São Paulo, o maior centro urbano da América do Sul, é um retrato repulsivo da catástrofe das drogas. Homens e mulheres, jovens e adolescentes, vivem perambulando nesse espaço, destruídos por esse vício maldito e mortal. A repressão da lei e a ação da polícia não conseguem debelar esse câncer social. No século da liberdade, nossa juventude está escravizada pelas drogas. Mais de 90% dos municípios brasileiros estão assolados pela influência avassaladora do crack. Já existem até marchas em defesa da liberação da maconha, porta de entrada para as outras drogas mais pesadas. Milhões de lares estão desesperados por verem seus filhos rendidos à escravidão do vício. São milhões de jovens que abortaram seus sonhos e jogaram sua vida no calabouço do vício. Esses jovens são o tormento dos pais.

Muitos deles acabam morrendo precocemente. Traficantes armados até os dentes controlam setores da cidade e espalham a morte por nossas ruas. Esquemas de corrupção, com interesses inconfessos, dão cobertura a essa estrutura de morte. Esses agentes do mal seduzem crianças e adolescentes nas portas das escolas e apanham muitos deles para sua rede mortífera. Precisamos ligar o sinal de alerta e mobilizar-nos para frear essa onda de morte. Família, Igreja e Estado precisam dar as mãos nessa cruzada em favor da família.

GESTÃO E CARREIRA

A MULHER POR TRÁS DO BMG

Entenda por que a diversidade passou a ser um dos focos da instituição financeira comandada pela executiva Ana Karina Bortoni.

Ela perdeu o pai ainda menina. Aprendeu com a mãe a nunca olhar para trás, preservando o otimismo e sempre buscando maneiras de agir de forma positiva. Hoje, os eninamentos maternos provaram ser decisivos para a executiva Ana Karina Bortoni Dias, tanto na gestão de sua vida pessoal quanto nos desafios diários que enfrenta no comando do banco BMG. Entre seus compromissos inadiáveis, está o de dedicar um tempo da agenda diária para si mesma. Quando não está desempenhando suas funções no mais alto posto do Banco BMG, Ana Karina aproveita suas horas livres para ir à academia, ao cinema com o marido e a filha e curtir a família. Você pode se perguntar onde ela encontra tempo para realizar todas essas atividades, mas essa é uma das qualidades da liderança feminina.

O estereótipo grey hair (grisalho, que indica um homem de meia idade) como o ideal para presidentes de grandes empresas sempre esteve presente numa sociedade machista. Mas existem mulheres que encararam os desafios, superaram os obstáculos e conseguiram construir uma carreira vitoriosa.

É o caso de Ana Karina. Hoje aos 47 anos, ela ocupa o cargo mais alto dentro da instituição financeira e sem perder a feminilidade. Membro do conselho de administração e CEO do BMG, a executiva acredita que suas habilidades combinam com a empresa que, por sua vez, abre espaço para que as mulheres progridam dentro da empresa. Prova disso é que dos dez conselheiros do banco, quatro são do sexo feminino. E mais: entre os três membros independentes, duas vagas são ocupadas por mulheres.

Ana Karina afirma que no BMG a diversidade vem sendo discutida em todos os aspectos. Segundo ela, existem algumas ações temáticas dentro da instituição cujo objetivo principal é diminuir o abismo entre homens e mulheres. Além disso, outras questões de diversidade, não apenas de gênero, também são tema de reflexões constantes. “Nós não estamos perfeitos, mas temos todos esses assuntos como preocupação central”, diz a executiva. “Por isso, achamos importante discutir esses temas na empresa”.

RESPEITO

Como grande parte das mulheres, Ana Karina já passou por situações constrangedoras no local de trabalho. “Minha carreira foi construída, majoritariamente, em espaços masculinos. Em diversas reuniões, eu era a única mulher na sala”, conta. “Mesmo num ambiente que valoriza e acredita no potencial da mulher, esse tipo de situação existe. É triste”, afirma ela, que nunca se deixou abater. Mestre em Química pela Universidade de Brasília, conduziu projetos no Centro Brasileiro de Serviços e Pesquisas em Proteína.

Em 2003, iniciou sua jornada na Mckinsey, empresa de consultoria organizacional americana. Sete anos depois, tornou-se sócia da companhia, após se especializar em projetos no segmento de finanças. Seguiu trabalhando duro, até ser nomeada, em março do ano passado, presidente do Conselho de Administração do BMG. No banco, Ana Karina é inspiração para os colaboradores e assume que a influência de um líder é uma de suas características no gerenciamento de equipes. “O líder tem dois papéis: inspirar pessoas e traçar o caminho da empresa. Mas não fará isso sozinho. Tem de haver uma equipe qualificada para ajudá-lo”, declara. “O líder tem de ser um mentor, uma espécie de coach. E também precisa contribuir para o desenvolvimento da sua equipe.”

Para Ana Karina, independentemente do cargo que ocupe, todo profissional deve saber o que é importante para si e tentar mudar sua rotina para conciliar vida pessoal e profissional. “Você não consegue abraçar o mundo, mas pode ser objetivo, escolher suas batalhas, focar nisso e fazer o que acredita”, afirma a executiva. Com essa convicção, ela chegou ao posto mais alto do Banco BMG. Uma mulher, mãe, filha e esposa que conquistou tudo o que sonhava — e se esforça para dar a mesma chance a outras mulheres.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DETOX DIGITAL

Novos métodos de terapia ensinam as pessoas a se desconectarem da internet, ao mesmo tempo em que se submetem a uma profunda mudança de hábitos

O dia a dia nas grandes cidades brasileiras inevitavelmente acaba nos levando para uma hiperconexão. Durante uma parada no trânsito, ao aguardarmos por uma consulta médica, no transporte público então… Às vezes até passamos do ponto por ficar navegando na internet. Fica automática a ação de puxar o smartphone do bolso para saber de tudo um pouco: notícias de última hora, dar uma olhada no aplicativo com indicação de como chegar mais rápido, e claro, bisbilhotar a vida alheia e acessar o WhatsApp. Quando esse comportamento pode ser tornar um problema? No momento em que deixamos de fazer as coisas comuns de forma simples e prazerosa para estar conectados. Ou quando o comportamento se altera de tal forma que nos sentimos incomodados pelo fato de não estar com celular no bolso.

NECESSIDADE DE RUPTURA

A empresária Fernanda Ralton Semler, 42, dona do Botanique Hotal & SPA, passou por essa situação. “Cheguei ao ponto de não conseguir tomar banho com naturalidade, ficava pensando nas mensagens que estava recebendo”, conta. Nesse momento, em 2013, Semler já era mãe, e percebeu que havia a necessidade de uma ruptura e criou o spa e um serviço diferenciado, o detox digital. A desintoxicação eletrônica foi um reencontro com sua individualidade. Segundo ela, o detox digital está calcado na autenticidade e na profundidade de pesquisa em tudo que envolve a desintoxicação. O programa faz parte de um tratamento exclusivo, que inclui três diárias num pacote que passa de cinco mil reais, “o projeto é sucesso, se tornou o carro chefe do hotel”. Por conta da “abstinência” individual, ainda é difícil a adesão plena, 70% das pessoas que já se submeteram ao detox não conseguem fazer a terapia a contento e pedem o celular de volta. Entre os 30% restantes, que repetem a terapia sazonalmente e entendem o conceito, está Bruna Fioreti, 36, comunicadora, business coach e especialista em branding pessoal. Ela afirma que atividades de detox, individuais e em grupo, não deixam tempo nem para lembrar do celular. “A experiência off-line tirou necessidade até de segurar o aparelho”, diz.

A terapia propõe que, ao retomar as atividades, as pessoas levem a vida de outra forma, pois hiperconectividade está ligada a algo que a medicina chama de via de recompensa, em uma área do cérebro localizada na parte frontal conectada à dopamina, que dá sensação de bem-estar. Para o médico psiquiatra Marcelo Daudt Von der Heyde, da Escola de Medicina da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, o longo período de conexão afeta principalmente jovens, podendo levar a alterações no córtex frontal. “Em um cérebro em maturação pode haver pouca estimulação de algumas áreas”. O professor diz que em média, a cada seis minutos nos conectamos à internet, o conjunto das perturbações provocadas pelos estímulos digitais tem relação direta com estresse. Isso é tão forte como a dependência de drogas e álcool. Podemos associar ao fenômeno de “membro fantasma”, quando a pessoa perde um braço ou uma perna e, mesmo assim, sente falta

OUTROS OLHARES

DENGUE: O MOSQUITO ESTÁ DE VOLTA

Chuvas intensas e a incompetência do poder público no combate à doença abrem caminho para retorno do Aedes Aegypti

O sofá na casa de Caroline Garcia, 21 anos, em Votuporanga, no interior de São Paulo, ficou até aquecido, tamanha a quantidade de horas que a estudante de Direito passou tentando encontrar a melhor posição para o seu corpo, minado pela febre alta, que já havia alcançado picos superiores a 39º C. Diagnosticada com dengue no início do mês, a tarde do dia 2 de fevereiro, quando soube que estava com a doença, foi marcante para a estudante, que passou a ter dores horríveis no corpo. Picada pelo mosquito Aedes aegypti durante uma viagem a Belo Horizonte, no final de janeiro, Caroline faz parte de uma estatística cada vez mais preocupante no Brasil.

CENÁRIO CRÍTICO

Enquanto o temor com a possível chegada do Coronavírus mobiliza a atenção de autoridades, algo que não se confirmou até o momento, os casos de dengue explodiram no Brasil. Segundo dados do Ministério da Saúde, são 94 mil casos somente este ano, o que representa um aumento de 71% em relação ao mesmo período do ano passado. Em 2019, foram registrados mais de 1,5 milhão de casos, com 782 mortes, o que representou uma alta de 488% em relação a 2018. “Alguns fatores justificam o aumento. Em primeiro lugar, não está sendo dada a atenção devida à dengue, em razão da preocupação mundial com a epidemia do novo vírus surgido na China. Não podemos nos descuidar do combate ao Aedes aegypti, ainda mais no verão, quando temos períodos chuvosos”, diz o infectologista Leonardo Weissmann, da Sociedade Brasileira de Infectologia.

A explosão dos casos de dengue, provocada pelas chuvas de verão, demonstra que as autoridades declaram-se incompetentes para resolver o problema, que vai do combate ao mosquito, à limpeza dos logradouros públicos, à vacinação em massa contra a doença. No Brasil, existem quatro tipos de dengue: os sorotipos 1, 2, 3 e 4. Uma das maiores preocupações de médicos e especialistas na endemia é a volta da circulação do sorotipo 2, que estava fora do radar há mais de uma década. “Como não temos imunidade para esse vírus e estamos em uma época favorável para a sua circulação, houve esse surto não combatido pela sociedade”, explica Rodrigo Said, coordenador-geral de Vigilância das Arboriroses do Ministério da Saúde.

Ainda segundo o Ministério, em boletim epidemiológico divulgado no último dia 19, 14 pessoas haviam morrido vítimas da dengue. Esse número, no entanto, pode ser ainda maior. A Secretaria de Saúde de Minas Gerais investiga ao menos dez mortes que podem ter sido causadas pela doença. O Paraná possui 17.500 mil casos confirmados e São Paulo tem mais 19 mil infectados. Se olharmos por região, teremos o seguinte mapa: Norte (5.286), Nordeste (4.899), Sudeste (41.142), Sul (25.588) e Centro-oeste (17.234). Em Votuporanga, cidade de Caroline, mais de 600 casos já foram constatados. “Só na minha turma da faculdade tem umas seis pessoas infectadas”, relata.

ATENÇÃO NA FOLIA

Diante do surto iminente, é preciso intensificar as medidas para diminuir os focos de proliferação do mosquito. O roteiro é conhecido, mas repeti-lo nunca é demais. Evitar acúmulo de água e tampar caixas d’água são algumas das tarefas primordiais. De acordo com Leonardo Weissmann, o poder público não pode arcar sozinho com o problema. A população também tem um dever a cumprir. “É claro que o governo precisa manter as ações de vigilância para combater o Aedes aegypti. Mas vale destacar que esta ação não é exclusiva das autoridades. É necessário que a população faça tudo o que estiver ao seu alcance para combater o mosquito continuamente, não apenas quando há o aumento no número de casos”, aponta. Para diminuir o avanço do mosquito, Rodrigo Said ressalta que governo antecipou campanhas de conscientização e tem visitado os estados para dialogar com gestores estaduais. Além disso, a pasta vai modificar o inseticida utilizado nos últimos anos. O novo produto entra em circulação a partir de março.

O Carnaval também está no radar das autoridades. A aglomeração de pessoas e, em consequência, do lixo, pode ser um fator a mais na batalha contra o aedes aegypti. Em Porto Rico, na região noroeste do Paraná, as festas já foram canceladas. A cidade tem 75 casos confirmados. “O que nós pedimos é que as pessoas tenham atenção com as garrafas plásticas e latinhas. Brinquem o Carnaval com segurança, mas o lixo produzido precisa ter destino correto, para que não haja nenhum acúmulo e os mosquitos se propaguem”, reforça Rodrigo Said. “Além do cuidado com os resíduos, usem e abusem do repelente”, conclui Weissmann.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE ORVALHO PARA A ALMA

DIA 25 DE FEVEREIRO

UMA FAMÍLIA SALVA DA TRAGÉDIA

Disse o SENHOR a Noé: Entra na arca, tu e toda a tua casa… (Genesis 7.1a).

Noé foi um homem justo no meio de uma geração perversa. As pessoas do seu tempo comiam e bebiam, casavam-se e davam-se em casamento, até o dia em que o dilúvio veio e engoliu a todos. Noé creu em Deus quando as pessoas à sua volta simplesmente seguiam a vida sem levar Deus em conta. Não há nenhum mal em comer e beber, casar-se e dar-se em casamento, mas, quando fazemos essas coisas sem pensar em Deus, estamos em sério perigo. A geração de Noé só pensava nas coisas terrenas. Não fazia provisão para as coisas espirituais. Por isso, não ouviu a mensagem de Noé nem se preparou para o encontro com Deus. Noé, ao contrário dessa geração ímpia, levou toda a sua família para a arca. O dilúvio veio e como torrente arrastou a todos para a morte irremediável. A família de Noé estava segura e salva. Alguém já disse, com muita propriedade, que Noé foi o maior evangelista da história; pois, embora não tenha levado nenhum de seus contemporâneos para a arca, conseguiu levar toda a família. A sua família já entrou na arca da salvação? O dinheiro, o sucesso, a fama, os prazeres e os troféus conquistados na terra não podem salvar a família de grandes tragédias. A ciência, a riqueza e a religião não podem salvar a família desse dilúvio de tragédias. Jesus é o único porto seguro para a família. Só nele encontramos refúgio!

GESTÃO E CARREIRA

POR QUE ESTAMOS TÃO ANSIOSOS?

Os brasileiros são o povo com o maior índice de ansiedade do mundo. Descubra como combater esse problema que prejudica o raciocínio, a criatividade e a produtividade – e que, no limite, pode levar ao desenvolvimento de depressão e Burnout

O Brasil é o país mais ansioso do mundo. É o que diz o relatório mais recente da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre transtornos mentais, divulgado em 2017. São mais de 18 milhões de brasileiros convivendo com a ansiedade, o equivalente a 9,3% da população, sendo a maioria mulheres. No mundo, os ansiosos ultrapassam 264 milhões – um aumento de 15% na última década, em boa parte devido ao crescimento e ao envelhecimento da população, mas também às transformações no estilo de vida ao redor do planeta.

Estamos falando aqui do chamado transtorno de ansiedade generalizada, considerado o tipo mais comum de ansiedade. Outros distúrbios são síndrome do pânico, fobia social, estresse pós-traumático e transtorno obsessivo-compulsivo, para citar somente alguns. Cada um deles apresenta suas peculiaridades no que diz respeito a sintomas, tratamentos, prevalência na população e impacto no cotidiano.

Para começar, é importante saber que nem toda ansiedade é uma patologia. Sentir-se apreensivo, naquele “modo expectativa”, que define o estado ansioso antes de uma entrevista de emprego, de um primeiro encontro romântico ou de uma viagem muito desejada é normal e saudável. Essa sensação está prevista no funcionamento cerebral e pode-se dizer que tem efeito protetor: serve de estímulo para a pessoa se preparar. Depois de passado o acontecimento, volta-se ao equilíbrio. “O problema começa quando a resposta ansiosa é desnecessária ou desproporcional, em duração ou intensidade, ao contexto ou evento que está adiante”, diz o médico neurologista Leandro Teles, especialista pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e autor do livro O Cérebro Ansioso.

Ansiedade vira doença, portanto, quando o sujeito vive em estado de alerta permanente, como se algo ruim, importante ou perigoso estivesse prestes a acontecer o tempo todo. No trabalho e na vida, o ansioso tem a sensação de estar sempre devendo alguma coisa, correndo para chegar a algum lugar, para cumprir um prazo ou para bater uma meta. Essa expectativa (também chamada no jargão dos especialistas de “resposta de luta ou fuga”) aciona comandos cerebrais e a liberação de hormônios cortisol e adrenalina. Juntos, eles promovem uma porção de reações físicas (respiração ofegante, coração acelerado, tensão muscular), psíquicas (medo, irritação, vontade de chorar) e cognitivas (dificuldade de raciocínio e concentração), que constituem sintomas bem conhecidos pelos ansiosos (veja o quadro ”Atenção aos sinais”).

Os prejuízos não são apenas para o equilíbrio emocional e para o bem-estar. A descarga de mudanças no organismo desregula os hormônios, a imunidade e o metabolismo. A tensão constante eleva a probabilidade de desenvolver pressão alta, aumento do colesterol, obesidade, insônia, distúrbios alimentares (como anorexia e bulimia) e abuso de álcool, drogas, cigarro e remédios. Além disso, a ansiedade é considerada fator de risco para depressão e Burnout – somadas, as três doenças mentais afetam cerca de 700 milhões de pessoas no mundo, segundo dados da OMS. No limite, a ansiedade pode levar ao suicídio.

UM PROBLEMA, MUITAS CAUSAS

As demandas do mundo Vuca (volátil, incerto, complexo e ambíguo), a velocidade e o volume de informações a que estamos expostos o tempo inteiro, a hiperconexão e o mito da felicidade certamente colaboram para elevar os níveis de ansiedade em muitos lugares do mundo. Vivemos na expectativa da notícia nova, da resposta imediata, do próximo like.

Há que incluir nesse conjunto de fatores, ainda, os conflitos impostos pelo mundo do trabalho: relacionamentos difíceis, pressão por resultados, intolerância ao erro, cargas horárias excessivas, metas inalcançáveis e pouca autonomia. No Brasil, a crise econômica sem previsão para terminar, a radicalização na política, o desemprego que não recua e a realidade social cruel se somam à fórmula que faz de nós o povo mais ansioso do mundo. “Por causa da falta de vagas, dos salários baixos e do custo de vida alto, muita gente precisa acumular empregos e vive com medo de ser demitido, além de exausta. É uma sobrecarga enorme para a saúde mental”, diz Paulo Almeida, professor de liderança e gestão de pessoas na Fundação Dom Cabral.

É verdade que certas profissões são normalmente mais estressantes do que outras, como algumas ligadas às áreas de saúde e segurança. Mas existe também uma espécie de glamourização de comportamentos ansiosos em alguns meios profissionais, o que só contribui para agravar o problema. São pessoas que se gabam (ou, no mínimo, negligenciam os prejuízos) de trabalhar incansavelmente, de fazer mil coisas ao mesmo tempo ou de manter-se produtivas à base de litros de café ou de remédios. Só que isso não funciona no médio e no longo prazo porque esgota a mente, afetando o desempenho e as emoções. “Pense no cérebro como um músculo ou como o motor de um carro: se você o faz trabalhar o tempo todo em intensidade ou velocidade máxima, ele logo entra em colapso”, afirma Leandro Teles. “Para garantir boa performance cognitiva com longevidade, é preciso saber gerenciar o estresse e a ansiedade, e não recorrer a meios para evitá-los.”

IMPACTO NOS NEGÓCIOS

Transtornos mentais como ansiedade e depressão custam à economia global algo em torno de 1 trilhão de dólares por ano em queda de produtividade, de acordo com um levantamento da OMS. Esse prejuízo não se dá só por demissões e absenteísmo. “Cerca de dois terços das perdas vêm da queda no desempenho do funcionário quando está no trabalho, por falta de concentração e dificuldade para tomar decisões”, explica o psiquiatra Wagner Gattaz, presidente do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo e da Gattaz Health & Results, empresa que desenvolve programas de saúde mental para corporações.

Não é à toa que, no Fórum Econômico Mundial de 2019, o bem-estar psicológico foi incluído pela primeira vez no relatório que trata dos fatores de risco à economia global. Isso porque estimativas mostram que os gastos relacionados a doenças emocionais poderão chegar a 6 trilhões de dólares em todo o mundo até 2030 – mais do que a soma das despesas com diabetes, doenças respiratórias e câncer, segundo dados do Fórum. De acordo com o documento, o que vai determinar o crescimento de uma economia baseada no conhecimento, como a do século 21, é a capacidade das empresas ele desenvolver práticas e políticas que ajudem a construir ambientes de trabalho acolhedores e a manter profissionais mentalmente sadios. E equipes equilibradas são um bom negócio: cada dólar gasto em iniciativas de bem-estar mental gera às organizações 4 dólares de retorno em produtividade, segundo estudo da OMS.

QUEBRANDO O TABU

Dados da Secretaria da Previdência do Ministério da Fazenda mostram que a ansiedade é motivo de dois em cada dez afastamentos do emprego por doenças comportamentais (fica atrás apenas de depressão). De 2012 a 2016 houve aumento ele 17% na concessão de auxílio-doença por transtornos de ansiedade. Mas os especialistas acreditam que o número de trabalhadores ansiosos precisando de ajuda seja bem maior. E isso pode ocorrer tanto por subnotificação do empregador (que frequentemente comunica outras causas para a licença), quanto por omissão do empregado.

O estigma em torno das doenças emocionais, aliás, é considerado o principal obstáculo para que ansiedade, depressão e Burnout sejam tratados com seriedade no contexto do trabalho. “O preconceito começa no próprio paciente, que evita compartilhar o drama com colegas e com o chefe porque não quer demonstrar fragilidade e tem medo de ser mandado embora”, diz o psiquiatra Wagner.

Aí é que entra, mais uma vez, a ação das empresas. Uma das principais missões da área de recursos humanos deveria ser justamente a educação emocional de líderes e liderados para que eles consigam falar sobre questões de saúde mental com naturalidade e sem medo de se mostrarem vulneráveis. “Assim eles serão capazes de entender e lidar com o que sentem, ver as coisas como são, sem imaginar cenários que não existem, e negociar demandas e necessidades”, diz Edwiges Parra, psicóloga organizacional, coach executiva e fundadora da E Mind Mente Emocional. Falando em liderança, o modelo de gestão baseado em comando e controle é visto como um dos principais fatores ligados à ansiedade que nascem no trabalho. “O foco em resultado pressiona o funcionário e não dá margem para experimentar, errar, inovar”, diz Paulo, da Fundação Dom Cabral. Os próprios chefes precisam trabalhar autoconhecimento, ferramentas de inteligência emocional, comunicação, empatia e resiliência em nome de fomentar culturas organizacionais positivas. Para o professor, lideranças coletivas, que colocam a gestão da performance sob responsabilidade de todos e tiram o foco do indivíduo, colaboram muito para criar ambientes corporativos seguros psicologicamente.

COMO RETOMAR O EQUILÍBRIO

Ansiedade e outros transtornos psíquicos surgem de uma combinação entre causas genéticas, ambientais e do contexto individual. O primeiro passo para tratar esses problemas é reconhecer que a saúde emocional está pedindo socorro. Daí, é preciso buscar auxílio. “A psicoterapia pode ajudar a identificar comporta mentos-gatilho da ansiedade, a manejar crises e a mudar hábitos”, afirma a psicóloga Edwiges. “Pessoas com personalidade controladora, perfeccionistas, auto exigentes e inflexíveis são mais sensíveis a se tornarem ansiosas e podem trabalhar esses traços na terapia.”

Remédios só devem ser usados com recomendação médica – apenas o especialista pode avaliar a droga mais adequada, assim como a real necessidade de usá-la, a dosagem certa e o momento de interromper ou modificar o tratamento. Mesmo assim, manter na gaveta do trabalho um remedinho para aliviar a ansiedade em momentos críticos ou para aumentar o foco e conseguir trabalhar mais horas sem interrupção parece ter virado algo banal.

Ainda que calmantes e anfetaminas (as drogas mais usadas para esse fim) só possam ser vendidos com receita médica, muita gente burla as regras, pega emprestado do colega, compra de forma clandestina e, com isso, acaba se expondo a riscos para a saúde. “Tomar essas substâncias sem orientação pode gerar dependência e tolerância, que vai fazer com que a pessoa precise de doses cada vez maiores para conseguir o efeito desejado”, diz o psiquiatra Wagner. Além disso, como os medicamentos agem momentaneamente sobre o sintoma, sem tratar o que está causando a ansiedade, recorrer a eles é empurrar o problema com a barriga e permitir que ele escale, levando a prejuízos maiores. E muitas vezes os remédios nem sequer são necessários. Um estudo recente da Faculdade de Enfermagem da Universidade Colúmbia, nos Estados Unidos, concluiu que técnicas de relaxamento como mindfulness, ioga e hipnose usadas no tratamento de pessoas ansiosas podem substituir o uso de pílulas em alguns casos.

No fim, cuidar de si mesmo é a atitude mais importante. Criar momentos para nutrir a autoestima e relaxar é indispensável para retomar o equilíbrio mental. As atividades são variadas e cada um encontra a sua – pode ser ler um livro, fazer pequenas viagens, cozinhar, contemplar a natureza, praticar algum exercício ou simplesmente não fazer nada. O fundamental é achar algo que o ajude a se conectar consigo mesmo e que deixe claro que o trabalho é apenas uma das dimensões da vida. Nem sempre é fácil mexer na agenda, mas empregar esforços e desapegar de costumes nocivos faz parte de se autorresponsabilizar pelo próprio bem-estar. Que tal começar agora?

ATENÇÃO AOS SINAIS

Não existe exame de laboratório capaz de detectar um transtorno de ansiedade. É importante que paciente e médico estejam atentos e preparados para reconhecer os sintomas físicos, cognitivos e emocionais que indicam que há algo fugindo do controle. Mas não basta haver um ou outro indício isoladamente – é o conjunto de sinais, associado à duração e à intensidade deles (se estão presentes a maior parte do tempo e persistem há seis meses ou mais), que determina o diagnóstico preciso. É necessário também considerar o momento de vida do paciente. Mas o mais importante é avaliar o impacto negativo que a avalanche de alterações físicas e psicológicas causa na qualidade de vida da pessoa. “Não há doença psíquica se não houver prejuízo para o rendimento e para o bem-estar do indivíduo afetado e daqueles que o cercam”, avisa o neurologista Leandro Teles. Conheça alguns sintomas comuns da ansiedade.

ESTRESSE, ANSIEDADE E O AMBIENTE CORPORATIVO

O estresse é o principal alimento da ansiedade. Mal gerenciado, ele se acumula e deixa o sujeito em estado de alerta constante, exposto a todos os malefícios à saúde física e emocional. Não dá, portanto, para separá-los totalmente. Entenda como esses males se manifestam no local de trabalho.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A NEGAÇÃO DA VIDA NA NEGAÇÃO DA MORTE

A descrição das características psicológicas encontradas nos vícios e compulsões é importante, contando com a análise reichiana, na qual a dor é secundária, pois a ênfase fica no alívio e prazer, depois a culpa

No século XIX, diante do pouco interesse dos chineses pelos produtos europeus – e estes, por sua vez, compravam dezenas de toneladas de chá dos primeiros -, a Inglaterra passou a comercializar ópio ilegalmente. O ópio era trazido das colônias inglesas na Índia e embarcado em direção à China.

Seu consumo produziu uma verdadeira epidemia, quase levando o Império Chinês à falência, e resultou numa guerra quando a mesma China tentou proibir o uso do produto.

Merece destaque o interesse dos chineses pelo ópio, em contraste com outros produtos frutos da nascente revolução industrial. Os malefícios já eram conhecidos pelo fato de seu uso ter se tornado frequente por grande parte da população. Mesmo assim, prevaleceu a busca dos efeitos inebriantes do ópio – “por favor, minha amiga, transforme em sonhos meus pesadelos”.

Numa pesquisa recente do Levantamento Global de Drogas (Global Drug Survey – GDS), quase 10% dos entrevistados, usuários de maconha, admitiram ficar cerca de 12 horas por dia sob efeito da substância. Ou seja, praticamente o período em que estão acordados. Estarão acordados quando isso está se dando? É uma questão não meramente retórica.

O ângulo abordado é diferente da maneira habitual como a dependência das drogas é tratada, pelo viés da dependência química, que usualmente não se ocupa dos fatores (ligados ao desejo) que levam ao consumo. Não é de se estranhar igualmente que compulsões e vícios estejam listados no título, há um denominador comum presente. Resumidamente: numa desordem conhecida como transtorno de escoriação, as pessoas usam unhas, dentes, pinças etc. para arrancar alguma coisa da pele, como uma espinha ou pelo encravado. Podem passar horas nesse fazer, um fazer compulsivo, que a vontade não consegue deter, ficando às vezes com marcas por todo o corpo e retiradas da vida social. A descrição das características psicológicas frequentemente encontradas é importante, mas sublinho um elemento-chave com sentido especial na ótica reichiana: a dor é secundária, a ênfase fica no alívio e prazer, depois culpa.

Na cleptomania, o “roubar” é compulsivo. Não confundir com furto. Na primeira, o ato é determinado menos pelo objeto subtraído e mais pelo ato em si de subtrair, e isso independe da condição financeira da pessoa. O quadro psicológico também merece atenção, mas novamente o sublinhado é: pacientes relatam sentimentos de tensão que antecedem a realização, seguida posteriormente por sentimentos de satisfação e prazer. Após, vergonha e culpa.

A mesma experiência de tensão pré­ realização, seguida de satisfação. Depois, culpa.

”Algo” que pressiona por descarga e evoca prazer. Satisfação erótica. Num plano simbólico, mas físico, somático também. A culpa que se segue revela o conflito inconsciente envolvido e associado à obtenção de satisfação.

Nem toda experiência de prazer envolve “descarga” de excesso de excitação. Esse primeiro tipo é da ordem do econômico-energético e envolve o que seria chamando de satisfação pulsional num referencial freudiano. Mas há também aquele prazer decorrente da retirada da dor, do desprazer – como o alívio que sente o leão quando o escravo Androcles retira o espinho de sua pata-, ou a evitação dos mesmos, num plano psíquico. A retirada do espinho evoca prazer (pelo alívio), mas não satisfação pulsional.

DESPRAZER

O mecanismo psíquico da negação igualmente não traz satisfação pulsional, mas evita o desprazer. E que papel desempenha a negação no escopo do que examinamos? Veremos que tanto a satisfação erótica quanto a negação têm importância central nos vícios, compulsões e dependências. “Por favor, minha amiga, transforme em sonhos meus pesadelos”. Mas o que são esses pesadelos? Seria impossível descrever o sentido do que é feito numa abordagem reichiana sem primeiro comentar algo sobre a teoria, aquilo que fundamenta as ações e intervenções clínicas. As manifestações do inconsciente são visadas, e isso mesmo numa abordagem clínica em que a corporeidade é vista como constituinte do psiquismo. Há outra complicação: na Psicologia, há centenas de escolas, linhas de trabalho diferentes, baseadas em concepções diversas sobre o que constitui o cerne do psiquismo, da vida emocional. É o contrário do que se passa se procuro, por exemplo, um ortopedista. Posso procurar dezenas de profissionais diferentes que o ponto de partida será sempre o mesmo: os ossos, músculos, ligamentos etc.

Na Psicologia e na Psicanálise o quadro é completamente diferente. Por isso, a importância de uma apresentação inicial. A teoria reichiana inicia-se com a freudiana, mas diferencia-se desta ao englobar a corporeidade no tratamento das questões psíquicas e emocionais. Há o inconsciente e seus subterrâneos, quer dizer, processos mentais extremamente atuantes, mas invisíveis num primeiro momento. E para se chegar ao exame dos “vícios”, na ótica reichiana, será necessário primeiro apontar algumas características desses processos mentais. E, posteriormente, comentar como o ingresso da corporeidade se segue à redefinição de psiquismo como somatopsiquismo.

Um jeito simples de fazer isso é dizer que nossos principais atos, nossas escolhas na vida, nossas simpatias e antipatias têm por detrás a ação de “forças” que ativam a nossa mente nessa ou naquela direção. E, mais ainda, que essa ativação guarda relação com experiências de vida que foram emocionalmente importantes na infância. E “importantes na infância” quer dizer que nosso psiquismo é marcado não só pelo passado – essa definição é parcial, mas suficiente agora -, mas também pela existência ou não de satisfação erógena ligada a elas. Mas o passado é referência apenas. A desordem só se mantém porque há uma permanente atualização econômica, ou seja, as representações se mantêm ativas porque permanecem os investimentos energéticos nestas, no presente.

Pode-se dizer que todo adulto portador de uma neurose ou desordem específica está inconscientemente vivendo algo da sua infância que ficou “complicado”, “inacabado”, mal resolvido. Faz isso sem saber, faz indiretamente. Há fases de desenvolvimento na criança. Essas fases são períodos definidos de tempo, em que a observação permite relacionar as formas como ela, criança, lida com o mundo a sua volta, e a existência de processos internos de desenvolvimento desenrolando-se.

Esses processos são vistos como somatopsíquicos, quer dizer, envolvem zonas específicas do corpo ligadas a modos particulares de funcionamento mental. Para continuar nos exemplos que utilizamos, isso é como dizer que, para uma criança pequena, o mundo é percebido numa referência oral, ou seja, se é bom ou ruim de se colocar na boca. Existem outras fases além da oralidade, e esses períodos, ou fases de desenvolvimento, são entendidos como universais, ou seja, uma experiência necessária de todo ser humano, relativo à espécie.

O “bom ou ruim de se colocar na boca” pode existir como um registro definidor de um alcoolismo ou na “fome de conhecimento”. Um sujeito pode ser marcado pelas experiências da amamentação e depois, quando adulto, reproduzir a busca de satisfação de uma forma sublimada. Esse “registro” por sua vez, pode ter expressão numa boca com músculos endurecidos, cronicamente tensionados, lábios apertados, quando houve uma interrupção abrupta e antecipada da amamentação.

Então, encontramos vários fatores constituintes na descrição do psiquismo: o inconsciente, a relação entre o presente e o passado e o sexual como força atuante. O sexual é a busca no presente de uma satisfação de um impulso ou desejo com marcas do passado representadas no tipo de busca.

DISTÚRBIOS PROMOVIDOS

E os vícios, distúrbios, compulsões? Mencionei os processos inconscientes, há uma finalidade subterrânea buscada, mas a pessoa não sabe disso. Em cada alcoolismo, em cada compulsão, vício, é o que se passa. E não sabe por que outros processos inconscientes, as defesas, estão em ação. Agem no sentido de produzir “esquecimento” daquilo que inicialmente, na história de alguém, foi uma espécie de causa inicial, e essa produção de esquecimento tem uma segunda consequência: o contato com a realidade fica reduzido, alterado, e o contato que a pessoa tem com ela mesma também. Para a neurose e suas desordens existirem, é necessário existir um empobrecimento da consciência. De si mesmo e do mundo em volta.

Mais uma recapitulação dos fatores em jogo: inconsciente, relação passado ­ presente, o erógeno e agora o empobrecimento do contato com si mesmo e a vida. E como no cerne de toda desordem e neurose há um componente infantil, e um modo infantil – infantil do ponto de vista do amadurecimento-, essas desordens sempre revelam, como característica do funcionamento dessas personalidades, uma dificuldade no lidar com a realidade frustrante. Frustrante nos seus anseios e modos de buscar satisfação. O modo infantil definido inclui até a satisfação sexual, que é buscada de forma substituta, como no comer excessivo no lugar de uma relação com uma parceira ou parceiro. Infantil, portanto, é sinônimo de fixação em fases pré – genitais do desenvolvimento psicossexual.

O psiquismo não é apenas um “suco” do cérebro. O corpo, a corporeidade – em especial no fator econômico-energético – constituem igualmente os nossos processos emocionais. Uma pessoa “cabeça-dura” tem, literalmente, uma cervical rígida, não é somente um modo mental de ser. E a abordagem reichiana tem, além das ferramentas de abordagem verbal, na transferência (via a análise do caráter) a possibilidade de reconhecer a configuração corporal que é contraponto da expressão subjetiva da neurose e da desordem e atuar sobre isso. Toda personalidade tem uma configuração corporal, na forma de arranjos musculares, posturais etc. Uma pessoa muito tímida “encolhe-se’ não tem uma expressão corporal do tipo “peito aberto” ou “nariz erguido”.

PROCESSOS CORPORAIS

Trabalhar clinicamente a condição dos vícios, compulsões e desordens inclui de forma especial, portanto, não só romper o circuito onde predominam a busca disfarçada e infantilizada de satisfação de algo que não é atividade ou a concretude da substância ela mesma, mas também os processos corporais emocionalmente significativos envolvidos, ajudando a pessoa a lidar com a realidade da própria existência. Processos corporais mais bem definidos como psicorporais que envolvem, como dito no início, tanto a descarga da estase de energia que alimenta as fixações pré-genitais quanto a manutenção da função defesa do mecanismo de negação.

Se é patente em todos os casos o valor simbólico de um impulso à transgressão, de um ponto de vista psicodinâmico, não menos importante no entendimento dessas desordens é o elemento apresentado na ideia do “ser capaz de lidar com a realidade da própria existência”.

Ernest Becker, na obra The Denial of Death (A Negação da Morte), em síntese, afirma que todas as instituições sociais, atividades laborais, práticas espirituais etc. não passam de tentativas organizadas pela humanidade para distrair-se da inexorabilidade da ideia da morte. Todos se ocupariam para simplesmente evitar essa constatação e, segundo este, a miserabilidade essencial aterrorizante da nossa existência. Noção próxima à de Schopenhauer: “Todas as ordenações do ser humano são de modo a que o traço básico e trágico da vida sem sentido não seja vivido”. Aqui teríamos, eventualmente, a matriz de todo mecanismo inconsciente de negação, a autoconsciência da perspectiva da morte, segundo esse enfoque. Seria esse o pesadelo que se tentaria transformar em sonhos?

A expressão linguística “o mundo lá fora” reflete epistemologicamente, no caso das disciplinas que se ocupam de tentar descrever e definir a consciência e a autoconsciência, o alienamento da noção simples de que nós e nosso psiquismo somos parte do mesmo mundo que incluiu o “lá fora”: Como se fôssemos e estivéssemos fora na natureza.

Freud postulou que a tendência de toda matéria viva é voltar a ser inorgânica – princípio do nirvana – numa incorporação de uma perspectiva teleológica errônea, que tomou conta da teoria e da teoria da clínica. O vivo não busca um “estado de zero tensão’ e sim produz homeostase através da alternância da carga e descarga. Essa é uma síntese da postulação reichiana, que rege, com um princípio fundante, sua teoria da clínica, postulação justificada e argumentada na sua obra A Função do Orgasmo.

Casos clínicos apresentados permitem apreender como o “medo de cair” – presente no reflexo de Moro encontrado nos bebês humanos – é posteriormente sequestrado na neurose para apresentar-se como medo de morrer ou ficar louco – perder o controle -, cerne de toda defesa muscular e caracterológica, e surgir como medo das intensidades da vida na categorização reichiana angústia orgástica. A desordem, que através dos seus sintomas melhor evidencia isso é a desordem do pânico.

Os mecanismos de negação, nessa ótica, têm a função de evitar as intensidades emocionais e sensoriais do estar vivo – o que incluiu as intensidades da dor e do sofrimento, mas não se resumem a estas – e não impedir a consciência da finitude. Não é medo da morte, e sim medo da vida, através da onipresença da neurose.

OUTROS OLHARES

NO TOM CERTO

Cresce no universo da moda a chamada análise de coloração pessoal, estudo que define as cores das roupas e acessórios que combinam com a tez

O carnaval é território de todas as cores, o vale-tudo ecumênico em forma de arco-íris, costurado por tiaras de asas de borboleta roxas, saias de tule amarelas, maiôs com paetês vermelhos e botinhas verde-musgo. E, no entanto, mesmo nos dias de farra, convém ter um pouco mais de cuidado e sensatez – errar a tonalidade da roupa e do make-up significa, enfim, estragar o visual e ganhar ar envelhecido, nariz longo demais ou bochechas mais gordas. Não é crime de lesa-pátria, mas o zelo pela aparência é uma preocupação que, naturalmente, acompanha a história da moda e os avanços da indústria de cosméticos há décadas, e que, agora, na era das selfies, passa a ser tema de interesse de pesquisas e de personal stylists. A “análise de coloração pessoal”, eis o nome do recurso, nasceu na Europa, atravessou os Estados Unidos e desembarca com força no Brasil. Não há estatística que ajude a demonstrar o crescimento da tendência – mas ela é visível, virou assunto inescapável. Os cabeleireiros e maquiadores mais reputados se ancoram no princípio para fazer seu trabalho, um atalho para bons resultados.

As clientes que entram no badalado ateliê da consultora de estilo Mônica Boaventura, no bairro cool da Vila Madalena, em São Paulo, querem saber as tonalidades exatas que mais combinam com elas. Pagam até 450 reais para se submeterem ao delicado levantamento. A especialista observa a cor natural de cada detalhe do rosto e das mãos das mulheres: cabelos, sobrancelhas, cílios, olhos, lábios e até manchas na pele. Depois, aproxima dezenas de amostras com tons diferentes e identifica quais devem ser usados em brincos, colares, maquiagem e tintura de cabelo. A pesquisa é detalhada, e após 45 minutos brota um mapa das cores. A consulta é finalizada com a entrega de uma cartela com cerca de setenta colorações. Uma das escolas mais tradicionais na área, a Studio Immagine, também de São Paulo, já formou 4.500 consultoras em coloração. “Há uma regra geral: as cores em desarmonia chamam atenção para falhas como rugas ou tom de pele irregular, enquanto as cores em equilíbrio valorizam a beleza natural, fazendo com que a pessoa pareça saudável e com um rosto mais jovem, “diz Tathina Santos, que dá aulas de análise de cor a classes lotadas no Centro Universitário Belas Artes, em São Paulo. A bem da verdade, as quatro personagens que compõem a ilustração abaixo ficariam bem com qualquer cor – e soa quase ofensivo imaginar que esse ou aquele matiz lhes caísse mal, evidentemente que não. Mas também para elas vale dizer que, grosso modo, os tons dos acessórios devem seguir o perfil dos tons do rosto. Uma morena de cabelos escuros, pele clara e olhos azuis, por exemplo, tem naturalmente um visual cheio de contrastes e, portanto, deve usar cores opostas, como preto e branco. Aquelas com cabelos e pele dourados devem fazer o oposto, usando cores próximas, como laranja e marrom-claro.

Não se trata de futilidade, a beleza pela beleza – embora não haja mal nenhum no cuidado permanente com o que anda por aí, sobretudo no mundo dominado pelas redes sociais e pelas selfies. Mas, se é o caso de dar algum lustro ao método, convém lembrar que ele é filho de uma série de estudos do professor e artista plástico suíço Johannes Itten (1888 -1967), da influente escola de arte alemã Bauhaus. Itten notou que seus alunos respeitavam seleções de cores similares em seus trabalhos e usou as tonalidades para compreender melhor a personalidade de cada um deles – essa linha de raciocínio, aliás, é tema de pesquisa da arquiteta Fernanda Moceri, da USP, para quem cores e personalidades são indissociáveis. “É semelhante ao que ocorre em consultórios médicos”, diz ela. “Receitas prontas não funcionam, e absolutamente todas as características da pessoa devem ser levadas em conta.” Em 1980, a estilista americana Carole Jackson, hoje com 78 anos, glamourizou a ideia, associando as cores às estações do ano. Carole interessou ­se pelo sistema com base em sua experiência pessoal. Ela se sentia feia e sem vida no uniforme azul-claro do colégio da infância. Os mandamentos da estilista Carole se transformaram no best-seller Color Me Beautiful, ainda não traduzido para o português, manifesto da nova onda.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 24 DE FEVEREIRO

O HOMEM, A IMAGEM DE DEUS

Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou (Genesis 1.27).

Deus criou o homem à sua imagem e semelhança. O pecado, porém, desfigurou essa imagem. O pecado atingiu todo o nosso ser: corpo e alma; razão, emoção e vontade. O pecado não destruiu por completo a imagem de Deus em nós, mas a deformou. Somos como uma poça de água turva. A lua com toda a sua beleza ainda está refletindo, mas não conseguimos ver essa imagem refletida; não porque a lua não esteja brilhando, mas porque a água está suja. O homem criado por Deus e caído em pecado é agora restaurado. Essa restauração, porém, não é autoproduzida. Não vem do próprio homem, vem de Deus. Deus mesmo tomou a iniciativa de restaurar sua imagem em nós. E como fez isso? Enviando seu Filho ao mundo! Ele é a imagem expressa de Deus. Nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade. Em Cristo, temos perdão, redenção e restauração. Por meio de Cristo, somos feitos filhos de Deus e herdeiros de Deus. A imagem de Deus criada, e deformada pelo pecado, é restaurada por Cristo. Pela operação da graça, nascemos de novo, nascemos de cima, nascemos do Espírito e somos coparticipantes da natureza divina. A glória e a honra perdidas na queda são agora restauradas na redenção!

GESTÃO E CARREIRA

LICENÇA PARA ESCOLHER

Uma pesquisa exclusiva realizada com 4.000 mulheres que são mães e trabalham em 13 grandes empresas no Brasil revela que oito em cada dez delas já pensaram em deixar o emprego após a maternidade

Aos 32 anos, quando começou a trabalhar na empresa de meios de pagamento Mastercard, a administradora Karla Facchini nem pensava em ter filhos. Cinco anos mais tarde, os planos mudaram – mas só no que diz respeito à maternidade. A ambição na carreira continuou a mesma. Em fevereiro de 2018, quando nasceu Davi, seu primeiro filho, ela ficou seis meses de licença-maternidade e um mês de férias. Nesse período, recebeu a notícia de uma almejada promoção. Ela deixou o cargo de gerente de desenvolvimento de negócios sênior para ocupar o de diretora comercial de um cliente global. “Trabalhei muito durante a gestação e sinalizei meu desejo de voltar e crescer”, afirma Karla. A convicção de seguir dentro do ambiente corporativo logo após a maternidade, porém, não representa a maioria. É o que aponta uma pesquisa realizada pela Mãe Corporate, consultoria que desenvolve estratégias para a equidade de gênero nas empresas, em parceria com a organização Movimento Mulher 360, que reúne 57grandes companhias que trocam experiências sobre o tema. Realizado com cerca de 4.000 funcionárias de 13 grandes empresas no Brasil, o levantamento divulgado com exclusividade mostra que 84% das entrevistadas já pensaram em deixar o emprego atual para cuidar dos filhos. Para 87% destas, a situação financeira é importante para a permanência. “As mulheres querem encontrar o equilíbrio entre carreira e família. Para 98% delas, suas empresas são acolhedoras na volta da licença-maternidade, mas não o suficiente para que elas não pensem em deixá-las”, diz Carmem Madrilis, sócia ­ fundadora da Mãe Corporate.

Para as mulheres que ficam, flexibilidade de horário, possibilidade de crescimento, estabilidade e reconhecimento são os principais fatores que determinam não apenas a permanência, mas também para que se sintam mais comprometidas no longo prazo. Para profissionais como Karla, isso fez toda a diferença. Quando voltou ao trabalho, após sete meses, seu filho já se alimentava bem nas refeições e estava adaptado à creche. Mesmo após a volta, ela afirma que se sente à vontade para ficar com o filho sempre que ele adoece. “Saber dessas políticas foi fundamental para a minha tranquilidade de conciliar carreira e maternidade”, afirma Karla. Com uma política de diversidade desde 2016, a Mastercard começou a adotar medidas como home office e licença – paternidade de 56 dias. “A medida global auxilia a equidade de gênero, uma vez que os homens passam mais tempo em casa com seus bebês. E, na empresa, eles compreendem melhor o período de ausência das mulheres”, diz Fabiana Cymrot, vice-presidente de recursos humanos da Mastercard.

Poucas empresas avançam além dos requisitos básicos da legislação para permitir uma conciliação mais harmoniosa entre trabalho e maternidade. Isso é verdade mesmo entre as empresas engajadas na promoção da diversidade. Das 57 associadas ao Movimento Mulher 360, dois terços adotam o conjunto completo de práticas de retenção pós-licença. A primeira delas é a licença-maternidade estendida, de seis meses, dois a mais do que exige a legislação trabalhista brasileira. Além disso, existem a licença- paternidade de 20 dias ou mais e o trabalho remoto. A mais sofisticada é a repetição da avaliação de desempenho realizada antes da licença. A prática vem da constatação de que com frequência as mulheres tinham avaliações piores na volta da licença-maternidade por causa do período de ausência. “A política permite à mãe optar por não ser avaliada e repetir sua avaliação anterior. Se houver algum bônus, este será pago proporcionalmente ao tempo trabalhado por ela”, afirma Margareth Goldenberg, diretora do Movimento Mulher 360.

O avanço dessas medidas – sobretudo a de licença estendida – costuma encontrar uma barreira. “Existe a ideia de que a mulher vai trazer custos para a empresa ao ficar muito mais tempo fora do trabalho do que o homem”, diz Regina Madalozzo, professora e pesquisadora da escola de negócios Insper. Uma pesquisa publicada em setembro por Regina e por Adriana Carvalho, gerente de projetos da ONU Mulheres, braço das Nações Unidas focado na promoção da equidade de gênero, revelou que as mulheres ficam, em média, apenas dois dias e meio a mais por ano afastadas das companhias do que ficam os homens. Também há o fato de que a ausência das mulheres por poucos meses dilui-se em carreiras que duram décadas. A pesquisa considera todos os empregados brasileiros, segundo o Relatório Anual das Informações Sociais de 2017. “Quando se considera a média, o custo da licença-maternidade é muito baixo para as empresas ao ponderar os benefícios de retenção de talentos”, afirma Regina. Qualquer semana a mais pode fazer a diferença quando o assunto é retenção. Quando o Google aumentou a licença de 12 semanas para 18, o percentual de mulheres que deixava a empresa após a licença-maternidade caiu pela metade. A consultoria Accenture dobrou a licença de oito semanas para 16, e a taxa de evasão de mulheres pós-licença caiu 40%.

Uma pesquisa da Universidade de Wilfrid Laurier, no Canadá, publicada recentemente pela Harvard Business Review, mostra que existe algo menos visível, mas muito impactante na carreira das mulheres: as profissionais tendem a ser vistas como menos comprometidas na volta da licença. Quanto mais longo o período, pior. A análise constatou que currículos de mulheres que afirmavam ter aderido à licença-maternidade por um ano inteiro, permitido em países como o Canadá, eram menos requisitados do que os de mulheres que afirmavam ter ficado fora por um período menor. A relações-públicas Carolina Moretti, de 39 anos, conta que sentiu diferença na relação com o chefe e com os colegas ao voltar da licença após o nascimento da filha em 2014. “Eu me sentia mal e excluída dos projetos mais importantes”, afirma. Sem perspectiva, um ano e meio depois ela pediu demissão. Neste ano ela voltou ao trabalho na empresa de eletroeletrônicos Bosch, como especialista em comunicação e marketing, onde ela se diz satisfeita com o espaço para desenvolver novos projetos e com a flexibilidade para tirar uma manhã, ocasionalmente, para assistir a uma apresentação da filha, hoje com 5 anos.

Retomar a carreira após uma pausa nem sempre é fácil. A psicóloga Vanessa Zani, de 38 anos, sentiu essa dificuldade. Depois de 20 anos de trabalho na área de recursos humanos, e respondendo diretamente para o presidente da grande empresa na qual trabalhava, ela engravidou. Após a licença-maternidade de quatro meses, Vanessa manteve-se mais um ano e meio na empresa. Nesse tempo, passou os últimos oito meses pensando em sair. “Não foi uma decisão fácil. Mas sabia da importância de estar com meu filho na primeira infância”, diz ela. De janeiro de 2017 a setembro de 2019, Vanessa se dedicou ao filho e, em paralelo, a projetos pontuais. Há dois meses, ela voltou ao mercado na posição de gerente de recrutamento na Pepsico. A porta de entrada foi o Ready to Return, programa global lançado nos Estados Unidos em 2017, e no Brasil em 2018, para profissionais que estão fora do mercado há pelo menos dois anos. Na iniciativa deste ano, cinco profissionais foram escolhidas. Globalmente, há a meta de que as mulheres sejam metade do quadro da companhia até 2025. Nos cargos de liderança, atualmente, elas são 43%.

O mercado costuma ser mais implacável com as mulheres de baixa escolaridade. Uma pesquisa realizada pela Fundação Getúlio Vargas, de 2016, revela que, 12 meses após o início da licença-maternidade, 48% das mulheres estão fora dos postos de trabalho – por decisão delas ou do empregador. O índice cai para 35% entre mulheres com ensino superior e sobe para 50% entre as que têm menos anos de estudo. Entre os empreendedores que iniciaram um negócio no ano passado no Brasil, 44% eram mulheres que o fizeram por necessidade. Os homens na mesma situação representavam 32% da amostra, segundo o Sebrae. “Algumas se veem sem opção”, diz Regina, do Insper. A boa notícia é que, mesmo lenta, há uma tendência de que mais empresas vejam vantagens e tomem iniciativas para tornar-se a escolha mais desejável para as mulheres.

MAIS MOTIVOS PARA FICAR

Um levantamento mostra que a relação da mulher com o trabalho pode ser conflituosa após a licença

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ANSEIOS MAIS PROFUNDOS

No conto de fadas Rapunzel, o desejo de ser amada com exclusividade faz a mulher mãe manter a filha aprisionada ao seu mundo

Nossos antepassados criavam histórias enquanto observavam a natureza e, com sua pouca consciência, projetavam nelas conteúdos que pertenciam a toda a humanidade. Assim, os antigos gregos personificavam acontecimentos geofísicos, como os raios, trovões e terremotos, na figura de Zeus, concebido como um deus poderoso que governava o Olimpo, lugar onde habitavam as divindades greco-latinas.

Ao analisarmos essas histórias, mitos ou contos de fadas, passamos a conhecer as conexões ocultas que nos levam a conduzir a vida por caminhos indesejáveis quando não estamos conscientes delas.

Essa análise é feita de forma semelhante ao modo como trabalhamos com os sonhos dos clientes em psicoterapia. Exploramos as imagens fazendo analogias até encontrarmos sentido para o sonhador e ajudá-lo nas decisões de acordo com o seu espírito. Ao fazermos dessa forma com os mitos e contos de fadas, compreenderemos o homem coletivo que vive em nossa alma e isso nos ajudará a nos reconectar com a natureza, um ato de religare, palavra latina que significa religação e deu origem à palavra “religião”.

Rapunzel é um conto de fadas que começa com uma mulher grávida tendo desejos de comer raponços – em alemão, rapunzel – plantados no quintal de uma bruxa. Para atender a esposa, o marido imprudentemente entra na propriedade alheia e rouba esses vegetais. Como o desejo nunca sacia, esse ato é repetido pelo homem até que, na terceira vez, ele é flagrado. No confronto com a bruxa, o futuro pai amedrontado lhe suplica ser perdoado e esta o atende mediante a promessa de ele lhe dar a filha logo ao nascer.

Tão logo nasce a criança, a bruxa aparece e a chama de Rapunzel, levando-a consigo. Ela torna-se uma bela garota de cabelos longos e dourados que lhe escorrem pelas costas. Ao fazer 12 anos, a menina é levada para a floresta e aprisionada no alto de uma torre, em um quarto sem portas e sem acesso por escadas, com apenas uma janela pela qual ela joga as tranças quando solicitada pela bruxa, que então sobe por ela até a filha. Essa foi a forma de tornar o mundo de Rapunzel restrito ao egoísmo dessa mãe que quer a garota para si e de alimentar seus desejos também.

Entenderemos aqui algumas dessas tramas ocultas do nosso psiquismo. Notamos um pai desistindo da filha e deixando a mãe viver só para essa criança. Ao se eximir do papel paterno, deixa a filha ser vítima da possessão materna. Essa condição criará pouca oportunidade de essa filha se abrir para o mundo e libertar-se do universo infantil. Tudo isso acontece devido a um pai que se enche de temores e não consegue confrontar o aspecto “bruxa” de sua esposa.

Uma menina de 12 anos tem o seu corpo em mudanças físicas para tornar­ se mulher e completar o ciclo. Rapunzel, em sua natureza, expressou o erotismo orientado para uma mãe que também fez o papel de pai, com o seu longo “falo”, que a aprisionou.

Cabelos saem da cabeça, assim como as ideias. Rapunzel e suas longas mechas tornam-se uma extensão que liga o corpo da mãe ao seu, tal qual o cordão umbilical que simbolicamente deixa a filha aprisionada até que o amadurecimento exija seu nascimento para a vida e essa ligação simbiótica seja interrompida.

Um dia, o canto melodioso de Rapunzel atraiu um príncipe que cavalgava no bosque. Extasiado pela voz, ele foi procurá-la até descobrir a forma como a bruxa conseguia subir na torre. O príncipe a imitou e teve acesso a Rapunzel subindo pelas tranças como fazia sua mãe bruxa. Ao vê-la, apaixonou-se por ela e não demorou a pedi-la em casamento.

O príncipe, como o pai de Rapunzel, também rouba o que pertence à bruxa, o afeto. O feminino, mesmo aprisionado a uma mãe dominadora e fálica, sentiu sua “alma” espelhada no príncipe. Este reencarnava tudo que nela faltava, como a natureza masculina ausente em sua infância. Chamamos “alma” ao aspecto interior de nossa relação com o mundo dos objetos psíquicos. Dessa forma, a voz e os cabelos serviram de ponte para esse encontro.

No entanto, tão logo encontrou a bruxa, Rapunzel traiu a si mesma revelando que o filho do rei era mais leve do que ela. A mãe, que a queria só para si, também a fez sentir o peso dessa relação ao compará-la com a leveza do príncipe. A bruxa revela: “Pensei que tivesse isolado você do mundo e, mesmo assim, você me enganou”. Enrolou os cabelos da garota e cortou as belas tranças, abandonando-a no deserto. Esperou o príncipe e o surpreendeu, derrubando-o da torre e deixando-o cego a perambular pelo mundo. Vagando certa vez, na aridez do deserto, ele escuta a voz que cantava uma linda canção e encontra Rapunzel. Nesse encontro, abraçam-se e suas lágrimas desfazem a cegueira do príncipe para que agora pudessem se enxergar um ao outro.

Rapunzel viveu a aridez do deserto de sua vida do mesmo modo como muitas mulheres que julgam ter perdido sua beleza e feminilidade por doença, idade ou acidente, até que encontram outros valores em seu íntimo e nascem para a vida, pois finalmente a mãe negativa de sua psique a libertou, cortando “o cordão umbilical” que a prendia na impossibilidade de amar. É nesse deserto que pessoas que se amam estão jogadas, perdidas, sem “enxergarem” um ao outro, envolvidas em suas crenças e idealizações de beleza até que possam encontrar-se e enfim experimentar um amor amadurecido e mais forte.

OUTROS OLHARES

DE COSTAS PARA O PRESENTE

Efeito colateral do avanço do conservadorismo, a ala tradicionalista da Igreja Católica atrai cada vez mais jovens no Brasil

O silêncio sepulcral é quebrado pelo canto gregoriano, entoado solenemente pelos mais de 200 fiéis que acompanham a celebração. Mulheres de saia abaixo dos joelhos cobrem a cabeça com um véu de renda, branco para as solteiras, preto para as casadas. Todos os rapazes usam calça comprida e camisa abotoada. À esquerda, um dos dez vitrais coloridos resume o ambiente: nele se veem uma imagem de São Paulo e a frase “Guardai-vos das novidades”. Assim é a missa de domingo na Capela São Pio X, em plena Vila Mariana, um bairro da Zona Sul de São Paulo. Depois de ficar décadas praticamente relegada à memória dos mais velhos, a missa tridentina (referência ao Concílio de Trento, em meados dos anos 1500, quando o ritual foi consagrado), aquela que é toda celebrada em latim, com o padre de costas para a congregação, está passando por uma ressurreição, atendendo à recente multiplicação do rebanho conservador.

Esse movimento, como outros que reforçam as diversas vertentes do conservadorismo no mundo, tem raízes no burburinho incessante de informações que cria e derruba certezas absolutas a cada segundo e exacerba os ânimos e as inquietações das pessoas. “Quando o futuro parece muito incerto, a volta ao passado tem o apelo de um porto seguro”, diz o cientista das religiões Vinícius Mérida, da PUC-­MG. Em 1990, havia no Brasil inteiro apenas treze paróquias que rezavam missas tridentinas. Hoje, são 133 listadas em um site especializado, fora as muitas que oferecem os dois ritos, o antigo e o atual, dependendo do horário. Recentemente, igrejas no Espírito Santo e em Alagoas começaram a oferecer a celebração em latim como opção, em um repertório misto que se repete em templos instalados em roteiros turísticos como a Igreja São José e o Outeiro da Glória, no Rio de Janeiro, e o Mosteiro de São Bento, em São Paulo — famoso justamente pelo coral gregoriano.

O credo que move os autoproclamados guardiões da doutrina — entre eles, surpreendentemente, uma vasta legião de jovens — é a urgência de evitar o que entendem como o iminente colapso da Igreja Católica. “Desde o Concílio Vaticano II a instituição está envolta na fumaça de Satanás”, acredita o maranhense Thadeu Nunes, de 20 anos, frequentador da missa tridentina de domingo na capela paulistana. O Vaticano II, iniciado pelo papa João XXIII e encerrado em 1969, por Paulo VI, aprovou diretrizes destinadas a modernizar a Igreja, como a chamada “missa nova”.

Desde o Concílio de Trento até exatos cinquenta anos atrás, a missa seguiu uma fórmula absolutamente rígida, sem nenhuma abertura para padres cantores e instrumentos musicais como guitarra e bateria no serviço religioso. O Concílio Vaticano II foi um divisor de águas no catolicismo e criou um racha entre religiosos favoráveis às mudanças (ou conformados com elas) e aqueles que as rechaçaram completamente. Além de mudar os ritos, o concílio flexibilizou o conceito de extra ecclesiam nulla salus — “fora da Igreja (católica, claro) não há salvação” —, aproximando o catolicismo de outras religiões e ganhando dos tradicionalistas acusações de “herético”, “judaizante”, “maçônico” e “comunista”. Os líderes do rebanho que viu na reforma uma afronta sem perdão à fé católica foram o arcebispo francês Marcel Lefebvre e o brasileiro Antônio de Castro Mayer, responsável pela diocese de Campos dos Goytacazes, no Rio. Os dois continuaram a rezar missas tridentinas, indiferentes à exigência de autorização especial de Roma para fazê-lo.

Mesmo excomungados, eles nunca deixaram de ter seguidores, que agora se multiplicam. Em São Paulo, o empresário Paulo Victor Santana, de 22 anos, milita na cartilha tradicionalista. Há duas semanas, compareceu a um encontro de jovens que comungam desse mesmo catecismo na Praça da Sé, no centro de São Paulo, trajando uma camiseta com a frase “Lefebvre tem razão”. Diz ele: “Quando conheci a tradição, tive receio de seguir as ideias de um bispo que chegou a ser excomungado. Hoje, com o paganismo à solta na Igreja e Pachamama no Vaticano, entendo que ele estava certo”. A imagem de Pachamama, deusa amazônica exposta em uma igreja na Itália, foi roubada e atirada no Rio Tibre por grupos ultraconservadores.

Em 2007, o papa Bento XVI, em um afago à linha tradicionalista, revogou a burocracia para a celebração do rito antigo, e ele começou a ser discretamente oferecido em paróquias de regiões mais conservadoras. Aí veio o papa Francisco, falando em dar comunhão a divorciados, respeitar os homossexuais e até — coisa que nunca se viu — permitir padres casados na Amazônia, e as hostes do tradicionalismo se inflaram com a adesão de católicos indignados com os ventos modernistas. “A Igreja não deve se adequar ao tempo. Sua missão é salvar almas. Cada vez que ela se abre a uma novidade, pessoas são condenadas ao inferno”, acredita piamente o estudante de jornalismo Darwin Schmidt, de 21 anos, que rejeita o nome de batismo, do pai da teoria da evolução, e prefere ser chamado de Domenico, em homenagem a São Domingos Sávio.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 23 DE FEVEREIRO

UM HOMEM RESTAURADO POR JESUS

Depois de terem comido, perguntou Jesus a Simão Pedro: Simão, filho de João, amas-me mais do que estes outros? (João 21.15a).

Pedro desfrutou de especial comunhão com Jesus. Em três momentos especiais (transfiguração, ressurreição da filha de Jairo e a vigília no Getsêmani), Pedro fez parte, ao lado de Tiago e João, do grupo mais íntimo de Jesus. Porém, essa estreita relação não impediu Pedro de cair vergonhosamente e negar covardemente a Jesus por três vezes. Pedro chegou a praguejar, afirmando com todas as letras que não conhecia Jesus de Nazaré. O Senhor, então, olhou para Pedro que, arrependido, desatou a chorar. Enquanto Jesus era levado na calada da noite ao Sinédrio para ser julgado, Pedro com o rosto empapuçado de lágrimas saiu correndo pelo meio dos olivais, com a alma coberta de dor. Na manhã seguinte, Jesus foi colocado diante do pretório, julgado e condenado à morte. O Filho de Deus foi levado ao Gólgota e crucificado, mas Pedro nem sequer apareceu por lá. Sentia-se arrasado. Pensou em desistir de tudo. No terceiro dia, Jesus ressuscitou e mandou um recado a Pedro: queria encontrá-lo na Galileia. Pedro retornou à sua terra com o coração apreensivo. Jesus foi ao seu encontro e, longe de humilhá-lo, perguntou-lhe: Simão, filho de João, tu me amas? Pedro responde: Sim, Senhor, tu sabes que te amo (v. 16). Pedro é perdoado, restaurado e reconduzido ao ministério. Raiava um tempo novo em sua vida. Hoje, também, Jesus pode restaurar você. Volte-se para Cristo, arrependido, e encontre nele uma fonte de cura, alegria e liberdade.

GESTÃO E CARREIRA

COLABORATIVOS E EXIGENTES

As características da nova geração de profissionais que está mudando a cultura das empresas brasileiras

Quando falamos sobre gerações no mercado de trabalho, é importante notar que as marcas geracionais brasileiras são diferentes das europeias, americanas e canadenses. A nova geração no país começa a nascer em 1986 e traz consigo características dos Y e Z: foram socializados com a internet e vivenciaram, ainda na adolescência, as redes sociais.

Esses jovens iniciaram a trajetória profissional entre 2009 e 2010 e, naquela época, encontraram empresas totalmente despreparadas para recebê-los. A reação inicial das companhias foi de hostilidade. Apenas depois de algum tempo as empregadoras entenderam que necessitavam desesperadamente desse pessoal, pois o Brasil vivia um momento de grande oferta de vagas e falta de mão de obra.

Nesse mesmo período iniciamos nossa pesquisa As Melhores Empresas para Começar a Carreira, com o objetivo de compreender a relação desses jovens com o mercado de trabalho e de mapear as políticas e práticas das organizações para atraí-los e retê-los. Já são nove anos de análise e três pontos chamam a minha atenção:

*** Nossos respondentes têm de 18 a 26 anos de idade, e ainda não percebemos uma grande mudança geracional. Isso quer dizer que esses profissionais têm visão de mundo e valores semelhantes aos daqueles que ouvimos de 2009 a 2011. Temos indícios de que os que nasceram a partir de 2005 constituirão, estes, sim, uma nova geração. Mas eles só entrarão no mercado de trabalho no início de 2020;

*** Os mais novos dão importância à cooperação ainda mais os que já se conectaram com a inteligência artificial. Esse comportamento é natural para eles, ao passo que minha geração (dos Baby-Boomers) e a Geração X têm dificuldade para isso. Nós fomos educados para competir;

*** Em pesquisas qualitativas, percebemos uma relação de amor e ódio dos X com a nova geração. Amor por perceber que os mais jovens possuem coragem para tomar atitudes que eles nunca tomaram – e ódio exatamente pela mesma razão. Esse sentimento ambíguo estimula os mais velhos a refletir sobre o equilíbrio entre vida pessoal e profissional, algo fundamental para os mais novos. Quando são perguntados sobre o que é trabalho, a maior parte desses funcionários diz que é fonte de satisfação e prazer.

Essa nova geração entrou no mercado em um momento de escassez de talentos, e as organizações foram pressionadas a se ajustar às suas exigências. Esse fato gerou, em algumas empresas analisadas por nós, mudanças culturais, revisão dos parâmetros de contratação e valorização das lideranças. Creio que no início dos anos 20 deste milênio poderemos avaliar o impacto dessa geração obstinada na transformação das organizações.

Desde já, no entanto, eu percebo esses jovens como artífices de um Brasil melhor para todos os cidadãos. Afinal, são pessoas mais predispostas à colaboração, menos tolerantes às inconsistências e à falta de coerência na gestão organizacional e mais exigentes quanto ao espaço para se posicionar nas questões que lhes dizem respeito.

JOEL DUTRA – É professor do departamento de administração da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo e especializado em gestão de pessoas

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DIFERENTES DESDE O NASCIMENTO

Desde a mais tenra idade meninos e meninas comportam-se de forma diversa. Será tudo questão de educação? De jeito nenhum, atestam as mais recentes pesquisas

O pequeno Félix, de 4 anos, quer a pazinha com que Ana, da mesma idade, está brincando. Ele puxa, sacode, dá socos, empurra até que a menina cede e começa a chorar. A professora balança a cabeça – “Esses meninos”. Cenas como essa ocorrem às centenas todos os dias nos jardins de infância, e na maior parte das vezes são os homenzinhos que usam a força. Qual a razão disso? Por que pirralhos de quatro palmos de altura já apresentam esses comportamentos característicos de um papel “masculino”?

Nos últimos 30 ou 40 anos sociólogos, pedagogos e psicólogos colocaram quase sempre a culpa na socialização, isto é, na influência dos modelos que a criança encontra em seu ambiente. Segundo opinião amplamente aceita, pais e adultos em geral inculcam nos pequenos estereótipos usuais de conduta e com isso desde o princípio dirigem seu comportamento segundo os caminhos trilhados no passado.

Assim, o dominante comportamento agressivo dos meninos seria simplesmente produto da educação – uma antecipação das futuras exigências da vida militar ou da sobrevivência no selvagem mundo dos negócios, onde são justamente os homens que dão o tom.

Outros pesquisadores, porém, passaram a questionar essa ideia. O ambiente não é tudo, e talvez nem mesmo o fator principal. “Os homens são por natureza diferentes das mulheres”, afirma a psicóloga Doris Bischof-Kõhler, livre-docente da Universidade Ludwig-Maximilian, em Munique. “Várias diferenças comportamentais tipicamente ligadas ao sexo já se manifestam desde o nascimento.”

Essa conclusão, de fato, já era conhecida desde 1967, quando uma pesquisa conduzida por V. H. Moss demonstrou que os meninos, desde o primeiro ano de vida, são mais impulsivos, mais difíceis de apaziguar e tomados pelas emoções de modo mais rápido. Aos 6 meses de idade já fica evidente que impor a própria vontade é mais relevante para eles do que para as meninas, e são eles que mais frequentemente tomam os brinquedos de outras crianças. Com 1 ano, Ana e suas amiguinhas gostam de brincar com ursinhos e bonecas, enquanto Félix e seus amiguinhos preferem carrinhos e outras máquinas – qualquer coisa que faça algum tipo de movimento. Eles também se interessam mais por coisas proibidas, têm maior tendência a desobedecer a regras e a fazer coisas arriscadas e, a partir dos 3anos, gostam de lutar.

Sempre há exceções, mas as tendências são claramente distintas. As diferenças de comportamento entre os sexos são particularmente notáveis quando se trata de lidar com situações de conflito. Enquanto os meninos desde a idade pré-escolar rápido constroem hierarquias estáveis no grupo ao qual pertencem, tentando evitar os confrontos, o mesmo não ocorre com as meninas. Eles procuram se impor primeiro pela força física, com ameaças e postura autoconfiante. Com isso se tornam, por volta dos 3 ou 4 anos, verdadeiros experts em promover a própria imagem. Elas, ao contrário, raramente recorrem à força corporal, o que não significa, claro, renúncia total à agressividade. Seus métodos, porém, desde a idade pré­escolar são mais sutis: elas empregam, por exemplo, a ameaça de romper a amizade com outras meninas.

Essas diferenças surgidas desde cedo estão também no centro das discussões sobre como alcançar a igualdade de oportunidades entre homens e mulheres. Sociedades como a nossa continuam um baluarte da dominação masculina. É preciso procurar com lupa cargos executivos ocupados por mulheres em grandes empresas. E, mais uma vez, o meio social é considerado a causa única das divergências de comportamento entre os gêneros. Assim, se moças e rapazes se comportam de modo diverso, é apenas porque foram tratados diferentemente desde o nascimento. Em consequência, as discussões sobre igualdade de oportunidades concentram-se sobretudo na questão de como impedir essa injusta influência do meio social. Nos últimos anos, contudo, pesquisadores têm questionado se o ambiente social é a única causa das especificidades de comportamento de cada sexo.

É fato que os pais tratam de forma diferente os filhos e as filhas – isso é bem conhecido e está documentado em muitos estudos científicos. Mas não se fala muito na razão essencial dessa distinção, a saber, que os pais reagem de modo diferente às solicitações feitas por seus rebentos do sexo masculino ou feminino, e isso logo após o nascimento. Os meninos, desde que abrem os olhos, demandam mais atenção, são mais exigentes e, para resumir, mais “difíceis”. As meninas, ao contrário, são em geral mais estáveis emocionalmente, mais tranquilas e procuram mais vezes o contato visual.

Em pouco tempo as crianças também desenvolvem preferências muito nítidas em relação a seus companheiros de folguedos. Com 2 anos as crianças – principalmente os meninos – preferem brincar com o progenitor do mesmo sexo. Os garotos acham mais atraentes as brincadeiras – muitas vezes pouco convencionais e surpreendentes – propostas pelo pai. A partir dessa idade, as crianças são atraídas cada vez mais pelos seus iguais (ou seja, meninos e meninas se separam), e a maioria só se relaciona com alguém do sexo oposto quando é expressamente recomendada a fazê-lo, caso não tenha escolha. Torna-se cada vez mais visível que as brincadeiras de crianças do mesmo sexo as interessam mais, e isso ocorre numa fase do desenvolvimento em que não são sequer capazes de dizer com segurança qual é seu sexo e qual é o outro.

Parece haver, portanto, um germe implantado nas crianças que as leva a buscar diferentes estímulos em seu ambiente de acordo com seu sexo. Mas isso contradiz a opinião mais popular, ainda hoje defendida por muitos pesquisadores, de que suas condutas sejam apenas fruto da aprendizagem e ­ resultado de uma longa socialização. As primeiras dúvidas sobre essa suposição surgiram exatamente de uma experiência feita em jardins-de-infância alternativos em 1968. Naquela época, alguns jovens casais decidiram romper definitivamente com os papéis sexuais tradicionais e as consequentes relações de dominação, proporcionando a seus filhos uma educação não repressiva e neutra quanto à divisão sexual. Acreditava-se então que, nessas circunstâncias, a ação de meninos e meninas logo se igualaria, ou nem mesmo chegaria a se diferenciar. Para isso os pais organizaram seus próprios jardins-de-infância, nos quais os conflitos deveriam ser resolvidos, na medida do possível, sem nenhuma agressão, priorizando a cooperação e a solidariedade. Procurava-se questionar especialmente o exercício dos papéis tradicionais de gênero e, portanto, não se permitia que bonecas fossem exclusivamente para meninas.

Os psicólogos Horst Nickel e Ulrich Schmdit-Denter, então ligados à Universidade de Düsseldorf, Alemanha, simpatizaram com a proposta de educação antiautoritária e quiseram documentar cientificamente em que medida os fins propostos teriam sido alcançados. Com esse objetivo, compararam o desenvolvimento de 400 crianças, de idades entre 3 e 5 anos, das quais uma parte frequentou jardins de infância tradicionais, e outra parte, as escolas alternativas. À primeira vista os resultados confirmaram as expectativas dos pesquisadores, os jogos e as brincadeiras nos jardins de infância alternativos mostraram-se, como se esperava, menos conflituosos. Mas a razão disso, como se verificou, era que as meninas envolvidas em conflito quase sempre davam o braço a torcer e não se defendiam.

Descobriu-se, por fim, que a diferença de comportamento entre os sexos nos jardins de infância alternativos era até mais acentuada – e correspondia melhor aos estereótipos usuais – que nas escolas tradicionais. Os meninos se revelaram mais agressivos, resolvendo frequentemente seus desentendimentos à força. As meninas, ao contrário, mostraram-se em geral retraídas e comportaram-se de forma mais angustiada e dependente que as de instituições convencionais. Só aos 5 anos de idade pareciam ter aprendido a valorizar-se.

Pesquisas subsequentes também falharam na tentativa de mostrar convincentemente que a socialização seja a causa dos comportamentos típicos de cada sexo. Segundo Doris Bischof Kõhler, “durante os primeiros anos de vida da criança, os pais não reforçam os comportamentos ligados aos papéis sexuais tanto quanto seria preciso para explicar só com isso as diferenças”. Isso vale especialmente para os casos de auto­ afirmação e agressividade, em que as diferenças de conduta vão muito além do que se poderia atribuir exclusivamente à influência de adultos.

Experiências semelhantes foram realizadas nos kibutzim israelenses durante o século XX. Um dos seus objetivos era dar a ambos os sexos tratamento equitativo, e liberar as mulheres do encargo da criação dos filhos. Assim, todas as atividades estavam igualmente abertas à participação de homens e mulheres, que inclusive se vestiam do mesmo modo, sendo malvisto o uso de roupas femininas e maquiagem. Em vez de crescerem em uma família tradicional, as crianças dos kibutzim viviam em casas com unitárias e eram cuidadas por pessoas contratadas especialmente para essa função. Com essa educação completamente unissex pretendia-se – assim como nos jardins de infância alternativos alemães – impedir o surgimento dos papéis sexuais preestabelecidos.

PREFERÊNCIAS COSTUMEIRAS

Entre 1956 e 1958, o antropólogo cultural americano Melford E. Spiro investigou mais detalhadamente os efeitos da educação em um kibutz, e surpreendeu-se ao observar que tanto meninos como meninas continuavam a desenvolver as preferências costumeiras para brinquedos “masculinos” ou “femininos”. O que lhe chamou mais a atenção foi que as meninas adoravam brincar de mamãe-e-bebê. O quadro era exatamente o mesmo que nas escolas alternativas alemãs: apesar de toda a doutrina pedagógica oficial, as crianças se comportavam segundo os estereótipos usuais de seu sexo.

Mas Spiro deu um passo a mais: 20 anos depois ele retomou suas anotações e foi visitar as crianças do kibutz, agora adultas. O que mais o interessava era saber o que havia acontecido com as meninas. Teriam elas se tornado mulheres completamente emancipadas, perseguindo os mesmos objetivos que os homens de sua geração e com a mesma tenacidade? Interessavam-se pelas mesmas carreiras e atividades profissionais que eles? Longe disso, o que o pesquisador descobriu foi uma espécie de contra revolução das mulheres criadas no kibutz, a maioria delas adotou conscientemente os papéis e as divisões de tarefas tradicionais. Em vez de insistirem na eliminação das restantes desigualdades e preconceitos, elas exigiam energicamente o direito de cuidar de seus filhos na própria casa, resistindo ao tão propagado ideal de igualdade absoluta.

Como quase todos os seus colegas, Spiro até então acreditava que os papéis sexuais fossem estabelecidos exclusivamente pelas práticas culturais, mas foi forçado a concluir que deveriam existir “fatores determinantes pré-culturais”, ou seja, fatores biológicos que determinavam intrinsecamente o comportamento feminino.

Se as distintas tendências comportamentais dos sexos não são de fato completamente definidas pela educação, mas vêm de berço, elas deveriam, segundo Doris Bischof-Kõhler, ter sentido e utilidade do ponto de vista biológico. Pois, na evolução, só têm chance de estabilizar aquelas disposições comportamentais que dão a seus portadores alguma vantagem no aspecto reprodutivo. Para a psicóloga de Munique, as diferenças sexuais de comportamento são biologicamente muito apropriadas, pois as estratégias reprodutivas de homens e mulheres são distintas.

A mãe, durante os nove meses de gravidez, investe muito mais energia, tempo e riscos em cada descendente do que o pai. Os biólogos falam, nesse caso, de um “investimento parental” essencialmente mais alto por parte das mulheres. A consequência imediata e mais importante é que as mulheres não podem ter tantos descendentes quanto os homens, ao passo que estes, ao contrário, após uma fecundação bem-sucedida, têm pelo menos em principio a possibilidade de olhar em volta e procurar de imediato outra parceira para transmitir seus genes.

Bischof-Kõhler resume assim essa diferença: “Enquanto um homem pode optar por uma estratégia reprodutiva do tipo ‘quanto mais, melhor’, para as mulheres o mais apropriado é a estratégia qualitativa. Para elas é necessário, além disso, investir tempo e dedicação também após o nascimento dos filhos, para dar-lhes o melhor ponto de partida na luta pela sobrevivência. Essa distinção nas estratégias reprodutivas reflete-se também em suas disposições comportamentais gerais, para as mulheres, uma inclinação para a solicitude e o cuidado é de primordial importância, em vista do elevado investimento parental em sua prole; para os homens, ao contrário, a atitude competitiva é particularmente adequada.

Em todas as culturas conhecidas são sobretudo as mulheres que assumem o cuidado das crianças. O que não surpreende: afinal, ao longo dos milhões de anos da história de nossa espécie, a sobrevivência dos recém-nascidos sempre dependeu exclusivamente da atenção e cuidado maternos. É difícil imaginar, portanto, que o ato de cuidar – manifesto quando Ana brinca de mamãe-e bebê, mas não nas corridas de carrinhos de Félix – tivesse de repente se tornado puro produto da educação. Numerosos estudos confirmam que a atividade de cuidado infantil traz para a maioria das mulheres uma profunda satisfação. Isso não é afetado pelo exercício de uma profissão, pois a maioria das mulheres que tem emprego planeja sua vida prevendo um período para criar os filhos.

Há naturalmente outras importantes atividades para o sustento da família que as mulheres costumavam desempenhar em todas as culturas, como a coleta de frutas e de outros suplementos alimentares e a confecção de roupas e utensílios. Hoje a técnica e a industrialização ocuparam esses clássicos domínios de atuação feminina, e com isso elas agora tentam justificadamente ingressar nas ocupações típicas “masculinas”, inevitavelmente competindo com o outro sexo. Que elas – para desgosto dos partidários da emancipação e igualdade de direitos – em geral levem a pior nessa disputa depende, mais uma vez, de tendências comportamentais inatas e, sobretudo, de particularidades das estratégias masculinas.

Essas estratégias também se desenvolveram no curso da evolução e relacionam-se ao investimento mais baixo do pai em sua prole. Se para os homens é biologicamente vantajoso espalhar ao máximo seus genes entre as mulheres, então é também essencial levar a melhor sobre seus concorrentes, já que as parceiras disponíveis para acasalamento são em número bem limitado, exatamente por causa do elevado investimento parental que delas se exige. É em meio a essa constante rivalidade que se desenvolvem, em última análise, as formas características de comportamento masculino que tanto trabalho dão hoje a sociólogos e promotores da igualdade.

Assim, o típico comportamento masculino de impor-se aos demais, manifestado claramente desde a idade pré-escolar, representa apenas o produto de uma história evolutiva em que os homens disputam incessantemente as parceiras sexuais disponíveis. Nessa competição o importante não é aniquilar um eventual rival, ele precisa apenas ser convencido a desistir do favor das fêmeas e submeter-se. Para não chegar a lutar realmente, correndo o risco de ferimentos, os homens se tornaram especialistas no cultivo da própria imagem, o que já é visível mesmo em meninos bem pequenos. Trata-se de impressionar o oponente, desencorajando-o, para que desista de suas pretensões. É a tática utilizada também por vários animais. Nos “duelos rituais” os machos procuram, durante o confronto, intimidar o rival por meio de posturas imponentes e ameaçadoras, evitando ao máximo ter de chegar a um embate para valer. Por isso muitos machos são dotados de apêndices puramente ornamentais para realçar sua aparência, como grandes jubas ou chifres.

Para quem deseja se impor por meio desses recursos, é importante acreditar ser mesmo o melhor candidato, pois a autoestima confere à postura uma forma adicional de convencimento. Com efeito, meninos e homens têm força e habilidades em mais alta conta que as mulheres – beirando muitas vezes a cega supervalorização. Numa pesquisa realizada nos Estados Unidos, durante vários anos, foi pedido a estudantes que fizessem uma previsão das notas que obteriam nos exames de final de semestre. Os meninos, ao contrário das meninas, regularmente previram notas mais altas do que as obtidas, e nenhum dos grupos aprendeu com a experiência a ser mais realista nos semestres subsequentes.

PRAZER NA COMPETIÇÃO

Para os hominídeos primitivos, porém, confiar em si mesmos não era suficiente: eles também precisavam estar muito motivados para disputar incessantemente as fêmeas. A longo prazo, só os que obtêm prazer na competição conseguem ser bem-sucedidos. E hoje isso se reflete não só na predileção dos meninos por brincadeiras de luta: vários estudos confirmam que os homens em geral sentem mais prazer em situações de competitividade valorizam mais as diferenças de status entre os membros do grupo, ao passo que as mulheres tendem a preferir a igualdade e procuram ficar longe da rivalidade.

A competição estimula a iniciativa, mas sua desvantagem é que nem toda disputa por fêmea será bem-sucedida. Aqueles com tendência a se desencorajar facilmente diante do fracasso tiveram pouca chance de chegar ao acasalamento e transmitir essa característica aos descendentes; ou seja, desistiram muito cedo. Mas os outros munidos de uma casca grossa, que continuavam tentando incansavelmente aproximar-se de uma fêmea, tiveram maior possibilidade de passar adiante seu material genético. O resultado foi o aparecimento de uma das mais marcantes características do comportamento competitivo masculino: a capacidade – verdadeiramente assombrosa do ponto de vista feminino – de resistir com obstinação ao insucesso.

Essa peculiaridade é facilmente observável em meninos que brincam tentando apoderar-se de uma bola. Eles se lançam todos ao mesmo tempo, incansável e fortemente motivados, ao objeto do desejo, embora a maioria deles não tenha de fato a menor chance de pôr as mãos nele. As meninas agem de maneira muito mais realista e só se empenham quando a ocasião lhes parece oferecer alguma chance de êxito. Quando, porém, as meninas jogam contra os meninos, essa diferença de comportamento – isto é, o seu próprio realismo – faz com que elas fiquem em desvantagem, e isso apesar de serem tão capazes de apanhar a bola quanto os meninos. Situação semelhante ocorre em relação a habilidades intelectuais, como documentou um estudo da psicóloga Carol Weisfeld, de Chicago, no início dos anos 80, sobre competições em que as crianças devem soletrar palavras. Se um grupo de meninas julgava que seus concorrentes eram mais fortes, os que se apresentavam para dar a resposta eram quase sempre os meninos. Com isso, mais uma vez, as meninas tiveram menos acertos, embora soubessem soletrar melhor.

A constante rivalidade dos machos explica também sua forte tendência a estabelecer hierarquias, pois, sem uma estrutura hierárquica desse tipo, a coesão do grupo ficaria ameaçada. Mas para isso é preciso que o indivíduo esteja naturalmente disposto a submeter-se a alguém mais forte. A hierarquia de dominação aparece entre os meninos já na idade pré-escolar, as relações de poder podem ser estabelecidas pela força, se necessário, mas prefere-se recorrer às posturas ameaçadoras e impositivas. Se alguém percebe não ter chances, subordina-se. Essas estruturas de grupo tipicamente masculinas permitem alcançar o consenso de forma relativamente rápida, e estabelecer cooperação com um antigo rival.

As mulheres, por sua vez, não se submetem de bom grado umas às outras e, por isso, muitas vezes até preferem um chefe homem, como revelaram várias sondagens. As chefes, segundo as entrevistadas, seriam “parciais” e “injustas”, ao passo que as mulheres em cargo de chefia reclamaram da falta de motivação e das exigências desmedidas de suas colaboradoras. Mulheres em grupos exclusivamente femininos têm, portanto, dificuldade em obedecer a uma hierarquia bem definida. Isso não ocorre porque uma chefe tenha menos autoridade pelo fato de ser mulher. Surpreendentemente, os homens aceitam com maior facilidade uma superior do sexo feminino. O que remete mais uma vez à inata disposição masculina de adaptar-se a uma ordem hierárquica estabelecida, que continua valendo também quando o superior é uma mulher.

No grupo feminino, ao contrário, predomina uma “hierarquia de prestígio”. Como as posições elevadas decorrem do reconhecimento pessoal, as mulheres do grupo esforçam-se para conquistar a admiração e a estima das demais. Mas isso torna a hierarquia do grupo instável e permanentemente vulnerável a novos conflitos, pois o reconhecimento não pode ser conquistado de forma definitiva, exigindo esforço contínuo para ser mantido. Isso significa também que a hierarquia do grupo não confere nenhum privilégio, por isso a mulher em posição de comando procura primeiramente, nos casos de conflito, convencer suas subordinadas da correção de seu ponto de vista, em geral por meio de longas discussões – o que não deixa de ser um procedimento mais agradável e civilizado do que aqueles característicos das hierarquias de dominação, muitas vezes sintetizados na fórmula “ordens não se discutem”. Essa última estratégia tem, sem dúvida, suas vantagens quando

é necessário chegar a decisões rápidas em situações de crise, por exemplo. Ao contrário, numa hierarquia feminina, as rodadas de discussões podem estender-se indefinidamente, sem que se chegue a um consenso. Nesses casos não resta à chefe outra alternativa senão emitir uma ordem explícita para descontentamento de suas colaboradoras.

Para Bischof-Kõhler,”uma diferença essencial entre os sexos consiste em que ambos, na verdade, empregam a hierarquia de prestígio, mas só os homens dispõem de uma segunda estrutura efetiva de poder, a hierarquia de dominação, à qual podem recorrer quando necessário”. É claro que essas duas formas de ordenação hierárquica têm vantagens e desvantagens, e a pesquisadora não pretende tecer um juízo de valor. A base da democracia está, sem dúvida, na hierarquia de prestígio, poisos políticos são eleitos em virtude de sua reputação. E quando chegam ao poder podem exercer ilimitadamente esse direito, mas só até a próxima eleição. Os problemas aparecem sobretudo quando homens e mulheres entram em competição direta. Nesse momento os dois sistemas – dominação e prestígio – não têm como se conciliar com os diferentes padrões de comportamento, e a herança filial genética dos homens coloca facilmente a mulher em posição desvantajosa. Quando se diz, portanto, que os homens “passam por cima” das mulheres, isso não tem a ver exclusivamente com o estilo de disputa mais duro dos homens ou sua maior competitividade. Para desestimular as mulheres e levá-las à desistência basta muitas vezes a simples confrontação com a autoestima mais elevada, resistência à derrota e descarada autopromoção dos homens.

Para ilustrar do quanto é capaz a mera resistência ao fracasso, Bischoí-Kõhler apresenta um experimento hipotético. Suponha que cinco homens e cinco mulheres – todos com capacidade equivalente – estejam concorrendo a um cargo executivo. Após uma mulher ter sido escolhida, uma das candidatas preteridas sente-se tão desestimulada que abandona definitivamente os planos relativos à sua carreira profissional. Os homens não se deixam abater tão facilmente. Na seleção seguinte um homem é escolhido, e mais uma vez uma mulher desiste para sempre, de tal modo que restam agora apenas duas mulheres na competição, contra quatro homens. Isso já permite concluir que mais homens que mulheres ocuparão os futuros cargos em disputa, e isso sem que os homens tenham jamais adotado um comportamento abertamente agressivo em relação às suas concorrentes.

É claro que esse é um exemplo fictício, e que muitos homens também desistem no decorrer das maratonas da concorrência. Mas não se tem dado a devida atenção ao importante papel que a menor resistência feminina ao fracasso desempenha no fato de que estejam sub-representadas nas posições profissionais de maior prestígio. Haveria, então, obstáculos biológicos intransponíveis no caminho da igualdade de oportunidades? Podemos aposentar todos os funcionários das agências promotoras de igualdade? Ou será afinal possível corrigir nossa herança filogenética por meio da educação?

O comportamento humano não é determinado de maneira inflexível pela natureza – muito podemos aprender. Mas nossa disposição natural tem um peso que os pesquisadores nas últimas décadas não consideraram com o necessário cuidado, como agora se percebe. Certos comportamentos são mais fáceis para os homens que outros, e certos objetivos dão às mulheres satisfação maior que outros. Seria em princípio possível agirmos contra essas inclinações naturais, mas nesse caso será necessário um grande esforço e dispêndio de energia. E, ao final, poderíamos não nos sentir tão contentes quanto o esperado, pois nosso mecanismo de gratificação interna não corresponde tão bem à situação criada.

Uma coisa, no entanto, está clara, o tão propalado tratamento igualitário como remédio para a discriminação contra as mulheres só funcionaria se meninos e meninas não fossem essencialmente diferentes. Na realidade eles são por natureza tão distintos que o tratamento igualitário se torna contraproducente. Como o exemplo das escolas alternativas alemãs demonstrou, a única coisa que se consegue é um acirramento das disposições características dos sexos.

Pelo mesmo motivo as classes mistas – isto é, a educação em conjunto de meninos e meninas – tampouco conduzem a uma equiparação dos interesses e das oportunidades. Ao contrário, vários estudos mostram que os estudantes em classes mistas adotam com maior vigor as preferências comumente ligadas ao seu sexo. Em comparação com as classes formadas por estudantes de mesmo sexo, é mais frequente os meninos escolherem as especialidades ligadas à matemática e às ciências da Natureza, e as meninas inclinam-se mais pelas áreas da linguagem e das artes. Por outro lado, nas escolas e universidades que mantêm classes separadas, as mulheres desenvolvem maior confiança em suas próprias capacidades, incluindo-se o desempenho no setor das ciências naturais, e depois aspiram a posições de direção com maior frequência que aquelas diplomadas em escolas mistas.

As mulheres devem se impor com maior firmeza na competição com os homens, e os homens devem empenhar-se mais no cuidado das crianças – essas exigências estão hoje muito difundidas e se tornaram quase lugar comum. Mas para que os indivíduos tenham sucesso nessas empreitadas eles devem estar bem conscientes de que impedimentos internos a essas atividades podem estar fundados em nosso substrato biológico, embora não de maneira alguma inflexível. Afinal, diz Bischof-Kõhler,’ aquilo que mais nos distingue como seres humanos é sermos capazes de superar nossas tendências e instintos naturais, e até mesmo extrair disso, em certas circunstâncias, grande satisfação”. Mas para tanto é preciso que homens e mulheres desenvolvam conscientemente aqueles aspectos negligenciados pela Mãe Natureza: no caso dos homens, principalmente o cuidado diário das crianças, e, quanto às mulheres, a resistência ao insucesso e a autoconfiança.        

OUTROS OLHARES

A CULTURA EM XEQUE

Como as atuais mudanças nas políticas artísticas do país estão mexendo com a vida dos profissionais que trabalham nesse setor

Nos últimos sete anos, Daniela Mazzilli, de 33 anos, trabalhou com formatação de projetos culturais para editais e leis de incentivo. Nesse período, ela ajudou a aprovar e levantar recursos para mais de 30 produções artísticas. A carreira como produtora cultural ia de vento em popa.

Até o início deste ano, quando dois e-mails mudaram os ventos. O primeiro chegou em janeiro, anunciando que o contrato para desenvolver uma série, iniciado ainda em 2018 havia sido cancelado. O segundo veio três meses depois e informava o cancelamento, por tempo indeterminado, de um importante edital de cinema. “Passamos meses preenchendo formulários e reunindo documentos. Dez dias antes de o processo ser encerrado, o governo anunciou a suspensão”, diz. “A sorte é que trabalhamos com quatro projetos ao mesmo tempo, em diferentes estágios, para haver equilíbrio no cronograma”, diz a gaúcha.

As interrupções abruptas, que pegaram Daniela de surpresa, são consequência da atual crise na Agência Nacional de Cinema (Ancine) – que regulamenta o setor audiovisual no país – e dão o tom do que acontece na área cultural neste momento. Em março, o Tribunal de Contas da União (TCU) questionou a metodologia da prestação de contas da Ancine e ameaçou congelar os recursos do Fundo Setorial do Audiovisual. Em resposta, o atual diretor-presidente, Christian de Castro, suspendeu tudo que estava em andamento, alegando “segurança jurídica”. Ao saber das paralisações de todos os projetos e editais, o TCU convocou o diretor e oito assessores da agência fomentadora para se explicarem. No final de maio, quando esta reportagem foi concluída, o imbróglio seguia, apesar de a Ancine ter anunciado que voltaria a operar normalmente.

Exagero ou não, a confusão tem levado alguns profissionais a comparar o cenário atual ao do governo Collor. Em 1990, no início de seu mandato, o então presidente extinguiu a Embrafilme e o Concine, dois órgãos importantes, causando um apagão no cinema nacional

Daniela e a companheira, Letícia Vieira, sua sócia na produtora Primeira Fila, que fica em Porto Alegre (RS), já estão se preparando para o pior. Como o pró-labore dos próximos meses deve ser menor, elas já reavaliam o orçamento pessoal, revendo custos fixos da casa, por exemplo. “Nossa sensação é que haverá uma onda de cortes. Temos planos até o final deste ano, depois disso não sei se iremos para outras áreas dentro do setor ou se venderemos sanduíche”, diz.

Assim como ela, muitos profissionais que trabalham com arte amargam com a incerteza. Segundo levantamento mais recente da organização sem fins lucrativos que promove o desenvolvimento da indústria do estado do Rio de Janeiro havia 64.863 pessoas empregadas diretamente pela cultura em 2017. Mas o número, de acordo com especialistas, é maior. Isso porque as produções culturais, em geral, são empregos sazonais. “Há uma carência de métricas para esse setor no Brasil. Infelizmente, existem poucos estudos e números que nos ajudem a argumentar a favor”, afirma Ana Paula Souza, doutora em sociologia da cultura pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Áreas como cinema, teatro, dança e artes plásticas começaram a acumular perdas maiores desde janeiro deste ano, quando o presidente Jair Bolsonaro (PSL) extinguiu o Ministério da Cultura e, no lugar, criou o da Cidadania, que concentra Cultura, Esporte e Desenvolvimento Social.

Para Miguel Jost, pesquisador de políticas públicas para a cultura na PUC-Rio, a manobra reduziu a importância da pauta na agenda nacional. Hoje, segundo ele, há uma paralisia nas estruturas responsáveis por fomentar a arte no país. Numa pasta tão ampla, é evidente que a cultura passou a ter menor relevância. Não há informações claras sobre quais são os planos do governo para o segmento. “E isso gera insegurança em toda cadeia produtiva, que envolve desde a costureira que produz os figurinos até os serviços de catering para alimentação de artistas e funcionários

Por duas semanas, procuramos insistentemente tanto o Ministério da Cidadania quanto a Secretaria Especial de Cultura. O intuito era saber quais são os objetivos da pasta para o mercado cultural em 2019. Ao todo, enviamos 20 e-mails e fizemos dezenas de ligações e o secretário especial da Cultura Henrique Medeiros Pires, chegou a agendar uma entrevista, mas depois a cancelou sem justificativa clara. Questionada, a pasta informou que o único autorizado a falar sobre as atividades do setor cultural é o ministro da Cidadania, Osmar Terra. Ele, no entanto, declinou o pedido de entrevista e informou, via assessoria, que falaria numa próxima oportunidade”.

LEI ROUANET NA BERLINDA

O principal movimento de Osmar Terra, até agora, foi reestruturar a Lei de Incentivo à Cultura, conhecida como Lei Rouanet. Criada em 1991, ela permite que empresas direcionem até 4% do imposto devido (6% para pessoas físicas) a projetos culturais. No final de abril, o governo anunciou que reduziria o teto de captação da lei. Se antes artistas e produtores conseguiam levantar até 60 milhões de reais para realizar shows, musicais e exposições, agora o limite é de 1 milhão. O valor que as empresas podem abater também encolheu: de 40 milhões para 10 milhões de reais.

Mexer na mola mestra da indústria cultural brasileira abalou as estruturas do segmento. Sozinha, a Lei Rouanet faz o setor movimentar cerca de 1 bilhão de reais em captação por ano. Um estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV) mostrou que, a cada 1 real investido por meio do mecanismo, pelo menos 1,59 retorna à sociedade em forma de empregos, contratações de serviços e impostos.

As novas medidas furam justificadas em um vídeo publicado pelo ministro Osmar Terra no Twitter em 22 de abril. “Os brasileiros estão cansados de ouvir falar nos abusos da Lei Rouanet. Vamos enfrentar concentração de recursos públicos, disse ele. E concluiu: “Com menos dinheiro, mas melhor distribuídos, teremos muito mais atividades culturais e artistas apoiados”.

A concentração dos recursos em grandes produtores do eixo Rio-São Paulo é, de fato, um problema apontado há anos por estudiosos do sistema. “A Lei de Incentivo à Cultura é um instrumento liberal de mercado. Logo, reproduz a estrutura financeira do país. Quem patrocina musical tem interesse em dialogar com esse tipo de público e não migrará de atividade”, diz Ana Paula, da Unicamp. Na visão dela, o teto de 1 milhão de reais não vai resolver essa assimetria. Se o governo quer apoiar produtores de outras regiões, tem de criar políticas que incentivem a descentralização dos recursos. Caso contrário, o dinheiro continuará nas mãos de poucos.

É por isso que, a princípio, acredita-se que a redução do valor de patrocínio não terá efeito prático para a maior parte dos artistas independentes. Pesquisadores da FGV analisaram todos os projetos financiados pela Lei Rouanet desde 1993 e concluíram que nem 19 deles teve aporte acima de 80.000 reais. Cerca de 90% das iniciativas captaram de 1.000 reais a 10.0000 reais, sendo que a maioria esmagadora dos proponentes não arrecadou nem 1 real. Em 2017, dos 54.000 projetos aprovados pelo extinto Minc, apenas 2.800 alavancaram recursos.

Quem concentra a atenção das companhias, no fundo, são os grandes espetáculos, como os musicais. É esse tipo de atividade que deve ser afetado pelo teto de 1 milhão de reais.

A questão é que esses eventos têm equipes consideráveis e movimentam toda uma gama de profissionais, de figurinistas a maquiadores, passando por músicos e técnicos de som e luz. “Só na cidade de São Paulo, no ano passado, o setor teatral gerou 80.000 empregos diretos. Os impactos são significativos”, diz Gabriel Paiva, presidente da Associação de Produtores Teatrais Independentes (APTl).

O ator, diretor e produtor Bruce Gomlevsky, de 44 anos, já sente a retração dos investimentos na área. Neste semestre, ele teve duas temporadas de peças canceladas: Memórias do Esquecimento, monólogo que dirigia e interpretava, e Um Tartufo, peça também dirigida por ele e inspirada no clássico de Moliere. Os espetáculos, que tratam, respectivamente, da ditadura militar e de conflitos religiosos, seriam sediados por um teatro público da capital carioca, mas o espaço cancelou-os de modo repentino.

Em 2018, Bruce já havia tirado 100.000 reais do próprio bolso para custear as mesmas apresentações. Com 25 anos de experiência nos palcos, diz que só os apaixonados conseguem enfrentar tantos altos e baixos. “Não tenho imóvel próprio e sustento dois filhos. Já me endividei, já paguei os débitos, já juntei e já perdi dinheiro. A vida do artista no Brasil é uma montanha-russa de emoções”. Ele afirma que só consegue pagar as contas porque se desdobra em diversas frentes. “Sou ator, diretor, produtor, compositor, captador de recursos, professor de teatro e tradutor”. Nos últimos quatro anos, Bruce atuou em quatro novelas e duas séries da TV Globo, emissora onde segue contratado para a série de terror Desalma, protagonizada por Claudia Abreu e cuja estreia está prevista para o segundo semestre.

EFEITO CASCATA

Além das mudanças na Lei Rouanet, há outros fatores inquietando os profissionais da cultura, como possibilidade de corte nos repasses ao grupo composto de Sesc, Sesi Senai entre outros.

Pouco antes de assumir o Ministério da Economia, em dezembro, Paulo Guedes disse que era preciso “meter a faca nos sistemas”. Em maio, Jair Bolsonaro deu o primeiro passo rumo à promessa e assinou um decreto que obriga essas entidades a detalhar gastos com salários e serviços prestados à sociedade. Além disso, grandes empresas públicas anunciram contenção em seus programas de marketing cultural. A Petrobras, por exemplo, cancelou o patrocínio de festivais. Outras estatais também reduziram seus investimentos. No final de maio, a Caixa Econômica Federal informou que não manteria o custeio da versão itinerante do Festival de Cinema de Vitória, o tradicional cinema na Praia. A instituição também encerrou a parceria com o consagrado cinema de rua Caixa Belas Arte na capital paulista. O espaço, que possui seis salas, só continuará com as portas abertas porque conseguiu patrocínio da iniciativa privada – cervejaria Petra, do Grupo Petrópolis, fechou contrato de cinco anos para manter o local.

Alegando a necessidade de “rever políticas internas”, os Correios, que já tinham derrubado pela metade o valor dos investimentos em cultura entre 2017 e 2018, não fizeram nenhum aporte na área em 2019. Para piorar, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) pisou no freio. De janeiro a maio, o órgão aportou 25,8 milhões de reais no segmento – valor bem mais baixo que o dos últimos anos. Como comparação, no ano de 2018 o BNDES destinou 858 milhões para atividades artísticas.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 22 DE FEVEREIRO

JOVENS SEM NENHUM DEFEITO

Jovens sem nenhum defeito, de boa aparência, instruídos em toda a sabedoria… (Daniel 1.4a).

Daniel e seus três amigos foram levados cativos para a Babilônia depois de uma invasão truculenta à cidade de Jerusalém. Esses jovens hebreus perderam suas famílias, seus bens e sua independência política. Tornaram-se escravos em terra estranha. Porém, no meio de tanta tragédia, uma oportunidade descortinou-se diante deles. Entre os cativos, Nabucodonosor buscou jovens sem nenhum defeito e selecionou-os para irem ao palácio aprender a língua e a cultura dos caldeus, garantindo-lhes depois emprego no primeiro escalão do governo. Esses jovens comeriam na mesa do rei e beberiam do seu vinho. Mas por trás dessa oportunidade escondia-se uma armadilha mortal. Esses moços precisariam passar por uma aculturação e teriam de banir de sua mente a fé em Deus. Daniel resolveu firmemente no seu coração não se contaminar. Ele não negociou seus valores. Não transigiu com sua consciência. Manteve-se fiel tanto na adversidade quanto na prosperidade. Deus o honrou e tanto ele como seus amigos foram aprovados e distinguidos entre os demais jovens. Você tem sido fiel a Deus na adversidade e na prosperidade? Tem influenciado o meio em que vive? Tem resistido às pressões e seduções? Tem-se mantido fiel mesmo diante dos riscos e das oportunidades? Lembre-se: Deus honra aqueles que o honram!

GESTÃO E CARREIRA

O ALTO PREÇO DA OMISSÃO

Estima-se que 1 trilhão de dólares sejam perdidos em produtividade todos os anos em decorrência da ansiedade e da depressão no trabalho

A depressão e o transtorno de ansiedade fazem parte de uma espécie de epidemia global e afetam fortemente as economias. Estima-se que 1 trilhão de dólares sejam perdidos em produtividade todos os anos em decorrência de ambas as doenças. No Brasil, a Organização Mundial da Saúde calculou que 6% da população sofre com depressão, enquanto 9% têm algum transtorno de ansiedade. Os números correspondem ao triplo da média global.

Mesmo assim, poucas empresas brasileiras criaram medidas para amenizar a ocorrência desses problemas. Um estudo da consultoria americana Mercer Marsh, realizado em 11 países da América Latina, aponta que apenas 21% das companhias brasileiras mantêm políticas ou programas para cuidar da saúde mental dos funcionários. Na região, três países ultrapassam esse percentual: Colômbia (45%), Porto Rico (35%) e México (22%).

A maioria das empresas ainda se concentra em fazer apenas o básico para a identificação dos problemas: o foco está nas avaliações psicológicas obrigatórias por lei e nas realizadas nos processos de seleção de pessoal. Medidas preventivas, como pareceres periódicos (5%), continuam sendo raras.

“De cada dez atestados médicos de afastamento, cinco são relacionados a doenças psicoemocionais. Mesmo assim, as empresas que cuidam da saúde mental dos funcionários são minoria”, diz Antonietta Medeiros, superintendente de gestão de saúde da Mercer Marsh Benefícios.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

MEMÓRIAS ESTRESSADAS

Um pouco de agitação pode até fortalecer a memória. Mas, depois de uma situação prolongada de stress, o cenário mental já não é tão satisfatório

O primeiro beijo. O casamento. O dia em que o carro saiu do controle na estrada e passou raspando pelo caminhão. Onde você estava quando houve uma inundação, quando Kennedy foi assassinado, durante o ataque de 11 de setembro de 2001. Cada detalhe desses eventos marcantes é gravado a fogo na sua mente, ainda que você não consiga se lembrar de absolutamente nada do que aconteceu nas últimas 24 horas. Ocasiões excitantes, emocionantes e grandiosas, inclusive as estressantes são arquivadas facilmente. O stress pode melhorar a memória.

Todos nós também já passamos pela experiência oposta quando estamos estressados. Na primeira vez em que encontrei a família da minha futura esposa, estava com um nervosismo dos diabos; durante um jogo de palavras terrivelmente disputado depois do jantar, pus a perder a liderança da equipe composta por mim mesmo e por minha futura sogra com a total incapacidade, num momento crítico, de lembrar a palavra “caçarola”. Alguns casos de falha da memória estão ligados a traumas infinitamente maiores: o veterano que passou por alguma catástrofe de batalha impronunciável, alguém que sofreu abuso sexual na infância – para quem os detalhes se perdem numa névoa amnésica. O stress pode atrapalhar a memória.

Para pesquisadores que estudam o fenômeno como eu, essa dicotomia é bastante familiar. O stress melhora algumas funções em certas circunstâncias e as atrapalha em outras. Pesquisas recentes mostram como situações estressantes leves ou moderadas melhoram a cognição e a memória, enquanto as fortes ou prolongadas prejudicam essas capacidades.

Para entender como o stress afeta a memória, vamos a alguns dados básicos sobre como as memórias são formadas (consolidadas), como são recordadas e como podem desaparecer.

A memória não é monolítica, pode ter vários “sabores”. Uma dicotomia particularmente importante é a entre memórias de curto e longo prazo. Com a primeira, você lê um número de telefone, corre pela sala antes de esquecê-lo e martela os dígitos. Depois o número se perde para sempre. Já a memória de longo prazo é a que você usa para se lembrar do que comeu no jantar de ontem, quantos netos tem ou onde fez a faculdade.

Outra distinção importante é entre memória explícita (também conhecida como declarativa) e implícita (que inclui um subtipo importante, a chamada memória processual), memória explícita se refere a fatos e eventos, ao lado de sua percepção consciente de sabê-los: sou um mamífero, hoje é segunda-feira, meu dentista tem sobrancelhas grossas.

Já as memórias implícitas processuais têm a ver com habilidades e hábitos, com fazer coisas mesmo sem ter de pensar conscientemente nelas: mudar as marchas do carro, andar de bicicleta, dançar foxtrote. Com prática suficiente, essas memórias podem ser transferidas entre as formas explícita e implícita de armazenamento.

Assim como existem diferentes tipos de memória, áreas distintas do cérebro estão envolvidas no armazenamento e na recuperação de informações. Um dos lugares críticos é o córtex, a enorme superfície cheia de circunvoluções do cérebro. Outro é a região espremida logo abaixo de parte do córtex, o hipocampo. Se quiser uma metáfora computacional totalmente simplista, pense no córtex como seu disco rígido, onde as memórias são guardadas, e no hipocampo como seu teclado, o meio que você usa para distribuir e acessar as memórias. Finalmente, estruturas do cérebro que regulam os movimentos do corpo, como o cerebelo, também estão envolvidas na memória implícita processual.

Agora, vamos aumentar a ampliação do nosso microscópio e examinar o que acontece no nível dos conjuntos de neurônios dentro do córtex e do hipocampo. O que sabemos é armazenado nos padrões de excitação de vastos conjuntos de neurônios – no jargão da moda, “redes” neuronais. Tiramos partido dessas redes convergentes sempre que tentamos recordar uma memória que está na ponta da língua. Imagine que você esteja tentando lembrar o nome de um pintor, aquele cara, qual é o nome dele? “Era aquele cara baixinho com barba (ativando suas redes ‘cara baixinho’ e ‘cara com barba’). Ele pintou aquele monte de dançarinas parisienses; não era o Degas (mais duas redes entram no jogo). Ah, lembra daquela vezem que eu estava no museu e tinha aquela gata que eu estava tentando paquerar na frente de um dos quadros dele… como era mesmo aquele trocadilho tonto sobre o nome do cara, aquele do nó no treco?”. Com redes eficientes funcionando, você finalmente chega ao único fato que é a intersecção de todas elas, Toulouse-Lautrec.

SINAPSES COMPLEXAS

Hoje, os neurocientistas consideram que tanto a aquisição quanto o armazenamento das memórias envolve o “fortalecimento” de algumas redes em detrimento de outras. Para observar como isso ocorre, vamos aumentar ainda mais a ampliação, para visualizar os espaços minúsculos entre os ramos tortuosos dos neurônios, as chamadas sinapses. Quando um neurônio quer transmitir alguma fofoca sensacional, quando uma onda de excitação elétrica atravessa essa célula nervosa, desencadeia-se a liberação de mensageiros químicos – neurotransmissores -, que flutuam através da sinapse e excitam o neurônio seguinte. Existem dezenas, provavelmente centenas de tipos de neurotransmissor e as sinapses do hipocampo e do córtex fazem uso desproporcional do que provavelmente é o neurotransmissor mais excitatório, o glutamato.

As sinapses “glutamérgicas” têm duas propriedades essenciais para a memória. Primeiro, sua função é não-linear. Numa sinapse comum, um pouco de neurotransmissor do primeiro neurônio faz com que o segundo fique um pouco excitado, se um pouquinho mais de neurotransmissor ficar disponível, um pouquinho mais de excitação ocorre, e assim por diante. Nas sinapses glutamérgicas, certa quantidade de glutamato é liberada, e nada acontece. Uma quantidade maior é liberada, e ainda assim nada acontece. Mas, quando determinado limiar é ultrapassado, abrem-se as comportas do segundo neurônio, e o que se segue é uma onda maciça de excitação. É essa onda que se torna essencial para o aprendizado.

A segunda característica é ainda mais importante. Nas condições adequadas, quando uma sinapse tem uma quantidade suficiente de experiências superexcitatórias causadas pelo glutamato, ela se torna mais excitável permanentemente.  Essa sinapse acabou de aprender algo, ou seja, foi “potencializada” ou fortalecida. Daí em diante, basta um sinal mais sutil para recordar uma memória. Agora, podemos ver o que acontece quando o sistema reage ao stress.

O primeiro ponto, claro, é que o stress leve ou moderado melhora a memória. Trata-se do tipo de stress ótimo que nós chamaríamos de “estimulação” – ajuda a nos sentirmos alertas e focados. Larry Cahill e James McCaugh, da Universidade da Califórnia em Irvine, fizeram um teste particularmente elegante nessa seara. Pessoas que ouviam uma história com uma passagem particularmente emocionante se lembravam mais dos componentes emocionais da trama do que as que ouviam uma história uniformemente desinteressante. O estudo também indicou como esse efeito atua sobre a memória. O sistema nervoso simpático entra em ação, despejando epinefrina e norepinefrina na corrente sanguínea. A estimulação simpática parece ser essencial, porque quando Cahill e McCaugh deram aos pacientes uma droga que detém a ativação do sistema (o bloqueador beta propanolol, medicamento usado para baixar a pressão), o grupo não se lembrou mais da história mais animada do que o grupo controle se lembrava da sua. Não é que o propanolol impeça a formação de memórias. Na verdade, a droga atrapalha a formação de memórias auxiliada pelo stress. Em outras palavras, as pessoas se lembravam das partes chatas da história tão bem quando os controles, mas não obtinham o aumento da memória proporcionado pela parte emocionante.

O sistema nervoso simpático leva o hipocampo indiretamente a um estado mais alerta e ativo, o qual, por sua vez, facilita a consolidação das memórias. Isso envolve uma área do cérebro que também é essencial para entender a ansiedade, a amígdala. O sistema nervoso simpático também faz com que as necessidades energéticas de potencialização dos neurônios sejam satisfeitas mobilizando glicose na corrente sanguínea e aumentado a força com que o sangue é bombeado para o cérebro. Um grupo importante de hormônios liberados em resposta ao stress é o dos glicocorticoides. Secretados pela glândula adrenal, eles muitas vezes agem como sua prima mais famosa, a epinefrina (também conhecida como adrenalina). Ela age em segundos; os glicocorticoides apoiam essa atividade ao longo de minutos ou horas.

De fato, uma elevação leve dos níveis de glicocorticoides facilita o processo pelo qual as sinapses do córtex e do hipocampo se tornam mais sensíveis aos sinais do glutamato, a potencialização de longo prazo que é a base do aprendizado.

Uma elevação desse nível também facilita a potencialização de longo prazo no hipocampo. Finalmente, há alguns mecanismos obscuros pelos quais o stress moderado, de curto prazo, torna os receptores sensoriais mais sensíveis. Papilas gustativas, receptores olfativos e células nucleares do ouvido exigem menos estimulação, sob stress moderado, para ficar excitados e transmitir informação para o cérebro.

Agora, podemos ver como a formação e a recuperação de memórias podem ficar desajustadas quando os fatores de stress são grandes ou prolongados. Vários estudos com ratos de laboratório – usando diferentes fontes de stress, como restrição, choque e exposição ao odor de um gato – mostraram declínio na memória explícita. Um déficit parecido surge quando doses elevadas de glicocorticoides são administradas a ratos. Outros aspectos da função cerebral, como a memória implícita continuam bem.

EFEITOS DO STRESS

O quadro é bastante parecido em humanos. Problemas com a memória explícita aparecem em pacientes que sofrem de uma doença chamada de síndrome de Cushing, na qual rumores geram a secreção de toneladas de glicocorticoides. O tratamento prolongado com a versão sintética dessas moléculas, que muitas vezes é dada a pessoas que precisam controlar doenças inflamatórias ou autoimunes, resulta também em problemas com a memória explícita. A evidência mais clara disso é que apenas alguns dias de doses altas de glicocorticoides sintéticos bastam para afetar a memória explícita em voluntários sadios.

Como o stress prolongado atrapalha a memória dependente do hipocampo? Uma hierarquia de efeitos foi demonstrada em animais de laboratório.

Primeiro, os neurônios do hipocampo expostos a níveis altos de glicocorticoides não funcionam mais tão bem. O stress pode afetar a potenciação de longo prazo nessa região cerebral, mesmo na ausência de glicocorticoides (como num rato em que as glândulas adrenais tinham sido removidas). A excitação excessiva do sistema nervoso simpático parece responsável por esse efeito.

Em meados dos anos 80, Ron de Kloet, da Universidade de Utrecht, Holanda, descobriu os mecanismos por trás dos problemas causados pelos níveis elevados de glicocorticoides. O hipocampo tem grandes quantidades de dois tipos de receptores para essas substâncias. O interessante é que o hormônio se liga com dez vezes mais facilidade a um desses tipos (o chamado “receptor de grande afinidade”) do que ao outro. Se os níveis de glicocorticoide subirem só um pouco, a maior parte do efeito hormonal sobre o hipocampo é mediada por esse receptor de grande afinidade. Entretanto, o hormônio liberado durante um evento muito estressante ativa muitos receptores de baixa afinidade. E, logicamente, o que acontece é que a ativação do receptor de grande afinidade melhora a potencialização de longo prazo, enquanto o outro receptor faz o oposto.

Na segunda posição da hierarquia de efeitos, durante eventos muito estressantes a amígdala envia uma projeção neural grande e influente para o hipocampo. A ativação dessa cascata celular parece ser um pré-requisito para que o stress atrapalhe as funções do hipocampo. Basta destruir a amígdala de um rato ou cortar suas conexões com o hipocampo para que o stress não dificulte mais o tipo de memória que o hipocampo media, mesmo em níveis altos de glicocorticoide.

As redes neurais no hipocampo também começam a se desconectar. Bruce S. McEwen, da Universidade Rockefeller, mostrou que, em ratos, depois de poucas semanas de stress ou exposição a glicocorticoides excessivos, os cabos de comunicação celulares conhecidos como dendritos começam a afinar, atrofiar e se retrair. Por sorte, parece que, no fim desse período, os neurônios conseguem recuperar essas conexões. As memórias não são perdidas, só se tornam mais difíceis de acessar.

O stress prolongado inibe o nascimento de novos neurônios no hipocampo, um dos dois únicos locais onde, segundo descobertas recentes, essas células ainda nascem no organismo adulto. Quando o stress cessa, a neurogênese se recupera e, se sim, com que rapidez? Ninguém sabe. E qual a importância de o stress impedir a neurogênese adulta? A questão implícita nessa pergunta é a utilidade da neurogênese adulta. Ainda não há um veredicto sobre isso também.

Se os neurônios do hipocampo sofrem um trauma (como um derrame ou ataque), o stress pode torna-los mais suscetíveis à morte. Depois de cerca de 30 minutos de stress contínuo, a chegada de glicose ao local não é mais aumentada e volta aos níveis normais. Se o fator estressante se mantiver, a chegada de glicose ao cérebro é inibida. Meu laboratório e outros mostraram que os problemas de energia relativamente leves causados por essa inibição fazem com que se torne mais difícil para um neurônio deter as milhares de coisas que dão errado durante os traumas neurológicos.

Finalmente, alguns estudos parecem sugerir que os glicocorticoides e o stress podem até matar neurônios diretamente, embora os resultados sejam preliminares e controversos.

Esses achados têm implicações perturbadoras. Cerca de 16 milhões de receitas médicas de glicocorticoides são prescritas por ano nos EUA. Boa parte do uso é benigno – um pouco de pomada de hidrocortisona para alergia, uma injeção da mesma substância para um joelho inchado, inalação de esteroides para asma. Mas centenas de milhares de pessoas tomam doses altas de glicocorticoides para suprimir o sistema imunológico em doenças autoimunes (como Aids, lúpus, esclerose múltipla ou artrite reumatoide). Então, será que deveríamos evitar o uso de glicocorticoides contra essas doenças para contornar a possibilidade de envelhecimento acelerado do hipocampo mais tarde? É quase certo que não: essas doenças muitas vezes são devastadoras, e os glicocorticoides conseguem trata-las com eficiência. E provavelmente os problemas de memória sejam um efeito colateral sombrio e inevitável.

DESPERDICIO DE ENERGIA

Os neurologistas também usam versões sintéticas dos glicocorticoides (hidrocortisona, dexametasona ou prednisona) para reduzir o inchaço do cérebro depois de um derrame. Essas substâncias fazem maravilhas ao bloquear o edema que surge depois de um tumor cerebral, mas parece que elas não ajudam muito os edemas pós-derrame. Pior ainda, há evidências crescentes de que esses famosos anti-inflamatórios podem, na verdade, ser pró-inflamatórios em certas lesões cerebrais. Uma implicação ainda mais perturbadora desses achados é que o que consideramos níveis comuns de dano cerebral depois de um derrame ou uma convulsão são, na verdade, piorados pela liberação natural de glicocorticoides, como parte das respostas do corpo ao stress nessas situações.

Veja como tudo isso é bizarro e pouco adaptativo. Um leão persegue você, e seu corpo secreta glicocorticoides, cujo efeito primário sobre o metabolismo geral é transferir energia para seus músculos da coxa e melhorar a corrida: bela tática. Marque um encontro com uma desconhecida, fique nervoso, e você secretará glicocorticoides que transferem energia, provavelmente ierrelevante, para seus músculos da coxa. Tenha um derrame sério, faça a mesma coisa – e seu dano cerebral se agravará ainda mais.

Como essas respostas pouco adaptativas surgiram? A explicação mais provável é que o corpo simplesmente não evoluiu a tendência para não secretar glicocorticoides durante uma crise neurológica. O processo funciona mais ou menos do mesmo jeito em todos os mamíferos, pássaros e peixes, e foi só no último meio século que as versões ocidentalizadas de uma única dessas espécies tiveram alguma chance de sobreviver a eventos como um derrame. Simplesmente não houve muita pressão evolutiva para que a resposta do corpo a lesões neurológicas maciças se tornasse mais lógica.

Não faz mais que 50 ou 60 anos que consideramos que úlceras, pressão sanguínea ou a vida sexual são sensíveis ao stress. Também reconhecemos hoje as maneiras pelas quais o stress interfere em nosso aprendizado e memória. O famoso “neurocientista” Woody Allen disse uma vez: “Meu cérebro é meu segundo órgão favorito”. Acho que a maioria de nós colocaria o cérebro numa posição ainda melhor.

OUTROS OLHARES

VIAGEM CONTROLADA

Estudos avançados conduzidos em diversas partes do mundo, incluindo o Brasil, mostram o efeito de drogas alucinógenas no tratamento de doenças psiquiátricas

Um paradoxo da ciência tem produzido muito ruído: o uso de psicodélicos, drogas associadas a alucinações e viagens mentais, nos cuidados de doenças psiquiátricas. Estudos recentes vêm oferecendo resultados convincentes. Chá de cogumelos para depressão e dependência de tabaco e cocaína; LSD para angústia e alcoolismo; ayahuasca para ansiedade e transtorno de stress pós-traumático (veja o quadro abaixo). Os institutos de pesquisas envolvidos nos trabalhos são seriíssimos: a Universidade College London e a Universidade Federal de São Paulo estão entre os pioneiros. Há dois meses, a renomada Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, inaugurou o maior centro de estudos do mundo inteiramente dedicado à pesquisa desse tipo de substância, com um investimento de 17 milhões de dólares, o equivalente a 70 milhões de reais.

Os psicodélicos podem ser extraídos de plantas ou sintetizados em laboratório. Eles agem basicamente de duas formas – reduzem a atividade na amigdala, a parte do cérebro que regula a resposta ao medo, e aumentam a atividade no córtex pré-frontal, área do raciocínio, humor e percepção. Dá-se o desejado efeito terapêutico à medida que a droga instaura novos ritmos cerebrais, controlando o que parece exagerado e freando o que desponta em excesso. Há, ainda, outro movimento positivo: os alucinógenos estimulam a quantidade de neurotransmissores no cérebro, em especial a serotonina, que regula as emoções e sensações. Diz o psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, pesquisador em tratamento de dependência química na Unitesp: “Dessa forma, o paciente consegue falar melhor e mais profundamente sobre seus traumas e problemas”.

O chá ayahuasca, utilizado em rituais religiosos como os do santo-daime, mostrou-se eficaz, por exemplo, no combate ao tipo de depressão mais severa, aquela que responde mal aos medicamentos disponíveis e acomete 100 milhões de pessoas no mundo, 4 milhões delas no Brasil. Pesquisa conduzida pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte avaliou pacientes com idade de 21 a 59 anos que conviviam com a doença havia onze anos, em média. “Engana-se, no entanto, quem pensa que o efeito positivo possa vir do uso recreativo da droga”, diz o neurocientista Eduardo Schenberg, coordenador dos estudos com MDMA para transtorno pós­ traumático no Brasil. “Os benefícios para a saúde só serão conquistados se a utilização das substâncias seguir protocolos terapêuticos precisos.”

A administração das drogas exige, evidentemente, muitos cuidados. Para que seus efeitos colaterais agudos sejam minimizados – além das alucinações, elas podem provocar tonturas, enjoos e aumento da pressão arterial -, os pacientes recebem a substância no hospital ou em clinicas. Os quartos são preparados para proporcionar um ambiente de tranquilidade – decorados com plantas e iluminados por luz natural. A quantidade das substâncias e a duração dos efeitos variam de droga para droga. Algumas são usadas integralmente. De outras, extrai-se um composto específico. Os testes com ayahuasca mostraram resultados com uma dose, o equivalente a uma xícara de chá. Com o MDMA, composto do ecstasy, foram necessárias três sessões com quantidades de 75 miligramas a 125 gramas.

Os primeiros estudos com psicodélicos na medicina são de 1914, com ecstasy. Os cogumelos tiveram uma versão sintética comercializada nas décadas de 50 e 60 para terapias psiquiátricas experimentais. Nos anos 60, Timothy Leary (1920-1996), professor de psicologia clínica da Universidade Harvard, ganhou fama como proponente dos benefícios terapêuticos e espirituais do LSD. Usando ele mesmo esse produto sintético, fez pesquisas que o levaram a estabelecer quadros de níveis de consciência. Mas na década de 70 a fabricação e a venda de qualquer composto alucinógeno para uso medicinal foram proibidas pelo governo americano. Os estudos terapêuticos só foram retomados a partir dos anos 1990, quando a ciência se rendeu à limitação dos remédios para as doenças mentais. Se os testes em larga escala conseguirem repetir os resultados obtidos até agora, os psicodélicos poderão vir a ser usados dentro de cinco anos. Até lá, contudo, de mãos dadas com a medicina, haverá uma longa batalha jurídica de autorização.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 21 DE FEVEREIRO

UM HOMEM CHAMADO POR JESUS

Disse-lhes Jesus: Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de homens (Marcos 1.17).

Pedro é considerado, com justa razão, um dos maiores líderes do cristianismo. Foi indiscutivelmente o grande porta-voz do colégio apostólico. Sempre estava à frente das grandes discussões. Até mesmo nas crises mais medonhas, ocupava a dianteira do grupo. Pedro sempre encabeça todas as listas dos apóstolos de Jesus encontradas nos evangelhos. O livro de Atos dedica os doze primeiros capítulos para destacar seu ministério. Nascido e criado às margens do mar da Galileia, tornou-se um pescador. A despeito de ser um homem de atitudes rudes e iletrado, Jesus vê nele um grande líder e o chama para compor seu seleto grupo de apóstolos. Pedro deixou as redes para seguir a Jesus. Andou com Jesus três anos, perlustrando as poeirentas estradas da Galileia e subindo as encostas da Judeia. Ouviu dos lábios do Mestre as maiores verdades e viu por intermédio de suas onipotentes mãos os maiores milagres. Mesmo fora da academia, cursou o maior de todos os seminários, com o maior de todos os mestres, ouvindo e vendo as maiores maravilhas. Pedro foi salvo por Jesus e escolhido para proclamar essa salvação a milhares de pessoas. Hoje, Jesus também chama você para a salvação. Não espere mais, corra para seus braços e encontre nele perdão, salvação e paz.

GESTÃO E CARREIRA

OS NOVOS BANQUEIROS

Agora cidadãos comuns podem oferecer empréstimos a pequenos empreendedores e cobrar juros de maneira legalizada. Em ascensão, a modalidade requer atenção de quem empresta e de quem toma emprestado

Um empreendedor vai ao banco solicitar empréstimo. Sai de lá de mãos vazias depois de ter o pedido negado. A cena, que se repete à exaustão no Brasil, é vivida por milhares de brasileiros que estão em busca de financiamento para seus negócios. Mas uma nova regulamentação mudou essa realidade.

Com o objetivo de tornar o crédito mais acessível a microempreendedores individuais, microempresas e empresas de pequeno porte, o governo sancionou em abril deste ano a Lei Complementar no 167/19, que legaliza as empresas simples de crédito (ESCs). Na prática, a norma permite que qualquer cidadão empreste dinheiro de maneira institucionalizada. Para especialistas, apesar de controversa, a medida deve ajudar a melhorar as condições de crédito para essa fatia de empreendedores. “Os pequenos negócios têm um baixo índice de sobrevivência e nem sempre há uma boa estrutura de gestão, de modo que o perfil deles contraria o escopo do banco em relação ao risco. Isso eleva o valor dos financiamentos”, diz Luiz Lemos Leite, presidente da Associação Nacional de Fomento Comercial (Anfac), uma das entidades que ajudaram na elaboração ela nova lei. Quanto à polêmica de que a lei nada mais faz do que regularizar a agiotagem (a prática de emprestar dinheiro fora domercado decrédito legítimo), quem entende do assunto acredita que a tendência é que essa forma de atividade financeira ilegal diminua. “Uma parte das irregularidades deve migrar para as ESCs. O que deve sobrar são agiotas que praticam cobrança agressiva, com ameaça de morte envolvida, que não têm interesse em se regularizar”, explica Roy Martelanc, coordenador do MBA Banking da Fundação Instituto de Administração (FIA).

CRESCIMENTO EXPONENCIAL

Sílvio Vucinic, consultor de negócios do Sebrae, diz que a chegada das ESCs aumentou a concorrência nesse segmento, o que deve empurrar as taxas para baixo num futuro próximo. Hoje, o pequeno empreendedor chega a arcar com juros de 36,5% ao ano, enquanto a taxa anual praticada para pessoas jurídicas é de 9,15%, de acordo com o Banco Central.

Desde que a lei foi sancionada já são mais de 490 ESCs espalhadas por todo o país, segundo levantamento da Anfac. A expectativa é que sejam injetados cerca de 20 milhões de reais por ano no mercado de crédito com a atuação dessas empresas.

De olho nesse oceano azul de oportunidades, os ex- bancários Renato Coelho, de 33 anos, e Nelson Hyppólito, de 48, fundaram há oito meses a Go Credit, em Guarulhos (SP). Antes das mudanças na norma, os sócios tinham uma plataforma de marketplace de crédito, na qual o empreendedor conseguia consultar e negociar empréstimos em diversas instituições. “Recebíamos muitas solicitações de crédito de pequenas empresas por meio de nosso site, mas percebíamos que as condições oferecidas pelos parceiros não eram realmente boas. Foi aí que decidimos entrar nesse nicho, que ainda é mal atendido”, diz Renato.

Nelson, formado em direito, e Renato, administrador de empresas, destinaram todo o lucro obtido com o marketplace – cerca de 100.000 reais – para abrir o minibanco. Em sete meses, a Go Credid já transacionou 1 milhão de reais. O valor recebido das parcelas pagas pelos clientes é reinvestido na própria startup, que possuiu 70 clientes e cobra taxa média mensal de juro de 3%. Até o final do ano, os sócios, que continuam com o markertplace para atender empresas de maior porte, vão lançar um aplicativo para em­ prestar dinheiro digitalmente. “Nossa estimativa para 2020 é financiar 400 novos clientes”, afirma Renato.

NÃO É TERRA DE NINGUÉM

Para se tornar um desses novos banqueiros, no entanto, há uma série de regras previstas na lei – seu descumprimento pode levar à cobrança de multas e até mesmo à reclusão de um a quatro anos. “Quem pretende abrir uma ESC precisa ter em mente que só poderá operar crédito com microempresas que estejam localizadas no mesmo município ou em cidades limítrofes. Também é proibido abrir filiais”, pontua Luiz, da Anfac.

O primeiro passo para quem vai abrir uma empresa simples de crédito é escolher se atuará sozinho ou em sociedade. O segundo é definir o valor do capital social, levando em conta apenas os recursos próprios e os de seus sócios, se houver. Não é permitido, por exemplo, tomar empréstimos, receber investimentos de terceiros ou considerar bens, como imóveis e carros, para compor o patrimônio da ESC. Só vale dinheiro vivo. Além disso, a receita bruta anual não pode ser superior a 4,8 milhões de reais. A etapa seguinte é escolher o local onde o minibanco atuará, já que só é permitido emprestar para empreendedores do mesmo município onde ele está sediado.

Entre as recomendações está ainda urna consulta na prefeitura para entender as exigências municipais para a obtenção do alvará de funcionamento. Também é indicado contratar uma assessoria contábil para auxiliar em todo o processo de abertura da ESC, como a escolha do modelo da empresa – que pode ser empresário individual, Eireli ou sociedade limitada – e a elaboração da escrituração contábil, o documento que inclui as movimentações financeiras, como receitas e despesas.

Outro ponto de atenção é a escolha entre as duas opções de regime tributário: lucro real, quando os tributos são calculados sobre o lucro efetivo da empresa, ou presumido, que leva em conta uma tabela fixa de tributação. Na fase final, o novo banqueiro precisa escolher o nome de sua ESC e registrar a abertura na Junta Comercial do Estado onde atuará, além de fazer as inscrições tributárias na Receita Federal e na prefeitura.

Depois de toda a papelada pronta, a ESC está liberada para emprestar dinheiro. Só é necessário considerar que, mesmo a lei complementar não limitando o valor dos juros praticados, não se podem cobrar tarifas e encargos, como fazem bancos de varejo e outras instituições financeiras. Hoje, as ESCs podem oferecer apenas três tipos de operações a seus clientes. Se o empreendedor precisa de capital de giro para pagar salários, décimo terceiro ou repor estoque, por exemplo, a modalidade indicada é o empréstimo. Se o negócio demanda novos investimentos, como a compra de uma máquina, a operação é financiamento. Há ainda o desconto em título, ou seja, se o empreendedor tem algum valor futuro para receber (como duplicatas ou promissórias), a ESC antecipa o dinheiro.

Silvio, do Sebrae, lembra que os donos de empresas especiais de crédito podem pedir garantias ao cliente em todas as operações, registrando as condições acordadas em contrato: uma cópia do documento fica com o tomador; a outra, com o credor. E as condições não param por aí. Toda a movimentação do dinheiro deve ser feita apenas por débito ou crédito em contas no nome da ESC e da pessoa jurídica contratante – sendo que a ESC precisa informar todas as suas operações para uma entidade registradora autorizada pelo Banco Central ou pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Por causa da atuação limitada (já que é proibido atender clientes de fora da cidade de atuação), os especialistas recomendam estudar a região antes de entrar nesse negócio. “É importante identificar o número de pequenos empreendimentos locais para dimensionar qual é o potencial do mercado”, diz Silvio, do Sebrae, entidade que possui o portal datasebrae.com.br/indicadores com esse tipo de informação.

OLHO NO OLHO

Diferentemente de uma instituição tradicional, que baseia sua decisão em algoritmos que mapeiam os hábitos de pagamento do cidadão, uma empresa especial de crédito em geral abre espaço para a confiança e o olho no olho. É comum o próprio dono negociar diretamente com os clientes. Roy, da FIA, explica que é o “boca a boca” que ajuda as ESCs a identificar melhor o perfil de um cliente. “Pode ser que o tomador tenha o nome limpo, mas o comércio não ande bem. Em uma cidade menor é fácil levantar isso”, diz o expert. “Dá para solicitar um plano de viabilidade financeira ao futuro cliente, que aponte o valor investido, a finalidade, além de despesas, receitas e lucro”, reitera Silvio.

Já o empreendedor sob escrutínio, do outro lado do balcão, pode comprovar sua viabilidade financeira apresentando, por exemplo, a guia de pagamento de imposto, com tributos pagos sobre o valor do faturamento. Thiago Eik, de 32 anos, André Bravo e Alian Medina, ambos de 30 anos, são sócios da 43 Fomento Mercantil, ESC fundada em maio, em Londrina, no interior do Paraná. O trio de advogados sente essa proximidade no dia a dia. Mesmo usando softwares para analisar a capacidade de pagamento dos interessados, eles têm como premissa considerar a realidade de cada um que os procura. “O empresário que tem um faturamento contábil baixo e o CNPJ negativado não consegue crédito em um banco, por exemplo. Mas, quando nos procura, perguntamos se há bens, como carro e imóvel, para embasar a operação. E entendemos diversos fatores para conceder crédito. Não é o sistema que nos dá a resposta”, diz Thiago. Os sócios da 43 cobram uma taxa média de 4% ao mês e investiram 400.000 reais para entrar nesse novo segmento. O montante foi usado em empréstimos cedidos para 20 empreendedores locais, entre donos de hamburgueria, tabacaria, clínica médica popular e vidraçaria. O objetivo é aumentar o capital para 2 milhões de reais em 2020.

Com uma massa retraída de pequenos empreendedores em busca de dinheiro, esse modelo de negócios se mostra promissor. Resta saber se, além de democratizar o acesso ao crédito, a modalidade também derrubará as taxas de juros.

O CHECKLIST DO MINIBANCO

Passo a passo para operar nesse segmento

*** Defina se atuará sozinho ou com sócios. Se optar por ter parceiros de negócios, busque pessoas de confiança.

*** Escolha o tipo de empresa que quer abrir, defina o valor do capital social, que deverá ser integralizado em dinheiro, não podendo levar em conta os bens, por exemplo.

*** Escolha a cidade onde a ESC será sediada. Lembre-se de que a empresa só poderá emprestar dinheiro para empreendedores do mesmo município e regiões.

*** Consulte a Prefeitura sobre a viabilidade de abertura da ESC e as exigências        municipais para a obtenção do alvará de funcionamento.

*** Contrate uma assessoria contábil para a abertura da empresa; faça a escrituração contábil; escolha o regime tributário, que pode ser o Lucro Presumido ou o Lucro Real.

*** Elabore o ato de constituição conforme o modelo de empresa escolhido, defina o nome, realize a consulta de disponibilidade dele na Junta Comercial do Estado e faça o registro.

*** Faça as inscrições tributárias na Receita Federal e na Prefeitura e, por fim, obtenha o Alvará de Funcionamento da Prefeitura.

BÊ-Á-BÁ

Como funciona a ESC

A região de atuação da ESC está limitada ao município sede e aos municípios limítrofes. A fonte de receita é, exclusivamente, oriunda dos juros recebidos das transações realizadas. O volume de operações da ESC está limitado a seu capital social, ou seja, ela só pode emprestar com recursos próprios.

QUALQUER PESSOA FÍSICA PODE ABRIR UMA ESC?

– Sim, mas cada pessoa física pode participar apenas de uma ESC e não são permitidas filiais.

COMO É A TRIBUTAÇÃO DA ESC?

– O regime de tributação é por lucro real ou lucro presumido. A receita bruta anual não pode ser superior a 4,8 milhões de reais, vedada a cobrança de encargos e tarifas.

E COMO FUNCIONA NA PRÁTICA?

– Quem empresta e quem toma emprestado selam o acordo em contrato, ficando uma cópia com cada um. As operações precisam ser registradas em entidade autorizada pelo Banco Central ou pela Comissão de Valores Mobiliários.

QUAIS SÃO AS RESTRIÇÕES?

– A remuneração da ESC ocorre pela taxa de juro cobrada. Não é permitido que a ESC capte recursos com bancos. O projeto de lei que a institui prevê que todas as operações financeiras feitas por essas empresas de crédito estão sujeitas ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF).

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

EFEITOS TARDIOS DO STRESS

Quem é muito atormentado na juventude por colegas da mesma idade tem maior tendência a sofrer de depressão, pânico ou impulsos agressivos quando adulto. É o que comprovam vários estudos clínicos. O tipo de consequência tardia, no entanto, se diferencia de acordo com a idade em que foi sofrida a violência – como sugere o trabalho do psicólogo Matthew Newman, da Universidade do Texas.

O pesquisador entrevistou aproximadamente 1.500 estudantes do ensino técnico sobre os tormentos sofridos por eles durante a infância e juventude. Além disso, ele se interessou em conhecer a forma como esses jovens hoje lidam com o stress no dia-a-dia. O que eles fazem, por exemplo, se alguém lhes rouba o namorado ou a namorada. A resposta “Eu saio para beber e esqueço o assunto” foi escolhida com muita frequência pelas vítimas de violência ainda recente. Por outro lado, aqueles que foram alvo de brincadeiras maldosas logo no início da vida escolar encaravam o problema quase sempre de forma mais agressiva. Segundo Newman, experiências de violência durante a adolescência fazem com que os atingidos fujam de qualquer tipo de stress e se isolem.

Outro estudo demonstrou também que, em qualquer idade, laços estreitos com familiares e amigos são a melhor garantia de superação das experiências de violência.

OUTROS OLHARES

UMA VIAGEM FUTURISTA AO PASSADO

Novas tecnologias transformam a velha tática de envelhecer atores em filmes, com um resultado impressionante

Em Projeto Gemini, filme de ficção cientifica em cartaz nos cinemas, o personagem de Will Smith, de 51 anos, luta contra um clone de 23 anos. No filme Capitã Marvel, Samuel L. Jackson, de 70 anos, na pele do herói Nick Fury, surge em flashbacks ambientados no passado, muito mais jovem. Em O irlandês, superprodução de Martin Scorsese que estreará no final de novembro na Netflix, o trio Robert De Niro, de 76 anos, AI Pacino, de 79, e Joe Pesci, de 76, relembra os tempos de juventude. Em comum, os três filmes viajam para o passado com a ajuda do que há de mais avançado em termos de computação gráfica.

No passado, os produtores normalmente usavam um dublê jovem para imitar as expressões faciais do ator mais velho. Depois, a equipe de efeitos visuais manipulava digitalmente seu rosto até alcançar algo parecido com o do astro de verdade. No caso de Capitã Marvel, cuja trama é ambientada nos anos 1990, o caminho foi inverso. Jackson atuou em todas às cenas sem ajuda de um modelo. Em seguida, sua aparência foi rejuvenescida no computador. Segundo os produtores, ajudou o fato de o veterano ter mantido a pele jovial ao longo dos anos. Já em Projeto Gemini, o clone jovem que o assassino de elite interpretado por Smith precisa enfrentar foi criado inteiramente por computação gráfica. O que vemos na tela é uma animação hiper­ realista – não muito distante do que foi feito em Final Fantasy (2001), primeiro longa de animação a criar personagens semelhantes a seres humanos de verdade. Em Projeto Gemini, no entanto, houve um trabalho muito mais atento a detalhes como os poros e a textura da pele, além do branco dos olhos. A interpretação desse ator “de mentirinha” foi moldada a partir de um estudo minucioso das emoções de Smith, o que foi possível graças a uma tecnologia conhecida como “captura de movimento”, na qual um capacete instalado na cabeça do astro registra cada detalhe de suas feições, que depois são transferidas para o personagem animado.

Mas, dos três lançamentos, O irlandês é considerado o mais inovador. Na trama, o mafioso Frank Sheeran (Robert De Niro) começa a relembrar os eventos que o fizeram entrar na vida do crime. Trata-se de um épico que atravessa várias décadas, começando nos anos 1950. Os atores não vestiram capacete, nem marcas – pontos de referência usados pela captura de movimento para determinar o relevo da pele – foram pintadas em seu rosto. “O maior problema (dos capacetes e das marcas) é a iluminação. Você precisa iluminar bem os rostos, senão as câmeras não leem as marcas. Então inventamos algo jamais usado antes”, explicou Pablo Helman, supervisor da empresa Industrial Light & Magic, ao site lndieWire. Os produtores de O irlandês, então, deixaram os atores livres para atuar no set, sem carregar nenhum aparato na cabeça. Câmeras chamadas “testemunhas” ajudaram a filmar, a partir de vários ângulos, a geometria de seus rostos, que na pós-produção foram rejuvenescidos por computação gráfica dependendo da década em que cada cena é ambientada. O resultado é tão impactante que, em entrevista à revista britânica Sight & Sound, uma das publicações de cinema mais respeitadas do mundo, Scorsese chegou a afirmar que a maquiagem poderá, um dia, ser completamente substituída por reparos digitais.

Para o diretor americano, o espectador tem plena consciência de quando está diante de maquiagem excessiva, por mais bem-feita que seja. “Existe alma em O homem elefante (1980), porque o ator John Hurt era ótimo, mas eu sabia que ele estava sob muita maquiagem. Eu tinha de me deixar levar pela ilusão do cinema”, afirmou Scorsese, referindo-se ao clássico de David Lynch sobre um homem que tem o rosto desfigurado. Scorsese acredita que o rejuvenescimento por meio de efeitos visuais representa um “outro nível” de ilusão, já que não interfere tanto na interpretação dos atores e está cada vez mais realista. Parte da crítica especializada não apenas duvida que isso acontecerá tão cedo como também aponta imperfeições no rosto dos atores quando jovens no próprio filme de Scorsese, que teria cenas cujos efeitos de computador ficaram claros.

“Não tenho tanta certeza de que um dia os efeitos visuais vão atingir o nível de realismo necessário para substituir a maquiagem”, observou o mexicano Martin Macias Trujillo, que se consolidou no Brasil como um dos maiores caracterizadores e maquiadores do cinema nacional, tendo vencido seis troféus no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro – equivalente nacional ao óscar – por filmes como Casa de areia (2005), Tropa de elite (2007) e Getúlio (2014). Trujillo elegeu Casa de areia como um de seus trabalhos mais desafiadores. No drama de Andrucha Waddington, Fernanda Montenegro e Fernanda Torres interpretam mãe e filha ao longo de várias gerações. Na última cena, Montenegro contracena com ela própria – uma é a filha vinda da cidade; a outra, sua progenitora que nunca saiu do deserto. “É a mesma atriz, mas rejuvenesci uma delas. O cabelo de uma precisava ser mais urbano, a unha também era pintada. A outra tinha mais rugas e uma pinta na boca”, lembrou o caracterizador. “A maquiagem é uma arte complexa e linda, mas pode virar um problema quando é espessa demais, o que limita as expressões faciais do ator. De qualquer forma, estamos avançando nesse sentido. Para viver Winston Churchill em O destino de uma nação (2017), Gary Oldman usou uma grande prótese. E a atuação dele seguiu intacta.”

Para Anna Van Steen, que trabalha como caracterizadora no cinema desde os anos 1980 e tem no currículo obras como Cidade de Deus (2002), Carandiru (2003), Elis (2016) e Bingo: o rei das manhãs (2017), a computação gráfica pode andar de mãos dadas com a maquiagem, como uma espécie de “retoque” extra. Em As horas, por exemplo, retoques digitais foram aplicados na prótese nasal usada por Nicole Kidman para viver a escritora Virginia Woolf. Mas a função do maquiador, disse Van Steen, dificilmente será extinta, por causa de particularidades de cada produção. Outros desafios de ordem prática são custo e tempo.  Estúdios de Hollywood injetam milhões e milhões de dólares em efeitos especiais – luxo que o Brasil muitas vezes não tem.

O irlandês foi rodado com um orçamento astronômico de mais de US$ 160 milhões, enquanto a pós-produção se prolongou por mais de um ano. Paulo Barcellos Jr., da O2 Filmes, acredita que a tecnologia será mais acessível – e rápida – no futuro. “Sem dúvida a maquiagem digital pode substituir a tradicional”, disse Barcellos Jr., que utilizou a técnica em Chico Xavier (2010), no qual Ângelo Antônio vive o médium entre as décadas de 1930 e 1960. “A técnica tende a baratear. Temos recebido cada vez mais pedidos nesse sentido. Atualmente temos dois filmes em pós-produção utilizando a ferramenta.” Uma evidência de como as tecnologias de manipulação digital vêm se desenvolvendo numa velocidade impressionante está na web, mais precisamente no deepfake, prática em que usuários na internet inserem imagens do rosto de celebridades em vídeos de outras pessoas, geralmente em contextos absurdos. Se há dois anos o recurso tinha um resultado tosco, hoje é possível confundir o falso com o real. E, como diz Scorsese, no cinema, o fake que engana é ouro.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 20 DE FEVEREIRO

A FELICIDADE COMO RESULTADO DO QUE EVITAMOS

Pois quem quer amar a vida e ver dias felizes refreie a língua do mal e evite que os seus lábios falem dolosamente (1Pedro 3.10).

A felicidade é resultado daquilo que evitamos e não apenas daquilo que fazemos. O Salmo 1 assim inicia o saltério: Bem-aventurado o homem que não anda no conselho dos ímpios, não se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores. Há três progressões neste versículo. A primeira é: andar, deter-se e assentar-se. A segunda é: conselho, caminho e roda. A terceira é: ímpios, pecadores e escarnecedores. Somos felizes na proporção em que fugimos de determinados lugares, recusamos determinadas propostas e nos afastamos de determinadas pessoas. Frequentar lugares errados, viver de acordo com padrões errados e andar na companhia de pessoas erradas formam o caminho mais rápido para a infelicidade. A felicidade consiste na coragem de rompermos com determinadas amizades, dizermos um sonoro não a determinadas propostas e fugirmos de determinados lugares. Quando deixamos de fazer essas coisas, somos felizes, muito felizes. Esse conceito está na contramão do hedonismo contemporâneo. A mídia tenta influenciar-nos dizendo que a felicidade é a iguaria mais deliciosa servida no banquete do pecado, mas esses aperitivos, embora doces ao paladar, são amargos no estômago; embora proporcionem instantes de prazer, acarretam tormentos eternos.

GESTÃO E CARREIRA

SEM LERO-LERO

Empresas estão investindo cada vez mais em diversidade. Mas, para que haja resultados efetivos, é necessário ir além de comitês e grupos de discussão

Investindo em inclusão há quatro anos, a Basf, multinacional alemã do setor químico eleita uma das Melhores Empresas para Começar a Carreira, percebeu que tinha de tomar um rumo pragmático se quisesse abrir – de fato – espaço ao diferente. Como as discussões de gênero já estavam amadurecidas, a organização deu protagonismo ao grupo de afinidade de raça, chamado internamente de BIG (abreviação em inglês para Black lnclusion Group). “Entendemos que tínhamos de acelerar o processo. Se esperássemos a inclusão acontecer de forma natural, isso levaria anos”, diz Luciana Amaro, vice-presidente de RH da Basf para a América do Sul. Para começar, a instituição determinou que 100% dos contratados no programa de estágio de 2018 seriam negros. Para recrutar esses 12 estudantes, firmou uma parceria com a Faculdade Zumbi dos Palmares, instituição de ensino superior localizada em São Paulo com corpo discente majoritariamente negro. E mais: para garantir um processo seletivo realmente diverso, definiu que 50% dos candidatos devem pertencer a grupos minoritários e 50% dos recrutadores também. “Não adianta ter a diversidade de um lado e do outro apenas homens brancos entrevistando”, explica Luciana.

O programa de estágio, com duração de dois anos, ofereceu aos jovens negros mentoria, aulas de inglês, cafés da manhã com a liderança e apoio do grupo de raça da Basf. Além disso, ao longo de 2019, foram realizados os chamados BIG Talks, nove palestras abertas com historiadores que falaram com funcionários e público geral sobre história e cultura negra, escravidão no Brasil e estereótipos.

Atitudes concretas como as da Basf são fundamentais para tirar as ideias de inclusão do papel e mudar as estatísticas nas planilhas de Excel. Dados de 2018 do IBGE, divulgados em novembro, mostram que negros e pardos representavam 64% da população desocupada e 66% da subutilizada. Na informalidade, a situação é a mesma: enquanto 35% dos trabalhadores brancos estavam em ocupações informais, o percentual era de 47% entre negros e pardos. Já o rendimento médio mensal das pessoas brancas ocupadas, de 2.796 reais, foi quase 74% superior ao das negras – de 1.608 reais. Esses números deixam claro que, enquanto as ações se limitarem a discussões herméticas e atividades esporádicas em datas comemorativas, o mundo corporativo não vencerá o estigma da homogeneidade nos quadros profissionais. Para Ricardo Sales, sócio fundador da consultoria Mais Diversidade, o que mais atravanca o avanço na inclusão dentro das companhias é a resistência para falar sobre preconceito. Por isso, segundo ele, o primeiro passo é assumir que o problema existe no Brasil. O segundo é pensar em como promover a multiplicidade de talentos em três momentos estratégicos: atração, desenvolvimento e manutenção. “As empresas têm dificuldade de atrair mulheres em áreas majoritariamente masculinas, de desenvolver PCDs e de promover negros”, afirma o especialista. Segundo ele, saber onde buscar esses profissionais – tal qual fez a Basf ao recorrer à Faculdade Zumbi dos Palmares – é essencial. Outro ponto importante para que a estratégia de diversidade atinja resultados é conquistar o apoio da liderança.

Sem que os chefes estejam comprometidos com a causa, dificilmente a organização conseguirá empregados de diferentes origens. Na petroquímica Braskem, 700 gestores passaram recentemente por treinamentos sobre privilégios, vieses inconscientes e barreiras ocultas que certos grupos enfrentam no mercado de trabalho. “Nosso setor é muito masculino. Além de conscientizar os líderes, fizemos um diagnóstico para entender quais eram os pontos críticos. A partir daí, começamos a mudar as coisas: construímos mais de 70 banheiros femininos, fizemos salas de amamentação em todas as unidades, produzimos uniformes para mulheres e criamos vagas de estacionamento para gestantes”, diz Debora Gepp, responsável pelo programa de Diversidade & Inclusão da empresa. Hoje, 22% dos funcionários são mulheres, sendo que 28% dos cargos de liderança são femininos. Em 2020, a meta é aumentar o índice para 30%.

Para alinhar o discurso à prática, a Braskem passou a investir em programas sociais voltados para o público feminino. Lançou o Empreendedoras Braskem, programa de capacitação para fomentar a participação de mulheres nos negócios, e fez um trabalho com professores da rede pública sobre combate da violência contra a mulher em Camaçari, polo industrial da Bahia.

EFICÁCIA COMPROVADA

Engana-se quem pensa que os resultados do investimento em diversidade demoram a aparecer. Na empresa de tecnologia KingHost, com sede em Porto Alegre (RS), as iniciativas de inclusão começaram esporadicamente em 2016 e se fortaleceram no final de 2018, após a criação de um comitê. “Sempre tivemos uma cultura aberta, mas percebemos que existem muitos preconceitos que estão na cultura brasileira e gaúcha. Então, começamos a nos questionar se não deveríamos gerar mais consciência interna sobre o tema”, afirma Caren Cazorla, coordenadora de RH da empresa. Além de realizar campanhas pontuais uma vez por mês, a companhia passou a organizar o Café Filosófico, roda de conversa com palestras sobre preconceitos, vieses inconscientes, expressões racistas, entre outros temas. “Neste ano, trabalhamos o fomento do debate e nos posicionamos como uma companhia que defende a diversidade.” Ciente de que não adianta ficar só no lero-lero, a KingHost colocou a diversidade como parte do planejamento estratégico, com envolvimento do CEO. De acordo com Joel Dutra, vice­ coordenador do curso de MBA de recursos humanos da Fundação Instituto de Administração (FIA) e coordenador metodológico deste Guia, tratar abertamente o assunto traz benefícios comprovados para as corporações, que passam a oferecer produtos melhores quando há pessoas de realidades diversas atuando. “Não é uma questão ideológica ou politicamente correta, é algo pragmático. Se a empresa não se esforçar nessa direção, terá limitações no futuro”, avalia. Levantamento feito pela McKinsey & Company em janeiro de 2018 mostra que incluir diferentes grupos dentro das companhias impacta diretamente na lucratividade: corporações com diversidade étnica são 33% mais rentáveis, enquanto as com diversidade de gênero têm performance financeira 21% maior do que as demais. Além disso, ter a inclusão como pauta prioritária é uma excelente forma de atrair e engajar as novas gerações. Segundo um estudo da Deloitte de 2018, a diversidade é palavra de ordem para a geração Z, dos nascidos a partir de meados dos anos 90. Em suma, além de turbinar o desempenho dos negócios, a diversidade acaba sendo um diferencial competitivo. Isso porque essa novíssima geração, que está saindo da universidade, não enxerga o trabalho apenas como uma fonte de renda, mas, sim, como uma chance de fazer a diferença e tornar o mundo um lugar melhor.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SOMOS O QUE TEMOS

Por que lutamos por novas compras mesmo depois de alcançarmos um padrão de vida confortável

Em 1859, cerca de 450 passageiros do Royal Charter, que voltava das minas de ouro da Austrália para Liverpool, afogaram-se quando o veleiro naufragou na costa norte do País de Gales. Entre incontáveis outros desastres marítimos, essa tragédia é notável porque muitos daqueles a bordo afundaram por causa do peso do ouro em suas carteiras, que não queriam abandonar tão perto de casa. Os humanos têm uma obsessão por suas posses especialmente forte e, às vezes, irracional. Todo ano, donos de carros são assassinados ou seriamente feridos ao tentar impedir o roubo de seus veículos – uma escolha que poucos fariam se parassem para pensar racionalmente. É como se existisse um demônio em nossa mente que nos obriga a nos preocuparmos com as coisas que possuímos e nos leva a fazer escolhas de vida arriscadas em busca da riqueza material.

Acho que estamos possuídos. É claro que o materialismo e a aquisição de riqueza são incentivos poderosos. A maioria das pessoas concordaria com a frase atribuída à atriz Mae West: “Já fui rica e já fui pobre. Acredite, ser rica é melhor”. Mas chega um momento em que alcançamos um padrão de vida confortável e, ainda assim, continuamos a lutar por mais coisas. Por quê?

É comum gostarmos de ostentar nossa riqueza por meio de posses. Em 1899, o economista Thorstein Veblen observou que colheres de prata eram os marcadores da posição social da elite. Ele cunhou a expressão “consumo conspícuo” para descrever a disposição das pessoas em comprar bens mais caros em vez de bens – equivalentes em função – mais baratos. A razão seria sinalizar status para os outros. A biologia evolutiva tem uma explicação para isso.

A maioria dos animais compete para se reproduzir. No entanto, rechaçar concorrentes traz consigo o risco de ferimento ou morte. Uma estratégia alternativa é anunciar como somos bons para que o outro sexo escolha acasalar conosco em vez de com nossos rivais. Muitos animais desenvolveram atributos que indicam sua adequação enquanto parceiros potenciais: plumagens coloridas, chifres requintados ou comportamentos ostentosos, como os rituais de acasalamento complicados e delicados que se tornaram marcadores da “teoria dos sinais” – ou “teoria da sinalização”. Por causa da divisão desigual de trabalho em se tratando de reprodução, essa teoria explica por que são os machos que normalmente têm o visual e o comportamento mais chamativos em comparação com as fêmeas. Esses atributos custam caro, mas devem valer a pena, porque a seleção natural teria se desfeito de tais adaptações caso não houvesse benefícios.

Tais vantagens incluem a robustez genética. A teoria da sinalização “custosa” explica por que esses atributos aparentemente dispendiosos são marcadores confiáveis de outras qualidades desejáveis. O garoto-propaganda da sinalização custosa é o pavão, dono de uma cauda em leque elaborada e colorida que evoluiu para sinalizar a pavoas que ele possui os melhores genes. A cauda é um apêndice tão ridículo que, em 1860, Charles Darwin escreveu: “Tenho nojo só de olhar uma pena da cauda de um pavão”. A razão de sua repulsa era porque essa cauda não é otimizada para a sobrevivência. É muito pesada, cultivá-la e mantê-la requer muita energia e, assim como um grande vestido armado da era vitoriana, ela é incômoda e pouco aerodinâmica, o que não garante movimentos eficientes. No entanto, mesmo que demonstrações de pesadas plumagens possam indicar uma desvantagem sob algumas circunstâncias, também sinalizam uma proeza genética, pois os genes responsáveis pelas lindas caudas também são aqueles associados a melhores sistemas imunológicos. Tanto o ser humano “macho” quanto o ser humano “fêmea” desenvolveram atributos físicos que indicam aptidão biológica, mas, com nossa capacidade para a tecnologia, também podemos demonstrar nossas vantagens por meio de posses materiais. Os mais ricos entre nós têm maior probabilidade de viver por mais tempo, geram mais filhos e estão mais preparados para resistir às adversidades que a vida nos impõe. Sentimos atração por riqueza. É mais provável que um motorista frustrado buzine para um carro velho do que para um carro esportivo caro, e pessoas que vestem orna­ mentos de riqueza – como roupas de marca – são mais bem tratadas por outros, além de atraírem um maior número de parceiros. Embora ter coisas sinalize um potencial reprodutivo, a riqueza também traz uma razão pessoal muito poderosa – um argumento feito por Adam Smith, o pai da economia moderna, quando ele escreveu, em 1759: “Um rico se glorifica em sua riqueza porque acredita que ela naturalmente atrai para ele a atenção do mundo”. A riqueza material não só nos garante uma vida mais confortável, como nos traz satisfação ao percebermos a admiração de outros. A riqueza faz bem. Compras luxuosas ativam os centros de prazer de nosso cérebro. Se você acha que está bebendo um vinho caro, ele se torna mais gostoso, e o sistema de avaliação do cérebro associado à experiência do prazer demonstra uma ativação maior, em comparação com a experiência de beber o mesmo vinho quando você acha que ele é barato. Sobretudo, nós somos o que temos. Mais de 100 anos depois de Smith, William James escreveu sobre como nosso “eu” era, além de nosso corpo e nossa mente, tudo aquilo que poderíamos reivindicar como nosso, incluindo a propriedade material. Mais tarde, isso seria desenvolvido no conceito da “extensão do eu” do guru do marketing Russell W. Belk, que argumentou, em 1988, que desde muito novos usamos a propriedade e as posses como uma maneira de formar nossa identidade e estabelecer nosso status. Talvez isso explique por que “Meu!” seja uma das palavras comumente usadas por crianças e por que mais de 80% dos conflitos em creches e parquinhos tenham a ver com a posse de brinquedos.

Com a idade (e advogados), desenvolvemos maneiras mais sofisticadas de resolver disputas de propriedade, mas a conexão emocional com nossas posses como uma extensão de nossa identidade permanece. Por exemplo, um dos fenômenos psicológicos mais robustos da economia comportamental é o “efeito posse” ou “dotação”, relatado pela primeira vez em 1991, por Richard Thaler, Daniel Kahneman e Jack Knetsch. Há várias versões desse efeito, mas a mais convincente é provavelmente a observação de que damos igual valor a bens idênticos (por exemplo, canecas) até que um vire uma posse. A partir disso, o dono ou a dona crê que sua caneca vale mais do que um comprador em potencial está disposto a pagar. O interessante é que esse efeito é mais acentuado em culturas que promovem um auto­ entendimento mais independente comparado com aquelas que promovem noções mais interdependentes do eu. Novamente, isso vai ao encontro do conceito de extensão do eu no qual somos definidos exclusivamente por aquilo que temos.

Normalmente, o efeito posse começa a aparecer em crianças de 6 ou 7 anos de idade, mas em 2016 meus colegas e eu demonstramos que você pode induzir isso em crianças mais novas se você as leva a pensar em si a partir de uma manipulação simples de um retrato fotográfico. O que é extraordinário é que o efeito posse não tem força na tribo hadza, da Tanzânia, um dos últimos grupos de caçadores-coletores restantes, para quem a propriedade tende a ser comunitária, além de exercer uma política de “compartilhamento por demanda” – se você tem e eu preciso, então dê para mim.

Belk também reconheceu que as posses que vemos como as mais indicativas de nós mesmos são aquelas que consideramos como as mais mágicas. São os objetos sentimentais insubstituíveis e muitas vezes associados a alguma propriedade ou essência intangível que define sua autenticidade. Originada da noção de forma de Platão, a essência é o que confere identidade. O essencialismo está desenfreado na psicologia humana conforme imbuímos o mundo físico com essa propriedade metafísica. Isso explica por que atribuímos um valor maior a obras de arte originais do que a suas cópias idênticas ou indistinguíveis; por que carregaríamos alegremente a biografia de Adolf Hitler, detalhando suas atrocidades, mas sentiríamos repulsa ao carregar seu livro de receitas, que não menciona seus crimes. O essencialismo é a qualidade que torna sua aliança de casamento algo insubstituível. Nem todo mundo reconhece o próprio essencialismo, mas ele está na raiz de algumas das mais amargas disputas de propriedade – quando elas se tornam sagradas e parte de nossa identidade. Dessa maneira, as posses não só sinalizam quem nós somos para outros, como também nos lembram de quem somos para nós mesmos e reiteram a necessidade do autêntico num mundo cada vez mais digital.

OUTROS OLHARES

CASEM-SE, POR FAVOR

O Japão, país que abriga a população mais idosa do planeta, arranjou um jeito de estimular o nascimento de bebês: criou apps oficiais no estilo do Tinder para incentivar as uniões

Governos cuidam de economia, segurança, educação, saúde e, no Japão, dedicam-se ainda a uma função insólita: estimular casamentos. Parece estranho, mas é só o começo. Na Terra do Sol Nascente, 43 das 47 prefeituras lançaram aplicativos de paquera no estilo do Tinder para facilitar encontros. Se os usuários derem match (para usar o termo comumente empregado nessas redes), podem acabar no altar. O que move o Estado nessa direção é uma constatação que tem deixado os japoneses preocupados, como se o rastilho de uma bomba estivesse aceso – em 2019, pelo sexto ano consecutivo, houve queda nos registros de casórios. Pouco mais de 580.000 foram selados em 2018, o menor índice desde a ll Guerra. Por que o governo se incomoda tanto com isso? A demografia tem a resposta: menos uniões significam menos bebês, o que, para uma nação que vem perdendo meio milhão de habitantes por ano e concentra o maior porcentual de idosos do planeta (eles representam um terço da população), é um terremoto com potência para abalar os planos de crescimento do país.

A busca por uma cara-metade na internet ganhou até nome: konkatsu, uma variação de shukatsu, a procura por emprego. Embora os pioneiros aplicativos tenham surgido há dez anos, apenas agora se disseminaram e se sofisticaram, dando conta de juntar gente que vive em todo o território. Esse é, aliás, um objetivo declarado desses apps, que miram atenuar o desequilíbrio entre homens e mulheres em um pontilhado de cidades de menor porte. “Nesses lugares, os homens ficam para perpetuar os negócios da família em atividades como a agricultura, enquanto as mulheres, sem oportunidades, migram para os grandes centros atrás de trabalho”, diz o sociólogo Hiroshi Onu, da Universidade Hitotsubashi. Esse unmatch (ou desencontro, para sair do jargão) está na raiz do esvaziamento de regiões inteiras, onde a população encolhe 1% ao ano. Em certos vilarejos ninguém tem menos de 70 anos e imperam as chamadas “ruas das venezianas”. Como as lojas não abrem, elas estão sempre fechadas.

O Japão conserva uma tradição milenar de casamentos arranjados, intermediados por alguém de respeito na comunidade que examina o passado das famílias do noivo e da noiva e seu status social (o do homem deve ser superior ao da mulher). Essa prática, que já não se vê em cidades grandes como Tóquio e Osaka, está rareando também no campo – e é aí que entram os aplicativos, versão moderna, digamos assim, do bom e velho casamenteiro. “Esperamos que as pessoas entrem no aplicativo e decidam morar e casar-se em Akita”, diz Rumiko Saito, do Centro de Suporte ao Casamento (eis o nome do departamento) do município, que fica no norte do país.

Mas algumas tradições muito anteriores à internet e mais ainda ao Tinder persistem e contribuem para que os jovens adiem a troca de alianças – ou mesmo desistam do anel. “O homem se sente obrigado a desempenhar o papel de provedor do lar e, como os salários estão achatados, muitos não se veem aptos para o casamento”, observa Kumiko Namoto, especialista em gênero da Universidade de Kioto. Já as mulheres têm fugido do altar para evitar um destino que lhes soa incontornável: viver limitadas às tarefas domésticas. Houve outro momento na história japonesa em que o governo deu um empurrãozinho (ou seria pressão?) aos pombinhos: “Deem à luz e multipliquem-se pela nação” era o slogan de uma campanha que visava reanimar as taxas de natalidade, derrubadas pela II Guerra. Naquela época não havia o peso das arrepiantes projeções de hoje – a população nipônica deve diminuir de 126 para 95 milhões em cinquenta anos, quando quatro de cada dez cidadãos terão passado da barreira dos 60 anos.

Todo esse caldo demográfico começa a entornar sobre a economia, que se ressente da falta de braços e cérebros. Não existe hoje no Japão gente em número suficiente para preencher as vagas de emprego, e o país (outra tradição) nunca foi afeito à ideia de abrir suas portas à imigração. O governo até elaborou um pacote de medidas para suavizar o batente dos casais com um bebê: a ideia é ampliar o número de creches e fazer uma reforma nas regras trabalhistas, de modo a que fiquem mais amigáveis para os que têm filhos. Quem sabe mais pessoas não se animam? Por ora, o Japão encabeça a tendência mundial de queda da natalidade – a média atual é de 1,4 nascimento por mulher, abaixo da chamada taxa de reposição de duas crianças por casal, necessária para que a população não mingue. Daí a função de cupido dos governantes, que ainda organizam tours para a zona rural com o propósito declarado de elevar as chances de encontros amorosos. Feito isso, é cruzar os dedinhos e torcer por um match.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 19 DE FEVEREIRO

A OVELHA ENCONTRADA

Achando-a, põe-na sobre os ombros, cheio de júbilo (Lucas 15.5).

Na parábola da centésima ovelha, o pastor procurou, encontrou e festejou a recuperação da ovelha perdida. Ao encontrar a ovelha, não a esmagou com seu cajado, mas a tomou em seus braços. Não a mandou embora por ter criado problemas, mas a carregou no colo. Não se aborreceu com o preço do resgate, mas festejou com os amigos a recuperação da ovelha perdida. Precisamos não apenas ir buscar a centésima ovelha, mas também nos alegrar com sua restauração. Há festa nos céus por um pecador que se arrepende. A igreja é lugar de vida e restauração. A igreja é lugar de cura e perdão. A igreja é lugar de aceitação e reconciliação. Não basta nos alegrarmos com as ovelhas que estão em segurança no aprisco; devemos buscar a centésima ovelha que se dispersou. Jesus foi ao encontro de Pedro depois de sua queda para lhe restaurar a alma. Nós, de igual modo, devemos ir buscar aqueles que outrora estiveram conosco e hoje estão distantes. Essas pessoas devem ser alvo da nossa oração e do nosso cuidado pastoral. Não devemos descansar até vê-las restauradas por Deus e integradas ao seu rebanho.

GESTÃO E CARREIRA

MUSICA: O DIGITAL DÁ LUCRO

Pela primeira vez, os serviços de streaming de música vão alcançar 1 bilhão de ouvintes no mundo. E seu crescimento deve fazer a indústria fonográfica dobrar de tamanho na próxima década. É uma virada e tanto para um setor que antes estava em declínio

Até o fim dos anos 2000, a imagem da indústria da música era a de mercado em decadência. As vendas de álbuns – o pilar de seu modelo de negócios – haviam perdido o sentido depois do surgimento da música digital, distribuída e compartilhada pela internet (muitas vezes ilegalmente). Naquela época, poucos investidores em sã consciência colocariam suas fichas nesse segmento apostando numa recuperação. Passados mais de dez anos, o que se vê é exatamente o oposto. A receita da indústria fonográfica não apenas parou de cair como vem crescendo num ritmo que não era visto havia muito tempo. No ano passado, as vendas globais do setor somaram 19 bilhões de dólares – quase 10% mais do que em 2017 – e a tendência é de crescimento.

Até os analistas do mercado mudaram de ideia. Neste ano, o banco Goldman Sachs revisou sua previsão e agora estima que a indústria musical terá um faturamento de 45 bilhões de dólares em 2030, mais do que o dobro do atual.

A virada é puxada pelo crescimento dos aplicativos de música por streaming, que oferecem um amplo acervo pelo preço de um único álbum por mês. Enquanto as vendas de CDS continuaram caindo, o faturamento com os serviços de streaming explodiu nos últimos anos e chegou a 9 bilhões de dólares em 2018, quase a metade do total. Segundo um estudo recente da consultoria de mercado alemã Statista, ainda em 2019, pela primeira vez o mercado de streaming de música deverá alcançar 1 bilhão de ouvintes, entre assinantes e pessoas que acessam os serviços gratuitamente. É um marco para um setor que vendeu míseros 52 milhões de CDs em 2018 nos Estados Unidos, 94% menos do que os 943 milhões comercializados em 2000, segundo a associação americana que representa o setor, a Riaa.

Fundada em 2008, a empresa sueca Spotify é a grande expoente e a líder entre os serviços de música. Ela está presente em 79 países e parte do segredo de seu sucesso é o modelo de negócios que mistura assinaturas, que permitem fazer o download e acessar um acervo de mais de 50 milhões de músicas, e receitas com publicidade, veiculada para os ouvintes que preferem não pagar. Os planos custam cerca de 20 reais. A empresa não para de crescer. No terceiro trimestre de 2019, o número global de usuários chegou a 248 milhões, 30% mais do que um ano antes. Dessa base, 113 milhões são assinantes – pouco menos do que os 158 milhões de clientes do serviço de vídeos da Netflix. Os resultados financeiros do Spotify acompanharam a multiplicação dos ouvintes. O faturamento foi de 1,9 bilhão de dólares no terceiro trimestre, um aumento anual de 28%. O lucro também subiu, chegando a 490 milhões no trimestre. “Além de ter um vasto acervo musical, investimos em podcasts como forma de diferenciar. Já são mais de 500.000 programas”, afirma Mia Nygren, diretora­ geral do Spotify para a América Latina.

Grandes empresas de tecnologia também estão de olho em uma fatia do bilionário mercado de música. A Amazon e a Apple têm aplicativos de música online. O Apple Music foi lançado em 2015 e tem 60 milhões de usuários graças à força da marca e do mais de 1 bilhão de iPhones em uso no mundo. Já a Amazon oferece acesso ao Amazon Music para os clientes do programa de fidelidade, o Prime. O plano de benefícios, que chegou ao Brasil em outubro, também inclui um serviço de vídeo e vantagens como frete grátis. O acervo da Amazon é pequeno perto das rivais, com 2 milhões de músicas. Por isso, a empresa tem um segundo app, mais caro, com uma biblioteca musical parecida com a do Spotify. Para Matteo Ceurvels, analista de pesquisa da consultoria eMarketer para América Latina, o crescimento dos aplicativos de música acompanha a tendência dos serviços de vídeo, puxada pela Netflix. “Com o surgimento de grandes plataformas, como o Spotify, as empresas digitalizaram um amplo acervo e recomendam músicas que o usuário tem boa chance de gostar de ouvir. Vivemos hoje uma ascensão do mercado de música via internet”, diz Ceurvels.

DIRETO AO REFRÃO

A dominância do streaming no setor musical causou impacto até na forma de compor as canções. Elas têm ficado mais curtas. Cada vez que alguém ouve uma música, é gerado um valor pequeno, inferior a 1 centavo de dólar, para gravadoras e artistas. Uma música precisa de milhões de reproduções para ser lucrativa. Por isso, as músicas pop perderam as introduções longas. A banda irlandesa U2 adaptou-se ao novo modelo. Na música Where Streets Have no Name, de 1987, o vocalista Bono Vox só começa a cantar perto dos 2 minutos, entre os quase 6 de duração. Numa música deste ano do U2, Ahimsa, com menos de 4 minutos, a introdução tem pouco mais de 10 segundos. Segundo a Associação Americana de Editores Musicais, 13% do valor das reproduções de uma caução vai para o bolso do artista. Em busca de diferenciação, a francesa Deezer, uma das maiores rivais do Spotify, segue um modelo de pagamento que contempla os artistas que não têm milhões de reproduções. “Se alguém ouve música sertaneja o dia todo em São Paulo, o dinheiro gerado [por esse assinante] vai para esses artistas”, diz o executivo alemão Hans-Holger Albrecht, presidente mundial da Deezer. Em outras plataformas, o dinheiro das assinaturas é somado, para depois ser dividido entre os artistas do mundo todo com base no número de reproduções.

O Brasil não tem empresas relevantes no mercado global de streaming de música. A de maior renome por aqui é a gaúcha Superplayer, que oferece um serviço baseado em listas temáticas. Para Robson Del Fiol, sócio da consultoria KPMG, as empresas que saíram na frente no mercado global têm grande vantagem. “Esse é um mercado consolidado e dominado pelas plataformas estrangeiras. Elas já têm grandes bases de usuários e dificilmente serão vencidas por startups”, diz Del Fiol. Para ele, até o Google tem dificuldade de fazer crescer o serviço YouTube Music, que tem 15 milhões de assinantes, uma vez que as pessoas preferem ouvir músicas nos vídeos do YouTube, de graça. No novo cenário da indústria da música, o papel dos aplicativos é posicionar-se como emissoras de rádio particulares para cada usuário, tarefa que só pode ser feita com a ajuda da tecnologia. “Quem conseguir entender o comportamento do consumidor e oferecer as melhores experiências vai se diferenciar”, diz Clarissa Gaiatto, diretora de transformação digital da consultoria Deloitte. Na música, as mídias físicas viraram um nicho, e a receita, agora, vem dos aplicativos, cada vez mais personalizados.

A DIGITALIZAÇÃO DÁ O TOM

O mercado de transmissão de música via internet chegará a 1 bilhão de ouvintes no mundo em 2019

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

 ENGRENAGENS DA DEPENDÊNCIA

Malhação desenfreada, jogo, trabalho, sexo, internet. É possível ficar dependente dessas atividades? Psiquiatras e neurobiólogos confirmam: a dependência é um estado de espírito

A internet cria dependência? Em Roma, no ano 2000, um homem foi hospitalizado depois de navegar durante três dias e três noites na rede. Na Dinamarca, uma pessoa admite enviar em média 217 mensagens por dia e pagar uma fatura mensal de 2 mil euros a cada trimestre. Consciente de seus problemas, procura uma clínica para submeter-se a um tratamento imediato. A Suíça, onde se estima que 3% das pessoas que têm acesso à internet sejam vítimas desse fenômeno, foi o primeiro país a criar um grupo de discussão para os “viciados em internet”.

Dependência da internet, de relações amorosas, do trabalho, do celular, dos exercícios físicos, seriam os homens seres dependentes? É preciso reconhecer que o fumo e as drogas pesadas já não têm o monopólio da dependência. Mas seria possível dizer que a caminhada matinal e a nicotina criam o mesmo tipo de sujeição? A ciência que estuda a dependência, a adictologia, está em vias de se tomar um dos grandes ramos dos estudos médicos e psicológicos. Ela abrange as antigas toxicomanias, o alcoolismo e o tabagismo, e as dependências sem drogas, entre elas, em primeiro lugar, a ludopatia: o jogo patológico.

Mero modismo ou realidade médica? A mídia e o grande público se apropriaram dessa concepção. Como no caso das drogas e da toxicomania, as adições encarnam o medo da loucura e da alienação, e o fascínio pelos prazeres extáticos, as mesmas imagens (estou viciado, não consigo parar, estou perdendo o controle…) terminam por figurar nas mensagens de advertência assustadoras e em slogans publicitários atraentes (Addict virou marca de água-de-colônia, assim como O pium, de perfume). Sem dúvida é hora de saber o que se entende por adição, se existem diversas maneiras de tomar­ se dependente, as possíveis causas – biológicas, genéticas, psicológicas, existenciais – e qual é o arsenal terapêutico de que dispomos para tratar dos vícios comprovados.

Segundo o psiquiatra e psicanalista francês Jean Bergeret, o termo “adicto” – do latim addicus, – designa a pessoa que sofreu prisão por dívidas. Bergeret propõe uma abordagem psicanalítica do problema, afirmando que a dependência do corpo reflete uma tentativa inconsciente de pagar uma dívida, “Trata-se de procurar as carências afetivas que levaram o dependente a pagar, com o sacrifício do próprio corpo, os compromissos contraídos e não honrados”.

Em 1945, o psicanalista americano de origem austríaca Otto Fenichel descreveu pela primeira vez as “adições comportamentais” sob o nome de “toxicomanias sem drogas”. Fenichel as definiu como questões egossintônicas, isto é, problemas das condutas normalmente de acordo com o eu consciente. Seriam distintas de obsessões e compulsões, pensamentos obsessivos que voltam insistentemente e obrigam a pessoa a executar uma ação custe o que custar, sem considerar o bem ou o mal que ela pode acarretar (a necessidade imperiosa de lavar as mãos o dia inteiro, num obsessivo-compulsivo, por exemplo).

Mais tarde, adição se impôs como simples transposição do termo inglês addiction, usado em expressões como drug addiction, tobacco addiction e addiction to gambling (dependência do jogo). Atualmente, aplica-se às toxicomanias, ao alcoolismo, ao tabagismo, ao jogo patológico e até aos problemas do comportamento sexual ou alimentar, ou a relações amorosas “alienantes”. A nova classificação justifica-se em primeiro lugar porque esses problemas se parecem, todos eles se caracterizam pela repetição de um comportamento, que a pessoa supõe ser previsível, controlável, contrapondo-se à incerteza das relações regidas pelo desejo, ou simplesmente existenciais, que governam os relacionamentos.

Além disso, alcoolismo, tabagismo, toxicomanias e mesmo distúrbios da conduta alimentar são frequentes entre jogadores patológicos, indicio de que eles têm uma ”tendência à adição”, no sentido lato. Um toxicômano pode, por exemplo, tornar-se alcoólatra, depois jogador, e então comprador compulsivo, existem tantas pontes entre as diversas formas de adição que quase justificam dizer, “Não importa o vício, desde que traga prazer”. E finalmente cabe ressaltar a semelhança dos tratamentos propostos. A existência de grupos de ajuda mútua, baseados nos “tratamentos em 12 passos”, adotados principalmente pelos Alcoólicos Anônimos, é de fundamental importância. Com efeito, propõem-se os mesmos princípios de tratamento, convencimento e redenção moral aos alcoólatras, toxicómanos, jogadores, aceitos por muitos deles.

É importante notar um aspecto inevitável em todas as adições. Trata-se de condutas que sempre se inseriram no âmbito da moral, antes de serem pensadas em termos médicos: não há dúvida de que a alimentação, o sexo, o álcool e as drogas pertencem ao campo das condutas regidas por prescrições e interdições religiosas e normas morais. Cabe acrescentar o jogo, na medida em que sabemos que os primeiros “jogos” – atirar ossinhos (ossos do carpo do carneiro) – eram, já na Suméria e na Babilônia, procedimentos oraculares (usados para consultar os deuses sobre o futuro) ou ordálicos (uma forma de indagar os deuses sobre a culpabilidade de um suspeito).

As abordagens clínicas atribuem papel cada vez mais importante, na própria definição das dependências ou adições, à sensação de encarceramento e de alienação experimentada pelo sujeito. E nessa abordagem chamada de “adictologia clínica”, as dependências sem drogas têm a mesma importância que o uso e abuso das substâncias.

Diante do surgimento desse conceito geral de adição, alguns clínicos temem que se perca de vista o caráter específico da doença da dependência, a toxicomania, e que esta seja banalizada e considerada um simples hábito incômodo ou socialmente “indesejável”: não haveria então nenhuma diferença entre o drogado convicto, cuja existência trágica foi descrita por William Burroughs em Junky, a paixão pelo chocolate ou o hábito de assistir a um seriado idiota na televisão. E, inversamente, outros receiam que os hábitos anódinos sejam qualificados como doenças, e que a medicina, por meio dessa ampliação do conceito de adição, termine por querer tratar o conjunto das condutas humanas. Esse risco de ampliação infinita, de deriva, de passagem da metáfora à explicação, justifica sem dúvida o fato de as adições ainda não constarem nos manuais estatísticos das doenças mentais.

Esse debate coloca a questão do limite entre o normal e o patológico. O filósofo Georges Ganguilhem, autor de O normal e o ´patológico, já levantou algumas questões fundamentais sobre esse tema: haverá uma continuidade entre normal e patológico, sendo as variações mera questão de grau? Ou, ao contrário, existirá uma diferença de natureza entre a condição normal e a de enfermo?

A pergunta costuma ser ignorada nos sistemas de saúde. O critério que importa é o estado de vitalidade das pessoas, e não as razões que as levaram a arruiná-la. Assim, quem bebe demais ou abusa do jogo não se diferenciaria de um alcoólatra ou de um jogador patológico. Os “doentes” e, antes, os dependentes ou “adictos” só seriam vistos como a extremidade, quase desprezível, de uma curva de probabilidades de Gauss. Partindo-se daí, falar de um estado normal é criar outros tantos estados patológicos que estão além ou aquém desse limite; por exemplo, toda pessoa que consome mais de dois copos por dia ou joga mais de 10% de sua renda.

Na realidade, o único critério capaz de garantir ao clínico sua condição de terapeuta, e não de mero instrumento de normalização, é a demanda do paciente. Para que haja doença e possibilidade de cuidados médicos, é preciso que seja expresso um sofrimento; a reunião de critérios objetivos e mensuráveis (a frequência do uso por dia, por semana) não basta. Em suma, apesar de toda a vontade de objetivação dos cientistas, não poderia haver patologia sem um sentimento de alienação, de estranhamento de si mesmo, de doença, relatado pelos próprios pacientes.

Dito de forma mais simples, há um momento em que se deixa de ser “gordo”, passando-se a integrar a categoria dos “obesos”. E esse momento implica uma modificação da percepção de si mesmo na sociedade, existe uma especificidade do ser no mundo anoréxico, assim como na obesidade, ainda que anoréxicos e obesos sejam apenas os extremos da curva de peso da população em geral. Todos esses elementos devem nos levar a uma atitude prudente em relação às classificações e escalas de adições de todos os tipos, como, por exemplo, o sexo virtual e vício em trabalho.

A dependência seria uma maneira de ser provocada. tanto por uma substância química, como por um mecanismo cerebral. Como reunir esses conceitos separados? As abordagens biomédicas valorizam principalmente os mecanismos cerebrais da dependência, os neurotransmissores (endorfinas, serotonina, dopamina); as abordagens psicossociais buscam os fatores sociológicos e psicológicos que determinam o consumo de substâncias psicoativas ou que levem às dependências em drogas. Um diagrama global, denominado esquema tríplice das dependências, faz a combinação dessas abordagens.

Segundo o psiquiatra francês Claude Olievenstein, os toxicômanos são o “encontro de um produto, uma personalidade e um momento socio- cultural”. Por melhor que seja, essa fórmula não oferece nenhuma explicação – mas tem a vantagem de indicar a maneira com que se deve abordar um fenômeno complexo, com vários eixos e variáveis. Examinemos agora, desses três pontos de vista, um caso significativo de dependências em drogas, o jogo patológico, reconhecido como doença pela Organização Mundial de Saúde desde 1992.

O jogo patológico, a atração exercida pelos cassinos, máquinas caça-níqueis e roleta, é inegavelmente a forma mais difundida de adição sem drogas. A literatura científica internacional a reconhece como patologia. Os critérios são próximos aos propostos pelo psiquiatra Aviel Goodman, aplicáveis às adições no sentido lato. Responsável por dívidas astronômicas, depressão, atos de delinquência, estima-se que o jogo patológico atinja de 1% a 4% da população dos Estados Unidos, da Inglaterra e da Austrália.

Há muito se conhece a afinidade entre a paixão pelo jogo e o uso da droga, mas resta saber o que, no jogador patológico, faz as vezes da droga. Da perspectiva biológica, o jogo é uma maneira de viver momentos de stress repetidos, o instante em que a bola da roleta vai parar, ou em que os cavalos vão ultrapassar a linha de chegada, provoca sensações fortes. Assim, o jogador ficaria dependente da própria adrenalina, e o jogo seria comparável a drogas como cocaína e anfetaminas.

Essa visão é corroborada por dados clínicos, grande número de jogadores faz essa comparação, especialmente com a cocaína. Segundo o esquema, essas pessoas buscariam situações capazes de romper com o cotidiano, já que se cansam do que lhes parece constante. Por isso, adotam comportamentos que possam levá-las a descobertas cada vez mais vastas, espantosas, insólitas.

Para explicar a dependência do ponto de vista biológico, sempre se recorre a dois mecanismos: a tolerância e a sensibilização. Trataremos aqui apenas do primeiro e de uma teoria que visa explicá-lo, o modelo dos processos opostos. O fenômeno da tolerância se manifesta quando a repetição de uma conduta ou o uso repetido de uma substância leva a um esgotamento dos efeitos de prazer ou de anestesia e a um consequente aumento das doses para alcançar os mesmos resultados. Depois de certo tempo, a pessoa já não obtém as sensações iniciais (o prazer da droga ou do jogo), mas continua, “só para se sentir normal”. De fato, quando suspende a conduta, tem sensações desagradáveis: é a síndrome da abstinência.

Assim, todos os jogadores patológicos conhecem a espiral das apostas. Na primeira vez, apostam pouco e ficam excitados com isso. Em seguida, essa quantia já não provoca excitação. Por meio desse esquema psicológico pode-se compreender a maior vulnerabilidade das pessoas inclinadas para a “busca de novidade”: elas logo se cansam. Aumentando a “dose”, o jogador consegue manter o mesmo nível de excitação, mas de certo modo desloca o nível inicial (ele aposta somas cada vez maiores).

DUPLO MECANISMO

A teoria dos processos opostos explica esse comportamento. Formulada pela primeira vez pelo psicólogo Robert Solomon, popularizada em seguida por Jean-Didier Vincent, afirma que a tolerância resulta de um duplo mecanismo, os efeitos da droga continuarem num nível inconsciente, tão fortes como no primeiro dia, mas o organismo reage a essa cota regular com um movimento contrário: ele “secreta’ sofrimento para equilibrar o prazer. O efeito desses dois processos é o enfraquecimento progressivo das sensações. Em caso de interrupção, a inércia do sistema faz com que a “produção” de sofrimento continue ainda por algum tempo, sentimento este que não é compensado pelo uso da droga. Assim se explica a síndrome de abstinência.

Vejamos agora as consequências desse mecanismo no jogador patológico. Ao entrar no bingo pela primeira vez, ele sente um nível médio de satisfação. O fato de apostar R$10,00 lhe propicia uma excitação e um prazer superiores ao de sua satisfação mediana. Não obstante, bem rápido seu nível de contentamento volta ao patamar inicial, apesar de manter a aposta. Os que aceitam a teoria dos processos opostos diriam que entrou em cens um mecanismo oposto ao do prazer, contrabalançando rápido o prazer ligado ao fato de apostar essa quantia. No momento seguinte, o jogador busca aumentar sua satisfação aumentando a “dose”, aposta R$ 100,00 e obtém prazer análogo que sentira ao apostar RS 10,00. Não obstante, esse nível de prazer bem depressa volta ao patamar inicial, agora é preciso apostar R$ 100,00 para ficar apenas razoavelmente satisfeito. Se apostasse apenas R$ 10,00, iria se sentir frustrado. Se nada apostasse, seria tomado por uma profunda angústia. O processo oposto ao do prazer que se tinha instalado para fazer voltar o nível de satisfação ao seu patamar inicial, agora é o único em funcionamento.

Esse esquema explica não apenas a patologia do jogo, mas também o fato de o organismo habituar- se a drogas como a heroína ou os barbitúricos. Ele está presente onde quer que haja bem-estar ou mal-estar, nas relações afetivas às vezes se fala de co-dependência de uma pessoa em relação ao cônjuge. Pode-se recorrer ao esquema dos processos opostos para explicar a evolução no longo curso das relações de um casal, os arroubos amorosos do início vão diminuindo, mas depois de algum tempo os parceiros imaginam não mais poder separar­ se, por medo do sofrimento daí decorrente.

A abordagem psicanalítica contribui para a compreensão das dependências em drogas. No esquema das três variáveis, a psicanálise considera o produto não como uma sensação de excitação, uma descarga de dopamina ou de adrenalina, mas como um esquema relacional entre o indivíduo e sua família. Estudando a paixão do jogo em Dostoievski, Freud identificou duas fases na sequência de jogo: num primeiro momento, por meio do ganho ou da esperança de ganho, o jogador regride a uma posição de onipotência infantil que corresponde, em termos edipianos, ao assassinato imaginário do pai e à posse da mãe. Em seguida, pune-se pela realidade da perda, por ter ousado transgredir os tabus mais fundamentais.

O “caso Dostoievski” mostra que o jogo constitui um equivalente ao julgamento de Deus, uma verdadeira prova ordálica. Durante toda sua vida o escritor se debateu coma questão de sua culpabilidade imaginária na morte violenta do pai, ocorrida quando ainda era adolescente. A pergunta feita ao acaso (designada por Aristóteles pelo termo automaton, e também por Tykhe, deusa do acaso e da fortuna) é a própria questão da vida do sujeito, de seu direito de continuar a viver. Assim, para alguns psicanalistas as adições seriam mero sintoma e não uma entidade mórbida, seriam um deslocamento de conflitos inconscientes. Como entender essa afirmação Freud deu muitos exemplos desse fenômeno que está na origem da constituição de um sintoma. Como acontece muitas vezes na psicanálise, quando um recalque se opõe a uma pulsão, a saída encontrada pelo psiquismo é um sintoma. Imaginemos por exemplo um rapaz com paralisia num braço, sem explicação neurológica. Essa paralisia “neurótica” ou “histérica” é a tradução corporal (o sintoma) de um conflito psíquico, surgido, nesse caso, quando das primeiras práticas masturbatórias do menino, que se teriam chocado com o interdito moral (real ou no inconsciente dele) imposto pelo pai, pelo meio social etc. No dia em que toma consciência de que, por um lado, é habitado por uma pulsão, e, por outro, é submetido a um recalque, o menino recupera a função do braço.

Com frequência, no caso dos jogadores patológicos, identificamos nos familiares inextrincáveis. O esquema detectado por Dostoievski é de notável precisão. Os pacientes quase sempre têm um conflito com o pai. Aos 18 anos, um dos jogadores descobre que o pai, pessoa bastante respeitada em sua cidade provinciana, é um rufião. De um só golpe, o jovem sente todas suas referências morais desmoronar. Que pode ele considerar confiável, de tudo o que lhe foi ensinado? Não há ninguém a quem fazer essa pergunta. Então, tal como Dostoievski, ele se volta para a roleta e para as máquinas caça-níqueis, esperando uma resposta que seria um sinal do destino.

A dependência é o encontro entre uma personalidade e um produto em determinado contexto. O que se entende por personalidade? Para os psicobiólogos, fatores hereditários explicariam, em parte, as diferenças de temperamento. É preciso também levar em conta a marca da infância na personalidade. Inúmeras pesquisas investigam as relações entre o tipo de ligação precoce do filho com a mãe e os riscos de dependência que o filho corre quando se torna adolescente e adulto.

Em termos esquemáticos, a ligação de uma criança com a mãe pode ser do tipo “seguro”, ansioso, esquivo ou confuso. Uma criança que tem um laço seguro com a mãe não teme vê-la ausentar-se, pois está acostumada a vê-la de volta dando ­ lhe muita atenção. A criança ansiosa fica inquieta quando a mãe sai, talvez porque em determinadas circunstâncias críticas ela lhe deu a impressão (ou a criança teve a impressão) de não atender satisfatoriamente a suas expectativas. Essa criança não está habituada a esperar, com toda a confiança, que mais tarde lhe deem aquilo de que precisa. Sente apenas a ausência daquilo que ama e a incerteza sobre a possibilidade de reencontrá-lo. Essa angústia explicaria o esquema de dependência, o jovem que se entrega às drogas ou a um comportamento típico de vício reencontra essa situação de falta, mas, ao contrário do que viveu com seus pais, acha a solução porque sabe como conseguir a droga ou o prazer do jogo.  

Finalmente, nesse esquema de três variáveis atua a sociedade. Segundo alguns sociólogos, a dependência é anatematizada pela sociedade. Serve para distinguir determinadas categorias sociais, marginalizá-las ou rotulá-las. Essa norma evolui com o tempo e de acordo com as sociedades, tanto que, há 30 anos os fumantes não eram estigmatizados como o são atualmente. E entre as diversas etnias da África ou da América do Sul o consumo de substâncias entorpecentes é apenas uma maneira de viver em sociedade. A ninguém ocorreria dizer serem essas pessoas dependentes.

Que lugar ocupam as “novas dependências” nesse esquema? Aqui não se trata, necessariamente, de novas dependências, mas de novos objetos de dependência. No caso das adições cibernéticas, cumpre distinguir dois tipos de dependência. O primeiro é o first player shooter, jogos que os adolescentes apreciam, como Doom, Resident Evil ou Tomb Raider, o jogador movimenta-se num meio hostil em que abate todos os inimigos que lhe cruzam o caminho. Esses jogos propiciam descargas de adrenalina: “recompensas” sob a forma de ativação do sistema dopaminérgico, que causam prazer intenso e excitação. No modelo que apresentamos, o “produto” (a “droga”) é uma sensação.

Os jogos de aventuras, como o Everquest ou Dark Age of Camelot, por exemplo, criam dependência próxima das causadas pelos opiáceos. O jogador busca uma sensação de bem-estar. O mesmo acontece no caso da dependência dos esportes de resistência, nesses esportistas, verifica-se a liberação de encefalinas, substâncias sintetizadas pelo organismo eque pertencem à família da morfina. Elas foram descobertas a partir do seguinte raciocínio: se os opiáceos atuam sobre o organismo é porque eles têm receptores e tais receptores existem no organismo, é porque substâncias endógenas nele se fixam. Foi assim que se descobriram os opiáceos endógenos, as encefalinas, que provocam uma sensação de euforia e de analgesia (elas combatem a dor). Entre os jovens dependentes de videogames, praticamente não se encontram pessoas “inclinadas” a “correr riscos” ou personalidades “em busca de sensações”. Sua atitude assemelha-se a busca de refúgio, evitando os riscos inerentes à vida “de verdade”.

A dependência do trabalho certamente pode ser entendida da mesma maneira: ela compreenderia uma vertente “doença”, de busca de analgesia. e uma vertente “sintoma”, que a psicanálise interpretaria como o efeito de um recalque. Outras dependências sem drogas não são novas, são afetivas: as dos casais infelizes, que ficam juntos, apesar de tudo, pelas razões já apontadas, principalmente a incapacidade de se separar de uma pessoa pela qual já não se sente nada de especial (pois já se desenvolveu uma “tolerância” a esses sentimentos)  em compensação, a “falta” se faria sentir em caso de separação.

Deve-se concluir daí que as dependências tolhem nossa liberdade e nosso bem-estar? Não vamos tão longe. Uma pessoa livre de toda e qualquer dependência seria incapaz de criar laços, quaisquer que fossem eles. Esses laços são sinal de uma vitalidade benéfica, o que importa é saber manter o equilíbrio entre as diversas formas de dependência que se é obrigado, inevitavelmente a contrair. Quem serve a vários senhores, evita submeter-se a um tirano.

TRÍPLICE DEPENDÊNCIA

Uma toxicomania nasce ao encontro entre uma personalidade e um produto, em determinado contexto. No caso do jogo patológico, a abordagem psicanalítica supõe rupturas do esquema familiar (por exemplo, uma dúvida sobre os valores transmitidos pelos pais), que podem criar um  contexto de dependência; em busca de respostas, o jogador interrogaria o acaso inconscientemente: o caráter aleatório do jogo – o produto – seria um juiz invisível; enfim, o  jogador seria um temperamento em busca de novidade e de sensações. Os biólogos consideram o contexto um conjunto de índices disparadores, e o produto como a excitação por causa da liberação de adrenalina e de dopamina no cérebro. Eles buscam no âmbito da personalidade genes que criam maior reatividade do cérebro a esses hormônios de prazer.

VOCÊ É DEPENDENTE?

Para definir o que é uma “adição”, recorre-se muitas vezes à definição proposta em 1990 pelo psiquiatra americano Aviel Goodman:

A. Você é incapaz de resistir aos impulsos que o impelem a ter esse tipo de comportamento.

B. Imediatamente antes do início dessa ação, você sente tensão cada vez maior.

C. Enquanto ela dura, você sente prazer ou alívio.

D. Enquanto você o realiza, sente uma perda de controle.

E. Alguns elementos da síndrome duraram mais de um mês ou se repetiram por período mais longo.

F. Você se enquadra em pelo menos cinco dos nove critérios abaixo discriminados:

1) Sua mente está sempre ocupada pelo comportamento ou por sua preparação.

2) Os episódios são mais intensos e duradouros do que o inicialmente pretendido.

3) Com frequência você procura reduzir, controlar ou abandonar o comportamento.

4) Você passa muito tempo preparando os episódios, concretizando-os e se recuperando deles.

5) Com frequência você recorre a esse comportamento quando precisa cumprir obrigações profissionais, escolares ou universitárias, familiares ou sociais.

6) Atividades sociais, profissionais ou recreativas importantes são sacrificadas pelo comportamento em questão.

7) Você perpetua o comportamento, mesmo sabendo que ele causa ou agrava um problema persistente, de caráter social, financeiro, psicológico ou físico.

8) Você sente necessidade de aumentar sua intensidade ou sua frequência para obter o efeito desejado. Pouco a pouco, um comportamento de mesma intensidade vai perdendo o efeito inicial.

9) Se você não consegue realizá-lo, torna-se agitado ou irritadiço.

OUTROS OLHARES

A MULTIPLICAÇÃO DAS CÂMERAS

Com três, quatro e até cinco lentes, os celulares agora filmam e registram várias cenas simultaneamente. É o jogo da indústria para lançar novidades e atrair consumidores

Quando o presidente da Apple, Tim Cook, subiu ao palco no mais recente evento de lançamentos da empresa, em 10 de setembro, já circulava pelas redes sociais uma série de memes que faziam troça do novo design do iPhone, que vazara dias antes. A versão de número 11 do smartphone, que chegou às lojas brasileiras em tempo recorde, foi comparada a uma boca de fogão e a lâminas de um barbeador elétrico. Por quê? Em sua traseira, o celular ostenta, sem sombra de discrição, nada menos que três câmeras fotográficas, situadas em um quadrado no canto superior esquerdo do aparelho. Foi um susto – e fez-se graça porque o visual é mesmo esquisito.

Restou a questão: para que tantas lentes? O avanço na qualidade da imagem, em si, com a medição em megapixel, estagnou nos últimos anos, como se o limite já tivesse sido alcançado. “Daqui para a frente, nesse quesito, só faria alguma diferença caso a maioria dos usuários pretendesse imprimir fotos do tamanho de prédios. Não é o caso”, diz o analista americano da indústria da tecnologia Ryan Reith, vice-presidente da renomada consultoria IDC. Diante da constatação, os fabricantes tiveram de buscar outra forma de apresentar avanços nas fotos e nos vídeos produzidos por celulares. Asolução, um tanto lúdica, foi incluir lentes suplementares de modo a adicionar uma série de funções que antes eram restritas a equipamentos profissionais.

No caso da Apple, as três câmeras permitem filmar, simultaneamente, mais de uma cena, ou ainda realizar fotografias panorâmicas em 180 graus. Nesse aspecto, o iPhone segue tendência iniciada por concorrentes, que intuíram um atalho para superar a marca da maçã logo depois do nascimento do primeiro iPhone. Pioneira, a taiwanesa HTC lançou em 2011 um celular, o EVO 3D, com uma dupla de câmeras. Não vingou. A multiplicação só começou a ter sucesso no mercado cinco anos depois, em 2016, com o iPhone 7, que trazia uma lente extra, ao lado da principal, do mesmo tamanho, que possibilitava dobrar o zoom das fotografias. Desde então, todas as maiores fabricantes aderiram à onda, e agora com visível estardalhaço.

O aumento da presença das lentes obrigou à revisão do design dos dispositivos. Quanto mais câmeras passaram a ser agregadas, mais naturalmente perceptíveis elas se tornaram no desenho dos celulares. Seguiu-se a praxe na indústria: cada inovação incorporada ao gadget leva a remodelagens. Em 1996, quando teclados físicos começaram a ser adicionados aos celulares, por iniciativa da finlandesa Nokia, a charada era oferecer um dispositivo que não fosse muito grande, mas que tivesse teclas minimamente ergonômicas. O conceito evoluiu para os palmtops, que se popularizaram com a canadense BlackBerry. Até que, em 2007, o iPhone foi lançado, com tela sensível ao toque e, portanto, dispensando os teclados físicos. Nascia ali uma nova era.

Não se sabe ainda que cara terá, no futuro breve, a família de smartphones com várias câmeras. Não há consenso, e por isso uns são tão diferentes dos outros. A Apple, insista-se, optou por inserir as lentes no canto. A chinesa Xiaomi, do modelo Mi Alpha, decidiu apostar numa régua com todas elas juntas, enfileiradas. No fim, as fabricantes têm em comum a busca por exibir as inovações de forma que chamem a atenção dos consumidores em um mercado cada vez mais repleto de opções. Como costuma dizer Tim Cook nas apresentações da Apple, trata-se de procurar pela “melhor versão já fabricada”. Ou, em outras palavras, buscar a versão que mais facilmente funcione como marketing de si mesmo, exibindo aos quatro ventos as traquitanas que darão o que falar.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 18 DE FEVEREIRO

A OVELHA PROCURADA

Qual, dentre vós, é o homem que… não deixa no deserto as noventa e nove [ovelhas] e sai em busca da que se perdeu, até encontrá-la? (Lucas 15.4).

Na parábola que Jesus contou sobre a centésima ovelha, o pastor não desistiu pelo fato de ela ter-se afastado do rebanho. O pastor poderia ter encontrado justificativas plausíveis para abandonar essa ovelha perdida à própria sorte. Talvez ele já tivesse alertado aquela ovelha sobre os perigos da solidão. Talvez o pastor já tivesse flagrado aquela ovelha se distanciando do rebanho e caminhando em direção a lugares perigosos. Talvez o pastor pudesse alegrar-se com o fato de que ainda tinha em segurança 99 ovelhas que estavam sob seu cuidado e proteção. O pastor não discutiu as razões da queda da ovelha. Ele foi buscá-la. Enfrentou riscos para resgatá-la. Não retornou ao aprisco até trazê-la em seus braços.

Jesus não desiste de você, mesmo quando você tropeça e cai. O amor de Cristo por você é incondicional. Ele não abdica do direito de ter você em seus braços. Ele desceu da glória para buscar e salvar o perdido. Para resgatar você da morte, ele suportou a morte, e morte de cruz. Para dar a você a vida eterna, ele bebeu o cálice amargo da ira de Deus. Sofreu o castigo que os seus pecados merecem. Você já foi encontrado pelo divino pastor?

GESTÃO E CARREIRA

APOSTA NO ESCURO

O investimento em cozinhas só para aplicativos de entrega – as dark kitchens – é a onda da vez no Brasil e no mundo. A Mimic recebeu 38 milhões de reais sem fritar um único hambúrguer

Os prejuízos enormes e recorrentes de empresas como o aplicativo de transporte Uber e a startup de compartilhamento de escritórios WeWork começam a gerar dúvidas nos investidores. Afinal, se as grandes expoentes da nova economia estão sofrendo, o que será das outras? Os problemas dos gigantes, porém, não atemorizam novos empreendedores. Continuam a brotar startups para surfar a onda da economia de serviços. É o caso de negócios criados por profissionais habituados a setores tradicionais que veem nos aplicativos uma forma de cortar caminho até os consumidores. Um exemplo é a startup brasileira Mimic, de cozinhas compartilhadas. A companhia foi fundada em junho pelo equatoriano Andres Andrade, que atuou como investidor imobiliário no Brasil representando uma empresa israelense e agora planeja popularizar as chamadas dark kitchens (“cozinhas escuras”, numa tradução literal), especializadas na preparação de comida para aplicativos de entrega, como iFood, Uber Eats e Rappi. Em poucos meses, a Mimic captou 38 milhões de reais e alcançou um valor de mercado estimado em 100 milhões. Detalhe: sem fazer um único prato até então. Os tradicionais fundos de investimento Monashees, Valor Capital e Canary foram os responsáveis pela maior parte dos aportes, mas nomes como David Vélez, fundador e presidente do banco digital Nubank, e José Galló, ex-presidente da varejista Renner, entraram como investidores-anjo.

As cozinhas compartilhadas são a mais nova tendência do ramo de serviços alimentícios. Nos Estados Unidos, o fundador do Uber, Travis Kalanick, afastado da empresa, investiu num negócio desse tipo, a CloudKitchens. Google e Amazon têm planos parecidos. Essas empresas em geral constroem grandes cozinhas para alugar às redes de alimentação. Andrade, da Mimic, pretende ir além. Ele busca marcas conhecidas do público final e se compromete a treinar os funcionários para seguir a preparação exata da comida dos clientes, e ainda oferece serviço de atendimento personalizado. Os restaurantes só entram com a receita do prato e com a marca, e recebem royalties por isso. “Acreditamos que o restaurante precisa ser um ponto de experiência”, diz Andrade. “As entregas podem ficar separadas até para melhorar a qualidade do serviço.” A primeira experiência começou há cerca de um mês. A hamburgueria Patties, inspirada no primeiro restaurante do McDonald’s e com apenas uma loja no bairro do Brooklin, em São Paulo, foi a escolhida para o teste. A lanchonete vende cerca de 1.500 hambúrgueres por dia em sua loja física. Com um mês de vendas pelos aplicativos Uber Eats e Rappi, a Mimic chegou a vender 3.000 sanduíches em 24 horas. A Mimic já tem uma parceria fechada com uma rede de pizzarias e outra de café. A meta é abrir mais cinco unidades até o fim do a no que vem. Um estudo da consultoria ECO Food Service, especializada na área, com o apoio da Associação Brasileira de Franchising, mostra que as cozinhas compartilhadas são vistas como a terceira maior oportunidade de crescimento no setor: 44% dos donos de restaurantes creem nisso. A ideia só está atrás de aberturas de lojas menores e de quiosques, com 52% e 49%, respectivamente. A questão é se essa tendência vai se confirmar. Há cinco anos, o Brasil foi palco de uma explosão de food trucks, que logo, salvo algumas exceções, caíram no ostracismo. Não é o que os investidores pensam das cozinhas compartilhadas. “Esse modelo de negócios é mais rentável, pode vender por todas as plataformas ou até mesmo direto ao consumidor. Não vejo, por exemplo, a Mimic entrando numa guerra de preços”, diz Vélez, do Nubank, um dos investidores-anjo.

Outra questão é saber para onde vai o mercado de entregas, hoje vitaminado por cupons de descontos de startups como iFood, Uber Eats e Rappi. Esse mercado fatura 11 bilhões de reais por ano, segundo a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes. Mas os lucros estão distantes, e a ordem é expandir a todo custo. Para cortar custos, os próprios aplicativos criam marcas e constroem cozinhas. A Rappi anunciou que investirá na modalidade no Brasil em 2020 – a empresa já tem 200 cozinhas na América Latina e quer chegara 600 no ano que vem. “Essas empresas já estão como poder das entregas e agora querem a gestão do restaurante”, diz Enzo Donna, presidente da ECD. Um desafio é o atendimento. Um levantamento da consultoria Airfluencers nas redes sociais mostra que 55% das interações dos consumidores com as marcas são negativas. Entre as principais críticas estão demora na entrega e cupons que não funcionam. A Mimic criou uma área de atendimento para não fazer parte dessa estatística. Mas não tem como oferecer os descontos agressivos dos grandes aplicativos. O plano é ganhar dinheiro hambúrguer por hambúrguer.

UMA TENDÊNCIA À PROVA

O interesse por montar cozinhas exclusivas para delivery cresceu no último ano. A questão é saber se esse negócio passará da fase da moda

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

CICATRIZES DA INFÂNCIA

Experiências traumáticas e falta de carinho nos primeiros anos de vida podem modificar os circuitos cerebrais. Seria esta uma das causas dos transtornos psíquicos?

Hiperatividade, déficit de atenção, autismo, transtornos nos hábitos alimentares, esquizofrenia, ansiedade e depressão formam um rosário de problemas sobre os quais se estendia, antigamente, um véu de silêncio. Hoje ocupam mais espaço na mídia e, em geral, são atribuídos a experiências traumáticas vividas na primeira infância. Até recentemente, porém, essa afirmação carecia de apoio científico suficiente. Mas parece cada vez mais claro que experiências traumáticas influem decisivamente nas conexões neuronais do cérebro infantil e no equilíbrio dos neurotransmissores, causando mudanças capazes de aumentar, de modo significativo, a vulnerabilidade a transtornos psíquicos em fases posteriores da vida.

Supunha-se que o desenvolvimento e o funcionamento do cérebro eram fixados geneticamente. Mas estudos recentes sugerem que a variedade dos estímulos do meio determina o modo de formação das redes neuronais. Nos primeiros meses e anos de vida, esses estímulos procedem, nos humanos e em muitos animais, principalmente dos pais.

Há alguns decênios, as pesquisas sobre comportamento mostram que experiências de aprendizado na primeira infância com forte conteúdo afetivo – como a formação de um vínculo emocional entre o recém-nascido e os pais – dirigem o desenvolvimento psicológico da criança. Nos anos 40, René Spitz, do Instituto Psicanalítico de Nova York, estudou centenas de bebês nascidos em um orfanato. Ele observou que um em cada dez manifestava uma atitude de retraimento em relação ao meio. Além disso, constatou que esses bebês tiveram atraso no desenvolvimento psíquico geral.

CARINHO EMOCIONAL

Para determinar a causa desses transtornos, Spitz realizou um estudo de longo prazo com crianças de orfanato. Descobriu que lhes faltava, além dos estímulos intelectuais, principalmente carinho emocional. Estas primeiras pesquisas sugerem claramente que as crianças adaptam o próprio comportamento ao meio circundante durante as primeiras experiências emocionais após o nascimento.

Nos anos 50 e 60, Clara e Harry Harlow, da Universidade de Wisconsin, Estados Unidos, estudaram chimpanzés para determinar o que ocorria quando a cria perdia precocemente os genitores. Os resultados confirmaram as observações dos estudos com os bebês de orfanato: os chimpanzés adultos que cresceram sem a mãe apresentavam distúrbios permanentes de comportamento. Brincavam menos, eram mais ansiosos e menos interessados em explorar o ambiente que os congêneres criados em circunstâncias normais. Poucas dessas fêmeas procriaram e, quando o fizeram, não souberam cuidar da cria.

Como a presença ou ausência de experiências emocionais podem acarretar alterações tão drásticas de comportamento? Nos últimos anos, neurobiólogos começaram a investigar em animais a influência no cérebro das experiências emotivas e processos de aprendizagem precoces. Já se sabia que os neurônios podem estabelecer conexões distintas quando, em certas fases do desenvolvimento, faltam estímulos para as várias regiões do córtex cerebral. Pesquisadores agora invocam a intervenção do sistema límbico, que desempenha um papel fundamental no controle do comportamento mediante os sentimentos e na aprendizagem e configuração da memória.

Nosso grupo estudou pela primeira vez como se formam os vínculos emotivos entre um recém-nascido e seus pais, fenômeno conhecido como “imprinting filial. Apresentamos a pintos recém-nascidos ruídos artificialmente produzidos de uma galinha, colocando ao mesmo tempo à disposição dos filhotes uma galinha falsa de pano para que se aconchegassem: os primeiros estímulos agradáveis dos filhotes. Estes associaram o estímulo acústico até então privado de significado – a voz artificial da mãe – à situação emocional, -recebendo assim o imprinting, e logo distinguiram os ruídos maternos de outros estímulos acústicos. Corriam em direção à “mãe” tão logo os ouviam.

Queríamos saber o que se passa no cérebro dos animais durante o imprinting. Descobrimos mudanças consideráveis nas propriedades das células nervosas de algumas áreas do prosencéfalo responsáveis pelo reconhecimento do estímulo do imprinting e, provavelmente, por sua coloração emocional. Nos mamíferos, correspondem às áreas associativas do córtex cerebral, para as quais convergem sinais procedentes de diversas partes do cérebro. O som aprendido ativa muito mais essas zonas do cérebro nos animais que receberam o imprinting que nos animais de controle sem uma mãe artificial substituta. Além disto, os neurônios dos animais com o imprinting reagem ao estímulo com impulsos elétricos mais intensos, isto é, são mais sensíveis. Esta mudança provavelmente ocorre por uma reorganização dos contatos transmissores de informação entre neurônios, as sinapses. De fato, nos primeiros 90 minutos depois do início do imprinting filial, aumentam os contatos sinápticos em uma área do cérebro dos pintos que nos mamíferos corresponde ao setor anterior do córtex cingular, parte do sistema límbico. O cérebro parece querer captar e fixar no maior número possível de canais o novo estimulo que encerra um valor de sobrevivência.

Ao longo deste processo de aprendizagem, as sinapses diminuem novamente. Os pintos de uma semana que receberam o imprinting apresentaram, nas áreas associativas do prosencéfalo, menos sinapses “espinhosas” (predominantemente excitatórias) que animais sem imprinting. Do excesso de ofertas de conexões sinápticas inespecíficas, só permanecerão ativas as que processam estímulos emocionais importantes. Estas conexões são integradas na rede neuronal e podem ser ainda mais reforçadas, mas as inúmeras conexões não envolvidas no estímulo são eliminadas. Assim, a rede neuronal poderá reagir de forma mais precisa aos estímulos significativos.

Nos animais que cresceram sem contatos sociais, falta esta seleção de sinapses, o que os impede de otimizar seus circuitos límbicos. O incremento e a eliminação de sinapses só ocorrem quando o animal pode associar o estímulo acústico à situação emocional positiva. Um estímulo afetivamente neutro não basta, se os sons não são acompanhados da presença da galinha artificial, as mudanças sinápticas não ocorrem nos pintos. Por outro lado, bastam 30 minutos de estímulo acústico e a presença da mãe artificial para iniciar a seleção das sinapses. As primeiras experiências emocionais contribuem para determinar o padrão fundamental dos circuitos neuronais no sistema límbico durante a primeira fase de desenvolvimento. Estes padrões determinam quais modelos de comportamento e de aprendizado serão possíveis em seguida.

A bioquímica dos neurônios também é alterada no imprinting filial. A mudança afeta sobretudo os neurotransmissores. Após ouvir o som da galinha, os pintos com imprinting produzem no prosencéfalo mais glutamato que aqueles para os quais o som carece de sentido. O glutamato, então, ativa o NMDA (N-metil-D­ aspartato) e todas estas respostas bioquímicas servem claramente para consolidar o vínculo emocional entre a cria e os progenitores. Se, durante a aprendizagem, o glutamato não se ligar aos receptores NMDA e ativar os neurônios, os animais deixarão de associar o som à situação emocional. Com isso não poderão receber o imprinting.

GENITORES SOLÍCITOS

Também nos humanos a seleção das sinapses é dirigida por processos de aprendizagem e aquisição de experiência. Nos mamíferos, a criação de sinapses serve para adaptação ao meio. Nos primatas, em várias de suas áreas cerebrais e no sistema límbico em particular, são inúmeras as conexões criadas e depois eliminadas.

A capacidade de adaptação dos filhotes de primatas tem um lado obscuro: é eficiente também em condições adversas, quando há, por exemplo, carência afetiva e experiências traumáticas. Podem resultar disto erros de conexão no sistema límbico, capazes provocar transtornos do comportamento e psíquicos.

Para verificar esta hipótese, estudamos filhotes de degus, uma espécie de roedor existente no Chile. Os degus “falam” entre si de forma muito complexa: sua comunicação por meio de sons desempenha um papel importante na família e na colônia. Além disso, os genitores participam ativamente da criação dos filhotes.

Separamos os pequenos degus da família durante períodos mais ou menos longos e em diversas fases do desenvolvimento. Para esses animais é uma experiência muito negativa, associada a stress e medo. Quando examinamos o consumo de energia no cérebro dos filhotes separados, constatamos que o sistema límbico reduzia sua atividade. Investigamos em seguida as mudanças, ao longo do tempo, nas sinapses dos roedores. Em filhotes que crescem ao lado dos genitores e irmãos as sinapses espinhosas no córtex cerebral anterior inicialmente aumentam, para depois diminuir.  Se, pelo contrário, nas primeiras semanas de vida as crias são separadas dos genitores por algumas horas, observa-se um número maior dessas sinapses. A situação é similar à observada nos pintos que não receberam imprinting filial. Também neste caso parece, portanto, que a experiência desagradável afeta as sinapses.

CARÊNCIA E TRANSTORNOS PSÍQUICOS

Nos degus, outras partes do sistema límbico mudam em função da experiência emocional, como por exemplo, o núcleo accumbens, que colabora na gênese das paixões; a amígdala, centro da apreensão e da agressividade e o hipocampo, porta de entrada para as informações destinadas à memória. Estas mudanças sinápticas diferem conforme a região cerebral. A longo prazo, o equilíbrio entre as regiões límbicas pode mudar com consequências imprevisíveis para a estabilidade psíquica.

O equilíbrio entre os neurotransmissores também pode ser alterado, en1 particular entre a dopamina e a serotonina, substâncias reguladoras do processamento cerebral das emoções. Nos degus com carências emocionais alteram-se tanto a quantidade das fibras nervosas produtoras de serotonina ou de dopamina como a densidade das respectivas moléculas receptoras. Apenas três dias depois de algumas breves separações aumentaram, em partes do sistema límbico, o número de receptores de dopamina e serotonina. É interessante lembrar que muitos transtornos psíquicos humanos exibem um desequilíbrio destas substâncias.

Todas estas mudanças biológicas no cérebro podem influir diretamente no aprendizado e no convívio social, chegando a causar transtornos psíquicos, como sugerem os primeiros resultados das pesquisas sobre degus e ratos de laboratório em condições de privação.

Evidentemente não podemos realizar experimentos similares com humanos. Após a dissolução do bloco soviético, entretanto, pesquisadores estudaram bebês de orfanatos romenos e constataram redução análoga da atividade no sistema límbico anterior quando comparada à atividade nos bebês normais. Um déficit similar é encontrado em pacientes que sofrem de transtornos de atenção e de esquizofrenia.

À primeira vista, essas alterações do comportamento se assemelham incrivelmente aos sintomas de bebês hiperativos ou com déficit de atenção. Este comportamento também poderia ser causado em humanos pela segregação do núcleo familiar? É possível. As experiências emocionais devem influir no desenvolvimento cerebral dos bebês da mesma forma que nas crias de outras espécies: também nos humanos os transtornos psíquicos estão provavelmente associados a transformações sinápticas nos circuitos emocionais límbicos. Uma consequência dramática destas conexões cerebrais errôneas é a formação de uma rede neural mal estruturada, capaz de provocar desde transtornos comportamentais e de aprendizagem até doenças psíquicas. A elucidação destas relações abre perspectivas para a correção de desenvolvimentos errôneos. Quando conseguirmos isto, os meios de comunicação não só fornecerão informações sobre transtornos psíquicos, mas também sobre novos métodos para ajudar pessoas afetadas.

OUTROS OLHARES

A CORRIDA VIROU BALADA

No Brasil, há quase tanta gente que corre quanto pessoas que jogam futebol. Essa turma descolada agora quer variar e achou um jeito: mover-se sob a luz da Lua – para tudo acabar em festa

Muitas luzes coloridas fumaça, DJ. À primeira vista, parece ser uma balada como outra qualquer. Mas o que dizer do invariável figurino tênis, short e camiseta? E das bandejas onde só há água e, com um pouco de sorte, isotônico? Cardápio: barrinha de cereais, banana, maçã. Bem­ vindo à reunião de uma tribo que une o útil ao agradável e embala a toda na onda das corridas de rua noturnas. O exercício é para valer, com percursos de 5 ou 10 quilômetros, mas diferentemente da malhação tradicional, sempre começa e acaba em festa. O crescente entusiasmo dos brasileiros pelas corridas sob a luz da Lua tem a ver com o conhecido pendor humano para a novidade. Como o Brasil já é considerado há pelo menos uma década uma nação de corredores de rua com 4,5 milhões de praticantes – a modalidade só perde para o futebol -, essa turma vive em busca de variedade. E a resposta do mercado veio com o ”corujão”. ”A gente foge do sol e ao mesmo tempo se diverte”, diz a enfermeira Anier Siqueira, 26 anos, contando os minutos para a travessia Up Night, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro. Detalhe: o visual esportivo com profusão de cores, comum nessas pistas, se adapta à dupla função.

As corridas-balada vêm se disseminando por todo o país, promovidas por empresas que detectaram nelas um bom negócio. Paras ter uma noção de seu vigor, do início dos anos 2000 para cá os trajetos noturnos se multiplicaram quase vinte vezes. Estima-se que, a cada três desses eventos de rua, um aconteça à noite. A engrenagem para pôr tudo de pé envolve os mesmos desafios diurnos – autorização para fechar vias, busca de patrocinadores – e mais alguns. O pioneiro Night Run, que apareceu acanhado em São Paulo, em 2006, hoje realiza corridas noite adentro em nove cidades. “Trazemos canetas de neon para o pessoal colorir o rosto e sair bem na foto, o que; aliás, é essencial pois o nosso público adora uma selfie”, entrega Guilherme Accursio da Night Run.

Há sempre um palco animado – no cardápio, de música eletrônica a rock e funk. A balada fit promovida pela carioca Corre Eventos tem até tema. Um deles, “O cupido”, falou direto a um grupo que está lá para fazer amigos, conhecer pessoas e, por que não? dar uma corridinha. Cores distinguiam o estado civil do atleta: verde (solteiro), amarelo (enrolado); vermelho (comprometido). “Conseguimos reunir 2.000 corredores”, calcula Simone Laeto, 47 anos, que deixou o trabalho em agências de publicidade para investir no profícuo mercado de corridas e cada vez mais se dedica aos notívagos, que desembolsam uma média de 100 reais pelo pacote.

Pergunta que não quer calar: do ponto de vista estritamente fisiológico, correr à noite oferece alguma vantagem? Sim, concordam os especialistas. “O gasto calórico é igual, mas correr longe do sol e sob menos calor é melhor porque o corpo perde menos água, cansa menos, e a pessoa tende a estender o tempo da atividade”, explica o ortopedista Sérgio Maurício. Mas a tribo do turno coruja (da concentração, onde a festinha se inicia, ao fim da balada, passam­ se cerca de quatro horas, tudo terminando por volta das 10 da noite) deve ficar atenta a certos cuidados com a saúde. Eles vão da alimentação ao alongamento, que precisam se adaptar ao horário mais adiantado – e são, em certos aspectos, distintos daqueles indicados para quem se exercita ao longo do dia.

Nessas festas, bebidas alcoólicas são quase tão raras quanto maquiagem (quem vai se arriscar a ver a sombra deslizar suor abaixo?), mas às vezes o corredor-baladeiro se permite uma dose aqui outra ali, embora elas não constem no menu oficial. Como as corridas são ao ar livre, em praças praias e parques, passa um ambulante vendendo cerveja e a tentação pode falar mais alto. A faixa etária local gira em torno de 25, 30 anos, muita gente vai em grupo e, sim, esbanja energia para dançar. Dito assim, parece que sobra alegria e falta foco nas pistas. Errado. A maioria leva a sério o momento da corrida. Seus adeptos estão assim mantendo viva uma modalidade primeiro praticada por trabalhadores ingleses no século XVII, que teve como marco histórico a primeira maratona olímpica, de 1896, em Atenas. Foi em 1968; porém, que o médico americano Kenneth Cooper popularizou o esporte ao descrever seus benefícios no célebre livro Aerobics: músculos fortalecidos sistema cardio respiratório em pleno funcionamento pressão arterial reduzida. Mister Cooper só não poderia prever um acréscimo que trouxe um novo ganho à corrida: a diversão.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 17 DE FEVEREIRO

O DRAMA DO LUTO

Então, Jó se levantou, rasgou o seu manto, rapou a cabeça e lançou-se em terra e adorou (Jó 1.20).

O luto é a dor mais aguda que assola a nossa alma. Não existe nenhuma família que escape desse drama. Não é fácil ser privado do convívio de alguém que amamos. Não é fácil enterrar um ente querido ou um amigo do peito. Não é fácil lidar com o luto. Já passei várias vezes por esse vale de dor e sombras. Perdi meus pais, três irmãos e sobrinhos. Sofri amargamente. Passei noites sem dormir e madrugadas insones. Molhei meu travesseiro e solucei na solidão do meu quarto. A dor do luto ecoa na alma, aperta o peito, esmaga o coração, arranca lágrimas dos olhos. Jesus chorou no túmulo de Lázaro, e os servos de Deus pranteavam seus mortos. Há, porém, consolo para os que choram. Aqueles que estão em Cristo têm uma viva esperança, pois sabem que Jesus já venceu a morte. Ele matou a morte e arrancou seu aguilhão. Agora a morte não tem mais a última palavra. Jesus é a ressurreição e a vida. Aqueles que nele creem nunca morrerão eternamente. Agora, choramos a dor da saudade, mas não o sentimento da perda. Só perdemos quem não sabemos onde está. Quando enterramos nossos mortos, sabemos onde eles estão. Eles estão no céu com Jesus. Para os filhos de Deus, morrer é deixar o corpo e habitar com o Senhor. É partir para estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor. Os que morrem no Senhor são bem-aventurados!

GESTÃO E CARREIRA

A GERAÇÃO DO BILHÃO

A onda de startups brasileiras que chegam a um valor de mercado de 1 bilhão de dólares está ganhando corpo. Elas estão em setores diversos, como logística e jogos, e inserem o Brasil num mercado global em ebulição. Oportunidades – e riscos – não faltam

Quando se formaram na escola politécnica da Universidade de São Paulo, os irmãos paulistanos Victor e Arthur Lazarte seguiram rumos comuns a jovens engenheiros brasileiros no fim dos anos 2000. Foram trabalhar, respectivamente, em um banco de investimento e em uma consultoria. Mas, pouco tempo depois, eles deixaram o emprego e voltaram para a casa dos pais em São Paulo decididos a abrir uma empresa de jogos para celular. Na casa dos 25 anos, os dois não sabiam sequer programar jogos – e precisaram aprender com vídeos online. Oito anos e quase 2 bilhões de downloads depois, os irmãos Lazarte assinaram em novembro uma rodada de investimentos que avaliou a empresa fundada por eles em 2011, o estúdio de games Wildlife, em 1,3 bilhão de dólares. O aporte de 60 milhões de dólares, liderado pelo fundo de investimento americano Benchmark, coloca a Wildlife como o mais novo membro de um clube seleto: o de startups “unicórnios”, companhias de capital fechado avaliadas em mais de 1 bilhão de dólares. No Brasil, há pelo menos nove delas. Enquanto viviam longe dos holofotes, os Lazarte colocaram a Wildlife – que até agosto se chamava TFG, sigla para Top Free Games – entre as dez maiores empresas de games móveis do mundo, chegando a um quadro de 500 funcionários e escritórios em quatro países. “Queremos criar os jogos que vão marcar esta geração”, diz Victor Lazarte, o caçula da dupla e que hoje, aos 33 anos, mora na Califórnia para tocar a expansão global da empresa. Seu irmão Arthur, de 35 anos, fica em São Paulo.

Pergunte aos principais investidores, empreendedores e consultores brasileiros e pouquíssimos já ouviram falar da companhia dos irmãos Lazarte. Até o aporte mais recente, a empresa tinha apenas um sócio, Brian Feinstein, do fundo Bessemer Venture Partners, com investimento secundário nos fundadores. Mas o sucesso dos games foi chamando a atenção. E dando origem a histórias curiosas. Lucas Lima, diretor de operações, trabalhava na tradicional consultoria Bain&Co quando foi sondado pela Wildlife. Como ele resistia, Victor pediu que batesse um papo com um “amigo”. No outro lado da linha estava o investidor Jorge Paulo Lemann, do fundo 3G Capital e maior bilionário brasileiro. Lima aceitou, claro. Carlos Saldanha, diretor de animações famosas, como A Era do Gelo, é mentor da dupla. O vice-presidente de realidade virtual do Facebook e ex-Xiaomi e Google, Hugo Barra, também entrou como investidor na rodada de novembro. Para os próximos anos, a meta é usar o novo aporte para continuar crescendo no ritmo de 80% ao ano, criar um braço para distribuir jogos de outros estúdios menores e, sobretudo, contratar talentos globais para brigar com uma concorrência que fica cada vez mais pesada.

A história dos irmãos Lazarte coroa um ano especial no capitalismo brasileiro. Desde junho, quando a empresa de entregas Loggi recebeu um aporte de 150 milhões de dólares liderado pelo grupo japonês SoftBank e tornou-se o primeiro unicórnio de 2019, não se passaram dois meses sem que o Brasil visse uma nova startup atingir o patamar bilionário. Também chegaram lá neste ano a Gym pass, que vende planos de academias, a Quinto Andar, de aluguéis, e o Ebanx, de pagamentos. Por trás desse movimento está o financiamento de fundos de capital de risco, como FTV, SoftBank, Kaszek, Valor Capital, Monashees, Redpoint e Benchmark. Até o banco Credit Suisse criou, neste ano, um fundo de venture capital para empresas promissoras. “Passou a ser uma demanda de nossos clientes”, diz Camila Detomi, responsável pela área de investimentos alternativos do Credit Suisse. Sinal de novos tempos. Os fundos escrutinam o mundo em busca de startups com potencial de virar gigantes. A esperança é encontrar as sementes de um novo Google, Amazon ou Facebook, capazes de fazer o valor de mercado de 1 bilhão de dólares chegar a 100 bilhões ou mesmo 1 trilhão de dólares, compensando os fracassos que podem ocorrer com o restante do portfólio. “As maiores empresas da China e dos Estados Unidos não existiam no século passado. O Brasil também terá gigantes de tecnologia. Estamos todos à caça”, diz o gestor de um fundo de investimento.

A competição é impulsionada por um momento de liquidez abundante, com taxas de juro historicamente baixas. No Brasil, o dólar em mais de 4 reais também é um atrativo que faz o país ficar “barato” para os investidores. “O Brasil está deixando de ser um país em que era mais vantajoso manter o dinheiro em alguma aplicação financeira do que investir no capital produtivo”, diz Michael Nicklas, sócio da gestora de investimento Valor Capital Group. Criado em 2010, o fundo investe em negócios brasileiros inovadores com potencial de crescimento nos Estados Unidos, e vice-versa. Cerca de 65% de seu portfólio está alocado em startups brasileiras, como a Gympass e a Stone, de meios de pagamento.

O Brasil deverá fechar o ano com 2,5 bilhões de dólares em rodadas de investimento, quase o dobro de 2018 e mais de 60% do capital de risco da América Latina, segundo cálculos da fintech Distrito com base em dados da Lavca, associação latino-americana de venture capital. Em 2016, a região inteira havia recebido 500 milhões de dólares. Dois anos depois, em 2018, a foodtech iFood captou sozinha a mesma quantia em um único aporte. Neste ano, a colombiana Rappi levou o dobro, 1 bilhão de dólares, em uma rodada liderada pelo SoftBank. Os investimentos de fundos de capital de risco passaram de 36 bilhões de dólares, em 2009, para 287 bilhões no ano passado, período em que o capital foi se espalhando pelo mundo – o domínio dos Estados Unidos no dinheiro investido caiu de 75% para 48% em uma década, segundo dados da empresa de inteligência PitchBook.

Com tanto dinheiro disponível, o número de unicórnios mundo afora também dobrou em dois anos. Já são mais de 420 dessas startups estreladas, a maioria nos Estados Unidos e na China, segundo levantamento da CB Insights. A primeira bilionária brasileira veio só em janeiro de 2018, quando a empresa de transporte por aplicativo 99 foi comprada pela chinesa Didi, concorrente da Uber. No ano passado, chegaram também ao valor de 1 bilhão de dólares o banco digital Nubank e o iFood e sua companhia-mãe, a Movile, que tem uma dezena de empresas de tecnologia. Muitas das histórias dessas startups mostram engenheiros, administradores e desenvolvedores que, em outras épocas, talvez tivessem decidido ficar no exterior ou trabalhar em grandes bancos. “Para muito além de uma avaliação de 1 bilhão, o importante é que hoje os melhores talentos das universidades brasileiras conseguem colocar sua ideia para rodar”, diz Diego Barreto, diretor financeiro do iFood. Sob vários aspectos, é apenas o começo de uma revolução. Os fundos de capital de risco já representam 0,5% da economia chinesa, onde investiram 100 bilhões de dólares em 2018, mas apenas 0,04% da economia da América Latina. Se a proporção do investimento por aqui alcançar a chinesa, em tese, o número de unicórnios no Brasil – hoje são nove – poderá se multiplicar por 10 ou mais nos próximos anos.

Se há algo que a lista dos unicórnios de 2019 mostrou é que não existe uma receita óbvia para o sucesso. E isso é um sinal de maturidade do mercado brasileiro. Há startups que trouxeram para o Brasil formatos promissores no exterior (como a 99), as que resolveram problemas especificamente brasileiros ou latino-americanos (como o Nubank e a Loggi) e aquelas que criaram negócios inovadores (como a Gympass). Nenhuma das novatas é tão global quanto a Wildlife, que tem apenas 3% dos usuários no Brasil. “Da cozinha da nossa mãe, já precisávamos fazer produtos para o exterior”, diz Arthur Lazarte. O último jogo lançado, Tenis Clash, foi o mais baixado em mais de 100 países na semana do lançamento. Alguns dos maiores sucessos do portfólio incluem ainda o Sniper 3D, de 2014 – que, até o lançamento do game Fortnite, em 2017, foi o jogo de tiros mais baixado do mundo. Os jogos da Wildlife são no modelo freemium, gratuitos para jogar, mas com itens pagos dentro do jogo, algo que permite à startup ser lucrativa desde os primeiros anos. A Wildlife teve o mérito de entrar no início da ascensão dos smartphones e cresceu com o mercado de games móveis. “Quando começamos, ninguém pensava em jogos para celular”, diz o diretor de tecnologia, o chileno Michael Mac-Vidar, que deixou um emprego no Vale do Silício para apostar na Wildlife, há sete anos. Hoje os jogos para smartphones e tablets faturam quase 70 bilhões de dólares ao ano (ou 45% do mercado de games, ante 18% em 2012), segundo a consultoria especializada em games Newzoo. “Mesmo grandes empresas de console, como EA e Sony, vêm lançando versões para mobile”, diz Candice Mudrick, analista da Newzoo. A Gympass, fundada em 2012 em São Paulo, é outro unicórnio que mirou o mundo: já está presente em mais de 8.000 cidades de 14 países. A companhia foi fundada pelos empreendedores Cesar Carvalho, JoãoThayro e Vinicius Ferriani, e começou a expansão internacional em 2015, quando foi aberto um escritório no México. De lá para cá, a empresa estendeu a operação para os Estados Unidos e para diversos países europeus. Agora a Gympass se organiza para entrar no mercado asiático. A índia e a China são dois países que estão sendo analisados com atenção. O novo salto de crescimento será possível graças ao aporte de 300 milhões dólares que a startup recebeu em outubro dos fundos americanos Atomico, General Atlantic e Valor Capital Group. Caso saia tudo como o esperado, a Gympass será a primeira startup brasileira com operações nos quatro continentes. Até chegar lá, o modelo de negócios precisou passar por ajustes. Primeiro, a Gympass tentou vender cartões de uso diário em academias para pessoas físicas. O custo para expandir a clientela era alto, já que era preciso investir em marketing e propaganda. Os donos das academias começaram a reclamar porque alunos já matriculados cancelavam o plano para adquirir o cartão com desconto. Alguns usuários sugeriram que os sócios da Gympass apresentassem o negócio às empresas em que eles trabalhavam. O primeiro cliente corporativo foi uma consultoria multinacional, com 4.000 funcionários no Brasil. “Os novos investimentos nos permitem ganhar uma escala global”, diz Leandro Caldeira, presidente da Gympass.

Se ainda não há aqui um unicórnio 100% digital – como já foi, por exemplo, o Facebook -, o Brasil tem se notabilizado por startups que usam a tecnologia para atacar gargalos do mundo real. O Quinto Andar, por exemplo, sobressaiu ao entrar com tecnologia num mercado em que tudo era feito em papel: o aluguel de imóveis. O campineiro Gabriel Braga, um dos fundadores do Quinto Andar, penou para conseguir alugar um apartamento em São Paulo quando recebeu uma oferta de emprego na cidade. “Precisava ter fiador e tudo era feito pessoalmente, de uma forma bem lenta”, diz. Durante um curso de MBA na Universidade Stanford, nos Estados Unidos, ele conheceu o mineiro André Penha, que tinha passado pelo mesmo problema. O Quinto Andar, fundado em 2013, começou como um site com boas fotos de imóveis para alugar, pesquisados em imobiliárias, e agendamento online das visitas. O atendimento aos proprietários dos imóveis também é feito pela internet. Até os contratos são digitais. O primeiro aporte, de 20 milhões de reais, veio dois anos depois da fundação da startup. Neste ano, fundos como General Atlantic e SoftBank colocaram mais de 1 bilhão de reais no Quinto Andar. Com esses recursos, a empresa passou a oferecer pequenos empréstimos para proprietários que precisam reformar o imóvel antes de alugar. O Quinto Andar também ajuda o cliente a saber quanto cobrar pelo aluguel para o imóvel não ficar fechado durante muito tempo. “Fazemos diversos cruzamentos de dados, usando uma forte base tecnológica, para chegar a essa conta”, afirma Braga. O lucro vem do valor do primeiro aluguel e de 6,9% a 8% cobrados nos meses restantes do contrato. “A meta é chegar a 1 milhão de imóveis alugados nos próximos anos.” Hoje, são mais de 5.000 por mês.

Em comum, os unicórnios brasileiros têm mais de cinco anos de estrada até entrar na mira dos fundos bilionários. A Movile, dona de diversas empresas de tecnologia, nasceu em 1998, época em que se “contava cada centavo”, segundo o cofundador Eduardo Henriques. Os primeiros anos tendem a ser uma fase de aprendizado que obriga os empreendedores a ser mais ciosos com recursos do que os pares do Vale do Silício, por exemplo, habituados a grandes cheques para turbinar mesmo as ideias mais mirabolantes. “Dinheiro aqui nunca foi fácil, e os brasileiros têm noção de que precisam andar com as próprias pernas porque amanhã pode não haver mais dinheiro”, diz Hugo Barra, diretor do Facebook e investidor e mentor da Wildlife. Por aqui, investidores costumam cobrar não necessariamente um balanço no azul, mas a evolução de indicadores importantes para esse fim, com o avanço na margem bruta e redução no custo de aquisição de clientes. Com esses dados em ordem, as startups têm mais segurança para dar passos ousados. É o caso da empresa de logística Loggi. A companhia surgiu como resposta aos complexos problemas de logística no Brasil, e hoje cobre 40% da população brasileira, conectando motofretistas a empresas que desejam fazer uma entrega. O fundador Fabien Mendez é francês, mas fez intercâmbio na Fundação Getúlio Vargas de São Paulo quando mais jovem e, mais tarde, voltou à cidade e decidiu empreender. Em um país onde uma entrega no comércio eletrônico leva em média 13 dias, a oportunidade de mercado era clara. Mas encontrar o modelo ideal foi duro. “A vida do empreendedor não é linear, há muitos altos e baixos até estabilizar o negócio”, diz Mendez. Com um aporte de 150 milhões de dólares feito em junho por SoftBank, GGV Capital, Fifth Wall e Velt Partners, além da Microsoft, a empresa planeja expandir os serviços de entrega para além das grandes cidades e alcançar os mais de 5.000 municípios do Brasil até o fim do ano que vem, por meio de um braço de parceiros franqueados – projeto chamado de LoggiLeve e no qual a companhia trabalhou secretamente ao longo deste ano. O objetivo é fazer entregas em até 48 horas mesmo em locais remotos. Em outra frente, pretende adquirir até aviões para se consolidar como uma grande operadora logística.

O Brasil é o carro-chefe de um momento de otimismo na América Lati na. Além das startups brasileiras e de empresas de capital aberto, como a argentina Mercado Livre (fundada em 1999 e que vale 29 bilhões de dólares na bolsa de Nova York), a América Latina tem somente a colombiana Rappi como unicórnio – e a startup, por sua vez, tem no Brasil seu principal mercado. A PitchBook passou a classificar como unicórnio a fintech de pagamentos argentina Ualá, que recebeu neste mês aporte de 150 milhões de dólares liderado por Tencent e SoftBank, embora a avaliação ainda não seja confirmada. Assim, a região, que tem problemas semelhantes aos do Brasil, pode ser também um celeiro de oportunidades para as empresas nascidas aqui. O Ebanx, com sua plataforma de gestão de pagamentos “sem fronteiras”, começou em 2012 oferecendo a empresas estrangeiras a possibilidade de vender no Brasil, mesmo para clientes que não tinham cartão internacional. Logo a empresa percebeu que o problema era o mesmo em toda a América Latina, e hoje opera em oito países da região, além de estar entrando também em pagamentos locais, usando a expertise que já possui. No começo, foi difícil explicar às empresas estrangeiras o que eram especificidades latino-americanas, como um boleto bancário ou pagamento em parcelas – além de convencer gigantes globais a apostar em uma startup sediada na então pouco conhecida cidade de Curitiba. Mas foi, em parte, graças a essa ponte feita pela fintech curitibana que nomes como o AliExpress, do grupo Alibaba, conseguiram fincar a bandeira no Brasil. “Virar unicórnio não muda nosso dia a dia, mas é uma validação importante de um movimento que começamos na região”, diz o cofundador do Ebanx e seu diretor financeiro, Wagner Ruiz.

Ao mesmo tempo que foi um ano animador para o empreendedorismo nacional, 2019 trouxe dúvidas sobre o modelo de crescimento ancorado em capital de risco. Na vida real, há um detalhe conceitual importante: unicórnios são empresas avaliadas em 1 bilhão de dólares que não necessariamente valem essa cifra. Quantas vão conseguir? É uma questão a ser respondida com o tempo. “Daqui a uns cinco anos vamos saber de fato quanto valem as startups brasileiras mais promissoras”, diz Marcos Toledo, sócio do fundo Canary. Claro que os aportes crescentes são um bom sinal. Em julho, a empresa de pagamentos Nubank levantou 400 milhões de dólares em sua sétima rodada de captação de investimento, junto ao fundo americano TVC. Avaliado em 10,4 bilhões de dólares, o Nubank vale mais do que empresas tradicionais listadas em bolsa, como a fabricante de cosméticos Natura ou a petroquímica Braskem. Seria a 20ª empresa mais valiosa da bolsa brasileira caso estivesse listada. Todos os unicórnios, com a desvalorização do real, estariam pelo menos entre as 60 empresas mais valiosas do Ibovespa, principal índice da bolsa. A prova real costuma vir justamente da abertura de capital, que dá saída para os investidores. É um passo que foi dado pela empresa de pagamentos Stone, que levantou 1,5 bilhão de dólares ao abrir o capital na bolsa americana em 2018. Fundada em 2012, a startup de meios de pagamento investe em ferramentas de gestão, acessadas com as maquininhas, essenciais para a sobrevivência e para a rentabilidade dos milhares de restaurantes por quilo, salões de beleza e mercadinhos que acende. Agora, prepara-se para lançar funcionalidades específicas para as necessidades de cada segmento. “Um restaurante ou um mercado talvez tenham mais necessidade de uma gestão de estoque refinadíssima do que um salão de beleza”, diz Augusto Lins, presidente da Stone. A empresa também lançou neste ano uma conta digital, sem cobrança de tarifas.

A abertura do capital (IPO, na sigla em inglês) é um momento de vai ou racha que tem feito estragos em algumas das empresas que já foram os unicórnios mais incensados do mundo. Desde o IPO no primeiro semestre, a Uber e a rival americana Lyft já perderam mais de 30% do valor de mercado, assim como a ferramenta de mensagens corporativas Slack. O “sinal vermelho” definitivo veio com o “não IPO” da empresa de aluguel de escritórios compartilhados WeWork, acompanhado como capítulos de uma novela nas últimas semanas. Ao mostrar no prospecto que perdeu 1,9 bilhão de dólares só em 2018 (e que o prejuízo quadruplicou desde 2016), a empresa fez os potenciais acionistas fugir do IPO. O valor de mercado implodiu – de 47 bilhões para 8 bilhões de dólares -, revelando uma faceta pouco conhecida da onda de investimentos bilionários em startups. Quando o valor para de crescer, ou cai, os empreendedores costumam ser as primeiras vítimas. Adam Neumann, fundador do WeWork e acusado de várias ações reprováveis, foi expulso da companhia por seu maior investidor, o fundo SoftBank. O SoftBank, por sua vez, virou o símbolo maior de uma espécie de distorção do capitalismo mundial, com valores fora da realidade aplicados pelos fundos em empresas sem projetos estruturados de como dar retorno. A chegada de novos recursos pode fazer uma companhia dobrar apostas equivocadas. “Não recomendo a nenhum empreendedor buscar o status de unicórnio porque pode cair em armadilhas. Uma rodada de investimentos menor do que a anterior pode deixar os fundadores sem nada”, diz Romero Rodrigues, sócio do fundo de investimento Redpoint Ventures e ex-dono do site Buscapé.

Segundo Rodrigues, as empresas precisam estar preparadas também para uma eventual redução da liquidez global. Riscos não faltam. Entre eles estão os novos capítulos da guerra comercial de Donald Trump não só com a China, mas com países como o Brasil e a França; a possível retomada dos juros brasileiros em 2020 com desvalorização do real; as eleições nos Estados Unidos e no Reino Unido. Uma redução na liquidez pode levar à lona dezenas de startups bilionárias. “Muitas empresas que hoje são unicórnios deixariam de fazer sentido em um cenário de capital caro”, diz Peter Felron, do Benchmark, que esteve no Brasil para fechar o negócio da Wildlife. O maior desafio é saber qual é a hora de parar de crescer e passar a direcionar os esforços para tornar positiva a última linha do balanço. O primeiro unicórnio brasileiro, a empresa de transportes 99, por exemplo, está aproveitando o bom momento para crescer em novos nichos. A 99 anunciou neste mês o 99Food, que marcará sua entrada no segmento de alimentação – um mercado altamente concorrido, com Rappi, iFood e Uber Eats, e do qual a espanhola Glovo já desistiu no ano passado. “A operação da 99 é sustentável e está muito perto de atingir lucro”, diz o chinês Tony Qiu, presidente da 99. Quanto antes os unicórnios nacionais passarem do discurso do lucro futuro para a prática rentável, melhor para o ecossistema empreendedor. O ideal é que, no futuro, o Brasil seja celeiro não de uma dezena de promessas mas de um punhado de grandes empresas sólidas, lucrativas e entre as maiores do país e do mundo.

CRESCIMENTO VITAMINADO

O avanço dos fundos de capital de risco tem impulsionado o aparecimento de startups bilionárias. E faz acender alertas de bolhas em alguns mercados

ONDE ESTÃO OS UNICÓRNIOS NO MUNDO

O valor de mercado global de todos os unicórnios passa de 1,3 trilhão de dólares

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A ESCOLA DO AMOR

Quando os filhos se aventuram pelos caminhos do amor, frequentemente só uma coisa ainda pode ajudar os pais: a confiança

Um dia os pais se dão conta de que os filhos não são mais crianças. A filha volta para casa de madrugada, e na manhã seguinte, quando aparece para tomar o café da manhã, está um trapo. Diante das perguntas dos pais, responde com monossílabos ou desvia o olhar. Fracassam todas as tentativas de saber algo sobre os motivos daquele estado de espírito.

Muitos pais veem as primeiras aventuras amorosas de seus rebentos com sentimentos contrastantes: sentem-se chamados à responsabilidade, mas também constatam que os filhos estão se esquivando de seu controle. Qual a profundidade do primeiro amor e quando se manifestam as primeiras relações sentimentais que se caracterizam, pela atração sexual? Os psicólogos do desenvolvimento, espantosamente, só se perguntaram essas coisas há pouco tempo.

Em 1999 Wyndol Furman, pesquisador da Universidade de Denver, Estados Unidos, dividiu a adolescência em quatro fases, iniciação, status, afeição e vínculo. No final da infância meninos e meninas ainda brincam na maior parte das vezes, em grupos rigorosamente separados. Apenas por volta dos 12 anos, na fase da iniciação, estreitam-se os primeiros vínculos de afeto, quase sempre dentro do grupo de amigos da mesma idade. Os encontros sentimentais são espontâneos e de breve duração. Os amigos oferecem um ambiente protegido, no qual os encontros com o sexo oposto podem ter lugar sem receios. Os adolescentes na verdade se amam intensamente, sem, contudo, distinguir a fantasia da realidade.

Entre 14 e 16 anos passam a se perguntar se o par seria realmente a pessoa “certa”, e qual consideração ele teria entre os melhores amigos e no grupo? Tornam-se cada vez mais decisivos, para o desapontamento dos pais, os aspectos exteriores. Nessa fase do status, importam a marca do jeans ou o corte de cabelo, assim como a maturidade física. Se um garoto continuar pequeno em comparação aos meninos da mesma idade, é quase inevitável uma queda de status.

As análises a respeito do modo como garotos e garotas dividem seu tempo confirmam a importância dos amigos nessas duas fases. Meninos entre 13 e 16 anos convivem com os amigos cerca de metade do tempo livre e as meninas ainda mais. Os grupos são mais íntimos que os das crianças; neles a lealdade, a exclusividade e a troca de informações confidenciais desempenham um importante papel. Para as meninas, a melhor amiga é como um espelho, com a ajuda do qual podem continuar a desenvolver a própria identidade.

Nessa fase desenvolve-se uma ideia de intimidade física e emocional: um protótipo de relacionamento. As experiências com os amigos determinam quanta proximidade emocional e física esses adolescentes, uma vez adultos, irão esperar de seus parceiros.

A fase seguinte, a da afeição, em geral vai da metade para o fim da adolescência, ou seja, dos 16 aos 18 anos. Nela, pela primeira vez, caracteriza-se a figura do parceiro. Os jovens passam a ser vistos cada vez mais em casais isolados, e a relação se torna mais exclusiva, íntima e duradoura. São típicos fortes sentimentos positivos, mas também sensações contraditórias, como manifestações de exultação ou angústias fúnebres. O tempo com os amigos diminui e a relação sentimental de casal vira prioridade.

Na idade de jovem adulto – de 18 a 20anos – a relação sentimental muda mais uma vez. Nessa, a fase do vínculo, o profundo envolvimento emocional é mantido, mas surge uma visão mais pragmática. Os jovens refletem sobre a consistência do casal que formam e avaliam se o parceiro seria adequado para uma longa convivência ou para formar família. O casal passa junto cerca de 50% de todo o tempo livre.

A força do vínculo do casal aumenta e com ela a frequência dos conflitos: desse momento em diante, o jovem terá de decidir quanta liberdade individual será concedida ao parceiro. Nas primeiras duas fases, a questão era equilibrar as relações com os amigos e com o par amoroso. Na adolescência adiantada, o objetivo, ao contrário, é estabelecer um vínculo harmonioso e íntimo entre o casal.

INFLUÊNCIA DOS PAIS

Estudos psicológicos mostram que crianças que se sentiram seguras e protegidas com os pais quando adultas vivem maior intimidade em seus relacionamentos amorosos e sentem mais satisfação sexual. Se a relação com os pais foi distante e com pouca confiança, no futuro terão escassa intimidade emocional e uma dedicação ao outro bastante modesta. Filhos que recearam ser “abandonados” pelos pais têm relações amorosas na idade adulta frequentemente dominadas pelo sexo e não conseguem estabelecer uma relação emocional plena.

No início da puberdade, a proximidade física dos pais é sentida como incômodo e os filhos já não expressam tanto seus sentimentos. Passam a discutir os problemas mais com os amigos. Ainda assim, mantêm uma forte ligação emocional – até latente – com os pais.

Outros fatores determinarão a qualidade dos relacionamentos de casal dos jovens adultos, sobretudo a maturidade física e sexual. Os psicólogos americanos até agora pesquisaram esses fatores quase exclusivamente como “fatores de risco” para relações sexuais precoces demais. Devemos considerar que a crescente “pressão das pulsões” não se transforma diretamente em afeto amoroso. Os meninos, a partir do início da puberdade, com certa frequência têm o problema de se verem com o membro ereto nos momentos menos apropriados. Por outro lado, ainda são tímidos para ter relações sexuais com o sexo oposto.

Uma postura positiva com o próprio corpo influi sobre os próprios atrativos sexuais e sobre em que medida amizade e intimidade se expressam nos relacionamentos amorosos dos jovens adultos.

É tempo de definir seu papel com os amigos, na família, na escola e na escolha de uma profissão. Aprender a perceber os próprios traços essenciais, antes de integrá-los à imagem que têm de si. Somente quem alcançou uma identidade própria viverá de modo pleno a união com o outro sexo.

OUTROS OLHARES

LUZ, CÂMERA, POST

O aplicativo chinês Tik Tok atrai milhões de adolescentes com vídeos curtos e banais que lançam modismos e agitam a concorrência. O Facebook já criou uma cópia

Talvez o leitor nunca tenha ouvido falar do Tik Tok ou, se ouviu não entendeu nada – e isso é bastante compreensível. O aplicativo chinês d vídeos rápidos que emplacou o primeiro lugar entre o apps mais baixados do planeta em agosto fala direto ao integrante da geração Z, uma turma nascida entre 1995 e 2010 dona de olhar e vocabulário muito próprios. À primeira vista, parece só besteirol de rede social – o que dizer de um sujeito que lança uma melancia no teto de um supermercado corre para que a fruta não despenque sobre sua cabeça e… fim? Essa impressão pode persistir na segunda, na terceira incursão, mas o fato é que meio bilhão de pessoas fizeram o download e, ao seu modo, o app já influencia o jeito como elas cantam, dançam, se vestem e até contam piada. Os que conseguem arrastar milhões para a tela dos smartphones são promovidos a tiktoker, um mestre nos vídeos de até um minuto. “Nenhuma rede hoje alcança tão rápido o público jovem”, diz o paraibano Apollo Costa 22 anos, veterano no YouTube. Ele ostenta no TikTok mais de 830.000 seguidores e contrato publicitário, entre os quais o de uma marca de refrigerante que estrela um de seus filmetes.

O sucesso de gente como ele ajuda a desvendar o que encanta no recém­ descoberto aplicativo bem adaptado a um mundo ligeiro e afeito às imagens. “Um forte traço dessa geração que nasceu nas redes é a preferência por vídeos curtos no lugar de textos longos. Ela lê, sim, mas busca informação rápida”, analisa Francisco Brito Cruz, diretor do Internet Lab, da USP. O tiktoker Apollo, por exemplo, oferece ao espectador coreografias animadas por hits dublados, proporcionando um flash de humor, assim como vários outros que se encontram por lá. A espontaneidade é a grande marca dos vídeos, seja ela exercida por um adolescente que canta firme debaixo do chuveiro e trava quando sai do boxe (a hashtag cantando no chuveiro recebeu 4,1 milhões de menções), seja em um dueto de gêmeos que dançam coordenados (3,6 milhões de curtidas). “Esqueça o menu de 21 pratos. Aqui você terá beliscas com um pouco de tudo: drama, comédia música, dança”, frisa o crítico de TV americano James Poniewozik. Por “de tudo” entenda-se a espécie humana agindo sem amarras nem preocupação com o que vão pensar.

Criado em 2017 pelo conglomerado ByteDance, gigante de tecnologia na China (de novo ela) o TikTok bebeu da fonte do finado aplicativo de vídeos Vine e comprou o conterrâneo Musical.ly com sua base de usuário para dar a partida em um negócio cuja receita anual gira em torno de 2,5 bilhões de dólares. A empresa não revela cifras, mas sabe-se que fatura com anúncios em sua página e com uma parcela do que os fãs doam aos tiktokers. Entre os chineses, o app pegou logo (apesar das acusações de que a censura local anda passando a peneira) e aos poucos, chegou aos Estados Unidos e ao Brasil, onde fincou base em São Paulo, com o plano de se espalhar pela América Latina. O Facebook de Mark Zuckerberg sentiu o baque: há quase um ano, criou um app à imagem e semelhança do TikTok. O Lasso foi baixado 250.000 vezes no EUA (uma vírgula perto do 1 bilhão de downloads do chinês). “Vamos ver se conseguimos fazer o Lasso funcionar em países onde o TikTok ainda não é muito grande antes de competirmos com ele onde é muito popular”, disse Zuckerberg em uma reunião em julho, cuja gravação vazou.

É verdade que o Instagram também oferece, com seus stories, a possibilidade de pílulas visuais – só que com menos ferramentas. Mas as diferenças que estão deixando a concorrência atenta são de outra ordem. O TikTok liberta o usuário de ritos como criação de perfil, convite a amigos, pedidos para segui-los. Quem quer postar precisa de cadastro; os demais abrem o app e saem assistindo. Para a garotada, parece um ambiente mais leve, onde as relações se dão por afinidade momentânea. “Não é como o Instagram, no qual um tenta convencer o outro de sua alegria, nem como o Twitter, no qual a persuasão se dá pelas ideias. No TikTok é: olha que legal o que eu fiz; você pode. É inclusivo”, resume Poniewozik. Um dos motores para a socialização são os desafios – imitar um personagem de videogame, copiar uma coreografia funk, formar a asa de um cisne com a perna. Daí vão surgindo modinhas e conexões, com um mundo de desconhecidos se seguindo. Essa multidão catapulta figuras como o rapper americano Lil Nas X, 20 anos, que, de ilustre anônimo, disparou no ranking da Billboard e foi premiado no Vídeo Music Awards depois que a canção Old Town Road viralizou em um desses desafios. Isso é TikTok.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 16 DE FEVEREIRO

LAR, LUGAR DE RESTAURAÇÃO

Acima de tudo, porém, tende amor intenso uns para com os outros, porque o amor cobre multidão de pecados (1Pedro 4.8).

O lar não deve ser um campo de batalha que mata seus feridos, mas um hospital que cura seus enfermos. A família é o lugar no qual aqueles que caíram podem levantar-se. É o cenário no qual o perdão triunfa sobre a mágoa e a reconciliação prevalece sobre a hostilidade. Vemos hoje com tristeza muitas famílias em crise, muitos casamentos desfeitos, muitos lares destroçados. Assistimos, com lágrimas nos olhos, a pais se revoltando contra os filhos e a filhos matando seus pais. Constatamos com profunda dor uma inversão de valores na família: as coisas substituindo os relacionamentos e a avareza destronando o amor. Não podemos concordar com essa marcha inglória. Precisamos colocar o pé no freio e impedir essa corrida galopante rumo ao desastre. O lar não pode ser o território da mágoa e da indiferença, das brigas raivosas ou do silêncio gelado. O lar precisa ser um paraíso na terra, um jardim no deserto e uma antessala do céu. O lar precisa ser um canteiro fértil onde floresça o amor que cura e restaura, que perdoa e esquece, que abençoa e celebra. O lar é o lugar onde os perdidos são encontrados e os que estavam mortos em seus delitos e pecados recebem vida e restauração. O lar é o lugar onde choramos nossas dores e celebramos nossas vitórias. O lar é o lugar onde somos amados não apenas por causa das nossas vitórias, mas apesar dos nossos fracassos.

GESTÃO E CARREIRA

DEU MATCH

“Sabe o que seria legal no dia da Consciência Negra? Você, branco privilegiado que se diz antirracista, comprar um livro que um negro precisa e enviar para ele.” Era 20 de novembro de 2018. Nascia assim, com um post no Twitter, o projeto WinnieTeca. Idealizado pela gaúcha Winnie Bueno, 31 anos, a proposta é tão simples quanto genial – conecta quem precisa de um livro a quem se dispõe a doar. Uma espécie de “Tinder de livros”. Até o mês passado, o processo era manual. Com o apoio do Geledés Instituto da Mulher Negra e graças a uma parceria com o Twitter, o “match” agora está automatizado – basta acessar https :// t.co/y3cNJxrTXU?amp=l. Em pouco mais de um ano, cerca de mil exemplares já foram despachados Brasil afora. Bacharel em Direito e aluna de doutorado com tese sobre o pensamento da socióloga americana Patrícia Hill Collins, Winnie sugere que os livros doados sejam novos. “Para quem não ganha nada, ganhar algo novo tem um significado importante”, diz. “E eu adoro o cheiro de livro novo.”  Assim como as madeleines transportavam o escritor francês Marcel Proust (1871-1922) para a juventude, a memória olfaltiva de Winnie a leva para a infância. À alfabetização com a avó materna, Eli, hoje com 90 anos, que só tem a quarta série, mas nunca parou de ler. Às obras que a mãe, Sandrali, psicóloga, trazia das reuniões do movimento negro. E a Joel Rufino dos Santos, autor de A Botija de Ouro, seu livro de criança, sobre uma escrava que, faminta, rói a parede da cela onde está presa e encontra um pote encantado

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

HERANÇA GENÉTICA

Certas pessoas são viciadas em álcool, enquanto outras bebem com moderação. A explicação vem, em certa medida, dos genes: Alguns tornariam o cérebro mais ou menos passível de dependência

Nenhum de nós é igual diante da dependência. Uma pessoa contenta-se com dois ou três cigarros por dia, outra consome até dois maços. Porquê? O que as diferencia? Personalidade, história, situação profissional, meio?

Vamos examinar aqui a hipótese de que fatores genéticos predisponham à dependência. Segundo essa tese, quando alguém se vê diante de um comportamento compulsivo, seja uso de drogas, dependência da internet ou ainda dependência do trabalho, determinados genes são ativados. A identificação precoce desses genes permitiria descobrir quem corre risco de se tornar dependente e impediria que mecanismos da adição se desenvolvessem.

Na última década, a ciência empenhou-se na buscada identificação dos genes que predispõem o indivíduo para o uso abusivo de drogas. Há muito os médicos associam a dependência à farmacodependência, situação de quem depende de uma droga. Enquadram-se nessa categoria as pessoas que apresentam sintomas característicos da privação, tais como dores, mal-estar geral e uma sensação de carência quando o consumo é interrompido. O inconveniente de se basearem tal critério é que só é possível fazer o diagnóstico naqueles com grau avançado de adição. A intervenção precoce e, portanto, eficaz, é praticamente impossível.

Para além da farmacodependência, o vício no álcool, heroína ou maconha, ou ainda no jogo, esporte ou bulimia, têm características comuns: a incapacidade de controlar o consumo ou comportamento apesar das evidências de que tais hábitos são nocivos. O bulímico constata que livrar-se da comida forçando o vômito ou tomando laxantes pode ter consequências perigosas, enquanto o fumante sabe que está exposto ao risco de câncer ou doenças cardiovasculares. Por esses motivos e por outros relacionados ao meio social, às dificuldades enfrentadas nos períodos de privação, às atitudes compulsivas ou à marginalização, os comportamentos que levam à dependência geram sofrimento tanto para dependentes como para quem convive com eles. Constituem um impedimento para saúde, trabalho, relações sociais, vida cotidiana.

Durante muito tempo, o principal critério de identificação da dependência foi a necessidade irresistível de consumir a droga ou entregar-se ao comportamento compulsivo, incapacidade de desempenhar normalmente diversas atividades na ausência da droga, e os sintomas que acompanham os períodos de privação.

Atualmente, três mecanismos cerebrais e psicológicos que levam à patologia da adição são estudados com mais atenção: a apetência, a busca de sensações e a impulsividade. A apetência é a vontade de conseguir o produto e consumi-lo, enquanto a busca de sensações e de novidade é característica em certas pessoas que logo se cansam de qualquer atividade repetitiva e só são estimuladas por comportamentos que as levem a descobrir sensações ou domínios sempre renovados. Finalmente, a impulsividade é a incapacidade de adiar determinados atos considerados imperativos. Esses diferentes aspectos são estudados no plano da genética: o objetivo é descobrir os genes que favorecem tais tendências.

Os estudos genéticos concentram-se essencialmente no composto tóxico mais acessível e mais consumido: o álcool. Pesquisas sobre a dependência do álcool no âmbito das famílias são praticamente unânimes: a existência de um alcoólico na família aumenta a frequência da doença em seus parentes, e tanto mais quanto se trate de um parente próximo. A incidência do alcoolismo na população em geral varia de 2% a 5%. Entre irmãos e irmãs de um alcoólico, sobe para 10% e 50%.

Além disso, comparando-se a frequência da doença em gêmeos monozigóticos (que têm o mesmo patrimônio genético) e em dizigóticos (que partilham apenas metade desse patrimônio), mostrou-se que os fatores determinantes do nível de consumo de álcool são: para 43%, fatores genéticos, para 37%, o meio em que foi educado (o fato de ter crescido, por exemplo, num clima de forte consumo de álcool aumenta o risco de crianças terem, mais tarde, o mesmo comportamento); e para 20%, outros fatores, não elucidados, ligados ao ambiente não familiar.

Os pais adotivos de filhos alcoólicos são em geral menos alcoólicos que os biológicos, o que confirma o caráter genético do alcoolismo. O psiquiatra americano Roben Cloninger salienta que não apenas o alcoolismo é herdado, mas principalmente um tipo de consumo (com início precoce e abusivo), devendo-se considerar também outros fatores associados (o sexo masculino e uma conduta anti social). Ele distingue dois subtipos de alcoolismo, segundo a importância do determinismo genético: o tipo I, ou abuso condicionado ao meio que se manifesta tanto no homem como na mulher, caracteriza-se por abuso moderado, com início na idade adulta, sem antecedentes criminais nos pais biológicos. O tipo, lI ou vinculado ao sexo do alcoólico, começa precocemente, é marcado por grave abuso, grande índice de criminalidade nos pais biológicos e componente genético pronunciado.

Cloninger mostrou que o peso da herança genética varia de 21% no tipo I a 88% no II. Além disso, os comportamentos associados a cada subtipo diferem, indicando diferenças no funcionamento cerebral. Assim, os pacientes do tipo II se caracterizariam por um perfil psicológico de “busca de novidade” (comportamentos de risco frequentes e procura por sensações intensas), temeriam menos a dor e menos necessidade da recompensa que os outros, isto é, seriam menos sensíveis às recompensas não imediatas, a raciocínios do tipo “se eu parar de beber agora, minha situação familiar vai melhorar, e logo vou arranjar um emprego”. Nos do tipo I, acontece exatamente o contrário.

Em 2000, a equipe de Marc Schuckit, da Universidade da Califórnia, publicou os resultados de uma pesquisa realizada ao longo de 20 anos, com mais de 500 pessoas escolhidas ao acaso. O estudo visava descobrir os marcadores precoces (antes de qualquer consumo) que permitiriam identificar os potenciais dependentes. Os resultados mostram que nem o temperamento da pessoa, nem o meio familiar, tampouco o nível intelectual teem influência considerável. O único fator determinante é a tolerância inicial ao álcool. Aqueles que toleram muito bem o álcool, sentem menos embriaguez, têm menos problemas de coordenação motora, de equilíbrio e correm um risco maior de desenvolver mais tarde uma dependência ao álcool. Ora, essa tolerância inicial é em larga medida determinada por fatores genéticos: segundo estudos com gêmeos, em que se observou especificamente esse traço, sua influência é de 60% (em 60% dos casos, se um gêmeo apresenta uma forte tolerância ao álcool, o mesmo acontecerá com seu irmão).

Como o álcool não é a única substância que cria dependência, a maconha também foi alvo de estudo para se identificarem fatores precoces de risco de dependência. Como no caso do álcool, é o impacto inicial do princípio ativo da droga, nas primeiras vezes em que é consumida, que indica o risco de uma evolução para a dependência. Com uma diferença, porém: aqui o fator determinante não é a tolerância neurológica e cognitiva, mas a euforia provocada. Tanto que, nas pessoas que ficam eufóricas nos primeiros contatos com a maconha, o risco de criar dependência é sete vezes maior que naquelas cuja experiência não tenha sido agradável.

Outra particularidade transmitida hereditariamente é a de ruborizar-se depois de tomar os primeiros copos de bebida alcoólica. Essa reação é mais frequente nas mulheres, e muito mais comum entre asiáticos que entre europeus. A pessoa empalidece, enrubesce, sente calor no rosto, fica aturdida e às vezes chega até a desfalecer, ainda que tenha ingerido uma quantidade muito pequena de álcool. Essa forma de intolerância ao álcool muitas vezes é determinante: não se pode tomar mais nada. Isso ocorre porque normalmente o álcool é degradado por enzimas em acetaldeído, que é eliminado por outras enzimas. Em algumas pessoas, as enzimas que degradam o acetaldeído são pouco eficazes: o acetaldeído se acumula, provocando a reação. Os genes que codificam as enzimas de degradação pouco eficazes passam de pai para filho.

A situação se complica quando se considera as patologias hereditárias que predispõem à dependência. Muitos pacientes alcoólicos tiveram transtornos psiquiátricos na infância ou adolescência, entre eles a hiperatividade com déficit de atenção, caracterizada por instabilidade motora, impulsividade e dificuldades de concentração. Esse problema é dos mais frequentes nas crianças, e atinge de 3% a 5% das que estão em idade escolar, afetando sua vida familiar, social e escolar. Multiplica por oito o risco de desenvolver o que se chama de distúrbios de comportamento (roubos, fugas e acessos de brutalidade). Muitas vezes se seguem atos ilegais (um risco 12 vezes maior que na média das pessoas), além disso, os pacientes correm um risco 13 vezes maior, em relação à média da população, de desenvolver uma personalidade psicopática na idade adulta. E, para encerrar essa cadeia, o fato de ter personalidade psicopática multiplica por 21 o risco de dependência. A sequência que acabamos de descrever leva da hiperatividade ao alcoolismo, ela não é inelutável, mas existe.

Sabemos que os marcadores elementares da dependência ao álcool são personalidade psicopática, apetência, tolerância, euforia. Resta estabelecer uma relação entre eles e eventuais genes. Para tanto, deve-se considerar o fato de que o comportamento de dependência corresponde, em termos neurobiológicos, a uma alteração do funcionamento cerebral. Em situação de dependência, alguns mensageiros químicos cerebrais não são liberados da mesma maneira, ou não têm exatamente o mesmo efeito sobre os neurônios. Toda a comunicação entre células nervosas se encontra modificada, levando a pessoa a procurara substância de que se tornou dependente. No caso da tolerância ao álcool, o receptor do neurotransmissor CABA funcionaria de forma ligeiramente diferente em cada pessoa, criando um terreno mais ou menos sensível ao álcool.

Por sua estrutura molecular, o álcool facilita a fixação do GABA em seu receptor. Assim, variações genéticas que dotam o indivíduo de formas mais ou menos ativas do receptor GABA têm consequências sobre as reações dessas pessoas ao álcool. Mais precisamente, o GABA é um mensageiro inibidor, fixando-se em seus receptores, provoca uma entrada maciça de íons cloreto nos neurônios, o que impede, por algum tempo, a propagação de toda e qualquer informação na rede de neurônios. Facilitando a fixação de GABA em seu receptor, o álcool interrompe a transmissão das informações nervosas por um período prolongado. Com certeza aí está a causa de certos efeitos depressivos do álcool, mais acentuados em indivíduos com receptores do GABA especialmente ativos.

Além disso, o álcool potencializa a ação do GABA no cerebelo, o que poderia explicar os problemas de coordenação motora observados nos casos de intoxicação etílica, uma vez que essa estrutura é responsável pela coordenação dos movimentos. Observe-se também que o receptor do GABA (mais especificamente o receptor de tipo GABA) é o alvo preferencial dos tranquilizantes, benzodiazepínicos e barbitúricos. O álcool age como tranquilizante: a pessoa que se dispõe a parar de beber se priva, de certa maneira, de um sedativo, que até então atuava sobre seus receptores GABA. Isso provoca um estado de ansiedade, e às vezes convulsões.

Pesquisadores demonstraram em ratos de laboratório que os genes codificadores de receptores do GABA determinariam o nível de sensibilidade ao álcool. A um desses genes, em especial, atribui-se a responsabilidade por essas diferenças, ele comanda a síntese da subunidade C6, uma das peças destacadas” do receptor GABA. Os ratos têm formas diversas dessa subunidade e, por causa de seu tipo, estão sujeitos a problemas de coordenação motora e de sono mais ou menos graves, depois da ingestão de álcool.

Continuando esse estudo em humanos, a equipe de David Goldman, da Universidade de Bethesda, Estados Unidos, constatou em 2004 que, nas populações indígenas da América, o alcoolismo passa de uma geração a outra simultaneamente à transmissão de uma porção de cromossomo que contém o gene da subunidade C6 do receptor GABA. Por fim, uma das formas desse gene associa-se efetivamente a uma melhor tolerância ao álcool na idade de 20 anos, tolerância que, como assinalamos, é o único marcador específico do risco posterior de dependência ao álcool.

Além do gene do receptor do GABA, o neuropeptídeo Y (NPY) também interviria nos fatores de risco de dependência. Esse pequeno peptídeo participa dos mecanismos de controle do apetite, da recompensa, da ansiedade e do equilíbrio energético. Por meio da engenharia genética, foram criados ratos cujo organismo produz diferentes quantidades de NPY. Quanto mais neuropeptídeo Y for secretado, menor a tendência a beber álcool e maior a capacidade de suportar seus efeitos. Os trabalhos de Robert Stewart, da Universidade de lndianápolis, mostraram que o neuropeptídeo Y, injetado no cérebro de ratos, reduz seu consumo de álcool. Assim, essa molécula constituiria um sinal de satisfação para o rato, pois ativa os neurônios de dopamina.

Um estudo finlandês mostrou que, no homem, uma variante particular do gene do neuropeptídeo Y (o alelo P.07) está associada a um consumo médio de álcool 34% superior à média. Supõe-se que a variante Pro7 seja uma forma menos ativa do peptídeo, que ativaria sinais de satisfação menos intensos. Como consequência, o organismo deve secretar uma maior quantidade para provocar a mesma satisfação. Como a secreção é comandada pela ingestão de álcool, para se sentir bem, a pessoa consome mais.

Essa relação seria incompleta sem a família dos receptores que foram objeto do maior número de pesquisas sobre o alcoolismo, a família dos receptores da dopamina. É a dopamina que fixa a dependência no cérebro. Proporciona prazer, associando-o ao produto consumido ou ao comportamento que causa dependência. Pode-se estimular artificialmente os neurônios de dopamina do cérebro de ratos, implantando neles eletrodos e dando descargas elétricas. Os ratos aos quais se dá a possibilidade de ativar os eletrodos pressionando uma pequena barra não desejam outra coisa, a ponto de se esquecerem de alimentar-se e de se reproduzir. No homem, os mesmos estímulos provocam uma sensação de prazer e de satisfação.

O álcool atua sobre esses neurônios do prazer. Com efeito, observou-se que pequenas doses de álcool induzem à liberação da dopamina na área tegmental ventral, uma região do cérebro essencial ao prazer associado a droga, alimentos ou relação sexual. O ponto de partida da ação do álcool é certamente o já mencionado receptor do GABA. Neurônios que contêm esse receptor inibem neurônios intermediários que param de inibir os neurônios de dopamina. Essa “inibição da inibição” termina por produzir uma ativação do neurônio de dopamina e uma sensação de prazer.

Os neurônios de dopamina são ativados na área tegmental ventral, que constitui um mecanismo de exploração. Ativada, ela desencadeia comportamentos de busca de tudo o que possa propiciar novamente o mesmo prazer. Assim, ativada pelo álcool, ela suscitará, em seguida, uma exploração voltada para a busca do álcool.

A área tegmental ventral não é ativada apenas pela dopamina, mas também pelas moléculas que imitam sua ação e ativam os mesmos receptores (é o caso, principalmente, das anfetaminas e da cocaína). Os receptores da dopamina, que a fixam e transmitem-lhe os efeitos de uma célula a outra, constituem o outro elo da cadeia da dependência. Determinadas variantes do receptor da dopamina do tipo D, provocam uma hiper-reatividade do circuito de exploração e de busca de álcool. Em nosso laboratório, comparando os resultados de 40 estudos realizados por diversas equipes em todo o mundo, concluímos que um dos alelos, o A, do gene codificador do receptor D, da dopamina, aumenta em 30% o risco da dependência ao álcool. O gene do receptor é uma porta de entrada da dependência: um estudo realizado em junho de 2004, com mil doentes alemães e chineses e mais mil pessoas sãs, mostrou que outra de suas variantes está associada à dependência de heroína.

O conjunto desses trabalhos nos leva a crer que a dependência de substâncias como álcool, maconha, heroína, cocaína, anfetaminas ou de comportamentos repetidos de forma descontrolada (determinados casos de jogo compulsivo ou de esporte desenfreado) é atribuída em cerca de 50%, ao patrimônio genético. Resta saber quais os genes envolvidos nesse processo, onde eles atuam e com que fatores ambientais interagem. Para isso, é preciso investigar os genes responsáveis pela tolerância inicial à substância, pelo efeito que se sente nas primeiras vezes de consumo e pelas diversas características da personalidade que predispõem à dependência. Nesse sentido, os genes que induzem à busca de novidade e de sensações constituem um campo de exploração privilegiado.

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OUTROS OLHARES

VITÓRIA CONTRA O CÂNCER

Com diagnósticos precisos, engenharia genética, terapias celulares e a descoberta de novas drogas, ganha força a chamada oncologia de precisão, que preconiza tratamentos personalizados e sob medida. As esperanças contra a doença se renovam

As células modificadas voltam para o corpo e favorecem uma reação imunológica para combater a doença. A técnica usada, consagrada nos Estados Unidos, a CAR-T, é uma solução médica em fase de testes, cujos riscos ainda estão sendo reconhecidos. Vamberto só passou por ela porque era considerado um paciente compassivo, que tinha uma última chance de sobreviver, avaliada pela família e pela Comissão de Ética do hospital. Os resultados, porém, foram altamente positivos. Exames pós-tratamento mostram que dores e outros sintomas e as células tumorais desapareceram.

Apesar de impressionante, o uso da terapia celular — capaz, pelo que se vê, de interromper e regredir totalmente uma metástase – é só mais uma espantosa surpresa no aumento do arsenal contra o câncer nos últimos tempos. Em todas as frentes, há uma evolução notável nos tratamentos, que começam com a precocidade e a precisão do diagnóstico com sistemas inteligentes e equipamentos poderosos e contam cada vez mais com recursos para aumentar a sobrevida de uma pessoa em uma década ou até mesmo para acabar de vez com o tumor. Fala-se hoje em oncologia de precisão, em que a terapia é desenhada especificamente para o paciente, a partir de suas informações clínicas e genéticas do tumor.

No caso da CAR-T é assim que funciona. É um tipo de tratamento personalizado em que se leva em consideração a assinatura molecular do câncer para que se possa fazer uma arma específica contra ele. As células T modificadas com antígenos são usadas apenas no próprio indivíduo que as cedeu. “Se soubermos qual é a estrutura do tumor, a fechadura, podemos criar uma chave adequada para tratar o paciente”, diz o médico Renato Abreu, diretor do Centro de Terapia Celular do Hospital das Clínicas, responsável pelo tratamento de Vamberto. “E nesse caso a CAR-T foi um sucesso absoluto”.

“É uma terapia muito promissora e tem potencial para tratar diversos outros tipos de tumores”, diz a médica Yana Novis, coordenadora da onco-hematologia do hospital Sírio-Libanês. “Há estudos sobre seu uso no linfoma Hodgkin, mieloma múltiplo (que atinge a medula) e glioblastoma (um tipo de câncer no cérebro comum e agressivo), mas as técnicas ainda não têm a aprovação da FDA.” Por enquanto, nos Estados Unidos, a terapia celular é oferecida para o linfoma não Hodgkin de célula B e para a leucemia linfoblástica aguda e, mesmo assim, em casos extremos, para quem já vez diversos tratamentos prévios e passou por quimioterapia, imunoterapia e tentou tudo que se conhece. Pacientes tratados com células T modificadas nos Estados Unidos, como a garota Emily Whitehead, hoje com 14 anos, continuam vivos e apresentando um quadro de recuperação. Emily foi diagnosticada com leucemia linfoblástica aguda em 2012, aos seis anos, e ficou à beira da morte. A cura de um câncer é atestada depois de cinco anos de desaparecimento dos tumores.

Seja como for, não se imagina uma panaceia no tratamento do câncer, uma solução para todos os males. Junto com a terapia celular, não faltam outras soluções personalizadas. No leque de tratamentos inovadores e desenvolvidos sob medida há drogas chamadas de “alvo dirigidas”, que funcionam como mísseis destruidores de células cancerígenas e que atuam contra proteínas produzidas no próprio tumor. A chave do sucesso é reconhecer exatamente de que tipo de câncer se trata, quais as proteínas e anomalias associadas a ele e usar os recursos tradicionais e de engenharia genética disponíveis para cada caso. Cada tumor tem a sua assinatura no DNA e o câncer não é uma só doença, mas inúmeras. O que se busca é um tratamento mais focado em que se detecta a presença de determinadas moléculas derivadas do processo cancerígeno e se procura oferecer uma solução integrada compatível com o organismo do paciente.

MUTAÇÕES E DEFEITOS

“A oncologia generalista não faz mais sentido”, diz o médico Artur Katz, diretor geral de oncologia do hospital Sírio Libanês. “O caminho é a precisão e o grande passo para essa evolução é o aperfeiçoamento de técnicas de patologia molecular que permitem o reconhecimento de alterações nos tumores que podem ser exploradas pelo tratamento”. Esse tipo de abordagem tem funcionado bem contra o câncer de pulmão de não pequenas células, por exemplo. Nesse tipo de tumor são reconhecidos em laboratórios de patologia algumas mutações e defeitos como a EGFR, ALK, ROS1 ou HER2. Uma vez identificado o defeito, existem medicamentos específicos que podem ser empregados com excelentes resultados. Não por acaso, cada vez mais tipos de cânceres são enfrentados com a ingestão de um ou mais comprimido

Uma pílula contra o câncer de próstata foi apresentada no último congresso anual da American Urological Association. A droga em questão é a enzalutamida, que bloqueia o efeito da testosterona em células de indivíduos com tumores avançados. Pesquisa feita com 1125 homens que receberam uma injeção de medicamento supressor de testosterona e um comprimido por dia de enzalutamida mostrou que o risco de morte pela doença caiu em 33%. Outro medicamento que tem dado resultado é a apalutamida, já aprovada no Brasil, que reduz o risco de metástase ou morte em 72% dos casos de tumor na próstata.

Um medicamento lançado pelo laboratório Bayer e aprovado recentemente no Brasil, chamado larotrectinibe, cujo nome comercial é Vitrakvi, também revela bem essa tendência. É uma droga que pode impedir a evolução de qualquer tipo de câncer sólido (que não surge nas células do sangue), seja de mama, pulmão, cérebro ou intestino, desde que exista uma mutação incomum, conhecida como fusão do gene NTRK. Estima-se que 1% dos tumores sólidos apresente essa anomalia. Se a fusão for reconhecida em laboratório, o Vitrakvi se torna uma poderosa opção de tratamento e faz desaparecer os sintomas da doença. Normalmente indicado para casos em que o câncer se espalhou pelo organismo e não há outras opções terapêuticas, ele bloqueia a ação de substâncias que aceleram o crescimento de células cancerosas.

Menos agressivo que a quimioterapia, o Vitrakvi vem sendo usado com sucesso no Brasil pelo garotinho Levy Batista Nogueira, de 2 anos, que sofre de fibrossarcoma infantil, câncer raro e maligno que atinge os tecidos moles. Sua mãe, a médica cardiologista Monique Nogueira, diz que Levy toma o remédio desde novembro do ano passado e leva hoje uma vida normal. “Meu filho não apresentou nenhuma reação ao medicamento”, diz Monique. O caroço que comprometia a vida do garoto teve uma redução de mais de 70%. Com a estabilização tumoral ele não será submetido a um procedimento cirúrgico no momento. O tratamento de Levy está sendo bancado pelo laboratório farmacêutico.

A evolução do tratamento do câncer de mama, que atinge uma em cada oito mulheres, também dá motivos para otimismo. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), cerca de 60 mil novos casos da doença são diagnosticados anualmente no Brasil. Em 20% deles, por exemplo, aparece uma proteína chamada HER-2, que aumenta a agressividade do tumor. Há pouco tempo a presença da HER-2 era apenas um motivo de preocupação com o agravamento do caso. Agora é uma oportunidade de cura. O uso de medicamentos à base de anticorpos monoclonais, que atuam diretamente contra as células tumorais, é uma pequena revolução. Um medicamento injetável específico chamado T-DM1, desenvolvido pela Roche e aprovado em julho pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), reduz em 50% o risco de recorrência do câncer ou de morte do paciente, segundo o estudo Katherine, publicado no New England Journal of Medicine.

Outra terapia alvo conhecida como inibidora de CDK, que interrompe a atividade de enzimas promotoras de células cancerosas chamadas de quinases, também vem sendo usada com sucesso em alguns tipos de câncer de mama. O mais agressivo deles, chamado de triplo negativo, só era tratado por quimioterapia. As pacientes viviam em média 15 meses. Mas, agora, com drogas “alvo dirigidas” e imunoterapia, outro tratamento que tem se tornado mais inteligente e eficaz, a sobrevida aumentou para 25 meses. Usa-se o medicamento atezolizumabe, aprovado pela Anvisa em maio, nos casos em que existe a proteína PD-L1, que esconde as células tumorais.

O presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, Sergio Simon, diz que é fundamental, hoje, fazer testes genéticos para procurar alterações celulares a fim de fazer uma oncologia precisa. “Você pode encontrar muitos defeitos para os
quais não existem remédios, pode não encontrar nenhum defeito e pode encontrar defeitos que podem ser explorados”, afirma. Há dez anos a escolha do tratamento era mais simples e ineficaz, mas hoje prevalece a terapia agnóstica, em que não importa qual é o tipo do tumor, ou onde ele surge e sim o defeito que apresenta. “Não há uma conduta de trabalho único, como costumava acontecer, e estamos cada vez mais distantes de uma época em que havia simplicidade na definição do tratamento”, afirma Simon.

MARCADORES GENÉTICOS

O que se vislumbra para daqui três a cinco anos é a elaboração de painéis com marcadores genéticos específicos que fazem o sequenciamento das células doentes em busca de mutações para cada paciente. Esses painéis guiarão o tratamento na escolha de quimioterápicos, imunoterápicos, drogas “alvo dirigidas” ou no desenvolvimento de terapias CAR-T, que chegarão a diversos tipos de cânceres sólidos especialmente agressivos e com prognósticos ruins, como no cérebro ou no pâncreas. O tumor de pâncreas, por sinal, por sua dificuldade de detecção, malignidade e altas taxas de mortalidade, merece especial atenção.

Exames de DNA têm permitido combater com mais eficácia a doença em pacientes que apresentam as alterações genéticas BRCA 1 ou BRCA 2, característica de 7% dos afetados pela doença. Uma droga chamada olaparibe, da Astra Zeneca, já usada contra nódulos malignos na mama, interrompeu a progressão do câncer de pâncreas num teste clínico em voluntários com metástase. Descobriu-se que esse tipo de câncer pode estar associado à proliferação no órgão (que secreta enzimas digestivas no intestino delgado), de fungos do gênero Malassezia, encontrado no couro cabeludo e causador da caspa. Um estudo publicado pela revista Nature revelou que os fungos penetram no pâncreas e se multiplicam três mil vezes mais do que o tecido saudável.

Não há dúvida de que a medicina tem obtido vitórias decisivas contra o câncer e que o futuro é promissor. Mas existe uma importante barreira para o acesso às novidades terapêuticas: o custo. As novas drogas dirigidas atingem preços inacessíveis para a maioria dos doentes. O tratamento com o Vitrakvi, por exemplo, sai por US$ 32,8 mil por mês e com o concorrente Rozlytrek, da Roche, também eficaz nos casos em que existe a fusão do gene NTRK, o custo chega a US$ 208 mil por ano. Com a terapia celular a situação não é muito diferente.

A aplicação da técnica CAR-T nos Estados Unidos chega a custar US$ 450 mil. No Brasil, no Hospital das Clínicas da USP, em Ribeirão Preto, o custo ficou em 10% desse valor. De qualquer forma, mais do que o preço, o que importa no tratamento do câncer é a esperança. Depois do êxito da terapia em Vamberto, o médico Renato Cunha passou a receber até 800 pedidos diários de consultas e pareceres, o que mostra a importância dessa nova conquista médica brasileira. Inúmeros pacientes sem perspectivas têm agora uma base sólida em que se apoiar para tentar recuperar a saúde. Um novo caminho de cura se abriu. E o que se espera é uma longa vida para Vamberto.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 15 DE FEVEREIRO

OS SINAIS DA SEGUNDA VINDA DE CRISTO

Mas vós, irmãos, não estais em trevas, para que esse Dia como ladrão vos apanhe de surpresa (1Tessalonicenses 5.4).

Não podemos marcar datas, mas podemos observar os sinais da segunda vinda de Cristo. Ele não nos deixou sem claros sinalizadores enquanto caminhamos rumo à glória. A segunda vinda de Cristo é precedida por sinais naturais. Jesus disse que o tempo do fim seria marcado por epidemias, pestes e terremotos. As epidemias sempre assolaram a humanidade ao longo da História, como a peste negra que matou 1/3 da população da Europa no século 13. Nestes últimos tempos, contudo, as epidemias têm-se multiplicado com consequências devastadoras. Doenças epidêmicas e pandêmicas desafiam a ciência. A aids e a gripe suína são apenas alguns exemplos mais recentes. Isso sem mencionar as pestes que devastam campos e lavouras e assolam a terra. Destacamos outrossim os terremotos. Apenas no século 20 aconteceram mais terremotos e maremotos do que em todos os séculos anteriores.

Ainda guardamos na memória a devastação do tsunami que engoliu cidades inteiras na costa da Ásia. O mundo está ainda perplexo com o devastador terremoto em Porto Príncipe, capital do Haiti, em 12 de janeiro de 2010, quando a cidade foi arrasada e cerca de cem mil pessoas pereceram debaixo dos escombros. Precisamos estar atentos para o fato de que é mais tarde do que jamais imaginamos. Você está preparado para a volta de Jesus? j

GESTÃO E CARREIRA

EMPREGOS EM EXTINÇÃO

A automação e o uso da inteligência artificial prometem arrasar o trabalho como o conhecemos hoje – e abrir caminho para oportunidades inimagináveis há alguns anos.

Em uma das previsões mais marcantes que faz em seu livro Sapiens, o escritorisraelense Yuval Noah Harari imagina um mundo em que a inteligência artificial avança de tal forma que torna obsoleto o trabalho de boa parte da humanidade. O mais alarmante nesse futuro  possível é quanto ele está próximo da realidade atual. Um estudo realizado pela consultoria americana Gartner mostra que, já em 2020, o uso de máquinas que reproduzem o raciocínio humano deve extinguir 1,8 milhão de empregos e algumas profissões se tornarão completamente ultrapassadas devido ao avanço da tecnologia incluindo carreiras técnicas e com remuneração mais elevada em áreas de produção e administrativas. No Brasil, por exemplo, entre 2009 e 2019, não foi registrado um único ano sequer de crescimento do emprego formal com mais de dois salários mínimos, segmento típico das ocupações médias   nos escritórios e fábricas.

Parece incontestável que, no Brasil, boa parte do atual contingente de 11,9 milhões de desempregados jamais retornará às suas antigas funções. A indústria e o comércio, em um ambiente de pouco crescimento, estão realizando rapidamente a transição para o ambiente digital como forma de substituir a mão de obra demitida, ganhar eficiência e deixar de pagar pesados encargos trabalhistas com novas contratações com a melhoria do cenário econômico. A situação é igualmente séria para os jovens que buscam o primeiro emprego, e que tem pouquíssimas chances de obtê-lo nas mesmas condições que as gerações anteriores. “Em breve, será muito difícil ver um jovem conquistar um padrão de vida melhor que o de seu pai”, prevê o economista José Pastore, professor da USP e presidente do Conselho de Emprego e Relações do Trabalho da Fecomércio de São Paulo. “Nós assistiremos a uma inversão de boa parte da lógica social. Em vez de o filho cuidar do pai na velhice, o pai continuará contribuindo para a subsistência do filho por muito mais tempo”.

Com o avanço da tecnologia e a automação de linhas de produção, a curva de crescimento de riqueza pessoal, que era ascendente, passou a ser descendente e reflete na qualidade dos empregos. Pode-se pensar que isto está acontecendo de forma mais acentuada no Brasil devido à crise econômica vivida pelo país nos últimos seis anos. Pastore, no entanto, ressalta que o fenômeno faz parte de uma transição global. Até mesmo nos Estados Unidos, um país que registra índices de desemprego ínfimos e onde se criam mais de 150 mil postos de trabalho mensalmente, a qualidade do emprego é baixa e piora ano a ano. Estudo realizado recentemente por pesquisadores da Universidade de Cornell demonstrou como essa degradação se deu. Para isso, os economistas cruzaram o valor pago por hora aos trabalhadores com o volume de horas trabalhadas para definir a qualidade dos empregos. Em novembro de 2019, quando foram gerados 266.000 postos de trabalho nos Estados Unidos, a proporção era de oitenta funções bem remuneradas para cada 100 mil mal remuneradas. Em 1990, a diferença eras muito menor – 94 funções bem remuneradas para 100 mal remuneradas. O estudo é claro ao apontar o avanço da tecnologia como o responsável pela piora da remuneração.

 Outra grande mudança no mundo do trabalho é a migração da fabricação de produtos de consumo duráveis para países com grande contingente de mão de obra não qualificada e com regulamentação trabalhista baixa ou inexistente. Foi tal fenômeno que transformou nações como China, Índia, Paquistão, Bangladesh e Vietnã em “fábricas do mundo”. Estudiosos acreditam que a associação da evolução tecnológica com essa transferência teve impacto severo sobre as camadas da população de países mais industrializados que se beneficiavam de salários mais elevados nas indústrias globais de produtos de consumo. Com menos mão de obra empregada nas fábricas, a grande maioria da massa trabalhadora tende a migrar para o setor de serviços, o que acaba por concentrar os recursos no topo da pirâmide social. “Como resultado, a maior parte do crescimento do mercado se dá na forma de vagas que não apenas pagam menos por hora trabalhada, como também têm carga horária menor”, afirma Daniel Alpert, um dos autores do estudo da Universidade Cornell.

Definida por especialistas como um novo ciclo da Revolução Industrial, o momento que vivemos está muito distante dos tempos em que os chamados Ludistas pregavam a destruição dos teares a vapor por substituírem a mão de obra humana e consequentemente deixarem uma massa de desempregados nas cidades industriais da Europa. Isso não significa, entretanto, que não sejam necessárias medidas que permitam uma transição menos traumática entre os modelos de produção. Os pesquisadores de Cornell, por exemplo, defendem ações públicas pata mitigar esse impacto que vão de alterações no sistema educacional à modernizações das relações trabalhistas. No Brasil, essa também é a linha defendida por quem está atento ao assunto. Em 2019, o governo federal montou o Grupo de Altos Estudos do Trabalho (Gaet), que visa ao desenvolvimento de políticas específicas para o setor, O objetivo dos economistas e sociólogos que participam do grupo é mudar a mentalidade corrente de que os trabalhadores são “executores de tarefas”, de modo que eles passem a ser “resolvedores de problemas”.

Trata-se de uma mudança brutal que exigirá o aperfeiçoamento contínuo e grande capacidade de adaptação. “As pessoas vão precisar estudar ao longo de toda sua vida, mas elas não poderão se dedicar a apenas uma área. Os especialistas vão perder mercado”, diz Ricardo Paes de Barros, economista do Insper e chefe do Gaet. “No passado, nossos páis diziam para nos dedicarmos a uma área para nos tornarmos uma sumidade em determinado assunto. Isso já não vale mais de nada.” Para Paes de Barros, o primeiro passo no sentido de adaptar os brasileiros a esse novo cenário já foi dado pelo governo do presidente Michel Temer com a reforma trabalhista e a reorganização do ensino médio, mas ele classifica essas medidas como tímidas. A previsão é que os resultados do Gaet sejam apresentados em fevereiro para o governo, que deve formular consultas públicas para decidir como vai abordar o desafio.

O uso da automação na produção em processos burocráticos foi uma maneira de padronizar e aumentar a escala do trabalho em tarefas mecânicas, repetitivas e maçantes. Essa foi a porta de entrada para os robôs nas linhas de montagem de carros e até produtos mais prosaicos, como escovas de dente. O impacto foi o fim das vagas nessas áreas. A evolução de tecnologias como sistemas de voz automatizados e a chegada de novos dispositivos de pagamentos eletrônicos já apontam para o fim de empregos como operador de telemarketing, caixas de banco e supermercados, que começam a trilhar um processo de extinção irreversível. Por outro lado, carreiras como as de programador e especialista em computação tornam-se cada vez mais requisitadas, e muitas vezes em aspectos até então inimagináveis. O paulistano Estefan Martin, de 36 anos, tem uma profissão de nome complicado: designer de experiência do usuário. Seu trabalho, em uma empresa do setor financeiro, é avaliar – e melhorar – a interface que os clientes têm com o site e os dispositivos eletrônicos por meio dos quais contratam serviços e realizam operações. “É um ramo novo e que só agora começa a ser explorado em escala maior, mas que é extremamente promissor e será decisivo no futuro”, diz Martin.  

Assim como as disciplinas ligadas à experiência de usuário outras profissões despontam e implicam um desafio adicional aos gestores de recursos humanos. De acordo com uma pesquisa da consultoria americana Capgemini Research Institute, 64 % das empresas enfrentam dificuldade de encontrar no mercado profissionais especializados na área de inteligência artificial. As competências requeridas têm mudado drasticamente, e hoje a familiaridade com modernas tecnologias é apenas parte da equação. Habilidades bem mais humanas como originalidade, pensamento crítico, persuasão, inteligência emocional e liderança são igualmente valorizadas. A mudança radical no mercado de trabalho é um caminho sem volta e exige um esforço triplo: governo, empresas e os próprios indivíduos precisam se aprimorar para garantir seu espaço no futuro.

DÉCADA PERDIDA

Total de postos de trabalho, criados ou destruídos, no Brasil (em milhões)

PERTO DO FIM?

As profissões com maior e menor tendência de da substituição de funcionários por robô

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

EMOÇÕES E SEXUALIDADE

As emoções ligadas ao sexo são uma interessante fonte para testar a possibilidade de conciliar o nível fisiológico com o fenomenológico

As emoções estão hoje no centro de debates e teorias de neurocientistas, psicólogos e filósofos. O tema foi vivificado pelos experimentos de Joseph LeDoux, que descreveu quais relações existem entre emoções fortes e estruturas do sistema límbico, particularmente a amígdala. Asobservações de LeDoux referem-se sobretudo ao medo, uma emoção primária que tem forte significado de adaptação, na medida em que permite a sobrevivência em ambientes de risco. Sem a amígdala, afirma LeDoux, não perceberíamos uma série de sinais de perigo: nos animais e nos humanos esses sinais são interpretados primeiramente pelo sistema límbico, que organiza reações, e em seguida pelo córtex, que pode potencializar ou reprimir essas reações.

Mas o que sabemos sobre o medo nos autoriza a generalizar? As raízes fisiológicas são igualmente importantes para as outras emoções? Filósofos e psicólogos que pertencem à corrente fenomenológica acreditam que a fisiologia das emoções teria pouco a ver com aqueles sentimentos individuais e complexos que não é possível descrever em termos de estruturas e mediadores nervosos. Eles citam emoções como o apaixonar-se e o prazer ligado ao sexo, que têm uma forte diversificação individual. As emoções ligadas à sexualidade representam, por isso, um bom tema para compreender se é possível conciliar a dimensão fisiológica com a fenomenológica. Por exemplo, no cérebro de um adolescente totalmente absorto em sua primeira paixão verifica-se algo que o iguala a outros adolescentes ou a outros seres humanos. E naquelas emoções podemos reconhecer alguns aspectos “universais”, como a dependência, o desejo de novidade, o prazer, o ciúme?

Freud e muitos psicólogos consideram a sexualidade uma necessidade primária que contribui para satisfazer as exigências do organismo uma mola que dá direção ao comportamento. Algo similar a comer, beber ou dormir. Essas necessidades – pulsões encobertas por superestruturas culturais – estariam inscritas em nosso cérebro e encontrariam uma gratificação no prazer e na satisfação e gerariam descontentamento quando não satisfeitas.

Em seu aspecto mais reducionista, as necessidades implicam um programa biológico que se traduz em escolhas quase automáticas: um mecanismo inteligente do ponto de vista instintivo que se manifesta desde a fase neonatal. Os fisiologistas descreveram no âmbito dos núcleos profundos do encéfalo, e particularmente do hipotálamo, aqueles mecanismos que percebem os estados internos do organismo e que colocam em prática programas úteis para satisfazer necessidades ou carências. Por exemplo, quando os níveis de açúcar do organismo caem, ativam-se receptores que provocam a sensação de fome e nos impelem rumo a comportamentos de busca de comida. Reações semelhantes se manifestam também no caso da ativação sexual que em sua forma mais mecanicista depende dos níveis dos hormônios e de estímulos apropriados.

Mas, para que as pulsões se realizem, para que sejamos impelidos rumo a comida ou sexo, é preciso existir o prazer, um “reforço” que manifeste a satisfação de nossas necessidades. Esse tema foi desvendado pelas pesquisas de James Olds, que demonstraram a existência dos chamados “centros do prazer”. Em última análise, o prazer é uma descarga de mediadores nervosos em algumas estruturas do cérebro.

Estritamente vinculada à pulsão sexual é a busca de novidades capazes de “estimular” nosso cérebro. Segundo Donald E. Berlyne, existe uma verdadeira pulsão que nos impele a procurar estímulos novos e excitantes, sem os quais nossos impulsos correm o risco de encalhar na monotonia. Mas, quando do sexo passamos para o enamoramento, eis que emerge uma componente que de algum modo se contrapõe à busca de novidades: o apego. John Bowbly, o psicólogo que descreveu o apego em termos evolutivos, apontou como desde pequenos somos envolvidos emotivamente com uma figura de referência e como a separação dessa figura implica emoções dolorosas. Mesmo quando nos apaixonamos, o apego tem um papel fundamental e se um dos parceiros se sente abandonado vive uma espécie de “luto” ligado ao fato de ter sido privado de uma forma de segurança que representa o pólo oposto da busca de novos estímulos.

Segundo o psiquiatra Michael Liebowitz, o apego (comum a muitas espécies animais) entraria, nas relações amorosas, numa segunda etapa. Numa primeira fase, aquela da atração e do entusiasmo da paixão, os parceiros vivem um estado de euforia que os isola do mundo. Após um tempo variável, surge um estado emotivo mais tranquilo, durante o qual o cérebro segrega as endorfinas, substâncias naturais similares à morfina que acalmam a mente e causam as sensações de segurança e de paz que estão na raiz do apego. Assim, num relacionamento, as turbulências iniciais são substituídas por um sentimento caloroso e seguro.

Paixão e apego são emoções que ligam as pessoas e são funcionais para relacionamentos duradouros. No entanto, também existe um impulso oposto que pode nos impelir a buscar outro parceiro. Alguns estudiosos, como o etologista Norbert Bischof, consideram esse comportamento de exploração como uma reação ao “excesso de segurança”, uma sensação à qual se reage afastando ­se do objeto de apego, nada mais, nada menos do que os adolescentes fazem quando sentem a exigência de se desvencilharem dos afetos infantis.

Alguns neurofisiologistas não hesitam em falar de ‘resposta de saciedade’, uma espécie de dessensibilização do cérebro em relação a um estado que durou demais. Todavia, a experiência não para de demonstrar o quanto são variáveis os indivíduos e as condições existenciais: existem os “garanhões”, em constante busca de novas aventuras, mas também pessoas cujo apego perdura longamente, existem as diferenças de temperamento que dividem, as afinidades eletivas que unem, os casos da vida. As culturas, enfim, têm o poder de amplificar um ou outro aspecto do amor, acrescentando complexidade a nossos comportamentos, escolhas e emoções.

A complexidade nesse campo é notável. Vejamos o apego, por exemplo. Se ter apego representa uma vantagem evolutiva, na medida em que consolida o vínculo do casal e facilita os comportamentos parentais, um excesso de apego leva à obsessão e ao ciúme. Este pode aparecer a qualquer momento da relação, na fase da atração, na do apego, mas também depois de uma separação “definitiva”. É na força do apego que afundam as raízes, as ambivalências e as lutas daqueles que, ao se separarem, têm de resolver o conflito criado entre o desejo de novidade e a força da dependência.

Romper um relacionamento não é fácil, a racionalidade tem de entrar em acordo com a emotividade, o dito com o não-dito, muitas vezes também é preciso sair em busca de uma nova identidade para substituir aquela que, com a falta da ligação, se desagrega. Como o apego, o processo do “desapego” também, em seus prazos, é preciso se desacostumar, como acontece com a droga, diria o psicobiólogo.

OUTROS OLHARES

 O DRAMA DAS ESTRELAS

Um dos melhores chefs da atualidade, Marc Veyrat processa o Michelin por ter lhe garfado uma estrela e põe fermento no eterno debate sobre os excessos do guia

O ano era 1671, e o admirado chef francês François Vatel, a quem é atribuída a criação do chantili, organizara três dias de banquetes que teriam como comensal Luís XIV, o todo-poderoso Rei Sol. Vatel não conseguia pregar os olhos. No jantar havia faltado assado em virtude de um terrível erro de cálculo dele e o atraso na entrega do peixe para o dia seguinte o assombrava. A agonia virou tortura e, segundo uma versão muito disseminada da história ele decidiu tirar a própria vida (sem nem ficar sabendo que o peixe, enfim, chegara). A trágica passagem ilustra a panela de pressão que os grandes cozinheiros sempre precisaram manejar. Bem depois de Vatel, ela entraria em ebulição com o surgimento na França do guia Michelin, a bíblia da gastronomia, em 1900. Ao conferir estrelas (de uma a três) a mesas de mais de 25países, do Brasil inclusive, o livreto já catapultou chefs à fama e esfarelou reputações. Agora, foi arrastado para o centro de um duelo que tem do outro lado do ringue o francês Marc Veyrat, venerado por cavucar ingredientes nos Alpes e lhes dar leitura singular.

Aos 69 a nos, sempre com seu inconfundível chapéu de astro do rock dos anos 80 Veyrat tido como um dos grandes chefs em atividade entrou há um mês na Justiça contra o Michelin. Quer saber “as razões exatas” de o guia ter lhe garfado, na recém-lançada edição, uma das três estrelas que cintilavam à porta do seu La Maison des Bois, elegante salão para trinta pessoas com vista para os nevados picos do Mont Blanc e menu a 395 euros (cerca de 2.000 reais). Conhecida por mimos para o paladar como “a loucura do coração de trufa de ovo invertido” (só quem come entende), a casa havia cravado a cotação máxima em 2018. “Sou o único chef na história que conseguiu uma terceira estrela em um ano e a perdeu no seguinte. Você pode imaginar a vergonha que isso representa? Estou em depressão desde que recebi a notícia”, escreveu em carta que fez tilintar os talheres no mundo da alta gastronomia – e continuou: “Tenho problemas para dormir, quase não como mais, choro sem motivo, me sinto mal o dia todo”.

Assim que foi informado do rebaixamento, Veyrat foi à sede do Michelin, em Paris, cobrar explicações. Ouviu que uma das razões para ter deixado o grupo de elite dos fogões foi o uso de cheddar em um suflê. Ficou em choque. Segundo ele, a receita leva três queijos alpinos da melhor cepa – reblochon beaufort e tomme. Jamais cometeria o sacrilégio de acrescentar cheddar à mistura. Veyrat pôs então em dúvida se os inspetores do guia haviam de fato visitado o restaurante. Ele pede à Justiça que apresentem os comprovantes de pagamento das refeições e exige que o La Maison des Bois seja excluído da publicação. Novo diretor internacional dos guias, Gwendal Poullennec garante que a casa foi avaliada “várias vezes no ano” e se recusa a tirar o estabelecimento do livro. “Trabalhamos para os clientes, e não para os restaurantes. As estrelas não são de propriedade dos chefs” justifica. A primeira audiência entre as duas partes está marcada para 27 de novembro.

Veyrat que já foi dono de três estabelecimentos com três estrelas cada um (dois ele fechou), não briga à toa. A história vem sendo implacável com quem fica de fora da constelação. Em 2013 ao ver subtraídas de uma única tacada as duas estrelas de seu restaurante em Nova York o escocês Gordon Ramsay resumiu o dissabor: “Foi como perder uma namorada. Você fica esperando que ela volte. As estrelinhas nunca retornaram, e a casa acabou fechando. Em 2019, foi a vez de o The Araki, de Londres ter de engolir a humilhação. As três estrelas do requintado japonês evaporaram-se de um ano para o outro depois da saída do chef Mitsuhiro Araki, que voltou para sua Tóquio natal. A conta deve vir depois. “O faturamento de um restaurante estrelado aumenta de 30% a 4 0 %”, calcula Franci Attrazic, presidente da Association Française des Maitres Restaurateur, que congrega os principais empresários do ramo na França, país número 1 em estrelas. ”Evidentemente, perder uma estrela é terrível para o chef, mas para o negócio é bem pior”, avalia Felipe Bronze, à frente do Oro, no Rio de Janeiro, condecorado com duas estrelas na edição de 2009. Há três anos sob o escrutínio do Michelin, o Brasil ainda não tem um três estrelas para chamar de seu, privilégio hoje de 114 restaurantes no mundo.

Antes de Veyrat, mais gente já havia batido panela às portas do Michelin. Em 2003, um ex-inspetor do guia, Pascal Rémy, abalou os alicerces ao declarar em livro que mais de um terço dos restaurantes franceses listados só atingia a avaliação máxima porque eram considerados “intocáveis”. O suicídio de dois chefs franceses às voltas com o tormento de perder suas estrelas também ingressou no capítulo sem nenhum glamour: o primeiro foi Bernard Loiscau, em 2003, que inspirou a animação Ratatouille e o livro O Perfeccionista e o segundo, Benott Violier, em 2006. Criada pela fabricante de pneu Michelin para fornecer endereço de oficina e postos a motoristas que cruzavam as estradas da França, a publicação embrenhou-se apenas mais tarde no ramo de hotéis e restaurantes – que passou a avaliar com base em critérios como qualidade dos ingredientes, harmonia de sabores, personalidade e regularidade da cozinha, relação custo-benefício.

Régua tão elevada (e para muitos demasiado tradicional) impõe aos donos de constelações uma rotina cara e estressante voltada para a manutenção da honraria. E isso já não faz mais sentido para uma ala que, acredite, até pede para devolver estrelas pelo peso que elas embutem. “Os grandes restaurantes caros se tornarão cada vez mais raros, enquanto os de boa cozinha e preço competitivo ganharão espaço” afirma o estrelado Gastón Acurio, o nome mais vistoso da culinária peruana moderna. Em 2017 o francês Sebastien Bras, filho de Michel Bras (que deixou à humanidade o bolo morno de chocolate, hoje mundialmente conhecido como petit gâteau), suplicou que fossem removidas as três estrelas de seu Le Suquet, no sul da França. Conseguiu. “Elas ajudaram a construir nossa reputação, mas prefiro me libertar da pressão”, explicou Bras, cujo grito de independência soou arrogante para a imensa maioria que faz de tudo para estar na constelação. Como resumiu seu conterrâneo Alain Ducase (dono de dezenove delas) “é lógico que podemos viver sem as estrelas, mas vivemos bem melhor com elas.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 14 DE FEVEREIRO

JESUS PURIFICA O LEPROSO

Jesus profundamente compadecido, estendeu a mão, tocou-o e disse-lhe: Quero, fica limpo! (Marcos 1.41).

A lepra era a doença mais temida na Antiguidade. Apodrecia a carne e destruía os sonhos. A lepra jogava as pessoas na vala da morte. Houve um dia em que um pobre homem percebeu algumas manchas esbranquiçadas espalhando-se pelo corpo. A pele começou a ficar escamosa. O homem correu ao sacerdote e este deu o fatídico diagnóstico: “Você está leproso”. O horror tomou conta de sua alma. Ele não podia mais voltar para casa e abraçar a esposa nem podia pegar os filhos no colo. Dali mesmo, cobriu a face com um trapo e entrou para um leprosário. Os anos se passaram, e seu corpo foi tomado pela lepra. Seu destino era a morte na solidão de uma colônia de leprosos. Até o dia que esse homem ouviu falar de Jesus. Sem que ninguém o visse, esgueirou-se pelas ruas e aproximou-se de Jesus, prostrando-se a seus pés. Então, clamou: Senhor, se quiseres, podes purificar-me (Mateus 8.2). Jesus, compadecido dele, tocou-o e disse-lhe: Quero, fica limpo! Imediatamente, a lepra o deixou, e ele ficou curado. Esse homem revelou humildade e confiança, ao passo que Jesus lhe demonstrou compaixão e poder. Para Jesus, não há nada demasiadamente difícil. Aquilo que é impossível aos homens é possível para ele. Entregue agora mesmo sua vida, sua família e seus temores a Jesus!

GESTÃO E CARREIRA

AQUI, AS VAGAS ESTÃO SOBRANDO

Apesar dos bons salários e empregos de sobra, o setor de tecnologia da informação sofre cada vez mais para encontrar profissionais qualificados – uma realidade que deve se agravar com a retomada da economia

A multinacional chilena Sonda tem um problema. A empresa, que é uma das maiores fornecedoras de serviços de tecnologia da América Latina, não tem conseguido encontrar gente suficiente para trabalhar no Brasil, um dos dez países em que atua. Só em 2019 a companhia abriu 2.700 vagas por aqui, mas, mesmo num país com 12,5 milhões de desempregados – 11,8% da população ativa -, quase 600 vagas não foram preenchidas por causa da falta de mão de obra qualificada em tecnologia. Ou seja, de cada cinco postos abertos, praticamente um não havia sido ocupado até dezembro. É uma situação perturbadora, para dizer o mínimo, para um país do tamanho e da importância do Brasil. E ela se repete em muitas empresas de tecnologia e em companhias de outras áreas que precisam de programadores, analistas de sistemas, cientistas de dados e especialistas em segurança da informação. Embora os cursos ligados a tecnologia formem 46.000 profissionais por ano, essa quantidade não é suficiente para atender as empresas do setor, que abrem 70.000 vagas por ano. Com a economia voltando a se aquecer, puxada por investimentos privados e pelo consumo, a tendência é que a falta de mão de obra para trabalhar na área de tecnologia se agrave. Só nos próximos cinco anos, a expectativa é que sejam contratados 420.000 profissionais dessa área no Brasil.

A falta de mão de obra em tecnologia é um problema que gera distorções na economia. Em primeiro lugar, as empresas perdem produtividade e ficam menos competitivas em relação aos concorrentes de outros países. Sem profissionais disponíveis, as companhias têm de investir na formação de seu pessoal. No caso da Sonda, a empresa busca reverter a dificuldade oferecendo uma plataforma gratuita de cursos online, com 500 horas de conteúdo educacional. Neste ano, a Sonda também criou um centro de inovação na cidade de Joinville, em Santa Catarina, com investimento inicial de mais de 300.000 reais. Lá, dá apoio a projetos acadêmicos e a startups, e capacita profissionais para depois contratá-los. Das 20 pessoas em treinamento, cinco já foram empregadas. A companhia chegou a criar até um curso de pós-graduação em ciência de dados junto com a Universidade Univille, com 18 alunos, para atender uma das áreas que mais crescem. O resultado é que, apenas em 2019, a Sonda investiu 1,5 milhão de reais em treinamento de funcionários,128% mais do que no ano anterior. “Se as empresas não têm programas de capacitação, o custo da mão de obra só aumenta e é mais difícil preencher as vagas. Com o treinamento, os profissionais ficam mais tempo na empresa”, diz Caio Silva, vice-presidente de aplicações da Sonda.

A dificuldade a que o executivo se refere tem a ver com o segundo problema causado pela escassez de mão de obra. Para não perder profissionais, as empresas pagam salários mais altos, mesmo que nem sempre os funcionários tenham a formação adequada. Um estudo feito entre janeiro e outubro de 2019 com mais de 1.000 empresas, pelo site de empregos Trampos, mostra que os salários médios dos postos de trabalho com software – boa parte sem exigência de formação universitária –  variam de 5.633 a 9.750 reais. Os valores estão acima do padrão salarial do Brasil: o rendimento médio de uma pessoa com ensino superior é de 4.836 reais, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. O programador mais bem pago é o que cria aplicações para dispositivos da Apple, como o iPhone, seguido pelo que desenvolve aplicativos para o sistema operacional Android, com salário médio de 9.588 reais. Mas esses são os valores médios. Com o avanço da carreira, os salários podem chegar a mais de 55.000 reais na faixa de comando das áreas de tecnologia. Para Andersen Ramos, diretor de tecnologia da Flipside, empresa brasileira de treinamento de segurança digital, os salários mais altos podem ser pagos apenas por grandes empresas. “A demanda eleva os salários de profissionais especializados a um patamar fora do alcance das pequenas e médias empresas. Por isso, elas buscam se diferenciar com uma cultura organizacional informal e com a possibilidade de trabalhar remotamente”, diz Ramos.

No caso das grandes companhias globais de tecnologia, investir na formação de programadores incentiva o desenvolvimento de aplicativos para seus produtos. Um exemplo é o da Apple, que desde 2013 tem um programa chamado Apple Developer Academy, em parceria com oito universidades e dois institutos no Brasil. O programa já formou 4.000 alunos, que criaram 3.000 aplicativos e fundaram 103 startups. Uma delas é a Kobe, do Rio Grande do Sul, que faz aplicativos para celular e tem projetos de realidade aumentada e virtual. Com 100 funcionários, a startup faturou 4,8 milhões de reais em 2019. “O programa dá a oportunidade de os estudantes perceberem que são capazes de criar aplicativos”, diz Shaan Pruden, diretora de relações com desenvolvedores da Apple.

Iniciativas desse tipo, entretanto, resolvem apenas uma pequena parcela do problema. A Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom), que representa 66 grupos empresariais, estima que o déficit de profissionais no país chegará a 260.000 em 2024. Mesmo entre os funcionários formados, a qualificação ainda é baixa. Dos trabalhadores empregados em 2018, metade tinha formação superior completa ou incompleta e 46% haviam cursado apenas o ensino médio. Só 1% tem mestrado ou doutorado. O setor de tecnologia teve uma queda de vagas em 2016 em razão da crise econômica e de ajustes tributários, mas recuperou-se e voltou ao nível pré-crise, chegando a 845.000 trabalhadores e a uma participação de 2,9% no produto interno bruto. “O Brasil perde oportunidade de crescimento ao não formar mais profissionais de tecnologia. O setor precisará de mais profissionais para que dê um salto de faturamento de 100 bilhões de reais, em 2018, para 200 bilhões, em 2024”, diz Sergio Paulo Gallindo, presidente executivo da Brasscom.

Para Renan Pieri, professor de economia na Fundação Getúlio Vargas, o governo tem um papel fundamental para que o Brasil forme mais programadores, reduzindo a evasão escolar e oferecendo mais cursos profissionalizantes. Segundo ele, num futuro próximo, o conceito de alfabetização estará ligado à capacidade de usar linguagens simples de programação. “Além da agricultura, que segura o PIB do Brasil, as áreas relacionadas a novas tecnologias puxarão o crescimento”, diz Pieri. “Quem souber aproveitar as oportunidades vai se dar bem.”

Por falar em oportunidades, um segmento que hoje tem uma avenida de crescimento pela frente é o de empresas que oferecem cursos de capacitação. Nos últimos anos, o Brasil tem atraído escolas internacionais de programação que oferecem cursos intensivos. Uma delas é a espanhola Ironhack, com unidades em cidades como Paris, Berlim, Madri, Miami, Amsterdã, Lisboa e São Paulo. No Brasil, a escola formou 200 alunos desde que iniciou a operação em 2018. No mundo, são mais de 4.000 desde 2013, quando foi fundada. A escola prepara pessoas para o mercado de trabalho em cursos que duram de dois a seis meses. Ao fim das aulas, as empresas são convidadas a entrevistar os alunos, numa rodada de contratação. Segundo a escola, 90% deles saem empregados no Brasil, nível acima da média mundial, de 85%. Para Ariel Quifíones, cofundador da Ironhack, as empresas devem dar mais atenção ao investimento em tecnologia. “Usar a tecnologia é um fator de diferenciação. A forma de conseguir isso é com profissionais qualificados contratados pela própria empresa, e não terceirizados”, afirma Quifíones. Além da Ironhack, estão presentes no Brasil escolas como a francesa Le Wagon e a argentina Digital House, ambas com cursos intensivos de tecnologia. Se de fato entrar num novo ciclo de crescimento mais acelerado, o Brasil vai depender cada vez mais desse tipo de curso para formar uma nova geração de trabalhadores em tecnologia. Não há tempo a perder.

O RETORNO APÓS A CRISE

O número de trabalhadores do setor de tecnologia da informação voltou a crescer depois da crise

BAIXA ESCOLARIDADE

Somente metade dos profissionais de tecnologia tem formação de nível superior

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

AMAR ATÉ A LOUCURA

O amor é um tormento e os neurobiólogos indagam se as obsessões amorosas se assemelhariam aos transtornos obsessivo-compulsivos

Os sofrimentos do amor, amar como um louco, amar até a insanidade. O vínculo entre o amor e a loucura, sugerido por essas expressões populares, tem um fundamento neurobiológico? Aos olhos dos psiquiatras, os tormentos mentais experimentados pelos amantes se aproximam do transtorno obsessivo. Seus pensamentos são incessantemente dirigidos para o mesmo objeto, a mesma preocupação, e os amantes não sossegam enquanto o desejo não for saciado.

Interpretaremos aqui essa obsessão usando uma nova perspectiva, propiciada por estudos recentes: biólogos mediram a concentração de substâncias que refletem o funcionamento cerebral e concluíram que elas são alteradas da mesma forma nos amantes e nas pessoas que sofrem de transtornos obsessivos. Amar como um louco, portanto, não seria uma mera figura de linguagem.

Donatella Marazziti e seus colegas da Universidade de Pisa, Itália, testaram a hipótese de que do amor à obsessão e ao delírio haveria apenas um passo medindo a concentração do chamado transportador de serotonina. Essa proteína está presente no sangue e também no cérebro, onde regula a concentração de serotonina, neurotransmissor que influi no humor e no comportamento. Três grupos de pessoas foram examinados, “normais”, apaixonados há pouco tempo e obsessivos vítimas de transtornos compulsivos. A constatação: o transportado der serotonina variou de forma análoga nos apaixonados e nos pacientes com transtornos obsessivo-compulsivos.

Como interpretar essas observações? A serotonina participa da regulação de funções instintivas, como apetite, sono, dor, temperatura corporal e sexualidade. Ela está ligada a transtornos, como vício, impulsividade e ansiedade, e modula a atividade de conjuntos de neurônios no cérebro, agindo sobre o comportamento do indivíduo em relação aos outros. Como, mediante uma modificação do sistema serotoninérgico, a imagem do ser amado transforma-se em obsessão?

No transtorno obsessivo-compulsivo, uma preocupação é constante, acreditando, por exemplo, que a porta está mal fechada, o portador verifica-a incessantemente. Em neurobiologia, a “crença na porta mal fechada” baseia-se na atividade de grupos de neurônios que são ativados de forma repetida e descontrolada. Suspeita-se que uma cadeia de retroação passando pelo córtex e tálamo reative permanentemente a atividade nervosa do mesmo grupo de neurônios. O papel da serotonina nessa atividade ainda não foi demonstrado, mas, se de fato existir, o caráter obsessivo da paixão seguiria a lógica do eterno retorno das imagens obsessivas.

Entretanto, os pensamentos lancinantes do apaixonado e os transtornos obsessivos se distinguem pelo “grau de certeza” experimentado e pela capacidade da pessoa de aceder a seus próprios estados psíquicos. No transtorno obsessivo predominam a dúvida (a pessoa não se convence de que a porta está fechada) e a introspecção (a pessoa tem consciência do absurdo de suas ideias obsessivas e sabe que emanam de sua mente). Em certas formas de delírio prevalecem, ao contrário, a certeza (a pessoa está convencida de que alguém a quer mal) e a perturbação das capacidades de introspecção (a pessoa está convicta de que tem razão e de que os outros estão errados).

A paixão evoluiria assim entre a obsessão e o delírio, o apaixonado está convicto do valor do ser amado e de seu sentimento, mas sabe que essa ideia é um produto de seu psiquismo. As ideias delirantes se distinguiriam das ideias dos apaixonados pelo fato de que o amante tem consciência de seu tormento, escravo de seu desejo, está consciente disso. A biologia endossaria a concepção de que o sentimento amoroso situa- se entre a obsessão livremente consentida e o delírio.

ATIVIDADE CEREBRAL

A associação entre obsessão e paixão é confirmada por uma observação fisiológica, a atividade cerebral das pessoas que sofrem de transtornos obsessivo-compulsivos caracteriza-se pela hiperatividade de uma região chamada núcleo caudal, a mesma que é ativada quando os apaixonados pensam no ser amado. Trata-se, portanto, de um novo índice fornecido pelo imageamento cerebral em favor da semelhança entre os dois estados.

Sabemos que o amor também proporciona felicidade e intensas satisfações, ao passo que o transtorno obsessivo é um sofrimento. Onde situar a fronteira? Marazziti e seus colegas estudaram a fase precoce do amor, definida por Stendhal como uma paixão não consumada, restringindo a pesquisa a pessoas perdidamente apaixonadas, mas que ainda não tiveram relações sexuais com o ser amado. Nessa fase de expectativa, a concentração no transportador de serotonina sofre as modificações características dos pacientes obsessivos. Um ano depois (prazo considerado suficiente para a consumação do caso), a medição mostrou que as taxas de transportador de serotonina voltavam a seu nível inicial e a obsessão desaparecia. O amor insano seria uma obsessão que curamos ao saciá-lo. O   paciente obsessivo, ao contrário, jamais se tranquiliza quando a porta é fechada.

Do ponto de vista hormonal, a primeira fase do amor, a obsessiva, faria intervir circuitos de neurônios que utilizam a serotonina. Estudos genéticos sugerem que estas redes teriam um papel inibidor do comportamento, suscitando nos apaixonados formas de amor duráveis e românticas, marcadas pela timidez e caracterizadas por preocupações quase obsessivas em relação ao parceiro, com um envolvimento e uma fidelidade mais acentuadas.

Quando o amado é conquistado, porém, a serotonina daria lugar à dopamina, o “hormônio do prazer”. Os grupos de neurônios que utilizam a dopamina intervêm nos componentes ligados ao prazer e até mesmo naqueles ligados à dependência. Pesquisas evidenciaram um sistema dopaminérgico particular em pessoas que buscam permanentemente aventuras sexuais. Elas têm frequentes variações cíclicas do humor, o que as torna versáteis. Assim um funcionamento que oscila entre esses dois sistemas cerebrais, o da serotonina e o da dopamina, teria o dom de tornar a pessoa intensamente apaixonada e, depois, calmamente satisfeita.

OUTROS OLHARES

PRAZER PARA OS OUVIDOS

Os audiobooks, sucesso nos Estados Unidos, começam a ganhar novo impulso no Brasil. E uma pergunta já ecoa: ouvir tem o mesmo valor educativo que ler?

Os livros para ser ouvidos sobejamente conhecidos pelo nome em inglês – audiobooks -,   nasceram em 1932, nos Estados Unidos como ferramenta de inclusão social. Começaram a ser feitos no estúdio de gravação de uma fundação para cegos, registrados em discos de vinil, com capacidade de no máximo quinze minutos para cada lado do LP. No ano seguinte, deputados e senadores aprovaram uma emenda que autorizava a Biblioteca do Congresso a entrar no negócio, que não parou de crescer. Inicialmente eram as peças de Shakespeare, a Constituição etc., e o céu virou o limite. A partir dos nichos dedicados à deficiência visual os volumes de viva voz extrapolaram as fronteiras de mãos dadas com os avanços da tecnologia. Hoje, por meio de um smartphone, com acesso a lojas de aplicativos, é possível baixar qualquer um dos 4.000 títulos lançados anualmente nos Estados Unidos – é um naco que responde, por enquanto, por 65% do mercado livreiro, mas que se expande rapidamente. Os lançamentos surgem em ritmo mais veloz que o de volumes em capa dura. É uma febre que começa a desembarcar com força no Brasil.

Em junho deste ano, três grandes editoras se uniram para criar a plataforma de venda Auti Books, que lançará no próximo mês um plano de assinaturas. A Ubook, pioneira por aqui, anunciou planos de expansão. A Toca livros juntou-se ao Google Play Livros e à Kobo. O gigante sueco Storytel acaba de estrear seu serviço no Brasil, e a Amazon deve aportar no país nos próximos meses com um serviço de literatura para os tímpanos. Diz Claudio Gandelman, CEO da AutiBooks: “O brasileiro lê pouco e passa muito tempo no trânsito uma combinação extremamente promissora para decidir ouvir um livro. Estamos no início de uma revolução”. Trata-se de uma reviravolta que já possui alguma cara: mais da metade dos usuários tem até 34 anos e é do sexo masculino. Nos Estados Unidos, cerca de 60% dos ouvintes realizam atividades como a lição de casa e o almoço enquanto escutam, por exemplo, Nicole Kidman emprestando a voz a Ao Farol de Virginia Woolf, em inglês. Afirma André Palme, gerente da Storytel Brasil: “Se voz e texto não combinam, dificilmente o audiobook vai para a frente”. Vozes aveludadas são adequadas para histórias românticas. Tons dramáticos, empostados, servem ao suspense. Outro recurso que atrai ouvintes é o próprio autor (desde que seja uma celebridade, logicamente) narrar sua obra. Gisele Bundchen lê a introdução de seu livro Aprendizado, Lázaro Ramos narra Na Minha Pele e Drauzio Varella, Estação Carandiru.

Dada a velocidade de expansão dos livros para ser ouvidos e sua natural adoção pela juventude plugada aos fones, agora preferencialmente sem fios, os educadores indagam: escutar um livro vale tanto quanto lê-lo? Alguns estudos nos Estados Unidos chegaram a sugerir que o cérebro é incapaz de memorizar os livros apenas narrados em voz alta, sem que os olhos acompanhem as palavras, as frases, os parágrafos. Essa impressão era um lugar­ comum até que, em 2016 o psicólogo americano Daniel Willingham, da Universidade de Virgínia fez uma pergunta cuja resposta mudou tudo: ouvir um livro é trapaça? Não, não é, concluiu Willingham. “Não há real diferença entre ouvir um livro e lê-lo”, diz ele. O argumento da contrafação pressupõe que o leitor ficou apenas com a recompensa (o conteúdo) sem a contrapartida (o trabalho de leitura) e que, para nossos mecanismos cerebrais, ouvir é mais fácil do que ler. Isso é verdade até algum momento da infância, em torno dos 10 anos, um pouco após a alfabetização. Depois, a rigor, não existe diferença do ponto de vista neurológico e de aprendizado. E, no entanto, não há audiobook que consiga, por mais perfeito que seja o narrador, entregar o balé de vírgulas, pontos (quando há) e frases longuíssima de um escritor como José Saramago de Ensaio sobre a Cegueira: “ … O médico perguntou-lhe, Nunca lhe tinha acontecido antes, quero dizer, o mesmo de agora ou parecido. Nunca, senhor doutor, eu nem sequer uso óculos, (…)’. O bom-senso recomenda não abandonar as versões em papel ou digitais, com as letras impressas, seja para saber como se escrevem as palavras, seja para sentir o prazer inigualável, e automático, de cotejar o escrito com o lido mentalmente.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 13 DE FEVEREIRO

COISAS VISÍVEIS TEMPORAIS E INVISÍVEIS ETERNAS

Sabemos que, se a nossa casa terrestre deste tabernáculo se desfizer, temos da parte de Deus um edifício, casa não feita por mãos, eterna nos céus (2Coríntios 5.1).

O apóstolo Paulo mostra o aspecto aparentemente contraditório e paradoxal da vida cristã. O que vemos é temporal e passageiro, mas o que não vemos é o que existe para sempre. Ele escreve: Não atentando nós nas coisas que se veem, mas nas que se não veem; porque as que se veem são temporais, e as que se não veem são eternas (4.18). O visível e tangível que enche nossos olhos e tenta seduzir nosso coração não permanecerá. Tem prazo de validade e não durará para sempre. Mas as coisas que não vemos são as que têm valor e permanecerão para sempre. Investir apenas naquilo que é terreno e temporal é fazer um investimento insensato, pois é investir naquilo que não permanece. Investir, porém, nas coisas invisíveis e espirituais é investir para a eternidade. Jesus diz que devemos ajuntar tesouros lá no céu, pois o céu é nossa origem e nosso destino. O céu é nosso lar e nossa pátria. Lá está o nosso Senhor. Lá está o nosso tesouro. Lá está a nossa herança. É lá que devemos investir o melhor do nosso tempo e dos nossos recursos. Atentar apenas às coisas que se veem e são temporais é viver sem esperança no mundo; mas buscar as coisas que os olhos não veem nem as mãos apalpam é viver na dimensão da eternidade, com os pés na terra, mas com o coração no céu.

GESTÃO E CARREIRA

LUCROS, LIVES E LIKES

Antes avessos à exposição, empresários e CEOs de companhias que faturam bilhões viram influenciadores digitais falando sobre o que todo mundo quer saber: como ficar rico

Com 5.000 funcionários e faturamento de 1,7 bilhão de reais previsto para 2019, João Adibe Marques, de 47 anos, dono da farmacêutica Cimed, especializada em remédios e itens de higiene e beleza populares, acorda todos os dias às 5 da manhã, dez minutos depois começa seu treino e, de cima da esteira, realiza a leitura de três jornais. Não demora muito para entrar no batente – e no ar. Seu Instagram, que tem cerca de 150.000 seguidores, é uma espécie de reality show profissional. Fazem parte do conteúdo visitas técnicas a fábricas, reuniões de trabalho e viagens de negócios a bordo de uma de suas aeronaves (o helicóptero Agusta Westland ou o avião Global 6.000 Bombardier). Às vezes, Marques transmite lives às 6h15. “Falo de estratégias de vendas, de metas e de planos futuros”, enumera. Ele começou a se dedicar mais ao Instagram em meados de 2018, antes das últimas eleições, quando notou a falta de gente que falasse sobre como movimentar a economia e desse conselhos sobre carreira. “Há público carente de aprender sobre empreendedorismo e ver exemplos positivos”, entende.

A postura do dono da Cimed e a de outros homens de negócios da nova geração diferem bastante da discrição dos membros mais velhos da elite empresarial do país. Os dez maiores bilionários brasileiros do ranking mais recente da revista americana Forbes, incluindo o número 1 da lista, o empresário Jorge Paulo Lemann, 80, não têm conta pessoal no Instagram. Além de João Adibe Marques, vários empreendedores e grandes executivos mais jovens exibem sua rotina no Instagram com o objetivo de passar suas “experiências”. Apesar das boas intenções, o resultado é desigual. Espécie de pop star do empreendedorismo, com livro e dezenas de palestras no currículo, Tallis Gomes, fundador da Easy Taxi, empresa vendida em 2017 à Cabify, soma 151.000 seguidores. Ele tem uma pegada de autoajuda e posta platitudes. “Você nunca vai mudar o mundo se não conseguir mudar a si mesmo antes” e “Não é o que você sabe que causa problemas, mas o que você não sabe” estão entre os exemplos. Não à toa, à boca pequena, há quem diga que Gomes é o Paulo Coelho dos empreendedores: faz sucesso e tem um currículo de respeito, mas está longe de ser uma unanimidade de crítica.

Antes discreto com a vida pessoal, Alexandre Birman estreou no Instagram há três semanas e já soma mais de 22.000 seguidores. CEO da Arezzo & Co, ele controla uma empresa avaliada em 5 bilhões de reais, com itens como bolsas e sapatos finos vendidos em mais de 3.000 pontos de venda pelo mundo. “Sou apaixonado pelo que faço e, se puder compartilhar humildemente meus aprendizados e inspirar pelo exemplo, vou usar todos os canais disponíveis”, diz Birman. Para isso, dá-lhe fotos de reuniões de negócios e vídeos que motivam seu time a bater as metas da Black Friday. Entre as mulheres, nenhuma empreendedora tem a projeção de Rachel Maia, CEO da Lacoste no Brasil. Com 52.000 seguidores, a executiva coordena a grife francesa, presente em 850 multimarcas no país. Ela representa 0,04% do universo de CEOs por ser mulher e negra.

Como tudo o que envolve o mundo virtual, não é só de trabalho que se alimenta uma audiência. Em outras palavras: ganha mesmo muitos seguidores quem expõe sua vida particular e, de alguma forma, comprova com imagens seu sucesso. Rachel mistura posts de itens da marca para a qual trabalha com partidas de tênis e selfies ao lado de celebridades como Bruno Gagliasso e Giovanna Ewbank. Entre um e outro compromisso profissional, Marques, da Cimed, deleita os seguidores com a decoração do quarto de sua filha caçula (o berço imita um balão da Capadócia e os lustres têm formato de nuvens) na mansão onde vive em São Paulo. Muitas vezes, o Instagram substitui o antigo “Pergunte ao presidente”. Os fãs enviam questões sobre negócios e, inevitavelmente, vários pedem emprego em mensagens diretas. Para aumentar o engajamento do público, Marques criou a #2biem20 (isso mesmo: o plano de faturamento da sua empresa em 2020 será de 2 bilhões de reais). “Virei um garoto-propaganda da marca, e, não raro, os seguidores viram clientes”, conta. Ou seja: a exposição faz bem ao bolso e, claro, também ao ego.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

AS FONTES DO PRAZER

Pesquisas recentes lançam nova luz sobre os mecanismos do prazer e do amor e mostram semelhanças entre desejo sexual e vontade de comer chocolate. Romeu e Julieta só estariam viciados um no outro?

Inesgotável fonte de inspiração para a arte e a literatura, o amor é um sentimento capaz de nos levar ao desespero ou ao êxtase. E talvez até à guerra, a se dar crédito à história do rapto de Helena e à campanha contra Tróia. Examinados do ponto de vista biológico, porém, muitos dos véus românticos que recobrem o fenômeno do amor desprendem-se facilmente. No entanto, um permanece, o do desejo sexual. Quando buscam sua origem, os cientistas logo esbarram numa série de enigmas. Porque desejamos uma pessoa específica? A que se deve o fato de sentirmos desejo ou prazer sexual?

E ainda: será que o tête – a- tête com o parceiro ou parceira pode ser substituído por uma sinfonia de Brahms ou por uma caixa de bombons?

Em primeiro lugar, há que se dizer que o prazer não é pura e simplesmente prazer, e ponto final. Existe uma diferença fundamental entre o prazer por alguma coisa e o prazer em alguma coisa – ou seja, entre as sensações que temos quando almejamos algo e o que sentimos ao obtê-lo. Especialistas diferenciam aqui o prazer ou desejo apetitivo (por algo do consumado (em algo). Além disso, desejo, prazer e amor não constituem um fim em si mesmos, mas têm por alvo metas biológicas palpáveis e concretas.

Ao contrário do que se pensa o prazer sexual não se desenvolveu visando a satisfação pessoal, mas para encorajar a reprodução. Tampouco as sensações profundas comumente etiquetadas como “amor” podem negar seu pano de fundo biológico: elas auxiliam no estabelecimento e na manutenção de um vínculo entre parceiros. Esses mecanismos são comandados por estruturas cerebrais particulares e por neurotransmissores. Prazer e amor são, portanto, essencialmente produzidos no cérebro e determinam nosso comportamento em função de um objetivo estabelecido.

Quando se trata de considerar quem nos desperta a libido, uma pergunta fundamental se impõe: o objeto desse desejo pertence ao sexo oposto? A orientação sexual depende em primeiro lugar do nosso próprio sexo. E isso não se define apenas pelas características físicas do corpo, mas também no cérebro. Fundamental importância tem aí os hormônios, e sobretudo, os sexuais. Muito antes da puberdade, eles encaminham o desenvolvimento não apenas de nossos órgãos sexuais, mas também de partes do cérebro rumo ao masculino ou feminino.

Antes mesmo do nascimento, eles começam a atuar. Num feto geneticamente masculino, pequenas quantidades do hormônio sexual testosterona chegam ao cérebro no último terço da gravidez, influenciando seu desenvolvimento. Receptores sensíveis a esses hormônios sexuais encontram-se em numerosas regiões cerebrais. Pela determinação do sexo respondem, sobretudo, receptores hormonais situados no hipotálamo. Quando a testosterona exerce sua influência durante a fase pré-natal crítica, o cérebro será masculino. Na ausência desse hormônio, feminino. Curiosamente, não é a testosterona em si que surte seu efeito nesse processo, antes, ela é transformada em estrogênio, em geral conhecido pelos leigos como o hormônio sexual feminino. Fetos geneticamente femininos se protegem dessa ação específica do estrogênio auxiliados pela alfa fetoproteína. Durante o desenvolvimento do cérebro, a testosterona interfere num processo natural mediante o qual células nervosas supérfluas são descartadas. Graças a essa interferência, morrem menos neurônios, razão pela qual a região frontal do hipotálamo dos mamíferos de sexo masculino é bem maior e mais rica em neurônios. Nos humanos, porém, essa diferença é menor do que, por exemplo, nas ratazanas.

O hipotálamo é de especial importância na orientação e no comportamento sexual. Isso se evidencia no fato de as células nervosas do hipotálamo anterior exibir em intensa atividade quando um animal macho se aproxima de um parceiro sexual ou quando copula. Se essa região estiver lesada, o comportamento sexual dos machos no tocante à cópula será prejudicado, ainda que mantenham o interesse em fêmeas.

STRESS E TESTOSTERONA

Certas experiências durante a gravidez também podem influenciar a orientação sexual dos descendentes. Dentre elas, sobretudo o stress parece desempenhar papel importante. Se uma ratazana em gestação for exposta a stress, o cérebro de seus rebentos machos terá em média menos características masculinas. Além disso, eles apresentarão com frequência orientação homossexual e exibirão comportamento mais maternal. O motivo é que, por causa do stress, a necessária testosterona se apresentou cedo demais no cérebro. Os descendentes “feminilizados” nem sempre são homossexuais; se criados com fêmeas sexualmente ativas, em geral desenvolvem orientação heterossexual. Isso mostra de forma clara que o comportamento sexual não pode ser explicado apenas pelos hormônios. Ao contrário: fatores hereditários, influências hormonais e experiências individuais atuam aí em estreita vinculação.

Como pode, porém, o stress atuar sobre cérebros masculinos, preferência sexual e conservação da espécie? Para a sociobiologia, sob condições de vida difíceis, a feminilização dos cérebros reduziria a taxa de natalidade em uma comunidade, o que possibilitaria oferecer cuidado maior aos raros descendentes.

Essa explicação bem poderia se aplicar aos seres humanos, que têm comportamento sexual em pane desvinculado da meta da reprodução e voltado à obtenção do prazer. Pesquisas realizadas até agora com humanos confirmam as descobertas oriundas dos modelos animais. Também no nosso caso o hipotálamo anterior desempenha papel decisivo no tocante à preferência sexual. Os homossexuais do sexo masculino possuem menos neurônios nessa região do cérebro que os heterossexuais, exibindo, sob esse aspecto, uma estrutura cerebral mais aparentada à feminina. Além disso, também nos seres humanos o stress pré-natal parece conduzir com mais frequência à orientação homossexual em descendentes do sexo masculino. Até o momento, no entanto, os conhecimentos adquiridos em relação ao ser humano são escassos e, em boa pane, indiretos. Não admira que suscite m controvérsia – ou mesmo completa rejeição, baseada no argumento de que, nesse âmbito, os resultados advindos de experiências com animais não seriam transferíveis à esfera humana.

Entretanto, admite-se cada vez mais que existem bases biológicas na preferência por um parceiro de mesmo sexo ou do sexo oposto. Está claro que a formação individual do cérebro desempenha papel tão importante quanto a educação ou sociedade, e a definição do caminho a trilhar parece ocorrer nos primeiros estágios do desenvolvimento.

Sexo e desejo de certo não são tudo na vida. Para a maioria dos seres humanos, a qualidade do relacionamento com o parceiro possui, no mínimo, importância equivalente. De resto, a atração sexual e o vínculo com o parceiro atendem ao mesmo propósito biológico, assegurar a reprodução da espécie. Um rápido exame de nossos parentes mais próximos nos mostra a multiplicidade de relacionamentos possíveis. Os orangotangos, por exemplo, só se unem para a fecundação e vivem o resto do tempo como eremitas, os gibões são monogâmicos enquanto os gorilas formam haréns e os chimpanzés vivem trocando de parceiro. Entre humanos, encontramos todas essas variações, embora a tendência à monogamia seja predominante.  A variedade dos tipos de relacionamento aponta para o fato de que o vínculo com o parceiro está sujeito a fortes influências culturais e sociais.

Bases biológicas da monogamia foram encontradas em pequenos roedores americanos que vivem nas pradarias dos Estados Unidos. Estritamente monogâmicos, preocupam-se bastante com seus descendentes. Mas seus vizinhos que habitam as Montanhas Rochosas, ao contrário, trocam de parceiro com frequência e logo abandonam a prole à própria sorte. A semelhança física e genética entre essas duas espécies é muito grande. Mas dois hormônios presentes no hipotálamo revelam diferenças notáveis entre elas: a vasopressina e a oxitocina. O roedor monogâmico exibe no cérebro um número bem maior de receptores para a vasopressina e a oxitocina que seu parente promíscuo.

Em geral, a concentração sanguínea desses hormônios aumenta claramente durante a cópula, de acordo com o sexo do animal: nos machos, sobe o nível de vasopressina, nas fêmeas, o de oxitocina. Também nos humanos esses dois hormônios parecem importantes na estimulação sexual, na ereção e na capacidade de orgasmo. Nos homens, o nível de vasopressina no sangue aumenta durante a expectativa sexual, e o de oxitocina, durante o orgasmo. Na mulher, acreditam alguns pesquisadores, a vasopressina reduziria o desejo sexual, e a oxitocina desempenharia seu papel tanto durante a fase do flerte quanto na da cópula. Contudo, essas são apenas transposições de resultados experimentais obtidos com animais. As normas sociais, a educação, as expectativas podem prevalecer sobre a influência exercida por um hormônio específico.

Mas e quanto ao vínculo entre os parceiros? De fato, no caso dos roedores, os dois hormônios desempenham papéis importantes também nesse âmbito. O macho das pradarias, de cérebro rico em vasopressina, apresenta vínculo mais forte com sua parceira e se preocupa mais com a prole, ao passo que, nas fêmeas, é antes a oxitocina que estimula o cuidado com a cria. É de supor que o nível hormonal elevado durante o acasalamento ajude a fortalecer o vínculo entre parceiros. Também entre humanos a vasopressina e a oxitocina parecem ter, ao menos em parte, as mesmas funções. Considerando-se o amor como vínculo entre parceiros, teríamos dado aí um primeiro passo para a compreensão biológica desse fenômeno.

Como se articulam, então, o amor e as funções cerebrais? Existem centros de prazer ou neurotransmissores da felicidade? Nesse contexto, o ano de 1954 representa um marco para a pesquisa. Nesse ano, os neurocientistas americanos James Olds e Peter Milner implantaram no cérebro de ratos pequenos eletrodos que transmitiam estímulos elétricos. Os animais gostaram tanto que se detinham constantemente nos lugares em que os cientistas realizavam a estimulação.

Além disso, aprenderam por conta própria a pressionar uma alavanca que lhes proporcionava tais estímulos. O resultado foi que passaram a se estimular milhares de vezes por hora, negligenciando até mesmo suas necessidades naturais – um comportamento que lembra a forte dependência de drogas ou, em certo sentido, o de um ser humano muito apaixonado. A suposição óbvia a que isso conduziu foi que o estímulo elétrico ativava no cérebro um centro de recompensa ou mesmo de prazer.

Muitas regiões do cérebro são sensíveis à auto estimulação elétrica, mas apenas em algumas poucas áreas o estímulo conduziu os animais ao excesso, o que se verificou sobretudo na lateral do hipotálamo. Não se encontrou aí o suposto centro do prazer, na verdade, a estimulação instigava também feixes de nervos que percorriam toda a região estimulada. Logo um sistema de células nervosas ocupou o centro das atenções – um sistema que se origina no mesencéfalo, percorre a lateral do hipotálamo e abastece com o neurotransmissor dopamina grande parte do prosencélalo.

Com isso, aumentou o interesse nas funções desempenhadas pela dopamina, que os pesquisadores viam, em parte, como uma espécie de sinal de prazer. Basearam essa conclusão na observação de que sua atividade aumenta quando da prática de todo tipo de ação vinculada a sensações agradáveis – seja quando os animais se auto estimulam com a eletricidade, quando ingerem comida saborosa, quando da copulação ou estão sob a influência de drogas, como a cocaína, a anfetamina, a heroína ou a nicotina.

Assim como aprendem a se auto­ estimular, os animais descobrem como administrar por conta própria essas substâncias, sobretudo quando são injetadas diretamente no sistema de células dopaminérgicas do cérebro. Se esse sistema é experimentalmente desativado, recompensas elétricas, químicas ou naturais deixam de surtir efeito – como se, então, inexistissem sensações de prazer em virtude das quais os animais seguem repetindo determinada tarefa. Não está claro, porém, se os ratos são de fato capazes de experimentar o prazer, na forma como nós o concebemos.

Ainda que sejam, isso significaria dizer que os pesquisadores encontraram um centro do prazer, bem como neurotransmissores do prazer? Não é bem assim. Na verdade, a estimulação elétrica do hipotálamo lateral conduz a uma continuada atividade das vias nervosas e simula, assim, antes o prazer – apetitivo – por alguma coisa do que o prazer – consumado – na obtenção do que se queria. Além disso, a dopamina faz com que, já durante as fases de expectativa e de preparação, o organismo oriente seu comportamento para as metas almejadas e possa aprender a utilizar novas informações que prenunciam a viabilidade de alcançá-las.

ORGASMO POR ELETRODOS?

A implantação de eletrodos no cérebro de humanos só é admitida quando da necessidade de intervenção médica, razão pela qual são poucas as pesquisas existentes nessa área. Pacientes que sofreram estimulação elétrica do hipotálamo lateral relatam sensações difíceis de descrever, como se algo de interessante e excitante fosse acontecer”. Sensações agradáveis e positivas verificaram-se, por outro lado, na estimulação de outras regiões do cérebro, como, por exemplo, do septo lateral. As experiências vividas nesses casos foram descritas como um prazer semelhante ao orgasmo. Se um paciente podia se auto estimular nessa região, ele o fazia em grande medida, sem, contudo, atingir o orgasmo de fato.

Nos últimos anos, com o auxílio dos métodos de diagnóstico por imagens, como a tomografia nuclear ou a tomografia por emissão de pósitrons, cientistas puderam verificar em seres humanos e expandir muitos dos conhecimentos adquiridos em experiências com animais. O estudo dessas imagens identificou uma série de regiões cerebrais que, diante de emoções diversas, revelam intensa atividade. Uma mesma estrutura cerebral pode, no entanto, ser estimulada tanto por sensações de prazer como por sentimentos indesejados, como, por exemplo, o do medo. A existência de centros específicos de prazer não pôde até o momento ser comprovada de modo inequívoco.

Experiências com pessoas conduzidas à excitação sexual mediante a contemplação de imagens ou cenas eróticas ou pornográficas revelam fortes mudanças de atividade em diversos pontos do cérebro, especialmente em sua extremidade anterior.

O padrão dessas mudanças de atividade é bastante semelhante em mulheres e homens. É de supor que os cérebros masculino e feminino processem sensações de prazer de forma parecida.

Os estímulos e situações capazes de provocar em nós sensações de prazer são bastante diversos e variados: um pôr-do-sol, a presença da pessoa amada, o prêmio da loteria, uma boa refeição, sexo ou drogas. Isso propõe tarefas difíceis a nosso cérebro: devemos reconhecer e avaliar as diversas situações, talvez associá-las a alguma lembrança e, então, reagir – com ações, por exemplo. As demandas ao cérebro podem ser, portanto, bastante diferenciadas. Seria de esperar, pois, que também as mudanças de atividade nas diversas áreas do cérebro apresentassem forte diferenciação de um caso a outro. Mas certas regiões cerebrais permanecem ativas durante as situações emocionais mais variadas, o que significa que respondem pelo processamento de sensações de todo tipo.

Uma fonte de prazer muito importante para grande número de pessoas não foi mencionada até agora: a música. Não há pelo menos uma peça musical que, dependendo do seu estado de espírito, provoca um arrepio na espinha? Medições recentes da atividade metabólica no cérebro indicam que, durante tais fases de prazer provocadas pela música clássica, as regiões cerebrais que apresentam mudança de atividade são as mesmas em que isso ocorre quando do prazer sexual. A dor, ao contrário, pode ativar algumas das mesmas regiões ativadas pela euforia. Seria essa uma “prova” neurobiológica da proximidade de amor, prazer e dor? No nosso cérebro, ao menos, dor e prazer parecem próximos.

Não é fácil localizar com segurança o prazer e o amor no cérebro. O que, aliás, não há de nos surpreender, uma vez que, do ponto de vista científico, a compreensão desses sentimentos nos escapa. Só os conhecemos de verdade a partir de nossa experiência pessoal ao longo dos anos. Portanto, talvez estejamos fadados a continuar expostos ao furacão emocional do amor, com todos os seus efeitos colaterais – da autodestrutiva dor amorosa à inspiração para elevados voos artísticos.

GLOSSÁRIO

DOPAMINA: neurotransmissor presente no sistema nervoso central que desempenha papel importante no controle dos movimentos e nos circuitos de recompensa do cérebro, cuja atividade produz sensação agradável.

HORMÔNIOS SEXUAIS: controlam desenvolvimento e função dos órgãos sexuais. Também exercem influência sobre o sistema nervoso e comportamento.

HIPOTÁLAMO: parte do cérebro que governa o sistema nervoso vegetativo e o hormonal e regula emoções e afetos. É onde se formam a oxitocina e a vasopressina.

OXITOCINA: hormônio procedente do hipotálamo que faz contrair o útero e as glândulas mamárias, controlando assim o parto e a secreção do leite. Parece Influenciar também o comportamento sexual.

RECEPTORES: estruturas nas superfícies das células que ligam determinadas moléculas, como neurotransmissores e hormônios, enviando sinais para o interior da célula.

SEPTO: parte do telencéfalo.

SISTEMA NERVOSO VEGETATIVO: parte do sistema nervoso que regula processos vitais e em grande parte inconscientes do organismo, como a respiração, a digestão e as funções sexuais. Está subordinado ao hipotálamo.

TESTOSTERONA: hormônio sexual masculino produzido nos testículos, controla a definição de características sexuais e influencia o comportamento.

VASOPRESSINA: hormônio do hipotálamo que controla a reabsorção da água nos rins. Exerce ainda variados efeitos sobre o sistema nervoso, influenciando, por exemplo, o ritmo de sono e vigília, a memória e a sensação da sede.

OUTROS OLHARES

VAMOS FALAR SOBRE SEXO?

Damares Alves começa a pôr em prática o incentivo à abstinência como um dos pilares para combater a gravidez precoce no país

Quando descobriu a gravidez, aos 15 anos, S. Logo pensou em fazer um aborto. Mas os 400   reais necessários para realizar o procedimento em uma clínica clandestina estavam longe de ser uma possibilidade em seu orçamento minguado. Expulsa da família e abandonada pelo pai da criança, a adolescente foi pulando de casa em casa de amigos e começou a vender brigadeiro em uma avenida na Zona Leste de São Paulo para conseguir o dinheiro. “Mas cheguei aos quatro meses sem juntar tudo”, diz ela, referindo-se ao limite máximo de tempo para interromper a gestação de forma segura. Hoje, a garota aguarda o nascimento de Anita, previsto para ocorrer daqui a duas semanas dentro de um abrigo público. Ela busca a proteção no local porque afirma ter descoberto um plano do ex-namorado para vender o bebê em uma transação de adoção clandestina. “Tinha certeza de que iam me matar para abrir minha barriga e tirar de lá a criança”, conta. 

Após dar à luz S. planeja concluir o ensino médio (está frequentando aulas do 1º ano), e seu sonho maior é poder sair do abrigo quando completar 18 anos. “Quero trabalhar, alugar uma casa e sustentar minha bebê.”

O drama de S. se repete em proporções absurdas no Brasil, que tem uma das mais altas taxas de gravidez precoce do mundo: 62 casos para cada 1.000 jovens entre 15 e 19 anos, índice aproximadamente 50% maior que a média mundial (veja o quadro abaixo). Até agora o poder público fracassou no combate ao problema, que é provocado por desinformação sobre métodos anticonceptivos e desestruturação de famílias devido à situação de pobreza; entre outros fatores. No governo atual, Damares Alves, a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos veio com um novo remédio para o mal: ela acredita que o incentivo à abstinência sexual pode ser uma arma para frear o registro de novos casos. “O método mais eficiente para a não gravidez não é a camisinha, não é o DIU, não é o anticoncepcional. Por que não falar sobre isso? Por que não retardar o início da relação sexual? Eu defendo essa tese” afirmou, em maio a ministra, que logo no início do governo contou ter visto Jesus Cristo numa goiabeira, depois de um traumático caso de abuso quando criança. Respeita-se evidentemente a visão religiosa de qualquer pessoa, mas é muito preocupante quando esse tipo de discurso começa a permear políticas públicas. Damares já apoiou o recolhimento em escolas dos ensinos fundamental e médio de cartilhas com instruções de métodos anticoncepcionais, material visto por ela como um incentivo à erotização precoce.

A defesa da abstinência também vai respingar em uma nova campanha do governo de alerta contra a gravidez na adolescência, a ser veiculada a partir da segunda-feira 3. As peças devem explicitar as consequências de gerar uma criança precocemente como dificuldades de concluir os estudos e de entrar no mercado de trabalho. A intenção é fazer com que os jovens pensem na decisão de adiar a iniciação sexual. Damares diz que as propagandas vão combinar esse discurso com a educação sexual tradicional, sem deixar de enfatizar a necessidade do uso de preservativos, mas deixa claro que considera a abstinência o único método 100% eficaz. “É mais fácil entregar o preservativo na mão do que conversar. Escolheram o método mais fácil. Acharam que o jovem não estaria pronto”, afirmou a ministra.

A nova campanha gerou grandes discussões entre a equipe técnica da pasta de Damares e a do Ministério da Saúde, comandado por Luiz Henrique Mandetta, de onde saiu o dinheiro para custear as propagandas.  Segundo reportagem, notas técnicas responsáveis por embasar o projeto e que foram trocadas entre as duas pastas em janeiro mostram a dissonância na abordagem.  O documento do Ministério dos Direitos Humanos dizia que a educação sexual “normaliza” o sexo entre adolescentes enquanto o da Saúde considerava a orientação de métodos contraceptivos uma forma de prover ferramentas para que os jovens tomem decisões mais qualificadas. Na última semana, Mandetta veio a público afirmar que o lema principal da campanha não deveria ser a abstinência. Damares então foi ao Twitter declarar que sempre falou em “política complementar”, e não em única e principal.

Como base cientifica para defender a abstinência a ministra cita um estudo feito no Chile em uma escola só para meninas em 2005. A pesquisa dividiu 1.200 alunas do 1º ano do ensino em dois grupos: um recebeu um programa centrado na abstinência, o outro não. As meninas foram acompanhadas por quatro anos, e chegou-se à conclusão de que o primeiro grupo, o da abstinência, teve incidência de gravidez cinco vezes menor que a do segundo. Embora antiga, a pesquisa é válida, mas não pode ser analisada de forma isolada. Para a produção de uma política pública, costuma-se levar em conta um conjunto de pesquisas acadêmicas. E a maioria delas diz que teses voltadas para a abstinência são ineficazes no controle da gravidez precoce. “Já se investiu muito dinheiro nisso nos Estados Unidos e no Chile e os programas se mostraram ineficientes”, afirma a ginecologista Albertina Duarte Takiuti, coordenadora do Programa Saúde do Adolescente e de Políticas Públicas para Mulheres do governo de São Paulo. “No Japão e no Canadá, onde as taxas de gravidez na adolescência são baixíssimas, ninguém fala em abstinência” completa a especialista, que trabalha também como médica-chefe do Hospital das Clinicas em São Paulo. Ali, ela atende casos de meninas grávidas com até 10 anos.

Um amplo estudo feito por pesquisadores da Universidade de Exeter, na Inglaterra, que analisou mais de 220 pesquisas sérias sobre educação sexual nas escolas concluiu que intervenções focadas apenas em abstinência são ineficazes para promover mudanças positivas no comportamento sexual, diferentemente da instalação de clínicas em escolas e de programas centrados na prevenção. Não por acaso a Inglaterra virou referência no combate à gravidez precoce. Educação sexual em peso nas escolas foi o que fez, o país reduzir a taxa de natalidade entre adolescentes. Uma das maiores da Europa nos anos 90: 62%, porcentual semelhante ao que o Brasil tem hoje. Nos anos 2000, o governo britânico tornou gratuito o acesso a métodos contraceptivos, o que incluía até a pílula do dia seguinte. Os resultados demoraram a aparecer, mas vieram: hoje, o índice está em 14%. Nos últimos dez anos, a diminuição foi ainda mais acentuada, de mais de 50%, seguindo a mesma proporção da queda no número de abortos no país, procedimento permitido desde1967.

Na contramão das melhores práticas internacionais, a ministra Damares quer inserir o incentivo à abstinência nas políticas públicas. Concebido em sua pasta, o Plano Nacional de Prevenção ao Risco Sexual Precoce prevê a contratação de uma consultoria que vai avaliar resultados de países que mantêm a recusa ao sexo como método de controle de gravidez entre adolescentes, como Uganda, Chile e Estados Unidos. Previsto para ser elaborado ao longo deste ano, o plano terá um a versão piloto a ser desenvolvida em escolas públicas e unidades de saúde em três municípios e depois, replicado ao restante do país.

Embora Damares sempre negue que esse tipo de atuação seja motivada por suas crenças religiosas (é ministra da Igreja Batista) a confusão é evidente. No ano passado ela chamou um colega de crença o pastor Nelson Júnior, para capacitar funcionários de sua pasta durante um seminário na Câmara dos Deputados. O religioso convidado para o evento encabeça o movimento ‘Eu Escolhi Esperar”, que encoraja os solteiros cristãos a esperar até   o casamento para viver suas experiências sexuais. Considerada hoje uma das figuras mais populares do ministério de Bolsonaro; Damares também afirmou certa vez que “o país é laico, mas esta ministra é terrivelmente cristã”.

Seu perfil se encaixa perfeitamente em um governo que muitas vezes confunde Igreja com Estado, entidades separadas no Brasil desde a segunda Constituição da República; de 1891 Em algumas áreas, o slogan de Bolsonaro (“Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”) se materializa em ações direcionadas a implementar a chamada agenda conservadora de costumes, que agrada em cheio à base política e eleitoral evangélica do bolsonarismo. O aparelhamento vai desde a criação de critérios para determinar que tipo de produção cultural deve receber financiamento público até uma possível seleção de membros do Supremo Tribunal Federal (Bolsonaro prometeu indicar um ministro terrivelmente evangélico para a Corte). Na área da saúde, a pregação da abstinência é o exemplo mais preocupante dessa política. Educação sexual e liberdade de escolha (a possibilidade de um aborto legal) se mostram ao redor do mundo os métodos mais eficazes para combater a gravidez na adolescência. O único mérito de Damares foi ter posto esse tema na pauta de discussões nacionais. Mas é preocupante que ela esteja prescrevendo o remédio errado para evitar novos dramas como o da adolescente S. e de tantas outras jovens brasileiras.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 12 DE FEVEREIRO

O DRAMA DA DOR

Se eu falar, a minha dor não cessa; se me calar, qual é o meu alívio?  (Jó 16.6).

A dor é a experiência mais comum da vida. Há dor física e dor emocional. Há dor que atinge o corpo e dor que assola a alma. Um dos retratos mais dramáticos dessa amarga experiência é a família do patriarca Jó, que passou pelo terrível drama da dor. Jó era homem rico e pai exemplar. Sua vida estava certa com Deus e com os homens. Deus testificou de sua integridade, mas Satanás questionou suas motivações. Deus permite a Satanás tocar nos bens, na família e na saúde de Jó. Deus, então, constitui Jó seu advogado, e Satanás tira do servo do Senhor seus bens, seus filhos e sua saúde. Jó vai à falência. Perde seus dez filhos num único acidente e enterra todos eles no mesmo dia. Assolado por uma dor indescritível, prostra-se, adora a Deus e diz: O SENHOR o deu e o SENHOR tomou; bendito seja o nome do SENHOR! (1.21). O sofrimento de Jó não parava aí. Ele foi afligido também por uma doença terrível. Seu corpo ficou tomado por chagas. Sua pele necrosou sobre os ossos pontiagudos. Ele perdeu o apoio da mulher e ainda recebeu injustas acusações dos amigos. Nesse mar revolto de dor, Jó não blasfemou contra Deus. Ao fim, o Senhor lhe restaurou a sorte e lhe devolveu o dobro de tudo quanto possuíra. O Deus de Jó é também o seu Deus. Espere nele, e sua restauração brotará sem detença!

GESTÃO E CARREIRA

UM NOVO PARADIGMA

O ritmo das mudanças no mundo dos negócios coloca em xeque a busca por melhores resultados. Como o desenvolvimento da liderança positiva pode potencializar altos níveis de performance e engajamento

Tanto quanto uma empresa precisa estar constantemente atualizada para se destacar no mercado, os líderes necessitam se manter na dianteira de inovação e criatividade para garantir seu espaço ao sol. Nesse contexto, ganham destaque as competências da liderança potencializadas por conceitos e premissas da Psicologia Positiva – a liderança positiva.

O líder positivo, direcionado a obter de seus liderados os mais altos níveis de performance, deixa de ser um líder comum ao transformar as forças da sua equipe em molas propulsoras de desempenho.

Em sua posição de liderança, ele possui a habilidade de nutrir as características positivas de seus colaboradores, dando oportunidades para que eles alinhem suas atividades às suas forças e valores.

Peter Drucker, considerado o pai da administração moderna, atribui o sucesso ao autoconhecimento: “O sucesso vem para aqueles que conhecem a si mesmos – suas forças, seus valores e como eles obtêm sua melhor performance”. Mas o que torna uma pessoa um líder extraordinário? E mais, como esse líder pode utilizar a liderança positiva para elevar os resultados de seus liderados e, ao mesmo tempo, engajar- se em um processo de autodesenvolvimento?

A figura do líder não é nova; ela está presente e vem se transformando ao longo de diferentes épocas, contextos e de acordo com variáveis cenários e complexidades. Ao longo dos séculos, os significados atribuídos ao que constitui e origina a liderança foram se transformando de acordo com a investigação de diferentes teorias.

Considerando-se a evolução da liderança na contemporaneidade, percebe-se que a figura do líder evoluiu de um perfil centrado em si mesmo e nos próprios interesses até chegar ao perfil valorizado atualmente, prezando por relações orgânicas que buscam equilibrar desejos e diversidade em direção a objetivos comuns.

John Zenger e Joseph Folkman, autores do best-seller O Líder Extraordinário, após analisarem 200 mil assesments de 20 mil gerentes, concluíram o seguinte: os líderes fora d o comum alcançam de forma constante resulta dos que ultrapassam aqueles atingidos pelos líderes considerados apenas “bons”.

Além disso, a partir de sua liderança, o turn over diminui drasticamente, a motivação entre os liderados aumenta, assim como os níveis de satisfação dos clientes. Ou seja: a liderança eficaz gera ondas de resultados positivos de ponta a ponta.

A liderança, de fato, costuma atrair a atenção dos pesquisadores que buscam entender o que constitui o perfil dos indivíduos que se destacam à frente de equipes e do próprio desenvolvimento. Sob esse ponto de vista, num aspecto crucial para a liderança positiva é o elo que no uso das forças dos indivíduos.

Há quase uma década, o Instituto Gallup divulgou os resultados de um projeto de pesquisa de 30 anos que iniciou uma conversa global sobre o tema das forças no contexto da liderança positiva.

Foram pesquisados 1 milhão de times, 50 mil líderes e 200 mil liderados, e descobriu-se que houve 73% de aumento no engajamento quando o líder valorizou as forças individuais versus 9% de aumento no engajamento quando o líder não valorizou as forças individuais.

Os resultados, publicados no livro Strengths-Based Leadership (Liderança baseada em forças), indicam que não basta que o líder conheça suas forças; ele também deve saber usá-las de modo a evidenciar o que ele possui de melhor e extrair o melhor das pessoas mesmo em face de situações desafiadoras ou adversas. Dessa forma, o uso das forças de caráter e virtudes do indivíduo, entre outros pontos, é um tema extremamente caro para a liderança positiva.

De forma complementar, a pesquisa do Gallup se concentra não apenas em observar como os líderes se comportam, mas também os liderados. Um líder que avança sem seguidores caminha em direção a nada. Dez mil liderados foram analisados e responderam a duas perguntas: (1) Qual líder tem a influência mais positiva em sua vida diária? (2) Liste três palavras que melhor descrevam o que essa pessoa contribui para sua vida.

Os resultados foram notavelmente simples e profundos. As quatro coisas que os liderados querem de seus líderes são confiança, compaixão, estabilidade e esperança. Na verdade, não muito longe do que Aristóteles disse há 2.500 anos – as pessoas querem que os líderes tenham ethos (confiança), pathos (compaixão) e logos (estabilidade e esperança).

O perfil do líder é, portanto, marcado pela pluralidade de forças que, atuando conjuntamente, distinguem-no em meio aos líderes meramente ordinários. Assim, uma das características que mais se destacam nos líderes de sucesso é sua postura como modelo de atitudes e comportamentos positivos que ele deseja enxergar refletidos em outras pessoas.

Para tanto, isso se dá pela via do exemplo. Quando o líder se destaca por suas atitudes, e essas, por sua vez, concretizam-se em forma de comportamentos exemplares, o líder se torna uma referência, alguém que está ali como fonte de inspiração para que todos à sua volta busquem a excelência incansavelmente e com prazer.

É por isso que, ao representarem modelos positivos para seus liderados, esses líderes conquistam mais comprometimento, cooperação, apoio e resultados.

FLORA VICTORIA – é presidente da SBCoaching Trainng, mestre em Psicologia Positiva Aplicada pela Universidade da Pensilvânia, especialista em Psicologia Positiva aplicada ao coaching. Autora de obras acadêmicas de referência, ganhou o título de embaixadora oficial da Felicidade no Brasil por Martin Seligman. É fundadora da SBCoachng Social.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

AMOR E SEXO EM TEMPOS DE INTERNET

Sites eróticos, páginas que prometem a oportunidade de encontrar o “par perfeito”, fóruns destinados aos mais inusitados fetiches, serviços on-line para pessoas interessadas em relações extraconjugais – o anonimato e a variedade de estímulos proporcionados pela rede permitem experimentar novas formas de se relacionar; nesse “laboratório de comportamentos”, é possível expressar os aspectos mais sombrios de nós mesmos

Na década de 70, um grupo de universitários ficou confinado por cerca de uma hora dentro de uma sala completamente escura no Swarthmore College, na Pensilvânia. Eram 50 homens e mulheres com idade entre 18 e 25 anos que não se conheciam. Sabiam apenas que participavam de um estudo de psicologia e que, principalmente, não seriam apresentados uns aos outros. O psicólogo Kenneth Gergen instalou um gravador no local e depois entrevistou cada participante sobre o que ocorreu. Segundo ele, poucos minutos depois do início do experimento, os voluntários começaram a se movimentar pela sala e a conversar em voz baixa com uma ou outra pessoa, abandonando ou prolongando o contato de acordo com seu interesse. A maioria confessou que sentiu curiosidade, ansiedade e excitação sexual durante aqueles minutos. Metade deles abraçou alguém e uns poucos chegaram a trocar beijos, o que não aconteceu quando o psicólogo repetiu o experimento com outro grupo. mas com as luzes acesas.

“Imagine uma câmara escura muito maior que a de Gergen, capaz de comportar milhões de pessoas que acreditam estar no anonimato. Essa pode ser a internet”, compara o neurocientista Ogi Ogas, professor na Faculdade de Educação da Universidade de Harvard e um dos autores do maior estudo já feito sobre sexualidade. Com o neurocientista Sai Gaddam, Ogas mapeou mais de 400 milhões de consultas feitas em cinco idiomas nos sites de busca Google, Yahoo! e Bing entre julho de 2009 e julho de 2010 – 55 milhões destas relacionadas a sexo, o equivalente a 13% das buscas. Segundo os pesquisadores, isso corresponde a 2 milhões de pessoas. Os resultados, divulgados no livro A billion wicked thoughts (“Um bilhão de pensamentos pervertidos”, sem edição em português, Dutton, 2011), mostram que, apesar da variedade oferecida pela rede, 90% das buscas estão concentradas em apenas cinco tipos de material pornográfico.

Os neurocientistas analisam alguns dos dados da perspectiva da psicologia evolutiva. Por exemplo, a grande procura por vídeos e fotografias de mulheres mais jovens (13,5% das buscas continham palavras referentes à juventude) por usuários do sexo masculino é resquício segundo eles, da atração ancestral por parceiras capazes de gerar filhos saudáveis. No entanto, o ponto de vista evolucionista não explica alguns conteúdos populares na rede, como os designados pela sigla MILF, que se refere à fantasia de fazer sexo com mulheres da idade da própria mãe, e pelo termo cuckhold – simulação na qual um homem é forçado a assistir à sua mulher fazendo sexo com outros -, o que mostra que o desejo sexual não é regido apenas por fatores biológicos.

Para o psiquiatra Alexandre Saadeh, especialista em sexualidade do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (IPQ-USP), o anonimato proporcionado pela rede permite dar vazão a algumas fantasias de forma tranquila, isto é, sem expor o desejo à possível rejeição ou ao julgamento do outro. Segundo a psicóloga Rosa Farah, coordenadora do Núcleo de Pesquisas da Psicologia da Informática da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (NPPI/PUC-SP), o espaço virtual funciona como um laboratório de comportamentos, no qual projetamos aspectos criativos e sombrios de nós mesmos. “Na frente do computador, o internauta está sozinho e, ao mesmo tempo, ‘em relação’. O ‘outro’ está suficientemente distanciado para permitir que seu ‘eu’ se expresse com maior liberdade e de modo mais protegido”, diz.

INVENTÁRIO DA SEXUALIDADE

Antes do estudo de Ogas e Gaddam, o maior “banco de dados” sobre interesses sexuais foi o formado por informações colhidas pelo zoólogo americano Alfred Kinsey nos anos 40. Ele entrevistou 18 mil americanos e constatou que homossexualidade e masturbação feminina não eram tão raras como se imaginava – segundo o pesquisador, 37% dos homens e 13% das mulheres haviam tido relações homossexuais que resultaram em orgasmo. Suas conclusões se tomaram popularmente conhecidas como “relatório Kinsey” e ainda são citadas como uma espécie de inventário da sexualidade, apesar de o zoólogo haver reunido dados de uma população muito específica – todos os entrevistados eram brancos, de classe média e tinham menos de 35 anos.

Mais de meio século depois é difícil estimar a proporção de usuários da rede que procura conteúdo erótico. Mas a amostra de Ogas e Gaddam pode ser significativa, considerando que, no período da pesquisa, 13% das buscas totais na web eram associadas ao tema, e o filtro virtual CYBERsitter bloqueava 2.5 milhões de páginas com material pornográfico. Segundo os dois pesquisadores, o site adulto Livejasmin.com, no qual usuários interagem ao vivo por meio de webcam, recebe sozinho cerca de 32 milhões de visitantes por mês, o que equivale a 2,5% do total de usuários da rede.

Segundo Rosa, ainda estamos aprendendo a lidar com as oportunidades que a rede nos oferece. Ela pode funcionar como via de autoconhecimento, na qual facetas da sexualidade se tornam mais visíveis e perceptíveis. Alguns aspectos da pesquisa de Ogas e Gaddam chamam a atenção, como a diferença entre o tipo de conteúdo procurado por homens e mulheres e a relação de ambos com o sexo virtual.

Ao cruzarem a busca por conteúdo relacionado a sexo com o histórico virtual dos usuários e cadastros de visitas a sites adultos os dois pesquisadores puderam criar hipóteses sobre o sexo e a orientação dos autores das consultas. Eles constataram que a pornografia visual é de interesse principalmente masculino. No entanto, cada vez mais mulheres usam a rede para satisfazer sua curiosidade e alimentar algumas fantasias. Elas são as principais visitantes de sites de contos e romances eróticos.

“Há alguns anos o simples pensamento de ser surpreendida alugando um filme erótico impedia uma mulher de buscar esse tipo de conteúdo. Hoje ela pode satisfazer sua curiosidade teclando e clicando, segura com a ideia do anonimato”, escreve Ogas. Um estudo do Departamento de Psicologia da Universidade de New Brunswick, no Canadá, divulgado em 2011, mostra que, se por um lado homens consomem mais pornografia, as mulheres fazem sexo virtual – isto é, interagem eroticamente com uma ou mais pessoas por meio da rede – tanto quanto eles. A pesquisadora Krystelle Shaughnessy entrevistou 217 adultos jovens. Os resultados apontam que 8 % dos homens já assistiram a vídeos ou viram cenas de sexo explícito on-line, contra 31% das mulheres. No entanto, em média, voluntários de ambos os sexos fazem sexo virtual de duas a três vezes por mês. Há outro estudo em andamento na instituição, sobre o tipo de parceiro que as pessoas procuram para o sexo on-line. Os resultados não foram divulgados, mas os autores constataram que, ao contrário da ideia que se tem de sexo virtual (a de dois estranhos que provavelmente nunca se encontrarão ao vivo), a interação intencional entre usuários do mesmo círculo social é algo muito comum.

SOLIDÃO E LAÇOS FRÁGEIS

Acessar a internet com propósito sexual parece ter virado rotina em países do Ocidente e do Oriente, entre ambos os sexos. “É difícil imaginar outra mudança tão impactante no campo da sexualidade. Ao visitar um site adulto é possível ver em 30 segundos uma infinidade de corpos nus e obter todo tipo de estímulo sem ter de interagir com ninguém”, analisa Ogas.

Segundo Saadeh, o uso frequente de material pornográfico envolve um ciclo de busca constante por estímulos. “Há casos em que a pessoa deixa de sentir prazer e satisfação com o sexo ‘natural’, e o hábito começa a prejudicar o sono e o desempenho no trabalho por causa das horas investidas em procurar sexo na rede”, explica o psiquiatra, descrevendo sintomas da compulsão por consumir pornografia na internet. O uso excessivo da rede, não apenas com fins sexuais parece afetar as relações sociais e afetivas. Um levantamento feito em 2011 pelo site de relacionamentos americano OK Cupid mostra que usuários com conta ativa na rede Twitter têm namoros e casamentos em média dois meses mais curtos. Os resultados foram baseados no histórico amoroso e na média de tempo passado na rede social por 800 mil usuários. A hipótese é que a vida social na web demanda tempo e atenção. o que interfere nos relacionamentos “reais”. Talvez o sexo virtual seja atraente porque pode proporcionar prazer imediato, sem o risco da frustração. ”A satisfação afetiva e sexual é uma ‘batalha’ diária, que depende do desejo e da disponibilidade do outro. Ela leva tempo e exige intimidade para ser conquistada”, diz Saadeh.

REGRA 34:  FANTASIAS ON-LINE

“Se uma coisa existe, há pornogralia sobre ela. Sem exceções.” Referida como regra 34 da internet”, a frase faz parte de uma espécie de lista de conduta para usuários da plataforma de imagens 4chan, a maior comunidade anônima da web, com cerca de 12 milhões de membros. um território “livre”, no qual pode ser postado todo tipo de conteúdo. Os neurocientlstas Ogi Ogas e Sai Gaddam decidiram verificar o alcance da regra e analisaram a busca de palavras relacionadas a sexo em inglês, português, italiano, híndu, japonês e russo. Algumas das preferências que identificaram:

• Ser traído é uma das fantasias sexuais mais populares: conteúdosde cuckhold porn (simulações em que homens são forçados a assistir à sua mulher fazendo sexo com outro) compreendem 3.4% das buscas.

• Homens preferem o corpo das jovens (13,5%das pesquisas fazem menção à juventude) , mas há uma grande procura por vídeos de sexo com mulheres idosas –  4.3% das consultas continham a sigla MILF, que se refere ao fetiche de fazer sexo com mulheres que parecem ter a idade da própria mãe.

• Usuários do sexo masculino buscam por vídeos e fotografias que evidenciem pênis de tamanho acima da média. As cenas de sexo grupal são muito clicadas, principalmente aquelas em que há mais homens que mulheres.

• A palavra “gay”está entre as dez mais pesquisadas.

• Animações japonesas de sexo explícito, conhecidas como hentai, estão entre os vídeos mais acessados.

• Homens heterossexuais buscam mais por filmes pornográficos amadores, segundo os autores por preferirem cenas de orgasmos verdadeiros. Uma pesquisa antérior, do Center for Behavioral Neuroscience, já havia comprovado que, ao assistriem a filmes pornôs, homens focam mais o olhar na face da atriz na tentativa de verificar o que lhe causa mais prazer.

• Um terço dos usuários cadastrados para receber o boletim informativo da revista Todays Christian Woman (“Mulher cristã de hoje”) também procura por conteúdo erótico.

• A procura por partes específicas do corpo varia entre as culturas. Há préferência geral por seios, pés e pénis “grandes”. Na Índia, por exemplo, há maior curiosidade por barrigas. Na maioria dos países latinos, principalmente no Brasil, por nádegas. No Japão, pela região chamada zettal ryouiki, a parte da coxa que fica exposta quando a mulher usa saia curta e meias três quartos – um sem-número de produções hentoi retrata esse fetiche.

OUTROS OLHARES

PRAZERES INSTANTÂNEOS

Ao preencherem a necessidade dos jovens da era digital por fotos palpáveis e duráveis, as velhas polaroides foram resgatadas para virar fetiche e itens de celebração coletiva

O casamento dos atores Thaila Ayala e Renato Góes foi uma festança como se espera das bodas de celebridades. Realizado há três semanas em Olinda, o evento reuniu 400 convidados que vararam a madrugada se refestelando em torno de uma mesa que aludia à Última Ceia. Mas era o bolo que captava o “espírito instagramável” reinante: em vez dos bonecos na forma dos noivos, a iguaria era decorada com duas fotos de polaroide do casal, capturadas na cerimônia. Os convidados também podiam posar para polaroides – e leva-las para casa. Atualmente em alta em casórios e afins, esse tipo de celebração atesta um novo fenômeno da era millennnial: a volta apoteótica das velhas fotografias instantâneas.

Surgida nos Estados Unidos na década de 40, a máquina que produz registros instantâneos – ou seja, impressos na hora no clássico filme com bordas brancas – se tornaria um fetiche nos anos 1970 e 1980. Na virada do século, a praticidade oferecida pelas máquinas digitais (e pelas câmeras dos smartphones) levou a fotografia analógica a um cenário insustentável. De queridinha por gerações, a Polaroid caiu no ostracismo. A empresa – cujo nome virou sinônimo de seu produto – faliu duas vezes e teve três donos entre 2001 e 2009. O caminho do ocaso parecia ser o destino inevitável também de sua rival, a japonesa Fujifilm. Até que uma notável mudança geracional veio resgatar os instantâneos do limbo.

Nos últimos quatreo anos, as câmeras Instax, linha instantânea da Fujifilm, registraram aumento de 160% nas vendas globais. Só em 2019 já foram comercializados 10 milhões de unidades. O número é espantoso para um mercado que quase deixou de existir – e cujo ponto de virada se deu em 2009, quando a última fábrica da Polaroid, na Holanda, foi comprada por um fã disposto a resgatar seu glamour, o empresário austríaco Florian Kaps.

À maneira da ressurreição do vinil, o retorno da Polaroid tem a ver com a nostalgia ilimitada dos jovens millenials – que sentem saudade de coisas que nem viveram de fato. Esse apelo vintage explica o burburinho em torno de obras como Linda McCartney: The Polaroid Diaries, volume recém- lançado de fotos familiares registradas por três décadas pela ex-mulher do beatle Paul McCartney, morta em 1998. A adesão de celebridades, de Madonna à Bruna Marquezine, turbinou a tendência. Taylor Swift elaborou a identidade visual de seu álbum 1989, lançado em 2014, com polaroides. O resultado foi tão positivo que Taylor foi creditada como salvadora da marca pelo então CEO da empresa. A concorrência não titubeou: a Fujifilm criou uma versão da Instax assinada pela cantora.

O retorno da fotografia instantânea espelha a necessidade que a juventude tem de preencher certa lacuna deixada pela revolução digital. Com sua mania de clicar tudo o tempo inteiro para publicar no Instagram, ela viu a fotografia perder seu caráter único para se tornar um ato trivial. Com de diferenciação, os jovens acharam na velhasria uma maneira de dar identidade a seus registros – tornando-os não só únicos, mas duráveis e palpáveis em meio à cacofonia de imagens virtuais. “As câmeras digitais democratizaram o simples, a foto perfeita. Mas as fotos instantâneas proporcionam ao fotógrafo o desafio, o significado especial”, disse Oskar Smolokowski, CEO mundial da Polaroid. A opinião do executivo aoi ao encontro do que diz Lívia Camargos, estudante de 20 anos e fã típica: “A gente acaba tirando fotos à toa, sem perceber que fotografia é uma arte. A câmera instantânea ajuda a lembrar que precisamos pensar antes de apertar o botão”.

Como nem os millenials são de ferro, as marcas têm investido em inovações para fundir o apelo das polaroides às facilidades das câmeras digitais. A Instax lançou uma linha de impressoras de fotos instantâneas. Já a Polaroid tem um dispositivo que transforma fotos de smartphone em fotografias físicas – faz espécies de fotos analógicas das digitais, “Todo mundo gosta de polaroide porque é como se você aplicasse um filtro do Instagram à foto mas não soubesse como vais ficar”, diz o fotógrafo Antônio Barros, que já fez instantâneos de celebridades como Rihanna e Karl Lagerfeld. Nada mais eterno que um prazer instantâneo.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 11 DE FEVEREIRO

A TERNURA DO RESTAURADOR

… tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim (João 13.1b).

Jesus foi ao encontro de Pedro no mar da Galileia. O mesmo cenário da chamada desse pescador foi a cena de sua restauração. Em vez de confrontar Pedro, fazendo-o lembrar de suas vergonhosas quedas, Jesus toca de forma sensível no âmago do problema, perguntando a Pedro: Simão, filho de João, tu me amas? (21.16,17). Quando Pedro caiu, seu eu estava assentado no trono de sua vida. Para Pedro se levantar, Jesus precisava estar no trono do seu coração. O amor é o maior dos mandamentos. O amor é o cumprimento da lei. O amor é a prova insofismável de que somos verdadeiramente discípulos de Jesus. A única condição exigida para que Pedro voltasse para Jesus e reingressasse no ministério era demonstrar seu amor a Cristo. O Senhor também toma a decisão de curar as memórias de Pedro, preparando a cena para conversar com ele. A queda do apóstolo havia sido ao redor de uma fogueira. Jesus, então, arma a mesma cena na praia. Pedro havia negado Jesus três vezes, em grau ascendente. Pedro negou, jurou e praguejou. Jesus, então, lhe fez três perguntas em grau ascendente. Jesus quer não apenas restaurar o coração de Pedro, mas também curar suas memórias amargas. O Senhor se interessa não apenas por nossas convicções, mas igualmente por nossos sentimentos.

GESTÃO E CARREIRA

DESEJOS, DORES E NECESSIDADES

Resultados assertivos podem ser alcançados quando entende- se que o foco deve ser voltado para cobrir uma dessas possibilidades, e essa tríade pode ser usada em qualquer situação

A sociedade está em constante mudança e o bom gestor deve estar atento a isso, sempre sugerindo adaptações à sua equipe para melhor relacionamento com o mercado. A velocidade dessas alterações é aumentada a cada nova onda tecnológica, fazendo com que antigos serviços ou produtos deixem de existir de uma hora para outra. Estar atualizado passou a ser uma questão de sobrevivência diante do mercado consumidor com novas exigências que surgem a cada dia. O gestor precisa acompanhar as novidades do mundo externo com a mesma atenção que observa os protocolos internos.

Quem ainda se baseia firmemente na hierarquia das necessidades, do psicólogo americano Abraham Maslow, deve fazer uma rápida revisão nos conceitos principais. Caso não esteja familiarizado com esse conceito vale a pena uma breve pesquisa.

Simplificando, Maslow propôs uma escala em forma de pirâmide com cinco camadas assim dispostas:

1- BASE DA PIRÂMIDE: FISIOLOGIA – a motivação para agir no ambiente surge das necessidades fisiológicas como: fome, sono, sede, sexo, excreção, respiração etc.;

2- SEGUNDA FAIXA, ACIMA DA BASE DA PIRÂMIDE: SEGURANÇA – nesse segundo nível o ser humano se move em busca de uma estrutura de segurança: emprego, casa, dinheiro etc.;

3- TERCEIRA FAIXA DA PIRÂMIDE: AMOR/ RELACIONAMENTO – busca a realização na construção de uma família, casamento, relações íntimas;

4- QUARTA FAIXA DA PIRÂMIDE: ESTIMA E AUTOESTIMA – aqui, nessa faixa, a pessoa busca o reconhecimento na sociedade. O respeito dos outros pelas suas ações;

5- QUINTA E ÚLTIMA FAIXA, O TOPO DA PIRÂMIDE: REALIZAÇÃO PESSOAL – fase em que a motivação direciona o humano na busca da aceitação, contemplação e resolução de todos os dilemas da vida.

Essa pirâmide é ensinada nos cursos de Administração, Economia, Psicologia e até Direito.     No entanto, podemos simplificar a forma de comunicação em todos os níveis se usarmos uma fórmula mais simples: dores, desejos e necessidades.

Motivar o outro para uma ação, seja de compra ou de uma melhor desenvoltura no ambiente laboral, é uma arte que depende, essencialmente, de uma comunicação assertiva. O conteúdo deve estar bem alinhado com o perfil do sujeito – alvo.

Hoje, os publicitários e gestores de RH usam os termos personas ou avatares para criar o sujeito-alvo de suas comunicações. Empresas de grande porte possuem diferentes perfis de colaboradores e produtos ou serviços que são apresentados de variadas formas, procurando atingir públicos distintos.

O mesmo produto, a mesma ideia ou propostas de interferência no protocolo de ações de uma equipe podem ser apresentados de formas distintas buscando obter o melhor resultado possível com diferentes personas -alvo.

O foco deve ser voltado para o entendimento do sujeito para cobrir uma dessas possibilidades: DORES – o que ele sente falta nesse momento, o que o incomoda. Será que essa comunicação pode ajudar a amenizar ou se livrar do problema que ele tem em mente?; DESEJOS – o sujeito almeja algo melhor para si, sua família ou equipe. O conteúdo da comunicação deve trazer essa solução para ele; e NECESSIDADES – o que é importante e necessário para esse sujeito no momento? A forma como apresentamos a comunicação leva a informação de como cobrir essa necessidade?

Não há mais uma escala de valor/ importância. “Tudo depende do perfil do sujeito. Muitas vezes, a necessidade fica em segundo plano para que ele possa satisfazer um desejo. Sem a capacidade de atender as diferentes personas nessas três possibilidades qualquer esforço comunicacional pode ser perdido.

Vamos a um simples exemplo: a empresa quer facilitar a compra de bicicletas para que seus funcionários possam se livrar do transporte público e dos constantes atrasos. Com o pensamento em cobrir as dores, desejos e necessidades, três campanhas internas poderiam   ter seus direcionamentos assim:

1- DORES: Jamais chegue atrasado na empresa: aproveite o plano de financiamento sem juros. Informe-se no RH;

2- DESEJOS: Aproveite a vida e a liberdade ao ar livre: tenha uma moderna bicicleta. Veja como se informando no RH; e

3- NECESSIDADES: Cuide bem de sua saúde: se exercite mais! Sua empresa facilita para você adquirir uma bicicleta. Procure se informar no RH.

Óbvio que é apenas um exemplo de como o mesmo objetivo pode ser apresentado de várias formas para alcançar públicos diversos. Essa regra vale para qualquer tipo de interação, mesmo as de relacionamento social ou familiar.

Procure observar como as pessoas pensam em relação aos fatos. Com alguma prática fica tão fácil descobrir em qual nível estão nesse momento e a melhor abordagem a ser usada para motivar um colaborador, uma equipe, um gestor ou um cliente a atender os desejos e necessidades da empresa.

JOÃO OLIVEIRA – é doutor em Saúde Pública, psicólogo e diretor de cursos do Instituto de Psicologia Ser e Crescer (www.isec.psc.br).Entre seus livros estão: Relacionamento em Crise: Perceba Quando os Problemas Começam Tenha as Soluções/Jogos para Gestão de  Pessoas: Maratona para o Desenvolvimento Organizacional/ Mente Humana: Entenda Melhor a Psicologia da Vida e Saiba Quem Está a sua Frente Análise Comportamental pelas Expressões Faciais e Corporais (Wak Editora).

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O MITO DO AMOR ROMÂNTICO

Transformada em mercadoria de consumo, a paixão não tem mais a ver com o destino, o risco ou o enfrentamento

O Romantismo é uma história de sucesso. Porque, a rigor, ele é um movimento literário, artístico e filosófico que se anuncia no final do século XVIII e domina parte do XIX, depois se tornando quase algo kistch, piegas, desdenhado pelo bom gosto. Mas consegue uma enorme sobrevida popular, passando a indicar uma atitude, uma conduta, uma postura que desfrutam enorme simpatia. Assim, quando falamos hoje em romantismo, quase sempre entendemos uma inclinação para o amor, para a entrega, enfim, para o melhor de que somos capazes.

Porque o movimento romântico se baseou numa grande ideia, que 200 anos atrás revolucionou a Europa, a ideia de que o coração revela a verdade. Daí decorrem dois pontos muito importantes. O primeiro é que a sociedade é falsa. Ela é feita de convenções. Conspira contra a felicidade. Já o segundo ponto é que a verdade se encontra no íntimo do indivíduo, no seu coração.

Nada disso significa, é bom dizer, o triunfo de algum tipo de “individualismo burguês”. O romântico é um rebelde. Ele desafia a sociedade. Na intimidade, encontra uma verdade subversiva. É impossível ser verdadeiro e, ao mesmo tempo, obedecer às leis vigentes.

É claro que haverá românticos politicamente conservadores, como foi Victor Hugo em seus começos, ou Chateaubriand; mas o ímpeto do movimento é contestar a ordem estabelecida. Os valores impostos socialmente são falsos. Só é válido o que provém do coração.

Rousseau assim coloca na voz de seu “vigário saboiano” uma profissão de fé que reza mais ou menos o seguinte: o único critério de verdade que levarei em conta será o assentimento de meu coração às ideias que me sejam propostas. Descartes usava, como critério para a verdade, as ideias claras e distintas, submetendo as portanto ao crivo da razão; Rousseau vai lê-las pelo coração – o que significa, também, que as questões cuja solução seja inútil para a vida humana ficarão em aberto.

Insisto num ponto: o conflito é radical, entre a pessoa e a sociedade. Sempre há aqueles que são conformistas, mas quem escutar mesmo a voz de seu coração, a intimidade, não terá meios de aguentar a hipocrisia social. O amor é a grande experiência que vai nesta direção. Por isso, romantismo celebra o amor-paixão.

Com sua enorme intensidade, ele faz com que nada mais valha a pena, afora essa revelação amorosa. “De que vale o céu azul e o sol sempre a brilhar, se você não vem e eu fico a te esperar? diria Roberto Carlos na década de 70. De que vale a posição social, de que vale a beleza, de que vale tudo o mais se o sentido que a vida tem a partir do amor está faltando? Ou como canta Natalie Wood em West side story.

feel prety (…) and I pity any girl who isn’t me tonight (“eu me sinto linda e tenho pena de toda garota que não seja eu esta noite)”. A vida muda, com o amor apaixonado. A intensidade dele é a garantia de sua verdade. E a verdade está dentro dele. Ora, o que dois séculos desta experiência nos ensinam? Primeiro, hoje a paixão está na moda. Quando chega o Dia dos Namorados, por exemplo, as entrevistas até de gente inteligente celebram o quanto é bom estar namorando, como é bom amar (como se as pessoas sem parceiro fossem infelizes ou culpadas).

Mas esta paixão não é mais a romântica de primeira safra. No Romantismo, era um amor-paixão único pela vida toda. Não dava para se apaixonar, ou para amar, duas vezes. Leiam a literatura. O amor de verdade geralmente não dava certo, e a pessoa morria.

Hoje, não. O que se recomenda é que você ame e, se não der certo um amor, vá para outro, e assim por diante: um dia você acertará. Ou seja, saiu o trágico, entrou um certo prosaísmo da paixão, se posso dizer assim. Ela não mata mais.

Stendhal, que conseguiu o milagre de celebrar a paixão e ao mesmo tempode ser crítico da pieguice, tem uma frase terrível: “Hoje [1820], é só do último andar que se mata de amor”. Queria dizer que só as empregadas domésticas, que viviam no sexto andar em chambres de bonne se suicidavam por amor; quem morava mais baixo, isto é, possuía mais statussocial, não amava a esse ponto.

Pois hoje temos uma espécie de síntese: por um lado, é in estar apaixonado; por outro, esta paixão não pode contradizer nossos interesses. Os apaixonados de hoje sabem o que fazem. Eles não perdem a vida nem a razão. A paixão deixou de ser trágica – e deixou de ser subversiva.

Se posso fazer um balanço, lamento que ela tenha deixado de ser subversiva – e acho ótimo que tenha deixado de ser trágica! Sei que as duas mudanças vieram juntas, e é difícil separá-las, mas tentemos um pouco, para a análise.

É difícil hoje um estudioso do amor ainda acreditar que a paixão diga mais verdade do que outras formas de amor. Quando Stendhal escreve seu Do amor e explica quais são os tipos dele, contrasta o amor apaixonado (que é o genuíno, a seu ver) com os jogos amorosos do século XVIII, praticados por uma aristocracia que incluía o namoro e o adultério entre os esportes da vida cortesã. Portanto, o amor apaixonado está acima de qualquer outro. Mas não é assim que hoje se vê a coisa.

A tendência atual é considerar que a paixão engana. O termo “paixão” originalmente designava o modo como a alma, ou a psique, é afetada de fora, ou seja, como ela é passiva diante de impressões que recebe (passivo e paixão vêm do grego pathos). E ele volta, em nossos dias, a ser visto como algo mais negativo que positivo. Antes do romantismo falava-se em “escravos das paixões”, para as pessoas cuja razão não era forte o bastante para vencer a passividade emocional.

Com o Romantismo, a paixão passou a ser emancipadora – ainda que custasse a vida. Ao contrário do tempo anterior, a paixão dizia a verdade e libertava. Mas, em nossos dias, tende-se de novo a apontar quantos equívocos a paixão engendra – e, portanto, ela se torna, de novo, escravizadora.  Por isso se procura, diante dela, algo mais forte, mais denso. A palavra ”razão” não é talvez tão popular em nosso tempo para designar esse antagonista da paixão, mas pelo menos sabe-se vagamente que o amor é mais que a paixão.

Digamos, então: hoje acreditamos que o amor é menos intenso, menos brilhante – mas mais consistente que a paixão. Talvez seja por essa razão que perdemos o caráter trágico do amor romântico. O romantismo leva bem pouca gente a morrer de amor atualmente.

Aliás, na verdade não estamos falando aqui do que as pessoas vivem, mas daquilo que uma cultura bastante difundida sinaliza como sentimento recomendado. Um dos principais fatores de tristeza é que os sentimentos que de fato vivenciamos batem muito pouco com as recomendações da mídia.

Ou seja, se nos recomendam que amemos apaixonadamente, mas que tenhamos um luto muito curto para cada fim de caso e partamos depressa para outra história, a pergunta é: quantas pessoas conseguem isso? Para cada estrela de TV, que quando termina um namoro logo engata a outro, quantas pessoas comuns penam, sofrendo um luto que se torna indizível (por que ninguém aguenta ouvir falar dele) e não correspondendo ao ideal da vida sempre intensa, sempre apaixonada?

Vejam como as revistas tratam as tragédias amorosas das pessoas glamourosas. É um desserviço público! Ensinam as pessoas a acreditar que a vida é uma sucessão de gemas preciosas, um sem-fim de amores intensos. A questão é que isso funciona para muito poucos, e de modo geral só para quem aceita viver as coisas na superfície, na aparência.

Por isso o amor romântico hoje se tornou um mito, no sentido de uma fantasia de algo que move as pessoas, mas sem ser verdadeiro. É como se “romântico”, no caso, reduzisse a força do substantivo “amor”. Antes de aumentar essa força! Mas hoje chamamos de amor algo mais denso, mais forte. Só que esse algo não tem mídia.

Não há graça em fazer uma novela ou um filme sobre uma longa história de amor. Ela se torna banal. Ela não tem o impacto da paixão, que nos faz enfrentar tudo o que é obstáculo. O problema é que com essa mídia da paixão acabamos bastante despreparados para entender nossos próprios sentimentos, nosso próprio modo de agir e sentir. E sabemos muito pouco o que é o amor. Talvez hoje se saiba mais sobre a sexualidade do que sobre o amor. O que o diferencia da paixão, do desejo sexual (que está perto da paixão) e da amizade? Temos uma certa noção de que o desejo intenso e a paixão não convergem com a amizade. Esta é mais generosa, aqueles são mais egoístas.

Agora, se o amor é visto pela mídia como meio “sem graça”, o que dizer da paixão amorosa? Ela se torna produto de primeira necessidade, mas, com isso, também vira prosaica. Se posso trocar de pessoa amada com facilidade, se não vivo a dor imensa da perda, se o luto se perdeu, então o que resta do amor romântico? Este não era só a intensidade alegre. Era, também e sobretudo, morte e luto. Stendhal lembra que os trovadores provençais, que na Idade Média foram os primeiros a difundir um ideal que iria dar mais tarde no amor romântico, falavam em amor, mas, em amor-morte.

Dizia acima que a perda do caráter trágico é positiva – porque não precisamos morrer só porque nos enganamos ou fomos enganados. É bom, assim, que a paixão tenha perdido muito de seu vínculo preferencial romântico com a verdade. Hoje a verdade está mais perto deste continente ignorado que é o “amor”, mas que não é paixão.

Contudo, o fim do caráter subversivo é de lastimar. O que era belo no amor romântico era o enfrentamento das potências deste mundo. Julien Sorel, o ambicioso de O vermelho e o Negro, de Stendhal, ou Fabrício Dei Dongo, o desapegado rapaz da Cartuxa de Parma, do mesmo autor, eram capazes, ambos, de desprezar as riquezas, o poder e a própria vida, em nome de um valor mais alto. Este valor mais alto lhes foi trazido pela paixão. A paixão foi o meio de mostrar este valor.

Mas o valor, propriamente dito, tinha a ver com uma postura de verdade em face da vida. Ele fazia desqualificar tudo o que fosse aparência. Pois bem, essa disposição para enfrentar, em nome da verdade, os poderes deste mundo se separou por completo do que hoje é a paixão. A paixão de hoje é mercadoria de consumo. Ela não tem mais a ver com o destino, com os riscos, com o enfrentamento. E por isso o fim do amor romântico é também uma pena. Pode ser o final da disposição para desafiar os poderes. 

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

MIL FORMAS DE AMOR

O amor não pode ser medido com o metro, diz o ditado. Psicólogos sociais o quantificam com outros métodos e verificam que várias máximas sobre esse sentimento são clichê ultrapassado

Experiências tão profundamente subjetivas como o amor podem ser cientificamente averiguadas? De fato, é difícil, se não impossível desenvolver um modelo abrangente do amor. Romantismo, paixão, amizade, ciúme, disposição para o sacrifício, zelo – o fenômeno parece se manifestar de várias formas. Ainda assim, cientistas supõem que o sentimento seja psicologicamente palpável e mesmo “mensurável”.

A pesquisa acadêmica sobreo amor já tem mais de duas décadas, mas ainda não conseguiu formular uma definição universal desse conceito. Alguns pesquisadores defendem um modelo segundo o qual sensações apaixonadas podem ser suscitadas por todo e qualquer tipo de excitação fisiológica, desde que o cérebro consiga alocá-la num contexto romântico. A pesquisa moderna, ao contrário, traz à cena nossas concepçõesdo amor.

Nesse âmbito, o sociólogo John Alan Lee, é responsável pelo marco inicial em 1973, para fazer jus à diversidade do fenômeno, o pesquisador da Universidade de Toronto, Canadá, identificou seis “estilos de amor”, colhidos em textos filosóficos e literários. Ele os chamou de Eros – o amor romântico; Ludus – o amor lúdico, Storge – o amor amigável; Mania – o amor ciumento; Pragma- o amor pragmático e Ágape – o amor altruísta. Lee tinha consciência de que esses estilos nunca apareciam isolados, mas sempre em combinações. Ele os via como “cores” se misturando em cada indivíduo para criar um tom pessoal e único.

Os seis estilos de amor de Lee abarcam um amplo espectro de concepções de parceria. Pesquisadores do relacionamento, no entanto, conhecem ainda outras características. A influência da primeira infância, por exemplo, é levada em consideração na teoria das ligações de John Bowlby, de 1969. Ela provém da tradição psicanalítica e analisa em que medida os relacionamentos emocionais entre pais e filhos se refletem em vínculos posteriores. Outra vertente, a chamada teoria do triângulo, de Roben Sternberg, ao contrário, descreve o amor como confluência de paixão, intimidade e união.

Os diferentes conceitos, porém, são apenas perspectivas e tentativas de explicar o fenômeno do amor e ainda não permitem quantificá-lo. Para podermos fazer afirmações estatísticas, necessitamos de instrumentos com os quais possamos normatizar experiências amorosas. Isso se explica a partir dos estilos de amor de Lee.

Mas, afinal, alguma dessas hipóteses foi confirmada? Para saber, analisamos os sentimentos de grande número de pessoas através de questionário. Com ele, pode-se calcular com que intensidade alguém se aproxima dos diversos estilos. O questionário contém dez afirmações, com as quais os entrevistados devem concordar ou das quais devem discordar, em nove graus de intensidade, de “absolutamente certo” a “absolutamente falso”. O questionário já foi preenchido por mais de 2 mil pessoas e mostrou que no Ocidente o estilo amoroso predominante é o romântico. Altruísmo, amizade e ciúme vêm em seguida, enquanto o pragmático e o lúdico são claramente menos frequentes. A maioria das pessoas procura menos aventuras sexuais, mas deseja um parceiro exclusivo, por quem possa estar apaixonada de modo romântico e a longo prazo.

No Oriente é um pouco diferente, os chineses gostam igualmente do amor romântico, mas valorizam mais o amor altruísta e o pragmático que ocidentais. Sendo assim, o modo de amar parece estar estreitamente ligado às influências culturais, em constante mutação.

AMORES POLÍTICOS

Além disso, também os regimes políticos influenciam a sensibilidade amorosa. Em 1996 o questionário foi proposto a pessoas dos dois lados da Alemanha então dividida. Alemães orientais obtiveram em quase todas as escalas do amor valores mais altos que os ocidentais. Aparentemente a sociedade que se pautava pelo coletivo favorecia uma coesão mais forte entre os casais. Ou talvez uma sociedade coletiva e ao mesmo tempo repressora faça as pessoas se refugiarem no nicho de uma relação a dois, onde podem ter seu espaço individual livre.

O ciúme, que ocupa a segunda posição no questionário, é mais marcante nas mulheres. Boas pistas para entendê-lo podem ser encontradas observando-se animais. Com efeito, eles apresentam comportamentos protetores e ciumentos, gerados por mecanismos de transmissão do patrimônio genético. Quando uma fêmea cruza com um macho, transmite esse patrimônio aos descendentes, mas corre o risco de o macho assegurar também a perpetuação genética de outras fêmeas.

Se esse for o caso, sua prole pode sucumbir à competição dos meio- irmãos que não têm seu patrimônio genético. Fêmeas não ciumentas desaparecem, já que deixam de proteger esse patrimônio. Além disso, um macho ocupado com outras relações consagra menos tempo e energia à prole, que fica em desvantagem: uma segunda “justificação” para o ciúme.

Como homens e mulheres são regidos, em certos aspectos de sua conduta, pelos mesmos “instintos genéticos” que outros mamíferos, podemos tirar algumas lições do comportamento animal sobre o ciúme feminino. As mulheres temem que o homem se fixe em algum outro lugar de forma durável, o que privaria os filhos de uma parte de seus recursos. De fato, o sexo feminino sofre mais quando o parceiro se apaixona por outra, pois ele poderá se ausentar por muito tempo. Como interpretar, nesse caso, que seja mais difícil para o homem perdoar uma simples infidelidade sexual? Simplesmente porque, até há pouco tempo, ele não tinha como saber se um filho era dele ou de outro homem. Seu patrimônio genético se encontra ameaçado, o que explica por que os genes atualmente presentes no genoma masculino predispõem a uma rigidez nesse assunto.

Quanto ao amor lúdico, ele apresenta ao homem uma vantagem: a de distribuir seus genes ao máximo. Para a mulher, os motivos são mais sutis: presumivelmente ela quer ter retaguarda, no caso de perder seu parceiro atual.

HARMONIA DE ESTILOS

Os estilos de amor dos parceiros devem combinar? “Opostos se atraem·”, diz um ditado. Mas a análise de nossos questionários revela que os estilos de amor nos casais não refletem essa lei de complementaridade. Os dois parceiros frequentemente tendem a ter o mesmo estilo de amor. Segundo o psicólogo social Harold Kelley, as pessoas só constroem uma relação durável se puderem ser e compensar mutuamente. Em analogia a processos econômicos de troca, numa relação surgem tanto lucros quanto custos, que podem ser reunidos num balanço do relacionamento. Se os estilos de amar dos parceiros forem parecidos, isso geralmente significa lucro de ambos – isso vale pelo menos para as formas romântica, amigável, pragmática e altruísta de amar. Entre dois amantes ciumentos, por sua vez, surgem tantos conflitos que os altos custos podem esfacelar a relação. Se dois amantes lúdicos se encontram, em algum momento pode acontecer o seguinte: se um se retrai, o outro também se distancia e o “jogo” acaba. É verdade que ambos usam o mesmo repertório comportamental, que leva aqui à ruptura da relação. A teoria da troca pode parecer muito prosaica, na medida cm que acha um denominador comum puramente racional para os relacionamentos amorosos. No entanto, uma análise fria de custo-benefício ajuda os pares a entender por que a sua relação não funciona, E também mostra o que ambos perderiam com uma separação.

Bowlby ressalta que o estilo de amar de uma pessoa parece repetir o de seus pais. Um estudo americano com gêmeos parece anular um componente biológico herdado: pesquisadores examinaram os estilos de amor em gêmeos que cresceram separados, sendo que os gémeos univitelinos, ou seja, geneticamente idênticos, não eram mais semelhantes entre si que os de zigotos, cujos genes se diferenciam tanto quanto em irmãos não gêmeos. Deduz-se daí que o amor é determinado essencialmente pelo aprendizado social. O modo de amar de uma pessoa parece ser influenciado fortemente por experiências amorosas na infância e na juventude, e com isso também por pai e mãe. Talvez um jovem se oriente pelo exemplo dos pais, ou chegue à conclusão de querer fazer tudo diferente, desenvolvendo sua própria construção social do amor. O amor não é uma fatalidade: é determinado em primeiro lugar por nossas experiências e essencialmente pelo que fazemos dele.

EXCITAÇÃO PRODUZ AMOR

Como surgem sentimentos de amor apaixonado? Pela teoria dos dois fatores do psicólogo social Stanley Schachter, as emoções aparecem quando interpretamos excitação fisiológica de origem sexual de modo cognitivo. Conferimos a elas, por assim dizer, uma etiqueta correspondente: euforia, tristeza, raiva etc. Mas, se há várias fontes de excitação, o cérebro parece ter problemas em distingui-las.

Situações dramáticas, portanto, podem aumentar sensivelmente o amor apaixonado. Esse fenômeno é ilustrado pelo chamado efeito Romeu e Julieta. Os dois famosos adolescentes tiveram de lutar pelo seu amor contra a resistência de todos em volta. Não seria espantoso que ambos Interpretassem a sua excitação em parte como expressão de seu interesse mútuo. De fato, pesquisas confirmam que pais que quiseram evitar relacionamentos românticos dos filhos acabaram por alcançar o contrário: a pressão de fora fortalece os sentimentos de um pelo outro.

Chama a atenção que a maior intensidade dos sentimentos amorosos parta de emoções negativas, como medo e stress. Mas também o desejo por aventura ou a excitação emocional em competições esportivas podem funcionar como elixir do amor.

RELAÇÕES AMOROSAS – UMA QUESTÃO DE ESTILO

Em 1973, o psicólogo John Alan Lee distinguiu seis “arquétipos” do amor. Atualmente, questionários avaliam o perfil amoroso, ou seja, as proporções desses arquétipos não pessoas. Os tipos mais característicos de amor foram agrupados, assim como algumas respostas típicas dos participantes.

Essas categorias representam apenas tendências. Em geral, uma única pessoa pode reunir vários estilos de amor: por exemplo, alguém que ama do modo altruísta pode tender a ser infiel. O amor romântico, o possessivo e o altruísta têm um elo positivo: quem considera o romantismo importante será mais facilmente ciumento ou disposto a sacrifícios. Diametralmente opostos são o amor romântico e o lúdico: os amantes românticos raramente procuram aventuras sexuais. É bem verdade que os elos estatísticos não são demasiadamente grandes para que se possa confiar neles sempre, mas podem sim, valer como regra básica.

OUTROS OLHARES

UMA IDEIA NA CABEÇA

Cresce entre as brasileiras a moda no poo, que prega a substituição do xampu por receitas caseiras. Mas atenção: o hábito, supostamente saudável, pode fazer mal aos cabelos

A história do xampu tal qual o conhecemos hoje, aquele que já nos anos 80 do século passado a atriz Farrah Fawcett, dona de lendária cabeleira mandava aplicar diariamente, porque continha sais minerais, vitaminas, proteínas e ervas, parece ter começado outro dia mesmo – mas vem de longe, é milenar. Os babilônios, cerca de 3.000 a.C. alimentavam uma crença: a de que os cuidados com o corpo e os adornos é que diferenciavam os seres humanos dos animais. Vestígios de antigas civilizações comprovam o uso habitual de água limpa e corrente, além de sabão feito de gorduras de bicho cozidas com cinza e armazenadas em potes de barro.

Tanto tempo e tanta ciência depois, vive-se uma volta ao passado – há uma nova tendência nas cabeças especialmente nas femininas: a do no poo na expressão em inglês algo como “nenhum xampu” e sua versão menos radical, o low-poo, ou pouco xampu. São modalidades de limpeza dos fios sem agressão química. Adeus, produtos industrializados. Salve as receitas caseiras como chás de camomila e bicarbonato. Os principais vilões na condenação ao xampu, são os sulfatos, da família de detergentes presentes na maioria das marcas. O maior inimigo é o laurel, éter sulfato de sódio, responsável por retirar a oleosidade do couro cabeludo. Os defensores do modismo afirmam que a substância torna os cabelos mais oleosos e vulneráveis à seborreia, um tipo de inflamação que causa descamação e vermelhidão. Também refutam as fragrâncias e o silicone (composto que dá brilho) supostamente danosos à cútis.

A fotógrafa paulistana Camila Sconee, de 21 anos parou de usar xampu há um ano. “Adoro meus cabelos rosa” diz. “Utilizo tintura vegana, mesmo assim, eles ficavam ressecados. A retirada do xampu deu vida a eles.” Há relatos de mulheres que estão há cinco anos sem aplicar cosméticos. Os especialistas condenam. “É um exagero”, diz o dermatologista Luciano Barsanti, do Instituto do Cabelo, de São Paulo. A substituição por chás e bicarbonato também é rechaçada pelos médicos. “As receitas caseiras não limpam os cabelos”, explica a dermatologista Lyvia Salem, do Hospital Santa Casa de São Paulo. “O acúmulo de resíduos como poluição e o próprio sebo é mais prejudicial que qualquer substância industrializada dos cosméticos. “O no poo subiu às cabeças como uma nova ideia. Colou, mas não tarda e será afastada pelos evidentes avanços científicos”.

GESTÃO E CARREIRA

SERÁ QUE REALMENTE VOCÊ É TÃO BOM PROFISSIONAL QUANTO SE CONSIDERA?

Ana diz que não se sente desafiada no trabalho, as atividades são simples demais para sua tamanha competência. Ana esqueceu de enviar uma proposta de serviços para um cliente e a empresa não fechou esse negócio.

Diego se julga mais inteligente que seu chefe, tem MBA, fala inglês e acha que não está sendo reconhecido como merece. Diego não preencheu o formulário de inscrição da companhia para participar de um processo de licitação importante que garantiria um contrato relevante.

Cátia acredita e deseja fazer coisas extraordinárias para a empresa em que trabalha, mas não consegue responder ao chamado do cliente dentro do prazo de 24 horas, causando reclamações constantes no SAC. Plínio acha burocrático, arcaico e defasado o sistema interno da empresa em que atua, porém não digitou o código correto para emissão da nota fiscal e gerou uma multa para a companhia, prejudicando o faturamento do mês.

Marina se vê como sócia do restaurante, enxerga infinitas possibilidades de aumentar a clientela e já teria feito mudanças no cardápio, no entanto, não anotou corretamente o pedido do cliente, demorou para atendê-lo e ele saiu insatisfeito, dizendo que nunca mais voltaria àquele local.

Eric trabalha como atendente do Detran e leva cerca de cinco minutos para marcar a renovação da CNH para qualquer cidadão. Porém, esqueceu de me avisar que só é possível renová-la com 30 dias de antecedência do vencimento. Assim, agendou para eu estar no Detran 35 dias antes. Resultado: não pude renovar e ainda perdi uma tarde de compromissos.

Mas qual é o problema? É só reagendar para daqui a alguns dias!

Thais é recepcionista em um shopping e acredita que pode fazer mais do que ficar no balcão, acha que é capaz de atrair mais clientes com uma simples ação nas mídias sociais. Hoje um cliente pediu orientação do local de uma loja específica e Thais não soube responder.

Qual a semelhança entre esses profissionais? Todos julgam que não estão sendo reconhecidos e valorizados, consideram que ganham pouco pelas tarefas que executam e acreditam que fazem um excelente trabalho.

Mas será que realmente são tão bons quanto consideram ser?

Os casos citados são todos reais, aconteceram comigo nesses últimos meses. Tenho observado inúmeros profissionais que são competentes, qualificados e têm boa vontade, contudo, por talvez não se identificarem com sua realidade, não aceitam fazer o básico que chamo de tarefas “tenho que”. Existem tarefas em nosso cotidiano que gostamos de fazer e outras tarefas que “temos que” fazer. São aquelas atividades tidas como chatas, operacionais e rotineiras, mas extremamente necessárias para a organização e o controle dos processos da empresa.

À medida que o profissional mostra resultado, a parcela de atividades “tenho que” diminui e aumenta a parcela de atividades que ele gosta de fazer. Portanto, ao receber uma tarefa chata, faça com excelência. Assim, bons resultados aparecerão e, em um curto espaço de tempo, estará livre daquele enrosco e se dedicando a atividades que acredita serem adequadas à sua competência.

Vejo um quadro de muita ansiedade, intolerância, nervosismo e angústia. A maioria está confusa sobre o caminho profissional a ser traçado. Isso sem contar os que se preparam muito, mas executam pouco.

Antes de se achar o suprassumo da empresa, que tal desempenhar bem o básico do seu trabalho? O bom profissional é aquele que aprende de forma rápida, cria soluções para a empresa e seus clientes e jamais esquece suas tarefas do dia a dia, fazendo-as com qualidade, afinal, a excelência mora nos detalhes.

É fato que também encontro alguns profissionais que são muito críticos consigo mesmos. Aqueles que têm uma “régua” muito elevada sobre seu desempenho, sempre acham que não são tão bons assim e que seu resultado poderia ser melhor. Infelizmente, ainda é minoria e geralmente os que pensam assim são os melhores profissionais.

Não tem nada de errado em pensar grande e sonhar alto! Eu recomendo!

Mas não se esqueça de olhar para sua realidade e fazer o que tem que ser feito com excelência. Lembre-se de que é preciso um passo de cada vez para chegar ao destino. E você? Será que realmente é tão bom profissional quanto considera ser?

DANIELA DO LAGO – é especialista em comportamento no trabalho, mestra em administração, coach de carreira, palestrante e professora na área de liderança e gestão de pessoas.   

http://www.danieladolago.com.br

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 10 DE FEVEREIRO

O ALTO PREÇO DA REDENÇÃO

… fostes resgatados… pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo (1Pedro 1.18,19).

A nossa redenção não foi uma decisão de última hora. Antes mesmo de lançar os fundamentos da terra, espalhar as estrelas no firmamento e criar o vasto universo, Deus já havia colocado o seu coração em você. O amor de Deus por você é eterno, imutável e sacrificial. O preço por seu resgate foi o sangue de Cristo, o Cordeiro imaculado de Deus. A morte de Cristo na cruz foi a maior missão resgate do mundo. Esse resgate não foi pago ao diabo, mas ao próprio Deus. O Senhor vindicou sua própria justiça violada e providenciou o sacrifício substituto para que pudéssemos ser libertos do cativeiro da escravidão. Deus nos redimiu não mediante ouro e prata (metais nobres). Ele nos resgatou pelo precioso sangue de Cristo, o Cordeiro sem defeito e sem mácula. Deus deu tudo para nos resgatar. Deu seu Filho. Deu a si mesmo. Normalmente pensamos em Deus primeiro como Criador e depois como Redentor. Mas Pedro nos apresenta Deus primeiro como Redentor, depois como Criador: conhecido, com efeito, antes da fundação do mundo, porém manifestado no fim dos tempos, por amor de vós (v. 20). Deus pagou o mais alto preço por você, o preço de sangue, sangue do seu Filho. Portanto, você tem um alto valor para Deus. Ele investiu tudo para ter você, a fim de que você nele se deleite.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

PREPARADOS PARA ACERTAR

A hesitação dos mais velhos para passar a uma próxima tarefa lhes “rouba” alguns segundos, mas permite um ganho importante: erros caem pela metade quando comparados aos dos jovens

Muita gente ainda acredita que atividades de precisão, como informática, e idosos não combinam, pois os mais velhos seriam confusos e propensos a se enganar. Resultados de pesquisas, porém, mostram que essa impressão pode ser preconceituosa: na prática, eles tendem a errar menos. É nisso que acredita o neurocientista Michael Falkenstein, do Instituto de Fisiologia do Trabalho da Universidade de Dortmund, na Alemanha.

O pesquisador – que coordena estudos sobre as capacidades cognitivas de idosos e, em especial, de que maneira eles lidam com ambientes modernos de trabalho, em geral informatizados – percebeu que quando os voluntários que participavam de seus experimentos cometiam algum equívoco ao realizar tarefas simples no computador, seu cérebro emitia uma “onda de erro” mais plana que a verificada em jovens. Segundo Falkenstein, isso não significaria que a reação ao engano cometido é menor e sim que essas pessoas “ganham” alguns segundos antes de passar à próxima tarefa. Parece pouco, mas essa hesitação é o suficiente para detectar eventuais enganos e corrigi-los. O que, em princípio, parece uma desvantagem é bom, no final das contas: “Por essa razão, os mais velhos cometem apenas a metade dos erros dos mais jovens”, ressalta o pesquisador.

Essa lentidão produtiva revelou-se bastante nítida no cumpri- mento de uma tarefa proposta com o intuito deliberado de irritar os participantes. Eles deveriam clicar numa seta que apontava para determinada direção, tão logo ela aparecesse numa tela de computador. Pouco antes de sua aparição, porém, o programa esparramava diversas outras setas pelo monitor, apontando para todas as direções. Por causa dessa confusão, o tempo de reação dos jovens e dos idosos alongou-se consideravelmente e os mais novos cometeram maior número de erros.

Em quesitos como compreensão e processamento da linguagem verbal, os mais velhos tampouco se saem pior. Nessa área, contudo, seu cérebro faz uso diverso dos próprios recursos. Foi o que descobriram neurologistas do Centro de Neurologia Cognitiva e da Doença de Alzheimer da Universidade Northwestern de Chicago, que testaram 50 pessoas com idade entre 23 e 78 anos. Deitados num tomógrafo de ressonância nuclear magnética, os voluntários foram solicitados a, partindo de duas listas, extrair pares de palavras aparentadas, semelhantes no significado ou na ortografia. Desta vez, os mais velhos se mostraram tão capazes quanto os jovens. E isso a despeito de regiões cerebrais tais como os lobos frontal e temporal esquerdo, e da menor atividade de determinados centros visuais responsáveis pelo reconhecimento e interpretação da linguagem. Em compensação, seu cérebro revelou atividade mais intensa em regiões responsáveis pela atenção, como o córtex cingulado posterior. “O cérebro não é um órgão estático, ele desempenha as mesmas tarefas de formas diferentes e chega a resultados satisfatórios percorrendo variados caminhos; a idade da pessoa influencia nesse processo”, enfatiza o pesquisador Darten Gitelman, responsável pelo estudo.

Experimentos com animais comprovam a espantosa flexibilidade do cérebro. Células neurais em perfeito estado são capazes de assumir as funções de neurônios vizinhos, inutilizados em consequência de acidente ou derrame. E novas sinapses podem se formar. Sob muitos aspectos, o cérebro se mantém e até se conserta sozinho, com o objetivo de preservar o próprio desempenho ou mesmo incrementá-lo: quem aprende algo novo estimula sua rede neuronal a formar novas conexões e, ao fazê-lo, retarda o processo de envelhecimento.

DE OLHO NO FUTURO

E não é só isso. O tempo também conta a favor da inteligência emocional. Com o passar dos anos costumamos desenvolver a habilidade de nos distanciarmos dos problemas e nos tornamos mais flexíveis, o que aumenta a capacidade empática de nos colocarmos no lugar dos outros. Em muitos casos, isso é um alívio. O uso da linguagem mostra essas alterações. Com o auxílio de um programa de computador, os psicólogos James Pennebaker e Lori Stone, da Universidade do Texas em Austin, analisaram textos de autoria de 3.280 pessoas com idade entre 8 e 85 anos. Examinaram ainda obras de autores ingleses e americanos, totalizando 9 milhões de palavras, incluindo textos de escritores consagrados como Jane Austen, Charles Dickens e William Shakespeare.

O programa produziu uma listagem da frequência com que, nos textos analisados, sentimentos negativos ou positivos são mencionados, bem como da frequência com que os autores falam de si ou de outros e também daquela com que citam a hora ou o momento do dia. Além disso, o computador registrou o tamanho e a complexidade das palavras, e também o tempo em que os verbos foram empregados. Todos esses dados foram analisados, levando-se em conta ainda a idade do escritor. Nos diferentes patamares etários, os pesquisadores investigaram o que os textos revelavam sobre sentimentos, posicionamentos, maturidade social, noção do tempo e autoimagem – sempre partindo da premissa de que a linguagem escrita espelha a postura interior. Resultado: quanto mais velhos os autores, tanto maior a frequência com que exprimiram sentimentos positivos.

A expressão da raiva e da tristeza, por outro lado, parece ser território dos jovens. Com o avanço da idade do autor, ademais, também a indicação concreta do tempo desapareceu de sua obra. Menções a data e hora parecem importantes apenas às crianças e aos adultos ainda profissionalmente ativos. Os jovens revelaram-se também os que mais empregam verbos no passado. No curso posterior de sua vida, eles passam a se referir mais ao futuro. Na meia-idade, o tempo verbal empregado é especialmente o presente. Na velhice, predominam os verbos no futuro. Essa constatação surpreendeu os pesquisadores. Afinal, muitos acreditam que os mais velhos vivem no passado. Para Pennebaker e Stone, porém, ficou evidente que escritores mais idosos pensaram com bastante frequência no futuro.

Os pesquisadores demonstraram ainda que a própria linguagem verbal se aprimora com a idade. O vocabulário se torna mais amplo e complexo. Os idosos são capazes de expressar com mais precisão o que se passa com eles. Para Pennebaker e Lori, constitui talvez um sinal de sabedoria que os mais velhos pareçam menos voltados para si e independentes da pressão exercida pelo tempo. Cientistas acreditam que essas razões são suficientes para repensar a suposição errônea de que a maioria das pessoas idosas seriam amarguradas, egoístas e presas ao passado – muitas obviamente o são, mas isso tem mais a ver com características de personalidade que com os anos de vida. “Mas a sabedoria trazida pela idade não vem de forma automática: para atingi-la é preciso não apenas passar por muitas experiências, mas também apropriar-se delas”, ressalta a psicóloga do desenvolvimento Ursula Staudinger, da Universidade Internacional de Bremen, na Alemanha.

OUTROS OLHARES

NÃO É O QUE PARECE SER

Vídeos falsos, que simulam o rosto e a voz de pessoas, mas em produções de conteúdo falacioso, são o próximo passo das manipulações virtuais

Imagine por um segundo: um homem com total controle de bilhões de dados roubados. Todos os seus segredos, vida e futuro”, teria dito o criador e CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, em um depoimento gravado. “Devo tudo ao Spectre. O Spectre me mostrou que quem controla os dados controla o futuro”, completou. O vídeo supostamente vazado exibe Zuckerberg em um cenário familiar ao de outras de suas declarações — tratando de um assunto que certamente compete a ele. O problema: nada é o que parece ser. Um olhar mais cauteloso entrega a lorota. Ele está com uma postura mais travada que a usual, o rosto levemente desfocado, e faz loas a um tutor, ou seja lá o que for, totalmente desconhecido, o tal Spectre. Resumo da ópera: aquele cara não é Zuckerberg. Trata-se de um avatar criado pelos artistas americanos Bill Posters e Daniel Howemas usando a tecnologia conhecida como deepfake. A técnica lança mão da inteligência artificial (IA) para inserir rostos reais em cenas falsas com o objetivo de criar um vídeo com alguém dizendo algo que não disse. É um novo e péssimo degrau das fake news.

O filme do Zuckerberg de mentirinha viralizou, como quase tudo na internet que incomoda, mas vinha contida nele a ressalva fundamental — é uma contrafação, modo de alardear o perigoso potencial da estratégia de manipulação.

Não há uma data exata de nascimento das deepfakes — termo que junta a palavra fake (falso, em inglês) com a expressão deep learning (aprendizagem profunda; uma técnica de IA). No entanto, a popularização e o aperfeiçoamento do método começaram a ganhar atenção no fim de 2017, quando um vídeo pornô embusteiro, que trazia uma falsa atriz Gal Gadot, de Mulher­-Maravilha (2017), foi publicado no site Reddit. Desde então, uma série dessas maquinações, com celebridades e políticos, pipocou internet afora.

Uma análise da empresa de segurança digital Deeptrace, fundada em 2018 para elaborar defesas contra falsificações criadas por IA, revela que o número de deepfakes disponíveis na web quase duplicou entre o fim de 2018 e junho de 2019. De um total de 8.000, saltou para mais de 14.000. A grande maioria — 96% — tem natureza pornográfica.

Do lado, digamos assim, leve de suas promessas, as deepfakes têm potencial para o entretenimento. Tome-­se como exemplo o aplicativo chinês Zao, lançado neste ano. Com apenas uma selfie, ele permite pôr o rosto de usuários em cenas de filmes e séries famosas, ainda que seja perceptível a movimentação artificial da face. Edições satíricas, como a que transformou o ator Alec Badwin no presidente americano Donald Trump, mostram como se pode alcançar ainda maior veracidade. Já com softwares potentes, como o Synthesia, desenvolvido para a indústria cinematográfica e de publicidade, foi possível fazer o ex-jogador de futebol David Beckham falar nove idiomas com extremo realismo, em uma campanha publicitária, em 55 países, que alertava sobre os riscos da malária

“É necessário, contudo, olhar as deepfakes com a possível progressão de uso de qualquer nova tecnologia. Elas se tornarão sempre melhores e mais acessíveis”, disse o engenheiro americano Sam Gregory, diretor da Witness, uma organização sem fins lucrativos que promove o uso de tecnologia na proteção dos direitos humanos. Mas talvez não haja risco maior do que o emprego das enganações animadas nas guerras políticas travadas dentro das redes sociais. Há onze anos, quando Barack Obama chegou à Presidência dos EUA, um de seus grandes trunfos de campanha foi a forma como atraiu os eleitores jovens por meio dessas plataformas. A equipe do democrata havia descoberto como poderia utilizar os algoritmos para conquistar militantes on-line e pô-los na rua. Obama foi também o primeiro presidente americano a usar o Twitter, o primeiro a fazer uma live no Facebook, e ainda o pioneiro no Snapchat. De lá para cá, a coisa degringolou, dadas a avalanche tecnológica e a dramática polarização entre um lado e outro, a direita e a esquerda.

No Brasil, o uso abusivo das redes foi ferramenta que ajudou na reeleição de Dilma Rousseff, em 2014 — a suspeita de disparo em massa de fake news foi investigada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Bolsonaro navegou na mesma onda e a incrementou, inspirado na fulminante ascensão de Trump em 2016, ao fazer uso de perfis falsos e robôs.

O amanhã que se desenha soa inexorável. “Dá para concluir que as deep­fakes são o próximo passo das manipulações virtuais”, disse a VEJA o alemão Matthias Niesser, professor de computação gráfica da Universidade de Munique. Para ele, as criações digitais são tão convincentes que se tornaram um nó de forte impacto.

Nos Estados Unidos, o alerta vermelho já está aceso para as eleições do ano que vem. Cerca de 60% dos americanos acreditam que existirá interferência na disputa presidencial de 2020. Os congressistas do país requisitaram oficialmente ao Facebook, ao Twitter e a outras redes que tomem medidas contra os vídeos enganosos.

Entretanto, mesmo que fosse possível proibir as deepfakes, provavelmente já seria tarde demais. É o que constata, em entrevista, o engenheiro americano Aviv Ovadya, fundador do Centro de Responsabilidade para Mídias Sociais da Universidade de Michigan (EUA): “A preocupação é com a desinformação criada”. O risco é que ocorra algo como a normalização de fatos absurdos — da crença no terraplanismo a movimentos extremistas. A ficção prevê algo nessa linha. Na série Years and Years (2019), da HBO, as deepfakes têm relevância numa fictícia eleição na Inglaterra, em torno de 2025, e nos anos seguintes.

E, mais uma vez, o aperfeiçoamento de uma nova forma digital de manipulação põe em xeque os alicerces da democracia. Para os especialistas consultados por VEJA, haveria duas maneiras de ao menos mitigar os efeitos: o desenvolvimento de algoritmos, por gigantes como o Facebook e a Google, que barrem os vídeos; e a via judicial, com a punição dos falsários.

GESTÃO E CARREIRA

GERENCIAMENTO PESSOAL PARA TODOS

O auto coaching é a capacidade de alterar a sua vida com a aplicação das perguntas certas e, para isso, é necessário ter, antes de mais nada, muita força de vontade

Nem todos possuem discernimento e a responsabilidade necessária para lançar mão de um recurso como esse. Claro que o procedimento de coaching coordenado por um profissional é muito mais indicado. No entanto, a prática do auto coaching não dispensa o coaching tradicional e deve funcionar no dia a dia daqueles que não temem mudanças e adaptações à realidade.

O trabalho constante contra o self talk (voz interior), também conhecido como “papagaio de pirata negativo”, uma voz que fica sempre apostando na derrota e no fracasso, é uma das tarefas básicas do auto coaching. A cena, que deve ser extirpada, pode ser facilmente imaginada, a pessoa tem, no ombro, um papagaio que fica com aquela voz estridente sempre dizendo: “Não vai dar certo, não vai dar certo…”.

Para começar esse processo de auto- gerenciamento e, ao menos, necessário definir três pontos:

1. FOCO E OBJETIVO: possuir uma meta clara do que deseja alcançar. Uma prospecção do filtro bem definida do que deseja ter como resultado. O que de fato se pretende: onde quer chegar com isso?

2. SABER QUE A ÚNICA CONSTANTE É A MUDANÇA CONSTANTE: se não está dando certo desse jeito é preciso mudar. Se fatos novos surgirem como empecilho no caminho do sucesso, mudar novamente será necessário e assim será por todo o percurso até a meta desejada.

3. TER CERTEZA DE QUE VALE A PENA: fazer as contas do que se perde e do que se ganha ao alcançar os objetivos pretendidos. Sempre que algo é incorporado, como sucesso, outra coisa é perdida. Pode ser, inclusive, tempo de convívio familiar ou relações de amizades que irão expirar com a mudança de cenário. Dessa forma, é necessário, antes de mais nada, saber se o investimento que pretendemos ter está alinhado com a real motivação. Ou seja, esse objetivo realmente vale a pena? De nada adianta o sacrifício necessário se, ao final, o resultado não ser totalmente satisfatório.

Agora que o objetivo está claro e já existe a consciência do esforço necessário é bom criar um pequeno relatório. Um checklist de tudo que será preciso para que se possa montar um bom esquema de auto coaching:

1. QUAIS SÃO SUAS NECESSIDADES?

Fato que todos temos algo que ainda é necessário ser incorporado às nossas qualidades e talentos. Mas pouco preocupamos em saber o que de fato é uma necessidade e o que é apenas um desejo delirante. Quem não aspira ser um astronauta ou o melhor jogador de xadrez do mundo? Ser capaz de ler um livro por semana ou ainda escrever um romance de sucesso? Pergunte a si mesmo: isso é uma necessidade real ou apenas um dos muitos desejos que não irão somar de fato ao crescimento pessoal?

2. QUAIS SÃO OS SEUS RECURSOS INTERNOS?

É necessário aprender como acessá-los.

Definido o que é uma real necessidade, é hora de traçar um plano para alcançar os recursos internos precisos para isso. O que devemos elencar como ferramenta de auxílio para ajudar na busca pelo nosso objetivo? Lembrando sempre que a técnica surge para nos igualar aos talentosos. Quem não possui uma capacidade afinada pode treinar até desenvolver o talento da mesma forma que alguém, naturalmente, possui.

3. TEM MEDO OU VERGONHA DE PEDIR AJUDA?  Melhor deixar isso de lado nesse processo.

Caso tenha identificado uma pessoa que possua elementos comportamentais ou emocionais que possam ser uteis em sua jornada, não tenha vergonha de perguntar qual o caminho das pedras. O máximo que pode ocorrer é ouvir um não e, como consequência, voltar à posição inicial: ou seja, não perde nada por tentar.

4. ELEVAR A AUTOESTIMA. Não precisa nem saber em que nível está: elevar é sempre bom.

Como psicólogo clínico que atende todos os dias da semana posse afirmar, sem sombra de dúvida, que autoestima nunca é demais – apenas com a cautela de não se tornar arrogante. Uma boa autoestima irá prover saúde, ânimo e uma enorme vontade de se levantar cedo da cama para conquistar o mundo.

5. SE TORNAR RESPONSÁVEL POR TODAS AS SUAS AÇÕES E CONSEQUÊNCIAS.

Sim! Principalmente das vitórias. Por incrível que possa soar, uma pessoa com baixa autoestima irá responsabilizar a sorte (ou azar) pelos seus resultados. Pode culpar todo mundo (inclusive Deus) pelos seus resultados, sejam eles quais forem. Assim, assumindo seu risco pelas escolhas e resultados fica mais fácil achar o culpado para perdoar e o autor da vitória para premiar.

Lembrando apenas que uma lista deve ser criada, na qual as duas primeiras perguntas (acima) precisam estar intrinsecamente ligadas ao processo em si. Ou seja, elas irão fazer parte das perguntas que geram mudanças no auto coaching.

No entanto, é bom sempre assinalar que também é muito importante separar o que é “seu” do que é do “mundo”. Algumas mudanças dependem da própria pessoa, mas nem todas. Não se pode esperar que outros indivíduos tenham atitudes só porque assim alguém deseja. Dentro dos seus projetos de crescimento isso deve estar bem claro para que não existam decepções no futuro.

De fato, nem é necessário possuir um treinamento extensivo para começar a aplicar o auto coaching hoje mesmo. Apenas se dê ao trabalho de ler este texto mais uma vez com um caderninho do lado. Faça suas anotações e comece a trabalhar em si mesmo fazendo do tempo seu aliado, e não inimigo.

JOÃO OLIVEIRA – é doutor em Saúde Pública, psicólogo e diretor de Cursos do Instituto de Psicologia Ser e Crescer (www.isec.psc.br). Entre seus livros estão: Relacionamento em Crise: Perceba Quando os Problemas Começam. Tenha as Soluções/,”Jogos para Gestão de Pessoas: Maratona para o Desenvolvimento Organizacional/ Mente Humana: Entenda Melhor a Psicologia da Vida; e Saiba Quem Está à sua Frente Análise Comportamental pelas Expressões Faciais e Corporais (Wak Editora)

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 09 DE FEVEREIRO

JESUS NÃO DESISTE DE VOCÊ

Mas ide, dizei a seus discípulos e a Pedro que ele vai adiante de vós para a Galileia (Marcos 16.7a).

O apóstolo Pedro é um símbolo do homem inconstante. Como o pêndulo de um relógio, oscilava entre as alturas da fé e as profundezas da covardia. Sempre explosivo, falava sem pensar e agia sem refletir. Era capaz das afirmações mais sublimes acerca de Jesus para depois capitular às fraquezas mais vergonhosas. Num momento expressava uma fé robusta e noutro soçobrava diante da incredulidade. Pedro chegou a ponto de negar seu nome, suas convicções, sua fé e seu Senhor. Ele desceu os degraus da queda ao julgar-se melhor do que seus condiscípulos, ao seguir a Jesus de longe, ao se inserir no meio daqueles que zombavam do Filho de Deus e ao negar repetidamente e até com impropérios que não o conhecia. Pedro chegou a ponto de desistir de tudo. Abriu mão de ser discípulo. A única coisa que sabia fazer era chorar amargamente e alagar o seu leito com grossas lágrimas. Mesmo Pedro tendo desistido de si mesmo, Jesus não desistiu de Pedro. Jesus não abdicou do direito de ter Pedro ao seu lado. Por isso, mandou-lhe um recado pessoal (cf. Marcos 16.7). Jesus não desiste nunca dos seus. Ele é o pastor que procura a ovelha perdida. Ele vai ao encontro daqueles que caíram, para por seu amor restaurá-los.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

POR QUE CHORAMOS DE ALEGRIA?

Para psicólogos, sentimentos “positivos demais” fazem o cérebro ignorar ameaças ambientais e agir impulsivamente. Reações “negativas” teriam o papel de regular nossas expressões emocionais

Você espera ansiosamente pelo resultado de um concurso muito importante. Qual sua reação ao descobrir que foi aprovado? Ri, grita… Chora? Em outra situação, diante de um lindo filhote, talvez você sinta vontade de apertá-lo. Mas lágrimas ou carinhos agressivos não são reações “negativas”? Não. Pelo menos não necessariamente. Segundo pesquisadores, trata-se de recursos utilizados pelo cérebro para controlar emoções excessivas de felicidade.

A psicóloga Oriana Aragon e seus colegas da Universidade Yale avaliaram como 143 adultos reagiam a experiências gratificantes e frustrantes. Apresentaram aos participantes fotos de bebês – alguns mais graciosos, outros menos, de acordo com resultados de uma pesquisa anterior que sugere que as crianças consideradas mais “fofas”, em geral, têm bochechas gordinhas, olhos grandes e nariz pequeno. Em seguida, os cientistas perguntaram aos voluntários como se sentiam em relação aos bebês e como gostariam de interagir com eles.

Como esperado, constataram que as imagens dos mais atraentes tendiam a provocar sentimentos positivos nos observadores. Além disso, vários participantes disseram querer fazer “brincadeiras agressivas” com eles, como apertar as bochechas ou abraçá-los com força.

Alguns minutos depois, o grupo de pesquisa entrevistou os voluntários novamente e constatou que aqueles que afirmaram querer apertar, morder ou beliscar os bebês haviam retornado ao estado emocionalmente “neutro” mais rapidamente que os participantes que não mostraram a vontade de brincar com os pequerruchos dessa maneira.

“Essa é ainda uma primeira evidência de que reações negativas têm o papel de ajudar a regular emoções excessivamente positivas”, diz Aragon. A psicóloga e seus colegas consideram que isso ocorre porque sentimentos “positivos demais” podem interferir em processos de tomada de decisão, fazendo o cérebro ignorar ameaças ambientais e agir impulsivamente. Tanto a vontade de apertar filhotes adoráveis quanto as lágrimas de alegria seriam, portanto, maneiras sutis de nossa mente nos lembrar que, por maior que sejam as alegrias, vale a pena ficarmos atentos, pois o êxtase vai passar. E é preciso nos protegermos.

OUTROS OLHARES

EM BUSCA DA VIDA ETERNA

A medicina vive uma fascinante revolução: a ampliação e o aperfeiçoamento dos recursos tecnológicos e científicos (além de bilhões de dólares) para estender a vida com qualidade

Viver, viver cada vez mais e melhor, preferencialmente para sempre, é uma das buscas eternas do ser humano. É procura que, desde os primórdios do conhecimento traduzido em palavras, alimentou pensadores escritores e poetas. Houve o rei sumério Gilgamesh, cuja epopeia, registrada em tabuletas, nos idos de 2000 a.C. narrava a descoberta de uma planta que concedia imortalidade a quem a ingerisse. Houve Titono, melancólico personagem da mitologia grega que pediu a Zeus a eternidade, mas se esqueceu de encomendar também a mocidade permanente. No século XVI, o conquistador espanhol Juan Ponce de León navegou pelos novos mundos em sucessivas expedições ao encontro da fonte da juventude. O Dorian Gray de Oscar Wilde, em 1890, vendeu sua alma para não envelhecer. E assim seguimos, numa ambição desenfreada, incansável, longuíssima, que Carlos Drummond de Andrade resumiu com bonita ironia em1954: “E como ficou chato ser moderno. Agora serei eterno. Eterno! Eterno! O Padre Eterno, a vida eterna o fogo eterno”.

O que as belas letras criaram, porque a imaginação é infinita começa agora enfim, a pousar no mundo real das pesquisas de ponta e das realizações científicas. Não existe movimento mais interessante na medicina, hoje do que os avanços no campo da imortalidade, e não há nessa afirmação nenhum exagero (ainda que estejamos longe, muito longe, da vitória final). Apenas no ano passado, Apple Amazon, Google, Microsoft e Facebook aplicaram grande parte de seu faturamento nos Estados Unidos – algo em torno de 150 bilhões de dólares, o equivalente a 600 bilhões de reais – no chamado mercado da longevidade. O Google fundou a Calico, acrônimo em inglês para California Life Company, cujo objetivo, atrelado a frondoso 1 bilhão de dólares de investimento, informa o site da empresa, é nítido: “Além da genética, nós nos preocupamos com as características do envelhecimento, a energia celular, as respostas do organismo ao stress. Nossas principais áreas terapêuticas incluem a cardiologia, a oncologia, a neuro degeneração e a inflamação crônica, porque a incidência dessas condições aumenta acentuadamente na velhice e está associada a alta mortalidade”.

Nas palavras do professor israelense Yuval Noah Harari, autor do best-seller Sapiens: uma Breve História da Humanidade, “a morte já é opcional” embora essa condição possa estabelecer um novo tipo de desigualdade, e haverá quem não tenha onde cair morto: o fosso entre os que poderão pagar pela eternidade e os que padecerão sem acesso aos tratamentos inovadores. O gerontologista britânico Aubrey de Grey é autor de uma celebrada provocação: “O ser humano que terá 1.000 anos já nasceu, está vivíssimo entre nós)”. Segundo ele, daqui para a frente “nosso corpo será tratado pela medicina como a engenharia lida com uma máquina – quebrou, conserta-se”. Harari e De Grey bebem da fonte de um guru desses novos tempos, embora a expressão “guru” tenha caído na vala das platitudes: o americano Raymond Kurzweil, diretor de engenharia do Google, conselheiro de Bill Gates, que se intitula inventor e futurista. Ele é o criador de um conceito com a força das grandes ideias a “singularidade”, segundo a qual em 2029, logo ali na esquina, a humanidade terá os recursos de inteligência artificial necessários para que máquinas alcancem a inteligência humana, inclusive a inteligência emocional”.

Kurzweil acredita que será possível implantar no cérebro um computador do tamanho de uma ervilha para substituir neurônios destruídos pelo Parkinson. E então, depois disso, para que morrer? Há quem enxergue, no futuro desenhado por Kurzweil, um amontoado de estultices, utopias que jamais verão a luz do dia – não é o caso do time de executivos bilionários do Vale do Silício, para quem o santo graal é a vida eterna, concreta e objetivamente.

Para além das inventivas fronteiras californianas, o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) fundou o Laboratório de Envelhecimento, conhecido como AgeLab e dedicado à elaboração de tecnologias para prolongar a existência. Um dos projetos a todo o vapor hoje por lá é fazer com que jovens fortes e vigorosos sintam no próprio corpo as mudanças fisiológicas deflagradas a partir dos 70 anos. Óculos turvos dão a sensação de amarelecimento da visão que acompanha a idade. Um cinto amarrado ao pescoço imita a mobilidade reduzida da coluna cervical. Um conjunto de faixas ao redor dos cotovelos, pulsos e joelhos simula rigidez. Luvas especiais afetam a acuidade tátil. Sapatos de plástico com solado irregular desequilibram o caminhar. A ideia é antecipar soluções que auxiliem organismos ainda jovens na prevenção de problemas futuros. Diz Joseph Coughlin, pai do AgeLab: “Na virada do século XX para o XXI criamos o maior presente da civilização – trinta anos extras de vida -, e não sabemos como lidar com isso. Agora que estamos vivendo mais, como planejaremos o que vamos fazer?”.

A extensão da vida é uma possibilidade real – e já vem acontecendo. Na ponta do lápis, um brasileiro nascido em 1919, um século atrás, portanto, viveria até 34 anos, em média. Quem nasce hoje, salvo as más surpresas que a vida apronta, pode chegar tranquilamente aos 76 anos. E há um ineditismo: pela primeira vez existe mais gente no planeta com mais de 65 anos do que com menos de 5. Vive-se mais em decorrência da melhora no saneamento básico, do desenvolvimento de remédios puxados pela penicilina, das vacinas e do cuidado na alimentação, bem como em razão da prática de atividades físicas.

Tudo isso é mais do que sabido. O que se pretende, neste instante – e eis uma espetacular primazia -, é dar uma esticadinha e, quem sabe, evitar o inevitável desfecho. Em uma reportagem de 2017 da revista The New Yorker, considerada um manifesto que abriu alas e deu nome aos bois dessa novíssima onda científica, o jornalista Tad Friend dividiu o grupo de titãs que investem na imortalidade em duas grandes famílias: os healthspanners, que sonham com o prolongamento da vida saudável, mas somente se ela for realmente saudável; e os immortalists, para os quais sempre existirá um dia seguinte, interminavelmente. Os healthspanners são majoritários, âncoras de um olhar inédito na história da medicina, que pode realmente revolucioná-la: é possível atacar algumas doenças intervindo no processo natural de envelhecimento – em outras palavras, tratando o envelhecimento em si, de maneira a retardar o surgimento dos males e, insista-se, colando qualidade de vida onde antes havia decrepitude. É esse o espaço de atividades mais produtivo.

Há quem pense de forma mais ambiciosa e cujo objetivo seja nada menos que a perenidade – custe o que custar. Diz Arram Sabeti, fundador de uma companhia de tecnologia especializada em alimentação, a ZeroCater: “A proposição de que podemos viver para sempre é óbvia, e não viola as leis da física. É natural que cheguemos lá”. Há algum exagero nesse raciocínio, porque natural mesmo é querer tempo suplementar, segurar o relógio até onde der. Duas áreas hoje se destacam no prolongamento da vida dos seres humanos: a dos cuidados com o coração (60% dos problemas cardíacos surgem em pessoas acima dos 56 anos) e a da atenção ao câncer e a íntima ligação com o sistema imunológico (70% dos incidentes oncológicos despontam depois dos 60 anos). Há zelo especial também com o cérebro e a fase terminal em UTIs.

” os próximos dez anos dentro do atual ritmo dos avanços a medicina será capaz de curar 90% dos cânceres em fase inicial 50% dos que estão em estágio avançado”, diz Fernando Maluf, diretor do Centro de Oncologia da Beneficência Portuguesa e membro do comitê gestor do Hospital Albert Einstein. Deu-se, há duas semanas, no Brasil, um extraordinário passo nessa direção. O mineiro Vamberto Luiz de Castro, de 62 anos, foi o primeiro paciente no país a receber um tratamento totalmente individualizado contra o câncer – um linfoma não Hodgkin de alto risco. Castro já havia sido submetido a quatro terapias diferentes, e nenhuma funcionara. Agora por meio de um método conhecido como CAR-T, que associa imunoterapia a engenharia genética, ele renasceu. Cerca de vinte dias depois do início do acompanhamento, feito no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto com dinheiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapcsp) a doença regrediu a patamares ínfimos. É o futuro, vivido hoje.

Episódios bem-sucedidos como esse tendem a ser comuns. Brotam aqui e ali em toada de permanente progresso. As apostas seguintes já podem ser levadas à mesa. Haverá celebração nos próximos meses em tomo de dois terrenos de exploração:

A RAPAMICINA um imunodepressor usado contra o processo de rejeição a órgãos transplantados e que se mostrou eficiente no bloqueio de uma enzima que acelera a divisão celular atalho para o envelhecimento; em camundongo. A substância aumentou a expectativa de vida em até 38%. A medicação começou a ser testada em seres humanos.

A METFORMINA, remédio prescrito tradicionalmente para o diabetes, que serve também como corretor de DNA defeituoso; um time de pesquisadores da Faculdade de Saúde Pública da SP descobriu recentemente uma relação entre o uso da droga e a redução nos casos de câncer do pescoço e cabeça.

Como tudo é questão de tempo, e não se deve perder o fio da meada (o que se investiga é o infindável ou um modo de fazer a travessia com dignidade), quanto antes os problemas forem detectados, melhor. O nome do jogo é monitoramento, com dedicada participação do doente e recursos de medicina remota. “A interação entre as duas áreas é de tal importância que fez surgir um novo campo da ciência para melhorar a longevidade dos pacientes: a cardio-oncologia”, afirma Ludmila Abrahão Najjar, professora de cardiologia do Instituto do Coração da Faculdade de Medicina da USP e coordenadora nacional de cardio-oncologia da Rede Américas.   No modelo nem tão antigo assim, os dados de todo doente eram coletados apenas em consultas e ficavam armazenados em imensos computadores. A atualização era feita a mão, na visita seguinte. Hoje, as informações estão disponíveis no smartphone ou em relógios inteligentes, meio caminho andado para a prevenção. A Dasa, a maior rede de medicina diagnóstica da América Latina e a quinta maior do mundo, inaugurou uma tecnologia que pretende integrar o cuidado com o enfermo por todos os lados. Imagine uma pessoa indo ao laboratório para fazer um ultrassom do fígado. O diagnóstico diz que ela tem gordura no órgão. Os dados são transferidos tanto para o médico quanto para o paciente. A partir de então, um programa de inteligência artificial, que já tinha informações prévias do doente, como peso, idade e hábito de vida, além dos vícios, cruza todas as informações científicas possíveis sobre a doença em si e as relaciona com o doente. Ele prevê, dentro do quadro analisado o futuro da gordura do fígado: vai se transformar em fibrose, cirrose, câncer ou simplesmente não vai evoluir?’ Estamos vivendo a maior transformação comportamental da história da medicina” diz Ben-Hur Ferraz Neto, cirurgião do aparelho digestivo e especialista em uso de inovações na saúde. “Ferramentas de monitoramento a distância com alerta imediato aos médicos deverão ser os métodos ideais para o diagnóstico precoce e o tratamento eficiente das principais doenças”, afirma Roberto Kalil Filho professor titular de cardiologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e diretor de cardiologia do Hospital Sírio-Libanês.

Não há dúvida de que a ciência vem possibilitando a extensão da vida humana. Mas, curiosamente, a fé também ajuda. Existem trabalho que escrutam, minuciosamente o peso da prática da religião e da espiritualidade na longevidade. A Universidade Estadual de Ohio, nos Estados Unidos mostrou recentemente que frequentadores de ritos religiosos que estimulam sentimentos como gratidão e atividades como oração ou meditação (independentemente do credo) tiveram a vida prolongada em quase uma década. A tese foi comprovada em dois estudos que avaliaram 1.600 obituários. Foram isolados todos os outros fatores de risco. Em breve, serão feitos estudos com devotos em vida.

Essa reviravolta – os investimentos dos gigante do Vale do Silício a fervura dos laboratórios e a saúde na palma da mão, além de uma boa dose de espiritualidade – compõe pílula de renovada esperança em busca da vida eterna por aqui mesmo. Na Terra.

AS NOVIDADES – CORAÇÃO

ÓRGÃO EM 3D – O músculo cardíaco será desenvolvido por meio de impressora tridimensional. Criado por cientistas da Universidade de Tel-Aviv, o dispositivo carregará o material genético do paciente e substituirá os transplantes. O protótipo pioneiro foi apresentado há apenas seis meses (foto acima). O modelo, pouco maior que a ponta do polegar, tem o tamanho de um coração de coelho. Outras versões já foram fabricadas – mas a israelense é a primeira a ser confeccionada com todos os vasos sanguíneos, ventrículos e câmaras, usando uma tinta feita a partir de substâncias biológicas naturais. O desafio agora é criar um órgão compatível com o tamanho do corpo humano.

PARA QUANDO – Dentro de dez anos

AS NOVIDADES – SISTEMA IMUNOLÓGICO

CONTRA O CÂNCER – Na oncologia, as células de defesa do corpo combaterão os mais diversos cânceres, de forma totalmente individualizada. Nos próximos dez anos, a medicina será capaz de curar 90% dos tumores em fase inicial e 50% daqueles em estágio avançado.

NA INFECTOLOGIA – Um remédio desenvolvido para pessoas acima dos 65 anos (o RTB101), da empresa americana de biotecnologia resTORbio, estimula o corpo para que ele não sofra com doenças infecciosas, como gripe e pneumonia. que levam 1 milhão de idosos aos hospitais a cada ano, apenas no Brasil.

PARA QUANDO – Contra o câncer: em dez anos

                                – Contra infecções: em dois anos

AS NOVIDADES – TERAPIA INTENSIVA

CANÇÕES DE NINAR – A incidência de morte nas UTls hoje é de 20%. O objetivo é que não passe de 5%. Para isso, a indústria investe em duas frentes. Uma delas pretende evitar ao máximo o stress do paciente! que dificulta o tratamento. O Hospital de Genebra, na Suíça, está testando um modo de monitorar a reação cerebral de bebês com a estimulação por meio de música.

DETECTOR DE BACTÉRIAS – O Instituto de Tecnologia Guwahati, na Índia, aposta em um dispositivo eletrônico capaz de diagnosticar o tipo exato de bactéria instantaneamente. O feito evitará a principal causa de morte nesta área do hospital, a sepse -infecção generalizada.

PARA QUANDO – Música: em dois anos

                                – Detector de bactérias: em cinco anos

AS NOVIDADES – CÉREBRO

DERRAME – Uma em cada cinco pessoas acima dos 65 anos é acometida da doença. A Cleveland Clinic, em Ohio, está desenvolvendo uma técnica que usa estímulos cerebrais para eliminar suas sequelas. No primeiro teste. uma mulher teve os movimentos de um dos braços recuperados.

ALZHEIMER – A Universidade de Tübingen, na Alemanha, investe em um teste que detecta a doença dezesseis anos antes de os sintomas aparecerem. Ele rastreia o nível da proteína NfL, que compõe a estrutura interna das células nervosas. A presença da NfL em alta quantidade é indício de que os danos ao cérebro associados ao Alzheimer já começaram.

PARA QUANDO – Derrame e Alzheimer: em dez anos

GESTÃO E CARREIRA

FEEDBACK EFICIENTE

Além de saber guiar os colaboradores com seu exemplo e coerência, é importante para um líder ter a capacidade comunicativa para extrair da equipe respostas comportamentais eficientes

Assuntos relacionados à liderança são os mais difundidos no contexto empresarial, pois, cada vez mais, os profissionais compreendem que saber coordenar as pessoas, conhecer os mecanismos pelos quais os seres humanos pensam, decidem e agem são atitudes essenciais para conseguir atingir os resultados esperados. Além disso, é fundamental criar um clima organizacional de satisfação.

Uma das ações mais frequentes no cotidiano do líder é o feedback, o qual tem duas finalidades essenciais: modificar um comportamento quando ele não é eficaz; e fortalecer as atitudes produtivas.

Contudo, antes de apresentar essa avaliação, é imprescindível pensar na forma com a qual será realizada. Infelizmente, é comum observarmos gestores que analisam de forma equivocada. Quando isso acontece, algo que deveria ser positivo chega como uma crítica ou, até mesmo, como um julgamento. Nesses casos, a reação natural da pessoa é se defender ou se fechar, resultando assim na criação de conflitos, culpas e desgastes nas relações.

Para melhor exemplificar quais são os impactos dentro das organizações, Andrew Miner e outros professores da Universidade de Minnesota realizaram um estudo que aponta que os colaboradores reagiam seis vezes mais intensamente a uma interação negativa com os seus chefes, na comparação com os retornos positivos. Por conta disso, orientaram os líderes a serem mais atentos e cautelosos com as críticas e a aprenderem a usar a estratégia comunicativa das avaliações de forma adequada, para que sejam produtivos.

Em contrapartida, ao se apresentar um feedback com a finalidade de criar um relacionamento cooperativo e inteligente entre os líderes e os colaboradores, com certeza haverá qualidade nas relações interpessoais, e a equipe, respeitada, será encorajada a melhorar o engajamento e os resultados.

É importante focar em quatro pontos fundamentais para a preparação de um feedback eficiente: o contexto, o conteúdo, a forma de se comunicar e também estar aberto para ser avaliado.

O CONTEXTO: é essencial saber quais são os motivos pelos quais o funcionário será avaliado, ter clara a intenção e perceber se o feedback realmente será útil. Assim, antes de ter essa conversa, reflita se ela irá estimular o sentimento de auto eficácia no outro. Procure ter uma reunião individual e em um ambiente adequado.

O CONTEÚDO: lembre-se que não se trata de uma queixa nem deve ser abordado somente o lado negativo do profissional, muito menos a opinião pessoal sobre o outro. Dessa forma, o único resultado será a desmotivação. A finalidade dessa conversa é ajudar a identificar os pontos fortes e o que precisa ser melhorado.

A FORMA DE SE COMUNICAR: comece o diálogo informando o que funcionou, as qualidades da pessoa, evidencie ainda a dedicação. Em seguida, relate o comportamento que não foi bem-sucedido, em quais aspectos é preciso melhorar e aponte um caminho para novas atitudes. Para finalizar, reforce novamente os pontos positivos e demonstre a confiança nos resultados.

Durante o feedback é preciso reconhecer o valor do colaborador. Fale sobre a sua criatividade, a perseverança, qualquer qualidade que ele tenha e que seja de extrema importância no dia a dia da empresa. Quando for falar sobre as falhas, não use expressões como “você é desorganizado”. Diga “você está com uma atitude desorganizada”.

Ao usar essa frase, em uma reunião com tom positivo, a finalidade sempre será de aprimorar ou de reorientar a pessoa. Essa é uma ocasião para melhorar a maneira de agir, para influenciar o nível de motivação e energia dos envolvidos.

ESTAR ABERTO A RECEBER TAMBÉM UMA AVALIAÇÃO DO OUTRO: dessa forma, o chefe pode aprender uma lição preciosa – a corrida para conquistar o sucesso e a afirmação da liderança é cada vez menos uma atitude individual. Assim, é cada vez mais um mosaico composto com sucesso apenas pela extraordinária contribuição de todos.

É importante ressaltar que o colaborador também tem um papel fundamental para a eficácia do feedback. Cabe ao gestor deixar claros os seus apontamentos, em busca de contribuir com o crescimento profissional e pessoal dos membros da equipe e o da empresa. E cabe ao colaborador estar aberto ao feedback, a evoluir, a reconhecer os pontos fracos e a investir ainda mais nos pontos fortes. Com os dois lados realmente envolvidos e atentos ao diálogo, o feedback é sempre produtivo.

A sabedoria do líder em dar feedbacks permite que seja fortalecida a relação com o colaborador, transmite conhecimento, ideias e sugestões para o seu desenvolvimento. É um compartilhamento do saber, um instrumento essencial para a troca de informações que auxiliam no desempenho e no crescimento do profissional em direção ao seu sucesso e da organização como um todo.

EDUARDO SHINYASHIKI – é mestre em Neuropsicologia, liderança educadora e especialista em desenvolvimento das competências de liderança organizacional e pessoal. Com mais de 30 anos de experiência no Brasil e na Europa, é referência em ampliar o crescimento e a auto liderança das pessoas.

www.edushin.com.br

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 08 DE FEVEREIRO

A MAIOR TRAGÉDIA DA HISTÓRIA

Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte… (Romanos 5.12a).

De todas as tragédias da história, a queda dos nossos primeiros pais foi a mais desastrosa. Seus efeitos foram devastadores para a humanidade e para toda a criação. O homem perdeu a inocência, a liberdade e a paz. O pecado rompeu o seu relacionamento com Deus, com o próximo, consigo mesmo e até mesmo com a natureza. Por sua livre vontade, o homem se afastou do Criador, dando ouvidos à voz do tentador. Com a queda dos nossos primeiros pais, tornamo-nos escravos do pecado. Agora nossa inclinação é contrária à vontade Deus. Os impulsos da nossa carne são inimizade contra Deus. O pecado atingiu todas as áreas da nossa vida. Não há parte sã em nossa carne nem há área da nossa vida que não tenha sido maculada pelo pecado. Na gênese da história humana, o homem vivia na plenitude da comunhão com o Senhor. Com a queda, porém, veio o afastamento e a perda da comunhão. Agora, em vez de deleitar-se em Deus, o homem foge de Deus. Em vez de ter prazer na santidade, refestela-se no lodo sujo do pecado. Em vez de alegrar-se no Senhor, cede ao apelo do tentador. Em vez de viver no Espírito, torna-se escravo da carne, do mundo e do diabo. Essa tragédia foi revertida com a vinda de Cristo ao mundo para buscar e salvar o perdido e nos trazer redenção. Nele temos perdão e vida eterna.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SEU TRABALHO DEIXA VOCÊ DOENTE?

Caracterizada pelo esgotamento mental e físico associado à atividade profissional, a síndrome começa com o desejo de fazer um trabalho perfeito, mas gradativamente surgem sintomas de inadequação, ansiedade, irritabilidade, mudanças de comportamento, depressão e, nos casos mais graves, pensamentos suicidas. Ajuda psicológica é fundamental para reverter esse quadro

As formas de trabalho têm se transformado de maneira rápida e, muitas vezes, os resultados dessa relação são adoecedores. Por mais que a pessoa goste de sua profissão, é inegável: em muitos casos, a dedicação excessiva, a sensação de não ser suficientemente reconhecida, as dinâmicas hierárquicas e até mesmo o desemprego podem causar graves problemas de saúde – não só mentais, mas também físicos. Dados da International Stress Management Association – Isma – Brasil revelam que mais da metade dos brasileiros economicamente ativos sofrem com a sobrecarga profissional e com os excessos que a cercam. No dia a dia é necessário cumprir prazos restritos e demandas cada vez mais complexas, acompanhar mudanças tecnológicas, enfrentar avaliações de rendimento e ainda manter um relacionamento razoável com clientes, chefes e colegas. Isso sem falar da preocupação em se manter trabalhando.

Resultado: em situações extremas, a pessoa pode desenvolver a síndrome do esgotamento profissional, também chamada burnout (do inglês burn out, queimar, consumir, esgotar). Isso ocorre porque o estresse crônico tende a desencadear desequilíbrios do sistema imunológico e distúrbios psicológicos.

NEM LUTA NEM FUGA

Para um grande número de pessoas a pressão se transforma em doença grave porque as situações vividas no trabalho são compreendidas como emocionalmente perigosas. O sistema cerebral de resposta ao estresse é ativado em ocasiões que representem ameaças – e as adversidades muitas vezes são interpretadas como riscos. Se o equilíbrio interno, chama- do de homeostase, é ameaçado, várias respostas imunológicas e comportamentais são acionadas para neutralizar forças perturbadoras e restabelecer o bem-estar. As reações adaptativas, porém, podem se transformar em fatores opressivos, causando alterações fisiológicas e psíquicas em situações de ameaça ou que exijam melhor desempenho.

O cérebro e o sistema imunológico enviam sinais um ao outro continuamente, em geral pelos mesmos “caminhos”, o que pode explicar como o estado mental influencia a saúde. Substâncias químicas produzidas pelas células de resposta imunológica encaminham mensagens para o cérebro, que, por sua vez, manda sinais químicos ao sistema imune. Essa comunicação afeta o comportamento e as respostas ao estresse. Interrupções nessa rede exacerbam as possibilidades de desenvolvermos distúrbios dos quais o sistema imunológico nos protege: infecções, inflamações e doenças autoimunes associadas a transtornos de humor e a fatores ambientais (como sobrecarga constante de trabalho).

Nas situações que demandam muito empenho, em que a conduta profissional pode ser decisiva, a resposta cerebral entra em ação para aguçar a atenção e nossa predisposição para “lutar ou fugir”. Ao longo da evolução humana, o homem primitivo precisava se haver com as feras para sobreviver. Hoje, grande parte dos embates ocorre mesmo é nos meios profissionais – as “feras” que enfrentamos ou das quais nos escondemos estão em nosso cotidiano. E, nesse sentido, o estresse pode ser benéfico: nos ajuda a ficar em estado de alerta para entrar na “briga”.

Se a situação de tensão é constante, porém, o organismo sofre com o excesso – e surgem as doenças. Especialistas sabem que o estresse prolongado é capaz até mesmo de levar à morte, mas as maneiras como pode se dar esse processo – e principalmente as formas de evitá-lo – ainda os intrigam. Os pesquisadores Andrew Stepto e Lena Brydon, da Universidade de Londres, acompanharam 199 homens e mulheres saudáveis de meia-idade e constataram que, de fato, o estresse causa aumento da taxa de colesterol e prejudica a capacidade de o organismo combater marcadores inflamatórios. Ou seja, pessoas muito estressadas se tornam organicamente mais frágeis.

RECONHECER O RISCO AJUDA NA PREVENÇÃO

O estresse diário se acumula e enreda a pessoa em um círculo vicioso difícil de romper. A síndrome do esgotamento profissional, ou burnout, desenvolve-se devagar, dividido por alguns pesquisadores em 12 estágios, que podem se suceder, alternar-se ou ocorrer ao mesmo tempo, até que o quadro de fato se instale:

1. NECESSIDADE DE AFIRMAÇÃO

Desejo de fazer tudo de forma perfeita, medo excessivo de errar ou ambição exagerada na profissão levam à compulsão por desempenho.

2. DEDICAÇÃO INTENSIFICADA

Para fazer jus às expectativas desmedidas, a pessoa intensifica a dedicação e passa a fazer tudo sozinha.

3. DESCASO COM AS PRÓPRIAS NECESSIDADES

Vida profissional ocupa quase todo o tempo. A renúncia ao lazer e ao descanso é vista como ato de heroísmo.

4. EVITAÇÃO DE CONFLITOS

Pessoa percebe algo errado, mas não enfrenta a situação temendo deflagrar uma crise. Surgem os primeiros problemas físicos.

5. REINTERPRETAÇÃO DOS VALORES

Isolamento e negação das próprias necessidades modificam a percepção. Amigos e passatempos são desvalorizados. Autoestima é medida pelo trabalho.

6. NEGAÇÃO DE PROBLEMAS

Profissional torna-se intolerante, julga os outros incapazes, exigentes demais ou indisciplinados.

7. RECOLHIMENTO

A pessoa se afasta dos outros, parece irritada e sem ânimo. No trabalho, limita-se ao estritamente necessário. Muitos recorrem ao abuso de álcool ou às drogas.

8. MUDANÇAS EVIDENTES DE COMPORTAMENTO

Quem era tão dedicado e ativo revela-se amedrontado, tímido e apático. Atribui a culpa ao mundo, mas sente-se cada vez mais inútil.

9. DESPERSONALIZAÇÃO

Desvaloriza a todos e a si próprio, relega necessidades pessoais. Deixa de fazer planos, só pensa no presente e a vida limita-se ao funcionamento mecânico.

10. VAZIO INTERIOR

Sensação de vazio interno é cada vez mais forte. Excede-se na vida sexual, na alimentação e no consumo de drogas e álcool.

11. DEPRESSÃO

Indiferença, desesperança e exaustão. Sintomas dos estados depressivos podem se manifestar, desde a agitação até a apatia. A vida perde o sentido.

12. SÍNDROME DO ESGOTAMENTO PROFISSIONAL

Total colapso físico e psíquico. Nesta fase a pessoa fica extremamente vulnerável e, não raro, surgem pensamentos suicidas.

OUTROS OLHARES

PÂNICO GLOBAL

Surto de nova doença respiratória causada pelo coronavírus 2019-nCoV começa na China, se alastra pelo mundo, coloca autoridades sanitárias de prontidão, inclusive no Brasil, e causa forte impacto econômico e social

A expectativa do surgimento de uma pandemia causada por um vírus poderoso e incontrolável circula em algumas mentes apocalípticas. E, infelizmente, não se trata de preocupação infundada. Mais uma vez surge uma ameaça microscópica capaz de atingir milhões de pessoas e causar mortes em massa.

O surto do novo coronavírus, chamado de 2019-nCoV, que começou num mercado de carnes na cidade de Wuhan, na China, vem causando pânico global, derrubado bolsas de valores em todo o mundo e provocado perdas econômicas expressivas. A curva da epidemia é ascendente e, até quarta-feira 06, 28.060 pessoas haviam sido infectadas e 563 morreram. A doença foi detectada em pelo menos 20 países e se espalha rapidamente. No Brasil, segundo o Ministério da Saúde, há nove pessoas suspeitas de terem contraído o vírus. Embora se perceba uma reação rápida e vigorosa das autoridades sanitárias de todos os países, coordenada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), o problema é seríssimo e exige reforço das barreiras de controle e aumento da vigilância do transporte internacional de passageiros para evitar que o 2019-nCoV se alastre. Idosos, crianças, gestantes, pessoas com males crônicos como diabetes ou alguma cardiopatia, são especialmente vulneráveis e correm mais risco de serem atingidas de forma severa pela doença.

A epidemia de coronavírus, que foi comunicada pelo governo chinês à OMS no primeiro dia do ano, pode durar vários meses e sua evolução ainda é imprevisível. Alguns desses vírus que atacam o sistema respiratório são sazonais e, numa perspectiva otimista, pode estar ocorrendo um pico de contágio para depois haver uma pausa, talvez na mudança de estação, o que ainda está distante. Além disso, há certamente muito mais pessoas infectadas do que revelam os números oficiais, principalmente na China, já que os sintomas do contágio pelo coronavírus são comuns a muitas outras moléstias e podem demorar até duas semanas para aparecer. Mais de 100 mil pessoas no mundo estão sob observação neste momento. Para completar, já foi confirmada a transmissão da doença entre humanos, tanto na Ásia como na Europa, e também se comprovou que indivíduos infectados assintomáticos oferecem risco de contágio, o que torna o 2019-nCoV extremamente perigoso.

A OMS, que a princípio classificou o risco do coronavírus como “moderado”, mudou a classificação durante a semana para “alto” e, no território chinês, para “muito alto”. Em uma reunião na quinta-feira 30, a OMS declarou situação de emergência global por causa da doença. O diretor-executivo da organização, Mike Ryan, disse que a decisão foi tomada por causa das “evidências de aumento de casos de transmissão entre humanos fora da China”. “A evolução do surto preocupa e levou os países a agir”, afirmou. ”Agora, o mundo inteiro precisa estar em alerta, preparado para adotar ações de contenção. O momento é crucial. A transmissão ainda pode ser interrompida, mas precisamos nos comprometer a fazer isso”. Segundo Ryan, 20% dos casos notificados até agora são classificados como “severos”. É a sexta vez que a OMS declara emergência global. A última foi em 2016, na epidemia do vírus zika.

O medo da doença já pode ser sentido no Brasil, onde o Ministério da Saúde declarou situação de “perigo iminente”. Embora nenhuma caso ainda tenha sido confirmado no País, já se veem pessoas com máscaras circulando pelo transporte público de grandes cidades e as autoridades sanitárias estão mobilizadas. O Ministério informou, quarta-feira 29, sobre os nove casos suspeitos de infecção que estão sendo investigados em seis estados: São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina e Ceará. Três possíveis doentes estão em São Paulo. Os hospitais locais se preparam para um surto de coronavírus. “Houve 33 notificações, mas os nove casos que se enquadraram na definição de suspeitos são de pessoas que viajaram para a China. Nenhum foi de pessoa que teve contato com outro suspeito”, disse o diretor do departamento de Imunização e Doenças Transmissíveis, Júlio Croda, referindo-se à transmissão entre humanos. “Estamos em emergência de saúde pública e não podemos perder a oportunidade de intervenção. A notificação (de suspeita) deve ser imediata e pode ser feita por diversos meios de comunicação”. Croda chamou atenção para o fato dos sintomas dos coronavírus serem confundidos com os de outras doenças, o que dificulta sua identificação. Os principais sintomas do 2019-nCoV, também chamado de “gripe de Wuhan”, são febre alta, dores no corpo, tosse e falta de ar. Nos casos mais leves ela se assemelha a um resfriado, mas, nos mais graves, a doença leva à pneumonia e à insuficiência respiratória aguda, causando óbito. Os pacientes suspeitos de terem contraído a infecção passarão por testes genômicos para identificação do coronavírus. Num primeiro momento, eles terão duas amostras de material genético enviadas para os Laboratórios Centrais de Saúde Pública (Lacen). Em seguida, caberá à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) validar o diagnóstico com testes específicos.

VELOCIDADE DE CONTÁGIO

O mais preocupante até agora é a velocidade de contágio do novo coronavírus. De um dia para o outro, têm surgido entre 500 e 1000 novos casos e o número de mortes gira em torno de dez por dia. Os mais de 7700 casos de contágio pelo 2019-nCoV, em menos de um mês, já se aproximam dos 8096 registrados, em 2002, na epidemia da Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS), também causada por um coronavírus, e superam com folga os 2494 do surto de Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS), ocorrido em 2012. Em contrapartida à velocidade de propagação, a “gripe de Wuhan” revela uma letalidade mais baixa que outras epidemias. Com 170 óbitos, sua taxa de mortalidade vem ficando um pouco acima de 2%. Com a SARS, essa taxa chegou a 9,6% e na MERS, a 34,4%, segundo a OMS.

De um modo geral, se considera que o 2019-nCov é menos letal, mas mais contagioso que seus antecessores, embora seu longo período de incubação ainda não permita conclusões definitivas. Ele é muito mais para perigoso que o H1N1, chamado de gripe suína. “Já se trata de uma pandemia, tendo em vista que atravessou o país de origem, atingiu outros continentes e há transmissão entre humanos”, afirma o médico infectologista Caio Rosenthal. “Ao que tudo indica, pela velocidade de transmissão, é um vírus extremamente contagioso. Por ser novo, ele pega o sistema imunológico desprevenido e não há tempo para produção de anticorpos”. Por outro lado, Rosenthal vê uma vantagem na competição com o coronavírus, que foi seu rápido mapeamento genético. Seu genoma já está totalmente reconhecido pelo cientistas chineses e isso deve facilitar bastante o desenvolvimento de uma vacina. Ele acredita que dentro de dois ou três meses essa vacina começará a ser produzida.

Para a professora da Unifesp e consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), Nancy Belley, o fato do período de incubação ser longo e pacientes assintomáticos poderem transmitir a doença dificulta a contenção da epidemia. Além disso, houve uma demora de pelo menos duas semanas para que o governo chinês começasse a estabelecer restrições de mobilidade para as pessoas da região mais atingida. O prefeito de Wuhan, que pediu demissão do cargo, chegou a admitir que as autoridades de saúde foram muito lentas na transmissão de informações. “Fica difícil identificar rapidamente e isolar as pessoas doentes e monitorar as outras pessoas com quem elas tiveram contato”, afirma. “O último surto mortal de coronavírus a atingir a China, o do SARS, era contagioso apenas a partir do momento em que os sintomas apareciam”. Ela chama atenção para a possibilidade de vários casos de óbito envolverem pacientes que já sofriam de uma doença prévia, como problemas cardíacos e pulmonares. É o que se chama de comorbidade. Nesses casos, há um risco maior de uma morte súbita. “Se o coronavírus atinge uma população mais vulnerável, as taxas de mortalidade tendem a crescer”, diz Nancy, que também acredita no desenvolvimento relativamente rápido de uma vacina.

A ORIGEM DE TUDO

Wuhan, capital da província de Hubei, epicentro da nova epidemia, tem 11 milhões de habitantes e é uma cidade cosmopolita, que recebe milhares de cidadãos de outros países para trabalhar em sua pujante indústria. As autoridades chinesas dão como certo que o surgimento da doença aconteceu num mercado local onde se vende carne de centenas de animais, muitos deles selvagens. A hipótese mais plausível é que o vírus mutante tenha vindo de morcegos, como no caso da SARS, mas também se considera a possibilidade dele ser originário de cobras. A transmissão para o ser humano pode ter acontecido pela alimentação ou pelo manuseio do animal e o contato com suas secreções. Os agentes de vigilância sanitária da China fizeram uma inspeção e testaram cerca de 500 espécies disponíveis no mercado, de insetos a mamíferos. Em 30 delas, o vírus foi encontrado. Cerca de 80% do material genético do 2019-nCoV é idêntico ao do coronavírus da SARS. Segundo Leonardo Weissmann, infectologista do hospital Emilio Ribas, em São Paulo, não é novidade que os novos vírus que surgem e ataquem seres humanos venham de mamíferos, répteis e aves. O HIV, por exemplo, veio de macacos e o vírus da gripe espanhola, o Influenza, um verdadeiro carrasco da humanidade que matou 20 milhões de pessoas no planeta, há cem anos, se originou de aves. Os cientistas dão como certo o surgimento, a qualquer momento, de uma nova mutação do Influenza. Weissmann diz que o 2019-nCoV é a sétima cepa de coronavírus já encontrada em seres humanos.

Por causa da epidemia, a última semana começou com pânico nos mercados globais. O temor da perda de controle das autoridades sanitárias chinesas sobre a doença, fez as empresas brasileiras com ações no Ibovespa perderem cerca de R$ 50 bilhões em valor de mercado. Vale, Petrobrás, Gerdau, CSN e Suzano, grandes produtoras brasileiras de commodities, tiveram seu valor reduzido em R$ 42,3 bilhões. Segundo a agência Bloomberg, as bolsas globais perderam, ao todo, US$ 1,5 trilhão por causa do avanço da pandemia, mesmo com as bolsas da China e do Hong Kong fechadas por causa do feriado prolongado local do Ano Novo Lunar. Devido ao receio de que a doença afete o mercado chinês, assim como a atividade industrial e a construção no país, houve queda no preço do petróleo e de minérios como cobre e ferro. Houve também forte desvalorização no yuan. Na China, lojas foram fechadas e as empresas estenderam os feriados para manter as pessoas em casa. Para tranquilizar os mercados, o presidente Xi Jinping veio a público e, em discurso na televisão estatal, disse que “o vírus é um demônio e não podemos deixar o demônio se esconder”. “A China fortalecerá a cooperação internacional e saúda a participação da OMS na prevenção de vírus. A China está confiante em vencer essa batalha”, afirmou.

EFEITOS NA ECONOMIA

Também é esperado um duro golpe na indústria da aviação. Companhia aéreas europeias e americanas estão cancelando viagens para a China. Foram os casos da Lufthansa e da British Airways, que suspenderam todos os seus voos para o país asiático. Por causa da queda na demanda — ninguém quer viajar para a Ásia neste momento — a United Airlines suspendeu 24 voos dos Estados Unidos com destino a Pequim, Hong Kong e Shangai. A indiana IndiGo cancelou viagens com destino às cidades de Chengdu e Hong Kong. No Brasil, a Vale cancelou todas as viagens de negócios de seus executivos para a China. Além disso, nos voos que foram mantidos, as companhias aéreas mudaram suas rotinas. Para proteger a tripulação e os passageiros, foram eliminados itens de conforto, como comida quente, fones de ouvido, cobertores, toalhas e jornais que favorecem a disseminação do coronavírus. A China Airlines, de Taiwan, determinou que os passageiros viajem com suas próprias garrafas de bebidas e substituiu itens reutilizáveis por descartáveis. A Thai Airlines, da Tailândia, passou a desinfetar o interior de suas aeronaves em todos os voos para a China e para outros destinos considerados de alto risco.

Nos países europeus, no Japão e nos Estados Unidos houve repatriação em massa de cidadãos que trabalham na China. Na terça-feira 28, o ministro japonês das Relações Exteriores, Toshimitsu Motegi, determinou o envio de um avião para retirar 600 cidadãos do país que trabalham em Wuhan. O governo americano fretou um voo charter para transportar funcionários consulares e seus familiares que vivem na cidade. Inglaterra, Canadá e Portugal estão tomando medidas semelhantes para proteger seus cidadãos. Na quinta-feira 30, aviões franceses chegaram a Wuhan para repatriar pessoas interessadas em regressar à Europa.

A França é um dos países com mais moradores em Wuhan, por causa da grande presença de estudantes e de trabalhadores nas fábricas da Renault e da PSA na região. No caso do Brasil, a repatriação foi descartada. Referindo-se a uma criança brasileira que está nas Filipinas sob suspeita de ter contraído a doença, o presidente Jair Bolsonaro disse que “não seria oportuno retirá-la de lá”. “É o contrário. Não vamos colocar nós em risco por uma família apenas”, justificou. Cerca de 40 brasileiros estão confinados em Wuhan e, segundo a embaixada em Pequim, as autoridades chinesas não estão autorizando a saída dos estrangeiros. “Estamos recebendo demanda de evacuação, o que neste momento não é possível fazer”, afirmou o embaixador Luiz de Castro Neves. O Ministério da Saúde alemão confirmou o primeiro caso de transmissão de humano para humano na Europa. Um homem testou positivo para a nova cepa do coronavírus. Ele foi infectado por um colega de trabalho. Praticamente todos os casos da doença em outros países são de pessoas que estiveram na China ou tiveram contato com gente que veio de Wuhan. Especialistas em saúde dizem que não estão surpresos com as transmissões de coronavírus de humano para humano no Japão, Vietnã e Alemanha. “A transmissão humana não surpreende. Continuaremos a ver outros casos semelhantes fora da China”, disse Michael Head, pesquisador sênior em saúde global da Universidade de Southampton. As novas informações sobre a doença reforçam a importância do conselho dado pelo Public Health England de que, se alguém retornou de Wuhan nas últimas duas semanas, deveria “ficar em casa e evitar o contato com outras pessoas, como se faria com outros vírus da gripe” e “entrar em contato com o serviço de saúde para informá-lo de sua recente viagem à cidade”. Esse conselho deveria ser seguido por qualquer pessoa que tenha estado em alguma região da China onde a infecção é reconhecida como comum ou se ela souber que teve contato com um caso presumido. Há muita tensão no ar e o fato é que a China se tornou, nas últimas semanas, um lugar extremamente perigoso.

GESTÃO E CARREIRA

CHEIRO DE BONS NEGÓCIOS

Um estudo inédito da consultoria PwC, encomendada pela International Fragrance Association (Ifra), mostra que a indústria brasileira de fragrâncias movimenta € 222 milhões (cerca de R$ 1 bilhão) por ano, impulsionada pelo crescente consumo de produtos cosméticos e de perfumaria. Em todo o mundo, o setor gera receita de € 7,2 bilhões (algo próximo a R$ 33 bilhões). “Esse é um mercado sofisticado, amplo e inovador, no coração de uma cadeia de valor que vai de matérias-primas únicas, naturais e sintéticas, a laboratórios de design e fábricas, até chegar às prateleiras do varejo”, destacou a presidente da Ifra, Martina Bianchini. De acordo com ela, o consumidor está disposto a pagar até 88% a mais por um item devido ao cheiro. “O segmento de fragrâncias pode ser relativamente pequeno, mas causa uma grande impressão. Este relatório mostra como agregamos valor econômico significativo a nossos fornecedores e clientes, bem como aos consumidores, para os quais a fragrância é um fator crucial nas decisões de compra”, disse. Ainda pelos cálculos do estudo, o setor responde por mais de 1,3 mil empregos diretos, e o Brasil representa quase metade de todos os negócios da América Latina.