A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A PÍLULA DO ESQUECIMENTO

Admirável e feliz mundo novo: O psiquiatra Roger Pitman está pesquisando um medicamento capaz de remover o pavor associado às lembranças ruins

A pílula do esquecimewnto

Kathleen L. está esperando há horas. Pálida e perturbada, aguarda no pronto­ socorro do Hospital Geral de Masachusetts, em Boston, depois de ser atropelada por um ciclista. Quando uma enfermeira enfim lhe pergunta sobre seu estado, Kathleen explica aquele que é seu grande receio: os arranhões não a incomodam tanto, mas ela teme que o acidente deixe cicatrizes psíquicas – como oito anos antes, quando escapou por pouco de um estupro. Desde então, a lembrança a persegue em pesadelos. A enfermeira sugere que ela participe de um estudo-piloto com uma substância que talvez possa poupá-la de novos estados de angústia.

A auxiliar de advocacia de 29 anos assina uma carta de anuência. Com isso, passa a integrar o grupo de voluntários que participam da investigação do psiquiatra Roger Pitman. O pesquisador da Universidade de Harvard busca há anos uma maneira de ajudar pessoas que, em decorrência de acontecimentos traumáticos, sofrem por um período de tempo demasiado longo. Seus pacientes sobreviveram a acidentes graves, enfermidades críticas, catástrofes naturais, guerras ou mesmo tortura. Estima-se que 25% dessas pessoas desenvolvam o chamado transtorno de stress pós-traumático (TSPT). Seu dia a dia assemelha-se a uma caminhada por campo minado. Às vezes, bastam acontecimentos aparentemente triviais para desencadear uma torrente de lembranças ameaçadoras.

Kathleen sabe o que significa jamais se libertar de uma experiência ruim. Num escritório de advocacia no centro de Boston, ela conta sua história. Somente a muito custo conseguiu superar a tentativa de estupro de que foi vítima. Uma noite, quando estava parada num sinal vermelho, um dependente de drogas invadiu seu carro. Ele a obrigou a dirigir até uma região afastada, e lá, lentou violenta-la. Defendendo-se desesperadamente, acabou por afugentá-lo. Depois disso, Kathleen não conseguiu dormir direito durante meses. Sempre que precisava parar num sinal vermelho, entrava em pânico. Por dois anos, fez psicoterapia, para aprender a dominar o próprio medo, passo a passo. Mas, ainda hoje, ao contar o incidente, sua voz treme e ela evita os olhos do interlocutor.

Roger Pitman quer impedir essas manifestações decorrentes do trauma por intermédio de uma medicação voltada especificamente para isso. Uma substância especial – o betabloqueador propranolol, também empregado em tratamento cardíaco – bloquearia a atuação de determinados hormônios do stress e impediria, assim, que a experiência vivida fincasse raízes profundas na memória. Em seu pequeno laboratório de testes, o pesquisador explica que curso tomou seu experimento, que causou sensação. Depois de recrutados no pronto-socorro, os 40 voluntários tomaram uma pílula azul durante três semanas: metade recebeu propranolol, a outra, um placebo. Três meses depois, Pitman pediu que ouvissem uma gravação – um breve relato sobre suas experiências traumáticas. Ao mesmo tempo que ouviam a gravação, eletrodos fixados nas têmporas, no rosto e nos braços mediam os indicadores clássicos do stress: batimento cardíaco, formação de suor e tensão muscular.

 

MECANISMOS DA MEMÓRIA

Kathleen ouviu de novo a história de seu acidente. Ela acreditava estar no grupo que havia recebido placebo, uma vez que não notara nenhuma modificação significativa nas semanas seguintes ao acidente: “Eu achava que teria de sentir alguma forma de cansaço”. Mas os aparelhos de medição não registraram nela nenhum sinal de stress, nem nos demais voluntários que haviam tomado a pílula. Dormiam tranquilos, mostravam-se serenos e raras vezes pensavam em sua experiência fatídica. Muito diferente do que ocorreu no grupo de controle, em que quase a metade deles apresentou sintomas de stress. “Ao que parece, o propranolol ajuda no combate às lembranças traumáticas”, constata Pitman.

Esses resultados confirmam uma vez mais o papel central que as emoções desempenham no ato de lembrar. Nos anos 90, uma equipe de pesquisadores em tomo do psicólogo James L. McCaugh, da Universidade da Califórnia, em Irvine, Estados Unidos, constatou que as pessoas se lembram muito melhor de uma história dramática que de uma descrição prosaica de acontecimentos cotidianos.

O medo e o pavor cimentam um acontecimento na memória. Por isso é que a maioria das pessoas ainda se lembra de onde estava e o que fazia em 11 de setembro de 2001, quando recebeu a notícia dos atentados às torres gêmeas em Nova York. Papel fundamental desempenha aí a adrenalina, o hormônio do stress que as glândulas supra- renais secretam em abundância em momentos de agitação. Adrenalina adicional eleva o desempenho da memória – essa é a conclusão a que conduziram já há alguns anos experiências com ratos. Quando, porém, McCaugh bloqueou com propranolol os receptores de adrenalina dos animais, o efeito potencializador do aprendizado exercido pelo hormônio de stress não se manifestou.

Enquanto isso, aumentam as comprovações científicas de que a adrenalina ativa de forma indireta a amígdala. Essa estrutura cerebral do sistema límbico, por sua vez, dota as experiências que vivemos de um selo emocional, fincando-as, assim, de modo ainda mais firme na memória.

À primeira vista, essa observação não pareceu ser de grande valia aos estudiosos dos traumas. Talvez, refletiu Pitman, as lembranças traumáticas se aferram com tanta força à memória porque são ali revividas constantemente nos dias que se seguem ao acontecimento. A cada novo jorro de adrenalina, a experiência se finca cada vez mais. Poderia valer a pena intervir nessa fase com uma substância ativa. Seu raciocínio parece correto. Além de seu próprio trabalho, um estudo do psiquiatra francês Guillaume Vaiva do hospital universitário de Lille, na França, comprovou o efeito do propranolol no tratamento de traumas.

Contudo, para aquelas pessoas que já estão sofrendo de transtorno de stress pós-traumático, é tarde demais para a pílula contra o medo – o horror já marcou a fogo seu cérebro. Pitman depara com casos assim todos os dias, sobretudo de veteranos do Vietnã. Alguns têm alucinações, outros entram em pânico diante de pessoas ou de terrenos que não podem divisar com clareza. Na sua cabeça, a guerra nunca acabou. Também essas pessoas podem alcançar o controle sobre seus sentimentos. É certo que o assustador não pode ser esquecido, mas é possível perder o medo – uma meta perseguida pela psicoterapia.

É de supor que, nisso, os médicos poderão algum dia auxiliar com medicamentos. Há dois anos, Mohammed R. Milad, da Faculdade de Medicina de Ponce, em Porto Rico, demonstrou como ratos podem aprender a superar o medo. Ele os submeteu a um experimento que reproduz um estado psíquico comparável ao do transtorno de stress pós-traumático. A um sinal sonoro, fazia suceder sempre um eletrochoque. Passado algum tempo, apenas o sinal os amedrontava: eles reagiam de modo semelhante a uma pessoa que, ao ouvir determinado ruído, recorda uma experiência terrível e entra em pânico.

Então, o pesquisador parou de aplicar os eletrochoques após os sinais. E constatou que, naqueles ratos que haviam superado o medo com mais rapidez, uma determinada região do cérebro apresentava especial atividade. Era a área na qual os neuropsicólogos situam a mais alta instância da consciência dos animais: o prosencéfalo. Nos ratos com traumas renitentes, Milad verificou aí pouca atividade. Se, no entanto, estimulava a região cerebral em questão por intermédio de eletrodos, também eles superavam seu medo. “O medo não desaparece, mas os ratos aprendem a controlá-lo”, explica. Agora, ele quer testar esse mecanismo nos seres humanos. Talvez possa liberá-los de seus traumas estimulando com medicamentos as regiões cerebrais correspondentes.

O pesquisador Beat Lutz, do Instituto Max Planck de Psiquiatria, em Munique, Alemanha, segue estratégia bem diferente com camundongos. Ele busca reprimir a recuperação de lembranças negativas já armazenadas. Como os cientistas sabem, atuam aí os chamados endocanabinóides, substâncias semelhantes droga proveniente do cânhamo, a maconha. Dois anos atrás, Lutz e seu grupo publicaram um estudo sobre camundongos que tinham aprendido a associar um sinal sonoro a uma descarga elétrica. Cessando os eletrochoques, a lembrança aprendida logo se desvanecia. Os roedores sem receptores para endocanabinóides não se libertaram de seu medo, assim como tampouco aqueles animais nos quais os pesquisadores bloquearam o receptor para esse neurotransmissor. A conclusão que se obtém invertendo o raciocínio é a de que os neurotransmissores facilitam o esquecimento de fatos desagradáveis. Tem-se também aí, portanto, um canal promissor de intervenção para medicamentos que auxiliem a apagar da memória as lembranças traumáticas.

A pílula do esquecimento abre possibilidades imprevistas, facilitando em muito a superação não apenas de um acidente de um estupro ou de uma catástrofe, mas até mesmo do combate numa frente de batalha. É por essa razão que aumentam as críticas a ela. Num relatório intitulado “Além da terapia”, Leon Kass – presidente do conselho de bioética de George W. Bush – adverte que o gerenciamento medicamentoso da memória vai acarretar mudanças à sociedade, “Quem assiste a um assassinato deveria guardá-lo na memória como algo terrível quem age de forma repugnante deve sofrer as consequências psíquicas de seu ato”. Para Kass, existe um “dever de se lembrar”, pois somente quem vivencia emocionalmente algo ruim é capaz de se solidarizar com os outros em situações de dificuldade. Assim, mesmo aqueles que viveram o horror puro do Holocausto teriam cumprido, como testemunhas oculares, uma importante tarefa para a comunidade.

Pitman reage indignado a essa objeção, “Considero fora de propósito manter o sofrimento dos indivíduos em prol da comunidade. Dia sim, dia não, deparo com vítimas do transtorno de stress pós-traumático. Não vejo nada de ruim em querer ajuda-las”. Kathleen L concorda: “Queria ter tido um remédio como esse para tomar, oito anos atrás”.

 

DO CHOQUE AO STRESS PÓS-TRAUMÁTICO

Os sintomas são sempre os mesmos: homens traumatizados continuam revivendo o acontecimento terrível em pesadelos ou flashbacks, embora evitem tudo o que possa lembrá-los do que viveram. Por isso mesmo, parecem insensíveis e embrutecidos. O acontecido incomoda a vítima de tal forma que ela mal consegue se concentrar e apresenta lacunas na memória. Além disso, é atormentada por angustiantes sentimentos de culpa. Estados mentais assim tornaram- se mais do que familiares aos médicos após as matanças ocorridas durante a Primeira Guerra Mundial. Com o auxílio das mais grosseiras terapias -como banhos de água gelada ou choques elétricos, por exemplo, – eles tentaram ajudar os milhares de soldados que sofriam do chamado “choque da granada”. A situação não melhorou muito ao longo da Segunda Guerra Mundial. Soldados com distúrbios psíquicos eram despachados para hospitais psiquiátricos civis e, assim, potencialmente entregues à eutanásia. Tampouco os soldados americanos das guerras da Coréia e do Vietnã tiveram facilidade para encontrar reconhecimento médico para seu sofrimento. Muitas vezes, dizia-se que os veteranos apenas simulavam distúrbios para receber apoio estatal. Mas não são apenas as experiências de guerra que provocam tais distúrbios: duros golpes do destino sobre a vida dos indivíduos, tais como assaltos ou estupros, também deflagram os sintomas típicos daquilo que, desde a década de 89, foi agrupado sob o conceito de “transtorno de stress pós-traumático”.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.