A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A PÍLULA DO ESQUECIMENTO

Admirável e feliz mundo novo: O psiquiatra Roger Pitman está pesquisando um medicamento capaz de remover o pavor associado às lembranças ruins

A pílula do esquecimewnto

Kathleen L. está esperando há horas. Pálida e perturbada, aguarda no pronto­ socorro do Hospital Geral de Masachusetts, em Boston, depois de ser atropelada por um ciclista. Quando uma enfermeira enfim lhe pergunta sobre seu estado, Kathleen explica aquele que é seu grande receio: os arranhões não a incomodam tanto, mas ela teme que o acidente deixe cicatrizes psíquicas – como oito anos antes, quando escapou por pouco de um estupro. Desde então, a lembrança a persegue em pesadelos. A enfermeira sugere que ela participe de um estudo-piloto com uma substância que talvez possa poupá-la de novos estados de angústia.

A auxiliar de advocacia de 29 anos assina uma carta de anuência. Com isso, passa a integrar o grupo de voluntários que participam da investigação do psiquiatra Roger Pitman. O pesquisador da Universidade de Harvard busca há anos uma maneira de ajudar pessoas que, em decorrência de acontecimentos traumáticos, sofrem por um período de tempo demasiado longo. Seus pacientes sobreviveram a acidentes graves, enfermidades críticas, catástrofes naturais, guerras ou mesmo tortura. Estima-se que 25% dessas pessoas desenvolvam o chamado transtorno de stress pós-traumático (TSPT). Seu dia a dia assemelha-se a uma caminhada por campo minado. Às vezes, bastam acontecimentos aparentemente triviais para desencadear uma torrente de lembranças ameaçadoras.

Kathleen sabe o que significa jamais se libertar de uma experiência ruim. Num escritório de advocacia no centro de Boston, ela conta sua história. Somente a muito custo conseguiu superar a tentativa de estupro de que foi vítima. Uma noite, quando estava parada num sinal vermelho, um dependente de drogas invadiu seu carro. Ele a obrigou a dirigir até uma região afastada, e lá, lentou violenta-la. Defendendo-se desesperadamente, acabou por afugentá-lo. Depois disso, Kathleen não conseguiu dormir direito durante meses. Sempre que precisava parar num sinal vermelho, entrava em pânico. Por dois anos, fez psicoterapia, para aprender a dominar o próprio medo, passo a passo. Mas, ainda hoje, ao contar o incidente, sua voz treme e ela evita os olhos do interlocutor.

Roger Pitman quer impedir essas manifestações decorrentes do trauma por intermédio de uma medicação voltada especificamente para isso. Uma substância especial – o betabloqueador propranolol, também empregado em tratamento cardíaco – bloquearia a atuação de determinados hormônios do stress e impediria, assim, que a experiência vivida fincasse raízes profundas na memória. Em seu pequeno laboratório de testes, o pesquisador explica que curso tomou seu experimento, que causou sensação. Depois de recrutados no pronto-socorro, os 40 voluntários tomaram uma pílula azul durante três semanas: metade recebeu propranolol, a outra, um placebo. Três meses depois, Pitman pediu que ouvissem uma gravação – um breve relato sobre suas experiências traumáticas. Ao mesmo tempo que ouviam a gravação, eletrodos fixados nas têmporas, no rosto e nos braços mediam os indicadores clássicos do stress: batimento cardíaco, formação de suor e tensão muscular.

 

MECANISMOS DA MEMÓRIA

Kathleen ouviu de novo a história de seu acidente. Ela acreditava estar no grupo que havia recebido placebo, uma vez que não notara nenhuma modificação significativa nas semanas seguintes ao acidente: “Eu achava que teria de sentir alguma forma de cansaço”. Mas os aparelhos de medição não registraram nela nenhum sinal de stress, nem nos demais voluntários que haviam tomado a pílula. Dormiam tranquilos, mostravam-se serenos e raras vezes pensavam em sua experiência fatídica. Muito diferente do que ocorreu no grupo de controle, em que quase a metade deles apresentou sintomas de stress. “Ao que parece, o propranolol ajuda no combate às lembranças traumáticas”, constata Pitman.

Esses resultados confirmam uma vez mais o papel central que as emoções desempenham no ato de lembrar. Nos anos 90, uma equipe de pesquisadores em tomo do psicólogo James L. McCaugh, da Universidade da Califórnia, em Irvine, Estados Unidos, constatou que as pessoas se lembram muito melhor de uma história dramática que de uma descrição prosaica de acontecimentos cotidianos.

O medo e o pavor cimentam um acontecimento na memória. Por isso é que a maioria das pessoas ainda se lembra de onde estava e o que fazia em 11 de setembro de 2001, quando recebeu a notícia dos atentados às torres gêmeas em Nova York. Papel fundamental desempenha aí a adrenalina, o hormônio do stress que as glândulas supra- renais secretam em abundância em momentos de agitação. Adrenalina adicional eleva o desempenho da memória – essa é a conclusão a que conduziram já há alguns anos experiências com ratos. Quando, porém, McCaugh bloqueou com propranolol os receptores de adrenalina dos animais, o efeito potencializador do aprendizado exercido pelo hormônio de stress não se manifestou.

Enquanto isso, aumentam as comprovações científicas de que a adrenalina ativa de forma indireta a amígdala. Essa estrutura cerebral do sistema límbico, por sua vez, dota as experiências que vivemos de um selo emocional, fincando-as, assim, de modo ainda mais firme na memória.

À primeira vista, essa observação não pareceu ser de grande valia aos estudiosos dos traumas. Talvez, refletiu Pitman, as lembranças traumáticas se aferram com tanta força à memória porque são ali revividas constantemente nos dias que se seguem ao acontecimento. A cada novo jorro de adrenalina, a experiência se finca cada vez mais. Poderia valer a pena intervir nessa fase com uma substância ativa. Seu raciocínio parece correto. Além de seu próprio trabalho, um estudo do psiquiatra francês Guillaume Vaiva do hospital universitário de Lille, na França, comprovou o efeito do propranolol no tratamento de traumas.

Contudo, para aquelas pessoas que já estão sofrendo de transtorno de stress pós-traumático, é tarde demais para a pílula contra o medo – o horror já marcou a fogo seu cérebro. Pitman depara com casos assim todos os dias, sobretudo de veteranos do Vietnã. Alguns têm alucinações, outros entram em pânico diante de pessoas ou de terrenos que não podem divisar com clareza. Na sua cabeça, a guerra nunca acabou. Também essas pessoas podem alcançar o controle sobre seus sentimentos. É certo que o assustador não pode ser esquecido, mas é possível perder o medo – uma meta perseguida pela psicoterapia.

É de supor que, nisso, os médicos poderão algum dia auxiliar com medicamentos. Há dois anos, Mohammed R. Milad, da Faculdade de Medicina de Ponce, em Porto Rico, demonstrou como ratos podem aprender a superar o medo. Ele os submeteu a um experimento que reproduz um estado psíquico comparável ao do transtorno de stress pós-traumático. A um sinal sonoro, fazia suceder sempre um eletrochoque. Passado algum tempo, apenas o sinal os amedrontava: eles reagiam de modo semelhante a uma pessoa que, ao ouvir determinado ruído, recorda uma experiência terrível e entra em pânico.

Então, o pesquisador parou de aplicar os eletrochoques após os sinais. E constatou que, naqueles ratos que haviam superado o medo com mais rapidez, uma determinada região do cérebro apresentava especial atividade. Era a área na qual os neuropsicólogos situam a mais alta instância da consciência dos animais: o prosencéfalo. Nos ratos com traumas renitentes, Milad verificou aí pouca atividade. Se, no entanto, estimulava a região cerebral em questão por intermédio de eletrodos, também eles superavam seu medo. “O medo não desaparece, mas os ratos aprendem a controlá-lo”, explica. Agora, ele quer testar esse mecanismo nos seres humanos. Talvez possa liberá-los de seus traumas estimulando com medicamentos as regiões cerebrais correspondentes.

O pesquisador Beat Lutz, do Instituto Max Planck de Psiquiatria, em Munique, Alemanha, segue estratégia bem diferente com camundongos. Ele busca reprimir a recuperação de lembranças negativas já armazenadas. Como os cientistas sabem, atuam aí os chamados endocanabinóides, substâncias semelhantes droga proveniente do cânhamo, a maconha. Dois anos atrás, Lutz e seu grupo publicaram um estudo sobre camundongos que tinham aprendido a associar um sinal sonoro a uma descarga elétrica. Cessando os eletrochoques, a lembrança aprendida logo se desvanecia. Os roedores sem receptores para endocanabinóides não se libertaram de seu medo, assim como tampouco aqueles animais nos quais os pesquisadores bloquearam o receptor para esse neurotransmissor. A conclusão que se obtém invertendo o raciocínio é a de que os neurotransmissores facilitam o esquecimento de fatos desagradáveis. Tem-se também aí, portanto, um canal promissor de intervenção para medicamentos que auxiliem a apagar da memória as lembranças traumáticas.

A pílula do esquecimento abre possibilidades imprevistas, facilitando em muito a superação não apenas de um acidente de um estupro ou de uma catástrofe, mas até mesmo do combate numa frente de batalha. É por essa razão que aumentam as críticas a ela. Num relatório intitulado “Além da terapia”, Leon Kass – presidente do conselho de bioética de George W. Bush – adverte que o gerenciamento medicamentoso da memória vai acarretar mudanças à sociedade, “Quem assiste a um assassinato deveria guardá-lo na memória como algo terrível quem age de forma repugnante deve sofrer as consequências psíquicas de seu ato”. Para Kass, existe um “dever de se lembrar”, pois somente quem vivencia emocionalmente algo ruim é capaz de se solidarizar com os outros em situações de dificuldade. Assim, mesmo aqueles que viveram o horror puro do Holocausto teriam cumprido, como testemunhas oculares, uma importante tarefa para a comunidade.

Pitman reage indignado a essa objeção, “Considero fora de propósito manter o sofrimento dos indivíduos em prol da comunidade. Dia sim, dia não, deparo com vítimas do transtorno de stress pós-traumático. Não vejo nada de ruim em querer ajuda-las”. Kathleen L concorda: “Queria ter tido um remédio como esse para tomar, oito anos atrás”.

 

DO CHOQUE AO STRESS PÓS-TRAUMÁTICO

Os sintomas são sempre os mesmos: homens traumatizados continuam revivendo o acontecimento terrível em pesadelos ou flashbacks, embora evitem tudo o que possa lembrá-los do que viveram. Por isso mesmo, parecem insensíveis e embrutecidos. O acontecido incomoda a vítima de tal forma que ela mal consegue se concentrar e apresenta lacunas na memória. Além disso, é atormentada por angustiantes sentimentos de culpa. Estados mentais assim tornaram- se mais do que familiares aos médicos após as matanças ocorridas durante a Primeira Guerra Mundial. Com o auxílio das mais grosseiras terapias -como banhos de água gelada ou choques elétricos, por exemplo, – eles tentaram ajudar os milhares de soldados que sofriam do chamado “choque da granada”. A situação não melhorou muito ao longo da Segunda Guerra Mundial. Soldados com distúrbios psíquicos eram despachados para hospitais psiquiátricos civis e, assim, potencialmente entregues à eutanásia. Tampouco os soldados americanos das guerras da Coréia e do Vietnã tiveram facilidade para encontrar reconhecimento médico para seu sofrimento. Muitas vezes, dizia-se que os veteranos apenas simulavam distúrbios para receber apoio estatal. Mas não são apenas as experiências de guerra que provocam tais distúrbios: duros golpes do destino sobre a vida dos indivíduos, tais como assaltos ou estupros, também deflagram os sintomas típicos daquilo que, desde a década de 89, foi agrupado sob o conceito de “transtorno de stress pós-traumático”.

OUTROS OLHARES

CRIPTO TRAMBIQUE

Tradicionais golpes de pirâmides financeiras se modernizam e usam rostos famosos e moedas como bitcoin para escapar da regulamentação e fraudar investidores

Criptotrambique

Fonte de inspiração de milhões de fãs, Ronaldinho Gaúcho tenta repetir no mundo dos negócios os olés que dava em campo. Em uma dessas iniciativas empresariais, o Bruxo, como ficou conhecido na Espanha por causa de seu futebol mágico, tornou-se parceiro de uma empresa chamada 18K Ronaldinho, especializada em fornecer opções de aplicações financeiras que prometem lucros astronômicos. Com um aporte mínimo de 30 dólares, seria possível até quadruplicar o valor em 200 dias. Os depósitos, sempre em bitcoins, garantem ao investidor o direito de virar representante de vendas da marca de relógios 18K Ronaldinho, feitos na China. Essa estranha mistura de negócios é definida pelos responsáveis como “marketing multinível”. No entanto, o toque mágico do craque parece não ter sido suficiente e a empresa, há um mês, não tem liberado o acesso às bitcoins e sua comercialização, mesmo em contratos de investimento já encerrados. Os investidores lesados denunciaram a companhia à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e ao Ministério Público de São Paulo (MP-SP).

Todos os indícios sugerem que a 18K Ronaldinho é na verdade uma versão mais elaborada e tecnológica das antigas pirâmides financeiras baseadas no chamado Esquema Ponzi. Tais   golpes em inúmeras variações recebem o nome de seu criador, o italiano Carlo Ponzi. No esquema, o lucro dos primeiros investidores é pago pelos que chegam depois até o fluxo de entrada bater num teto incompatível com a remuneração de todos os investidores. Quando isso acontece, a pirâmide desaba. Com o estratagema, Ponzi passou para a história como um dos maiores estelionatários do século XX e desde então, fraudes como essas são consideradas crime financeiro. Ronaldinho nega ter conhecimento de qualquer esquema irregular do negócio de propriedade do empresário Manuel Lira. Segundo seu representante, Sérgio Queiroz o jogador assinou contrato com a marca de relógios 18K Watches, e o acordo não dizia nada a respeito de investimentos em criptomoedas. Entretanto, é possível encontrar na internet um vídeo no qual R10 promove a empresa 18K Ronaldinho. “Conto com você para fazer a maior empresa multinível do mundo. Vem pra tribo 18K Ronaldinho”, diz ele na gravação. Arrolado como testemunha no inquérito, Ronaldinho foi chamado para explicar seu envolvimento no negócio. Os procuradores paulistas agora devem ouvir os sócios da empresa, baseados no Rio de Janeiro.

O que chama atenção nas novas pirâmides é o uso das criptomoedas, divisas virtuais criadas para facilitar as transações na internet. As operações irregulares, de maneira geral, utilizam um modelo em que empresas com um volume muito grande de bitcoins negociam em diversas corretoras mundo afora. Como a bitcoin tem cotação variável, as companhias se valem de aplicações em locais onde o valor é mais vantajoso – o que só acontece pelo fato de as criptomoedas serem descentralizadas, sem um banco central para determinar sua cotação. O problema é que se trata de uma operação de altíssimo risco e que acarreta movimentações imprevisíveis, em que corridas aos saques são frequentes. Para piorar os investidores têm pouca informação sobre por onde seus ativos circulam e não costumam declarar seus ganhos à Receita Federal, por isso não há meios para recuperar eventuais desvios. “Um cuidado básico para quem quiser se arriscar nesse negócio é procurar plataformas que deem transparência às transações, afirma Caio Ramalho, pesquisador do assunto na FGV.

Todo negócio que envolve dinheiro virtual tem um risco intrínseco, como comprova a brutal queda no preço da bitcoin ocorrida em 2018, quando a cotação da moeda caiu para um terço do seu valor original – passou de 20.000 pra 6.000 dólares (hoje está em 8.000 dólares). É natural que tal ambiente seja propício a investidores que não se importam em burlar os limites da legalidade em busca de ganhos vultosos – para eles, trata-se apenas de entender em que degrau do esquema da pirâmide estarão. E, neste caso, os desdobramentos podem ser imprevisíveis. Em um episódio investigado pela polícia paulista, um empresário que perdeu o equivalente a 4 milhões de reais em uma operação foi preso sob a acusação de encomendar o sequestro do dono de uma corretora que intermediou a aplicação de seu dinheiro.

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Situações como essa são exceção em um universo em que parcela considerável dos participantes é formada por investidores pouco experientes atraídos pela aparência de seriedade dos operadores. Nesse sentido, a publicidade é crucial para garantir o verniz de respeitabilidade. A Atlas Quantum, cujas operações foram interrompidas em agosto, deixando um rombo estimado em 100 milhões de reais, valia-se dos atores Cauã Reymond e Tatá Werneck como garotos-propaganda em inserções veiculadas na TV com promessas de ganho de 60% sobre os investimentos. Foram justamente os anúncios que chamaram a atenção dos peritos da CVM. Eles determinaram imediatamente a interrupção da propaganda. O órgão entendeu que a operação divulgada pela Atlas era uma oferta pública de contratos de investimentos coletivos CIC), o que exige uma autorização do órgão.

A notícia caiu como uma bomba entre os cotistas, que iniciaram uma corrida para sacar seus recursos. Uma empresa saudável teria condições de honrar os compromissos. Não era o caso. Segundo um ex-diretor o dono da Atlas, Rodrigo Marques mantinha contas em corretoras de criptomoedas no exterior para investir os ativos dos clientes em seu próprio nome, e não conseguiu sacar os recursos por regra contra lavagem de dinheiro. Por meio de nota, a companhia confirma que adotava a prática no passado, mas que agora a Atlas apenas trabalha com contas institucionais. O fato é que mais de 1.200 bitcoins desapareceram: uma soma de 40 milhões de reais. O empresário carioca Sérgio Peçanha Ferreira Jr. tinha 40 bitcoins na Atlas o equivalente a 1.3 milhão de reais. ‘Comecei com pouco 1 bitcoin, mas os ganhos me levaram a renovar a aposta. Com a perda que tive, nem consigo mais dormir’, diz ele. A Atlas prometeu restabelecer os saques a partir de 21 de outubro. As assessorias de Cauã e de Tatá afirmam que os artistas firmaram contrato comercial e que, à época, não havia nada que desabonasse a empresa.

Também escorado em figuras públicas, o Grupo Bitcoin Banco, de propriedade de Claudio Oliveira cresceu a reboque de uma ofensiva de marketing e acabou deixando um rombo de 70 milhões de reais para os investidores. Para impulsionar seu negócio, Oliveira comprou um espaço no programa de Amaury Jr., na RedeTV! aos sábados, e se aproximou do apresentador Ratinho, do SBT. Ambos eram convidados a conferências e jantares para elogiar o empresário, que se vendia como um milionário com negócios e propriedades na   Europa. Em seu programa, Amaury falava sobre sua conta aberta no grupo e em eventos Ratinho discursava sobre a personalidade vencedora de Oliveira. ‘É desagradável”, diz Amaury. “A pessoa me vê falando bem do cara e toma um calote. Suspendemos o acordo desde que a fraude estourou”, justifica. O contrato publicitário com a Rede TV!, de cerca de 500 mil reais, nunca foi pago. “Ele fechou um acordo no qual promete nos pagar em doze parcelas”, conta Amaury. Ratinho diz que foi levado aos encontros por um amigo. “Fui a dois eventos, um no Hotel Unique e o outro em um jantar no Figueira Rubaiyat, ambos em São Paulo”, recorda. Para mim era um dos muitos que usam a imagem de alguém famoso”, argumenta. O Grupo Bitcoin ruiu quando Oliveira fez denúncia de que uma suposta fraude nos sistemas da empresa provocara a perda de 50 milhões de reais. Esse seria o motivo, segundo ele, da falta de liquidez que impediu a retirada de recursos por parte dos clientes. Investigado pela Justiça Federal no Paraná, Oliveira está com seu passaporte retido. Para quem perdeu dinheiro as notícias não são boas. “As chances de reaver os investimentos em criptomoedas é remota. Depois de a pirâmide quebrar, torna-se difícil localizar bens da entidade fraudulenta”, afirma Paulo Brancher, do escritório Mattos Filho. A lição que fica é que, seja no mundo analógico, seja no mundo virtual, a promessa de lucro é sempre proporcional aos riscos de perda.

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GESTÃO E CARREIRA

ESCULPINDO TALENTOS

 O que aprendemos com Michelangelo sobre liderança

Esculpindo talentos

“Eu apenas tirei da pedra de mármore tudo que não era o Davi!”

Essa foi a resposta atribuída a Michelangelo Buonarroti, que tinha 28 anos de idade, quando indagado por ninguém menos que Leonardo Da Vinci, já venerado como um sábio das artes, aos 51 anos, em torno de 1503. O questionamento teria surgido no suposto diálogo sobre como conseguira esculpir com perfeição os 5,17 metros do monumental Davi. A obra de arte emociona até hoje quem se aproxima dela, na Academia de Belas Artes de Florença, na Itália.

Afinal, era sabido que aquele enorme bloco de mármore, com mais de cinco toneladas, estava abandonado durante quase quatro décadas nos fundos da Catedral de Santa Maria del Fiore, conhecida como o Duomo de Florença, após frustradas tentativas feitas por alguns escultores, incluindo dois dos mais respeitados da época: Agostino di Duccio e Antonio Rosselino. Ambos desistiram do trabalho após infrutíferos anos de lapidação da pedra.

Menos de dois anos depois de ser comissionado, com apenas 26 anos, para realizar a tarefa, Michelangelo apresentou ao mundo a emblemática escultura do Davi, no dia 24 de junho de 1503. Além de grandiosa, a obra tem profundo significado emocional, pois simboliza a vitória da inteligência, astúcia, coragem e intuição sobre a força bruta do gigante Golias.

Baseado nessa metáfora, Michelangelo não esculpia o mármore, mas libertava um ser que estava aprisionado no interior da rocha. Tenho perguntado com frequência aos dirigentes de inúmeras empresas qual o legado que pretendem deixar nas suas trajetórias profissionais. Isto porque um dos maiores desafios da Liderança é a identificação e o desenvolvimento de pessoas e equipes. A formação de sucessores tornou-se um lamentável “calcanhar de Aquiles” de muitos líderes. Sabemos que a grande maioria das empresas não sobrevive ao desaparecimento dos seus fundadores.

Esse percalço advém de uma forma equivocada de pensar e praticar a Liderança. Precisamos mudar nosso modelo mental e passar a entender que o líder eficaz é quem forma outros líderes e não apenas seguidores. Os líderes competentes e inspiradores são os que possuem gente em torno de si e não atrás de si.

Porém, a identificação de talentos não é tarefa simples. Exige um genuíno interesse em desenvolvê-los, ajudando a remover os obstáculos e encorajando a libertarem-se das pedras que os aprisionam. Enfim, um dos papéis mais importantes dos líderes é o de investir fortemente na formação de outros líderes e eventuais sucessores. Esse movimento requer muita coragem, perspicácia, determinação, perseverança e altruísmo, além do “toque artístico” de inspirar os outros por meio do exemplo.

O desenvolvimento de uma pessoa pode acontecer de várias formas, desde cursos e educação formal, passando por terapia, mentoria, convivência com amigos, relacionamento social, apetite pelo autodesenvolvimento, experiências no cotidiano e iniciativas além das salas de aula, entre outros fatores. Entretanto, nada substitui a “pedagogia da relação líder-liderado”, seja no ambiente de trabalho, em casa, na escola, no clube ou na comunidade. A relação líder-liderado é a alavanca fundamental para a formação de novos líderes. Todos os outros aspectos complementam a força dessa relação.

Por essas razões, leitor, finalizo com a pergunta que não quer calar: qual Davi você está esculpindo ou qual Monalisa você está pintando? Seja no trabalho, em casa e na comunidade a qual você pertence e atua, qual a “obra de arte” que você pretende deixar como legado?

 

CÉSAR SOUZAé fundador e presidente do Grupo Empreenda, palestrante
e autor do recém-publicado “Seja o Líder que o Momento Exige”

ALIMENTO DIÁRIO

QUANDO O CÉU INVADE A TERRA

Quando o Céu invade a Terra

CAPÍTULO 15 – COMO PERDER UM AVIVAMENTO

O avivamento está bem no centro da mensagem do Reino, pois é num avivamento que vemos com maior clareza como é que Deus exerce o Seu domínio, e como isso afeta a sociedade. Um avivamento, melhor expresso, é a vinda do Reino. De certo modo o avivamento nos mostra como deve ser a vida cristã normal.

 

Antes da chegada do Messias, os líderes religiosos tinham orado e ensinado a respeito da Sua vinda. Havia uma certa agitação, em escala mundial, até mesmo na sociedade secular, diante da perspectiva de que alguma coisa maravilhosa estava por acontecer. Foi então que, numa manjedoura em Belém, Jesus nasceu.

Os magos, que observavam as estrelas, sabiam quem Ele era, e viajaram uma longa distância para adorá-Lo e dar-Lhe presentes. O diabo também sabia disso, e fez com que Herodes matasse os primogênitos, numa tentativa de abortar o plano de redenção da humanidade por Jesus. Não tendo sucesso, nisso, o diabo quis seduzir Jesus ao pecado, no deserto. O que é ainda mais surpreendente é que a presença de Deus entre os homens foi percebida pelos endemoninhados. Assim aconteceu com o geraseno. Quando ele viu a Jesus, caiu aos pés do Senhor em adoração, e logo depois foi liberto da sua vida de tormentos. Não obstante, os líderes religiosos, que tinham orado pela Sua vinda, não O reconheceram quando Ele veio.

Paulo e Silas pregaram o evangelho por toda a Ásia Menor. Os líderes religiosos disseram que eles eram do diabo. Uma moça, porém, que era adivinha e endemoninhada, disse que eles eram de Deus. Como pôde acontecer que aqueles que supostamente estavam cegos espiritualmente tenham tido condições de ver, e aqueles que eram conhecidos por sua sabedoria não tenham reconhecido o que Deus estava fazendo?

A história está repleta de pessoas que oraram para uma visitação de Deus, mas não a reconheceram quando ela veio. E isso aconteceu até mesmo com alguns que tinham um grande relacionamento com Deus.

 

UMA CEGUEIRA DIFERENTE

Muitos crentes têm um tipo de cegueira que o mundo não tem. O mundo sabe qual é a sua necessidade. Mas os cristãos, uma vez tendo nascido de novo, gradualmente vão deixando de reconhecer a sua necessidade. Algo ocorre, quando alguém está desesperado pela presença de Deus, que o faz com que reconheça se algo provém de Deus, ou não. Jesus falou sobre isso, ao dizer: “Eu vim a este mundo para juízo, a fim de que os que não vem vejam, e os que veem se tornem cegos.

O testemunho da história e o registro das Escrituras nos advertem quanto à possibilidade desse erro. “Aquele, pois, que pensa estar em pé veja que não caia.” Mateus diz que é porque “o coração deste povo está endurecido”. O endurecimento do coração foi decorrente de que o povo, tendo tido uma experiência com Deus, não se manteve no que Deus estava fazendo. Nosso coração não está endurecido quando reconhecemos a nossa necessidade e com muito ardor buscamos a Jesus. Esse primeiro amor de algum modo nos mantém em segurança, no centro das atividades de Deus na terra.

A igreja de Éfeso recebeu uma carta de Deus. Nela Jesus referiu-se ao fato de que tinham deixado o seu primeiro amor. O primeiro amor é apaixonado por natureza, e domina todos os demais aspectos da vida. Se eles não corrigissem essa situação, Deus disse que moveria o candeeiro deles do lugar. Embora não haja acordo entre os teólogos sobre o que seja esse candelabro, uma coisa é certa: um candeeiro tem lâmpadas que nos permitem ver. Sem ele a igreja de Éfeso perderia a capacidade de ver. A dureza, ou cegueira, mencionada acima não é do tipo daquelas que levam ao inferno. Essa dureza simplesmente nos impede de alcançarmos a plenitude do que Deus havia planejado para nós, enquanto aqui na terra. Quando a paixão morre, a lâmpada da visão acaba sendo removida.

 

PERMANECENDO NO CAMINHO

Este fenômeno tem sido visto na história da Igreja. Aqueles que rejeitam um mover de Deus geralmente são aqueles que foram os últimos a experimentar um avivamento anterior. Isso não vale para todos, pois sempre há aqueles cujo ardor por receber mais de Deus cada vez aumenta mais, com o passar dos anos. Mas são muitos os que admitem terem chegado, não à perfeição, mas ao ponto pretendido por Deus. Eles pagaram um preço para experimentar o mover de Deus.

Eles questionam: “Por que Deus faria algo novo, sem mostrar primeiro para nós?” Deus é um Deus de novidades. Quando desejamos mais Dele, isso requer de nós que assumamos as mudanças causadas pelas suas novidades. A paixão por Deus nos mantém renovados e nos capacita a reconhecer a mão de Deus, mesmo quando outros estão rejeitando o que está acontecendo. O mover presente de Deus requer isso de nós. O medo do engano é totalmente eliminado pela confiança de que Deus tem condições de nos manter em pé, sem cair.

Sou grato a muitos cristãos bem maduros que consideram este presente mover de Deus uma dádiva do céu. Muitos historiadores da Igreja declararam que este avivamento é genuíno. Viram que ele produz o mesmo fruto, e geram o mesmo entusiasmo na Igreja, tal como aconteceu em avivamentos anteriores. Tem sido um encorajamento ouvir vários teólogos afirmarem que este avivamento é um genuíno mover de Deus. Contudo, não é a aprovação deles que procuro.

Toda vez que grandes líderes da Igreja levantam-se para declarar que este é um avivamento, fico encorajado. Isso aconteceu em minha própria denominação. Mas nem mesmo isso me interessa tanto quanto a verdadeira marca de Deus num avivamento. Em Sua sabedoria, Ele criou as coisas de tal maneira que, quando Ele está se movendo, quem normalmente primeiro observa isso é o mundo. Eu procuro, por exemplo, a reação dos endemoninhados. E também quero ouvir os viciados em drogas, os ex- criminosos e as prostitutas. Quando Deus se move num avivamento de poder, essas pessoas o observam, mas não ficam criticando, e sim como estando em grande necessidade de Deus. E temos ouvido o que muitos deles falam. Eles estão sendo transformados, e dizem: “Somente Deus poderia ter feito esta transformação em minha vida. Isso é de Deus!”

Estando numa situação de grande necessidade é o que dá condições a uma pessoa para detectar quando Deus está fazendo alguma coisa nova. Essa situação de grande necessidade não precisa ser necessariamente ser um viciado em drogas, ou uma prostituta. Todo cristão deve manter um coração ansioso por receber mais de Deus. Estamos em grande necessidade! Jesus referiu-se a isso com as seguintes palavras: “Bem­ aventurados os humildes de espírito, porque deles é o Reino dos céus.”  A condição de se manter humilde de espírito, combinada com a de se ter a paixão do primeiro amor por Jesus são as chaves criadas por Deus para nos manter firmes no centro da Sua obra.

 

COMO OS SANTOS DEIXAM DE PERCEBER O MOVER DE DEUS

Andrew Murray é um dos grandes santos de Deus do início do século vinte. Foi conhecido como um grande mestre, que tinha uma paixão pela oração. Seus clamores por um avivamento eram fabulosos. Quando visitou o país de Gales para conhecer o avivamento de 1904, ele foi tocado pela impressionante presença de Deus. Mas ele deixou o país de Gales com o pensamento de que, se permanecesse ali, mesmo não intencionalmente ele contaminaria a pureza da obra que Deus estava fazendo. Ele não participou do avivamento pelo qual havia orado tanto.

Um mover de Deus geralmente vem com um estigma, algo que não é nada convidativo e que é considerado até mesmo repugnante por alguns. Línguas estranhas foram o estigma do século vinte que muitos não tiveram condições de suportar. G. Campbell Morgan, um grande homem de Deus e expositor da Bíblia, rejeitou o Avivamento Pentecostal, chamando-o de “o último vômito do inferno!” Suportar reprovações é, com frequência, um requisito para se permanecer num avivamento.

 

SUPORTANDO A REPREENSÃO DO SENHOR

Maria recebeu a anunciação mais surpreendente que jamais foi dada a alguém. Ela daria à luz a criança que seria o Messias. Ela havia sido escolhida por Deus para essa missão, e o anjo chamou-lhe de “favorecida; o Senhor é contigo”.

Essa condição de favorecida começou com a visitação do anjo. Foi uma experiência atemorizante! Ela recebeu uma palavra que era incompreensível e impossível de se explicar. Depois do choque inicial, ela ficou com o dever de ter que relatar tudo isso a José, aquele que seria o seu esposo. Sua reação, diante dessa notícia, foi que ele “resolveu deixá­la secretamente”. Em outras palavras, ele não acreditou que aquilo era de Deus, e achou melhor não prosseguir com os planos que tinha de se casar com ela. Afinal de contas, que capítulo e versículo das Escrituras diz que Deus se manifesta desse modo perante seu povo? Isso nunca havia acontecido antes. Não há precedente bíblico de uma virgem dar à luz um filho. Não bastasse esse óbvio conflito com José, Maria teria ainda que suportar o estigma de ser a mãe de um filho “ilegítimo” durante toda a sua vida. Um favor segundo a perspectiva de Deus nem sempre é muito agradável sob o nosso ponto de vista.

Tal como Maria, aqueles que passam por um avivamento têm um encontro com Deus que vai além da razão. Poucas são as vezes em que temos uma compreensão imediata sobre o que Deus está fazendo e por quê. Às vezes nossos amigos mais queridos nos abandonam, declarando que o mover em que estamos é do diabo. E ainda ocorre que somos considerados como um elemento estranho pelo restante do Corpo de Cristo. A disposição para suportarmos a rep ovação de nossos irmãos e irmãs faz parte do custo que temos que pagar para o mover do Espírito. “Por isso, foi que também Jesus sofreu fora da porta. Saiamos, pois, a ele, fora do arraial, levando o seu vitupério.” O avivamento geralmente nos leva para fora do arraial – da comunidade religiosa. E muitas vezes é fora do arraial que Ele está!

Estar com um estigma não é uma garantia de que estamos passando por um verdadeiro mover de Deus. Algumas pessoas podem sofrer uma repreensão por causa de uma heresia, ou impureza, ou legalismo. E a tensão decorrente de sermos confundidos com tais situações é que toma o verdadeiro estigma muito mais difícil de suportar. Daniel passou por esse conflito interior. Ele permaneceu fiel ao seu chamado, apesar de ser considerado apenas mais um dos magos da Babilônia, pelo rei e por sua corte.

 

O CÉU AGORA, OU O CÉU AQUI

Como foi dito, quando se extingue o Espírito, isso se torna provavelmente a causa mais frequente do fim de um avivamento, em relação a todas as outras possíveis causas. Até mesmo aqueles que abraçaram o mover de Deus muitas vezes chegam a um ponto em que a sua zona de conforto estendeu-se até um ponto em que não dá mais para aguentarem. Então passam a procurar um lugar para se situarem, um lugar em que possam ter compreensão e exercer o controle.

A segunda maior razão para o fim de um avivamento é quando a Igreja começa a esperar a volta do Senhor em vez de dedicar-se a buscar um maior irrompimento nas linhas do inimigo no desempenho da Grande Comissão. Tal postura não é incentivada nas Escrituras. Ela transforma a bendita esperança num bendito escape. Querer que Jesus volte agora é o mesmo que sentenciar bilhões de pessoas ao inferno por toda a eternidade. Não é que não devamos ansiar pelo céu. Paulo disse que essa esperança é um conforto para o cristão. Mas querer o fim de todas as coisas é pronunciar um juízo sobre toda a humanidade que está fora da Igreja. Até mesmo Paulo não quis voltar a Corinto até que a obediência deles fosse total. Será que Jesus, Aquele que pagou o preço por todo pecado, está ansioso para voltar sem que a grande colheita final tenha ocorrido? Creio que não. Desejar que a Igreja esteja no céu agora é de fato a contrafação de se buscar primeiramente o reino. Há uma diferença entre clamar pelo céu agora, e clamar pelo céu aqui! Se um avivamento nos levar para o fim de nossos sonhos, será que isso significa que alcançamos o fim dos sonhos do Senhor? Um avivamento tem de ir para um ponto muito além de tudo o que possamos imaginar. Se ficar aquém, ficou sem cumprir todo o seu propósito.

Muitos avivalistas tiveram irrompimentos tão significativos nas linhas inimigas que tiveram visões de que a vinda do Senhor estava próxima. E eles falharam em sua missão, recebida de Deus, de habilitar a Igreja para fazer o que eles haviam recebido do Senhor. Em consequência, eles alcançaram multidões, em vez de nações e gerações. Temos de planejar como se tivéssemos uma vida inteira para viver, mas trabalhar e orar como se tivéssemos bem pouco tempo à nossa frente.

 

ENCONTROS FECHADOS

Os discípulos, que estavam acostumados a ver Jesus surpreendendo-os a toda hora, viram-se ainda numa outra situação totalmente fora do comum: tiveram que esperar pelo cumprimento da promessa do Pai – fosse isso o que fosse. Os dez dias que passaram juntos sem dúvida lhes deu uma oportunidade para expressar seu pesar por terem discutido quem seria o maior entre eles, e quem nunca abandonaria o Senhor. Alguma coisa havia acontecido, pois eles permaneciam juntos, sem a presença de Jesus para os manter em paz.

Eles estavam perto de terem um encontro que tornaria insignificantes todas as outras experiências anteriores, em comparação com o que estava para acontecer. Deus em breve iria enchê-los por completo com a Sua própria pessoa, dando-lhes o poder que eles tinham visto fluir através de Jesus, de forma a explodir dentro deles. Seria a culminação dos esforços de Deus para a restauração e para o comissionamento do homem, o que estava interrompido desde que o homem deixou de cumprir o seu chamado para dominar sobre a terra, conforme narrado em Génesis. O que estava por acontecer seria um marco de extrema importância para toda a humanidade, para todo o sempre. Dez dias haviam se passado, o Pentecostes tinha chegado, e eles ainda estavam orando como vinham fazendo nos nove dias anteriores. “De repente…” … o salão em que estavam cento e vinte pessoas agora se encheu de som e de vento, de fogo e de manifestações extáticas de louvor expressas através de línguas conhecidas e desconhecidas. Não importando como se possa interpretar as instruções de Paulo sobre os dons espirituais, há um ponto importante com o qual todos temos de concordar: é que aquela reunião de Atos 2 foi totalmente dirigida pelo Espírito Santo. Aquela Igreja recém-nascida não tinha ainda aprendido o suficiente para querer controlar Deus. Os crentes não tinham ainda desenvolvido preconceitos sobre que práticas seriam aceitáveis e quais as que não seriam aceitáveis. Eles não tinham uma base na Bíblia nem na experiência para entender o que estava acontecendo.

Observemos as características desse culto dirigido pelo Espírito:

 1. Estavam orando.

2. Estavam em unidade.

3. Todos falaram em línguas.

4. Incrédulos ouviram aquelas línguas.

5. Pessoas foram salvas.

Considere em que situação difícil aqueles 120 homens de Atos 2 estavam: eles haviam acabado de ter um encontro com Deus, sem que um capítulo ou versículo tenha sido escrito para explicar o que tinha acontecido. Pedro, sob a direção do Espírito Santo, usou Joel 2 como o texto para dar respaldo à experiência pela qual estavam passando. Joel 2 declara que haveria um derramar do Espírito Santo, com profecias, sonhos e visões. O derramar do Espírito aconteceu em Atos 2 tal como prometido, mas não teve nenhum dos complementos mencionados por Joel. Em vez disso, foi com o som de um vento, e com fogo e com línguas. Foi Deus que usou aquela passagem para dar suporte a essa nova experiência.

O próprio fato de que aqui parece haver uma interpretação imprópria das Escrituras serve para nos mostrar que somos nós que muitas vezes temos uma abordagem incorreta da Bíblia. Ela não é um livro de listas que confinem ou encurralem a ação de Deus. A Palavra não contém Deus – ela O revela. Joel 2 revelou a natureza da obra de Deus entre os homens. Atos 2 é uma ilustração do que Deus pretendia através da profecia.

 

SER OU NÃO SER OFENSIVO

Muitos cultos cristãos pretendem ser tão não-ofensivos quanto possível. O que tomam como verdade é que qualquer uso dos dons do Espírito dispersará as pessoas, desviando-as do evangelho. Contudo eles já se desviaram.

Para a maioria das pessoas, um culto muito expressivo, a ministração de dons espirituais, e coisas semelhantes apenas fazem com que se desviem os crentes que tenham tido a infeliz experiência de terem sido ensinados contra elas. Mas muitas dessas pessoas acabam voltando para quem tem essas experiências quando estão enfrentando uma situação impossível e precisam da ajuda de alguém experimentado no evangelho de poder.

A Igreja tem o vício nada saudável da perfeição: aquela do tipo que não dá espaço para desordens. Tal padrão somente pode ser alcançado restringindo-se ou rejeitando os dons do Espírito. “Tudo, porém, seja feito com decência e ordem”. O “tudo” desse versículo refere­ se às manifestações do Espírito Santo. Portanto, tudo seja feito antes de termos o direito de discutir quanto à ordem.

Manter tudo em ordem tem se tornado a nossa grande comissão. Os dons do Espírito interferem no conduzir as coisas em ordem, e a ordem torna-se a coisa de maior valor. Assim, por que dar valor a uma desordem ocasional? “Não havendo bois, o celeiro fica limpo, mas pela força do boi há abundância de colheitas.” Desordens são necessárias para o crescimento.

Quão importante é o crescimento para Deus? Jesus certa vez amaldiçoou uma figueira por não ter frutos fora da estação! Numa de Suas parábolas um homem foi lançado para fora, nas trevas, por ter enterrado o seu talento, não tendo obtido um aumento para o seu Senhor.

Há uma enorme diferença entre um cemitério e uma creche. O primeiro está em perfeita ordem, mas o segundo tem vida. Uma pessoa que não tenha filhos pode entrar na creche de uma igreja e, vendo as crianças alegres, movendo-se em suas brincadeiras, talvez diga, erroneamente, que está tudo em desordem. Em comparação com a sala de estar da sua casa, por certo está tudo em desordem. Mas quando um dos pais entra na sala das crianças e vê que o seu filhinho está brincando com seus coleguinhas, para ele está tudo perfeito! É uma questão de perspectiva. A ordem tem o propósito de promover a vida. Além desse ponto ela trabalha em sentido contrário ao que consideramos de valor.

 

NA IMAGEM DELE

Não chegamos a Deus quando vivemos com a nossa imagem de quem Ele é. Temos o hábito de fazer com que Ele se pareça conosco. De fato, se pensamos que O entendemos, provavelmente nós O conformamos à nossa própria imagem. Têm de haver ainda alguns aspectos misteriosos em nosso relacionamento com Aquele que se propôs a operar além da nossa imaginação.280 Empenharmo-nos a conhecê-Lo significa lançarmo­nos numa aventura em que muitas questões surgirão. Nosso desejo, nascido de Deus, de um avivamento tem de nos tornar totalmente ansiosos de reconhecê-lo, quando ele vier. Sem essa ansiedade, ficamos satisfeitos com o nosso status atual, e tornamo-nos nossos piores inimigos na mudança da história. A história não pode ser mudada eficazmente até que estejamos dispostos a sujar as mãos. Isso acontece quando aceitamos o chamado de nos infiltrarmos no sistema babilônico.

Disso, porém, vamos tratar no próximo capítulo.