A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

QUANDO A VIRTUDE DESVIRTUA

Reafirmação do bom caráter moral do ser humano (nas redes sociais e fora delas) é a mais nova virose contemporânea

Quando a virtude desvirtua

Greta Thunberg tem sido elogiada por chefes de Estado, foi recebida pelo papa e discursou na abertura da Cúpula de Ação Climática da Organização das Nações Unidas (ONU), em setembro. São distinções raras, se não inéditas, para uma adolescente de 16 anos. A jovem sueca tornou-se um símbolo global e, como todo símbolo, evoca reações diversas e contraditórias: para os admiradores, a face limpa e as tranças que conferem um ar de inocência pueril à líder das greves estudantis pelo clima representam a pureza de um movimento internacional que deseja salvar o planeta; para os críticos, o ricto que contorceu o rosto de Thunberg nos momentos mais passionais do discurso na ONU – “Tudo que vocês fazem é falar em dinheiro e no conto da carochinha do crescimento econômico eterno. Como vocês se atrevem? (…) A mudança está chegando, quer vocês queiram, quer não” – é a expressão radical de um catastrofismo cego. A personalidade de Thunberg e suas fragilidades – em especial, o fato de ela ser portadora da síndrome de Asperger – são arrastadas para a disputa. Fatalmente, levantou-se a acusação de que ela seria uma jovem mimada praticando a “sinalização de virtude”. Em anos recentes, essa expressão pejorativa – “virtue signaling”, em inglês – tornou-se corrente na guerra cultural entre a esquerda e a direita americanas. Designa uma forma de exibicionismo público: aqueles que alardeiam sua adesão a uma causa, mas não se comprometem efetivamente com ela, estariam apenas dando sinais de sua própria virtude, sem que isso lhes custasse qualquer esforço ou dispêndio. A dedicação integral que Thunberg demonstra ao ambientalismo a princípio descartaria a possibilidade de que ela esteja apenas propagandeando os próprios méritos. Mas a admiração quase sagrada e, de outro lado, a repulsa visceral que sua figura inspira indicam a presença dessa virose contemporânea. Greta Thunberg, como qualquer um de nós que já tenha feito declarações políticas exaltadas no Twitter, está imersa no que o psicólogo americano Geoffrey Miller chamou, em um livro recente, de “cultura da sinalização de virtude”.

Não é só Greta Thunberg: qualquer tema ou figura controversas convidam à sinalização de virtude. Quando consideramos que apenas nosso ponto de vista está “do lado certo da história”, o simples fato de anunciá­lo se torna uma afirmação de nosso bom caráter moral. As queimadas na Amazônia e o aborto, a liberação das armas e os protestos no Chile, o Brexit e a reforma da Previdência: quantos posts em redes sociais sobre esses temas você, leitor, já encontrou (ou escreveu) que incluíssem informação sólida e argumentação ponderada – e não apenas adesão passional ou rejeição rápida?

A sinalização de virtude, porém, não foi criada pela polarização política ou pela pulverização informativa das redes sociais. Nos ensaios reunidos em Virtue signaling, Miller ensina que a espécie humana desde sempre se dedicou a sinalizar virtude. E isso não é tão ruim assim.

Professor do departamento de psicologia da Universidade do Novo México, Miller segue a linha teórica conhecida como “psicologia evolutiva”, que busca entender o comportamento humano a partir da biologia darwinista. Suas pesquisas centram-se na seleção sexual, um mecanismo da evolução proposto por Charles Darwin na obra posterior ao seminal. A evolução das espécies. Sob os imperativos draconianos da seleção natural, os seres vivos devem se adaptar às pressões cambiantes do ambiente – ou morrerão sem propagar seus genes para futuras gerações. Mas os animais também precisam adaptar-se para atrair parceiros sexuais – ou, mais uma vez, morrerão sem deixar herança genética. Danças de acasalamento e o canto dos pássaros estão entre os produtos mais vistosos da seleção natural, e o ser humano de ambos os gêneros também segue certos rituais de sedução. Miller argumenta que a seleção sexual teve parte importante na evolução da moral humana – e, por extensão, da sinalização de virtude.

Na fase do flerte, parceiros avaliam-se mutuamente, selecionando valores como honestidade, generosidade, altruísmo. E até a ideologia política tem seu papel nos ritos da seleção sexual. Em um dos ensaios mais provocativos de Virtue signaling, Miller recorda uma greve estudantil contra o apartheid na Universidade Columbia, em Nova York, onde ele estudava em 1985. Os manifestantes exigiam que a universidade se desfizesse de todos os investimentos em empresas que apoiavam o governo da África do Sul – medida que exerceria uma pressão pouco significativa sobre o regime racista. Miller recorda que muitos participantes acharam parceiros sexuais durante as manifestações. Surgiram daí até algumas relações estáveis, que duraram mais do que o interesse dos estudantes pela África do Sul. A exibição mútua de boas intenções político ­ ideológicas propiciou condições ideais para a seleção sexual. A participação no protesto teria, portanto, uma função análoga à cauda multicolorida do pavão, um apêndice sem função outra que dar sinais de vigor e saúde genética para a fêmea da espécie.

O autor admite que considerar expressões ideológicas como estratégias para levar parceiros para a cama pode “trivializar todo o discurso político”, mas acredita que essa perspectiva também confere uma visão mais acurada da irracionalidade que move as paixões políticas. Nessa perspectiva, qualquer profissão de fé em uma causa ou partido seria uma sinalização de virtude – com o fim último de seduzir o objeto do desejo que por acaso compartilha das mesmas crenças (também há, claro, ganhos sociais: professar as ideias mais aceitas em determinado grupo traz prestígio). Não haveria nada de errado, porém, em ostentar bons sentimentos para, inconscientemente, perseguir a satisfação erótica ou o sucesso social. Sempre fizemos isso, diz Miller. A expressão “virtue signaling” só teria se popularizado na conversa sobre política a partir da campanha presidencial americana de 2016, da qual Donald Trump saiu vencedor. Mas desde tempos perdidos na memória da espécie humana já gostávamos de propagar nossos valores morais, nossas concepções éticas, nossas crenças religiosas. A generosidade é quase sempre ostensiva: o voluntário que limpa o óleo nas praias do Nordeste e o profissional do Médico sem Fronteiras que administra vacinas em áreas conflagradas do Congo gostam de ser reconhecidos pelo que fazem, e é bom que seja assim, pois seus exemplos incentivam mais pessoas a doarem tempo e dinheiro para as causas que julgam importantes.

Há sinais de virtude que custam tempo, esforço, dinheiro. E há a camiseta com slogan, o adesivo do candidato político no vidro do carro, o post no Facebook. Cara ou barata, a sinalização de virtude responde pelo melhor e pelo pior do ser humano, diz Miller: combinada a uma mentalidade aberta e tolerante, à curiosidade científica e à racionalidade, a sinalização de virtude já nos deu o abolicionismo, o sufragismo, os movimentos pela liberdade de expressão. Quando carece desses atributos, a sinalização de virtude gera monstros como “o Reino de Terror de Robespierre, o Holodomor de Stálio, o Holocausto de Hitler, a Revolução Cultural de Mao e o Twitter”.

Equiparar o Twitter aos maiores genocídios do século XX, deve ser óbvio, é uma blague de Miller. O autor, aliás, é bem ativo na rede social – e já teve problemas por lá, quando fez uma piada desastrada sobre obesidade. Mas é claro que a sinalização de virtude só ganhou conotações pejorativas porque, graças às redes sociais, nunca foi tão fácil e barato emitir sinais de nossa elevada moralidade: menos de um minuto no celular, e você já demonstra a todos os seus amigos que está indignado com o novo governo, cujas reformas roubam os direitos do trabalhador, ou com a hipocrisia dos “vermelhos” que passaram anos envolvidos em esquemas de corrupção bilionária e hoje reclamam de triviais rachadinhas. Miller, porém, não chega a discutir as novas oportunidades que a comunicação virtual oferece à informação duvidosa e à opinião inconsequente. Não é a única lacuna de seu novo livro: coletânea de ensaios cuja relação com o tema anunciado no título nem sempre é direta, Virtue signaling acaba não entregando tudo que seu instigante prefácio promete – e não explica exatamente o que é a tal “cultura da sinalização de virtude” em que vivemos hoje.

Um bom ponto de partida para entender o alcance dessa cultura pode ser “A horrenda ascensão da sinalização de virtude”, breve ensaio que o jornalista britânico James Bartholomew publicou na revista The Spectator, em 2015 – esse texto, aliás, tem sido creditado como o pioneiro na popularização do termo “sinalização da virtude”. Bartholomew comenta sobretudo casos de sinalização na política britânica, mas abre o ensaio com um exemplo da publicidade: os anúncios da rede americana Whole Foods, que vende comida orgânica, apregoam uma nova “consciência” abraçada pela empresa – uma consciência que “defende o que é bom”. É uma tendência clara da publicidade contemporânea, que já não se contenta em afirmar que o produto anunciado é melhor que os concorrentes: o suco em caixa afirma que é “do bem”, a rede de lanchonetes garante que seu hambúrguer toma o mundo melhor e inúmeras empresas vangloriam-se de suas práticas “sustentáveis” e “inclusivas”.

O artigo é especialmente acurado ao notar que a virtude pode ser sinalizada até por declarações de ódio ou repulsa. Dizer “eu detesto SUVs” é uma forma de se mostrar preocupado com o meio ambiente. Figuras políticas divisivas servem bem a esse jogo: declarações de ódio a Bolsonaro ou Lula garantem acolhida fácil à esquerda ou à direita. O ódio, no entanto, não é um sentimento dos mais virtuosos. Em sua modalidade contemporânea, a sinalização de virtude tem, a rigor, pouco a ver com virtude.

A bondade de um indivíduo, lamenta Bartholomew, não se prova mais com gestos simples como ajudar um idoso a atravessar a rua ou doar dinheiro para caridade. “Ninguém precisa mais fazer coisa alguma. A virtude vem de meras palavras ou até de crenças cultivadas em silêncio”, diz o jornalista. Este é o cerne da cultura de sinalização de virtude: a retórica auto celebratória conta mais que a ação altruísta.

O filósofo australiano Peter Singer, conhecido por sua defesa dos direitos dos animais, certa vez propôs que a doação de sangue seria um exemplo de gesto altruísta inteiramente desinteressado: em geral, o doador não é pago e nem terá tratamento privilegiado na eventualidade de um dia precisar de uma transfusão. O biólogo Richard Alexander contestou a ideia generosa de Singer: o doador é pago não em dinheiro, mas em reconhecimento social. “Quem entre nós não tem certa reverência pela pessoa que nos diz casualmente que acabou de doar sangue?”, pergunta Alexander. A sinalização de virtude – nesse caso, virtude real, exercida em um ato efetivo – vem na forma do esparadrapo no braço, atestando para vizinhos e colegas de trabalho que a doação foi realizada naquele mesmo dia. Pode-se dizer que a vazia sinalização de virtude hoje praticada nas redes sociais consiste em aumentar o esparadrapo até que, de tão grande e chamativo, ele torne dispensável a doação de sangue Mas qual seria o problema de fazer alarde em torno de causas pelas quais nada se fez se a causa é justa? Quando a virtude certa é sinalizada, no fim das contas algum bem não pode sair daí? Talvez. Mas há custos para a vida política, que abandona a discussão de ideias para se centrar sobre a exaltação – ou o achincalhe – de personalidades públicas. E há custo talvez maiores para a vida social, para a mais básica civilidade cotidiana: se uma opinião ligeira expressa no Twitter ou até uma hashtag – #Lulalivre, #BolsonaroMito – valem por uma afirmação de virtude, então opiniões memes divergentes só poderão ser o Mal encarnado. Abre-se a porta para a intolerância, o sectarismo, a ignorância, a propagação da mentira, que tomam tóxico o debate público.

Na guerra de vaidades dos sinalizadores da virtude, os problemas cada vez mais complexos que nos afetam são reduzidos a expressões de narcisismo exacerbado. É assim com aquecimento global. Em sua fala na ONU Greta Thunberg até citou números do relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) órgão internacional que monitora a temperatura do planeta. Ninguém deu atenção a esses dados: estavam todos comovidos com o drama da estudante sueca cujos sonhos se perderam porque os gananciosos líderes mundiais não querem ouvir sua mensagem virtuosa.

Quando a virtude desvirtua. 2

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.