A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DE FRENTE COM A RAIVA

A raiva é claramente oposta à paciência, essa habilidade de se manter emocionalmente estável e tolerante, diante de incômodos e dificuldades. Apesar dos estragos que pode causar, cientistas apostam que é possível usar esse sentimento de forma saudável.

Alguns autores argumentam que a raiva tem seu lado positivo, desde que seja usada de maneira adequada. “Qualquer um pode irritar-se, isso é fácil; difícil é zangar-se com a pessoa certa, na medida certa, no momento certo, com o propósito certo”, escreveu Aristóteles, há mais de 2000 anos, em sua obra clássica A arte da retórica. Ter essa medida, entretanto, não é fácil. Justamente por isso tendemos a associar a ira ou mesmo a irritação à destrutividade – o que é bastante compreensível, já que essa emoção realmente pode destruir relacionamentos e carreiras profissionais. O segredo para reverter esse quadro pouco promissor parece estar na clareza a respeito de quando, onde, como e por que dar vazão a essa emoção – sem que ela nos controle.

Um estudo particularmente interessante sobre a raiva veio na esteira dos ataques terroristas de 11 se setembro de 2001, nos Estados Unidos. A psicóloga Jennifer Lerner, atualmente na Universidade de Harvard, reuniu informações sobre as emoções e atitudes de aproximadamente mil americanos adultos e adolescentes apenas nove dias após os atentados e continuou o acompanhamento nos anos subsequentes. Ela descobriu que as pessoas que se sentiram irritadas com o terrorismo foram mais otimistas sobre o futuro do que aqueles que simplesmente tinham medo de novos ataques. Os homens do estudo se mostravam mais irritados que as mulheres, e eram geralmente mais otimistas.

ESTUDOS SOBRE A RAIVA

Em um estudo de laboratório, publicado no periódico científico Biological Psychiatry, Jennifer Lerner descobriu que aqueles que sentem raiva em vez de medo numa situação estressante têm resposta biológica menos intensa, com menor variação da pressão arterial e dos níveis de hormônios do estresse. Isso mostra que quando você está em uma situação enlouquecedora e sua raiva é contextualizada, a emoção não é necessariamente ruim – desde que fique restrita a aquela situação.

“Por sua natureza, a raiva tende a ser uma emoção bastante energizante, e desde que bem encaminhada pode ajudar promover mudanças na vida pessoal e social”, diz o psicólogo Brett Ford, na Universidade da Califórnia, em Berkeley. Por exemplo: sentir raiva da própria preguiça ou impulsividade, que constantemente trazem problemas à própria pessoa, pode impulsionar a mudança desses comportamentos.

Nesse caso, a raiva tem o importante papel de criar uma separação psíquica entre o eu e aquilo que incomoda – no caso, a preguiça ou impulsividade. Essas características não “são” a pessoa e, dessa maneira, podem ser arrefecidas, transformadas. É como se a ira estivesse direcionada para curar em vez de ferir. Mas é importante respeitar o “prazo de validade” da raiva. Remoer a irritação (ainda que seja consigo mesmo, com atitudes depreciativas e autopunitivas), sem se direcionar para alterar aquilo que incomoda costuma ser meramente autodestrutivo.

A raiva também pode ser de vital importância para mobilizar apoio para um movimento social. A psicóloga Nicole Tausch, professora da Escola de Neurociência e Psicologia da Universidade de St. Andrews, no Reino Unido, afirma que em contextos políticos, principalmente quando as pessoas se engajam de manifestações pacíficas na esperança de convencer o adversário a corrigir injustiças sociais, a raiva pode sinalizar que os participantes se sentem ligados e representados pelo sistema político. “Expressões de raiva durante os protestos, podem ser vistas não como ameaças ao sistema, mas como sinais de uma democracia saudável”, afirma.

Um estudo recente conduzido pelo psicólogo Andrew Livingstone, da Universidade de Stirling, no Reino Unido, enfatiza a ideia de que, em caso de ameaça, a raiva pode ter efeito protetor, fazendo com que as pessoas se mobilizem para se protegerem não só a si mesmas, mas também umas às outras. Para chegar a essa conclusão sua equipe trabalhou com dois grupos de pessoas: no primeiro deles os participantes tinham em comum a procedência do sul do País de Gales; no segundo a formação era aleatória. Nos dois casos foram medidas as reações emocionais desencadeadas nos participantes ao ser dito aos voluntários que o governo retiraria o apoio oferecido a moradores do sul do País de Gales. Irritadas, as pessoas passaram a se articular buscando formas de reverter esse quadro.

CONQUISTA DA PACIÊNCIA

É possível adotar práticas que ajudam a manter a serenidade e o relaxamento, nos momentos mais críticos. O diferencial está no treino: exercitar conscientemente uma atitude calma quando estamos tranquilos é fundamental para enfrentar as tormentas com maior equilíbrio

ASSUMA – Não adianta negar, esconder ou disfarçar a irritação. Simplesmente admitir o que está sentindo e aceitar que isso às acontece, sem fazer julgamentos, em muitos casos é suficiente para acalmar-se.

CHEGUE “PERTO” – Entre em contato com a sensação incômoda. Mesmo em meio ao caos emocional, tome alguns minutos para você. Sente-se em silêncio, preste atenção à sua respiração, deixe que a sensação de raiva ou tensão se manifeste e apenas a “observe” o que sente por alguns minutos.

DEIXE A POEIRA ABAIXAR -Tente não pensar sobre a raiva nem falar dela na hora da irritação, isso só vai deixá-lo ainda mais enfurecido.

AFASTE-SE – Se acha que pode fazer algo de que possa se arrepender no futuro, fique longe do objeto de raiva. Tenha em mente que a fúria passa, mas os estragos feitos podem permanecer por muito tempo.

CUIDADO COM A METRALHADORA – Em geral, evitamos despejar a ira sobre as figuras de autoridade que nos incomodam, mas podem promover alguma retaliação. Parece mais fácil descontar o mau humor sobre aqueles que não podem se defender, como os que ocupam cargos subalternos, ou pessoas próximas, que sabemos que nos amam (filho, pais, amigos ou cônjuges).

NÃO JUSTIFIQUE – Passado o auge da raiva, é comum buscarmos estratégias para culpabilizar o outro, mas a verdade é que somos responsáveis por nossas escolhas e atitudes. Não importa o que o outro fez – ele não obrigou você a fazer o quer que fosse.

RESPIRE – A primeira pista da perda de controle é a alteração da respiração. Por isso, quando se sentir irritado, preste atenção na cadência com que inspira e expira e no percurso que o ar faz dentro do seu corpo.

FAÇA O QUE LHE FAZ BEM – Em vez de continuar sob o efeito desgastante da situação que provocou tanto estresse, mude o foco. Desligue-se conscientemente do que o incomoda e dedique-se a fazer algo que lhe traga bem-estar: fique perto da natureza, leia um livro ou assista a um filme, de preferência divertido

CONSIDERE OUTRO JEITO DE AGIR – Passado o momento irritação, pense na situação que provocou o descontrole e imagine-se exatamente no mesmo contexto agindo de outra forma com mais serenidade, escolhendo as palavras e o tom que realmente gostaria de usar.

PROCURE AJUDA – Falar sobre o que o aborrece com amigos ou colegas não costuma trazer grandes benefícios, principalmente se a irritação acontece com frequência. O mais indicado é tratar do assunto numa sessão de psicoterapia, num ambiente protegido, em que a situação possa ser ressignificada com a ajuda de um psicólogo.

OUTROS OLHARES

A VIDA ENTRE MUROS

Como é a rotina dos internos da instituição para doentes psiquiátricos, localizada em Niterói

Quando chegou ao Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico Henrique Roxo, em Niterói, Rio de Janeiro, Daniel Coutinho, então com 41 anos, era recluso, não gostava de conversar e, sobretudo, era obcecado pela leitura de livros de espiritismo. Nunca apresentou sinal de agressividade. Seu laudo de sanidade mental informava que ele era portador de um transtorno de personalidade esquizotípica, caracterizado pela dificuldade de manter relacionamentos. Fora internado em abril de 2015 depois de cometer um crime atroz: matara o pai, o cineasta Eduardo Coutinho, a golpes de faca. Com a mesma arma, feriu a mãe, Maria das Dores, que sobreviveu. Ao seguir a rotina do hospital — que previa o tratamento psiquiátrico e a medicação que jamais tomara antes da tragédia —, Daniel Coutinho começou a apresentar melhora. Tocava violão nas horas livres e, jornalista de formação, se dispôs a confeccionar os convites para as festas de Carnaval no hospital. Não demorou até se tornar o “repórter” da unidade.

Houve um dia em que, espontaneamente, Coutinho falou sobre o crime que cometera. Disse que se arrependia. No segundo ano de tratamento, passou a ter direito às chamadas “saídas terapêuticas”. Visitava o Centro de Atenção Psicossocial (Caps) e passou a frequentar o Shopping Rio Sul, em Botafogo, parada obrigatória para comer pizza, seu prato predileto. Em maio último, foi autorizado a deixar o Henrique Roxo e mudar-se para uma residência terapêutica, onde tem uma vida praticamente independente. No hospital em que vivia encarcerado, é lembrado como um “filho” ou um “passarinho que precisava voar”. Deixou saudade.

Outros 97 internos (80 homens e 17 mulheres) que cumprem medidas de segurança no Henrique Roxo aguardam o dia em que, assim como Coutinho, deixarão o encarceramento. O hospital, sediado em Niterói desde 1968, é o que restou do Heitor Carrilho, o mais antigo hospital do sistema prisional brasileiro, inaugurado em 1921, no centro do Rio de Janeiro. Em 1975, fundiu-se ao Henrique Roxo, mantido pelo governo do Rio e conveniado ao Sistema Único de Saúde (SUS). Em 2016, a unidade do centro do Rio foi desativada. Esta equipe de reportagem foi a primeira autorizada a visitar as instalações do local, fotografar e entrevistar seus funcionários desde sua inauguração, há mais de 50 anos. Além de pioneiro no atendimento de custódia, o hospital também foi o primeiro a colocar em prática o sistema de saídas terapêuticas, como aquelas a que Coutinho teve direito antes de deixar a internação.

Os internos do Henrique Roxo são considerados inimputáveis — ou seja, sem a plena capacidade de entender os crimes que cometeram por padecerem de doenças psiquiátricas. Ao serem admitidos, cumprem a chamada “medida de segurança”, em que se recomenda o tratamento compulsório em hospital psiquiátrico sob custódia ou em ambulatórios, a depender da gravidade do delito. O tempo mínimo de internação é de um ano. O máximo, depende do juiz.

Cada paciente tem um relatório psicossocial que contempla informações colhidas pela equipe com parentes, além da rede de saúde mental que vai atendê-lo depois que deixar o hospital de custódia. Um denominador comum entre a maior parte dos internos é o fato de terem apresentado, ao longo da vida, sintomas de doença psiquiátrica não captados pela família ou por pessoas próximas. Por isso, não recebiam tratamento adequado. “Mais de 90% dos pacientes cometeram delitos porque não estavam inseridos nas unidades de saúde mental. Para piorar, a crise contribuiu para o desabastecimento de medicamentos em centros de atenção psicossocial. Há alguns casos em que o paciente vai morar na rua, tornando-se agressivo”, contou a psicóloga Fernanda de Oliveira Guimarães Santos. No Henrique Roxo, 22% dos internos não têm referência ou vínculo familiar. A equipe do hospital sai então em busca de um padrinho para o paciente. Se não encontra, requer o benefício do INSS para o interno. O valor ajuda a pagar por uma vaga em residência terapêutica.

As mulheres são menos numerosas — apenas 17 entre 90 internos — e ficam em alas separadas dos homens.

Vinte e cinco passos separam o pavilhão hospitalar de dois andares do Henrique Roxo do acesso à Rua Heitor Carrilho, que leva esse nome em homenagem ao psiquiatra que dirigiu o primeiro manicômio judiciário do país. Depois de passar por dois portões de ferro, o primeiro de quase 5 metros e outro de 4 metros de altura, permanentemente fechados, há dois amplos corredores com azulejos brancos. O pé-direito dos cômodos tem cerca de 4 metros. Os locais são limpos, pelo menos, duas vezes ao dia. Neles, há várias portas acopladas com um visor em acrílico que permite ver o que acontece no ambiente interior, medida adotada há dez anos. A ideia foi do inspetor penitenciário Márcio Felipe Pombo, de 46 anos, atual diretor da unidade. Há outras portas de ferro vazadas, fechadas apenas à noite, por motivos de segurança.

Tudo deve ser pensado para que nada sirva como instrumento para ferir ou matar. As escovas de dente têm de ser cortadas pela metade, pois, se afiadas, podem virar uma faca improvisada. Os vasos sanitários não chegam a ser os “bois”, os buracos no chão comuns em presídios, mas uma pequena parede de cimento, a cerca de 25 centímetros do piso. A justificativa é similar à das escovas: qualquer pedaço de louça pode servir como arma. Apesar de raros, há casos de suicídio. Não houve nenhum nos últimos três anos, segundo a direção, mas, em 2016, foram dois. Certa vez, um paciente chegou a desfiar uma parte da costura da bermuda e tecer uma linha mais resistente para tentar se enforcar. Ele fazia isso no quarto, na hora de dormir. Foi pego durante uma revista.

Na ala masculina, os internos que têm bom comportamento e melhor controle mental são designados “olheiros”. Dormem nas enfermarias e avisam ao menor sinal de problema. Do toque de recolher, às 20 horas, quando os portões das galerias são trancados e a circulação pelos corredores é proibida, até as 7 horas da manhã do dia seguinte, eles se transformam em auxiliares da direção. Um dos pacientes, apelidado de Naval, chega a prestar continência aos inspetores penitenciários ao informar que está tudo sob controle.

Pombo, o diretor, é conhecido pelo talento para acalmar os internos mais agitados. Um, em especial, lhe desperta saudade. Com 120 quilos distribuídos em 2,05 metros de altura, Bebezão, como foi apelidado no local, deu entrada na emergência da unidade numa tarde de 30 de dezembro de 2015, véspera de Ano-Novo. “Ele chegou aqui em surto. Gritava que iam jogar uma bomba. Tentou agredir um servidor e, por ser grandão, ninguém queria tocar nele”, contou Pombo, que, à época, era chefe da segurança. Na confraternização de Ano-Novo, Pombo se encheu de coragem e abriu a grade onde estava o interno, ainda alterado. Ofereceu-lhe uma Coca-Cola. “Ele se sentou e cruzou as pernas. Pegou a garrafa e a segurou com as duas mãos. Parecia uma mamadeira para um bebê tamanho família. Daí o apelido: Bebezão. Ele passou a confiar em mim e, com o apoio de cinco colegas, tomou a injeção com tranquilizantes”, relembrou o diretor, ao sacar o celular e mostrar as fotos da despedida de Bebezão. Pombo se emocionou ao ver as imagens. “Ele faz falta aqui dentro. Era uma pessoa pura. Comia à beça! Dava o maior prejuízo.”

Bebezão chegou ao Henrique Roxo vindo do Instituto Philippe Pinel, no Rio. Lá, ao receber a visita de uma tia, que teria gritado com ele, ficou irritado e surtou. Acabou empurrando a senhora, que caiu e bateu a cabeça. Sem perceber a força que empregara, matou a tia.

Mas nem todos os casos são acidentais. Há aqueles maquinados por mentes consideradas perigosas e que requerem atenção redobrada. No banho de sol de uma manhã de agosto, durante uma visita à unidade, o clima de vigilância sobre determinados internos é visível. Um, em específico, é alvo de maior atenção: Marcelo Costa de Andrade, conhecido como o Vampiro de Niterói. O apelido lhe foi dado na década de 1990, quando confessou ter matado 13 meninos. Hoje, aos 52 anos, está há 28 no Henrique Roxo. Um funcionário revelou à reportagem que ele ainda sente atração por crianças. “Ele ficou louco em um dia de visita quando viu o filho de um interno. Tivemos de tirá-lo do pátio”, contou o servidor, que pediu para não ser identificado, ao relatar a ida de um adolescente ao local.

Com olhar intimidador, Andrade fica atento aos movimentos dos guardas o tempo todo. Na visita feita pela reportagem, ele chegou a se aproximar para fazer perguntas. Por determinação da direção, não estava autorizado a dar entrevistas. Depois de suas dúvidas serem sanadas, Andrade voltou ao lugar onde estava sentado, sempre sozinho. Não fez amigos. Recentemente, chegou ao hospital uma carta endereçada a ele. Como de praxe, a correspondência foi aberta. Estava escrita em inglês. O remetente dizia ser um serial killer americano admirador do brasileiro.

Qualquer surto psicótico de um interno pode servir como faísca para um desarranjo coletivo. Pombo contou que, certa vez, um paciente teve uma crise e agrediu outro, que revidou. “Quando fomos separá-los, o que reagiu disse: ‘Seu Márcio, não tive culpa. Eu surtei no surto dele’. É realmente isso que acontece. Um pode instigar o outro. Cada um foi para uma enfermaria individual, ter um tratamento especial da enfermagem, que reforça a medicação de acordo com as recomendações do psiquiatra de plantão. Não é castigo. Ficam lá até se estabilizarem”, explicou o diretor, negando se tratar de uma solitária.

Há duas atividades de tensão no hospital: a barbearia e as refeições. Há dois internos “barbeiros”, que têm habilidades mínimas para o ofício e estão estabilizados mentalmente a ponto de poderem usar uma lâmina ou a máquina de cortar cabelo, sempre sob supervisão da segurança. Há um ano e dois meses no Henrique Roxo, o barbeiro Cabeludo se gabou: “A maioria quer cortar cabelo comigo. Gosto do que faço. Quero até fazer curso de cabeleireiro quando sair daqui”. Cada paciente tem um aparelho separado em uma caixa com seu nome escrito. Cabeludo foi internado depois de uma tentativa de homicídio. Mas se justificou: “Ouço vozes pedindo que eu faça coisas erradas”. Disse que gosta do hospital, principalmente da comida, e “mantém o cabelo longo por ser homossexual”.

Entre a cozinha e o refeitório existe uma grade. Mesmo com a divisória, a cozinheira Lídia Maria Borges Franklin, de 67 anos, confessou sentir medo, embora esteja há oito meses no lugar. Ela sabe que ali há pessoas que mataram algum dia e isso a assusta. “Até que me obedecem direitinho, elogiam minha comida. Me chamam de tia. Sempre me pedem frango assado. Faço duas vezes por mês. Não querem que eu vá embora porque dizem que minha comida é a melhor que eles já comeram”, contou ela, que entrou para cobrir uma licença de quatro meses, mas acabou contratada porque a outra cozinheira não quis voltar.

Apenas o fornecimento de comida é terceirizado. Os serviços de limpeza, jardinagem e pequenos reparos são feitos pelos próprios pacientes. Foi uma forma de resolver a escassez de recursos na unidade. Com o dinheiro da venda de camisetas pintadas pelos internos, são compradas tintas, produtos de beleza e de limpeza para as atividades. Quando há sobras, compram-se fumo de rolo e cigarros. “Tentamos proibir o fumo, mas a equipe percebeu que eles ficavam ainda mais ansiosos. O jeito foi liberar, de acordo com a recomendação médica, e vigiar”, justificou o diretor.

As mulheres são as que mais gostam de fumar. Apesar de minoria, também são as mais agitadas e barulhentas. Algumas falam pelos cotovelos. Mas há aquelas que, afetadas pelos sedativos, guardam um olhar distante. Uma delas gosta de pintar o cabelo de uma cor diferente a cada semana. Ela se aproxima de “Seu Márcio”, o diretor, e o toca no braço para pedir tinta nova quando as madeixas ainda estão pintadas de roxo. Um subdiretor já foi repreendido pela esposa que encontrou uma nota fiscal com o valor da compra de uma tintura.

A fuga da realidade é comum nos transtornos. Clark Kent, um paciente que dizia morar na Lua, marcou a carreira da psicóloga Fernanda Santos. Ele deu entrada na unidade em 26 de agosto do ano passado. “Ele tinha linguagem rebuscada. Comecei, com a ajuda da assistência social, a procurar informações sobre sua identidade. Ele falava sempre do ‘Boneco’ que, na verdade, seria o dono do corpo dele. Reclamava que ‘Boneco’ tomava muita barrigudinha (cachaça) com guaraná. Por isso, estava com cirrose. Ele dizia que, como Clark Kent, moraríamos na Lua. Criou uma realidade paralela”, lembrou a psicóloga.

Em agosto, William Augusto da Silva sequestrou um ônibus na Ponte Rio-Niterói e foi morto por um sniper do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope). Antes do fim trágico, contou a parentes que ouvia “vozes dentro da cabeça”. Na madrugada do crime, mandou uma mensagem aos pais avisando que atentaria contra a própria vida. A família percebeu que o jovem andava deprimido, mas não imaginou que precisasse de tratamento psiquiátrico. “Ele tinha depressão, e a mãe relata que passou a ter um comportamento estranho. Mas não tiveram a iniciativa de levá-lo ao médico”, disse a assistente social Tânia Dahmer, da equipe de perícia forense do Instituto de Perícias Heitor Carrilho, ligado à Secretaria de Administração Penitenciária (Seap). A psiquiatra Cristina Erthal, que trabalha na Seap desde 2001, disse que a conscientização das famílias sobre os transtornos mentais poderia evitar a maioria dos crimes. “As famílias precisam prestar atenção aos sinais. Quem tem algum tipo de problema mostra os sintomas, mas há quem finja não ver. Qualquer um pode surtar, mas desenvolver a doença é outra coisa”, explicou. Segundo ela, o hospital de custódia não é um “depósito de pacientes irreversíveis”.

GESTÃO E CARREIRA

PROMOÇÃO OU CILADA?

O que fazer quando a empresa quer aumentar suas responsabilidades, mas não oferece nenhum tipo de contrapartida financeira no curto prazo?

Ser promovido com direito a aumento de salário e novo cargo é sonho de muitos funcionários, mas nem sempre, as oportunidades de crescimento aparecem embrulhada nesse tipo de papel de presente. Em muitos casos, os profissionais passam a acumular responsabilidades sem receber uma contrapartida imediata, seja porque a liderança quer testar sua capacidade antes oficializar o aumento, seja porque os recursos financeiros estão limitados naquele momento. Essa realidade se torna ainda mais comum em um cenário de crise econômica, devido ao enxugamento das equipes. Isso não é um privilégio do mercado brasileiro. Segundo uma pesquisa feita pela consultoria Robert Half nos Estados Unidos em 2018, 39 dos empregadores admitiram que essa é uma prática comum e 649 dos profissionais disseram estar dispostos a passar por essa situação.

O grande desafio para quem recebe uma “promoção fantasma” é saber diferenciar se a movimentação trará chances de subir a escada corporativa ou se será um mero acúmulo de funções com um gostinho amargo de não ser reconhecido. Movimentações sem contrapartida financeira podem ser uma excelente oportunidade de mostrar comprometimento com a empresa e conquistar a confiança da liderança, mas não devem ser aceitas pelos funcionários a qualquer custo. “Se a empresa mantém a pessoa no mesmo lugar, e ela apenas acumula responsabilidades, aí não é tão interessante”, afirma João Villa, especialista em gestão de pessoas e processo da consultoria especializada e pequenas empresas Blue Number.

ALÉM DE DINHEIRO

Para valer a pena, a proposta deve atender a, pelo menos, os seguintes benefícios: autonomia para toma decisões, exposição a diferentes círculos de relacionamento e novos aprendizados alinhados com os objetivos profissionais. Se houver essas experiências, será mais provável que o profissional impulsione sua carreira e consiga melhorar seu currículo, mesmo sem ter uma mudança de cargo. Com isso, ficará mais fácil conseguir uma contrapartida dentro da empresa ou até mesmo em outra posição no mercado no futuro.

Thaís Barreto de Souza, de 24 anos, enfrentou esse desafio. Formada em ciências contábeis, ela entrou em uma empresa importadora de utilidades domésticas como auxiliar de cobrança em fevereiro de 2018. Apenas um ano depois conseguiu um cargo de líder do setor financeiro, com um aumento de 40% no salário. Mas o processo para chegar lá não foi fácil. Primeiro, foi promovida a analista, mas com função de coordenação da área de cobrança, comandando uma equipe de cinco pessoas. “Eu sabia fazer todo o serviço, e a empresa disse que eu teria a oportunidade de coordenar o departamento. Se desse certo, havia a possibilidade de um aumento, mas não era certeza”, diz Thaís. Nesse processo, ela contou com o apoio de um consultor de gestão contratado pela empresa, que oferecia sessões

semanais de mentoria. Seis meses depois, Thaís assumiu também a coordenação da área de contas a pagar, passando a liderar uma equipe de nove pessoas. Com um ano completo na posição de coordenação, veio o esperado aumento salarial e o crachá de líder. “Em um período curto tive muitas oportunidades e o total suporte da empresa, e isso eu não teria em qualquer lugar”, diz Thaís. O dinheiro fez falta, mas não chegou a atrapalhar a vida pessoal, porque ela mora com os pais e conta com o apoio financeiro da família.

PERÍODO LIMITADO

Para quem está vivendo uma situação parecida, um ponto importante é avaliar o tempo de duração dessa experiência. De acordo com os especialistas em carreira, o ideal é que a empresa se posicione em relação ao desempenho do profissional até seis meses depois da promoção fantasma. Nessa conversa, o funcionário deve saber se está correspondendo às expectativas, o que é esperado dele e como poderia melhorar.

Mesmo que a companhia não consiga dar um aumento após seis meses, a situação não deve passar de um ano sem uma definição. “Pode ser que a empresa não enxergue que a pessoa tem as habilidades necessárias ou pode haver outra restrição. É fundamental ter uma conversa transparente”, diz Roberto Picino, diretor executivo da consultoria recrutamento Michael Page.

Embora falar sobre remuneração ainda seja um tabu, os especialistas recomendam que o profissional traga o assunto à tona na hora que for convidado para assumir a nova função e mantenha um diálogo aberto nos meses seguintes. O ideal é mostrar que está disposto a aceitar o desafio, mas deixar claro que gostaria de ter uma conversa sobre seu crescimento profissional no futuro. “A pessoa deve questionar se existe a perspectiva de receber um aumento no médio prazo ou não. Senão o gestor vai pensar que ela está feliz e não está esperando nada”, diz Bruno Andrade, líder de soluções digitais de RH da Mercer.

Na hora de conversar sobre assunto, evite apelar para o senso de justiça da companhia. O melhor é levantar dados concretos sobre seu desempenho para demonstrar que você está fazendo um bom trabalho. “Fica mais fácil convencer a liderança quando o profissional mostra indicadores positivos, como número de novos clientes, melhorias no clima e redução nas reclamações”, diz Costabile Matarazzo, consultor de liderança da How2do.

CONTINUAR OU SAIR?

Levar em conta os objetivos pessoais e profissionais é fundamental na hora de decidir aceitar ou não uma promoção sem contrapartida. Foi o que aconteceu com Alexandre Abdalla, de 34 anos, formado em engenharia da computação. No início da carreira, ele já havia ficado dois anos em um cargo de gestão sem receber aumento, em uma consultoria de tecnologia. Depois de trabalhar em um grande banco vivenciou a mesma situação. Contratado como analista de sistemas, passou a atuar num cargo de gerente de projetos, liderando equipes sem nenhuma compensação financeira ou mudança de cargo.

Na ocasião, o banco havia acabado de passar por uma fusão com outra instituição financeira e deixou claro que não faria nenhum tipo promoção nos dois anos seguintes. Como Alexandre era recém-casado e sua esposa estava empreendendo na área de comércio, ainda sem ter retorno do negócio, ele avaliou que seria mais interessante deixar o banco para buscar uma posição com a remuneração adequada em outra empresa. “Eu já havia trabalhado pela filosofia de crescimento e isso me trouxe ganhos, mas naquele momento eu precisava cuidar do lado financeiro também”, afirma. Com a mudança para uma consultoria, ele conseguiu um cargo de gerente para exercer a mesma função que tinha no banco, com aumento salarial de 80%.

SINAIS DE ALERTA

Depois de avaliar as prioridades as emoções também devem ser levadas em conta. “O mais importante é não fique uma sensação de injustiça ou exploração, até porque isso pode impactar o desempenho do profissional e prejudicar sua carreira no futuro”, diz Maria Elisa Moreira, psicóloga especialista em liderança nas organizações e professora no Insper. Nessa hora, vale a pena fazer uma leitura do contexto para avaliar se existe uma boa razão para a falta de contrapartida. Se a empregadora está vivendo um momento de restrição financeira ou testando um nova frente de atuação, pode ser interessante aceitar responsabilidades sem um retorno imediato, “Nesses casos a empresa pode não conseguir reconhecer no ato, mas vê o potencial daquele profissional e pode reconhecer no futuro”, afirma Cristina Fortes, diretora da consultoria Lee Hecht Harrison.

Agora, caso a companhia tenha um histórico de não cumprir promessas e não esteja promovendo ninguém no último ano, é preciso acender o sinal vermelho. A lei trabalhista prevê que o funcionário contratado deve realizar todas as funções compatíveis com seu preparo técnico, mas as empresas não devem gerar um acúmulo de tarefas nem colocar o empregado em uma área incompatível com o contrato de trabalho estabelecido.Quando isso ocorre, é possível buscar a Justiça do Trabalho para obter uma compensação financeira. Para isso, é necessário comprovar que existia outra pessoa na empresa realizando exatamente as mesmas funções com um salário superior para conseguir uma equiparação salarial, o que nem sempre é fácil. “Quando a empresa tem um plano de cargos e salários definido, é mais fácil verificar, mas na maioria das vezes isso não acontece”, diz Beatriz Tilkian, advogada trabalhista do escritório Gaia Silva Gaede Advogados. Os trabalhadores que conseguem ganhar na Justiça obtêm a correção do salário e de todos os benefícios, como 13°salário, férias e horas extras. Em casos de má-fé por parte da empresa, é possível ainda buscar compensação por danos psicológicos e morais.

5 ATITUDES PARA LIDAR COM UMA PROMOÇÃO FANTASMA

1. Avalie o contexto interno para verificar se existe uma boa razão para não receber aumento

2. Descubra se terá mais autonomia, networking e aprendizado com a nova posição

3. Converse claramente sobre as expectativas da empresa e a possibilidade de aumento no futuro

4. Verifique se o ganho de aprendizado está alinhado com seu plano de carreira e momento de vida

ALIMENTO DIÁRIO

QUANDO O CÉU INVADE A TERRA

CAPÍTULO 13 – NOSSA IDENTIDADE NESTE MUNDO

Enquanto a maior parte da Igreja ainda está procurando tornar-se tal como Jesus era, a Bíblia declara: “segundo Ele é, também nós somos neste mundo.” (1 João 4:17)

Jesus foi o servo sofredor, cujo destino foi a cruz. Mas Jesus ressuscitou triunfantemente, ascendeu aos céus, e foi glorificado.

Na revelação de Jesus Cristo, isto é, no livro de Apocalipse, João O descreveu da seguinte maneira: “A Sua cabeça e cabelos eram brancos como alva lã, como neve; os olhos, como chama de fogo; os pés, semelhantes ao bronze polido, como que refinado numa fornalha; a voz, como voz de muitas águas.

A declaração: “segundo Ele é, também nós somos neste mundo” está bem distante do que qualquer um de nós possa imaginar, especialmente à luz dessa descrição de Jesus glorificado feita no Apocalipse. Contudo, o Espírito Santo foi enviado especificamente com este propósito, ou seja, para que alcançássemos a “medida da estatura da plenitude de Cristo”.

O Espírito Santo veio com uma missão fundamental e no tempo certo. Durante o ministério de Jesus foi dito que: “O Espirito até aquele momento não fora dado, porque Jesus não havia sido ainda glorificado.” O Espírito Santo nos conforta, nos dá os dons espirituais, nos faz lembrar do que Jesus disse, e nos reveste com poder. E Ele faz tudo isso para que sejamos tal como Jesus. Esse é o seu principal objetivo. Assim, por que o Pai não O enviou antes de Jesus ser glorificado? Porque antes de Jesus estar em seu estado glorificado não havia um modelo celestial para nós! Assim como um escultor olha para um modelo e trabalha com a pedra para produzir uma semelhança, assim o Espírito Santo olha para o Filho glorificado e nos molda segundo a Sua imagem. Segundo Ele é, também nós somos neste mundo.

VIDA CRISTÃ

A vida cristã não se encontra na Cruz. Ela é encontrada por causa da Cruz. É a ressurreição do Senhor que traz energia para o crente. Será que isso diminui o valor da Cruz? Não! O sangue derramado do Cordeiro sem máculas acabou com o poder da presença do pecado em nossa vida. NÃO TEMOS NADA SEM A CRUZ! Contudo, a Cruz não é um fim, é um início, é a entrada para a vida cristã. Até para Jesus a cruz foi algo que Ele teve que suportar para que pudesse obter a alegria do outro lado! “Os cristãos, em sua grande maioria, ainda estão chorando aos pés da cruz. A consciência da humanidade permanece fixada no Cristo que morreu, não no Cristo que vive. As pessoas estão se voltando para o Redentor que era, não ao Redentor que é.”

Suponha que eu tivesse sido perdoado de uma dívida financeira. Poder-se-ia dizer que eu fui tirado “do vermelho”. Entretanto, depois de minhas dívidas terem sido perdoadas, eu ainda “não estou no preto”. Não tenho nada ainda, até que aquele que perdoou a minha dívida me dê algum dinheiro que eu possa chamar de meu dinheiro. Foi isso que Cristo fez por você e por mim. O seu sangue eliminou a minha dívida do pecado. Mas a sua ressurreição levou-me “para o preto”.

Por que isto é importante? Porque isto altera profundamente o nosso senso de identidade e propósito.

Jesus tornou-se pobre para que eu me tornasse rico. Ele sofreu com as chibatadas que lhe causaram as pisaduras para que eu me libertasse de toda aflição, e Ele tornou-se pecado para que eu me tornasse a justiça de Deus. 252 Por que, então, deveria eu procurar tornar-me como Ele era, uma vez que Ele sofreu para que eu pudesse tornar-me como Ele é? Em algum ponto a realidade da ressurreição de Jesus tem de vir a fazer parte da nossa vida; temos de descobrir o poder da ressurreição que há para todo aquele que Nele crê.253

A CONTRAFAÇÃO DA CRUZ

Jesus disse: “Se alguém quer vir após Mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-Me.” O não entendimento desse chamado tem levado muitos a seguir a sua vida de negação a si mesmo, mas param por aí, não prosseguindo para a Sua vida de poder. Para tais pessoas a caminhada para a cruz resume-se em procurar crucificar a sua natureza pecaminosa assumindo um quebrantamento desprovido de alegria como evidência da cruz. Mas temos que seguir o Senhor por todo o caminho que Ele percorreu, até alcançarmos um estilo de vida cheio do poder da ressurreição!

Quase toda religião tem uma cópia da caminhada para a cruz. Negação de si mesmo, humilhar-se e outras posturas semelhantes são copiadas pelas seitas deste mundo. As pessoas do mundo admiram aqueles que têm disciplinas religiosas. Elas aplaudem o jejum e respeitam aqueles que assumem a pobreza ou suportam enfermidades para o bem da sua espiritualidade. Mostre-lhes, porém, uma vida plena de alegria por causa do poder transformador de Deus, e elas não apenas aplaudirão, mas também desejarão ser como você. A religião não tem como imitar a vida de ressurreição com a sua vitória sobre o pecado e o inferno.

Quem toma uma cruz inferior fica constantemente com muita introspeção e com um sofrimento por si mesmo induzido. Mas a cruz não é auto aplicada; Jesus não se encravou a Si mesmo na cruz – ele foi crucificado. Os cristãos que caem na armadilha dessa contrafação constantemente ficam falando de sua fraqueza. Se o diabo nos encontra sem nenhum interesse pelo mal, então ele procura fazer com que ponhamos a nossa atenção em nossa indignidade e em nossa falta de capacidade. Isso se nota, em especial, em reuniões de oração em que as pessoas procuram apresentar um grande quebrantamento diante de Deus, esperando assim conseguir um avivamento. Chegam até mesmo a confessar de novo velhos pecados já confessados, “em busca de uma real humildade”…

Em minha busca por Deus, muitas vezes fiquei preocupado comigo mesmo! Era-me fácil pensar que a condição de humildade seria estar sempre consciente de minhas próprias falhas e fraquezas. Mas não é nada disso! Se eu me torno o principal enfoque da minha atenção, falando incessantemente da minha fraqueza, então o que fiz foi entrar na forma mais sutil de orgulho. A repetição de frases, tais como, “não sou digno” torna-se uma repugnante substituição das declarações sobre a dignidade de Deus. Por estar totalmente voltado para a minha própria condição de iniquidade, de falta de retidão, o inimigo conseguiu fazer com que eu deixasse de prestar um eficaz serviço ao Senhor. É uma perversão da verdadeira santificação a situação em que, por um processo de introspeção, aumento a minha auto estima espiritual, mas faço com que a minha eficácia na demonstração do poder do evangelho diminua.

O verdadeiro quebrantamento causa uma completa dependência a Deus, movendo-nos a uma radical obediência que libera o poder do evangelho ao mundo ao nosso redor.’

MOTIVAÇÕES IMPURAS

Lutei muitos anos com a auto avaliação. O principal problema era que eu nunca encontrava nada que fosse bom em mim. Isso sempre me causava desânimo, o que me levava à dúvida, que acabava se transformando em incredulidade. De algum modo eu havia desenvolvido a noção de que era assim que eu me santificaria – demonstrando uma tremenda atenção às minhas próprias motivações.

Pode soar um tanto estranho, mas eu não mais analiso as minhas motivações. Isso não compete a mim. Procuro dar duro para obedecer a Deus em tudo que tenho que fazer. Se me afastei em algum ponto, compete ao Senhor mostrar-me isso. Depois de muitos anos em que procurei fazer o que somente Ele poderia fazer, descobri que eu não era o Espírito Santo. Não posso convencer-me e libertar-me, eu mesmo, do pecado. Será que isso então significa que eu nunca deva considerar minhas motivações impuras? Não. Ele, com muito ímpeto, tem me mostrado a minha necessidade de arrependimento e mudança. Mas é Ele que tem a luz, e somente Ele pode dar-me a graça para mudar.

Há uma grande diferença entre o crente que está sendo tratado por Deus, e aquele que se tomou introspectivo. Quando Deus sonda o coração, Ele sempre encontra algo que Ele quer mudar. Ele traz convicção porque Ele se dispôs a nos libertar. Esta revelação me fez orar da seguinte maneira:

Pai, Tu sabes que não é muito bom quando volto os olhos para o meu interior, e assim vou parar com isso. Confio em Ti que Tu me mostrarás tudo o que for necessário que eu veja. Prometo permanecer em Tua Palavra. Tu disseste que a Tua Palavra é uma espada assim, peço-Te que a uses para cortar-me profundamente. Traze à luz todas as coisas que em mim não estejam Te agradando. Mas, ao fazer isso, dá-me a graça de abandoná-las. Também prometo ir à Tua presença a cada dia. Tua presença é como o fogo. Queima em mim tudo o que esteja Te desagradando. Derreta o meu coração até que se torne semelhante ao coração de Jesus. Sê misericordioso para comigo, apesar de eu ter Te entristecido com essas coisas que Te desagradaram. Prometo ainda permanecer em comunhão com o Teu povo; Tu disseste que o ferro afia o ferro. Venhas ungir-me nas “feridas feitas pelo amigo” para que eu venha a quebrantar-me sempre que tenha resistido à Tua vontade. Usa essas ferramentas para moldar a minha vida, até que Jesus, e apenas Ele, seja visto em mim. Creio que Tu me deste o Teu coração e a Tua mente. Pela Tua graça sou uma nova criação. Quero que esta realidade seja vista e que o nome de Jesus seja tido na mais alta honra.

CONTRAPONDO-SE À CONTRAFAÇÃO

Creio que, na maioria das vezes, as pessoas deixam-se levar por essa contrafação da caminhada para a cruz porque isso não requer fé. É fácil ver a minha fraqueza, a minha propensão para o pecado, minha incapacidade para ser como Jesus. Para confessar esta verdade não é necessário ter fé, absolutamente. Mas o contrário acontece quando se trata de ter que considerar-me morto para o pecado: tenho que ter fé, tenho que crer em Deus!

Portanto, quando você estiver fraco, declare: “Sou FORTE!” Concorde com Deus, não importando como você se sinta, e descubra o poder da ressurreição. Sem fé é impossível agradá-Lo. E o meu primeiro exercício da fé tem de ser com respeito à minha postura perante Deus.

Quando Deus conferiu a Moisés um nobre encargo, o de tirar o povo do Egito, sua resposta foi: “Quem sou eu?” Deus mudou de assunto, dizendo: “Eu serei contigo.” Quando a nossa atenção concentra-se no que nos falta, o Pai pro=a mudar de assunto para algo que nos leve para a fonte e o fundamento da fé: a Ele mesmo. O nobre chamado com que somos chamados sempre revela a nobreza Daquele que nos chamou.

Sem Cristo, somos indignos. E é verdade que, sem Ele, nada somos. Mas eu não estou sem Ele, e nunca mais estarei! Quando começaremos a pensar sobre o quanto valemos diante de Deus? O valor de alguma coisa é medido pelo quanto as pessoas pagarão por tal coisa; isso é uma verdade que todos nós aceitamos. Assim, temos que repensar qual é o nosso valor. Será que já reconhecemos quem somos aos olhos de Deus? Não me entenda mal; não estou incentivando a arrogância ou o atrevimento. Mas não seria uma honra bem maior para Ele se acreditássemos que o Senhor um dia de fato fez uma grande e suficiente obra, ao salvar-nos, e que assim realmente estamos salvos? Jesus pagou um preço supremo para possibilitar uma mudança em nossa identidade. Não está na hora de crermos e recebermos os benefícios? Se assim não fizermos nós, aqui neste mundo dos últimos dias, vamos sucumbir em nossa confiança. A ousadia de que necessitamos não é uma autoconfiança, mas a confiança que o Pai tem na obra do Seu Filho por nós. Não é mais uma questão de céu ou inferno. É apenas uma questão de o quanto do pensamento do inferno permitirei que entre em minha mente celestial.

Deus não é muito mais honrado quando Seus filhos não mais se veem apenas como pecadores salvos pela graça, mas agora como herdeiros de Deus? Não é uma postura de humildade bem maior crer Nele quando Ele diz que somos preciosos a Seus olhos, mesmo quando não nos sentimos preciosos? Não O honra muito mais quando consideramo-nos livres do pecado porque Ele diz que assim somos? Em algum momento temos de nos erguer ao nível elevado do chamado de Deus, deixando de dizer tudo aquilo a nosso respeito que não mais é verdade. Para que alcancemos tudo que Deus tem para nós neste avivamento dos últimos dias, temos que nos aferrar totalmente com a condição de que somos muito mais do que pecadores salvos pela graça. A maturidade vem a partir da fé na suficiência da obra redentora de Deus, que nos estabelece como filhos e filhas do Altíssimo.

TORNANDO-NOS COMO ELE

Segundo Ele é, também nós somos neste mundo. A revelação de Jesus em Seu estado glorificado tem pelo menos quatro características que de um modo predominante afetam diretamente a transformação da Igreja, o que em breve acontecerá; estas características têm de ser por nós assumidas como parte do plano de Deus nesta hora final.

GLÓRIA

A glória é a presença manifesta de Jesus. A história do avivamento está repleta de situações em que a Sua presença manifestou-se e veio sobre o Seu povo. Ele vive em todo crente, mas a glória da Sua presença vem repousar em apenas uns poucos. Isto às vezes é visto, mas com frequência é sentido. Ele está voltando para uma Igreja gloriosa. Não se trata de uma opção.

Línguas de fogo foram vistas sobre a cabeça dos apóstolos no dia de pentecostes. Nos dias da atualidade, tem-se visto labaredas de fogo flamejando no teto dos templos quando o povo de Deus se reúne em Seu nome. No avivamento da Rua Azuza, o corpo de bombeiros chegou a ser chamado para extinguir chamas de fogo, mas o que eles encontraram foi uma congregação louvando a Jesus. Aquele fogo não pôde ser extinguido com água, uma vez que não era um fogo natural. Todos os poderes do inferno também não o podem extinguir. Somente podem fazer isso aqueles a quem aquele fogo tinha sido dado. Crentes bem

intencionados muitas vezes valem-se do controle como um meio para produzir esse fogo, pensando que estão servindo a Deus. Ocorre também haver aqueles que de um modo enganoso tentam despertar uma chama emocional, quando o fogo não se acha mais presente. São duas expressões do homem carnal. E quando o homem carnal está em cena, a glória de Deus vai embora.

Se o Pai preencheu as casas do Antigo Testamento com a sua glória, embora elas tenham sido construídas por mãos humanas, quanto mais Ele preencherá o que Ele construiu com Suas próprias mãos! Ele está nos construindo para sermos o Seu lugar de eterna habitação.

PODER

Ser tal como Ele – isso significa ser uma permanente expressão de poder. O batismo no Espírito Santo reveste-nos com algo celestial. Assim como a roupa fica do lado de fora do corpo, de igual modo o poder de Deus tem de ser a parte mais visível da Igreja que crê. É o poder de salvação – para o corpo, para a alma e para o espírito.

Muitos no mundo ao nosso redor procuram ajuda no baixo e no alto espiritismo, e também em todas as formas de ocultismo, antes de virem para a Igreja. Também buscam a ajuda médica, tanto a legítima como a da medicina alternativa, antes de virem pedir nossas orações. Por quê? Porque a maioria de nós ainda não está revestida com o poder celestial. Se estivéssemos, eles o veriam. E, se o vissem, viriam até nós.

A falta de poder na Igreja dá condições, para que as seitas e os falsos dons proféticos floresçam. Mas quando essas contrafações se insurgem contra esta geração de Elias, que se reveste do poder celestial contra todo raciocínio humano no monte Carmelo, elas não têm nenhuma chance.

TRIUNFO

Jesus foi vencedor sobre todas as coisas: sobre o poder do inferno, sobre a morte, sobre o pecado e sobre o diabo. Ele ressuscitou dos mortos, ascendeu à mão direita do Pai, e foi glorificado sobre todas as coisas. Todo nome e todo poder foram postos sob Seus pés. Ele nos chama de Seu corpo – e este corpo tem pés. De um modo figurado, Jesus está dizendo que a parte mais baixa do Seu corpo tem autoridade sobre a parte mais elevada de tudo o mais. Esta vitória não significa que vivemos sem batalhas; simplesmente significa que a nossa vitória está assegurada.

A atitude dos que vivem a partir da vitória de Cristo é diferente da atitude dos que vivem sob a influência do seu passado. A única parte do passado que temos o direito legal de acessar são os testemunhos do Senhor. O restante está enterrado, esquecido, e coberto sob o sangue do Cordeiro. O passado não é para ter nenhum efeito negativo sobre o modo de vivermos, pois este sangue é mais do que suficiente. Viver a partir da vitória de Jesus é o privilégio de todo crente. Entender isso é um fundamento da Igreja que será vencedora tal como Ele venceu.

SANTIDADE

Jesus é perfeitamente santo, separado de tudo que é mau, para estar com tudo que é bom. A santidade é a linguagem através da qual a natureza de Deus se revela. O salmista escreveu a frase: “na beleza da santidade”. A santidade na Igreja revela a beleza de Deus.

Nosso entendimento de santidade, mesmo em certas épocas de avivamento, muitas vezes tem se centralizado em torno do nosso comportamento – o que podemos ou que não podemos fazer. Entretanto, o que no passado foi incorretamente reduzido a uma lista das coisas “que podem” e das “que não podem”, em breve se tornará a maior de todas as revelações de Deus, jamais vista neste mundo. Se o poder demonstra o coração de Deus, a santidade revela a beleza da sua natureza. Esta é a hora da grandiosa revelação da beleza da santidade.

CONCLUSÃO

Zacarias recebeu uma promessa de Deus que estava além da sua compreensão: ele teria um filho em sua idade avançada. Era difícil de acreditar; então ele pediu a Deus que lhe desse uma confirmação. Aparentemente, um anjo ter falado com ele não foi um sinal suficiente! Deus o fez ficar mudo por nove meses. Quando Deus silencia a voz do descrente, geralmente é porque a voz do descrente poderia afetar o cumprimento de uma promessa. Quando Zacarias viu cumprir-se a promessa de Deus, tendo decidido dar ao seu filho o nome ordenado pelo Senhor, indo de encontro com o que desejavam todos os seus parentes, Deus liberou a sua língua. A obediência a Deus, contrariando o desejo dos outros, muitas vezes leva a pessoa a ter fé. E é uma fé contra todo o entendimento.

A Maria também foi feita uma promessa que ultrapassava toda a compreensão: ela daria à luz o Filho de Deus. Não entendendo o que isso significava, ela perguntou como aquilo seria possível, uma vez que era virgem e não tinha marido. Mas entender uma promessa de Deus nunca foi um pré-requisito para o seu cumprimento. A ignorância pede entendimento; a descrença pede uma prova. Com Maria foi diferente de Zacarias porque, mesmo não entendendo, ela submeteu-se à promessa. Sua resposta permanece sendo uma das mais importantes expressões que a Igreja pode aprender no dia de hoje: “que se cumpra em mim conforme a Tua palavra”.

Há pouco analisamos uma promessa de grande importância para a Igreja. Poucas são as coisas que ultrapassam o nosso entendimento mais do que a afirmação: “Segundo Ele é, também nós somos neste mundo,” citada no início deste capítulo. E assim temos que decidir entre duas alternativas: agir como Zacarias, e ficar sem voz; ou fazer como Maria, convidando Deus para restaurar em nós as promessas que estão fora do nosso controle.

A identidade que temos em Cristo estabelece uma segurança em nosso carácter ao nos engajarmos na batalha espiritual. No próximo capítulo veremos alguns pontos que temos que compreender para sermos bem-sucedidos na guerra!