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VIRADA HISTÓRICA

Como foi a volta das iranianas aos estádios depois de 40 anos e o que isso significa para as mulheres na república islâmica

Na pequena parte da arquibancada reservada às mulheres no estádio Azadi, em Teerã, em meio aos gritos de apoio ao “time melí” (seleção nacional), um canto da torcida feminina ecoava a todo momento: “Garota azul, sua ausência foi sentida”. Era a primeira vez em quase 40 anos que as iranianas podiam entrar legalmente para assistir a uma partida de futebol na República Islâmica do Irã, e o grito de guerra homenageava a torcedora que desencadeou essa pequena revolução. Em março deste ano, Sahar Khodayari, uma torcedora de 29 anos, vestiu-se como homem para tentar entrar no Azadi em um dia de jogo do Esteghlal, seu time do coração, que veste uniforme azul. O disfarce foi descoberto, e ela precisaria cumprir seis meses de prisão por desrespeitar a proibição à entrada de mulheres em estádios. Em uma ação desesperada, ateou fogo ao próprio corpo em frente ao tribunal. Morreu três dias depois.

O trágico incidente mudou tudo. O governo do presidente Hassan Rouhani, numa eterna tentativa de equilíbrio entre demandas reformistas e a pressão dos conservadores, afinal prometeu agir. A Fifa, que sempre driblou o problema, ameaçou expulsar o Irã e outros países, como Arábia Saudita e Catar, se não passassem a aceitar mulheres nos jogos. As portas do estádio finalmente se entreabriram às torcedoras. “Não foi um presente, foi uma conquista nossa. Nós, iranianas, colocamos esse assunto na agenda mundial, e hoje mulheres de outros países são também beneficiadas”, disse Shirin, de 20 anos, que pediu para que seu sobrenome não fosse divulgado porque foi ao estádio escondida de sua família.

Embora a proibição venha desde 1981, a questão da presença feminina em eventos esportivos entrou permanentemente na agenda do Irã apenas em 1998. Foi naquele ano que a seleção nacional se classificou pela segunda vez na história para uma Copa do Mundo, 20 anos depois da primeira participação. O país parou. Os jogadores foram recebidos como heróis depois da partida decisiva contra a Austrália. O Azadi foi aberto para que os torcedores e a equipe pudessem celebrar juntos. Homens e mulheres estavam lado a lado. Nos jogos seguintes, elas compareceram novamente ao estádio, mas foram impedidas de acessar as arquibancadas.

Começou então uma série de tentativas de burlar a proibição. Muitas mulheres passaram a se vestir como homens, como a jovem Khodayari, ou simplesmente se fantasiavam da cabeça aos pés, com chapéus e enroladas na bandeira do país. Os disfarces foram ficando cada vez mais convincentes nos anos seguintes, com algumas pintando bigodes e barbas no rosto ou até mesmo colando pelos verdadeiros. Por isso, passaram a ser chamadas de “mulheres barbadas”. Algumas dessas tentativas de entrar nos estádios foram encenadas no filme Fora do jogo, do cineasta iraniano Jafar Panahi, vencedor de vários prêmios internacionais — embora em seu próprio país ele sofra perseguição do governo. Ao receber um dos prêmios, Panahi dedicou-o às mulheres do véu branco, um novo movimento que começara a atuar em 2004.

Uma das principais personagens desse movimento foi a poeta e ativista iraniana Asieh Amini, que hoje vive na Noruega. Ela se recorda de que, em 2003, ativistas dos direitos das mulheres se reuniram para discutir as principais bandeiras a serem defendidas, e foi apontado que muitas jovens queriam frequentar os estádios e inclusive estavam sendo detidas por tentar driblar a proibição. A primeira grande ação aconteceu no ano seguinte, quando alugaram um ônibus e seguiram para a frente do estádio onde jogariam Irã e Bahrein a fim de tentar convencer os torcedores, todos homens, claro, a não entrar para ver o jogo. “Nós dizíamos: ‘Você acha certo ir quando metade da população está proibida?’”. O grupo usava faixa vermelha nos pés, para indicar a proibição, e véu branco, sinalizando que o movimento era pacífico. “Quando fiquei sabendo do jogo da semana passada, eu ri sozinha, porque fiquei feliz por elas. Mas também chorei, porque eu queria estar em meu país para viver isso”, contou Amini, que deixou o Irã há dez anos, depois de ver vários de seus amigos escritores serem presos pelo regime.

O jogo que levou risos e lágrimas ao rosto da poeta exilada aconteceu na quinta-feira 11 — o dia equivale ao sábado nos países muçulmanos —, em uma tarde de sol e calor. O esquema de segurança lembrava o de um clássico entre times rivais, um Corinthians e São Paulo, um Flamengo e Vasco. A maior parte do público entrou pelo portão principal do estádio, enquanto à outra torcida, a que não pisava ali fazia décadas, foi destinada uma entrada secundária, por uma avenida no lado oposto do gigante complexo esportivo. Havia reforço de grades de proteção e um cordão de isolamento formado por 150 policiais para separar as mulheres. A ironia é que todos estavam ali para apoiar a mesma equipe, a seleção do Irã.

As dificuldades para a torcida feminina começaram bem antes do dia da partida entre Irã e Camboja. As autoridades locais, para não irritar ainda mais os poderosos setores conservadores da sociedade, em especial os militares e os clérigos xiitas, tentaram ao máximo frear a liberalização e promover uma abertura lenta, gradual e segura da arquibancada feminina em eventos esportivos. O primeiro obstáculo foi a limitação na venda de ingressos, feita pela internet, apenas para cidadãs iranianas. Começou com 800 entradas, que se esgotaram em menos de uma hora. A pressão nas redes sociais e no site da Fifa surtiu efeito, e o número de ingressos subiu para 4 mil — que também foram vendidos rapidamente. Ainda muito pouco para o estádio Azadi, cujo nome ironicamente significa “liberdade”, que tem capacidade para 73 mil pessoas e estava vazio. O anel superior nem chegou a ser aberto. As arquibancadas estavam praticamente desertas, exceto por duas manchas de pessoas: uma no meio, onde estavam os homens, e outra atrás de um dos gols, local reservado para as mulheres.

“Permitir que as mulheres comprem ingresso para assistir a jogos foi um passo adiante contra essa proibição injustificável que as autoridades vêm mantendo por décadas”, afirmou a iraniana Tara Sepehri Far, da organização de direitos humanos Human Rights Watch. “No entanto, o limite no número de ingressos é discriminatório e coloca em perigo as mulheres que vão continuar arriscando sua segurança e sua liberdade para desafiar a restrição”, completou.

Foi recomendado às mulheres chegarem ao estádio com três horas de antecedência, e elas precisaram esperar embaixo do sol forte dentro do estádio na área que lhes foi dedicada, logo batizada de “jaula”, por causa do reforço nas grades. O cordão de isolamento era feito por policiais mulheres que vestiam o xador — túnica típica do islamismo xiita, que cobre todo o corpo, mas não o rosto — para garantir a “decência” do evento, separando assim amigos e amigas, pais e filhas, irmãos e irmãs, maridos e mulheres.

Esse foi o caso da administradora de empresas Sarah Helmzadeh, de 34 anos. Desde pequena, ela acompanha futebol pela televisão, apesar de ter crescido ouvindo seu pai falar que “era coisa de homem”. Nunca se importou com isso e sempre nutriu a vontade de ver um jogo no estádio, apesar da proibição vigorar desde antes de seu nascimento. Casou-se depois com Hamid, com quem compartilha o fanatismo pelo Persépolis, o popular time de Teerã. Os dois foram juntos ao estádio na quinta-feira, mas se separaram quando ele a deixou no portão feminino. “Ficamos trocando fotos e mensagens por celular o jogo inteiro. Claro que gostaria de assistir ao lado dele, mas mesmo assim foi um dia memorável. Vou lembrar até minha morte.”

Dentro do estádio, as restrições impostas pelas autoridades foram temporariamente esquecidas para celebrar o momento. O setor feminino era o mais entusiasmado e onde mais se destacavam as cores verde, vermelha e branca, da bandeira iraniana. Elas levaram cornetas e cantaram mais que os homens. Vibraram mais efusivamente a cada um dos 14 gols — sim, o jogo contra o fraquíssimo time cambojano, pelas eliminatórias asiáticas para a Copa do Mundo, teve placar de 14 a 0. E também choraram.

“Pode parecer inocente para vocês acostumados com a liberdade de ir aos jogos, mas eu chorei quando vi aquele gramado verde gigante. Já tinha visto campos de futebol nos bairros, mas o Azadi eu só conhecia pela televisão, e por lá o campo parecia bem pequeno”, disse a engenheira civil Mobina Sabari, de 23 anos, outra torcedora do Persépolis. Mobina sempre teve o apoio dos pais em sua dedicação ao futebol. Sua única decepção em relação ao jogo foi que seu jogador preferido, o meia-atacante Alireza Jahanbakhsh — um dos destaques da seleção na Copa de 2018 — não havia sido convocado pelo treinador belga Marc Wilmots.

As mulheres presentes ao estádio eram apaixonadas por futebol, mas havia mais em jogo. Desde a Revolução Islâmica de 1979, muitas das liberdades das iranianas foram tolhidas. Em certos aspectos, a sociedade iraniana pode ser considerada mais avançada que outros estados islâmicos, como a Arábia Saudita. Mulheres sempre puderam votar e dirigir e ocupam posições de destaque na economia e no alto escalão governamental. Por outro lado, a subida dos aiatolás — altos dignatários na hierarquia religiosa — ao poder resultou na perda de postos importantes na sociedade, como a magistratura, de onde foram banidas. Foram impostos também a figura do guardião — seja marido, pai ou irmão — e o uso do véu para cobrir a cabeça. Num ato de rebeldia cotidiano, muitas iranianas expõem mechas do cabelo no dia a dia e chegam a retirar o véu rapidamente para tirar fotos que depois serão postadas em redes sociais.

“Em outros países, mulheres passam a vida inteira sem ir aos estádios. Mas elas podem ir, se quiserem. Nós queremos isso também. Não é uma manifestação política, apenas a busca de um direito”, disse a engenheira eletrônica Narges Elhami, de 38 anos. Ela não se importou tanto em estar separada de seus amigos. “Foi maravilhoso viver essa atmosfera com as mulheres, muitas chorando, por isso não liguei por estarmos em uma área separada. Mas, se podemos ir com homens ao teatro, ao cinema, por que não podemos dividir a felicidade com eles em um jogo?”

E como o setor masculino da torcida reagiu à presença das mulheres no estádio? Sem dar muita importância. Alguns tiraram fotos, mas nas conversas de arquibancada quase não se comentava o assunto. Falava-se muito mais de futebol e dos lances em campo. Impossível dizer se era uma indiferença genuína ou uma tentativa de não marcar posição para não desagradar a algum religioso que estivesse por perto. Num lance sem importância em que as mulheres soltaram um grito frenético — a inocência de quem estava em um estádio pela primeira vez —, os homens deram risada.

“As mulheres têm todo o direito de estarem aqui”, comentou o professor de inglês Reza Karimi, de 32 anos. Quando questionado sobre se deixaria sua mulher vir ao estádio, a resposta “Ela não gosta de futebol”, seguida de um riso, deu a impressão de que estava aliviado por não precisar enfrentar a situação.

Ao final do jogo, no entanto, ficou claro que os homens se importavam. O time iraniano seguiu para agradecer à torcida masculina, mas ouviu os gritos: “Primeiro aquela seção”. O capitão Masoud Shojaei, que fala abertamente em favor das mulheres nos estádios, levou então seus companheiros para agradecer à torcida feminina. Era a consagração de uma tarde vitoriosa para elas. Na saída do estádio, dava para ouvir as torcedoras cantando: “Quem sabe quando voltaremos?”.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.