A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O ECLIPSE DA ESPERANÇA

Conhecida desde a Antiguidade sob o nome de melancolia, a depressão toma por inteiro a personalidade acometida, levando-a a experimentar a negatividade da vida de modo irremediável, sob a forma de sentimento de culpa, exclusão e inferioridade; diante disso, cabe aos profissionais de saúde reconhecer, enfrentar e respeitar as experiências-limite da existência que descortinam o sentido antropológico do sofrer humano

O termo “depressão” assume significados diferentes se utilizado na linguagem comum ou na psiquiátrica. Se na primeira indica o estado de tristeza e desânimo da pessoa diante de acontecimento desagradável, decepção ou luto, em âmbito psiquiátrico designa um quadro clínico preciso (distúrbio depressivo), caracterizado por sintomas biológicos e psíquicos espontâneos, aparentemente desproporcionais em intensidade e duração aos acontecimentos que os provocaram. Essa condição se distingue por sintomas como perda de interesse, astenia, incapacidade de sentir prazer, insônia, falta de apetite, diminuição da libido, facilidade em fatigar-se e alterações cognitivas, psicomotoras e neurovegetativas.

Esse estado de ânimo invade por inteiro a personalidade acometida. Um indivíduo deprimido experimenta – às vezes com angústia, outras com gélido desespero – a irremediável negatividade da vida. Mas se em algumas pessoas atinge a existência pessoal (e neste caso podem prevalecer ideias persecutórias, sentimentos de exclusão, inferioridade, indignidade, culpabilidade), outros sentem a própria vida como intolerável. Tudo parece negativo, terrível, irremediável. O mundo se torna um lugar de baixezas e maldades, dominado pela luz sinistra de dor e mal metafísicos.

O distúrbio depressivo – que aqui definiremos intencionalmente também como melancolia – é conhecido desde a Antiguidade. Nas últimas décadas, os conhecimentos sobre etiologia, nosografia, diagnóstico e terapia das diversas formas de depressão progrediram notavelmente. As ciências de base – da bioquímica à biologia molecular, da neurofisiologia à psicofarmacologia – forneceram novos elementos, úteis para a compreensão dos mecanismos patogenéticos, para a elaboração de modelos sobre a transmissão genética, a identificação das áreas e dos circuitos nervosos responsáveis pelas diversas manifestações da depressão. Além disso, o renovado interesse pela observação do paciente e pela descrição dos sintomas levou a uma atenção maior para com o diagnóstico e a uma redefinição dos distúrbios depressivos.

Desse modo, foram mais bem especificados os diversos subtipos de depressão e, para muitos deles, afinadas modalidades de intervenções personalizadas. Algumas formas atenuadas, outrora definidas como “neuróticas” e tidas como traços estáveis da personalidade, são hoje consideradas manifestações depressivas leves e persistentes, que respondem a terapias.

A avaliação da incidência da história familiar do caráter, da personalidade e da adaptação pré-doença permitiu incluir em seu espectro clínico algumas formas bipolares mistas crônicas, cujo quadro é amiúde dominado por delírios, alucinações e distúrbios do pensamento. Não se pode negar, entretanto, que no âmbito terapêutico foram obtidos importantes progressos. A introdução de novas substâncias para tratamento agudo e preventivo propiciou alcançar, na terapia dos transtornos do humor, resultados nada inferiores aos de outros setores da medicina. Especialmente, a síntese de antidepressivos com ação seletiva sobre os diversos sistemas neurotransmissores permitiu que fossem dadas respostas às formas clínicas antes não tratáveis.

Em geral, a experiência depressiva se caracteriza por sofrimentos de tamanha intensidade que dificilmente podem ser imaginados por quem não os sentiu. Para quem sofre de depressão, sentir-se não compreendido na própria dor torna mais aguda a sensação de estranheza e de pena de si. Estímulos, conselhos, exortações para reagir e fortalecer-se nada mais fazem que acentuar a desesperada solidão do paciente, sua insustentável responsabilização por alguma coisa que já não controla. Ele percebe, com penosa intensidade, um irreprimível empobrecimento afetivo e, ao mesmo tempo, a perda inimaginável do contato com um mundo exterior rico e vital.

Embora a perda de energia e vitalidade, as sensações de confusão, a incapacidade de concentrar-se, fazer escolhas, trabalhar e amar possam ter intensidades diferentes de pessoa para pessoa, significam, de todo modo, um pano de fundo constante. Além disso, sentimentos de impotência e derrota dominam o cenário. As noites insones, povoadas por medos e mal-estar, são aguardadas com terror. Os dias começam com o pesadelo de novas e intermináveis provas a enfrentar. Até as atividades elementares, como levantar-se, lavar-se, passear e outras tantas, custam esforços inimagináveis. Vai ganhando terreno, para usarmos as palavras do escritor austríaco Hugo von Hofmannsthal (1874-1929), “uma existência nua, exposta à dor, atormentada pela luz, ferida por todo som”.

A sucessão de dias que parecem iguais, sem melhoras, revigora a visão pessimista do paciente quanto ao próprio futuro. A postura em relação a esse distúrbio, todavia, muda de indivíduo para indivíduo. Há quem, sem uma adequada consciência da doença, não perceba totalmente o que está acontecendo. Alguns sentem que estão doentes, mas recusam ajuda; outros sabem que estão sofrendo de uma doença física grave; ou ainda lutam contra ela e procuram ajuda, por vezes de maneiras apelativas e manipuladoras, que causam incompreensão nos que estão ao redor e equívocos quanto a real gravidade da situação. Outros, por fim, conseguem dissimular o distúrbio, esconder a inibição e parecer animados, até inesperadamente surpreenderem parentes e colegas com um gesto suicida, como uma espécie de ato de libertação de um sofrimento vivido como incorrigível e desesperançado.

Na depressão, o suicídio é muito frequente. Em 1791, Pinel (1745-1826) evidenciou com espanto como os autores – tanto antigos quanto modernos – que haviam descrito todo tipo de “melancolia nervosa” tinham se descuidado “daquela forma que se caracteriza por um desgosto insuportável pela vida, ou antes, por um desejo irresistível de dar-se a morte, sem que possamos encontrar uma causa”. Em Luto e melancolia (1917), Freud (1856-1939) interpretou a tendência ao suicídio do melancólico como forma de agressividade contra o próprio Eu, no qual o sentimento de culpa tem um papel central. Basta-nos simplesmente notar que, do ponto de vista psicanalítico, podemos identificar essencialmente dois tipos de culpa: uma persecutória, que deriva da pulsão de morte e tende à autorrepreensão e ao receio da punição; a outra, função da pulsão de vida, que tende à reparação.

Para além das sugestivas e pertinentes hipóteses psicanalíticas, a culpa constitui um elemento psicopatológico nuclear da depressão, motivando um dos mais importantes fatores de transição do apego à vida ao suicídio. Esse, todavia, não seria voltado apenas a interromper a própria vida, dolorosa e sem esperanças, mas também a libertar o mundo da própria presença, considerada abjeta e nefasta. Além disso, o sofrimento se torna ainda mais doloroso pela impossibilidade de sua aceitação. É tido como indigno e, até por isso, como se fosse uma espiral infinita, na qual o paciente é envolvido pela culpa.

Seja com relação a si próprio, aos outros, à vida, aos seus desejos, ao próprio corpo ou à sua existência, a culpa constitui um elemento central do mundo melancólico. Convencido, como está, de que tocou o fundo, o paciente acredita que nunca mais poderá levantar-se. É a culpa que leva os pacientes a fugir do mundo e isolar-se em casa, na certeza de não poder superar a punição. Naturalmente, uma coisa é o sentimento de culpa, outra é o delírio de culpa. Enquanto o primeiro é a experiência de quem considera, errônea ou acertadamente, estar culpado, no segundo a certeza de que deve ser punido não deixa espaço para mais nada.

A experiência da culpa, elemento-chave na patogênese da doença, nunca termina porque o paciente está sempre à procura de elementos num passado “culpado”. Esse “estar em culpa” remete o deprimido a um modo peculiar de experimentar a morte. No entanto, só alguns melancólicos se definem culpa dos. Os outros se sentem devedores pelo não poder, pela incapacidade de agir.

Decisivos, aqui, não são os conteúdos, mas a forma do passado que ocupa toda a vida psíquica. Nesse sentido, se é verdade que a identidade e a estabilidade do Eu de um ser humano lançam suas raízes no passado, então podemos compreender como o esquecimento sobre as próprias culpas, sobre a angústia dos remorsos e as saudades assumem para o melancólico o caráter ameaçador de uma separação do próprio Eu, de uma perda definitiva da própria identidade. De fato, o deprimido busca no passado esse suporte, essa espécie de segurança diante de um mundo que lhe escapa.

DEFORMAÇÃO DO TEMPO

Todas as experiências psicológicas humanas são marcadas pela presença do tempo. Mas o tempo dos homens não é apenas aquele do relógio que marca as horas em igual medida e é estranho a toda repercussão interior. Há também um tempo interior, aquele vivido, que muda em cada um de nós, de momento em momento, de situação em situação. Um tempo vivo, independente da marcação cronológica. Esse é o tempo da consciência. Quando estamos cansados, tristes ou entediados, nossa percepção temporal interior muda radicalmente com relação a quando estamos contentes ou intensamente interessados em algo. No primeiro caso, uma hora parece longa e interminável; no segundo, breve demais. Tudo isso está fortemente ligado aos nossos diversos estados de ânimo e às várias emoções que se refletem na percepção subjetiva.

A alteração da consciência interna do tempo tem um espaço crucial na experiência melancólica. O paciente assiste impotente à penosa deformação de seu tempo interior. Sem abertura para o futuro, ele desacelera, até parar, na impossibilidade de renovação temporal. Autores como Eugene Minkowski, Erwin Straus e Victorvon Gebsattel escreveram passagens importantes sobre a desaceleração e a estagnação do “tempo vivenciado” como expressão crucial da melancolia.

A temporalidade – talvez fosse mais correto falarmos de “intemporalidade” – é a dimensão que mais apreende a essência da melancolia. Aqui, o tempo do eu, já não no mesmo ritmo que o do mundo, paradoxal­ mente só pode se salvar ancorando-se no passado cinzento, sem diferenças cromáticas, apartado do presente e do futuro. Desse passado se alimenta o presente, vazio e angustiante, que assim se defende do horror do vazio e da experiência do nada que se cumprem na ideia da morte. Aí o tempo se torna instante imóvel, imutável, eterno. Nesse ponto o devir perde todo significado positivo. Prevalece, irrevogavelmente, a noção de “mal”. Numa vida morta, as lembranças se tornam remorsos e as ações cumpridas, culpas. Já não podem ser inscritas num projeto, numa esperança. Para o melancólico, a mortalidade é a perda do objeto de amor, do ser como tal. Esse caminhar em direção ao nada é extremamente visível na síndrome de Cotard, na qual o paciente se sente condenado ao “não existir” – uma morte em vida, mesmo sem de fato morrer.

Embora sejam raros, os casos de pacientes de Cotard testemunham, até um grau extremo, a impossibilidade de morrer, estando o corpo a tal ponto esvaziado, tão inconsistente que a morte não lhes diz respeito. Essas pessoas, que se definem mortas-vivas, dizem sofrer de sua imortalidade, da impossibilidade de morrer, e pedem para ser libertadas de destino tão atroz. Alguns consideram a morte real e concomitantemente falam de uma morte que não devora a existência, mas que se acompanha de uma misteriosa sobrevivência a ponto de tornar a própria morte vã. Em outras melancolias falta até a esperança de poder morrer.

Cito as palavras do filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard (1813-1855:)”Se quiséssemos falar de uma doença mortal no sentido mais estrito, essa deveria ser uma doença cujo fim seria a morte e a morte seria o fim. E essa é precisamente o desespero. Todavia, noutro sentido, ainda mais preciso, o desespero é a doença mortal. De fato, é extremamente improvável que venhamos a morrer fisicamente dessa doença ou que essa doença termine com a morte física. Ao contrário, o tormento do desespero é precisamente o de não poder morrer. Por isso mais se parece com o estado do moribundo quando está agonizando sem poder morrer. Portanto, cair na doença mortal é não poder morrer, mas não como se houvesse a esperança da vida: a ausência de toda esperança significa aqui que não há sequer a última esperança, a da morte. Quando o perigo maior é a morte, espera-se na vida; mas, quando se conhece o perigo ainda mais terrível, espera-se na morte. Quando o perigo é tão grande que a morte se tornou esperança, então nasce o desespero vindo a faltar a esperança de poder morrer”.

A temporalidade da melancolia, portanto, está fora de qualquer duração, ausente em sua própria essência. A articulação dinâmica de passado, presente e futuro se torna vã mediante uma radical desistoricização. Eis por que, tão frequentemente, terminado o episódio, a experiência melancólica é esquecida. Não poderia ser “recordada” (no sentido de ser reconduzida para as “intermitências da emoção”), porque nessa intemporalidade tudo se anula. Todo gesto se debruça sobre um vazio abismal. Mas não se trata de um vazio de futuro, de presente ou de passado. Trata-se de um vazio do passado, do presente, do futuro. Ou seja, do tempo, da vida como presença reduzida a corpo desprovido de espírito.

Precisamente como a temporalidade, o próprio tema da corporeidade se inscreve no melancólico em uma dramática queda de “doação de sentido”, num eclipse da consciência intencional. O deprimido arrasta o próprio corpo, identificando-se inconsciente e plenamente nele: um corpo pesado e lento, já não voltado ao mundo, mas encerrado dentro dos próprios limites. Na experiência melancólica o olhar é radicalmente interiorizado, abstraído das coisas. As mãos já não permitem agarrar os objetos distantes do corpo. O paciente é incapaz de chorar, de expressar tristeza e desespero, angústia e nostalgia. No rosto, essa divergência entre os sentimentos como realidades psíquicas e o corpo como lugar de sua expressividade se torna dilacerante. A face, perdida, se obscurece, não há signo de choro ou sorriso: está petrificada em sua imagem corpórea que não se lança no mundo, mas se consome na própria imanência.

O espaço do deprimido tende a ser desesperadamente vazio, chato, sem relevos nem perspectivas. As coisas são vividas como isoladas, distantes, inalcançáveis. É um espaço fechado, enrugado, bloqueado, opressor. Por sua capacidade de criar relações e interrogações, parece uma dimensão aberta à possibilidade de planejamento da existência, um movimento que se torna comunicação, linguagem, interlocução, investimento, projeto. Portanto, mais que de espaço, temos de falar de espacialização. O deprimido se insere nos interstícios de um espaço que não é o seu, porque não o produziu: o que se consome é uma dramática metamorfose, mortificação, dissolvência da espacialidade.

ABISMO DE SENTIMENTOS

Embora na literatura psiquiátrica e psico(pato)lógica a esperança – como postura existencial de base e cifra essencial da historicidade do homem e de seu status viatoris – seja pouco considerada, ela tem papel crucial no mundo melancólico. Solicita nosso olhar não para a nossa vida interior, mas para o que é independente da ação: em especial, da ação sobre nós mesmos. Ao falar do “caráter profético da esperança”, o filósofo francês Gabriel Marcel (1889-1973) definiu-a como uma “memória do futuro”, um “dispor-se na perspectiva do acontecer”. No polo oposto, o desespero é fechamento à temporalidade, negação de qualquer promessa de amor pelo futuro. Nesse sentido, se a esperança é busca carregada de confiança, tendência a ultrapassar passado e presente por um porvir de sentido, o desespero é o tempo fechado da consciência, o questionamento de tudo o que de mais profundo há na existência. Aqui se revela extremamente útil a distinção do psicólogo e filósofo alemão Philipp Lersch (1898-1972) entre desespero biológico e existencial: o primeiro se refere aos fundamentos vitais do indivíduo, o segundo diz respeito à falência dos próprios valores existenciais.

Mas há que perguntar: pode haver no melancólico uma “patologia da esperança”, uma distorção qualitativa do esperar e, em casos extremos, um “esperar delirante”? Uma metamorfose da espera parece evidente nas temáticas dos delírios de culpa e danação, nas quais o que é questionado é a própria possibilidade de alcançar os modos transcendentes da esperança; o sentimento de culpa afeta profundamente o agir do homem e sua vida psicológica, até que todo motus spei é neutralizado e enrijecido num desespero profundo e irrevogável. O melancólico não pode se subtrair a esse “eclipse da esperança”, porque ela investe todo aspecto munda no, pessoal e vital. Esse é o motivo que o torna fixo em sua gélida inércia, indiferente a qualquer espécie de alento, indisponível a qualquer exortação. O futuro desaparece e, com ele, a própria possibilidade de projetar-se, resgatar-se, redimir-se. O êxito é o niilismo absoluto, no qual mesmo os aspectos mais primordiais e vitais são expostos a uma deformação inimaginável – e, por vezes, grotesca. Nesse abismo de sentimentos vitais devem ser procurados alguns dos motivos do suicídio, paradoxal e extrema defesa de uma angústia infindável.

No entanto, a esperança permanece parte essencial da vida do homem, ainda que se apresente de forma contrapolar: como sentimento da falta de sentimento, como um esperar que nada espera. Mesmo diante disso tudo, a esperança sempre tem uma dimensão criadora. Ela consegue força no vazio e nas adversidades sem, todavia, opor-se a nada, sem se lançar em nenhuma tensão. Cria, permanecendo suspensa acima da realidade, sem ignorá-la; deixa aflorar mundos inéditos, palavras não ditas. Essa esperança pode crescer também no deserto da angústia e do desespero, do mal de viver e da fadiga.

Como uma ponte ela nos acompanha para fora de nossa solidão, colocando-nos em relação com os outros. Devolve ao homem a possibilidade de caminhar sobre os próprios tumultos interiores, de elevar-se acima do tempo que passa, de devolver às lágrimas e à dor, que as fazem brotar, um inesperado fragmento de porvir. Naquelas lágrimas que alcançam os olhos vindas dos mares extremos da alma, naquelas lágrimas que mil e mil vezes vimos entre infinitos carrosséis de gestos visíveis e invisíveis, flutuam inquietudes e sonhos despedaçados, a nostalgia do silêncio e das palavras do silêncio. Ao velar a visão, elas desvelam a essência do olhar, fazem sair do esquecimento em que o olhar as guardava, a verdade dos olhos: o amor, a alegria, a oração mais do que uma visão científica.

OUTRAS FRONTEIRAS

Em Genealogia da moral, Nietzsche (1844-1900) escrevia: “Não existe, julgando rigorosamente, ciência ‘sem pressupostos’, o pensamento de uma ciência desta feita é impensável, paralógico: uma filosofia, uma ‘fé’ sempre tem de preexistir para que dela derive uma direção, um sentido, um limite, um método, um direito à existência”.

Um tratamento psiquiátrico autêntico tem de encontrar o próprio sentido nas questões fundamentais da condição humana, que dizem respeito a todos nós: a alegria e a tristeza, o tédio e o enfado, a melancolia e a esperança, a dor e o desespero. Uma psiquiatria que não saiba aceitar as fronteiras de seu não conhecimento e, sobretudo, que delega o confronto com as categorias constitutivas de toda experiência psicopatológica a métodos terapêuticos indiferenciados está fadada a falir. Para além de toda “absolutização biológica”, o emaranhado dos conflitos imanentes ao arquipélago da loucura não pode abrir mão de uma presença humana que ouça e dê assistência.

Escreveu, provocativamente, o sacerdote, escritor e teólogo italiano Romano Guardini (1885-1968): “A melancolia é excessivamente dolorosa e lança suas raízes muito profundamente em nós para que possamos largá-la nas mãos dos psiquiatras”. As chaves de acesso de um autêntico tratamento psiquiátrico – que sempre nos expõe a situações e dimensões existenciais inéditas – estão nos aspectos radicalmente estranhos a tecnologias, rótulos, códigos, números e estatísticas, tão caros ao naturalismo psiquiátrico hoje dominante. O que resta a fazer, então, é inscrever tais experiências num horizonte de sentido antropológico: a única possibilidade é reconhecer, enfrentar e respeitar situações­ limite que colocam em questão o sentido e o significado de nosso existir e sofrer.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.