A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O ECLIPSE DA ESPERANÇA

Conhecida desde a Antiguidade sob o nome de melancolia, a depressão toma por inteiro a personalidade acometida, levando-a a experimentar a negatividade da vida de modo irremediável, sob a forma de sentimento de culpa, exclusão e inferioridade; diante disso, cabe aos profissionais de saúde reconhecer, enfrentar e respeitar as experiências-limite da existência que descortinam o sentido antropológico do sofrer humano

O termo “depressão” assume significados diferentes se utilizado na linguagem comum ou na psiquiátrica. Se na primeira indica o estado de tristeza e desânimo da pessoa diante de acontecimento desagradável, decepção ou luto, em âmbito psiquiátrico designa um quadro clínico preciso (distúrbio depressivo), caracterizado por sintomas biológicos e psíquicos espontâneos, aparentemente desproporcionais em intensidade e duração aos acontecimentos que os provocaram. Essa condição se distingue por sintomas como perda de interesse, astenia, incapacidade de sentir prazer, insônia, falta de apetite, diminuição da libido, facilidade em fatigar-se e alterações cognitivas, psicomotoras e neurovegetativas.

Esse estado de ânimo invade por inteiro a personalidade acometida. Um indivíduo deprimido experimenta – às vezes com angústia, outras com gélido desespero – a irremediável negatividade da vida. Mas se em algumas pessoas atinge a existência pessoal (e neste caso podem prevalecer ideias persecutórias, sentimentos de exclusão, inferioridade, indignidade, culpabilidade), outros sentem a própria vida como intolerável. Tudo parece negativo, terrível, irremediável. O mundo se torna um lugar de baixezas e maldades, dominado pela luz sinistra de dor e mal metafísicos.

O distúrbio depressivo – que aqui definiremos intencionalmente também como melancolia – é conhecido desde a Antiguidade. Nas últimas décadas, os conhecimentos sobre etiologia, nosografia, diagnóstico e terapia das diversas formas de depressão progrediram notavelmente. As ciências de base – da bioquímica à biologia molecular, da neurofisiologia à psicofarmacologia – forneceram novos elementos, úteis para a compreensão dos mecanismos patogenéticos, para a elaboração de modelos sobre a transmissão genética, a identificação das áreas e dos circuitos nervosos responsáveis pelas diversas manifestações da depressão. Além disso, o renovado interesse pela observação do paciente e pela descrição dos sintomas levou a uma atenção maior para com o diagnóstico e a uma redefinição dos distúrbios depressivos.

Desse modo, foram mais bem especificados os diversos subtipos de depressão e, para muitos deles, afinadas modalidades de intervenções personalizadas. Algumas formas atenuadas, outrora definidas como “neuróticas” e tidas como traços estáveis da personalidade, são hoje consideradas manifestações depressivas leves e persistentes, que respondem a terapias.

A avaliação da incidência da história familiar do caráter, da personalidade e da adaptação pré-doença permitiu incluir em seu espectro clínico algumas formas bipolares mistas crônicas, cujo quadro é amiúde dominado por delírios, alucinações e distúrbios do pensamento. Não se pode negar, entretanto, que no âmbito terapêutico foram obtidos importantes progressos. A introdução de novas substâncias para tratamento agudo e preventivo propiciou alcançar, na terapia dos transtornos do humor, resultados nada inferiores aos de outros setores da medicina. Especialmente, a síntese de antidepressivos com ação seletiva sobre os diversos sistemas neurotransmissores permitiu que fossem dadas respostas às formas clínicas antes não tratáveis.

Em geral, a experiência depressiva se caracteriza por sofrimentos de tamanha intensidade que dificilmente podem ser imaginados por quem não os sentiu. Para quem sofre de depressão, sentir-se não compreendido na própria dor torna mais aguda a sensação de estranheza e de pena de si. Estímulos, conselhos, exortações para reagir e fortalecer-se nada mais fazem que acentuar a desesperada solidão do paciente, sua insustentável responsabilização por alguma coisa que já não controla. Ele percebe, com penosa intensidade, um irreprimível empobrecimento afetivo e, ao mesmo tempo, a perda inimaginável do contato com um mundo exterior rico e vital.

Embora a perda de energia e vitalidade, as sensações de confusão, a incapacidade de concentrar-se, fazer escolhas, trabalhar e amar possam ter intensidades diferentes de pessoa para pessoa, significam, de todo modo, um pano de fundo constante. Além disso, sentimentos de impotência e derrota dominam o cenário. As noites insones, povoadas por medos e mal-estar, são aguardadas com terror. Os dias começam com o pesadelo de novas e intermináveis provas a enfrentar. Até as atividades elementares, como levantar-se, lavar-se, passear e outras tantas, custam esforços inimagináveis. Vai ganhando terreno, para usarmos as palavras do escritor austríaco Hugo von Hofmannsthal (1874-1929), “uma existência nua, exposta à dor, atormentada pela luz, ferida por todo som”.

A sucessão de dias que parecem iguais, sem melhoras, revigora a visão pessimista do paciente quanto ao próprio futuro. A postura em relação a esse distúrbio, todavia, muda de indivíduo para indivíduo. Há quem, sem uma adequada consciência da doença, não perceba totalmente o que está acontecendo. Alguns sentem que estão doentes, mas recusam ajuda; outros sabem que estão sofrendo de uma doença física grave; ou ainda lutam contra ela e procuram ajuda, por vezes de maneiras apelativas e manipuladoras, que causam incompreensão nos que estão ao redor e equívocos quanto a real gravidade da situação. Outros, por fim, conseguem dissimular o distúrbio, esconder a inibição e parecer animados, até inesperadamente surpreenderem parentes e colegas com um gesto suicida, como uma espécie de ato de libertação de um sofrimento vivido como incorrigível e desesperançado.

Na depressão, o suicídio é muito frequente. Em 1791, Pinel (1745-1826) evidenciou com espanto como os autores – tanto antigos quanto modernos – que haviam descrito todo tipo de “melancolia nervosa” tinham se descuidado “daquela forma que se caracteriza por um desgosto insuportável pela vida, ou antes, por um desejo irresistível de dar-se a morte, sem que possamos encontrar uma causa”. Em Luto e melancolia (1917), Freud (1856-1939) interpretou a tendência ao suicídio do melancólico como forma de agressividade contra o próprio Eu, no qual o sentimento de culpa tem um papel central. Basta-nos simplesmente notar que, do ponto de vista psicanalítico, podemos identificar essencialmente dois tipos de culpa: uma persecutória, que deriva da pulsão de morte e tende à autorrepreensão e ao receio da punição; a outra, função da pulsão de vida, que tende à reparação.

Para além das sugestivas e pertinentes hipóteses psicanalíticas, a culpa constitui um elemento psicopatológico nuclear da depressão, motivando um dos mais importantes fatores de transição do apego à vida ao suicídio. Esse, todavia, não seria voltado apenas a interromper a própria vida, dolorosa e sem esperanças, mas também a libertar o mundo da própria presença, considerada abjeta e nefasta. Além disso, o sofrimento se torna ainda mais doloroso pela impossibilidade de sua aceitação. É tido como indigno e, até por isso, como se fosse uma espiral infinita, na qual o paciente é envolvido pela culpa.

Seja com relação a si próprio, aos outros, à vida, aos seus desejos, ao próprio corpo ou à sua existência, a culpa constitui um elemento central do mundo melancólico. Convencido, como está, de que tocou o fundo, o paciente acredita que nunca mais poderá levantar-se. É a culpa que leva os pacientes a fugir do mundo e isolar-se em casa, na certeza de não poder superar a punição. Naturalmente, uma coisa é o sentimento de culpa, outra é o delírio de culpa. Enquanto o primeiro é a experiência de quem considera, errônea ou acertadamente, estar culpado, no segundo a certeza de que deve ser punido não deixa espaço para mais nada.

A experiência da culpa, elemento-chave na patogênese da doença, nunca termina porque o paciente está sempre à procura de elementos num passado “culpado”. Esse “estar em culpa” remete o deprimido a um modo peculiar de experimentar a morte. No entanto, só alguns melancólicos se definem culpa dos. Os outros se sentem devedores pelo não poder, pela incapacidade de agir.

Decisivos, aqui, não são os conteúdos, mas a forma do passado que ocupa toda a vida psíquica. Nesse sentido, se é verdade que a identidade e a estabilidade do Eu de um ser humano lançam suas raízes no passado, então podemos compreender como o esquecimento sobre as próprias culpas, sobre a angústia dos remorsos e as saudades assumem para o melancólico o caráter ameaçador de uma separação do próprio Eu, de uma perda definitiva da própria identidade. De fato, o deprimido busca no passado esse suporte, essa espécie de segurança diante de um mundo que lhe escapa.

DEFORMAÇÃO DO TEMPO

Todas as experiências psicológicas humanas são marcadas pela presença do tempo. Mas o tempo dos homens não é apenas aquele do relógio que marca as horas em igual medida e é estranho a toda repercussão interior. Há também um tempo interior, aquele vivido, que muda em cada um de nós, de momento em momento, de situação em situação. Um tempo vivo, independente da marcação cronológica. Esse é o tempo da consciência. Quando estamos cansados, tristes ou entediados, nossa percepção temporal interior muda radicalmente com relação a quando estamos contentes ou intensamente interessados em algo. No primeiro caso, uma hora parece longa e interminável; no segundo, breve demais. Tudo isso está fortemente ligado aos nossos diversos estados de ânimo e às várias emoções que se refletem na percepção subjetiva.

A alteração da consciência interna do tempo tem um espaço crucial na experiência melancólica. O paciente assiste impotente à penosa deformação de seu tempo interior. Sem abertura para o futuro, ele desacelera, até parar, na impossibilidade de renovação temporal. Autores como Eugene Minkowski, Erwin Straus e Victorvon Gebsattel escreveram passagens importantes sobre a desaceleração e a estagnação do “tempo vivenciado” como expressão crucial da melancolia.

A temporalidade – talvez fosse mais correto falarmos de “intemporalidade” – é a dimensão que mais apreende a essência da melancolia. Aqui, o tempo do eu, já não no mesmo ritmo que o do mundo, paradoxal­ mente só pode se salvar ancorando-se no passado cinzento, sem diferenças cromáticas, apartado do presente e do futuro. Desse passado se alimenta o presente, vazio e angustiante, que assim se defende do horror do vazio e da experiência do nada que se cumprem na ideia da morte. Aí o tempo se torna instante imóvel, imutável, eterno. Nesse ponto o devir perde todo significado positivo. Prevalece, irrevogavelmente, a noção de “mal”. Numa vida morta, as lembranças se tornam remorsos e as ações cumpridas, culpas. Já não podem ser inscritas num projeto, numa esperança. Para o melancólico, a mortalidade é a perda do objeto de amor, do ser como tal. Esse caminhar em direção ao nada é extremamente visível na síndrome de Cotard, na qual o paciente se sente condenado ao “não existir” – uma morte em vida, mesmo sem de fato morrer.

Embora sejam raros, os casos de pacientes de Cotard testemunham, até um grau extremo, a impossibilidade de morrer, estando o corpo a tal ponto esvaziado, tão inconsistente que a morte não lhes diz respeito. Essas pessoas, que se definem mortas-vivas, dizem sofrer de sua imortalidade, da impossibilidade de morrer, e pedem para ser libertadas de destino tão atroz. Alguns consideram a morte real e concomitantemente falam de uma morte que não devora a existência, mas que se acompanha de uma misteriosa sobrevivência a ponto de tornar a própria morte vã. Em outras melancolias falta até a esperança de poder morrer.

Cito as palavras do filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard (1813-1855:)”Se quiséssemos falar de uma doença mortal no sentido mais estrito, essa deveria ser uma doença cujo fim seria a morte e a morte seria o fim. E essa é precisamente o desespero. Todavia, noutro sentido, ainda mais preciso, o desespero é a doença mortal. De fato, é extremamente improvável que venhamos a morrer fisicamente dessa doença ou que essa doença termine com a morte física. Ao contrário, o tormento do desespero é precisamente o de não poder morrer. Por isso mais se parece com o estado do moribundo quando está agonizando sem poder morrer. Portanto, cair na doença mortal é não poder morrer, mas não como se houvesse a esperança da vida: a ausência de toda esperança significa aqui que não há sequer a última esperança, a da morte. Quando o perigo maior é a morte, espera-se na vida; mas, quando se conhece o perigo ainda mais terrível, espera-se na morte. Quando o perigo é tão grande que a morte se tornou esperança, então nasce o desespero vindo a faltar a esperança de poder morrer”.

A temporalidade da melancolia, portanto, está fora de qualquer duração, ausente em sua própria essência. A articulação dinâmica de passado, presente e futuro se torna vã mediante uma radical desistoricização. Eis por que, tão frequentemente, terminado o episódio, a experiência melancólica é esquecida. Não poderia ser “recordada” (no sentido de ser reconduzida para as “intermitências da emoção”), porque nessa intemporalidade tudo se anula. Todo gesto se debruça sobre um vazio abismal. Mas não se trata de um vazio de futuro, de presente ou de passado. Trata-se de um vazio do passado, do presente, do futuro. Ou seja, do tempo, da vida como presença reduzida a corpo desprovido de espírito.

Precisamente como a temporalidade, o próprio tema da corporeidade se inscreve no melancólico em uma dramática queda de “doação de sentido”, num eclipse da consciência intencional. O deprimido arrasta o próprio corpo, identificando-se inconsciente e plenamente nele: um corpo pesado e lento, já não voltado ao mundo, mas encerrado dentro dos próprios limites. Na experiência melancólica o olhar é radicalmente interiorizado, abstraído das coisas. As mãos já não permitem agarrar os objetos distantes do corpo. O paciente é incapaz de chorar, de expressar tristeza e desespero, angústia e nostalgia. No rosto, essa divergência entre os sentimentos como realidades psíquicas e o corpo como lugar de sua expressividade se torna dilacerante. A face, perdida, se obscurece, não há signo de choro ou sorriso: está petrificada em sua imagem corpórea que não se lança no mundo, mas se consome na própria imanência.

O espaço do deprimido tende a ser desesperadamente vazio, chato, sem relevos nem perspectivas. As coisas são vividas como isoladas, distantes, inalcançáveis. É um espaço fechado, enrugado, bloqueado, opressor. Por sua capacidade de criar relações e interrogações, parece uma dimensão aberta à possibilidade de planejamento da existência, um movimento que se torna comunicação, linguagem, interlocução, investimento, projeto. Portanto, mais que de espaço, temos de falar de espacialização. O deprimido se insere nos interstícios de um espaço que não é o seu, porque não o produziu: o que se consome é uma dramática metamorfose, mortificação, dissolvência da espacialidade.

ABISMO DE SENTIMENTOS

Embora na literatura psiquiátrica e psico(pato)lógica a esperança – como postura existencial de base e cifra essencial da historicidade do homem e de seu status viatoris – seja pouco considerada, ela tem papel crucial no mundo melancólico. Solicita nosso olhar não para a nossa vida interior, mas para o que é independente da ação: em especial, da ação sobre nós mesmos. Ao falar do “caráter profético da esperança”, o filósofo francês Gabriel Marcel (1889-1973) definiu-a como uma “memória do futuro”, um “dispor-se na perspectiva do acontecer”. No polo oposto, o desespero é fechamento à temporalidade, negação de qualquer promessa de amor pelo futuro. Nesse sentido, se a esperança é busca carregada de confiança, tendência a ultrapassar passado e presente por um porvir de sentido, o desespero é o tempo fechado da consciência, o questionamento de tudo o que de mais profundo há na existência. Aqui se revela extremamente útil a distinção do psicólogo e filósofo alemão Philipp Lersch (1898-1972) entre desespero biológico e existencial: o primeiro se refere aos fundamentos vitais do indivíduo, o segundo diz respeito à falência dos próprios valores existenciais.

Mas há que perguntar: pode haver no melancólico uma “patologia da esperança”, uma distorção qualitativa do esperar e, em casos extremos, um “esperar delirante”? Uma metamorfose da espera parece evidente nas temáticas dos delírios de culpa e danação, nas quais o que é questionado é a própria possibilidade de alcançar os modos transcendentes da esperança; o sentimento de culpa afeta profundamente o agir do homem e sua vida psicológica, até que todo motus spei é neutralizado e enrijecido num desespero profundo e irrevogável. O melancólico não pode se subtrair a esse “eclipse da esperança”, porque ela investe todo aspecto munda no, pessoal e vital. Esse é o motivo que o torna fixo em sua gélida inércia, indiferente a qualquer espécie de alento, indisponível a qualquer exortação. O futuro desaparece e, com ele, a própria possibilidade de projetar-se, resgatar-se, redimir-se. O êxito é o niilismo absoluto, no qual mesmo os aspectos mais primordiais e vitais são expostos a uma deformação inimaginável – e, por vezes, grotesca. Nesse abismo de sentimentos vitais devem ser procurados alguns dos motivos do suicídio, paradoxal e extrema defesa de uma angústia infindável.

No entanto, a esperança permanece parte essencial da vida do homem, ainda que se apresente de forma contrapolar: como sentimento da falta de sentimento, como um esperar que nada espera. Mesmo diante disso tudo, a esperança sempre tem uma dimensão criadora. Ela consegue força no vazio e nas adversidades sem, todavia, opor-se a nada, sem se lançar em nenhuma tensão. Cria, permanecendo suspensa acima da realidade, sem ignorá-la; deixa aflorar mundos inéditos, palavras não ditas. Essa esperança pode crescer também no deserto da angústia e do desespero, do mal de viver e da fadiga.

Como uma ponte ela nos acompanha para fora de nossa solidão, colocando-nos em relação com os outros. Devolve ao homem a possibilidade de caminhar sobre os próprios tumultos interiores, de elevar-se acima do tempo que passa, de devolver às lágrimas e à dor, que as fazem brotar, um inesperado fragmento de porvir. Naquelas lágrimas que alcançam os olhos vindas dos mares extremos da alma, naquelas lágrimas que mil e mil vezes vimos entre infinitos carrosséis de gestos visíveis e invisíveis, flutuam inquietudes e sonhos despedaçados, a nostalgia do silêncio e das palavras do silêncio. Ao velar a visão, elas desvelam a essência do olhar, fazem sair do esquecimento em que o olhar as guardava, a verdade dos olhos: o amor, a alegria, a oração mais do que uma visão científica.

OUTRAS FRONTEIRAS

Em Genealogia da moral, Nietzsche (1844-1900) escrevia: “Não existe, julgando rigorosamente, ciência ‘sem pressupostos’, o pensamento de uma ciência desta feita é impensável, paralógico: uma filosofia, uma ‘fé’ sempre tem de preexistir para que dela derive uma direção, um sentido, um limite, um método, um direito à existência”.

Um tratamento psiquiátrico autêntico tem de encontrar o próprio sentido nas questões fundamentais da condição humana, que dizem respeito a todos nós: a alegria e a tristeza, o tédio e o enfado, a melancolia e a esperança, a dor e o desespero. Uma psiquiatria que não saiba aceitar as fronteiras de seu não conhecimento e, sobretudo, que delega o confronto com as categorias constitutivas de toda experiência psicopatológica a métodos terapêuticos indiferenciados está fadada a falir. Para além de toda “absolutização biológica”, o emaranhado dos conflitos imanentes ao arquipélago da loucura não pode abrir mão de uma presença humana que ouça e dê assistência.

Escreveu, provocativamente, o sacerdote, escritor e teólogo italiano Romano Guardini (1885-1968): “A melancolia é excessivamente dolorosa e lança suas raízes muito profundamente em nós para que possamos largá-la nas mãos dos psiquiatras”. As chaves de acesso de um autêntico tratamento psiquiátrico – que sempre nos expõe a situações e dimensões existenciais inéditas – estão nos aspectos radicalmente estranhos a tecnologias, rótulos, códigos, números e estatísticas, tão caros ao naturalismo psiquiátrico hoje dominante. O que resta a fazer, então, é inscrever tais experiências num horizonte de sentido antropológico: a única possibilidade é reconhecer, enfrentar e respeitar situações­ limite que colocam em questão o sentido e o significado de nosso existir e sofrer.

OUTROS OLHARES

VIRADA HISTÓRICA

Como foi a volta das iranianas aos estádios depois de 40 anos e o que isso significa para as mulheres na república islâmica

Na pequena parte da arquibancada reservada às mulheres no estádio Azadi, em Teerã, em meio aos gritos de apoio ao “time melí” (seleção nacional), um canto da torcida feminina ecoava a todo momento: “Garota azul, sua ausência foi sentida”. Era a primeira vez em quase 40 anos que as iranianas podiam entrar legalmente para assistir a uma partida de futebol na República Islâmica do Irã, e o grito de guerra homenageava a torcedora que desencadeou essa pequena revolução. Em março deste ano, Sahar Khodayari, uma torcedora de 29 anos, vestiu-se como homem para tentar entrar no Azadi em um dia de jogo do Esteghlal, seu time do coração, que veste uniforme azul. O disfarce foi descoberto, e ela precisaria cumprir seis meses de prisão por desrespeitar a proibição à entrada de mulheres em estádios. Em uma ação desesperada, ateou fogo ao próprio corpo em frente ao tribunal. Morreu três dias depois.

O trágico incidente mudou tudo. O governo do presidente Hassan Rouhani, numa eterna tentativa de equilíbrio entre demandas reformistas e a pressão dos conservadores, afinal prometeu agir. A Fifa, que sempre driblou o problema, ameaçou expulsar o Irã e outros países, como Arábia Saudita e Catar, se não passassem a aceitar mulheres nos jogos. As portas do estádio finalmente se entreabriram às torcedoras. “Não foi um presente, foi uma conquista nossa. Nós, iranianas, colocamos esse assunto na agenda mundial, e hoje mulheres de outros países são também beneficiadas”, disse Shirin, de 20 anos, que pediu para que seu sobrenome não fosse divulgado porque foi ao estádio escondida de sua família.

Embora a proibição venha desde 1981, a questão da presença feminina em eventos esportivos entrou permanentemente na agenda do Irã apenas em 1998. Foi naquele ano que a seleção nacional se classificou pela segunda vez na história para uma Copa do Mundo, 20 anos depois da primeira participação. O país parou. Os jogadores foram recebidos como heróis depois da partida decisiva contra a Austrália. O Azadi foi aberto para que os torcedores e a equipe pudessem celebrar juntos. Homens e mulheres estavam lado a lado. Nos jogos seguintes, elas compareceram novamente ao estádio, mas foram impedidas de acessar as arquibancadas.

Começou então uma série de tentativas de burlar a proibição. Muitas mulheres passaram a se vestir como homens, como a jovem Khodayari, ou simplesmente se fantasiavam da cabeça aos pés, com chapéus e enroladas na bandeira do país. Os disfarces foram ficando cada vez mais convincentes nos anos seguintes, com algumas pintando bigodes e barbas no rosto ou até mesmo colando pelos verdadeiros. Por isso, passaram a ser chamadas de “mulheres barbadas”. Algumas dessas tentativas de entrar nos estádios foram encenadas no filme Fora do jogo, do cineasta iraniano Jafar Panahi, vencedor de vários prêmios internacionais — embora em seu próprio país ele sofra perseguição do governo. Ao receber um dos prêmios, Panahi dedicou-o às mulheres do véu branco, um novo movimento que começara a atuar em 2004.

Uma das principais personagens desse movimento foi a poeta e ativista iraniana Asieh Amini, que hoje vive na Noruega. Ela se recorda de que, em 2003, ativistas dos direitos das mulheres se reuniram para discutir as principais bandeiras a serem defendidas, e foi apontado que muitas jovens queriam frequentar os estádios e inclusive estavam sendo detidas por tentar driblar a proibição. A primeira grande ação aconteceu no ano seguinte, quando alugaram um ônibus e seguiram para a frente do estádio onde jogariam Irã e Bahrein a fim de tentar convencer os torcedores, todos homens, claro, a não entrar para ver o jogo. “Nós dizíamos: ‘Você acha certo ir quando metade da população está proibida?’”. O grupo usava faixa vermelha nos pés, para indicar a proibição, e véu branco, sinalizando que o movimento era pacífico. “Quando fiquei sabendo do jogo da semana passada, eu ri sozinha, porque fiquei feliz por elas. Mas também chorei, porque eu queria estar em meu país para viver isso”, contou Amini, que deixou o Irã há dez anos, depois de ver vários de seus amigos escritores serem presos pelo regime.

O jogo que levou risos e lágrimas ao rosto da poeta exilada aconteceu na quinta-feira 11 — o dia equivale ao sábado nos países muçulmanos —, em uma tarde de sol e calor. O esquema de segurança lembrava o de um clássico entre times rivais, um Corinthians e São Paulo, um Flamengo e Vasco. A maior parte do público entrou pelo portão principal do estádio, enquanto à outra torcida, a que não pisava ali fazia décadas, foi destinada uma entrada secundária, por uma avenida no lado oposto do gigante complexo esportivo. Havia reforço de grades de proteção e um cordão de isolamento formado por 150 policiais para separar as mulheres. A ironia é que todos estavam ali para apoiar a mesma equipe, a seleção do Irã.

As dificuldades para a torcida feminina começaram bem antes do dia da partida entre Irã e Camboja. As autoridades locais, para não irritar ainda mais os poderosos setores conservadores da sociedade, em especial os militares e os clérigos xiitas, tentaram ao máximo frear a liberalização e promover uma abertura lenta, gradual e segura da arquibancada feminina em eventos esportivos. O primeiro obstáculo foi a limitação na venda de ingressos, feita pela internet, apenas para cidadãs iranianas. Começou com 800 entradas, que se esgotaram em menos de uma hora. A pressão nas redes sociais e no site da Fifa surtiu efeito, e o número de ingressos subiu para 4 mil — que também foram vendidos rapidamente. Ainda muito pouco para o estádio Azadi, cujo nome ironicamente significa “liberdade”, que tem capacidade para 73 mil pessoas e estava vazio. O anel superior nem chegou a ser aberto. As arquibancadas estavam praticamente desertas, exceto por duas manchas de pessoas: uma no meio, onde estavam os homens, e outra atrás de um dos gols, local reservado para as mulheres.

“Permitir que as mulheres comprem ingresso para assistir a jogos foi um passo adiante contra essa proibição injustificável que as autoridades vêm mantendo por décadas”, afirmou a iraniana Tara Sepehri Far, da organização de direitos humanos Human Rights Watch. “No entanto, o limite no número de ingressos é discriminatório e coloca em perigo as mulheres que vão continuar arriscando sua segurança e sua liberdade para desafiar a restrição”, completou.

Foi recomendado às mulheres chegarem ao estádio com três horas de antecedência, e elas precisaram esperar embaixo do sol forte dentro do estádio na área que lhes foi dedicada, logo batizada de “jaula”, por causa do reforço nas grades. O cordão de isolamento era feito por policiais mulheres que vestiam o xador — túnica típica do islamismo xiita, que cobre todo o corpo, mas não o rosto — para garantir a “decência” do evento, separando assim amigos e amigas, pais e filhas, irmãos e irmãs, maridos e mulheres.

Esse foi o caso da administradora de empresas Sarah Helmzadeh, de 34 anos. Desde pequena, ela acompanha futebol pela televisão, apesar de ter crescido ouvindo seu pai falar que “era coisa de homem”. Nunca se importou com isso e sempre nutriu a vontade de ver um jogo no estádio, apesar da proibição vigorar desde antes de seu nascimento. Casou-se depois com Hamid, com quem compartilha o fanatismo pelo Persépolis, o popular time de Teerã. Os dois foram juntos ao estádio na quinta-feira, mas se separaram quando ele a deixou no portão feminino. “Ficamos trocando fotos e mensagens por celular o jogo inteiro. Claro que gostaria de assistir ao lado dele, mas mesmo assim foi um dia memorável. Vou lembrar até minha morte.”

Dentro do estádio, as restrições impostas pelas autoridades foram temporariamente esquecidas para celebrar o momento. O setor feminino era o mais entusiasmado e onde mais se destacavam as cores verde, vermelha e branca, da bandeira iraniana. Elas levaram cornetas e cantaram mais que os homens. Vibraram mais efusivamente a cada um dos 14 gols — sim, o jogo contra o fraquíssimo time cambojano, pelas eliminatórias asiáticas para a Copa do Mundo, teve placar de 14 a 0. E também choraram.

“Pode parecer inocente para vocês acostumados com a liberdade de ir aos jogos, mas eu chorei quando vi aquele gramado verde gigante. Já tinha visto campos de futebol nos bairros, mas o Azadi eu só conhecia pela televisão, e por lá o campo parecia bem pequeno”, disse a engenheira civil Mobina Sabari, de 23 anos, outra torcedora do Persépolis. Mobina sempre teve o apoio dos pais em sua dedicação ao futebol. Sua única decepção em relação ao jogo foi que seu jogador preferido, o meia-atacante Alireza Jahanbakhsh — um dos destaques da seleção na Copa de 2018 — não havia sido convocado pelo treinador belga Marc Wilmots.

As mulheres presentes ao estádio eram apaixonadas por futebol, mas havia mais em jogo. Desde a Revolução Islâmica de 1979, muitas das liberdades das iranianas foram tolhidas. Em certos aspectos, a sociedade iraniana pode ser considerada mais avançada que outros estados islâmicos, como a Arábia Saudita. Mulheres sempre puderam votar e dirigir e ocupam posições de destaque na economia e no alto escalão governamental. Por outro lado, a subida dos aiatolás — altos dignatários na hierarquia religiosa — ao poder resultou na perda de postos importantes na sociedade, como a magistratura, de onde foram banidas. Foram impostos também a figura do guardião — seja marido, pai ou irmão — e o uso do véu para cobrir a cabeça. Num ato de rebeldia cotidiano, muitas iranianas expõem mechas do cabelo no dia a dia e chegam a retirar o véu rapidamente para tirar fotos que depois serão postadas em redes sociais.

“Em outros países, mulheres passam a vida inteira sem ir aos estádios. Mas elas podem ir, se quiserem. Nós queremos isso também. Não é uma manifestação política, apenas a busca de um direito”, disse a engenheira eletrônica Narges Elhami, de 38 anos. Ela não se importou tanto em estar separada de seus amigos. “Foi maravilhoso viver essa atmosfera com as mulheres, muitas chorando, por isso não liguei por estarmos em uma área separada. Mas, se podemos ir com homens ao teatro, ao cinema, por que não podemos dividir a felicidade com eles em um jogo?”

E como o setor masculino da torcida reagiu à presença das mulheres no estádio? Sem dar muita importância. Alguns tiraram fotos, mas nas conversas de arquibancada quase não se comentava o assunto. Falava-se muito mais de futebol e dos lances em campo. Impossível dizer se era uma indiferença genuína ou uma tentativa de não marcar posição para não desagradar a algum religioso que estivesse por perto. Num lance sem importância em que as mulheres soltaram um grito frenético — a inocência de quem estava em um estádio pela primeira vez —, os homens deram risada.

“As mulheres têm todo o direito de estarem aqui”, comentou o professor de inglês Reza Karimi, de 32 anos. Quando questionado sobre se deixaria sua mulher vir ao estádio, a resposta “Ela não gosta de futebol”, seguida de um riso, deu a impressão de que estava aliviado por não precisar enfrentar a situação.

Ao final do jogo, no entanto, ficou claro que os homens se importavam. O time iraniano seguiu para agradecer à torcida masculina, mas ouviu os gritos: “Primeiro aquela seção”. O capitão Masoud Shojaei, que fala abertamente em favor das mulheres nos estádios, levou então seus companheiros para agradecer à torcida feminina. Era a consagração de uma tarde vitoriosa para elas. Na saída do estádio, dava para ouvir as torcedoras cantando: “Quem sabe quando voltaremos?”.

GESTÃO E CARREIRA

PORTAS ABERTAS PARA OS PETS

Em setembro, o escritório da Elo7, plataforma de vendas de produtos, com sede em São Paulo, recebeu 11 cachorros. Já é a segunda vez que a empresa realiza ações de Pet Day para seus 125 funcionários. Além de levar os bichos para acompanhá-los durante o expediente, inclusive em reuniões, lojistas de itens para pets que utilizam o site foram convidados para expor no local e especialistas em comportamento animal deram palestras para os empregados. “A presença dos animais é fundamental para deixar o ambiente mais descontraído”, afirma Diego Nascimento, analista de RH da Elo7. Por fim, por intermédio de uma parceria com a startup DogHero, os funcionários contaram com passeadores à disposição e ganharam cupons de desconto em hospedagem. “A ação surgiu após feedbacks dos empregados. Depois fizemos benchmarking com empresas que já realizavam a ação para entender a dinâmica”, afirma Diego. O evento ainda ajudou a ONG Ampara Animal, que montou uma lojinha no escritório. “Nossa ideia inicial era fazer uma feira de adoção, mas percebemos que seria difícil. Trazer os produtos e reverter as vendas para a ONG foi uma saída”, completa o analista.

COMEÇO DIFÍCIL

Segundo uma pesquisa da consultoria Michael Page, os funcionários que ocupam cargos de média gerência são os que mais encontram dificuldade na integração em uma nova empresa. O estudo, que ouviu 500 profissionais de todos os níveis hierárquicos pelo brasil, apontou que essa era uma reclamação frequente de 33% dos coordenadores e supervisores. Já para outros cargos, como assistentes e analistas, o índice caía para 16%.

OS DILEMAS DO AMANHÃ

Para 45% dos líderes de recursos humanos de empresas de tecnologia, a utilização de inteligência artificial é o maior desafio dos próximos cinco anos. É isso que aponta o relatório o futuro do RH no setor de tecnologia, da KPMK. Segundo o levantamento, publicado em outubro, entretanto, os RHs desse setor estão saindo na frente e 55% já introduziram ferramentas dela no dia a dia. Em empresas de outros setores, esse índice cai para apenas 36%.

FAZENDO O BEM

A IBM lançou um portal para estimular a filantropia entre os funcionários.  Desde setembro, os interessados podem acessar o IBM.ORG e encontrar oportunidades em projetos sociais, dados sobre trabalhos de colegas e informações sobre ONGs. “O brasil sempre foi muito ativo no programa de voluntariado, que já existe há pelo menos uma década. o site ajuda a ampliar esse engajamento”, afirma juliana nobre, gerente de responsabilidade social corporativa da IBM Brasil. O portal faz parte da nova estratégia da multinacional, que vem buscando direcionar seus esforços humanitários para as áreas de educação, desenvolvimento econômico, saúde, preparação para catástrofes naturais, entre outros. “Queremos colocar o funcionário como protagonista nas causas de impacto social”, diz Juliana. Desde 2018, a empresa doou 1 milhão de horas de seus empregados e investiu mais de 39 2,5 milhões de dólares em ações de voluntariado em todo o mundo.

ALIMENTO DIÁRIO

QUANDO O CÉU INVADE A TERRA

CAPÍTULO 9 – AS OBRAS DO PAI

“Se eu não realizo as obras do meu Pai, não creiam em mim”. (João 10:37-NVI)

“Para isto se manifestou o Filho de Deus: para destruir as obras do diabo.” (1 João 3:8)

Por centenas de anos os profetas anunciaram a vinda do Messias.

Fizeram mais de trezentas menções detalhadas, em que Dele falaram. Jesus cumpriu todas essas profecias! Os anjos testemunharam também a divindade de Jesus quando vieram com uma mensagem para os pastores: “É que hoje vos nasceu o Salvador, que é Cristo, o Sen hor.” A própria natureza testificou a chegada do Messias com a estrela que conduziu os magos.161 Entretanto, com esta afirmação: “Se eu não realizo as obras do meu Pai, não creiam em mim”, Jesus deu plena credibilidade a todos esses mensageiros, cujos ministérios teriam sido em vão se não houvesse, por parte de Jesus, mais um ingrediente – os seus milagres – confirmando quem de fato Ele era.

Ao povo Jesus deu o direito de não acreditar em tudo o que Ele dizia, se não houvesse demonstração de poder em Seu ministério. Como eu anseio pelo dia em que a Igreja fará essa mesma afirmação ao mundo! Isto é: “Se não fizermos os milagres que Jesus fez, vocês não precisam crer em nós.”

AINDA QUANDO CRIANÇA, JESUS SABIA QUAL ERA A SUA MISSÃO

Os versículos mencionados no início deste capítulo tratam de dois assuntos: “fazer as obras do Pai” e “destruir as obras do diabo”. Estas duas ações são inseparáveis: Elas contribuem para tornar bem claro qual foi o propósito para a vinda de Cristo. Ele foi movido por uma enorme paixão: agradar Seu Pai celestial.

A revelação das prioridades de Jesus começou bem antes do início do Seu ministério. Ele tinha apenas doze anos de idade. Maria e José somente perceberam que Jesus não estava com eles um dia depois de terem saído de Jerusalém. Tiveram que voltar para procurar seu filho.

Podemos imaginar o que se passou pela mente deles durante aqueles três dias em que estiveram separados do menino. Ele era o filho de um milagre, o Prometido. Será que eles tinham sido descuidados? A missão de criá-Lo havia terminado? Tinham eles cometido algum erro grave?

Finalmente o encontraram no templo, discutindo acerca das Escrituras com pessoas adultas! Por certo Maria e José ficaram aliviados e se alegraram. Mas, no fundo, provavelmente tenham ficado um pouco perturbados. Para acentuar ainda mais esse sentimento, eles viram que Jesus não estava nem aí com toda a ansiedade que eles tinham enfrentado. Com efeito, Ele parecia até mesmo um tanto surpreso pelo fato de seus pais não saberem onde ele estava. Jesus não pediu desculpas. Não houve explicações. Ele apenas fez uma declaração sobre a sua prioridade: “Não sabeis que Me convém tratar dos negócios de Meu Pai?” Aqui começa a revelação da Sua missão. Mesmo numa idade bem jovem, Jesus parecia demonstrar não ter nenhuma preocupação quanto à possibilidade de ter causado uma ofensa quando agiu em obediência ao Seu Pai celestial. Considere isto: Jesus não teve receio algum quanto ao que os outros poderiam pensar a Seu respeito, e ele tinha apenas doze anos! Ele recusou­ se a permitir que a possibilidade de um mal-entendido ou de um conflito O afastasse dos propósitos do Pai.

As primeiras e únicas palavras de Jesus em sua adolescência que foram registradas foram a respeito da sua missão. Obedecer ao Pai era toda a Sua ambição. Estas palavras foram suficientes. Posteriormente, em Sua idade adulta, Jesus confessou que a obediência ao Pai continuava sendo a Sua prioridade. Ela de fato o nutria: “A minha comida consiste em fazer a vontade Daquele que Me enviou.

UM NEGÓCIO ARRISCADO

Será que Jesus tinha esquecido de dizer a Maria e José para onde ele iria? Ou será que Ele fez o que fez sabendo que isso poderia afetar os outros da forma como de fato afetou? Creio nesta segunda hipótese. Ele estava disposto a correr o risco de não ser compreendido. Os “negócios de Meu Pai” muitas vezes requerem a sujeição a um risco como esse. Lembremo-nos de que Ele não havia ainda conquistado nenhuma credibilidade, como Ele veio a ter posteriormente em Sua vida; até então não tinha havido sermões que tocassem no coração das pessoas, não tinha havido curas, nem água se transformando em vinho, nem a ressurreição de mortos, nem ainda a expulsão de demônios. Ele era um simples menino de doze anos, mas que tinha prioridades diferentes das de qualquer outra pessoa.

Dezoito anos depois, no início do Seu ministério, Jesus é visto ensinando a Seus discípulos o que Ele tentou ensinar à Sua mãe e ao Seu pai: a prioridade dos negócios do Pai. Afirmações tais como: “o Filho nada pode fazer de Si mesmo”; “não busco a minha vontade, mas a vontade do Pai que me enviou” ; e “Eu faço sempre o que Lhe agrada” todas testificam Sua total dependência do Pai e Sua única paixão, a de agradá-Lo.

UM COSTUME JUDEU

Era um costume judeu o pai levar o filho até a praça principal da cidade quando o rapaz alcançasse a maturidade. Ele anunciava aos cidadãos que o seu filho estava em pé de igualdade em seus negócios, o que significava que poderiam tratar qualquer coisa com o seu filho como se estivessem tratando com ele mesmo. Ao fazer isso, era como se o pai estivesse anunciando a toda a cidade: “Este é meu filho amado, em quem me comprazo”.

No batismo de Jesus nas águas, quando ele tinha completado trinta anos, o profeta João Batista proclamou que Jesus era “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”. Naquela hora o Espírito Santo veio sobre Ele, revestindo-O de poder, capacitando-O a levar a cabo a Sua missão. Então o Pai falou do céu, dizendo: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo.”

Naquele momento, tanto o Pai como o Espírito Santo afirmaram que a missão que o Filho de  Deus havia assumido era a de revelar e executar os negócios do Pai. Jesus declarou em seu primeiro sermão quais eram as características próprias do seu agir com esse objetivo: “O  Espírito do  Senhor  está  sobre  mim,  pelo  que  me  ungiu  para  evangelizar  os  pobres; enviou-me  para  proclamar  libertação  aos  cativos  e  restauração  da  vista  aos cegos,  para pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor.”  A vida de Jesus demonstrou na prática o que esta sua declaração abrangia: trazer salvação ao espírito, à alma e ao corpo do homem, assim destruindo as obras do diabo. Foi a expressão de um reino que está sempre em crescimento, e cada vez mais se revelando.

O ELO QUE ESTÁ FALTANDO

Pode-se ver o segredo do ministério de Jesus em suas declarações: “o Filho nada pode fazer de Si mesmo, senão somente aquilo que vir fazer o Pai o Filho também semelhantemente o faz;” e “as coisas que Dele tenho ouvido, essas digo ao mundo.” A obediência de Jesus pôs a generosidade do céu num processo de colisão com a desesperadora condição da humanidade sobre a terra. Foi a Sua dependência ao Pai que trouxe a este mundo a realidade do Reino. Isto foi o que lhe possibilitou dizer: “O Reino de Deus está próximo de vocês”.

Jesus revelava o coração do Pai. Todas as Suas ações eram expressões terrenas do Seu Pai no céu. O livro de Hebreus refere-se a Jesus como sendo a expressão exata da natureza do Pai. Jesus disse: “Quem me vê a mim vê o Pai”. A vida de Jesus é uma revelação do Pai e do seu negócio. E o coração desse negócio é dar vida à humanidade, e destruir todas as obras do destruidor.

Jesus continua indicando o caminho para o Pai. E agora se tornou a nossa função, por meio do Espírito Santo, revelar e exibir o coração do Pai: dando vida, e destruindo as obras do diabo.

SOBRE O PAI

A maioria dos fariseus passou a vida servindo a Deus sem jamais conhecer o coração do Pai! Jesus ofendeu esses líderes religiosos principalmente porque Ele demonstrava o que o Pai queria. Enquanto os fariseus pensavam que Deus tinha desvelo com respeito ao sábado, Jesus operava para beneficiar aqueles para quem o sábado havia sido criado. Esses líderes estavam acostumados com os milagres das Escrituras como sendo algo do passado. Mas Jesus lhes invadiu as zonas de conforto ao introduzir o sobrenatural em suas cidades. Através de cada milagre realizado, Ele revelou os negócios do Pai a toda a comunidade religiosa. Para eles se adaptarem ao ensino de Jesus, tudo teria que ser revisto. Era bem mais fácil chamá-lo de mentiroso, afirmando que as obras Dele eram do diabo; e, por fim, matá-lo, a Ele que era Quem os fazia lembrar de tudo que precisava ser mudado.

A compreensão de que os negócios do Pai têm a ver com sinais e maravilhas não é uma garantia de que cumpriremos o propósito de Deus para a nossa vida. É necessário muito mais do que fazer milagres, ou mesmo conseguir conversões. As intervenções sobrenaturais de Deus eram feitas para revelar o extraordinário amor que há no coração do Pai para com o seu povo. Cada milagre é uma revelação da Sua natureza. E nessa revelação está inserido o convite para um relacionamento com Deus. É muito fácil para nós repetirmos os erros dos fariseus. Eles não compreendiam o coração do Pai. E há muitas atividades cristãs que não têm nada a ver com isso, que é o mais importante de tudo. Na hora presente ternos muito a aprender sobre corno identificar os nossos dons pessoais e descobrir maneiras de sermos mais bem-sucedidos no ministério. Precisamos é do próprio Pai. Precisamos da Sua presença – da presença Dele apenas. O evangelho é a história do Pai persuadindo o coração dos homens por meio do Seu amor. Tudo o mais que fazemos é o resultado de estarmos plenos da revelação de Deus.

A ALEGRIA E O PODER DE TODO MINISTÉRIO

Podemos viajar por todo este mundo e pregar o evangelho, mas se não tivermos urna revelação pessoal do coração do Pai, estaremos levando por aí apenas novas de segunda mão: uma história sem um relacionamento pessoal. Poderá haver pessoas que se salvem, porque se trata da verdade, mas há tantas coisas mais… Jesus, aos doze anos, ensinou-nos a seguinte lição: temos que tratar dos negócios do nosso Pai. E os Seus negócios fluem do Seu coração. Quando descobrirmos isto, descobriremos tanto a alegria como o poder de todo ministério – descobriremos a Sua presença.

A renovação que começou em 1994 em Toronto tem, desde então, se espalhado por todo o mundo. Ela tem o coração do Pai e a presença do Espírito Santo corno seus dois principais enfoques. Num certo sentido, estas duas coisas são a mesma coisa ou, poderíamos dizer, são as duas faces da mesma moeda. A presença de Deus sempre revela o Seu coração.

Do mesmo modo que Jesus revelou o coração do Pai a Israel, assim a Igreja tem de ser urna manifestação do coração do Pai perante o mundo. Somos os que levam a presença de Deus, somos os que fazem a Sua vontade. Dando o que recebemos liberamos a Sua presença em situações anteriormente mantidas no domínio das trevas. Isto é de nossa responsabilidade e é privilégio nosso.

TODOS SÃO CANDIDATOS

Todos em nossa comunidade são um alvo do amor de Deus. Não há exceções. Os testemunhos de uma transformação radical vêm dos diversos setores da sociedade e de todos os possíveis lugares: das escolas, dos locais de trabalho, dos lares, dos shoppings e das lojas, e até mesmo dos parques, das ruas e dos acampamentos dos sem-terra. Por quê? É que há um contingente, que a cada dia cresce mais, de pessoas que têm em mente os negócios do Pai. Conscientemente O levam por onde quer que forem.

Quando Jason, um de nossos alunos, foi convocado para ir ao tribunal para servir no corpo de jurados, ele para lá se dirigiu tendo os negócios do Pai em mente. Ao caminhar do estacionamento em direção ao prédio dos jurados, ele viu dois rapazes que pareciam estar com algum problema. O Senhor começou a falar ao coração de Jason sobre o mais velho deles. Jason foi até eles e lhes ministrou uma palavra, mencionando problemas bem específicos que ele tinha com o seu pai. O rapaz percebeu que Jason não poderia ter obtido aquela informação sem que Deus lhe tivesse mostrado. Em consequência, o rapaz recebeu Cristo.

Jason finalmente dirigiu-se para o edifício onde se fazia a seleção dos jurados. Num longo intervalo ele aproveitou o tempo para orar, pedindo a direção de Deus. Observou então que havia alguém do outro lado do salão, sentado numa cadeira de rodas. Era uma cadeira do tipo elétrico, que se movia acionando um pino que havia no braço da mesma.

Depois de uma breve conversa com o deficiente físico, Jason constatou que ele também era cristão. Encorajou-o então com as promessas de Deus e, em seguida, pediu-lhe que olhasse para os seus olhos. De mãos dadas eles então oraram. Uma energia veio para o corpo daquele homem, e a dor saiu. Jason pediu que ele se levantasse.

Então ele lhe disse:

– E se eu cair?

Ao que Jason respondeu:

– E que tal se você não cair?

Isso foi o suficiente para despertar a coragem que era necessária, e à plena vista de todos naquele salão, o homem ficou em pé, agitando os braços. Já haviam passado vários anos, desde o momento em que ficou impossibilitado de se firmar em seus pés. Jason voltou-se para as pessoas do salão e declarou:

– Deus está aqui para curar!

Antes de escurecer, duas outras pessoas receberam a cura através do toque de Jesus. Jason trabalhou naquela tarde tratando dos negócios do Pai. Todo crente tem uma parte a desempenhar para que esta privilegiada incumbência que nos foi dada seja realizada.

REDESCOBRINDO A NOSSA MISSÃO

Temos o privilégio de redescobrir o propósito original de Deus para o seu povo. Nós, que almejamos isso, temos de buscar o Senhor de forma arrojada, entregando-nos a Ele. Veja a seguir uma lista de procedimentos de ordem prática para que a sua busca do Senhor se efetive:

1. ORAÇÃO

Seja específico, e incansável no orar por milagres em todos os momentos da sua vida. Na sua busca, leve as promessas de Deus diante Dele. Ele não se esqueceu do que disse, e não precisa da nossa lembrança; contudo, é o seu prazer ver-nos firmados em Sua aliança, quando oramos. A oração com jejum deve ser uma parte integrante da nossa busca, uma vez que o Senhor revelou que este é um modo importante para conseguirmos romper as linhas inimigas. Oro até mesmo por determinadas enfermidades, em relação às quais eu não esteja vendo vitórias.

2. ESTUDO

Obviamente o nosso estudo deve ser das Escrituras. Passe meses lendo e relendo os evangelhos. Procure modelos para seguir. Veja em especial todas as referências ao Reino, e peça a Deus que lhe abra os mistérios do Reino. O direito de compreender esses mistérios pertence aos santos que estejam dispostos a obedecer. Outro grande ponto de estudo é analisar as passagens que se referem a “reformas” pelas quais passou Israel, sob a liderança de diferentes lideres (que foram avivalistas daquele tempo).181 Algumas sugestões para começar são: Davi, Ezequias, Esdras e Neemias. A vida de cada um deles toma-se uma mensagem profética para nós. Todo verdadeiro estudo é motivado pela fome espiritual. Se você não tem perguntas a fazer, você não reconhecerá as respostas.

3. LEITURA

Vá atrás dos livros que foram escritos por generais do exército de Deus – aqueles que realmente dão conta do recado. Há um enorme depósito de informações para aqueles que estão dispostos a prosseguir nessa busca. Não se esqueça dos líderes do grande avivamento de cura dos anos da década de 1950. O livro God’s Generais (Generais de Deus), de Roberts Liardon, é um bom começo. Se você estiver com medo de ler sobre aqueles que acabaram caindo no pecado e no engano (alguns terminaram a vida desastrosamente), fique longe de Gideão, Sansão, Provérbios de Salomão, e Cântico dos Cânticos. Os autores desses livros também terminaram a sua vida em tragédia. Temos que aprender a comer o peixe sem engolir as espinhas.

4. IMPOSIÇÃO DE MÃOS

Procure homens e mulheres de Deus que têm uma unção em sua vida para a realização de milagres. Essa unção pode ser transferida a outros pela imposição de mãos. Ocasionalmente há momentos numa ministração em que uma pessoa ungida deseja orar por aqueles que querem aumentar a sua unção. Eu mesmo tenho viajado bastante em busca de MAIS unção.

5. ASSOCIAÇÕES

O rei Davi é conhecido por ter matado, quando era ainda jovem, o gigante Golias. Mas há ainda nas Escrituras pelo menos mais quatro gigantes que também foram mortos – todos eles morreram nas mãos de homens que seguiram Davi, o grande matador de um gigante. Se você pretende matar gigantes, fique “grudado” a matadores de gigantes. Isso pega! É pela graça que vivemos no Reino e, em parte, ela é recebida de acordo com o modo como respondemos aos dons de Cristo: apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres. De fato recebemos a graça para operar a partir desses dons. Se você se “grudar” num evangelista, você vai ficar pensando evangelisticamente. O mesmo acontece quando nos associamos com aqueles que regularmente experimentam sinais e maravilhas em sua vida.

6. OBEDIÊNCIA

Por mais que alguém se prepare para que a unção de milagres aumente em sua vida, sem uma radical obediência ao Senhor, isso não se realizará. Tenho que procurar os doentes e atormentados por espíritos malignos para orar por tais pessoas. E, ao serem curados e libertos, louvo ao Senhor. Mesmo que não ocorra a cura ou libertação, mesmo assim rendo o meu louvor ao Senhor – e continuo procurando aqueles por quem orar. Já faz bastante tempo que aprendi que mais pessoas são curadas quando oramos por mais pessoas! A menos que ministremos com base no que sabemos, nosso conhecimento não passa de uma teoria. O verdadeiro aprendizado vem com o realizar.

O PODER NÃO É OPCIONAL

Jesus disse: “Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio”. Ele fez as obras do Pai, e depois passou o bastão para nós. No próximo capítulo vamos descobrir o que é mais importante: o carácter ou o poder. A resposta talvez o surpreenda.