A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A PSICOLOGIA DA FORMA

A palavra Gestalt, alemã e sem tradução exata em português, refere-se ao que é “exposto ao olhar”; segundo a teoria, o todo “é sempre maior que a soma de suas partes”

“Umarosa é uma rosa é uma rosa.” A poetisa americana Gertrude Stein, autora desse célebre enunciado, não tinha muito a ver com a teoria da Gestalt. Não obstante, em seu célebre verso (do poema Sacred Emily, de 1913) ela dá vazão a um a constatação que sobreveio também a alguns psicólogos de seu tempo. As quatro letras r, o, s, a não constituem em nossa mente simplesmente uma palavra: evocam a imagem da flor, seu cheiro e simbolismo – propriedades não exatamente relacionadas às letras. Em suma: criam uma forma, uma Gestalt. A palavra, alemã, significa “o que é colocado diante dos olhos, exposto ao olhar”. Adotada hoje no mundo todo (e sem tradução para o português), refere­ se a um processo de dar forma, de configurar.

De acordo com a teoria gestáltica, não se pode ter conhecimento do “todo” por meio de suas partes – e sim das partes pelo todo, pois o todo é maior que a soma de suas partes. Isso equivale a dizer que “A + B” não é simplesmente “(A+B)”, mas sim um terceiro elemento “C”, que possui características próprias. A esse aspecto se dá o nome de super soma. Um segundo aspecto considerado pela Gestalt é a transponibilidade: independentemente dos elementos que constituem determinado objeto, reconhecemos ali uma forma (Gestalt). Admitimos, por exemplo, que uma cadeira é uma cadeira, seja ela feita de plástico, metal, madeira ou qualquer outra matéria-prima. Em outras palavras, a forma sobressai.

O psicólogo austríaco Christian von Ehrenfels (1859 – 1932) apresentou esses dois critérios, super soma e transponibilidade, pela primeira vez em 1890, em uma dissertação apresentada na Universidade de Graz.

Um dos principais representantes da Gestalt da Escola de Graz (que também recebeu o nome de “teoria da produção”) foi Max Wertheimer (1880-1943). Ele gostava de ilustrar os primórdios experimentais da psicologia da Gestalt com uma história que deve ter se passado por volta de 191O: no final do verão, Wertheimer viajava de trem de Viena para algum lugar do estado da Renânia. Durante o percurso, meditava sobre a visualização do movimento. Quando lhe ocorreu, num dado momento da viagem, que podia provocar aquelas percepções artificialmente com uma espécie de rápido piscar consecutivo de luzes, como é possível fazer no estroboscópio, Wertheimer desceu intempestivamente em Frankfurt e comprou um aparelho que na época era tido como um brinquedo para crianças e começou a realizar os primeiros experimentos. Em seguida entrou em contato com psicólogo Friedrich Schumann (1858-1940), da Universidade de Frankfurt, que enviou seu assistente Wolfgang Kõhler (1887-1967) ao quarto de hotel de Wertheimer. Não foi preciso muito para que todos os envolvidos se convencessem de que os professores deveriam realizar o experimento juntos no laboratório de Schumann.

É difícil saber se tudo se passou exatamente assim. Talvez Wertheimer já tivesse anos antes a intenção de desenvolver um novo tipo de estroboscópio em parceria com Schumann. De qualquer modo, os primeiros experimentos do pesquisador da Gestalt de Franfkurt assumiram uma forma concreta no início do século XX. Em uma série de testes, Wertheimer mostrou aos voluntários do estudo dois estímulos, em rápida sequência: no primeiro podia ser vista, do lado esquerdo de uma gravura, uma linha horizontal; no segundo, havia uma linha horizontal do mesmo comprimento, à direita. Se ambas as imagens fossem mostradas alternadamente, surgia a intervalos de cerca de 60 milésimos de segundos a impressão de um movimento aparente, como se as linhas oscilassem de um lado para o outro, como um limpador de para-brisa.

Nesse experimento, se a mudança de imagens for ainda mais rápida, os estímulos são vivenciados como simultâneos – ambas as linhas tremeluzem aparentemente ao mesmo tempo. Só quando a representação de determinada frequência não é transposta se tem a impressão de continuidade: vê-se ora uma linha, ora a outra, cada qual em um local e posição. Wertheimer deu ao movimento percebido em sequência mais rápida a denominação de “fenômeno phi”.

A tentativa de visualização do movimento por Wertheimer marca o início da escola mais conhecida da psicologia da Gestalt. Além de Wertheimer, fizeram parte dela Wolfgang Kõhler e Kurt Koffka (1886-1941). Nos anos 20, as pesquisas se expandiram pela Alemanha e numerosos trabalhos deram novo impulso não só à pesquisa da percepção, mas à psicologia de forma geral.

Nas origens das escolas de Frankfurt e de Berlim – diferentemente do que se tinha na de Graz – estavam formas (Gestalten). Segundo seus teóricos, as pessoas não as “produziam” como dados fundamentais dos sentidos e, tampouco, elas se constituíam paralelamente a estes; as formas eram consideradas elas próprias as unidades fundamentais da vida anímica.

Desde o começo Wertheimer evitou falar em ilusão da percepção como fenômeno phi. Reconheceu que para o observador não importava se o movimento percebido era produzido por dois estímulos semelhantes e sucessivos ou por um deslocamento eficaz. Nem mesmo quando se esclarecia o efeito aos voluntários que participavam dos testes e a ilusão era “desmascarada”, ela se dissipava – pelo contrário: após o esclarecimento, o fenômeno phi era, não raro, percebido com maior nitidez.

ADEUS AOS DOGMAS

Os psicólogos da Gestalt desenvolveram um programa teórico para refutar dogmas da fisiologia dos sentidos. Pesquisas pioneiras de Wolfgang Kõhler com antropoides enfatizaram que não só a percepção humana, mas também nossas formas de pensar e agir funcionam, com frequência, de acordo com os pressupostos da Gestalt. Atendendo à solicitação do médico berlinense Max Rothmann, a Academia Prussiana de Ciências instalou em 1913, na ilha de Tenerife, nas Canárias, uma estação para o estudo do comportamento de macacos. No posto de experimentação eram estudadas as capacidades dos animais em condições semelhantes às naturais. O filósofo e psicólogo alemão Carl Stumpf (1848-1936) nomeou Kõhler diretor da estação, apesar de na época ele não ter mais que 26 anos e quase nenhuma experiência em biologia e psicologia de animais.

Os experimentos de Kõhler foram reconhecidos quando comprovaram que os chimpanzés têm condições de resolver problemas complexos, como conseguir alimentos que estão fora de seu alcance: para pegar bananas de um cacho, por exemplo, empilhavam caixas e usavam varas. Um macaco ruivo chegou a acoplar duas varetas de bambu a fim de se aproximar de uma guloseima. Fato menos conhecido é que, mesmo antes de Kõhler, Leonard T. Hobhouse havia realizado experimentos semelhantes na Inglaterra. Kõhler procedeu de maneira sistemática, protocolou cuidadosamente todos os resultados e filmou alguns. Mais decisivo para o seu êxito, entretanto, foi ter encontrado esclarecimentos convincentes para as suas observações. Segundo o método de “tentativa e erro”, para chegarmos à solução correta de determinado problema não é necessário um longo período de experimentação.

Para os macacos, parece que a “ficha cai” muito rapidamente; a junção de objetivo e meios de auxílio permitem que se dê a Gestalt. Kõhler denominou o conhecimento resultante dessa experiência de “perspectiva”. Quase concomitantemente aos estudos de percepção de Wertheimer, com quem Kõhler, de Tenerife, manteve estreito contato por correspondência, revelava-se a ação sagaz, movida pelo uso da inteligência, como fenômeno da Gestalt.

NO ZOOLÓGICO

Kõhler já havia pesquisado grande parte de seus chimpanzés submetidos a teste quando, em meados de 1914, irrompeu a Primeira Guerra Mundial. Mesmo a Espanha tendo se mantido neutra durante todo o conflito, ele só pôde deixar a ilha em 1920. Vez por outra, funcionários britânicos chegavam a cogitar que Kõhler seria um espião alemão e a pesquisa com os chimpanzés, nada mais que um pretexto para que se construísse nas Ilhas Canárias uma pista de pouso para aviões alemães.

O plano original de construir uma estação para estudar animais dos trópicos naufragou com a inflação do pós-guerra. E em 1920 mesmo os macacos foram enviados para o zoológico de Berlim. Quando Kõhler publicou um livro sobre sua pesquisa, no ano seguinte, obteve grande visibilidade. Durante anos ele se esforçou para ter a comprovação de que nem só a percepção e o pensamento seguiam os princípios da Gestalt, mas também a atividade cerebral obedecia a uma lógica fundamental semelhante.

Em 1922, Kõhler foi nomeado sucessor de Carl Stumpf na direção do Instituto de Psicologia de Berlim. Com isso, teve início a dinastia da psicologia da Gestalt. O periódico Psychologische Forschung (pesquisa psicológica), co-editado por Kõhler, era o seu principal veículo de divulgação. Outras importantes sedes da pesquisa psicológica da Gestalt na Alemanha foram a Universidade de Giessen, que em 1918 convidou Kurt Koffka para compor seu quadro docente, bem como a de Frankfurt, que acolheu Wertheimer em 1929.

Este último trouxe contribuições significativas para a psicologia do pensamento. Seu livro póstumo de 1945 (edição alemã de 1957) sobre o pensar produtivo – hoje se falaria em criatividade – documenta o intenso intercâmbio intelectual entre ele e Freud até 1933. Já Kurt Koffka salientou a utilidade da teoria da Gestalt para a psicologia do desenvolvimento. Com isso sabe-se hoje que a leitura é um processo integral e que a sequência de estágios das letras tomadas individualmente, passando pelas palavras, chegando até as sentenças inteiras, pouco corresponde ao que se passa na percepção humana.

Ainda antes da chegada dos nazistas ao poder Koffka emigrou para os Estados Unidos, onde se tornou um dos primeiros partidários da psicologia da Gestalt. Depois de o próprio Wertheimer e do psicólogo e filósofo Kurt Lewin (1890-1947) terem sido obrigados a deixar a Alemanha, foi a vez de Wolfgang Kõhler sair do país. Com isso, a psicologia da Gestalt perdia os pioneiros que a conduziam em território alemão.

SEM PROMOÇÃO

Do outro lado do Atlântico, seus representantes depararam com um ambiente científico completamente diferente. Nos Estados Unidos, havia por parte dos behavioristas; inúmeras críticas contra os psicólogos alemães da Gestalt que discordavam das teorias tradicionais da consciência defendidas por Wilhelm Wundt. A situação era agravada pelo fato de os exilados quase não poderem trabalhar em estabelecimentos bem conceituados – e nas pequenas instituições dificilmente tinham direito a alguma promoção. Por tudo isso, esse ramo da psicologia teve papel irrelevante durante muito tempo nos Estados Unidos.

No fim da década de 50, quando houve intensa divulgação da psicologia americana na Alemanha, a Gestalt foi “reimportada”, embora o interesse da geração mais jovem fosse direcionado principalmente para teorias behavioristas do aprendizado, diagnósticos e classificações da personalidade, psicologia social experimental e psicoterapias.

CENAS DE CRIANÇAS

Nos anos 20 havia outra “escola da Gestalt”: a da psicologia da totalidade genética de Leipzig. Felix Krueger (1874 – 1948), assistente de Wundt em 1910, nomeado seu sucessor, defendeu a concepção de que os sentimentos tinham “qualidades gestálticas”. Krueger contrapôs a isso, por um lado, a teoria dos elementos de seu professor, Wundt; por outro, criticou, nos experimentos da Escola de Berlim, o fato de a intuição não ser levada em conta.

Hoje, a psicologia da totalidade de Leipzig é tida como metodologicamente obtusa e conceitualmente um tanto antiquada. Mesmo as contribuições de Krueger e de seu colaborador Friedrich Sander (1889-1971) caíram em descrédito, pois ambos estavam vinculados à ideologia nacional-socialista, para a qual chegaram a transferir suas ideias, imprimindo nelas o viés de um “todo popular”.

Sander, por exemplo, escreveu em 1937 que a “eliminação do verme parasitário do judaísmo tinha sua justificação profunda nessa vontade de uma forma (Gestalt) pura por parte do ser alemão”. Considerando isso, é de admirar que ele e outros psicólogos da totalidade não tenham demorado a recuperar suas cadeiras logo aos primeiros anos da Alemanha do pós-guerra.

Há ainda outra variante significativa da psicologia da Gestalt que não deve ser esquecida: a teoria dos campos. No início do século XX, as forças de campo já eram conhecidas da teoria da gravitação e da eletrodinâmica; na década de 20, o conceito era utilizado pela física e pelas ciências sociais. Kurt Lewin se interessou pela ideia e tentou lhe dar denominações específicas: no início falou em “teoria dinâmica”, depois em “psicologia de vetor topológico” e, por fim, adotou o termo “teoria dos campos”.

O cerne do pensamento de Lewin é bastante simples: uma pessoa (P) está em um espaço vital (Ev), onde há determinados elementos – lugares, objetos, outras pessoas – que apresentam a ela desafio positivo ou negativo (também chamado valência). A pessoa se sente atraída ou repelida por eles. Algumas áreas do espaço vital não oferecem acesso direto; na verdade são obstruídas por barreiras e, para chegar a elas, é preciso transpor regiões com valência negativa. Além disso, duas áreas podem assumir um caráter de desafio de força equiparável – e assim concorrerem umas com as outras.

Lewin manteve a descrição matemática dos processos psicológicos bem no cerne de sua proposta. Ele tendia para uma linguagem “logicamente condicionada, que refletiria todos os outros meios de auxílio conhecidos da psicologia” e fazia uso da topologia. Durante muitos anos ele filmou documentários nos quais mantinha pessoas em “campos de forças” de seus afetos, conflitos e ações da vontade (em geral, crianças de sua própria família em situações de conflito), mas a maior parte de seus filmes caiu no esquecimento. Lewin filmava os seus pequenos sem que eles o percebessem, influenciado pelo cineasta russo Sergei Eisenstein (1898-1948). Por ter registrado cenas das crianças desde que eram recém-nascidas até a adolescência acabou criando um documentário de caráter único.

OUTROS OLHARES

DE VOLTA AO CLUBE

Diante do fechamento em massa de livrarias, o serviço de assinatura para entrega de livros em casa. sucesso de outras décadas, renasce mais personalizado e ganha adeptos

Protagonistas de uma trama dramática que envolve queda de vendas, fechamento de livrarias e calotes em fornecedores, os livros impressos passam por um momento difícil no Brasil. Mas um novo capítulo se abriu para o mercado desde que um negócio das antigas, que se julgava morto e acabado, ressurgiu na internet e ganha adeptos sem parar: os clubes de assinatura de livros. A repaginação começou em 2014, com o lançamento dos pioneiros Leiturinha, para crianças, e TAG. Eles demoraram a engrenar, mas hoje, são modelos de sucesso. O Leiturinha tem 170.000 assinantes de zero a 12 anos, impulsionado por muita propaganda e pelo desejo de pais e avós de instilar o hábito de leitura nos pequenos. A TAG está com 50.000, graças a um salto de 67% no número de inscritos em 2018 (neste ano, deve crescer outros 44%). “Isso prova que a crise no mercado editorial não se explica só pela falta de interesse dos leitores. Ela é resultado da inabilidade administrativa dos grandes varejistas”, avalia Daniela Vitieli, gerente de novos negócios da editora Companhia das Letras.

Estima-se que existam hoje cerca de vinte clubes de livros bem estabelecidos e em expansão. A fórmula é a de sempre: o usuário paga uma mensalidade, conforme o clube escolhido, e recebe todo mês uni livro (de papel, impresso) pelo correio (isso mesmo, via carteiro). No caso da TAG, a inscrição varia de 45,90 a 62,90 reais, dependendo do serviço, e na caixa também vão mimos como marcador de página, bloco com capa ilustrada e uma revista sobre o autor e a obra. “Notamos a existência de vários clubes de assinatura na rede, de vinhos, de produtos de beleza, e resolvemos criar o do livro”, conta Arthur Dambros, sócio da TAG. O começo foi difícil. “As pessoas não entendiam por que iriam pagar mais caro para ter um livro que nem sequer haviam escolhido”, lembra ele. Com o tempo, a experiência de integração ao universo literário, aliada à comodidade, prevaleceu e o negócio deslanchou, estimulado pelo trabalho de curadoria – autores e nomes conhecidos que recomendam títulos de sua preferência. A TAO   Curadoria, um dos clubes da empresa, só entrega livros de capa dura, em edições luxuosas, que ressaltam a exclusividade do serviço (e fazem boa presença na estante.

Novidade no setor, o Bux Club foi lançado em julho e tem um perfil mais personalizado. Ele trabalha com dezoito curadores, cada um encaixado em algum gênero de literatura. ”A ideia de receber um livro-surpresa se mantém, mas os assinantes podem escolher o curador e ler apenas as indicações de sua área de interesse, sejam romances, quadrinhos ou obras feministas”, explica Marcelo Duarte, sócio e também um dos curadores do clube, ao lado da ex-consulesa francesa Alexandra Loras, do escritor Xico Sá e da cartunista Laerte Coutinho, entre outros. O Bux Club nasceu com 1.500 assinantes e espera contar com ao menos cinco vezes mais no fim do primeiro ano de atividade.

O grosso do faturamento dos clubes vem das assinaturas – a previsão da TAG é arrecadar 36 milhões de reais neste ano -, embora muitos também tenham lojas virtuais. A favor de sua saúde financeira contam bastante a economia de não manter uma loja física e a previsibilidade do fornecimento. De olho nesse nicho de mercado, grandes editoras como Intrínseca e Record lançaram os próprios clubes de leitura.

Os dados mais recentes registram o fechamento de 20.000 livrarias no Brasil nos últimos dez anos (cerca de 50.000 permanecem ativas). É no vácuo desse varejo que os clubes de livros ganham espaço: a TAO faz entrega em mais de 2.300 municípios brasileiros. O auge dos clubes de assinatura no país se deu na década de 80, quando o Círculo do Livro, que tinha como sócios as editoras Abril e Bertelsmann, chegou a contar com 800.000 assinantes e vender 5 milhões de exemplares. Nos Estados Unidos, a apresentadora de TV Oprah Winfrey, grande influenciadora de hábitos e costumes, mantém um animado clube que envia desde clássicos, como Anna Karienina, de Tolstói, até títulos de autoajuda – e cada livro que Oprah recomenda vira, invariavelmente, um best-seller. A escritora J.K. Rowling, da saga Harry Potter, e as atrizes Reese Whiterspoon e Emma Watson também emprestam o nome a clubes do gênero. “O público e interessa em ler os livros que alguém que ele admira recomenda, principalmente se for algum escritor ou personalidade”, diz Dambros.

Além de propiciarem ao leitor o ato de ler, os clubes criam comunidades engajadas à sua volta: em 2018 foram organizados mais de 600 encontros de leitores da TAO no Brasil. Assinante há dois anos, a psiquiatra Lina Nunes, 44 anos, de Niterói, na região metropolitana do Rio de Janeiro, já leu 28 livros do clube e frequenta há um ano reuniões para debater a obra do mês. “Marcamos os encontros pelo aplicativo, no qual também trocamos ideias sobre os livros. As reuniões acontecem uns quinze dias depois de recebermos a obra em casa”, conta ela. Pois é: até o antigo ritual de um grupo se sentar em torno de uma mesa para debater um livro deixou de ser coisa de senhoras idosas (tema, aliás, da comédia Do Jeito que Elas Querem, de 2018, sobre os efeitos em septuagenárias da leitura do erótico Cinquenta Tons de Cinza) e entra de novo no cotidiano dos leitores. Uma volta ao passado que só faz bem.

GESTÃO E CARREIRA

APETITE CANINO

Depois de ser adquirido pela Tarpon Investimentos, o e-commerce de produtos para animais de estimação Petlove pretende chegar a R$ 2,5 bi de receita em 2024

Quem visita o escritório-sede da Petlove, no Centro Empresarial Nações Unidas, um dos principais edifícios comerciais de São Paulo, não imagina que o maior e-commerce de produtos pet do Brasil já esteve à beira da falência. Entre 2005 e 2011, Marcio Waldman, fundador da companhia, enfrentou tempos difíceis. Embora a economia estivesse deslanchando, ainda havia certa descrença em relação ao potencial de vendas pela internet. Somado a isso, a década passada marcou o momento de expansão acelerada de redes físicas, como Cobasi e Pet Center Marginal, hoje Petz. Na mesma época, Waldman encerrava a operação de sua clínica, chamada Petsupermarket, que também dedicava parte de seus 800 metros quadrados de área ao varejo. Enquanto a operação física perdia o fôlego, o site começava a dar sinais de um futuro promissor. “Em 2005, as vendas do nosso e-commerce se equilibraram com as da loja física, que ainda detinha serviços de pet shop, banho e tosa, internação e cirurgias. Além disso, na época, o Pet Center Marginal inaugurou uma loja próxima à minha, com várias promoções. Isso acabou com a minha clientela”, diz Waldman. “Dali em diante, ficamos apenas com o e-commerce. Passamos por dificuldades, mas em 2010 as vendas começaram a melhorar.”

Em 2011, a empresa faturava R$ 4 milhões e contava com sete funcionários, incluindo o próprio Waldman e sua esposa, Sandra. Foi quando representantes da consultoria McKinsey procuraram o empreendedor para apresentar uma proposta dos fundos de investimento Kaszek Ventures, Monashees e Tiger Global. “Eles estavam com uma demanda para encontrar um vertical do segmento pet. Naquela época, era muito mais difícil atrair a atenção de fundos”, diz Waldman. A ideia era transformar a pequena empresa, com receita enxuta, num gigante de escala global. Ele aceitou a sociedade e dividiu a participação da companhia com os fundos. Para explorar o potencial, os novos sócios mudaram a comunicação visual da empresa, que passou a se chamar Petlove.

Também houve investimentos em infraestrutura, desenvolvimento de tecnologia própria, governança corporativa e na área de recursos humanos, para estruturar o que Waldman chama de squads. Hoje, são 380 funcionários divididos entre a sede e os centros de distribuição da empresa, que são localizados em Extrema (MG) e no Recife. A estratégia deu certo. Em 2018, a Petlove teve receita de R$ 215 milhões, cerca de 54 vezes mais do que o faturamento obtido sete anos antes. Para 2019, a meta é crescer 46%, chegando a R$ 315 milhões. O bom desempenho recente chamou a atenção da Tarpon Investimentos, que em fevereiro comprou uma fatia de 54% da companhia, tornando-se sócia ao lado da Kaszek, Monashees e do próprio Waldman – a aquisição por parte da Tarpon envolveu a participação que a Tiger detinha no negócio.

Depois de se firmar como o maior e-commerce de produtos para animais de estimação do Brasil, a Petlove quer mais. A empresa projeta não apenas ser a maior no ambiente digital, mas de todo o segmento no País. “Queremos ser os maiores do mercado pet do Brasil. A nossa meta é faturar R$ 2,5 bilhões em 2024”, diz Waldman. Para executar o ambicioso plano, o executivo pretende investir em startups e em interação com lojas físicas de parceiros.

Um exemplo disso é que a companhia acaba de desenvolver um método de entregas e armazenagem por meio de ‘mini-hubs’, que funciona como pequenos centros que distribuem os pedidos realizados pela internet. O primeiro ponto inaugurado fica na Avenida Bandeirantes, em São Paulo. A ideia é replicar o modelo para outras capitais do País. “Com isso, conseguimos fazer a entrega por motoboy em até duas horas para a capital de São Paulo”, diz Waldman. “Começamos há cerca de quatro meses. Já estamos entregando quase 80% dos pedidos em uma hora e meia.” A Cobasi, principal rival da empresa no âmbito virtual, também opera por esse método. Já são mais de 30 ‘mini-hubs’.

ECOSSISTEMA

Recentemente, muitas startups têm surgido nesse mercado. Alguns dos exemplos mais notórios são a Pet Driver – conhecida como Uber dos animais –, a empresa de entregas Zee.Now e a varejista PetBamboo. A Petlove não quer ficar fora disso. Ela acaba de adquirir a plataforma Vet Smart, um aplicativo móvel que auxilia veterinários e estudantes com dicas para a prescrição, divulgação de novos produtos e medicamentos. Segundo Waldman, mais de 170 mil veterinários utilizam a plataforma. A empresa quer, com isso, criar um ecossistema que cubra toda a cadeia. “Nós vamos injetar um capital para desenvolver a companhia. Criaremos novas ferramentas para que o veterinário consiga prescrever melhor e usar essa plataforma que a Petlove quer construir com os veterinários e as lojas físicas do Brasil”, diz Waldman. Os valores envolvidos na transação não foram revelados.

Para Maria Alice Narloch, analista da consultoria Euromonitor, o grande segredo para o sucesso da Petlove foi investir em um programa de fidelidade que oferece descontos para produtos de alta recorrência, algo que dá resultado e que a concorrência também passou a oferecer. “É muito mais fácil você prever o que o seu animal vai consumir do que o seu próprio consumo. Normalmente, você já tem o tipo de ração e sabe a quantidade que ele come por mês”, diz Narloch. “Por meio de um trabalho de machine learning, também é possível mapear de forma mais exata a jornada desse consumidor no site. Isso é algo que tem feito com que e-commerces, como Petlove e Cobasi, cresçam cada vez mais.”

ALIMENTO DIÁRIO

QUANDO O CÉU INVADE A TERRA

CAPÍTULO 8 – ENSINANDO PARA QUE HAJA UM ENCONTRO

Toda revelação da Palavra de Deus que não nos conduza a um encontro com Deus somente serve para nos tornar mais religiosos. A Igreja não pode permitir-se a ter “forma, mas sem poder”, pois isso gera cristãos sem um propósito.

Jesus, o mestre que nos serve de modelo, nunca separou o ensino da prática. Ele mesmo é o padrão para este dom. A Palavra revelada de Deus, quando declarada com unção pelos lábios de um mestre, deve conduzir à demonstrações de poder.

Nicodemos disse a Jesus: “Rabi, sabemos que és Mestre vindo da parte de Deus; porque ninguém pode fazer estes sinais que Tu fazes, se Deus não estiver com Ele.” A compreensão que então se tinha é que alguém para ser um mestre de Deus não ficaria simplesmente falando, teria que fazer alguma coisa. E essa alguma coisa, conforme está registrado no evangelho de João, são milagres e maravilhas.

Jesus nos deu um exemplo perfeito de como ministrar acrescentando à proclamação do evangelho a realização de sinais e maravilhas. Mateus relata-nos isso do seguinte modo: “Percorria Jesus toda a Galileia, ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do reino e curando toda sorte de doenças e enfermidades entre o povo.” E também: “E percorria Jesus todas as cidades e povoados, ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do reino e curando toda sorte de doenças e enfermidades.”

Então Ele deu ordem a seus discípulos para que ministrassem, com esse mesmo enfoque. Ele os enviou com a seguinte instrução: “E, indo, pregai, dizendo: É chegado o reino dos céus. Curai os enfermos, limpai os leprosos, ressuscitai os mortos, expulsai os demônios; de graça recebestes, de graça dai.”  E Ele enviou os setenta em missão, dizendo: “Curem os doentes que ali houver e digam-lhes: “O Reino de Deus está próximo de vocês.

O evangelho de João registra o que acontece quando a palavra é seguida de atos sobrenaturais: “As palavras que Eu vos digo não as digo por mim mesmo; mas o Pai, que permanece em Mim, faz as suas obras.” Fica claro que nós proclamamos a palavra, e o Pai faz as obras, os milagres!

Na condição de homens e mulheres de Deus que ensinam, temos de exigir de nós mesmos a condição de também fazermos as obras, com poder! E esse fazer implica em estarmos invadindo o que é impossível, com sinais e maravilhas.

Os que ensinam a Bíblia devem instruir de modo a explicar o que eles acabam de fazer, ou o que estão prestes a fazer. Aqueles que se limitam a ficar apenas com as palavras estão limitando o seu dom e, mesmo sem ter a intenção, poderão levar os crentes ao orgulho, decorrente do aumento do conhecimento sem um paralelo crescimento da percepção da presença e do poder de Deus. É nas trincheiras do ministério “com a cara” de Cristo que aprendemos a nos tornar totalmente dependentes de Deus. Adentrando o impossível por confiar em Deus faz com que o orgulho não cresça, e sim desapareça.

UMA EXPERIÊNCIA PESSOAL

Em 1987 fui assistir a uma das conferências de John Wimber com sinais e maravilhas, realizada em Anaheim, Califórnia. Eu saí de lá desencorajado. Tudo o que foi ensinado, inclusive muitas das ilustrações, eu havia também ensinado. O motivo do meu desencorajamento foi o fato de que eles tinham fruto do que acreditavam. Eu tinha apenas uma boa doutrina.

Sempre chega uma hora em que conhecer a verdade simplesmente não mais nos satisfaz. Se a nossa palavra não altera as circunstâncias para o que é bom, será que ela é uma boa palavra? Então passei a fazer um reexame bem sério das minhas prioridades pessoais. Ficou evidente que eu não mais poderia esperar que acontecesse coisas boas simplesmente por crer que elas poderiam acontecer… ou que deveriam acontecer. Havia um fator de risco que eu tinha deixado de considerar. Wimber o chamava de fé. O ensino TEM que ser acompanhado de uma ação que dê condições para que Deus atue.

Tudo começou a mudar imediatamente. Oramos pelas pessoas e vimos milagres acontecerem. Era glorioso, mas não levou muito tempo para descobrirmos que muitos não eram curados. O desencorajamento estabeleceu-se de novo, e a atividade assumindo riscos diminuiu.

Em minha primeira viagem a Toronto, em março de 1995, prometi a Deus que, se Ele tocasse em mim novamente, eu nunca mais me afastaria. Jamais deixaria esse ponto central. Minha promessa significava que eu faria o derramar do Espírito Santo, com plena manifestação dos Seus dons – isso como o único propósito de minha vida. E nunca me desviaria deste chamado, não importando o que acontecesse! O Senhor tocou em mim, e tenho perseguido com afinco este alvo, sem dele desviar-me.

RESISTINDO À INFLUÊNCIA DA NOSSA PRÓPRIA CULTURA

Nossa cultura tem castrado o papel de mestre. É possível cursar uma universidade e formar-se em administração de empresas, sem nunca ter recebido uma aula sequer de alguém que tenha sido proprietário de uma empresa. Valorizamos conceitos e ideias, mais do que a experiência com sucesso. Eu gostaria que isso fosse uma característica apenas das escolas seculares, mas a cultura que valoriza as ideias mais que a experiência tem caracterizado também a maioria de nossas escolas bíblicas, seminários, faculdades de teologia e até denominações. Muitos movimentos dos dias de hoje consideram que estão indo muito bem, apesar de irem por um caminho sem uma experiência real com Deus.

O que é mais triste, ainda, é que aqueles que falam de experiências subjetivas com Deus são considerados suspeitos, e até mesmo perigosos. Mas Deus não pode ser conhecido, a não ser através da experiência pessoal. Randy Clark, que foi quem Deus usou para iniciar o fogo do avivamento de Toronto em 1994, expressa isso do seguinte modo: “Todo aquele que não tem uma experiência com Deus não conhece Deus.” Ele é uma pessoa, não uma filosofia ou um conceito. Chegou a hora de todos os que se tenham encontrado com Deus deixem de ficar diminuindo o testemunho do que fazem, servindo assim ao medo. Temos de despertar o desejo das pessoas para terem mais do mundo sobrenatural. O testemunho tem como despertar esse desejo.

A MANIFESTAÇÃO DO REINO

Quando a equipe do nosso ministério viaja por todo o mundo, agora cremos que certas coisas vão acontecer. Cura, libertação e conversões são o fruto do nosso trabalho. Embora seja um tema pouco frequente de nossas mensagens, a cura é um dos mais frequentes resultados que obtemos. À medida que proclamamos a mensagem do Reino de Deus, as pessoas são saradas. O Pai parece dizer: “Amém!” à sua própria mensagem, ao confirmar com poder a palavra. Pedro sabia disso quando orou para que houvesse ousadia na sua pregação, crendo que a resposta de Deus seria estender a sua mão “para fazer curas, sinais e prodígios, por intermédio do nome do teu santo Servo Jesus.” Deus prometeu confirmar a nossa mensagem com poder se ela for o evangelho do Seu reino.

PODER VERSUS ORGULHO

Os problemas que hoje enfrentamos não são novos. O apóstolo Paulo preocupou-se muito com a igreja de Corinto, pois eles estavam sendo seduzidos por um evangelho sem poder.

“Não escrevo estas coisas para vos envergonhar; mas admoesto-vos como meus filhos amados. Porque ainda que tivésseis dez mil anos em Cristo, não teríeis, contudo, muitos pais; porque eu pelo evangelho vos gerei em Jesus Cristo. Admoesto-vos, portanto, a que sejais meus imitadores.

Por esta causa vos mandei Timóteo, que é meu filho amado, e fiel no Senhor, o qual vos lembrará os meus caminhos em Cristo, como por toda a parte ensino em cada igreja.

Mas alguns andam ensoberbecidos, como se eu não houvesse de ir ter convosco. Mas em breve irei ter convosco, se o Senhor quiser, e então conhecerei, não as palavras dos que andam ensoberbecidos, mas poder.

Porque o reino de Deus não consiste em palavras, mas em poder.” (1 Coríntios 4:14-20 – SBTB)

Paulo começa contrastando com os pais aqueles que ensinam (aios). Esses mestres que ele menciona eram diferentes em relação aos que Jesus pretendia que a Igreja viesse a ter. Paulo admite que eles poderiam ser crentes, chamando-os de “aios em Cristo”. Mas observemos que logo depois ele os chama de “ensoberbecidos”.

Na presente era pós-denominacional, estamos vendo um movimento de crentes sem precedentes, reunindo-se em torno de homens e mulheres que atuam como pais espirituais. No passado reuníamo-nos em torno de certas verdades, o que levou à formação das denominações. Nelas, a força que une as pessoas evidentemente é um acordo na doutrina e geralmente também em práticas. O ponto fraco existente é que isso não permite muita variedade nem mudanças. Na virada do século vinte, aqueles que tinham recebido o batismo no Espírito Santo com a evidência de falar línguas não eram mais bem-vindos em muitas das igrejas, pois a maioria das denominações mantinham declarações de fé imutáveis, petrificadas.

Mas agora essa atração gravitacional em torno de pais está acontecendo até mesmo dentro das denominações. Nelas o agrupamento dos crentes em diferentes grupos permite divergências em doutrinas não essenciais, sem causar divisão. Muitos consideram este movimento como sendo uma restauração da ordem apostólica de Deus.

A segunda preocupação de Paulo é sobre a condição de orgulho de seus filhos espirituais. Ele deixa isso bem claro ao contrastar a fidelidade com o orgulho, pois ele usa o termo “ensoberbecidos”. Paulo preocupava-se quanto a que eles não fossem enganados ardilosamente pelas teorias de bons oradores públicos.

O carisma pessoal muitas vezes é mais valorizado pela igreja do que a própria unção ou a verdade. Pessoas de carácter duvidoso frequentemente chegam a ter uma posição de liderança na igreja; basta que tenham uma personalidade influente.

Para Paulo isso era, em particular, bastante preocupante. Ele havia dado duro para trazer os coríntios à fé. Sua opção foi a de não os empolgar com tudo que ele sabia. De fato, ele os levou a ter um encontro com o Deus todo-poderoso, que se tornaria a base firme em que eles ancorariam a sua fé. Mas agora os pregadores de sermão tinham entrado em cena. A resposta de Paulo foi enviar-lhes Timóteo, uma pessoa tal como ele mesmo. Eles necessitavam de alguém que os fizesse lembrar de como era o seu pai espiritual. Isso contribuiria para que eles mais facilmente recalibrassem o seu sistema de valores para imitarem pessoas de personalidade mas, ao mesmo tempo, fossem pessoas de poder!

Paulo fez uma impressionante afirmação, esclarecendo a opção correta. Disse ele: “O reino de Deus não consiste em palavras, mas em poder” Na língua original está: “o Reino de Deus não consiste em logos, mas em dynamis”. Aparentemente eles tinham muitos mestres que eram bons no falar muitas palavras, mas que demonstravam ter bem pouco poder. Eles não seguiam o padrão que Jesus lhes havia estabelecido.

Dynamis é o “poder de Deus demonstrado e conferido num derramar do Espírito Santo.” Assim é o reino!

Dois capítulos antes Paulo estabelece como sua prioridade no ministério levar os crentes de Corinto a apoiarem a sua fé no poder (dynamis) de Deus. Aqui ele comenta que os coríntios estariam predispostos a fracassar na fé, caso não ocorresse nenhuma mudança.

Sempre que o povo de Deus passa a preocupar-se com conceitos e posições doutrinárias, em vez de preocupar-se com a expressão da vida e do poder, ele se acha predisposto a cair, não importando quão boas aquelas ideias sejam.

O Cristianismo não é uma filosofia; é um relacionamento. É o encontro com Deus que dá poder aos conceitos. Isso temos que exigir de nós mesmos. Como? Temos de buscá-lo, até o encontrarmos.

PAIS COM PODER VERSUS MESTRES APENAS COM PALAVRAS

PAIS

Estilo de vida: Imitam os pais

Atitude: Humildade

Ministério: Poder

Ponto central: O Reino

MESTRES (Não segundo o exemplo de Cristo)

Estilo de vida: Reúnem-se em torno de ideias (um divisor)

Atitude: Orgulho (soberba)

Ministério: Muitas palavras

Ponto central: Ensinamentos

DEUS É MAIOR QUE O SEU LIVRO

“Errais, não conhecendo as Escrituras nem o poder de Deus.”

Nessa passagem Jesus repreendeu os saduceus pela ignorância que eles demonstraram a respeito das Escrituras e do poder de Deus. Sua repreensão aconteceu no contexto de casamento e ressurreição, mas apontava para a ignorância que infestava grandes áreas da vida deles.

Qual era a causa? Eles não permitiam que as Escrituras os levassem a Deus. Eles não compreendiam… na verdade não entendiam nada. A palavra conhecendo, neste versículo, refere-se a uma experiência pessoal. Eles procuravam aprender sem esta experiência. Eram os que mais gastavam tempo estudando a Palavra de Deus. Mas o seu estudo não os levava a ter um encontro com Deus. Tinha se tornado um fim em si mesmo.

O Espírito Santo é o dynamis do céu. Um encontro com Deus muitas vezes é um choque de poderes. Tais encontros variam de pessoa a pessoa, de acordo com o plano de Deus. E é a falta de um choque de poderes que leva as pessoas a uma falsa compreensão de Deus e da Sua Palavra. A experiência é necessária para se construir um verdadeiro conhecimento da Palavra. Muitos são os que têm medo da experiência porque ela talvez os leve para fora das Escrituras. Os erros de alguns têm levado muita gente a ter medo da busca de uma experiência. Mas não é certo deixarmos 0 medo nos afastar da busca de uma experiência mais profunda com Deus! Esse medo nos faz fracassar no outro extremo, que pode ser culturalmente mais aceitável, mas que é significativamente pior em relação à eternidade. Deus age como Lhe agrada. Conquanto Ele seja fiel à Sua Palavra, Ele não deixa de agir de uma determinada forma, simplesmente por não ser de acordo com o nosso entendimento das Escrituras. Por exemplo, Ele é um Deus de amor que aborreceu a Esaú. Ele é Aquele que respeitosamente é tido como um verdadeiro cavalheiro, mas que derrubou Saulo do cavalo e foi quem levantou Ezequiel, puxando-o pelo cabelo. Ele é a brilhante Estrela da manhã, e o Mesmo que Se envolve com trevas. Ele odeia o divórcio, contudo Ele Se divorciou. Esta lista de situações aparentemente conflitantes poderia estender-se muito mais do que poderíamos aguentar. Mas esta tensão que nos coloca numa posição pouco confortável tem o propósito de nos manter honesta e verdadeiramente dependentes do Espírito Santo, para que compreendamos quem é Deus e o que Ele está dizendo através do Seu livro. Deus é tão estranho ao nosso modo de pensar que na verdade somente vemos o que Ele nos mostra; e apenas podemos compreender a Sua Pessoa através de um relacionamento.

A Bíblia é a absoluta Palavra de Deus. Ela revela Deus; revela o que é evidente, o que é inexplicável, o que é misterioso, e às vezes o que é ofensivo. Ela, de capa a capa, revela a grandeza do nosso Deus. Conh1do ela não O contém. Deus é maior do que o Seu livro.

O avivamento é cheio de tais dilemas: Deus fazendo o que nós nunca O vimos fazer – tudo para confirmar ser Ele quem a Sua Palavra diz que Ele é. Ficamos com o conflito em nosso interior de seguir Aquele que não muda, mas que promete fazer algo novo em nós. Tudo se torna ainda mais confuso quando queremos encaixar esse algo novo no molde feito pelas nossas bem-sucedidas experiências do passado.

Não há quem supere bem este desafio. Muitos escondem a sua necessidade para estarem em controle atrás da bandeira de “ficar ancorado na Palavra de Deus”. E; por rejeitarem os que têm opiniões diferentes das suas, eles conseguem proteger-se do desconforto e da mudança pela qual sempre oraram.

UM MAPA RODOVIÁRIO OU UM GUIA DE TURISMO

Um estudo satisfatório das Escrituras põe o poder da revelação ao alcance de quem tenha condições de adquirir urna Concordância de Strong e alguns outros livros de estudo. Dedique tempo, e você aprenderá coisas maravilhosas. Não pretendo desmerecer um estudo regular e disciplinado das Escrituras; nem, com certeza, o uso desses maravilhosos livros de estudo, urna vez que é Deus que nos dá a vontade de aprendermos. Mas, realmente, a Bíblia é um livro fechado. Tudo que eu retirar da Bíblia, sem a ação de Deus em mim, não mudará em nada a minha vida. Ela está fechada para assegurar a minha permanente dependência do Espírito Santo. E é urna busca intensa das Escrituras que agrada o coração de Deus. “A glória de Deus é ocultar certas coisas; tentar descobri-las é a glória dos reis.” Deus tem grande prazer em alimentar aqueles que estão de fato com fome.

O estudo bíblico geralmente é incentivado para que tenhamos normas para a nossa vida. Certamente há princípios que poderão ser classificados numa lista de A a Z. Mas muitas vezes urna abordagem assim transforma a Bíblia num mapa rodoviário. Vivo a minha vida corno se pudesse sempre encontrar o meu próprio entendimento sobre o que o Livro de Deus diz. Creio que essa perspectiva das Escrituras de fato descreve uma vida debaixo da lei, não uma vida debaixo da graça. A vida sob a lei tem a tendência de se valer de urna lista de limites preestabelecidos, e não de um relacionamento. Conquanto tanto a Lei como a Graça têm mandamentos, a Graça traz consigo a capacidade de se obedecer o que é ordenado. Sob a Graça eu não preciso de um mapa rodoviário. Eu fico com um guia turístico – o Espírito Santo. Ele me dirige, me dá revelações, e me reveste de poder para ser e fazer o que a Palavra diz.

Muitos são os conceitos a que a Igreja tem se apegado, desejando manter uma devoção às Escrituras. Mas alguns desses conceitos de fato operam contra o verdadeiro valor da Palavra de Deus. Por exemplo: muitos que rejeitam o mover do Espírito Santo declararam que hoje a Igreja não precisa de sinais e maravilhas porque já o temos na Bíblia. Entretanto, esse ensino contradiz a própria Palavra que ele procura exaltar. Se você desse a dez crentes novos a tarefa de estudar a Bíblia para descobrir qual é o coração de Deus para esta geração, nenhum deles concluiria que os dons espirituais não são para o dia de hoje. Isso é algo que eles somente aceitam se forem ensinados! A doutrina que estabelece que os sinais e maravilhas não são mais necessários porque temos a Bíblia foi criado por pessoas que não tinham visto o poder de Deus, e assim necessitavam de uma explicação que justificasse a condição de suas igrejas estarem desprovidas de poder.

A revelação que não leva a pessoa a ter um encontro com Deus somente serve para tomá-la mais religiosa. A menos que as Escrituras me levem a Ele, somente me torno mais bem preparado para argumentar com aqueles que discordam do meu modo de pensar.

“O conhecimento traz orgulho…” Observe que Paulo não se referiu a um conhecimento antibíblico, ou a um conhecimento carnal. O conhecimento, inclusive o que vem das Escrituras, tem o potencial de nos tornar orgulhosos. Desse modo, como poderei me proteger do orgulho que vem do conhecimento, mesmo quando ele provém da Bíblia? Eu preciso ter a certeza de que esse conhecimento está me levando a Jesus!

O orgulho que vem de se ter apenas o conhecimento bíblico pode causar divisões. Cria o desejo de se ter a própria opinião. “Quem fala por si mesmo está procurando a sua própria glória; mas o que procura a glória de Quem O enviou, esse é verdadeiro, e Nele não há injustiça.” 158 Aqueles que são treinados sem uma revelação que os leve ao Senhor são treinados a falar de si mesmos, para sua própria glória. Esse desvio de se buscar um conhecimento sem ter um encontro com Deus guerreia contra a verdadeira justiça.

Não apenas a justiça sofre; o mesmo se dá com a nossa fé. “Como podeis crer, vós os que aceitais glória uns dos outros e, contudo, não procurais a glória que vem do Deus único?” Esse desejo de glória do homem de algum modo descarta a fé. O coração que teme apenas a Deus – aquele que busca primeiro o reino de Deus e que dá toda honra e glória a Deus – é o coração em que nasce a fé.

A missão do céu é penetrar na terra trazendo as realidades celestiais. Todo ensinamento tem por objetivo levar-nos a este fim, pois o treinamento no Reino não é desprovido de um propósito. Estamos sendo treinados para dirigir os negócios da nossa família. É isso que vamos descobrir no próximo capítulo.