A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O ÓDIO E O NEVOEIRO

O estado depressivo serve para esconder sentimentos hostis, que na maior parte do tempo permanecem inconscientes

Os sinais aparentes da depressão incluem desânimo, falta de energia, cansaço, desinteresse pelas pessoas e atividades em geral. Nesse estado de ânimo, o sujeito tende a ficar passivo e inativo e, nos casos mais graves, prostrado. Pouco se percebe, no entanto, que subjacente a essas manifestações se encontra um profundo sentimento de ódio. É claro que, em diversos casos, observamos uma alternância entre estados depressivos e súbitas crises de mau humor, com explosões de raiva. Mas a relação entre depressão e ódio nem sempre é evidente. E o principal motivo disso é que o estado depressivo serve justamente para esconder o ódio, que permanece inconsciente durante a maior parte do tempo.

Diversos estudos psicanalíticos dedicaram-se a elucidar essa relação. Os primeiros trabalhos partiram da semelhança entre a depressão e outro quadro clínico, a neurose obsessiva. Até então, pesquisas sobre a histeria tinham demonstrado o papel central ocupado pela repressão da sexualidade na origem das neuroses. Com a extensão das investigações sobre a neurose obsessiva, foi possível perceber não só o lugar central dos conflitos relacionados à sexualidade, mas também dos impasses entre o amor e o ódio. Em um famoso estudo de caso (O homem dos ratos, de 1909), Freud demonstrou que a repressão incidia mais sobre os sentimentos hostis que sobre a sexualidade. O paciente nutria um profundo ódio Inconsciente por seu pai. O sentimento entrava em conflito com o amor que ele também tinha pela figura paterna e era experimentado no plano consciente. Essa contradição deu origem a um grande número de sintomas obsessivos.

Anos depois, percebeu-se uma dinâmica semelhante nos quadros de melancolia, forma grave de depressão. O estado, em geral, é desencadeado por perda marcante: morte de pessoa querida, desilusão amorosa ou projeto pessoal fracassado. São os chamados “objetos”. Sob a forma disfarçada e invertida de violentas autoacusações e autocensura, o sujeito expressa um intenso ódio pelo objeto que foi perdido: o melancólico se sente profundamente traído e abandonado e não consegue superar esses sentimentos. E para onde vai o ódio? Em vez de ser reprimido e deslocado para outros objetos – como no caso da neurose obsessiva – ele é “engolido” pelo sujeito e dirigido para uma parte de si mesmo que passa a cumprir o papel da pessoa odiada. A autodepreciação serve como álibi que disfarça o profundo ódio e rancor em relação ao outro. Nos quadros de ciclotimia, as fases melancólicas se alternam com as maníacas e é nestas – especialmente quando muito exacerbadas – que o ódio aparece sem disfarces: quem estiver na frente do sujeito impedindo seu caminho é atacado sem piedade.

Mesmo quando a depressão não atinge a gravidade de uma melancolia, o ódio também está subjacente, sem necessariamente ser “engolido” da mesma maneira.

A psicanálise compreendeu, ainda, que certa dose de depressão faz parte da vida dos homens, e chamou tal fenômeno de depressividade. Como entender isso? Ora, a coexistência entre amor e ódio faz parte de qualquer relacionamento, assim como da vida. Quando a intensidade do ódio aumenta por algum motivo – frustrações, desapontamentos ou situações desfavoráveis – o amor (pelo outro e por si mesmo) fica ameaçado, e faz-se necessário tomar alguma providência a fim de preservar o objeto. É hora de “fechar para balanço”. Segundo uma bela imagem proposta pelo psicanalista inglês Donald Winnicott {1896-1971), é como se durante esses estados o psiquismo fosse tomado por um intenso nevoeiro: todos os movimentos são praticamente interrompidos, até que possamos ver as coisas mais claramente. É o estado depressivo. Após um período de “digestão psíquica” da situação de conflito, atingimos um novo rearranjo interno das forças de amor e ódio; a névoa aos poucos começa a se dissipar e voltamos ao ritmo cotidiano. O processo, parcialmente inconsciente, integra o amadurecimento psíquico de todos nós. Após experiências depressivas, que se repetem diversas vezes ao longo da vida, saímos mais fortalecidos e confiantes, apesar da dor.

O problema é que, em alguns casos, paralisamos no meio do caminho e não vemos mais a luz no fim do túnel. Aí a depressividade se torna uma depressão instalada, e um fenômeno humano e universal ganha características patológicas. O “xis” da questão que diversas pesquisas tentam elucidar é: por que algumas pessoas, em determinados momentos, não conseguem ser bem-sucedidas em sua travessia? Bem, é nesses momentos que necessitamos da ajuda do outro.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.