A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A GENTILEZA DAS ESCOLHAS POSSÍVEIS

Características psicológicas e traços de personalidade influem na forma como lidamos com nossas opções; para pessoas que costumam agir com maior facilidade, os arrependimentos geralmente têm menor importância que um fracasso

O interesse das pesquisas sobre arrependimento não é somente teórico. Elas permitem compreender que esses sentimentos representam uma atividade mental importante e inevitável no ser humano, às vezes útil, mas cujos efeitos podem ser prejudiciais para alguns. Assim, as pessoas que sofrem de fobias graves, como as sociais (timidez patológica, que leva a evitar inúmeras situações) ou a agorafobia (medo excessivo de frequentar lugares públicos, o que limita a autonomia e o deslocamento), devem renunciar, devido a seu distúrbio, a muitas atividades. Elas sofrem de arrependimentos múltiplos que muitas vezes dão origem a um estado depressivo. Todavia, os sofrimentos ocasionados por arrependimentos não se relacionam apenas às pessoas com problemas psiquiátricos. Cada um está sujeito a tais sofrimentos em graus variáveis, mas certos traços de personalidade os favorecem.

Diversos estudos expuseram os fatores que agravam ou aliviam os arrependimentos, assim como as atitudes que nos permitem enfrentá-los melhor. Determinados perfis de personalidade parecem mais expostos aos riscos de um arrependimento excessivo que outros. Pessoas que têm o hábito de cultivar uma visão positiva da existência têm menos arrependimentos, mesmo em relação a acontecimentos desfavoráveis. Numa experiência, os pesquisadores narraram aos voluntários a seguinte cena: “Enquanto você espera sua vez na fila do banco, aparece um assaltante que, durante a fuga, dá vários tiros e um deles atinge o seu braço. Você teve sorte ou azar?”. Diferenças de opinião muito claras aparecem: alguns lamentam a má sorte (“Precisava acertar justo em mim?” “Se eu tivesse chegado dez minutos mais tarde não teria acontecido nada…”) e outros comemoram a sorte, sem pesar. (“Que sorte, eu poderia ter morrido!”) Pode-se tirar daí que, diante dos acontecimentos, é fundamental imaginar tudo que poderia ter acontecido, e não somente o que poderia ter sido melhor!

Outros trabalhos mostraram como pessoas perfeccionistas, que buscam sempre atingir o melhor resultado e fazer as melhores escolhas possíveis, são geralmente menos satisfeitas, pois estão mais expostas ao arrependi- mento que aquelas que se contentam com uma “escolha possível. “Aqueles que melhor lidam com as ambiguidades e eventuais frustrações, em geral, são os que aprendem, no cotidiano, a renunciar ao ideal e a apreciar resultados modestos”, afirma o psiquiatra francês Christophe André, pesquisador do Hospital Sainte-Anne e professor da Universidade Paris X. “Essa atitude privilegia a busca pelo equilíbrio e pela melhor relação entre custo e benefício.”

Para muitas pessoas que têm vontade de agir, mas frequentemente desistem com medo do fracasso, ou para aquelas que tendem a transferir tudo para o dia seguinte, o hábito de se sujeitar a situações desagradáveis, ou pior, de renunciar a agir, é fator de frustração e arrependimento. Esta atitude é problemática, já que, mais de uma vez, foi demonstra- do que a falta de ação tende a prender a pessoa num círculo vicioso. Assim, se você não reagiu rápido o bastante ou se perdeu uma primeira oportunidade de agir e tirar proveito disso (como a liquidação com 50% de desconto numa loja que você adora), quando se apresentar uma segunda ocasião, também favorável, em- bora menos que a primeira, há grande probabilidade de você renunciar novamente, para não ter arrependimentos do tipo: “Deveria ter aproveitado a primeira chance”.

CADA UM DE UM JEITO

Em O seminário, livro 7 – A ética da psicanálise (Zahar, 1988), escrito entre 1959-60, o psicanalista francês Jacques Lacan afirma que a mais intensa e dolorosa das culpas não é evocada por uma transgressão, mas sim por termos deixado de lado aquilo que realmente desejávamos. Ou seja: aquilo que mais lamentamos são as oportunidades perdidas. Ora, uma vez que os arrependimentos ligados à inação parecem infinitos, e que a inação leva a mais inação, outra ponderação útil poderia ser: na dúvida, aja. Mas essa conclusão não deveria ser levada ao pé da letra. Ao contrário, deve ser adaptada e personalizada.

Para pessoas que agem com facilidade, os arrependimentos têm menor importância em um fracasso ligado à ação que em um insucesso ligado à inação. Com pessoas indecisas dá-se o contrário: o arrependimento por um fracasso ligado à ação é mais doloroso. Decididamente, parece difícil não se arrepender de nada. Além do mais, talvez isso nem seja desejável.

Entre dezenas de pesquisas realizadas sobre “os maiores arrependimentos da vida” até hoje, a maioria constatou que é impossível não se arrepender de absolutamente nada, pois cada escolha se faz em detrimento de outra. Escolher uma opção é, implicitamente, eliminar outra.Em vez de visar o domínio total das es- colhas ideais (o que é impossível) ou evitá-las totalmente (o que é ineficaz), parece melhor aprender a lidar de maneira gentil (e inteligente) com os arrependimentos. Como todas as emoções, esses sentimentos têm papel importante na capacidade de adaptação ao meio e no equilíbrio psíquico. Eles nos ensinam a fazer um balanço de nossos atos e a tirar deles lições para o futuro. “Para libertar-se do medo do fracasso e do arrependimento antecipado, o mais eficiente não é renunciar à ação, mas aumentar a tolerância com as derrotas”, diz o psiquiatra francês Christophe André. “E, sobre- tudo, aprender a enxergar os ensinamentos que elas trazem, para transformar as situações de arrependi- mento em oportunidades de aprendizado”, afirma. Ele lembra de um humano faz de suas experiências: “O arrependimento que sentem os homens por causa do mau emprego ditado: “Se perder, pelo menos não perca a lição”. E ressalta: “Tentemos contradizer La Bruyère, que, em seu Caractères, constatou com certo pessimismo o mau uso que o ser que deram ao tempo que viveram nem sempre os leva a aproveitar melhor o tempo que lhes resta”.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.