A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

EFEITO BARNUM – A ILUSÃO DO SER

Como construímos nossa visão de nós mesmos? A preocupação com a coerência nos leva a selecionar as informações, o que proporciona a ideia ilusória de que os testes de personalidade nos retratam com precisão propõem-se desvendar as facetas de nossa personalidade.

O efeito Barnum, descoberto pelo psicólogo americano Bertram Forer, refe­re-se justamente à tendência que as pessoas têm de tomar o genérico como específico. Com isso, a descrição de personalidade apresentada, qualquer que seja ela, produz o mesmo efeito, contanto que seja um pouco gratificante e genérica, e que o leitor esteja convencido de que é específica para ele.

Em 1948, para denunciar a banalidade e generalidade dos horóscopos, Forer teve a ideia de fazer uma experiência surpreendente, sempre confirmada por seus resultados. Uma semana depois de submeter 39 alunos a um teste sobre motivação, ele lhes apresentou uma curta análise da personalidade de cada um e pediu que avaliassem sua exatidão segundo uma escala de zero (nenhuma exatidão) a 5 (total exatidão). Acredite ou não, a descrição era a mesma para todos os alunos. E, ainda assim, cada um deles se reconheceu nela: dos 39 participantes, 16 deram nota 5; 18 optaram pela nota 4 e 4 pela nota 3.

Apenas 1 deu nota 2; e ninguém escolheu nota 1 ou zero. É incrível que, nesse tipo de caso, nunca ocorre aos envolvidos, nem por um segundo, que sua descrição possa convir igualmente ao vizinho – exceto quando se pergunta a esse respeito de modo explícito. A impressão imediata de se reconhecer especificamente parece irrefreável.

Os pseudopsicólogos – trata-se aqui de seus falsos testes de personalidade e não de sua pretensão de antever o futuro – se fiam muito no sentimento de adequação para assegurar seu retorno junto a um público fácil de ludibriar: todos nós. De fato, não é raro que se argumente que a astrologia ou a grafologia são “verdadeiras” porque todo mundo se reconhece nas características de seu signo zodiacal ou da análise de sua letra. Ora, o efeito Barnum demonstra que o fato de as pessoas acharem exato o que o perito diz sobre sua personalidade absolutamente não comprova a validade destas pseudociências.

Não estamos afirmando que todos os testes de personalidade sejam desprovidos de interesse, mas que o efeito aparece também nos testes sérios e validados cientificamente: o efeito Barnum é, assim, análogo ao efeito placebo, que contribui para os resultados benéficos de remédios e práticas sem eficácia real, e também para os dos medicamentos validados pela medicina

O fenômeno, também chamado de “efeito da validação subjetiva”, foi batizado de efeito Barnum em 1956 por Paul Meehl em homenagem ao criador do primeiro circo moderno, o célebre Phineas Barnum Circus. Barnum – que ficaria espantado de ver seu nome passar do mundo dos espetáculos populares para o da psicologia – atribuía seu sucesso a duas razões. Ele teria declarado que “a cada minuto nasce um trouxa” e que “é preciso reservar alguma coisinha a cada um deles”. A credulidade do público, evocada na primeira afirmação, não está somente no efeito Barnum; a segunda afirmação lapidar aponta, como veremos, aquilo que evidencia os processos da percepção que o indivíduo tem de sua própria identidade.

A experiência de Forer foi refeita diversas vezes, com pequenas variações destinadas a verificar hipóteses secundárias, mas sempre se confirmou. Na mesma escala de zero a 5, a média das avaliações quanto à exatidão da descrição é 4,2, com desvio muito pequeno. Assim, nem a idade nem o sexo dos envolvidos parecem ter influência sobre os resultados e o mesmo vale para profissão (além dos estudantes, grupo preferido dos psicólogos responsáveis pela experiência, operários, funcionários da indústria e diretores de recursos humanos também passaram por testes).

Constatou-se, entretanto, que a manifestação do efeito Barnum varia levemente, de acordo com o elemento ou a prova que serve de base para a análise da personalidade. Assim, as pessoas julgam um pouco mais exata a descrição proposta quando acreditam que ela é feita a partir de um teste projetivo. Talvez o mistério que envolve esta técnica confira seu prestígio diante dos que se submetem a ela…

Como explicar o efeito Barnum? Será somente ingenuidade, tolice ou vaidade, imperfeições humanas fustigadas pelos moralistas? Ao que tudo indica, é preciso estender um pouco a análise e se debruçar sobre os processos que presidem a elaboração de nossa percepção de nós mesmos.

Os primeiros elementos para a explicação residem na redação do retrato “personalizado”: o texto emprega termos vagos e genéricos, e as apreciações podem se aplicar a muitas situações e dar conta de um grande número de condutas. É o leitor, sem perceber, quem define os contornos da análise ou preenche as lacunas com suas próprias imagens e representações mentais. Além disso, a maior parte dessas descrições apresenta um traço de personalidade e seu contrário, dando a impressão de um retrato nuançado. Consequentemente, o elemento de personalidade com que a pessoa mais se identifica se impõe no processo de seleção perceptiva, em detrimento do alternativo a ele.

Certos analistas vão ainda mais longe: eles estimam que, como são universais e seus elementos caracterizam cada um de nós, podemos considerar os retratos Barnum como “verdadeiros”. Sendo assim, o fato de se identificar com eles não é sinal de credulidade excessiva. Sem dúvida, os seres humanos são muito mais parecidos que costumamos achar. De onde vem então essa impressão de que o texto descreve de maneira tão precisa aquilo que nos define como uma pessoa única?

CONSTRUIR NOSSO EU

É claro que os retratos propõem às pessoas uma avaliação globalmente positiva. Ora, diversas experiências demonstraram que ninguém se estima inferior à média quando se trata de avaliar uma de suas qualidades ou um traço de personalidade socialmente desejável. Assim, numa enquete sobre a avaliação de qualidades sociais, as pessoas se declararão de acordo com a frase “De modo geral, sou consciente dos efeitos de minhas ações sobre os outros”, e em desacordo com “De modo geral, as pessoas são conscientes de suas ações em relação aos outros”. Parece, portanto, que cada um de nós se julga ligeiramente melhor que os outros – mas não muito, pois é preciso ser realista – no que tange a diversos aspectos de sua personalidade. Ademais, alguns elementos desfavoráveis do retrato Barnum, ainda que sejam pouco numerosos podem às vezes ser julgados exatos, pois permitem que a pessoa admita pequenos defeitos, mostrando-se lúcida em relação a si mesma – outra qualidade muito valorizada socialmente.

Além disso, ainda no que concerne aos aspectos negativos, parece que quanto mais se está convencido da competência do analista ou da verdade do sistema empregado, mais os elementos desfavoráveis na avaliação de sua personalidade são aceitos. A maneira como construímos nossa identidade pode explicar melhor o fenômeno Barnum. Primeiro, como mostraram as teorias cognitivas em psicologia social, não temos acesso direto àquilo que somos de verdade; falta-nos visão interna de nossos processos e de nossas características pessoais. É claro que percebemos nossos estados afetivos, às vezes com muita intensidade, mas o cérebro só constrói o conhecimento a partir de informações exteriores a ele, e a percepção de si não escapa à regra. Assim como o resultado de toda percepção, o conceito de si, que alguns ligam à identidade, repousa em um sistema de representações (o que chamamos de introspecção é apenas um trabalho mais ou menos aprofundado sobre essas representações). A observação de nossos comportamentos e reações afetivas, as informações de nós mesmos que os outros nos oferecem (que na verdade são filtradas por nossa percepção), assim como as conclusões e deduções tiradas de categorias precedentes constituem o essencial do material de base dessas representações. O cérebro tem a tarefa de fazer uma síntese desses elementos, ou pelo menos criar uma impressão de unidade, coerência, estabilidade e sentido. Para que seja agradável, essa avaliação deve ser reconfortante, e é por isso que escolhemos os elementos que confirmam nossas ideias já estabelecidas, as organizações mais fáceis de aprender. Nós as interpretamos fazendo relações entre esses elementos e desligando-os de explicações e significados que transcendam o material inicial. As inferências que fazemos sobre nós mesmos se apresentam e se exprimem como traços de personalidade estáveis, que parecem perdurar e dar conta de condutas diversas – é o papel da memória na identidade pessoal. Apesar de serem categorias semânticas vagas, as palavras que traduzem esses traços são aquelas que empregamos todos os dias para descrever e explicar nossa personalidade e a dos outros.

A imagem de si é estável e, contudo, nunca é definitiva. Ela se nutre constantemente de novas informações. Para cada um de nós, ela é um frágil edifício virtual, uma quimera, por assim dizer, já que nossa imagem não se funda sobre um conhecimento verdadeiro do que se passa em nosso interior e dos fatores reais que regem nossa conduta. Mas, ainda assim, essa quimera é consubstancial a todos os aspectos de nossa existência, intervindo como um poderoso fator de motivação. Esse processo pode ser mais ou menos cambiante, mais ou menos intenso – de acordo com a pessoa e as circunstâncias, tendo em conta, por exemplo, o caráter familiar ou de novidade de uma situação -, mas o conceito de si funciona como uma teoria que precisa ser continuamente confirmada, total ou parcialmente.

Como toda percepção, nossas representações de nós mesmos são povoadas de algumas ilusões. Numerosas experiências e enquetes em psicologia social demonstraram, como vimos, que, sob diversos aspectos, nós nos julgamos (um pouco) melhor que os outros, tendemos a superestimar levemente os julgamentos positivos que fazem de nós, pensamos dominar o meio em que vivemos e temos um otimismo irrealista em relação ao futuro (“a infelicidade só acontece com os outros!”).

COMPLACÊNCIA SAUDÁVEL

Para nosso bem-estar psicológico, compomos uma imagem positiva de nós mesmos, e, para consegui-la, procuramos prioritariamente coisas que a confirmem, assumindo deliberadamente a complacência. Demonstramos, com efeito, que descrições lisonjeiras, mesmo que redigidas como retratos Barnum, não somente fazem bem, com o também aumentam a sensação de nossa competência. Alguns psicólogos acreditam que a saúde mental é diretamente ligada a essa sutil superestimação, e que se enganam aqueles que creem curar seus clientes levando-os a uma visão ”objetiva” e realista de si mesmos. Ao contrário, pesquisas diversas revelam que pessoas depressivas têm uma percepção mais exata do julgamento dos outros e tendem menos a “embelezar” tal julgamento.

O efeito Barnum é mais manifesto quanto mais positivo for o julgamento: quanto mais elogioso for, mais a pessoa tende a considerá-lo justo e específico. Para construir nossa imagem interior, temos, portanto, uma inexorável necessidade de apreciações favoráveis. O efeito Barnum revela essa necessidade. As descrições propostas pelos “peritos” são para nós um presente dos céus: elas nos poupam por um momento da busca de informações e do esforço para trata ­ las cognitivamente, dando-nos a chance de saborear por um instante a doce e reconfortante sensação de sermos únicos e notáveis, estáveis e coerentes.

Os pseudo psicólogos levam a melhor, numa época em que o autoconhecimento é um imperativo da moda. Mas a credulidade de uns ou a facilidade de se enganar de outros são explicações insuficientes. O fato de se reconhecer em uma descrição feita “por nós” não é sinal de tolice, mas o reflexo de processos cognitivos e afetivos que estão na base de nossa identidade, recentemente revelados pela psicologia social.

Para além do efeito Barnum, essas pesquisas colocam a seguinte questão: é possível esperar conhecer objetivamente a nós mesmos? Podemos até nos perguntar se é legítimo falar em personalidade e em meios de desvendá-la. Não se trata, absolutamente, de negar as diferenças entre as pessoas, mas de constatar que os recursos de que dispomos para dar conta dessas diferenças ainda estão longe de ser adequados.

UMA EXPERIÊNCIA AO ALCANCE DE TODOS

A experiência idealizada por Forer em 1948 foi repetida dezenas de vezes; ela é de fácil execução e sempre oferece resultados bastante comprobatórios. Em um programa de comportamento, que falava sobre astrologia, realizado pela Sociedade Rádio Canadá na primavera de 2001, refizemos a experiência em uma classe com cerca de 20 alunos dos dois sexos, com idades entre 18 e 48 anos.

Num primeiro encontro, pedimos que avaliassem o grau de acerto da descrição de sua personalidade feita a partir de seu signo astrológico que lhes seria entregue por escrito a seguir. Eles deveriam proceder “com a maior objetividade possível”, e independentemente de sua crença na astrologia, como se nós quiséssemos verificar em que medida os signos do zodíaco eram capazes de descrever personalidades. Avisamos ainda que os retratos haviam sido redigidos por um psicólogo, sem as metáforas e alusões mitológicas normalmente empregadas pelos astrólogos. Por fim, os 18 alunos interessados em participar da experiência escreveram seu nome e data de nascimento em uma folha.

As 18 pessoas leram, sem saber, a mesma descrição, que foi escrita a partir de várias fontes e incluía elementos relativos a diversas dimensões da existência: social, afetiva, intelectual etc. Dezoito cópias do texto foram impressas, e para personalizar o retrato, cada uma continha o nome e o signo astrológico do participante; os adjetivos eram flexionados de acordo com o sexo dele. Note-se que nossa amostra continha nove dos 12 signos zodiacais. Para evitar que a aparência dos papéis distribuídos revelasse nossa (tão inocente) manobra, a divisão de parágrafos era diferente para cada signo. Uma folha de resposta era entregue junto com a descrição. Os participantes deveriam anotar se o retrato os descrevia totalmente (5), em grande medida (4), em boa medida (3), regularmente (2), um pouco (1), ou em nada (O). A título indicativo, deveriam responder se, independentemente da descrição que acabavam de ler, acreditavam em astrologia (as opções de resposta eram: muito, mais ou menos, e não acredito).

Uma semana depois, reencontramos os estudantes. A descrição personalizada e a folha de resposta foram distribuídas e repetimos as instruções, insistindo sobre o caráter objetivo da avaliação. Eles levaram entre cinco e dez minutos para ler o texto e responder. Em seguida, obviamente depois de recolher as folhas de resposta, explicamos o que é o efeito Barnum, do qual eles tinham acabado de ser vítimas. 

Os resultados foram os seguintes: duas pessoas acharam que o texto as descrevia totalmente; 12, em grande medida; três, em boa medida; uma, regularmente. Esses números são totalmente condizentes com os que Forer e outros pesquisadores obtiveram. Além disso, nada indica que tenham relação com a crença na astrologia: ninguém disse acreditar muito em astrologia; os dois participantes que disseram se reconhecer totalmente nas descrições acreditam medianamente; dos 12 que se reconhecem “em grande medida”, oito creem medianamente e quatro não acreditam; os três que se reconhecem em boa medida no retrato alegam acreditar medianamente; e, por fim, o estudante que se identifica regularmente não acredita em astrologia. Em outros termos, das cinco pessoas que disseram não acreditar em astrologia, quatro acharam que o texto proposto descreve-as em grande medida. Portanto, não é o fato de crer nas pseudociências que ocasiona o efeito Barnum. Pensamos que uma descrição que parecesse ainda mais personalizada para o sujeito, que lhe fosse apresentada como feita a partir de seu mapa astral, em vez de expor características gerais de seu signo, teria provavelmente recolhido resultados ainda mais convincentes.

AVALIAÇÃO DA SUA PERSONALIDADE

Pode-se dizer, para começar, que você tem necessidade de ser amado e admirado, e, contudo, pode ser muito crítico consigo mesmo. No plano das relações pessoais, você tem uma grande propensão a se dedicar ao outro. Inimigo do superficial, você não oferece sua amizade ou confiança a qualquer um. Sabe, por experiência própria, que não dá certo mostrar seus sentimentos tão facilmente. Mas sua sociabilidade sempre o leva a estabelecer relações de amizade sinceras, especialmente com as pessoas que escolheu para estar a seu redor. Apesar disso, você às vezes precisa ficar sozinho para recarregar as energias e se reencontrar. Sua abertura de espírito o faz aceitar com entusiasmo as ideias novas e enriquecedoras. Você pode se mostrar um tanto ciumento no amor, principalmente quando outra pessoa parece ameaçar a integridade e estabilidade de sua relação amorosa.

Guloso confesso, você odora comer, o que por vezes o leva a excessos, na comida como na bebida. O belo e atraente provoca-lhe admiração e prazer. Por isso, a poluição do ambiente o preocupa e as cenas de destruição do Natureza o deixam indignado. Em sua vida, você curte certa dose de mudança e variedade pequenos ou grandes viagens, por exemplo -, e por isso é difícil quando alguém (ou algo) lhe impõe limites. Às vezes sua calma esconde nervosismo. Você gosta de mostrar seu espírito independente e só aceita a opinião dos outros se seu proveito for claro ainda que, vez por outra, você possa se deixar influenciar por alguém de que gosta muito. Seu senso de humor é bastante desenvolvido e o riso é para você sinal de saúde.

A honestidade e a franqueza são qualidades que você preserva e seu senso de justiça o faz criticar todo tipo de injustiça e desigualdade, pois você acredita num mundo melhor. A preguiça é uma tentação a que você sucumbe de vez em quando, mas, quando está realmente motivado, sabe fazer seu trabalho com a maior dedicação e interesse. Você tem um potencial admirável e tudo o que é necessário para usá-lo a seu favor, mas muitas vezes as circunstâncias se opõem a você mais intensamente do que se poderia imaginar. Como ocorre o todo mundo, sua personalidade tem pontos fracos, mas geralmente você sabe muito bem como compensá-los. Nesse sentido, os defeitos são ótimas chances para seu crescimento pessoal, e é com determinação que você os assume. Mas seu lado levemente conservador permite que você aprecie um equilíbrio estável e seguro. Muitas vezes você se pergunta se tomou a decisão certa ou se fez o que deveria ser feito. Algumas de suas aspirações tendem a ser irrealistas, mas você tem consciência disso, pois acredita que na vida é preciso ter sonhos para mobilizar as energias e viver plenamente.

OUTROS OLHARES

MALHAÇÃO TEM LIMITE

Estudo comprova que o excesso de atividades esportivas pode prejudicar consideravelmente o bom desempenho do cérebro

A cena correu o mundo — só não se pode dizer que “viralizou” porque o futuramente célebre ‘‘www’’ da internet nem sequer existia. Era 1984, Jogos Olímpicos de Los Angeles (EUA). Sob o sol forte, a pista inacreditavelmente endurecida, a suíça Gabriela Andersen-Schiess, então com 39 anos, foi tomada por cãibras insuportáveis e uma rajada de dores a 400 metros do fim da maratona. Cambaleante, ela começou a ser aplaudida de pé pelas 77.000 pessoas que lotavam o estádio Memorial Coliseum e cruzou a linha de chegada na 37ª colocação.

Desabou. Exaurida, Gabriela foi prontamente atendida por uma equipe de médicos. Até aquela edição da Olimpíada, nunca se vira a tradicional prova ser disputada por mulheres. “Eu só tentava continuar. Procurei relaxar, ganhar controle. Tive apagões mentais. Lembro de parte da reta final, mas de outra não lembro”, disse ela, um dia após a proeza. Um estudo publicado na quinta-feira 26 no periódico científico americano Current Biology revelou o que provavelmente aconteceu no cérebro da maratonista no momento de extrema fadiga. Quando se exagera nos exercícios físicos, não é apenas o corpo que sente — o cérebro também sofre.

O trabalho, realizado por pesquisadores do Hôpital de la Pitié-Salpêtrière, em Paris, foi elaborado com base em um levantamento feito com 37 homens, todos maratonistas ou triatletas, com média de idade de 35 anos. Os participantes foram divididos em dois grupos: enquanto um deles mantinha a rotina normal de treinos físicos, o outro aumentava em 40% a duração da atividade. Os testes duraram três semanas.

A cada dois dias, pedia-se aos atletas que respondessem a questionários em que lhes era perguntado sobre a sensação de cansaço. Além disso, eram submetidos a ressonâncias magnéticas para analisar o impacto dos exercícios no cérebro.

O resultado encontrado foi que o excesso de malhação, até mesmo em pessoas em plena forma, causa uma preocupante fadiga cerebral. Constatou-se que, em comparação com os participantes que continuaram no ritmo regular, os que aumentaram sua atividade se diziam quatro vezes mais cansados no plano mental. A sensação foi comprovada por análises do cérebro dos esportistas. Naqueles que passavam do limite nos treinos, verificou-se uma diminuição da atividade na área encefálica responsável pela tomada de decisões.

A descoberta evidencia uma relação direta entre o esforço corporal e o cognitivo. Os atletas com estafa mental fizeram, no período da pesquisa, escolhas mais impulsivas em testes que avaliavam suas decisões, como as de âmbito financeiro. Os cientistas descobriram, por exemplo, que, quando exaustos, os participantes tendiam a optar pelas piores sugestões de investimentos financeiros.

Se malhar em excesso prejudica o cérebro, isso significa que ele também é um músculo? A resposta é um sonoro “não”. No entanto, a mente pode ser, sim, exercitada. Um caminho para isso é se dedicar a esportes como o xadrez. São atividades cujos treinos aprimoram a memória e o pensamento estratégico. Mas mesmo um esforço hercúleo de concentração traz menos fadiga ao cérebro do que os exercícios físicos. Tomem-se como exemplo os enfrentamentos entre enxadristas e supercomputadores. Em 1996, depois de seis partidas (o equivalente no xadrez a um jogo inteiro), o azerbaidjano Garry Kasparov, campeão mundial, foi derrotado pelo robô Deep Blue. Contudo, após a disputa, Kasparov não demonstrava os sinais de apagões mentais que Gabriela Andersen-­Schiess apresentou no fim da maratona. Como sugeriu o estudo recém-divulgado, pode ser que, sob intensa pressão, o cérebro aguente mais que o resto do organismo. Portanto, o ideal é o equilíbrio. O corpo precisa estar são para que a mente também possa estar.

GESTÃO E CARREIRA

O UBER DA MUAMBA

Serviço faz a ponte entre interessados em produtos importados com preço camarada e viajantes dispostos a transportá-los na bagagem, em novo modelo de negócio

Aplicativos que conectam passageiros a motoristas se tornaram rotina entre os brasileiros, da mesma forma que vicejam por aqui plataformas que conectam pessoas com necessidades específicas a outras interessadas em prestar determinado serviço – raciocínio que vale, por exemplo, para donos de pets e passeadores de cachorros ou desenvolvedores de software e empreendedores. Em meio à capacidade infinita da internet de gerar fenômenos empresariais e de consumo, um novo ramo de atividade caiu no gosto dos brasileiros. Trata-se do crowdshipping (ou despacho compartilhado), pelo qual uma plataforma digital conecta consumidores interessados em comprar produtos vendidos em determinado país com viajantes dispostos a trazê-los por um dinheirinho extra. O aplicativo mais conhecido nesse tipo de intermediação é o Grabr, criado por uma dupla de russos nos Estados Unidos que já é um sucesso indiscutível no Brasil. Nos últimos doze meses, os negócios da empresa no país cresceram 225%, cifra que alavancou a participação dos brasileiros em sua base de clientes globais a 48% do total. ”A possibilidade de economizar e de pagar por um produto estrangeiro em reais e a busca por novidades tecnológicas são os grandes atrativos da plataforma”, afirma Ivan de Castro responsável pelo marketing do Grabr no país.

A mecânica do aplicativo é simples. Por meio de um computador ou smartphone, o usuário se cadastra na plataforma e identifica o produto que deseja e o país de onde quer trazê-lo, inserindo o endereço de uma loja on­line que tenha a mercadoria em estoque. Com a informação, o programa notifica viajantes cadastrados que estejam indo ao exterior ou voltando de lá, para que eles tragam a encomenda. Ao aceitar o pedido, o turista se transforma em portador e recebe do interessado cerca de 15% do valor da compra. O cliente, então, faz o pagamento através da própria plataforma, e assim se protege de golpes – o entregador efetua a compra com dinheiro do próprio bolso e só recebe o reembolso quando o produto é entregue, juntamente com sua gorjeta. No Brasil, o pagamento pode ser feito em até doze vezes no cartão de crédito. Em caso de problemas com o pedido ou a entrega, o aplicativo reembolsa os valores pagos, garantindo a segurança das transações.

A maioria dos pedidos do Grabr é atendida por pessoas que viajam aos Estados Unidos, principalmente Miami e Orlando. Por isso datas tradicionais de descontos na terra do Mickey, como a Black Friday (em 29 de novembro) e o Amazon Prime Day (em julho), provocam um aumento de até 60% nas transações pelo aplicativo. Mesmo fora das temporadas de ofertas, as compras valem a pena (confira o comparativo abaixo). O item mais comprado no Grabr, por exemplo, é o Apple AirPods fone de ouvido sem fio da fabricante de iPhones. No site da empresa nos Estados Unidos, é possível encontrar o produto à venda por 636 reais – a conversão do dólar é feita pela própria startup. Com as taxas (recompensa para o viajante, imposto de compra nos Estados Unidos e conveniência do aplicativo) o item sai por 875 reais. No Brasil, o produto é vendido por exatos R$ 1.011,99 reais pelo Magazine Luiza já incluída a entrega em domicílio.

O casal Daria Rebenok e Artem Fedyaev decidiu criar o Grabr por necessidade própria, em 2015. Eles não conseguiam encontrar na Califórnia, estado americano onde viviam, um vinho que apreciavam muito e era vendido apenas na Espanha, onde haviam morado antes de emigrar para os Estados Unidos. Como não tiveram sucesso na busca de um portador para as garrafas em suas redes sociais, resolveram criar um sistema de compartilhamento de bagagem na rede – daí o nome de crowdshipping dado a esse tipo de negócio. O modelo funcionou tão bem que já gerou filhotes: o aplicativo belga PiggyBee, que faz sucesso na Europa, e o brasileiro Wooboogie, que oferece o serviço a quem atravessa a fronteira entre Brasil e Argentina – o objetivo é alcançar toda a América Latina em breve. Até grandes empresas usam o crowdshipping para aproveitar a capilaridade do serviço. Companhias aéreas americanas como os gigantes Delta e United Airlines têm usado o aplicativo Roadie, também derivado da ideia dos russos para encontrar viajantes que já estejam no aeroporto e se disponham a transportar e entregar as bagagens extraviadas a seus passageiros.

Para não enfrentar problemas com a Receita Federal, vale lembrar que cada cidadão só pode trazer 500 dólares em produtos estrangeiro sem precisar recolher impostos de importação em voos internacionais. A orientação do Grabr é que a pessoa não ultrapasse os limites alfandegários permitidos ou que inclua no custo de sua recompensa quanto vai gastar ao declarar o item. O professor de teologia Tássio Luz, 32 anos, por exemplo, afirma que só traz itens pequenos e que não ultrapassem os limites legais, para que a aventura não vire uma furada. “Gosto muito de cozinhar então costumo escolher produtos de culinária para entregar explica,” Luz, que vai uma ou duas vezes por ano aos Estados Unido e, a cada viagem, fatura cerca de 500 dólares de gorjeta pelas entregas via Grabr. No “uber da muamba”, como no Uber dos carros, ganha o consumidor, com o preço mais baixo, e ganha o viajante em um tipo de negócio que, sem o aplicativo, não existiria.

ALIMENTO DIÁRIO

QUANDO O CÉU INVADE A TERRA

CAPÍTULO 1 – A VIDA CRISTÃ NORMAL

Não é normal para o cristão não querer o que é impossível. Está gravado em nosso DNA espiritual desejar ardentemente que tudo que, ao nosso derredor, é considerado impossível, se dobre ao nome de Jesus

Num sábado frio e chuvoso, os ônibus da nossa igreja foram enviados aos bairros mais necessitados da nossa cidade, Redding, em busca dos sem-teto e dos pobres. A noiva e o noivo ansiosamente não viam a hora do retomo dos ônibus e preparavam uma refeição em honra deles. Os necessitados seriam os ilustres convidados para o seu casamento.

Ralph e Colleen conheceram-se quando estavam trabalhando em nosso ministério junto aos pobres. Eles tinham em comum uma paixão por Deus e um amor pelos necessitados. Embora seja comum os noivos fazerem uma lista de presentes em lojas de departamentos com produtos de boa qualidade, a lista de Ralph e Colleen foi feita na Target uma loja de roupas populares; e os itens da sua lista de preferências eram casacos, chapéus, luvas e sacos de dormir… para serem dados aos seus convidados. Aquela não seria uma cerimônia de casamento nada típica.

Em nossa reunião preparativa para o casamento, a noiva e o noivo encorajaram-me a ficar sensível ao Espírito Santo, caso Ele quisesse curar pessoas durante o casamento. Se eu recebesse uma palavra de conhecimento para curar, eu deveria interromper a cerimônia e orar pelo enfermo. Como pastor, estava excitado diante do que poderia acontecer. Eles tinham criado uma grande oportunidade para a ocorrência de milagres, e assim Deus não poderia desperdiçá-la, e certamente faria alguma coisa extraordinária.

O casamento então começou. À parte de um tempo de louvor um pouco maior do que o de costume, seguido por uma mensagem evangelística e uma oração para salvação, a cerimônia terminou de um modo bem normal.

É urna grande diferença ver em meio aos familiares e amigos dos noivos aquelas pessoas que estão ali apenas para receberem alguma coisa para comer. Não era algo errado. Era apenas diferente. Após a cerimônia, o casal recém-casado dirigiu-se para o local da recepção, ficaram atrás da mesa com os alimentos e passaram a servir a comida para os convidados. A refeição estava excelente. Os esfomeados ficaram satisfeitos. Deus tinha se agradado.

Mas antes do início do casamento, duas ou três pessoas vieram até mim e, com urna voz excitada, disseram: “Há alguém aqui que tem apenas dois anos e meio ou três anos de vida!”

Tínhamos passado por um ponto marcante na vida da igreja. Milagres de cura haviam se tornado bem mais comuns, a ponto de urna doença que ameaçava a vida de urna pessoa ser considerada mais um milagre em potencial do que algo a se temer. Isso foi um sonho meu que se realizava – pessoas na América do Norte com a expectativa de verem algo sobrenatural de Deus!

O MILAGRE CONTINUA

Seu nome era Lucas. Assim corno a maioria das pessoas que vivem nas ruas, ele e sua esposa Jennifer tinham vindo ao casamento por causa da comida que seria servida. Lucas andava com dificuldade, e precisava usar urna bengala. Ele tinha urna braçadeira em cada braço, e urna enorme atadura em torno do pescoço.

Assim que os dois terminaram de comer, meu irmão Bob e eu os levamos para a cozinha da igreja, e perguntamos ao Lucas quanto àquelas braçadeiras em seus braços. Ele nos disse que o seu problema era urna síndrome na região carpa! de suas mãos. Perguntei-lhe se ele concordaria em retirar as braçadeiras para que orássemos. Ele disse que sim. (Sempre que possível, prefiro remover qualquer coisa em que a pessoa possa pôr a sua confiança, em vez de em Deus.) Então ele as retirou, e impusemos nossas mãos sobre seus punhos, comandando a cura nos ossos da mão e ordenando que todo torpor e toda dor desaparecesse. Então ele passou a mover as duas mãos sem problema algum, sentindo a cura que acabava de receber.

Quando lhe perguntamos sobre a sua bengala e o problema que visivelmente tinha na perna, ele nos relatou que tinha sofrido um terrível acidente. Corno consequência, ele tinha urna canela e a bacia artificiais, e até mesmo havia perdido quase a metade de um dos pulmões. Caminhava com muita dificuldade e sentia dor ao andar. É que, quando os cirurgiões alinharam as pernas dele, viram que a perna afetada estava dois centímetros mais curta.

Fiz com que ele se sentasse e o encorajei, e também a sua esposa, a observarem o que Deus estava por fazer. Segurei então suas pernas de modo que todos pudessem ver o problema, em condições de reconhecer qualquer mudança. Comandamos então que a perna crescesse. E ela cresceu.

Quando ele ficou em pé, desviou o seu peso para um lado e para o outro, quase como se estivesse provando um novo par de sapatos, dizendo: “Sim… está tudo bem.” A resposta daquele que não pertencia à igreja foi muito objetiva e animadora. Pedi-lhe que andasse de um lado para o outro, o que ele fez com alegria, sem mancar e sem sentir dor. Deus estava operando. Deus refez dois centímetros que estavam faltando no osso de uma das pernas e removeu toda a dor que era causada pelo acidente que Lucas havia sofrido.

Em seguida perguntei-lhe a respeito do seu pescoço. Ele me disse que tinha câncer e que lhe haviam dado uns dois anos de vida. E continuou explicando que aquela atadura era necessária porque ele havia perdido os músculos do pescoço. A atadura é que suportava a sua cabeça. A esta altura várias pessoas tinham se juntado a nós, não para observarem, mas para participarem. A meu pedido ele retirou a atadura do pescoço, enquanto um membro de nossa igreja, que era médico, cuidadosamente ficou segurando a cabeça dele.

Assim que começamos a orar, ouvi o médico ordenar que novos músculos crescessem. Ele se referiu a eles com seus nomes científicos em latim. Fiquei impressionado. Assim que terminamos de orar, Lucas virou a cabeça de um lado para o outro. Tudo estava restaurado. Então ele colocou a mão do lado do seu pescoço e exclamou: “O inchaço foi embora!”

Seu médico lhe deu um certificado de saúde, e os milagres continuaram a acontecer após a sua cura física. Lucas e Jennifer passaram a servir Jesus como seu Senhor e Salvador. Em poucas semanas Lucas conseguiu um emprego, e pela primeira vez trabalhou depois de dezessete anos. Jesus cura a pessoa por inteiro.

APENAS UM OUTRO DIA

Embora um casamento como aquele permaneça sendo algo incomum, a deliberada busca pelos pobres e os milagres continuam sendo frequentes em nosso meio. A história que acabei de contar é verdadeira, e está bem mais próxima da vida cristã normal do que a experiência que normalmente a Igreja tem.

A falta de milagres não é porque não é da vontade de Deus para nós. O problema está em nós. Assim, é necessário que aconteça uma transformação em nós – a renovação da nossa mente – o que somente é possível através da obra do Espírito Santo, que geralmente vem sobre as pessoas que estão desesperadas.

Os noivos há pouco mencionados, embora sejam nobres, são pessoas comuns que servem a um Pai que tudo dá com abundância. Naquele casamento não havia ninguém importante envolvido com o que aconteceu, exceto Jesus. Nós todos que estávamos lá simplesmente demos espaço para Deus agir, crendo que Ele é bom em todo o tempo. Os riscos que os noivos tomaram foram mais do que Deus poderia deixar passar. Em meio àquela celebração de casamento, Deus invadiu um lar marcado por uma doença infernal e estabeleceu um testemunho para a sua glória.

Histórias desta natureza estão se tornando a norma, e a quantidade de pessoas que se juntaram nesta busca por um evangelho autêntico – o evangelho do Reino – está aumentando. Amar a Deus e amar o Seu povo é uma honra.

Não nos desculpemos mais pela falta de poder, porque a falta de poder é inescusável. A ordem que temos é simples: que levantemos uma geração que possa manifestar publicamente o puro poder de Deus.

Este livro é todo ele sobre esta empreitada: a busca do Rei e do Seu Reino.

“O reino de Deus não consiste de palavras, mas de poder. “Buscai primeiro o reino de Deus …” Mateus 6:33