A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

PERGUNTE PESSOALMENTE

Usar os meios digitais para nos comunicarmos tornou-se parte da rotina, uma forma prática de ganhar tempo. Mas para ter respostas afirmativas é melhor recorrer ao velho e bom olho no olho: respondemos melhor a pedidos ao vivo do que por e-mail

Quando precisa de um favor, muita gente acha mais conveniente mandar mensagens para resolver logo a questão. E com uma vantagem: na maioria dos casos, o contato virtual ajuda a evitar o eventual constrangimento de ter que pedir algo pessoalmente. Faz sentido, mas é preciso ter algo em mente: não podemos esperar, nesses casos, os mesmos resultados que obteríamos se a conversa fosse de perto. Duas novas pesquisas mostram que tendemos a acreditar, no entanto, que solicitações feitas por e-mail são tão eficazes quanto uma conversa pessoal.

No primeiro estudo, publicado na edição de março do Journal of Experimental Social Psychology, 45 participantes foram informados de que teriam que pedir a dez estranhos, pessoalmente ou por mensagem, quer respondessem um questionário, sem receber nada por isso. Participantes de ambos os grupos disseram que acreditavam que uma em cada duas pessoas concordariam. Mas estavam enganados. Mais de 70% dos indivíduos abordados aceitaram; entre aqueles que receberam uma mensagem eletrônica, apenas 2% concordaram.

Em um segundo estudo, desenvolvido por pesquisadores da Universidade Western, em Ontário, no Canadá, um grupo de pessoas foi recrutado (algumas por e-mail e outras pessoalmente) para responder a uma pesquisa pelo qual receberiam uma gratificação. Antes de começar, todos foram convidados a participar uma segunda pesquisa, não remunerada. Novamente, os cientistas subestimaram a quantidade de indivíduos que aceitariam e superestimaram o número de respostas de e-mail à tarefa não remunerada.

MAL ENTENDIDOS

Muitos dos que recebiam a mensagem eletrônica disseram mais tarde, em entrevista, que lhes pareceu que o remetente era presunçoso, o que interferiu na comunicação, diminuindo o grau de confiança e empatia. “Esse trabalho nos mostra algo bastante útil para a vida prática: para ter e-mails mais eficazes, é preciso incluir mais informações pessoais para estimular a confiança inicial”, acredita o pesquisador Mahdi Roghanizad, professor de negócios, co-autor do artigo.

E quanto a solicitar algo a uma pessoa conhecida? O contato olhos nos olhos ainda é melhor, mostram dados preliminares. “Quando um amigo se aproxima e pede um favor pessoalmente significa que realmente precisa de algo ou que respeita suficiente o interlocutor a ponto de vencer o constrangimento e se aproximar fisicamente para uma conversa”, diz Roghanizad. Assim pergunte pessoalmente!

OUTROS OLHARES

LUXO PARA OS PÉS

Modelos consagrados de tênis são reestilizados tomando como base os ícones pop – marcas badaladas, videogames e até séries de TV já adotaram a moda. Detalhe: eles são caríssimos

Foi-se o tempo em que apenas os melhores atletas do mundo ganhavam das empresas de material esportivo modelos exclusivos de calçado com a própria assinatura. As principais marcas perceberam recentemente que poderão faturar muito mais se introduzirem em suas criações outras referências do universo pop. Já foram usados como tema na confecção dos sneakers – nome pelo qual são conhecidas as edições limitadas dos tênis – séries de TV como Stranger Things, desenhos animados como Dragon Ball Z e Bob Esponja, e até consoles de videogame como o Playstation, da Sony.

É justamente a fusão de elementos do mundo do entretenimento, a chamada “colaboração”, que faz a cabeça (e o bolso) dos jovens pirar. Foi assim com uma das mais recentes versões do Air Jordan 1, da Nike. Levado às prateleiras como uma homenagem ao número 1 do basquete de todos os tempos, Michael Jordan (à época apenas uma estrela em ascensão,) o tênis de cano alto foi relançado diversas vezes desde 1985. Uma das mais famosas releituras foi assinada por uma das grifes mais quentes do mercado de streetwear: a Off-White. Seu criador, Virgil Abloh, é de Chicago, cidade que abrigou a maior parte da carreira de Jordan na NBA. Comercializada desde 2017 ao preço original de 190 dólares, essa versão, repleta de penduricalhos exclusivos (veja o quadro abaixo), sumiu das lojas num piscar de olhos. Hoje, o Air Jordan da Off-White pode ser encontrado apenas nos pés de celebridades – o rapper canadense Drake ganhou um par de presente de Abloh – ou em sites de revenda a preços, é claro, exorbitantes.

GESTÃO E CARREIRA

QUATRO LETRAS QUE MUDARÃO SUA VIDA PROFISSIONAL

F – O – C – O

É uma das competências mais valorizadas pelo mercado de trabalho atualmente. Tanto que uma pesquisa de 2018 da Udemy, plataforma global de ensino e treinamento profissional com mais de 4 mil clientes (entre organizações públicas, privadas e do terceiro setor), mostra que 36% das pessoas nascidas da segunda metade dos anos 80 ao começo dos anos 2000 – de 16 a 34 anos – gastam pelo menos duas horas por dia olhando seus celulares para tarefas ou ações relacionadas à vida pessoal. E isso não é um fenômeno etário. Cada vez mais, profissionais de todas as idades sucumbem à tentação da distração. Tanto que o mesmo levantamento revela que 66% das pessoas nunca conversaram com seus superiores sobre a dificuldade de concentração no ambiente de trabalho e 70% acreditam que treinamentos ajudariam a dar foco.

E aqui reside o problema. Treinamento significa investimentos que muitas corporações já dedicam a inúmeras outras necessidades, muitas vezes mais urgentes, vinculadas a objetivos financeiros. Isso faz com que a questão do foco fique nas mãos de cada profissional. E autodisciplina é algo muito difícil de se alcançar o tempo todo sem apoios externos. Para isso, o primeiro passo é ter clareza. Se você não sabe de forma simples e clara seu objetivo, ninguém poderá ajudá-lo. No próximo café em família, conte para sua mãe ou sua tia qual sua meta do mês, do semestre e do ano. Não importa a área em que você atua. Se uma delas não entender, esse é o primeiro sinal de que você pode não atingí-las.

O passo 2 será definir as etapas e os skills necessários para chegar lá – inclusive entender que abrir mão de algumas coisas, por algum tempo, não significa necessariamente desistir delas para sempre. É apenas uma forma de alinhar as prioridades com o que se quer alcançar. Isso não é tarefa fácil, porque temos um grande número de distrações ao nosso redor. Conversas improdutivas, barulho, música, TV ligada, convites para um cafezinho a mais, aquela notinha de fofoca ou de esportes piscando na tela e notificações do celular são conhecidas como distrações sensoriais e estão presentes no nosso dia a dia. 

Por mais tentadoras, porém, elas são mais fáceis de ser administradas ou ignoradas, dependendo do seu poder de concentração. Basta desconectar o celular, por exemplo, ou isolar-se em algum lugar mais calmo. Há pessoas que delimitam tempo: só dão aquela olhadinha no celular ou na tela do computador a cada 25 minutos de trabalho. O problema multiplica com as chamadas distrações sentimentais, como problemas de relacionamento e doenças na família. São as mais difíceis de ser controladas porque mexem com o nosso psicológico. 

Procure observar qual delas rouba mais sua atenção e toma mais seu tempo. Ter essa consciência é importante, principalmente na hora de montar estratégias para administrá-las. Durante o processo, é importante continuar fazendo pequenas coisas que te dão prazer, até para não enlouquecer. Ter foco não é sinônimo de sofrimento full time. O prazer é uma ferramenta importantíssima para a manutenção do foco e para que você consiga priorizar suas escolhas – e não se anular completamente.

Na prática, a principal ferramenta para que você mantenha o foco naquilo que deseja alcançar é nunca deixar de visualizar aonde você quer chegar e manter a disciplina para atingir as metas traçadas. Uma dica é listar atividades, colocando prazos para cada uma. E crie o hábito de avaliar rotineiramente se suas atitudes e comportamentos estão congruentes com suas metas e prazos. Uma prática simples, mas que pode cumprir o papel de ser o primeiro grande aliado na conquista de seus objetivos.

TIRLEY ALFONSO – é Personal & Professional Coaching pela Sociedade Brasileira de Coaching, com cursos de especialização e pós-graduação em psicologia, neurolinguística e terapia emocional

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

31 DE JANEIRO

O TRIBUNAL DE DEUS E O TRIBUNAL DOS HOMENS

O SENHOR é misericordioso e compassivo; longânimo e assaz benigno (Salmo 103.8).

Qual é o tribunal mais austero: o tribunal de Deus ou o tribunal dos homens? O tribunal dos homens é mais difícil de ser enfrentado do que o tribunal de Deus. Foi por esta razão que, quando Davi precisou escolher entre o juízo de Deus e o juízo dos homens, preferiu cair nas mãos de Deus, e não nas mãos dos homens. Disse Davi: Caiamos nas mãos do SENHOR, porque muitas são as suas misericórdias; mas, nas mãos dos homens, não caia eu (2 Samuel 24.14b). No tribunal dos homens, um João Batista vai parar na prisão e é decapitado, enquanto um Herodes adúltero e assassino ocupa o trono. No tribunal de Deus, um ladrão condenado à morte, encontra perdão e é salvo na hora da sua execução; mas, no tribunal dos homens, o próprio Filho de Deus, inculpado e santo, é condenado à morte. No tribunal dos homens, José do Egito, mesmo inocente, é levado para a prisão, e a mulher de Potifar, que tentou seduzi-lo, é considerada molestada e inocente. No tribunal dos homens, Jesus vai para a cruz e Barrabás toma as asas da liberdade. No tribunal de Deus, a justiça se assenta no trono, mas no tribunal dos homens, muitas vezes, a injustiça desbanca a justiça. No tribunal de Deus até o culpado arrependido encontra perdão; no tribunal dos homens até os inocentes são tidos como culpados.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DOENTES IMAGINÁRIOS

A doença e fictícia, mas o sofrimento e real. Uma breve viagem pela hipocondria, o medo obsessivo de estar doente, com o qual ciência e medicina se confrontam (e divergem) há séculos

Há mais de dez anos o quinquagenário senhor Cantoni tem dores nas panturrilhas. O diagnóstico, a princípio, parecia fácil, o hemograma mostrou alteração em um valor de referência, indicando desgaste muscular. Mas, passado algum tempo, o valor voltou ao normal. Então, radiografias do tórax revelaram anomalia em uma vértebra. O ortopedista concluiu ser essa a causa das dores. Entretanto, trações e fisioterapia não trouxeram benefício algum. Pelo contrário, às dores acrescentou-se um incômodo formigamento. As veias das pernas, examinadas por um cirurgião vascular, estavam em ordem. Foi quando entrou em cena o neurologista, que falou de uma misteriosa “miopatia autônoma”. O caso parecia encerrado. No entanto, sempre atormentado pelas dores e insatisfeito com o diagnóstico, Cantoni refez os exames. A cada vez surgia um indício aparentemente decisivo para o diagnóstico, mas que nunca se confirmava. Então vieram as dores no peito. Ele foi várias vezes ao pronto socorro, sem que fosse encontrado vestígio algum de ameaça de infarto. Começou a se queixar também de zumbido nos ouvidos e de cansaço. E recomeçou um outro período de exames e especialistas. Mas que, novamente, em nada resultou.

Cantoni, “o homem com sintomas sem respostas”, é um dos pacientes de Dino Zeffiri, o pseudônimo que assina o Diário de um Clínico Geral. Sua história, contou-nos Zeffiri, continuou de modo trágico. No verão passado, a esposa de Cantoni foi tomada por repentinas dores abdominais. Quando os médicos deram o diagnóstico de tumor no pâncreas, Cantoni desmaiou, a mulher foi quem o consolou. Submetida a quimioterapia, com poucas esperanças, ela ainda cuida da saúde do marido, cada vez mais acometido por males inexistentes. Ele os inventa? É um doente imaginário? Um hipocondríaco?

Para o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, a hipocondria faz parte dos transtornos somatoformes, cuja característica é a presença de sintomas que levam a pensar em uma patologia física que de fato não existe. É definida como a “preocupação ligada ao medo ou à convicção de ter uma doença grave”. Nenhum esclarecimento é suficiente para debelar o medo. Consultas, análises e exames não servem para aliviá-lo. Um hipocondríaco passa grande parte do tempo pensando em seus sintomas, falando sobre eles e consultando especialistas. Como não considera nenhum exame convincente, ele os refaz continuamente para ter certeza de que os médicos não deixaram escapar nada. Se o temor de uma doença passa, imediatamente o de outra o assalta.

Apesar de ser conhecida desde a Antiguidade e ainda representar um problema para médicos, o conhecimento sobre as causas e os tratamentos da hipocondria é bastante escasso. Estima-se que a incidência na população varie entre 1% e 6%. Não existe um modo unívoco para entender o transtorno, como salientam Maurizio De Vanna, Mauro Cauzer e Roberta Marchiori no livro O Misterioso Planeta da Hipocondria. Há quem a considere um sintoma, uma verdadeira doença ou ainda um traço de personalidade.

À pergunta “você tem pacientes hipocondríacos?”, formulada em um questionário para cem médicos de clínica geral de Trieste e Pádua, na Itália, 86% responderam sim. Certamente os doentes imaginários constituem um percentual significativo dos pacientes que são uma presença constante nos consultórios. Na verdade, somos todos um pouco hipocondríacos, inclusive os médicos, comenta o neurocientista italiano Fabrízio Benedetti, da Universidade de Turim. “O estudo detalhado dos sintomas de uma doença leva quase sempre a imaginar que os temos. Quem nunca apalpou os linfonodos do pescoço quando estudava os linfomas? Quem não se sentiu esquizofrênico quando estudava o desdobramento da personalidade?” Nos verdadeiros hipocondríacos, porém, a preocupação em relação à doença se torna o elemento central da vida: ocupa pensamentos, conversas, e influencia ou impede atividades da vida cotidiana.

A sociedade contemporânea piorou as coisas ao estimular uma preocupação excessiva com o cuidado do corpo. Sempre vigilantes e atentos às suas funções normais, tendemos a notar e amplificar cada pequeno sinal e a considerá-lo indício do funcionamento anômalo de algum órgão. Os mais sensíveis tendem a sentir todos os efeitos colaterais descritos nas bulas dos medicamentos, ou a temer terem contraído a última patologia sobre a qual leram no jornal. A internet, nesse sentido foi um desastre. Para quem tem predisposição para a hipocondria, a massa de informações encontrada na rede, em vez de tranquilizar, alimenta os pesadelos. Nos Estados Unidos já foi até mesmo cunhado um termo para a fobia das doenças alimentada pela internet, cybercondria.

Os doentes imaginários são o tormento dos clínicos gerais, primeiro filtro das ansiedades. Instruídos para distinguir patologias concretas, frequentemente encontram-se desorientados diante de quem manifesta males que parecem inventados.

À pergunta “O que você sente diante de um hipocondríaco?” as respostas mais frequentes dos médicos de Pádua e Trieste foram “compreensão”, “pena e comiseração”, “incômodo” e “impotência”. Esses pacientes são bastante conhecidos no meio médico, visto que tendem a migrar de um clínico a outro.

A frustração dos médicos é certa, mesmo porque esses pacientes normalmente recusam qualquer tentativa de estabelecer um diálogo sobre a doença. Desconfiam dos médicos que, depois de todos os exames, propõem uma psicoterapia, convencidos de que o seu problema é físico, grave e iminente.

Mas se os hipocondríacos não têm um verdadeiro problema orgânico, o que eles têm? Na literatura médica antiga o termo deriva de lhypochoendria, composto pelas palavras gregas hypo, “sob”, e chaendros, “cartilagem”. Pensava-se que o distúrbio estivesse alojado no hipocôndrio, parte superior e lateral do abdome, onde se encontram o fígado e o baço. O primeiro a defini-la foi Galeno, no século II, atribuindo-a a uma disfunção da ‘bile negra’. Esse conceito permaneceu por toda a Idade Média e até a Idade Moderna. A partir do século XVIII, o termo passou a indicar um distúrbio melancólico, que se tratava com a aplicação de sanguessugas. Sobretudo na Inglaterra, a hipocondria era considerada a doença dos literatos, o equivalente masculino da histeria. O significado atual foi introduzido no século XIX, época em que diminuiu o interesse da medicina pelo assunto.

Nem mesmo Freud lhe dedicou grande atenção, afirmando que o transtorno, resultado de energias sexuais que, em vez de serem dirigidas a objetos externos, eram voltadas para o próprio corpo, não podia ser investigado apenas do ponto de vista psicológico. Mais tarde, os psicanalistas forneceram várias interpretações para a hipocondria. A hipótese mais clássica sustenta que sua origem estaria vinculada a um ambiente familiar dominado por uma mãe hiperprotetora, que mantém os filhos em estado de dependência: estar doente é o melhor modo de obter tratamentos e atenções.

Ainda hoje não está totalmente claro o que se entende exatamente por hipocondria, mesmo que se tenda a distingui-la do chamado transtorno de somatização, tendência a desenvolver sintomas físicos. “Os casos mais frequentes são os de pacientes com uma patologia orgânica que têm, no entanto, sintomas físicos amplificados, uma pessoa com artrose que não se levanta da cama queixando-se de dores insuportáveis, ou um cardiopático que fica sem fôlego diante de um esforço mínimo”, explica o psiquiatra Riccardo Torta. Uma de suas pacientes, com síndrome bipolar, manifestava sintomas somáticos bastante graves na fase de depressão, em vez dos clássicos transtornos do humor. Como tinha uma certa cultura e se informava continuamente, acabava por interpretar seus sintomas baseando se nas definições das enciclopédias médicas, relatando depois aos clínicos os sintomas que para eles eram sinais inequívocos de uma certa doença. Desse modo ela conseguiu colecionar intervenções cirúrgicas de todo tipo, inclusive a retirada da vesícula biliar.

Brian Fallon, neuropsiquiatra da Universidade Columbia, em Nova York, é um dos poucos pesquisadores que fez estudos específicos sobre hipocondria. Começou a interessar-se pela doença há 15 anos, ao tratar de um corretor da bolsa de valores com 50 anos que estava convencido de ter um tumor cerebral. Mesmo depois que todos os exames deram resultados negativos, o homem passava os dias pensando em seu câncer. Fallon lhe prescreveu um antidepressivo. Para sua surpresa, o medicamento funcionou perfeitamente. Desde então ele está convencido de que a hipocondria é uma forma de transtorno obsessivo – compulsivo e que pode ser tratada com inibidores seletivos de recaptação da serotonina, as drogas da família do Prozac.

O psiquiatra Arthur Barsky, do Hospital Brigham, de Boston, usa uma terapia cognitivo- comportamental com hipocondríacos. Conforme estudo concluído recentemente com 187 participantes, a terapia parece dar resultados. O método ensina a reduzir a atenção dada às sensações corpóreas e a corrigir comportamentos específicos: por exemplo, pular as páginas do jornal que falam de saúde e evitar sites de medicina. Giorgio Nardone, diretor do Centro de Terapia Estratégica de Arezzo, propõe aos hipocondríacos psicoterapias breves, de poucas semanas, inspiradas nos métodos do Mental Research lnstitute de Palo Alto, nos Estados Unidos. Em certa ocasião, relatada em seu livro Não Há Noite que Não Veja o Dia, prescreveu a um paciente falar de seus medos apenas por meia hora depois do jantar e anotar três vezes ao dia, em pé diante do espelho, todas as sensações e sintomas provenientes do corpo.

Recentemente, surgiram clínicas para hipocondríacos em vários países. “No entanto, a maior parte dos transtornos de ansiedade ligados à saúde, como prefiro me referir hipocondria, deveria ser administrada e tratada por médicos de família”, afirma Paul Salkovskis, diretor do Hospital Maudsley, em Londres.

Uma coisa, no entanto, é certa: esses doentes, etiquetados de imaginário, realmente sofrem. Além do risco de danos por terapias, exames e intervenções desnecessários, há ainda o risco de que as doenças não sejam reconhecidas quando aparecerem realmente.

E seria essa a ironia do destino, o paradoxo dramático, adoecer, enfim, exatamente do que se teve medo por toda a vida.

DIÁRIO DE UM CLÍNICO GERAL

O senhor Giorgio é hipocondríaco há muitos anos. Quase toda semana comparece ao ambulatório, a qualquer hora. Frequentemente aparece sem hora marcada, implorando uma consulta, não consegue ficar sentado e anda para cima e para baixo pelo corredor. Fico com pena e o faço entrar. Começa sempre assim: “Não estou bem, estou com uma nova dor”. São as mesmas dores, vistas e revistas, investigadas, explicadas…

O enfermeiro aposentado é o hipocondríaco que mais me preocupa. Conhece todos os caminhos para obter rapidamente os exames e as consultas que considera necessários para conhecer seu estado de saúde. Está se fazendo mal: radiografias, exames, até biópsias. E tratamentos, tantos, prescritos pelos vários especialistas, talvez para livrarem-se dele. Escutei-o durante horas, em vão. E cansativo. Estamos em pé de guerra desde que decidi não ajudá-lo em seus pedidos obsessivos. Entra protestando. A consulta é carregada de tensão. Exige, briga, me deixa bravo. Não é o clima ideal para trabalhar com ciência e consciência. Quando sai estou exausto, paro as consultas por alguns minutos. tomo um café volto, entra um outro, oh, não! É o senhor Giorgio…

HIPOCONDRÍACOS DE CLASSE

O medo e a obsessão pelas doenças, e às vezes a capacidade de rir d isso, parecem ser traços característicos do nosso tempo.

Mas já nos séculos passados a hipocondria era frequentemente associada aos intelectuais. No tratado Della preservazione dlla solute de’ letterati e della gente applicata e sedentaria, de 1762, o médico Antonio Pujati recomendava o movimento como terapia anti ansiedade: dançar, cavalgar, caçar e andar de gôndola. Segundo ele, o balanço da embarcação era o ideal para restabelecer o equilíbrio dos fluidos corpóreos e eliminar as preocupações.

Entre escritores, músicos, artistas e dentistas, os hipocondríacos verdadeiros e presumidos são incontáveis. Consideravam-se como tais, por exemplo, Carlo Goldoni e Moliére, que colocaram a hipocondria no centro de comédias famosíssimas, como a Falso Doente, de Goldoni, e o Doente lmoginário, de Moliére. Também Charles Darwin foi acometido durante grande parte da vida por uma doença misteriosa, e talvez imaginária, queixando-se de uma variedade de sintomas que iam do adormecimento dos dedos a problemas digestivos e Insônia. Do compositor Igor Stravinsky conta-se que procurava um médico a cada cidade, e que tomava continuamente remédios que se prescrevia sozinho. Em 1934, quando o filho foi operado de apendicite, fez-se operar também, “por precaução”.

Um testem unho literário de que a divulgação médica pode contribuir para assustar os mais sugestionáveis é oferecido por Gustave Flaubert. Bouvard e Pécuchet, no romance homônimo, acabam por sentir todos os males sobre os quais leram nos manuais de anatomia e medicina. Mas a medicalização da sociedade e o consequente aumento vertiginoso dos doentes imaginários ocorre apenas no século XX, como testemunha ainda a literatura.

Diz Zeno, protagonista do romance de Ítalo Svevo: “A doença é uma convicção, e eu nasci com aquela convicção”. E Marcel Proust escreve em sua obra Em Busca do Tempo Perdido “Para cada doença que os médicos curam com alguns remédios, outras dez são causadas em sujeitos sãos inoculando aquele agente patogênico, mil vezes mais virulento que todos os outros micróbios, que é a ideia de estar doente”.

OUTROS OLHARES

O CREPÚSCULO DO MACHO

O comportamento masculino dito “tóxico”, apreendido desde a infância, já não cola e começa a ser vigiado pela Justiça e controlado com aulas de reeducação

Homens de todo o mundo, uni-vos contra a masculinidade tóxica – a tola postura velha de guerra, ultrapassada, agressiva, segundo a qual homem não chora, homem não fraqueja, homem é o provedor da casa, homem, homem… A expressão, que começou a grassar com rapidez desde que o movimento #MeToo expôs os abusos sexuais de um predador como o produtor Harvey Weinstein é, a rigor, a tradução moderna, e até então restrita aos trabalhos acadêmicos e manifestos políticos de um antigo modo de ser: o machismo. Está no dicionário Houaiss: “comportamento que tende a negar à mulher a extensão de prerrogativas ou direitos do homem”.

No início deste ano, um anúncio da Gillette pôs lenha nessa fogueira cotidiana em segundos que parecem revisitar décadas de má postura – na propaganda, veem-se amigos detendo companheiros que brigam, repreendendo outros que assediam mulheres, exigindo de parceiros que as deixem falar, sem interrupção. Movimentos feministas celebraram – no entanto, houve ameaças de boicote aos produtos da Gillette, o que diz muito sobre nosso tempo. Até a semana passada, o vídeo no YouTube contava 33 milhões de visualizações. E muita coisa.

A boa-nova é que a masculinidade tóxica; o machismo, vale insistir, já não tem a vida fácil de antes, apesar da multidão que criticou a Gillette e acha que Weinstein não fez nada de tão grave assim. Cabe questioná-la, e é o que se tem feito. Vêm crescendo os casos de apresentação voluntária a palestras e encontros de reeducação e também as convocações compulsórias diante de juízes.

No começo de outubro, um grupo de dezessete homens denunciados por agressões contra mulheres se apresentou ao juiz Mário Rubens Assumpção Filho, numa sala do Ministério Público de São Paulo. Eles estavam ali, dentro de um projeto chamado Tempo de Despertar, para entender que é possível deixar de lado a educação de base machista para substituí-la por alternativas adequadas. Não existe distinção de classe social entre os alunos machões – nos encontros, como no presenciado pela equipe de reportagem, há executivos de empresas, policiais e profissionais autônomo do setor de entretenimento. Os encontros acontecem a cada quinzena e são previstos na Lei Maria da Penha, de 2006 – mas apenas em 2014 a iniciativa das reuniões começou em Taboão da Serra, em São Paulo, e em 2017 chegou à capital.

Socos, empurrões e até ameaças de queimaduras com ácido, entre outras atitudes abomináveis figuram entre as denúncias que orbitam a turma. No início das conversas, a promotora de Justiça Gabriela Manssur, idealizadora do projeto, explica as diferenças entre legítima defesa e lesão corporal. “Os homens tentam justificar seus atos culpando a mulher que na visão deles teria começado “o conflito”, costuma dizer Gabriela a ouvidos atentos e olhos arregalados. ”Mas defender-se é diferente de agredir. Quase sempre, o homem é fisicamente mais forte. Se fosse defesa, ele não precisaria machucá-la para se impor. “O resultado da iniciativa legal já pôde ser sentido: desde a implementação, a reincidência dos agressores caiu de 65% para 2%.

Convém ressaltar que a postura dos indivíduos colocados diante de autoridades do Judiciário é a parte visível, violenta, de um comportamento que muitas vezes parece ingênuo, sem importância, mas que pode crescer e fazer brotar do ovo da serpente uma monstruosidade. “Sou um machista em recuperação”, resume o enfermeiro e psicólogo Fledson de Souza Lima, de 40 anos, que participou voluntariamente de um treinamento em torno da questão da toxicidade masculina. “Nunca agredi fisicamente minha mulher, mas cometia abusos psicológicos ao tentar induzi-la a sempre concordar comigo”. Lima, com algum esforço, conseguiu enxergar sua dificuldade fez a auto­crítica e tenta ir em frente. Não é uma atitude comum, e as barreiras são cuidadosamente erguidas ao longo da vida. Um levantamento com quase 20.000 indivíduos feito pelo portal Papo de Homem mostrou que a grande maioria cresceu aprendendo a não expressar as emoções, a não demonstrar fragilidade, e quase nunca conversou com os pais a respeito de boas maneiras com o sexo oposto.

“A permanente distinção, ser garanhão ou ser mulherzinha, como dizem, é uma prisão”, afirma o psicólogo Tales Furtado, coordenador do Coletivo Feminista de Sexualidade e Saúde. “Aceitar a ideia de que existe um meio­ termo é libertador”. Trata-se de uma libertação complicada, porque a masculinidade tóxica talvez seja uma das mais adesivas práticas de nosso tempo, alimentada em canções em filmes e sobretudo na publicidade (e, por isso, repita-se, a peça da Gillette foi tão ruidosa). O que fazer? Especialistas ouvidos são unânimes ao declarar que a solução estaria em um novo olhar para a educação de meninos. Diz a pedagoga Raquel Franzim, do Instituto Alana: ‘É vital não reforçar padrões e ensinar garotos a lidar com emoções”. Seria um bom começo.

GESTÃO E CARREIRA

O FACEBOOK DOS TOTÓS

Executivos da área de Telecom montam aplicativo para funcionar como rede social de pets

O Brasil tem 139,3 milhões de pets (Instituto Brasil Pet/IBGE) e muita gente querendo morder uma fatia do mercado construído em torno dessa população gigante. Na área de tecnologia, há centenas de aplicativos. Há plataformas de primeiros socorros, de monitoramento à distância, de busca de anfitriões, sem contar a de relacionamentos, espécie de Tinder para cachorros (obviamente, de usuários interessados em achar parceiros para seus dogs). Essa densidade compacta não impediu que dois ex-executivos do setor de telecom e uma veterinária investissem R$ 1,2 milhão na criação de mais uma startup, acreditando se tratar da “primeira rede social para pets” – o app Arknoah, lançado semana passada. O aplicativo vem sendo desenvolvido há quase dois anos, em parceria com o estúdio EspressoLabs, e conta com a chinesa Hwauei no suporte de telecom.

A aposta é ambiciosa. “Pretendemos chegar a 1 milhão de usuários em 30 meses”, diz o CEO Carlos Cipriano, com passagem pela diretoria de três grandes operadoras. A ideia do app é dele. A oportunidade de um negócio escalável em pouco tempo seduziu os sócios Josué Freitas, COO, e a veterinária Mônica Lopes, responsável pela parte técnica. Cada um aportou R$ 400 mil no projeto, que Carlos diz ter potencialidade global. O plano de negócios prevê investimentos de US$ 2,5 milhões nos próximos dois anos, direcionados principalmente a TI.

O mercado pet brasileiro é bastante fértil. Movimentou R$ 20,3 bilhões no ano passado, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação (Abinpet). “É o segundo mercado pet do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos”, garante Cipriano. A ideia inicial de capitalização é a venda de anúncios, mas há outros canais de receita sendo estruturados, como a parceria com instituições financeiras e a integração da base de dados do Arknoah com fornecedores de serviços e produtos.

Cipriano garante que o eventual pioneirismo se deve a dificuldades no campo tecnológico. “Dá trabalho construir uma rede social: o software é muito complexo”, diz. O benchmark, claro, é o Facebook e Instagram. A diferença, imagina, é que o Arknoah “tem uma cara”, a veterinária Mônica, que aparece em vídeos dando dicas sobre cuidado animal. “Você pode fazer tudo o que faz um uma rede social convencional: postar foto, curtir, seguir, comentar, mandar mensagem, com o adicional do conteúdo que estamos produzindo.” Além das dicas de Mônica, outros conteúdos, como generalidades do mundo pet e entretenimento leve, serão veiculados por meio de quatro mascotes fictícios.

DIVERSÃO E SERVIÇO

Como a maioria das startups, o Arknoah se imbui de uma missão social – ou ao menos se coloca no espectro do bem-estar. Além de se definir como um ecossistema de negócios e relacionamento, o app quer trazer para o compartilhamento ONGs que lutam pela causa pet. A rede não permite a venda de animais, para evitar criadores que buscam produtividade estressando a reprodução ao limite – principal polêmica do universo pet. Doação e adoção estão liberadas. “A ideia é montar uma grande comunidade que compartilhe conhecimento e diversão”, diz Cipriano.

O tutor pode se inscrever com um perfil humano e outro animal. Dentro da rede, terá oportunidade de se conectar com outras pessoas (ARKlovers), com empresas (ARKbests) e ONGs (ARKngels). Na primeira semana de funcionamento, o app registrou perfil de usuários majoritariamente feminino (73%), na faixa entre 18 e 35 anos. Como era de se esperar, 80% da presença animal até a semana passada eram de cães. Gatos vêm em seguida, mas já há “usuários” ave, peixe, cavalo e coelho.

A fase 2, prevista para começar no próximo ano, contempla serviços de localização, prontuário (registros da vida clínica dos pets, como Raio X, vacina etc.) e opções de pagamento. Na fase 3, o Arknoah disponibilizará o agendamento de consultas, além de um recurso de reconhecimento “facial”, com software chinês – como se sabe, o focinho é a impressão digital de cães, os pets preferidos dos brasileiros.