A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

PERGUNTE PESSOALMENTE

Usar os meios digitais para nos comunicarmos tornou-se parte da rotina, uma forma prática de ganhar tempo. Mas para ter respostas afirmativas é melhor recorrer ao velho e bom olho no olho: respondemos melhor a pedidos ao vivo do que por e-mail

Quando precisa de um favor, muita gente acha mais conveniente mandar mensagens para resolver logo a questão. E com uma vantagem: na maioria dos casos, o contato virtual ajuda a evitar o eventual constrangimento de ter que pedir algo pessoalmente. Faz sentido, mas é preciso ter algo em mente: não podemos esperar, nesses casos, os mesmos resultados que obteríamos se a conversa fosse de perto. Duas novas pesquisas mostram que tendemos a acreditar, no entanto, que solicitações feitas por e-mail são tão eficazes quanto uma conversa pessoal.

No primeiro estudo, publicado na edição de março do Journal of Experimental Social Psychology, 45 participantes foram informados de que teriam que pedir a dez estranhos, pessoalmente ou por mensagem, quer respondessem um questionário, sem receber nada por isso. Participantes de ambos os grupos disseram que acreditavam que uma em cada duas pessoas concordariam. Mas estavam enganados. Mais de 70% dos indivíduos abordados aceitaram; entre aqueles que receberam uma mensagem eletrônica, apenas 2% concordaram.

Em um segundo estudo, desenvolvido por pesquisadores da Universidade Western, em Ontário, no Canadá, um grupo de pessoas foi recrutado (algumas por e-mail e outras pessoalmente) para responder a uma pesquisa pelo qual receberiam uma gratificação. Antes de começar, todos foram convidados a participar uma segunda pesquisa, não remunerada. Novamente, os cientistas subestimaram a quantidade de indivíduos que aceitariam e superestimaram o número de respostas de e-mail à tarefa não remunerada.

MAL ENTENDIDOS

Muitos dos que recebiam a mensagem eletrônica disseram mais tarde, em entrevista, que lhes pareceu que o remetente era presunçoso, o que interferiu na comunicação, diminuindo o grau de confiança e empatia. “Esse trabalho nos mostra algo bastante útil para a vida prática: para ter e-mails mais eficazes, é preciso incluir mais informações pessoais para estimular a confiança inicial”, acredita o pesquisador Mahdi Roghanizad, professor de negócios, co-autor do artigo.

E quanto a solicitar algo a uma pessoa conhecida? O contato olhos nos olhos ainda é melhor, mostram dados preliminares. “Quando um amigo se aproxima e pede um favor pessoalmente significa que realmente precisa de algo ou que respeita suficiente o interlocutor a ponto de vencer o constrangimento e se aproximar fisicamente para uma conversa”, diz Roghanizad. Assim pergunte pessoalmente!

OUTROS OLHARES

LUXO PARA OS PÉS

Modelos consagrados de tênis são reestilizados tomando como base os ícones pop – marcas badaladas, videogames e até séries de TV já adotaram a moda. Detalhe: eles são caríssimos

Foi-se o tempo em que apenas os melhores atletas do mundo ganhavam das empresas de material esportivo modelos exclusivos de calçado com a própria assinatura. As principais marcas perceberam recentemente que poderão faturar muito mais se introduzirem em suas criações outras referências do universo pop. Já foram usados como tema na confecção dos sneakers – nome pelo qual são conhecidas as edições limitadas dos tênis – séries de TV como Stranger Things, desenhos animados como Dragon Ball Z e Bob Esponja, e até consoles de videogame como o Playstation, da Sony.

É justamente a fusão de elementos do mundo do entretenimento, a chamada “colaboração”, que faz a cabeça (e o bolso) dos jovens pirar. Foi assim com uma das mais recentes versões do Air Jordan 1, da Nike. Levado às prateleiras como uma homenagem ao número 1 do basquete de todos os tempos, Michael Jordan (à época apenas uma estrela em ascensão,) o tênis de cano alto foi relançado diversas vezes desde 1985. Uma das mais famosas releituras foi assinada por uma das grifes mais quentes do mercado de streetwear: a Off-White. Seu criador, Virgil Abloh, é de Chicago, cidade que abrigou a maior parte da carreira de Jordan na NBA. Comercializada desde 2017 ao preço original de 190 dólares, essa versão, repleta de penduricalhos exclusivos (veja o quadro abaixo), sumiu das lojas num piscar de olhos. Hoje, o Air Jordan da Off-White pode ser encontrado apenas nos pés de celebridades – o rapper canadense Drake ganhou um par de presente de Abloh – ou em sites de revenda a preços, é claro, exorbitantes.

GESTÃO E CARREIRA

QUATRO LETRAS QUE MUDARÃO SUA VIDA PROFISSIONAL

F – O – C – O

É uma das competências mais valorizadas pelo mercado de trabalho atualmente. Tanto que uma pesquisa de 2018 da Udemy, plataforma global de ensino e treinamento profissional com mais de 4 mil clientes (entre organizações públicas, privadas e do terceiro setor), mostra que 36% das pessoas nascidas da segunda metade dos anos 80 ao começo dos anos 2000 – de 16 a 34 anos – gastam pelo menos duas horas por dia olhando seus celulares para tarefas ou ações relacionadas à vida pessoal. E isso não é um fenômeno etário. Cada vez mais, profissionais de todas as idades sucumbem à tentação da distração. Tanto que o mesmo levantamento revela que 66% das pessoas nunca conversaram com seus superiores sobre a dificuldade de concentração no ambiente de trabalho e 70% acreditam que treinamentos ajudariam a dar foco.

E aqui reside o problema. Treinamento significa investimentos que muitas corporações já dedicam a inúmeras outras necessidades, muitas vezes mais urgentes, vinculadas a objetivos financeiros. Isso faz com que a questão do foco fique nas mãos de cada profissional. E autodisciplina é algo muito difícil de se alcançar o tempo todo sem apoios externos. Para isso, o primeiro passo é ter clareza. Se você não sabe de forma simples e clara seu objetivo, ninguém poderá ajudá-lo. No próximo café em família, conte para sua mãe ou sua tia qual sua meta do mês, do semestre e do ano. Não importa a área em que você atua. Se uma delas não entender, esse é o primeiro sinal de que você pode não atingí-las.

O passo 2 será definir as etapas e os skills necessários para chegar lá – inclusive entender que abrir mão de algumas coisas, por algum tempo, não significa necessariamente desistir delas para sempre. É apenas uma forma de alinhar as prioridades com o que se quer alcançar. Isso não é tarefa fácil, porque temos um grande número de distrações ao nosso redor. Conversas improdutivas, barulho, música, TV ligada, convites para um cafezinho a mais, aquela notinha de fofoca ou de esportes piscando na tela e notificações do celular são conhecidas como distrações sensoriais e estão presentes no nosso dia a dia. 

Por mais tentadoras, porém, elas são mais fáceis de ser administradas ou ignoradas, dependendo do seu poder de concentração. Basta desconectar o celular, por exemplo, ou isolar-se em algum lugar mais calmo. Há pessoas que delimitam tempo: só dão aquela olhadinha no celular ou na tela do computador a cada 25 minutos de trabalho. O problema multiplica com as chamadas distrações sentimentais, como problemas de relacionamento e doenças na família. São as mais difíceis de ser controladas porque mexem com o nosso psicológico. 

Procure observar qual delas rouba mais sua atenção e toma mais seu tempo. Ter essa consciência é importante, principalmente na hora de montar estratégias para administrá-las. Durante o processo, é importante continuar fazendo pequenas coisas que te dão prazer, até para não enlouquecer. Ter foco não é sinônimo de sofrimento full time. O prazer é uma ferramenta importantíssima para a manutenção do foco e para que você consiga priorizar suas escolhas – e não se anular completamente.

Na prática, a principal ferramenta para que você mantenha o foco naquilo que deseja alcançar é nunca deixar de visualizar aonde você quer chegar e manter a disciplina para atingir as metas traçadas. Uma dica é listar atividades, colocando prazos para cada uma. E crie o hábito de avaliar rotineiramente se suas atitudes e comportamentos estão congruentes com suas metas e prazos. Uma prática simples, mas que pode cumprir o papel de ser o primeiro grande aliado na conquista de seus objetivos.

TIRLEY ALFONSO – é Personal & Professional Coaching pela Sociedade Brasileira de Coaching, com cursos de especialização e pós-graduação em psicologia, neurolinguística e terapia emocional

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

31 DE JANEIRO

O TRIBUNAL DE DEUS E O TRIBUNAL DOS HOMENS

O SENHOR é misericordioso e compassivo; longânimo e assaz benigno (Salmo 103.8).

Qual é o tribunal mais austero: o tribunal de Deus ou o tribunal dos homens? O tribunal dos homens é mais difícil de ser enfrentado do que o tribunal de Deus. Foi por esta razão que, quando Davi precisou escolher entre o juízo de Deus e o juízo dos homens, preferiu cair nas mãos de Deus, e não nas mãos dos homens. Disse Davi: Caiamos nas mãos do SENHOR, porque muitas são as suas misericórdias; mas, nas mãos dos homens, não caia eu (2 Samuel 24.14b). No tribunal dos homens, um João Batista vai parar na prisão e é decapitado, enquanto um Herodes adúltero e assassino ocupa o trono. No tribunal de Deus, um ladrão condenado à morte, encontra perdão e é salvo na hora da sua execução; mas, no tribunal dos homens, o próprio Filho de Deus, inculpado e santo, é condenado à morte. No tribunal dos homens, José do Egito, mesmo inocente, é levado para a prisão, e a mulher de Potifar, que tentou seduzi-lo, é considerada molestada e inocente. No tribunal dos homens, Jesus vai para a cruz e Barrabás toma as asas da liberdade. No tribunal de Deus, a justiça se assenta no trono, mas no tribunal dos homens, muitas vezes, a injustiça desbanca a justiça. No tribunal de Deus até o culpado arrependido encontra perdão; no tribunal dos homens até os inocentes são tidos como culpados.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DOENTES IMAGINÁRIOS

A doença e fictícia, mas o sofrimento e real. Uma breve viagem pela hipocondria, o medo obsessivo de estar doente, com o qual ciência e medicina se confrontam (e divergem) há séculos

Há mais de dez anos o quinquagenário senhor Cantoni tem dores nas panturrilhas. O diagnóstico, a princípio, parecia fácil, o hemograma mostrou alteração em um valor de referência, indicando desgaste muscular. Mas, passado algum tempo, o valor voltou ao normal. Então, radiografias do tórax revelaram anomalia em uma vértebra. O ortopedista concluiu ser essa a causa das dores. Entretanto, trações e fisioterapia não trouxeram benefício algum. Pelo contrário, às dores acrescentou-se um incômodo formigamento. As veias das pernas, examinadas por um cirurgião vascular, estavam em ordem. Foi quando entrou em cena o neurologista, que falou de uma misteriosa “miopatia autônoma”. O caso parecia encerrado. No entanto, sempre atormentado pelas dores e insatisfeito com o diagnóstico, Cantoni refez os exames. A cada vez surgia um indício aparentemente decisivo para o diagnóstico, mas que nunca se confirmava. Então vieram as dores no peito. Ele foi várias vezes ao pronto socorro, sem que fosse encontrado vestígio algum de ameaça de infarto. Começou a se queixar também de zumbido nos ouvidos e de cansaço. E recomeçou um outro período de exames e especialistas. Mas que, novamente, em nada resultou.

Cantoni, “o homem com sintomas sem respostas”, é um dos pacientes de Dino Zeffiri, o pseudônimo que assina o Diário de um Clínico Geral. Sua história, contou-nos Zeffiri, continuou de modo trágico. No verão passado, a esposa de Cantoni foi tomada por repentinas dores abdominais. Quando os médicos deram o diagnóstico de tumor no pâncreas, Cantoni desmaiou, a mulher foi quem o consolou. Submetida a quimioterapia, com poucas esperanças, ela ainda cuida da saúde do marido, cada vez mais acometido por males inexistentes. Ele os inventa? É um doente imaginário? Um hipocondríaco?

Para o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, a hipocondria faz parte dos transtornos somatoformes, cuja característica é a presença de sintomas que levam a pensar em uma patologia física que de fato não existe. É definida como a “preocupação ligada ao medo ou à convicção de ter uma doença grave”. Nenhum esclarecimento é suficiente para debelar o medo. Consultas, análises e exames não servem para aliviá-lo. Um hipocondríaco passa grande parte do tempo pensando em seus sintomas, falando sobre eles e consultando especialistas. Como não considera nenhum exame convincente, ele os refaz continuamente para ter certeza de que os médicos não deixaram escapar nada. Se o temor de uma doença passa, imediatamente o de outra o assalta.

Apesar de ser conhecida desde a Antiguidade e ainda representar um problema para médicos, o conhecimento sobre as causas e os tratamentos da hipocondria é bastante escasso. Estima-se que a incidência na população varie entre 1% e 6%. Não existe um modo unívoco para entender o transtorno, como salientam Maurizio De Vanna, Mauro Cauzer e Roberta Marchiori no livro O Misterioso Planeta da Hipocondria. Há quem a considere um sintoma, uma verdadeira doença ou ainda um traço de personalidade.

À pergunta “você tem pacientes hipocondríacos?”, formulada em um questionário para cem médicos de clínica geral de Trieste e Pádua, na Itália, 86% responderam sim. Certamente os doentes imaginários constituem um percentual significativo dos pacientes que são uma presença constante nos consultórios. Na verdade, somos todos um pouco hipocondríacos, inclusive os médicos, comenta o neurocientista italiano Fabrízio Benedetti, da Universidade de Turim. “O estudo detalhado dos sintomas de uma doença leva quase sempre a imaginar que os temos. Quem nunca apalpou os linfonodos do pescoço quando estudava os linfomas? Quem não se sentiu esquizofrênico quando estudava o desdobramento da personalidade?” Nos verdadeiros hipocondríacos, porém, a preocupação em relação à doença se torna o elemento central da vida: ocupa pensamentos, conversas, e influencia ou impede atividades da vida cotidiana.

A sociedade contemporânea piorou as coisas ao estimular uma preocupação excessiva com o cuidado do corpo. Sempre vigilantes e atentos às suas funções normais, tendemos a notar e amplificar cada pequeno sinal e a considerá-lo indício do funcionamento anômalo de algum órgão. Os mais sensíveis tendem a sentir todos os efeitos colaterais descritos nas bulas dos medicamentos, ou a temer terem contraído a última patologia sobre a qual leram no jornal. A internet, nesse sentido foi um desastre. Para quem tem predisposição para a hipocondria, a massa de informações encontrada na rede, em vez de tranquilizar, alimenta os pesadelos. Nos Estados Unidos já foi até mesmo cunhado um termo para a fobia das doenças alimentada pela internet, cybercondria.

Os doentes imaginários são o tormento dos clínicos gerais, primeiro filtro das ansiedades. Instruídos para distinguir patologias concretas, frequentemente encontram-se desorientados diante de quem manifesta males que parecem inventados.

À pergunta “O que você sente diante de um hipocondríaco?” as respostas mais frequentes dos médicos de Pádua e Trieste foram “compreensão”, “pena e comiseração”, “incômodo” e “impotência”. Esses pacientes são bastante conhecidos no meio médico, visto que tendem a migrar de um clínico a outro.

A frustração dos médicos é certa, mesmo porque esses pacientes normalmente recusam qualquer tentativa de estabelecer um diálogo sobre a doença. Desconfiam dos médicos que, depois de todos os exames, propõem uma psicoterapia, convencidos de que o seu problema é físico, grave e iminente.

Mas se os hipocondríacos não têm um verdadeiro problema orgânico, o que eles têm? Na literatura médica antiga o termo deriva de lhypochoendria, composto pelas palavras gregas hypo, “sob”, e chaendros, “cartilagem”. Pensava-se que o distúrbio estivesse alojado no hipocôndrio, parte superior e lateral do abdome, onde se encontram o fígado e o baço. O primeiro a defini-la foi Galeno, no século II, atribuindo-a a uma disfunção da ‘bile negra’. Esse conceito permaneceu por toda a Idade Média e até a Idade Moderna. A partir do século XVIII, o termo passou a indicar um distúrbio melancólico, que se tratava com a aplicação de sanguessugas. Sobretudo na Inglaterra, a hipocondria era considerada a doença dos literatos, o equivalente masculino da histeria. O significado atual foi introduzido no século XIX, época em que diminuiu o interesse da medicina pelo assunto.

Nem mesmo Freud lhe dedicou grande atenção, afirmando que o transtorno, resultado de energias sexuais que, em vez de serem dirigidas a objetos externos, eram voltadas para o próprio corpo, não podia ser investigado apenas do ponto de vista psicológico. Mais tarde, os psicanalistas forneceram várias interpretações para a hipocondria. A hipótese mais clássica sustenta que sua origem estaria vinculada a um ambiente familiar dominado por uma mãe hiperprotetora, que mantém os filhos em estado de dependência: estar doente é o melhor modo de obter tratamentos e atenções.

Ainda hoje não está totalmente claro o que se entende exatamente por hipocondria, mesmo que se tenda a distingui-la do chamado transtorno de somatização, tendência a desenvolver sintomas físicos. “Os casos mais frequentes são os de pacientes com uma patologia orgânica que têm, no entanto, sintomas físicos amplificados, uma pessoa com artrose que não se levanta da cama queixando-se de dores insuportáveis, ou um cardiopático que fica sem fôlego diante de um esforço mínimo”, explica o psiquiatra Riccardo Torta. Uma de suas pacientes, com síndrome bipolar, manifestava sintomas somáticos bastante graves na fase de depressão, em vez dos clássicos transtornos do humor. Como tinha uma certa cultura e se informava continuamente, acabava por interpretar seus sintomas baseando se nas definições das enciclopédias médicas, relatando depois aos clínicos os sintomas que para eles eram sinais inequívocos de uma certa doença. Desse modo ela conseguiu colecionar intervenções cirúrgicas de todo tipo, inclusive a retirada da vesícula biliar.

Brian Fallon, neuropsiquiatra da Universidade Columbia, em Nova York, é um dos poucos pesquisadores que fez estudos específicos sobre hipocondria. Começou a interessar-se pela doença há 15 anos, ao tratar de um corretor da bolsa de valores com 50 anos que estava convencido de ter um tumor cerebral. Mesmo depois que todos os exames deram resultados negativos, o homem passava os dias pensando em seu câncer. Fallon lhe prescreveu um antidepressivo. Para sua surpresa, o medicamento funcionou perfeitamente. Desde então ele está convencido de que a hipocondria é uma forma de transtorno obsessivo – compulsivo e que pode ser tratada com inibidores seletivos de recaptação da serotonina, as drogas da família do Prozac.

O psiquiatra Arthur Barsky, do Hospital Brigham, de Boston, usa uma terapia cognitivo- comportamental com hipocondríacos. Conforme estudo concluído recentemente com 187 participantes, a terapia parece dar resultados. O método ensina a reduzir a atenção dada às sensações corpóreas e a corrigir comportamentos específicos: por exemplo, pular as páginas do jornal que falam de saúde e evitar sites de medicina. Giorgio Nardone, diretor do Centro de Terapia Estratégica de Arezzo, propõe aos hipocondríacos psicoterapias breves, de poucas semanas, inspiradas nos métodos do Mental Research lnstitute de Palo Alto, nos Estados Unidos. Em certa ocasião, relatada em seu livro Não Há Noite que Não Veja o Dia, prescreveu a um paciente falar de seus medos apenas por meia hora depois do jantar e anotar três vezes ao dia, em pé diante do espelho, todas as sensações e sintomas provenientes do corpo.

Recentemente, surgiram clínicas para hipocondríacos em vários países. “No entanto, a maior parte dos transtornos de ansiedade ligados à saúde, como prefiro me referir hipocondria, deveria ser administrada e tratada por médicos de família”, afirma Paul Salkovskis, diretor do Hospital Maudsley, em Londres.

Uma coisa, no entanto, é certa: esses doentes, etiquetados de imaginário, realmente sofrem. Além do risco de danos por terapias, exames e intervenções desnecessários, há ainda o risco de que as doenças não sejam reconhecidas quando aparecerem realmente.

E seria essa a ironia do destino, o paradoxo dramático, adoecer, enfim, exatamente do que se teve medo por toda a vida.

DIÁRIO DE UM CLÍNICO GERAL

O senhor Giorgio é hipocondríaco há muitos anos. Quase toda semana comparece ao ambulatório, a qualquer hora. Frequentemente aparece sem hora marcada, implorando uma consulta, não consegue ficar sentado e anda para cima e para baixo pelo corredor. Fico com pena e o faço entrar. Começa sempre assim: “Não estou bem, estou com uma nova dor”. São as mesmas dores, vistas e revistas, investigadas, explicadas…

O enfermeiro aposentado é o hipocondríaco que mais me preocupa. Conhece todos os caminhos para obter rapidamente os exames e as consultas que considera necessários para conhecer seu estado de saúde. Está se fazendo mal: radiografias, exames, até biópsias. E tratamentos, tantos, prescritos pelos vários especialistas, talvez para livrarem-se dele. Escutei-o durante horas, em vão. E cansativo. Estamos em pé de guerra desde que decidi não ajudá-lo em seus pedidos obsessivos. Entra protestando. A consulta é carregada de tensão. Exige, briga, me deixa bravo. Não é o clima ideal para trabalhar com ciência e consciência. Quando sai estou exausto, paro as consultas por alguns minutos. tomo um café volto, entra um outro, oh, não! É o senhor Giorgio…

HIPOCONDRÍACOS DE CLASSE

O medo e a obsessão pelas doenças, e às vezes a capacidade de rir d isso, parecem ser traços característicos do nosso tempo.

Mas já nos séculos passados a hipocondria era frequentemente associada aos intelectuais. No tratado Della preservazione dlla solute de’ letterati e della gente applicata e sedentaria, de 1762, o médico Antonio Pujati recomendava o movimento como terapia anti ansiedade: dançar, cavalgar, caçar e andar de gôndola. Segundo ele, o balanço da embarcação era o ideal para restabelecer o equilíbrio dos fluidos corpóreos e eliminar as preocupações.

Entre escritores, músicos, artistas e dentistas, os hipocondríacos verdadeiros e presumidos são incontáveis. Consideravam-se como tais, por exemplo, Carlo Goldoni e Moliére, que colocaram a hipocondria no centro de comédias famosíssimas, como a Falso Doente, de Goldoni, e o Doente lmoginário, de Moliére. Também Charles Darwin foi acometido durante grande parte da vida por uma doença misteriosa, e talvez imaginária, queixando-se de uma variedade de sintomas que iam do adormecimento dos dedos a problemas digestivos e Insônia. Do compositor Igor Stravinsky conta-se que procurava um médico a cada cidade, e que tomava continuamente remédios que se prescrevia sozinho. Em 1934, quando o filho foi operado de apendicite, fez-se operar também, “por precaução”.

Um testem unho literário de que a divulgação médica pode contribuir para assustar os mais sugestionáveis é oferecido por Gustave Flaubert. Bouvard e Pécuchet, no romance homônimo, acabam por sentir todos os males sobre os quais leram nos manuais de anatomia e medicina. Mas a medicalização da sociedade e o consequente aumento vertiginoso dos doentes imaginários ocorre apenas no século XX, como testemunha ainda a literatura.

Diz Zeno, protagonista do romance de Ítalo Svevo: “A doença é uma convicção, e eu nasci com aquela convicção”. E Marcel Proust escreve em sua obra Em Busca do Tempo Perdido “Para cada doença que os médicos curam com alguns remédios, outras dez são causadas em sujeitos sãos inoculando aquele agente patogênico, mil vezes mais virulento que todos os outros micróbios, que é a ideia de estar doente”.

OUTROS OLHARES

O CREPÚSCULO DO MACHO

O comportamento masculino dito “tóxico”, apreendido desde a infância, já não cola e começa a ser vigiado pela Justiça e controlado com aulas de reeducação

Homens de todo o mundo, uni-vos contra a masculinidade tóxica – a tola postura velha de guerra, ultrapassada, agressiva, segundo a qual homem não chora, homem não fraqueja, homem é o provedor da casa, homem, homem… A expressão, que começou a grassar com rapidez desde que o movimento #MeToo expôs os abusos sexuais de um predador como o produtor Harvey Weinstein é, a rigor, a tradução moderna, e até então restrita aos trabalhos acadêmicos e manifestos políticos de um antigo modo de ser: o machismo. Está no dicionário Houaiss: “comportamento que tende a negar à mulher a extensão de prerrogativas ou direitos do homem”.

No início deste ano, um anúncio da Gillette pôs lenha nessa fogueira cotidiana em segundos que parecem revisitar décadas de má postura – na propaganda, veem-se amigos detendo companheiros que brigam, repreendendo outros que assediam mulheres, exigindo de parceiros que as deixem falar, sem interrupção. Movimentos feministas celebraram – no entanto, houve ameaças de boicote aos produtos da Gillette, o que diz muito sobre nosso tempo. Até a semana passada, o vídeo no YouTube contava 33 milhões de visualizações. E muita coisa.

A boa-nova é que a masculinidade tóxica; o machismo, vale insistir, já não tem a vida fácil de antes, apesar da multidão que criticou a Gillette e acha que Weinstein não fez nada de tão grave assim. Cabe questioná-la, e é o que se tem feito. Vêm crescendo os casos de apresentação voluntária a palestras e encontros de reeducação e também as convocações compulsórias diante de juízes.

No começo de outubro, um grupo de dezessete homens denunciados por agressões contra mulheres se apresentou ao juiz Mário Rubens Assumpção Filho, numa sala do Ministério Público de São Paulo. Eles estavam ali, dentro de um projeto chamado Tempo de Despertar, para entender que é possível deixar de lado a educação de base machista para substituí-la por alternativas adequadas. Não existe distinção de classe social entre os alunos machões – nos encontros, como no presenciado pela equipe de reportagem, há executivos de empresas, policiais e profissionais autônomo do setor de entretenimento. Os encontros acontecem a cada quinzena e são previstos na Lei Maria da Penha, de 2006 – mas apenas em 2014 a iniciativa das reuniões começou em Taboão da Serra, em São Paulo, e em 2017 chegou à capital.

Socos, empurrões e até ameaças de queimaduras com ácido, entre outras atitudes abomináveis figuram entre as denúncias que orbitam a turma. No início das conversas, a promotora de Justiça Gabriela Manssur, idealizadora do projeto, explica as diferenças entre legítima defesa e lesão corporal. “Os homens tentam justificar seus atos culpando a mulher que na visão deles teria começado “o conflito”, costuma dizer Gabriela a ouvidos atentos e olhos arregalados. ”Mas defender-se é diferente de agredir. Quase sempre, o homem é fisicamente mais forte. Se fosse defesa, ele não precisaria machucá-la para se impor. “O resultado da iniciativa legal já pôde ser sentido: desde a implementação, a reincidência dos agressores caiu de 65% para 2%.

Convém ressaltar que a postura dos indivíduos colocados diante de autoridades do Judiciário é a parte visível, violenta, de um comportamento que muitas vezes parece ingênuo, sem importância, mas que pode crescer e fazer brotar do ovo da serpente uma monstruosidade. “Sou um machista em recuperação”, resume o enfermeiro e psicólogo Fledson de Souza Lima, de 40 anos, que participou voluntariamente de um treinamento em torno da questão da toxicidade masculina. “Nunca agredi fisicamente minha mulher, mas cometia abusos psicológicos ao tentar induzi-la a sempre concordar comigo”. Lima, com algum esforço, conseguiu enxergar sua dificuldade fez a auto­crítica e tenta ir em frente. Não é uma atitude comum, e as barreiras são cuidadosamente erguidas ao longo da vida. Um levantamento com quase 20.000 indivíduos feito pelo portal Papo de Homem mostrou que a grande maioria cresceu aprendendo a não expressar as emoções, a não demonstrar fragilidade, e quase nunca conversou com os pais a respeito de boas maneiras com o sexo oposto.

“A permanente distinção, ser garanhão ou ser mulherzinha, como dizem, é uma prisão”, afirma o psicólogo Tales Furtado, coordenador do Coletivo Feminista de Sexualidade e Saúde. “Aceitar a ideia de que existe um meio­ termo é libertador”. Trata-se de uma libertação complicada, porque a masculinidade tóxica talvez seja uma das mais adesivas práticas de nosso tempo, alimentada em canções em filmes e sobretudo na publicidade (e, por isso, repita-se, a peça da Gillette foi tão ruidosa). O que fazer? Especialistas ouvidos são unânimes ao declarar que a solução estaria em um novo olhar para a educação de meninos. Diz a pedagoga Raquel Franzim, do Instituto Alana: ‘É vital não reforçar padrões e ensinar garotos a lidar com emoções”. Seria um bom começo.

GESTÃO E CARREIRA

O FACEBOOK DOS TOTÓS

Executivos da área de Telecom montam aplicativo para funcionar como rede social de pets

O Brasil tem 139,3 milhões de pets (Instituto Brasil Pet/IBGE) e muita gente querendo morder uma fatia do mercado construído em torno dessa população gigante. Na área de tecnologia, há centenas de aplicativos. Há plataformas de primeiros socorros, de monitoramento à distância, de busca de anfitriões, sem contar a de relacionamentos, espécie de Tinder para cachorros (obviamente, de usuários interessados em achar parceiros para seus dogs). Essa densidade compacta não impediu que dois ex-executivos do setor de telecom e uma veterinária investissem R$ 1,2 milhão na criação de mais uma startup, acreditando se tratar da “primeira rede social para pets” – o app Arknoah, lançado semana passada. O aplicativo vem sendo desenvolvido há quase dois anos, em parceria com o estúdio EspressoLabs, e conta com a chinesa Hwauei no suporte de telecom.

A aposta é ambiciosa. “Pretendemos chegar a 1 milhão de usuários em 30 meses”, diz o CEO Carlos Cipriano, com passagem pela diretoria de três grandes operadoras. A ideia do app é dele. A oportunidade de um negócio escalável em pouco tempo seduziu os sócios Josué Freitas, COO, e a veterinária Mônica Lopes, responsável pela parte técnica. Cada um aportou R$ 400 mil no projeto, que Carlos diz ter potencialidade global. O plano de negócios prevê investimentos de US$ 2,5 milhões nos próximos dois anos, direcionados principalmente a TI.

O mercado pet brasileiro é bastante fértil. Movimentou R$ 20,3 bilhões no ano passado, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação (Abinpet). “É o segundo mercado pet do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos”, garante Cipriano. A ideia inicial de capitalização é a venda de anúncios, mas há outros canais de receita sendo estruturados, como a parceria com instituições financeiras e a integração da base de dados do Arknoah com fornecedores de serviços e produtos.

Cipriano garante que o eventual pioneirismo se deve a dificuldades no campo tecnológico. “Dá trabalho construir uma rede social: o software é muito complexo”, diz. O benchmark, claro, é o Facebook e Instagram. A diferença, imagina, é que o Arknoah “tem uma cara”, a veterinária Mônica, que aparece em vídeos dando dicas sobre cuidado animal. “Você pode fazer tudo o que faz um uma rede social convencional: postar foto, curtir, seguir, comentar, mandar mensagem, com o adicional do conteúdo que estamos produzindo.” Além das dicas de Mônica, outros conteúdos, como generalidades do mundo pet e entretenimento leve, serão veiculados por meio de quatro mascotes fictícios.

DIVERSÃO E SERVIÇO

Como a maioria das startups, o Arknoah se imbui de uma missão social – ou ao menos se coloca no espectro do bem-estar. Além de se definir como um ecossistema de negócios e relacionamento, o app quer trazer para o compartilhamento ONGs que lutam pela causa pet. A rede não permite a venda de animais, para evitar criadores que buscam produtividade estressando a reprodução ao limite – principal polêmica do universo pet. Doação e adoção estão liberadas. “A ideia é montar uma grande comunidade que compartilhe conhecimento e diversão”, diz Cipriano.

O tutor pode se inscrever com um perfil humano e outro animal. Dentro da rede, terá oportunidade de se conectar com outras pessoas (ARKlovers), com empresas (ARKbests) e ONGs (ARKngels). Na primeira semana de funcionamento, o app registrou perfil de usuários majoritariamente feminino (73%), na faixa entre 18 e 35 anos. Como era de se esperar, 80% da presença animal até a semana passada eram de cães. Gatos vêm em seguida, mas já há “usuários” ave, peixe, cavalo e coelho.

A fase 2, prevista para começar no próximo ano, contempla serviços de localização, prontuário (registros da vida clínica dos pets, como Raio X, vacina etc.) e opções de pagamento. Na fase 3, o Arknoah disponibilizará o agendamento de consultas, além de um recurso de reconhecimento “facial”, com software chinês – como se sabe, o focinho é a impressão digital de cães, os pets preferidos dos brasileiros.

ALIMENTO DIÁRIO

DIA 30 DE JANEIRO

O DRAMA DA INFIDELIDADE

Digno de honra entre todos seja o matrimônio, bem como o leito sem mácula; porque Deus julgará os impuros e adúlteros (Hebreus 13.4).

Os fundamentos da nossa sociedade estão sendo destruídos. Os valores morais estão sendo invertidos. Aplaudimos hoje o que deveria merecer a mais contundente reprovação. A infidelidade conjugal deixou de ser uma exceção nesta sociedade decadente. Hoje, mais de 50% dos casais são infiéis ao cônjuge até a idade dos 40 anos. Isso é um atentado contra o casamento e sinaliza um colapso na família. Os valores morais absolutos estão sendo tripudiados na mídia e nas cortes judiciais. As verdades que sustentaram, como coluna, a sociedade ao longo dos séculos, estão sendo escarnecidas nas ruas e ridicularizadas em nossas casas de leis. O casamento tornou-se uma experiência passageira. Troca-se de cônjuge como se troca de roupa. A sociedade aplaude o conceito equivocado de que “o amor é eterno enquanto dura”. A infidelidade conjugal é vista como uma conquista, não como um sinal de decadência. É incentivada, em vez de ser combatida. Os frutos da infidelidade conjugal, porém, são desastrosos. O fim dessa linha é a vergonha e a morte. Os adúlteros não herdarão o reino de Deus. Quem comete adultério está fora de si, e somente aqueles que querem destruir-se cometem tal loucura.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A DIFICULDADE DE SER SUPERDOTADO

Por trás de uma criança que vai mal na escola, é desinteressada e voltada para si mesma, pode haver uma inteligência privilegiada. Psiquiatras e psicólogos começam a compreender como essa superioridade na infância pode se tornar uma desvantagem

Julien quase não se envolve nas aulas, não faz lições e mostra pouco interesse por outras crianças. Ele assiste a distância a brincadeira dos colegas e jamais participa diretamente. Em casa, é considerado um menino “bom para nada”. Diante disso, a diretora da escola aconselha seus pais a consultar um pedopsiquiatra. No ambiente tranquilo do consultório, o médico conquista sua confiança e propõe-lhe problemas dissociados de qualquer conotação escolar. Nesses testes de inteligência, o menino obtém resultados excepcionais. Julien é superdotado, com quociente intelectual (Ql) próximo de 150, quando as outras crianças têm em torno de 100. Surge assim a questão, quantas crianças que fracassam na escola são superdotadas? É este paradoxo que abordaremos.

A diferença entre crianças precoces e superdotadas é simples: falamos em criança precoce quando seu QI é superior a 130 e em superdotada quando excede 145. Às vezes uma nuance é introduzida: a criança superdotada possui um dom que nem sempre é fácil de ser percebido, acompanhado de um comportamento extrovertido ou introvertido, ao passo que a precoce é identificada mais facilmente: ela fala mais cedo que a maioria, tem vocabulário rico, sintaxe correta, gosta de ler, é curiosa e tem sede de aprender.

As bases biológicas dessas inteligências são mal conhecidas, algumas características fisiológicas parecem presentes. Na Universidade de Lille, na França, Jean Claude Gaubar mostrou que o sono das crianças precoces comporta fases de sono paradoxal (o momento em que ocorrem os sonhos) mais longas. As fases de sono paradoxal são longas nos bebês de 9 a 10 meses, diminuindo nas crianças. Além disso, os movimentos dos olhos (nas fases de sono paradoxal) são quase duas vezes mais frequentes nos superdotados, uma característica de adultos. Essas particularidades refletiriam uma capacidade de organizar, durante essas fases do sono, as informações acumuladas durante a vigília.

No cotidiano, as crianças precoces ou superdotadas se distinguem por uma série de detalhes que, para qualquer um que já esteve com elas, dificilmente passam desapercebidos. Em primeiro lugar, desde o nascimento, os bebês são despertos, atentos e emotivos. Desde cedo eles fitam intensamente seus pais, manifestando uma atenção contínua. Quando crescem, os superdotados desenvolvem uma grande sensibilidade, informando-se de tudo o que ocorre ao seu redor. São atentos, empáticos (permeáveis aos sentimentos do outro, sentindo a alegria e a tristeza com mais intensidade) e lúcidos: desde os 2 ou 3 anos analisam e participam das conversas dos adultos, falando sobre temas da atualidade, por exemplo. Aos 6, uma criança superdotada pode compreender conceitos difíceis: enquanto uma criança “normal” define palavras como tampa, oceano ou perigo, a superdotada conhece o sentido de polêmica, insinuar ou apago. Seu senso de humor também costuma ser bastante vivo, sem contara elevada capacidade de adaptação: quando em outro país, contam rapidamente na moeda local, habituam-se às características da língua e se localizam facilmente nos lugares públicos.

Uma criança precoce ou superdotada costuma ler muito e gosta de aprimorar incessantemente um desenho que começou. Sua concentração é excepcional. Algumas tem um desenvolvimento motor avançado, aprendem a andar muito cedo, sabem coordenar os movimentos e desenham bem. Suas referências espaciais e temporais são aguçadas. A memória, a criatividade e a imaginação são muito desenvolvidas, assim como a flexibilidade do pensamento. Essas crianças se sentem atraídas por adultos ou crianças mais velhas. Tendem ainda a formular várias questões sobre o sentido da vida ou do Universo.

O DOM QUE UM FARDO

Essas descrições sugerem que as crianças superdotadas não experimentam nenhuma dificuldade. Entretanto, muitas vezes elas se encontram em situações em que são consideradas medíocres e pouco sociáveis, com desempenhos apenas passáveis. Quando adultas, podem se refugiar no mutismo ou na marginalidade. Tudo isso está relacionado a mecanismos psicológicos que iremos analisar.

Uma das características predominantes das crianças superdotadas é a lucidez, que se manifesta na facilidade com que compreendem, desde cedo, conceitos dos adultos. Voltadas para a abstração, são fascinadas pela ideia da morte. Diante de qualquer situação, percebem imediatamente os riscos, as possibilidades de fracasso ou de derrota. Essa consciência pode paralisá-las. Em vez de enfrentar um exame escolar, por exemplo, respondendo às questões umas após as outras, uma criança superdotada ou precoce analisa a todo instante os riscos ligados a uma resposta errada. É claro que muitos superdotados dominam essa angústia e obtêm resultados brilhantes. Entretanto, basta um pequeno grão de areia na engrenagem para que a criança se feche perigosamente em si mesma.

Retomemos ao caso de Julien. O medo de se sair mal era sem dúvida a razão de seus resultados ruins na escola. Com medo de ser avaliado por outras crianças, ele se distanciava. Suas verdadeiras capacidades intelectuais só se revelaram quando ficou à vontade com o psiquiatra e soube que os testes a que seria submetido não teriam nenhuma consequência. A obsessão do fracasso é geralmente a causa dos transtornos manifestados às vezes por crianças superdotadas. O problema é agravado em duas situações frequentes: a dislexia e os problemas motores.

Como ocorre em relação às outras crianças, de 8% a l0% das superdotadas são disléxicas, isto é, têm problemas para aprender a ler e escrever. Essas dificuldades, quando não detectadas, são prejudiciais a todas as crianças, mas nas superdotadas as consequências são desproporcionais. Para diagnosticar um caso de dislexia, utilizamos o chamado teste de inversão. A criança é apresentada a pares de signos (letras, formas geométricas, objetos) idênticos, diferentes ou invertidos. Geralmente no maternal, dispõe os objetos, classificando-os segundo as categorias, idêntico, diferente ou invertido. Se confunde as categorias é provavelmente disléxica, pois não tem a noção correta da orientação das letras, dos grupos de palavras ou dos sons.

Aos 5 ou 6 anos, a criança superdotada constata que compreende tudo, mas não tira boas notas. Ela sofre de um conflito entre sua lucidez (ela sabe o que se espera dela) e as notas baixas que recebe, não compreende por que não tem um bom desempenho. Assim, com uma imagem depreciada de si mesma, ela pode se fechar e perder interesse pelo que lhe é ensinado. Nessas crianças, vários sinais de sofrimento psicológico chamam a atenção: resultados escolares medíocres, ansiedade, depressão ou agravamento da dislexia. Além disso, a percepção que têm da justiça torna insuportável para elas as punições que consideram desmerecidas. Em consequência, fecham-se ainda mais na solidão.

O segundo fator que agrava o temor do fracasso é o surgimento de problemas motores ou de orientação espacial, que se manifesta por vezes desde os 3 anos. As crianças superdotadas podem, como quaisquer outras, experimentar atrasos no desenvolvimento da orientação espacial. Como são mais lúcidas, surge um conflito. Se o teste de QI não for analisado com discernimento, os resultados poderão ocultar a causa dos problemas. Assim, uma criança superdotada, mas que apresenta problemas de orientação espacial obterá excelentes resultados nas provas verbais e desastrosos nos testes de orientação em um labirinto. O resultado do teste, que leva em conta as duas notas, será medíocre, e ela será considerada de nível médio e tratada como tal, o que reforçará seu sentimento de injustiça.

Esses exemplos mostram que, numa criança superdotada, a distância entre a sua expectativa e o resultado obtido é capaz de levar a um impasse do qual ela dificilmente sairá. Isso explica o grande número de crianças muito inteligentes que fracassam na escola. Como isso ocorre?

A melhor forma de impedir esses fracassos consiste em diagnosticar a precocidade o mais cedo possível, tratando das dificuldades desde os primeiros sintomas. Um tratamento ortofônico para corrigir uma dislexia manifestada no final do maternal leva de 6 a 18 meses para surtir efeitos.

Para avaliar o atraso no desenvolvimento da orientação espacial comparamos os resultados obtidos nas provas de performance dos testes de QI (percepção do espaço, quebra­ cabeças e imagens complementares, identificação de códigos) e nas provas verbais. Se a distância entre o resultado da prova verbal e o do teste de performance geral for inferior a 10 pontos, será preciso observar melhor o desenvolvimento da criança para descobrir qualquer evolução desfavorável. Se a distância se situar entre 10 e 20 pontos, aconselha-se um acompanhamento psicomotor. Se for superior a 20 pontos, uma terapia familiar.

Na terapia familiar, os pais são atendidos junto com a criança, e a história da família é evocada. O objetivo é “dissolver” as inibições da criança, procurando o que lhe suscita o temor do fracasso. Nas que sofrem de problemas motores de orientação espacial, constatamos que receiam executar gestos cotidianos, como, por exemplo, amarrar os sapatos. Elas sabem que, se tentarem, se atrapalharão e serão alvo das chacotas dos colegas. Ao indagar os pais sobre essas questões simples, o psicoterapeuta constata que eles, muitas vezes, acentuam a falta de autonomia dos filhos ao tentarem ajudá-los. O psicoterapeuta deve ensinar a criança a reconquistar sua autonomia fazendo-a compreender a importância disso e aceitar a ideia do fracasso. Paralelamente, ela deve ser acompanhada por um especialista em psicomotricidade, que corrigirá seus movimentos e a ensinará a distinguir o lado direito do esquerdo. O terapeuta construirá referências espaciais por meio de desenhos e jogos.

ARMADILHAS DA PRECOCIDADE

As crianças superdotadas ou precoces correm um sério risco de desenvolver uma falsa personalidade ou, na linguagem dos psiquiatras, um falso eu. Qual a origem do risco? Quando depende excessivamente dos pais, a criança realiza esforços desmedidos para não provocá-lo novamente. O psicoterapeuta e os pais deverão propor-lhe uma série de atividades, para que escolha sem constrangimentos e sem que os pais expressem opiniões. Mas será preciso evitar que mude frequentemente de atividade, algo que poderia desestabilizá-la.

Essas armadilhas não significam, entretanto, que crianças superdotadas sejam eternas vítimas de sua inteligência superior. Muitas delas experimentam um desenvolvimento motor e psicológico harmonioso. Podem ajudar os outros no plano afetivo, técnico, artístico, esportivo ou cientifico. O principal risco é que, desde a pré-escola, elas se entendem nas aulas. A solução de um problema matemático pode parecer-lhes tão evidente que elas se recusarão a fornecer a demonstração. É aconselhável, no período do maternal, passar a criança para uma classe mais adiantada. Mas talvez seja melhor alimentar as capacidades lúdicas da criança, suas aspirações culturais ou esportivas, estimulando-a a manter oculta das suas faculdades intelectuais, geralmente mais vivas. Um diagnóstico sistemático do estado psicológico das crianças deveria ser feito antes dos 6 anos, no primeiro trimestre do maternal e durante o primeiro e segundo anos do 1º grau. Infelizmente, os pais dessas crianças recusam­ se a submetê-las a tais testes, temendo que sejam vistas como diferentes das outras. Esses testes, contudo, são indispensáveis para dar todas as oportunidades às crianças dotadas de um dom de dois gumes.

OUTROS OLHARES

LIMPEZA COM AS PRÓPRIAS MÃOS

A demora e inabilidade do governo federal para tomar decisões fazem com que a população tenha apenas uma alternativa para limpar o óleo que impregnou as praias do Nordeste: fazer o trabalho por si mesma

Desaparelhado e sem interesse para combater as manchas de óleo que se acumulam há 50 dias no litoral nordestino, o governo federal não deixou alternativa para a população a não ser cuidar do trabalho de descontaminação com as próprias mãos. No Cabo de Santo Agostinho, litoral sul de Pernambuco, por exemplo, a limpeza das praias passou a ser feita, sem qualquer coordenação, pelos próprios moradores, algo desaconselhável por apresentar sérios riscos à saúde. Em outros pontos do litoral acontece o mesmo. O problema ocorre porque em abril deste ano o presidente Jair Bolsonaro deu fim a dois comitês que integravam o Plano Nacional de Contingência para Incidentes de Poluição por Óleo em Água (PNC), que deveria ficar responsável pelos esforços de despoluição. Sem um plano de ação, restou a ação de voluntários apoiados pelas prefeituras locais. Na semana passada, com grande atraso, o presidente em exercício, Hamilton Mourão, destacou mais de quatro mil homens do Exército para ajudarem na limpeza.

A situação das praias exige pressa. Além das consequências ambientais imensuráveis causadas pelo óleo, cuja origem ainda não foi esclarecida, há também um forte impacto social na região, que ainda está sendo contabilizado. Muita gente precisa do mar para seu sustento. Há pescadores e comerciantes que vivem das praias, tanto para abastecer restaurantes locais como para dar conta do contingente de turistas que as visita. Um relatório preliminar da Bahia Pesca, órgão que fomenta a atividade no estado, prevê problemas sociais graves nas comunidades de pescadores. “A mariscagem será diretamente afetada nesses locais, visto que, com a presença de óleo, a recomendação é evitar a pesca e a comércio desses organismos”, informa. A Secretaria de Turismo da Bahia informou que “a exposição deste desastre não é boa para nenhum estado do Nordeste” e que já recolheu mais de 230 toneladas do produto nas praias. No total, o governo contabiliza mais de mil toneladas removidas. Teme-se que a região perca muitos visitantes no próximo verão.

POUCAS RESPOSTAS

Ainda não há explicações para o acúmulo de sujeira nas praias. O Ministério Público Federal notificou o governo federal para que o PNC fosse colocado em ação imediatamente. O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, ativou o plano apenas em 11 de outubro, mais de 40 dias após o primeiro registro de mancha. Na terça 22, Salles visitou a região afetada. “É o momento de trabalhar, recolher o óleo e dar o destino necessário. Lá na frente iremos aprofundar as causas desse acidente”, disse. Ele estava acompanhado de membros do Exército, que se tornou uma espécie de “pau para toda obra” que o governo emprega em situações de emergência.

A chegada das forças militares para cuidar da limpeza gerou estranheza. Em algumas praias, os soldados tentaram impedir que os cidadãos participassem da descontaminação, talvez como uma medida protocolar apenas, mas que deixou a impressão de que “queriam aparecer”. Na noite do dia 23, Salles se contradisse quanto à intenção de descobrir as causas do acidente. Ele afirmou que fez uma solicitação formal para a Organização dos Estados Americanos (OEA) para que a Venezuela se “manifeste oficialmente” sobre o ocorrido. A estatal PDVSA já negou envolvimento com o desastre. Parece que a preocupação é encontrar culpados e não dar soluções. E, enquanto isso, quem suja as mãos é o povo nordestino.

O PECADO ECOLÓGICO

Deus criou o mundo e deixou os seres humanos com a responsabilidade de protegê-lo

O Sínodo da Amazônia, encontro de bispos que acontece no Vaticano para discutir a situação ambiental, social e a ação da Igreja na região da floresta, deve formular uma questão preocupante para os católicos que destroem a natureza: o pecado ecológico. O tema ganhou força nos debates internos e está relacionado com a teologia da criação, em especial com a ideia de que Deus criou o mundo e deixou os seres humanos com a responsabilidade de protegê-lo. Um relatório divulgado pelo Sínodo afirma que “foi prenunciada uma conversão ecológica que faça perceber a gravidade do pecado contra o meio ambiente como um pecado contra Deus, contra o próximo e as futuras gerações”. O documento final do encontro dos bispos foi apresentado para votação sexta-feira 25.

GESTÃO E CARREIRA

BURNOUT BUSCA PELA ALTA PERFORMANCE PROFISSIONAL PODE FAZER VOCÊ QUEIMAR

A Síndrome de Burnout foi incluída na nova Classificação Internacional de Doenças (CID-11) pela Organização Mundial de Saúde (OMS). A decisão da OMS ocorreu durante a assembleia mundial da organização deste ano, em Genebra, na Suíça, porém a inclusão oficialmente começa a valer em 2022. De acordo com dados divulgados pela Associação Nacional de Medicina do Trabalho, a partir de estudos da Associação Internacional de Manejo do Estresse (Isma), no Brasil 72% das pessoas sofrem com estresse no trabalho e entre eles 32% têm burnout, também chamada de Síndrome do Esgotamento Profissional. Ela foi assim denominada pelo psicanalista alemão Herbert J. Freudenberger no início dos anos 1970. Burnout é definida como resultante do estresse crônico no local de trabalho e é caracterizada por três dimensões:

Sentimentos de exaustão ou esgotamento de energia;

Aumento do distanciamento mental do próprio trabalho, ou sentimentos de negativismo ou cinismo relacionados ao próprio trabalho;

Redução da eficácia profissional.

Os sintomas são variados, porém sempre envolvem nervosismo, sofrimentos psicológicos e problemas físicos. Existem estágios da síndrome que podem, ou não, ocorrer conjuntamente e eles são identificados por 12 características:

1. Necessidade de aprovação;

2. Excesso de trabalho;

3. Deixar as necessidades pessoais de lado;

4. Transferir os conflitos, ignorando seus problemas ou se sentindo ameaçado, nervoso ou em pânico;

5. Distorção de valores: somente o trabalho importa;

6. Negar que problemas estão surgindo;

7. Distanciar-se da vida social e procura formas rápidas de aliviar o estresse;

8. Mudanças comportamentais;

9. Perda de personalidade;

10. Vazio interior e, para superar isso, começa a dar atenção a atividades ou mesmo vícios que podem prejudicar a si mesmo;

11. Depressão;

12. Síndrome de Burnout com colapso mental e físico, que precisa ser acompanhado por um especialista.

O tratamento pode contemplar três esferas:

TERAPIA

Não há uma linha especifica, o importante é tratar as emoções e traçar estratégias para a melhoria da saúde mental e física. Exercícios de relaxamento são ótimos para controlar os sintomas.

REMÉDIOS

Remédios somente se forem necessários e sempre com acompanhamento médico.

NOVOS HÁBITOS

Procure um profissional para auxiliar a repensar seus hábitos e construir novos, mais saudáveis.

Igualmente importante será desenvolver a Resiliência. A capacidade de se recuperar ou se adaptar às mudanças pode ser desenvolvida e estimulada para aumentar a tolerância ao estresse.

Entenda que o desejo continuo por alta performance, em ser sempre o melhor, a competitividade exacerbada, a constante preocupação em demonstrar alto grau de desempenho, tudo isso pode estar escondendo algo mais profundo, como uma baixa autoestima ou fuga de sua vida pessoal. Reflita sobre e procure ajuda de um profissional capacitado para lidar com transtornos emocionais.

É importante saber que a síndrome de burnout não tratada pode resultar em estado de depressão profunda.

TIRLEY ALFONSO – é Personal & Professional Coaching pela Sociedade Brasileira de Coaching, com cursos de especialização e pós-graduação em psicologia, neurolinguística e terapia emocional

ALIMENTO DIÁRIO

QUANDO O CÉU INVADE A TERRA

CAPÍTULO 17 – O AVIVAMENTO PRESENTE

O que Deus planejou para a Igreja, para a hora presente, é muito mais do que possamos imaginar e orar. Temos de ter a ajuda do Espírito Santo para aprendermos acerca destes mistérios da Igreja e do Reino de Deus. Sem Ele não temos uma percepção adequada até mesmo para saber o que pedir em oração

Entender o que está por acontecer é importante, mas isso não nos capacita a planejar e estabelecer uma estratégia de um modo bastante eficiente. Pelo contrário, é importante compreender as promessas e os propósitos de Deus para a Igreja para que fiquemos desapontados com a nossa situação, para que tenhamos um enorme anseio para que as coisas mudem. E a intercessão que sai de um desejo insaciável moverá o coração de Deus mais do que qualquer outra coisa.

O Avivamento não é para desfalecer o coração. Ele traz medo a quem se conforma com a situação presente por causa dos riscos que o Avivamento requer. Aquele que é temeroso normalmente trabalha contra o mover de Deus – às vezes para a sua própria morte – mesmo pen- sando que está servindo ao Senhor. O engano que é propagado é que as mudanças trazidas pelo Avivamento são contrárias à fé dos que nos antecederam. Em consequência, definha-se a capacidade divina de criar, que fica limitada à difícil tarefa de preservação do que se tem. Os que têm medo tornam-se como que administradores de museus, em vez de construtores do Reino de Deus.

Há, porém, os que estão prontos para assumir quaisquer riscos. A fé dos que os precederam é considerada um valioso fundamento sobre o qual se deve construir. Eles têm um vislumbre do que poderá acontecer e não se satisfarão com nada menos. Mudanças não são ameaças, mas sim uma aventura. As revelações aumentam, as ideias multiplicam- se, e o esforço nesse sentido tem seu início.

“Certamente, o SENHOR Deus não fará coisa alguma, sem primeiro revelar o Seu segredo aos Seus servos, os profetas.” As ações de Deus na terra começam com uma revelação aos homens. O profeta ouve e declara o que ouviu. Os que têm ouvidos para ouvir respondem e são capacitados para a mudança.

Para que entendamos quem somos e quem devemos nos tornar, temos de ver a Jesus como Ele é. Temos que ver a diferença que há entre o Jesus que caminhava pelas ruas curando os enfermos e ressuscitando os mortos, e o Jesus que hoje reina sobre tudo. Por mais gloriosa que a Sua vida tenha sido na terra, isso foi no tempo antes da Cruz. O Cristianismo é a vida no tempo depois da ressurreição, depois da Cruz.

Esta mudança de enfoque virá nestes últimos dias. E tem de ocorrer para que nos tornemos conforme o propósito de Cristo para nós.

A religião (que é uma “formalidade sem poder”) cada vez mais será desprezada no coração daqueles que verdadeiramente pertencem ao Senhor. A revelação cria um forte desejo por Ele. O Espírito não vem desprovido de adereços. Não há um Espírito Santo de “classe econômica”. Ele vem completamente equipado. Ele está cheio de recursos, cheio de poder e cheio de glória. E Ele quer ser visto em nós tal como Ele é.

UM CONCEITO MAIOR

O poder de uma só palavra da boca do Senhor pode criar uma galáxia. Suas promessas para a Igreja ultrapassam toda compreensão. Muitos as consideram como sendo a promessa de Deus para o milênio ou para o Céu. Dizem que, ao se enfatizar o plano de Deus para hoje, em vez de para a eternidade, isso é algo que desonra o fato de Jesus ter ido preparar-nos lugar. Nossa predisposição para com uma Igreja fraca nos tem cegado às verdades da Palavra de Deus a nosso respeito.

Este problema tem sua raiz em nossa descrença, não em nosso desejo ardente pelo Céu. Jesus ensinou-nos a viver, ao declarar: “O Reino de Deus está próximo!” E uma realidade presente, que influi no dia de hoje.

Falta-nos muita compreensão de quem somos porque temos pouca revelação de quem Ele é. Sabemos bastante acerca da Sua vida na terra. Os Evangelhos estão repletos de informações sobre como Ele era, sobre como vivia, e sobre o que fez. Mas tudo isso não é um modelo para a Igreja. O que Ele é hoje, glorificado, sentado à direita do Pai, esse é o modelo para nós, o modelo que temos de buscar!

Considere a afirmação inicial deste capítulo: O que Deus planejou para a Igreja, para a hora presente, é muito mais do que possamos imaginar e orar. Estas palavras fazem com que alguns tenham o receio de que a Igreja saia do equilíbrio. Muitos dizem que temos que ter cuidado com res- peito à ênfase que damos sobre o que devemos nos tomar aqui e agora. Por quê? Para uma grande maioria tal cuidado resulta do medo de serem desapontados. Esse medo tem justificado a descrença, Mas o que de pior poderia nos acontecer por simplesmente buscarmos o que estaria reservado para a eternidade? Deus poderia dizer: “Não!” Cometemos, do lado de cá da eternidade, um grande erro ao pensarmos que podemos dizer o que está reservado para nós no Céu.

Devido ao fato de muitos terem medo dos excessos, a mediocridade é assumida como sendo uma postura equilibrada. Esse medo faz da complacência uma virtude. E é o medo dos excessos que possibilita que os resistentes às mudanças pareçam ter uma postura nobre. Excessos nunca foram a causa do término de um Avivamento. William De Arteaga afirma: “O Grande Avivamento não se extinguiu por causa de seus extremismos. Extinguiu-se por causa da reprovação feita por seus oponentes.” Diz ele ainda que “Divisões ocorrem sempre que o intelecto é entronizado como medida de espiritualidade, e não porque os dons espirituais são exercidos, como muitos acusam.” Não dou a mínima atenção às advertências quanto a possíveis excessos, quando partem daqueles que estão satisfeitos com a falta do poder de Deus.

Esta presente geração é uma geração de pessoas que assumem riscos. E nem todos os riscos assumidos serão considerados como fé real. Alguns virão à luz como atos de tolice e de presunção. Mas mesmo assim tais riscos têm de ser assumidos. De que outro modo aprenderíamos, a não ser com nossos próprios erros? Dê espaço em sua vida para os que assumem riscos. Eles o inspirarão ao que de mais grandioso acha-se disponível no serviço a um Grande Deus.

Os pescadores locais de dura cerviz dizem: “Se você não enrosca o cordame de pesca de vez em quando na vegetação das margens do rio, é porque você não está pescando em profundidade adequada.” Conquanto eu não queira dar honra alguma à presunção e ao erro, o que realmente desejo é aplaudir a postura de um grande entusiasmo e de agir com grande esforço, que muitos têm. Nossa obsessão pela perfeição é que tem causado algumas de nossas maiores falhas. Quando eu ia ensinar meus filhos a andarem de bicicleta, eu os levava para um parque gramado, em que havia bastante grama. Por quê? Porque eu não queria que eles se machucassem quando caíssem. Não era se eles caíssem.

O apego à perfeição tem dado lugar a um espírito de religiosidade. Aqueles que se recusam a dar um passo a mais para serem usados por Deus tornam-se os que criticam aqueles que se dispõem a isso. Aqueles que se arriscam, que são os que fazem palpitar o coração de Deus, tornam-se o alvo dos que nunca erram, uma vez que normalmente se retraem.

COMO A IGREJA EM BREVE SERÁ GLORIOSA…

O que se segue é uma lista parcial do que está mencionado nas Escrituras sobre o que ainda está por cumprir-se na Igreja. Jesus quer que nos tornemos maduros antes da Sua volta. Cada uma destas passagens nos dá um vislumbre profético da vontade de Deus para conosco no dia de hoje.

SABEDORIA DE DEUS “…para que, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus se torne conhecida, agora, dos principados e potestades nos lugares celestiais, segundo o eterno propósito que estabeleceu em Cristo Jesus.” (Efésios 3:10-11)

A sabedoria tem que ser evidenciada por nós AGORA! Está bem claro que Deus pretende dar uma lição à esfera espiritual, com respeito à Sua sabedoria, através de nós.

Salomão foi o homem mais sábio que já existiu, além de Jesus, que é a Sabedoria personificada. A rainha de Sabá fez-lhe uma visita para conhecer de perto a sabedoria de Salomão. “Vendo, pois, a rainha de Sabá a sabedoria de Salomão e a casa que edificara, e a comida da sua mesa, o lugar dos seus oficiais, o serviço dos seus criados, e os trajes deles, seus copeiros, e os seus trajes, e o holocausto que oferecia na Casa do SENHOR, ficou como fora de si.” Ela reconheceu que a sabedoria dele era muito maior do que jamais havia imaginado. A extensão da sabedoria de Salomão foi identificada por três atributos: excelência, criatividade e integridade. Quando ela viu tudo isso com os próprios olhos, ela ficou fora de si!

A sabedoria de Deus será novamente vista pelo Seu povo. A Igreja, que atualmente tem sido desprezada ou, na melhor das hipóteses, ignorada, será novamente reverenciada e admirada. Ela novamente será exaltada na terra. Examinemos os três elementos da sabedoria de Salomão:

Excelência é o alto padrão para o que fazemos pelo fato de sermos quem somos. Deus é um Deus de abundância, mas não é esbanjador.

Um coração excelente diante de Deus pode parecer ser esbanjador para os de fora. Por exemplo: em Mateus 26:8 vemos Maria derramando em Jesus um unguento que custava o equivalente ao salário de um ano de trabalho. Os discípulos acharam que teria sido de muito mais valia se o unguento fosse vendido e o dinheiro dado aos pobres. Em 2 Samuel 6:14-16,23, o rei Davi humilhou-se perante o povo ao tirar suas vestes reais e dançar descontroladamente diante de Deus. Sua esposa, Mical, o desprezou por isso. Em consequência de seu desprezo ela não teve filhos até o dia da sua morte, seja por ter ficado estéril, seja por não manter relações com o seu marido, Davi. Foi uma trágica perda por causa do orgulho. Nas duas situações acima, os outros consideraram que as extravagantes ações desses adoradores eram um desperdício. Deus é bom. A excelência vem de se ter a visão a partir da perspectiva de Deus.

Ao buscarmos a excelência, tudo fazemos para glorificar a Deus, com todas as nossas forças. Um coração de excelência não dá espaço ao espírito de pobreza, que afeta muito do que fazemos.

Criatividade não se vê apenas na restauração das artes, mas é o que caracteriza o povo de Deus ao descobrir meios novos e melhores de fazer as coisas. É uma vergonha para a Igreja restringir-se à rotina do que é previsível, chamando a isso de tradição. Temos de revelar quem o nosso Pai é, fazendo isso através da criatividade.

A igreja erra muitas vezes por evitar a criatividade, em vista de que esta requer mudanças. A resistência à mudança é uma resistência à natureza de Deus. Por estarem soprando os ventos de mudança, é fácil distinguir aqueles que se acham satisfeitos dos que estão ávidos por coisas novas. Toda mudança traz à luz os segredos do coração. Esta Unção também produzirá novas invenções, descobertas na medicina e nas ciências, e novas ideias com respeito aos negócios e à educação. Novos sons musicais surgirão da Igreja, bem como outras formas de arte. A lista disso tudo é inumerável. O Céu é o limite. Disponha-se e crie!

Integridade é a expressão do carácter de Deus vista em nós. E este carácter é a santidade Dele. A santidade é a essência da natureza divina. Não é algo definido em função do que Ele faz, ou não faz. E o que Ele é. O mesmo se dá conosco. Somos santos porque a natureza de Deus está em nós. Ela começa com um coração separado para Deus, e manifesta-se através da natureza de Cristo que é vista em nós. Se mantivermos as mãos sujas da religião afastadas da bela expressão da santidade de Deus, as pessoas serão atraídas à Igreja, tal como eram atraídas a Jesus. A religião não é apenas algo maçante; ela é cruel. Ela sufoca todas as boas coisas. Já a verdadeira santidade é agradável e boa. A rainha de Sabá ficou de boca aberta diante da sabedoria de Salomão. Está na hora da sabedoria da Igreja fazer com que o mundo fique pasmado.

IGREJA GLORIOSA “…para a apresentar a Si mesmo igreja gloriosa.” (Efésios 5:27)

A intenção original de Deus para com a humanidade é vista na passagem: “Pois todos pecaram e carecem da glória de Deus.” Éramos para viver na glória de Deus. Este foi o Seu objetivo, ao criar o homem. Mas o nosso pecado fez com que esse alvo não fosse alcançado.

A glória de Deus é a manifestação da presença de Jesus. Imagine o seguinte: as pessoas estando permanentemente conscientes da Presença de Deus, não em teoria, mas tendo a real presença Dele em sua vida!

Seremos uma Igreja na qual Jesus será visto em Sua glória! É a presença do Espírito Santo e a Unção que dominarão a vida do cristão. A Igreja brilhará com uma forte luz. “A glória desta última casa será maior do que a da primeira.”

NOIVA SEM MANCHA E SEM RUGAS “Para a apresentar a Si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível.” (Efésios 5:27)

Imagine em sua mente uma jovem, preparada para o casamento. Ela cuidou de si mesma, com uma alimentação correta e fazendo os exercícios necessários. Ela é inteligente e encontra-se bem emocionalmente, sentindo-se confiante e bem à vontade. Ao olhar para ela, você não teria como saber se alguma vez ela fez algo de errado. Em seu semblante não há evidências de culpa nem de vergonha. Ela conhece a graça e a exala em todo o tempo. De acordo com Apocalipse 19:7, ela já se aprontou. É isso que o romance faz. Como Larry Randolph escreveu, “é uma perversão querer que o noivo vista a noiva para o casamento.” A Igreja é que tem que se aprontar. Tudo o que é necessário para o casamento está disponível. A Igreja tem agora que fazer uso disso tudo.

Esta é uma descrição da Noiva de Cristo. Quando vemos quão grande Deus é, não temos dúvida de que ele terá sucesso em fazer com que isso ocorra. Paulo afirmou à igreja de Corinto que ele não queria ir de novo estar com eles até que a obediência deles fosse total. Assim é o coração de Deus para com a Igreja. Desse modo Jesus, Aquele que é Perfeito, voltará para aquela que não tem manchas, assim que constatar que a nossa obediência é total.

UNIDADE DA FÉ “Até que todos cheguemos à unidade da fé. (Efésios 4:13)

Isso que se chama “unidade da fé” é a fé que atua pelo amor, conforme Gálatas 5:6 menciona. O amor e a fé são as duas virtudes básicas da vida cristã.

A fé provém da Palavra de Deus, especificamente de uma Palavra nova que é falada. A fé é o que agrada a Deus. Ela é uma vigorosa confiança Nele como Abba, Pai. Ele apenas é a fonte de tal fé. Ela vem em decorrência do Senhor falar ao Seu povo. Unidade de fé significa ou- virmos a Sua voz juntos, demonstrando grandes proezas. É um estilo de vida, não apenas um conceito, como em ter unidade em nossas ideias sobre a fé. As proezas do Avivamento presente e do próximo serão maiores que todos os feitos da Igreja em toda a sua história. Mais de um bilhão de almas serão salvas. Estádios ficarão repletos de gente durante 24 horas por dia, durante vários dias, com milagres ocorrendo em quantidade inumerável: curas, conversões, ressurreições de mortos e libertações sem limite. Sem um pregador especial, sem um grande obreiro de milagres, apenas a Igreja sendo o que Deus a chamou para ser. E tudo será o resultado da unidade da fé.

CONHECIMENTO DA REVELAÇÃO DO FILHO “Até que todos cheguemos à unidade da fé, e ao CONHECIMENTO DO FILHO DE DEUS.” (Efésios 4:13)

O apóstolo João uma vez inclinou sua cabeça no peito de Jesus. Ele era chamado de o discípulo amado por Jesus. Lá pelo fim de sua vida, quando se achava na ilha de Patmos, ele viu de novo Jesus. Agora Jesus tinha uma aparência totalmente diferente de quando estava naquela ceia. Seu cabelo era branco como a alva lã, Seus olhos eram como chama de fogo, e seus pés eram como bronze polido. Deus considerou que esta revelação precisava estar num livro. E esse livro é o Apocalipse, que é a Revelação de Jesus Cristo. Toda a Igreja receberá uma nova revelação de Jesus Cristo, principalmente através desse livro. O que foi tão misterioso será compreendido. E esta revelação lançará a Igreja num processo de transformação sem igual a qualquer experiência anterior. Por quê? Porque quanto mais o virmos, mais nos tornaremos iguais a Ele!

Se a revelação de Jesus Cristo é o ponto central do livro de Apocalipse, temos então que admitir que, consequentemente, a nossa adoração a Ele tem de ser a nossa principal resposta. O aumento que está por acontecer na revelação, cada vez maior, de Jesus, estará em novas dimensões de adoração, em experiências com todos diante do trono de Deus.

UM HOMEM PERFEITO “Até que todos cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, A HOMEM PERFEITO.” (Efésios 4:13)

Um atleta das olimpíadas jamais chegará a competir apenas por ter talento. Para isso é necessária a poderosa combinação de duas coisas: ter talento e dispor-se a desenvolver esse talento ao máximo possível por meio de uma severa disciplina. O versículo acima expressa uma figura da Igreja em seu processo de se tornar um homem perfeito. Está no singular, o que significa que todos nós temos que atuar como se fôssemos um. Todos os membros do Corpo de Cristo atuarão em perfeita coordenação e harmonia, completando cada um a função e os dons dos demais, agindo de acordo com as diretrizes dadas pela cabeça. Não se trata de uma promessa que se cumprirá na eternidade. Embora eu não creia que se refira a uma perfeição humana, creio que é uma maturidade em sua função, onde não há lugar para ciúmes, e que se desenvolverá à medida que a Presença de Deus tornar-se mais expressiva. Temos que aceitar que isto é possível porque foi o que Ele nos disse.

CHEIOS DE TODA A PLENITUDE DE DEUS “E conhecer o amor de Cristo, que excede todo o entendimento, para que sejais CHEIOS DE TODA A PLENITUDE DE DEUS.” (Efésios 3:19 – RC, SBTB)

Imagine uma casa com muitos quartos. Essa casa representa a nossa vida. Cada um dos quartos que permitimos que o amor de Deus toque fica cheio da Sua plenitude. Isso é uma ilustração do versículo acima. A Igreja conhecerá o amor de Deus por experiência. Isso vai além da nossa capacidade de compreender. Esse relacionamento íntimo de amor com Deus fará com que recebamos tudo que ele quis liberar, desde o princípio do tempo.

“Até que todos cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo.” (Efésios 4:13 NVI)

O amor de Deus sendo sentido, e havendo a consequente plenitude do Espírito, é o que é necessário para nos levar à medida da estatura completa de Cristo: Jesus será visto tal como Ele é pela Igreja, assim como o Pai foi visto por Jesus.

DONS DO ESPÍRITO PLENAMENTE EXPRESSOS “E nos últimos dias acontecerá, diz Deus, que do Meu Espírito derramarei sobre toda a carne; e os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, os vossos jovens terão visões, e os vossos velhos terão sonhos; e também do Meu Espírito derramarei sobre os Meus servos e as Minhas servas naqueles dias, e profetizarão.” (Atos 2:17-18 RC)

Essa passagem, que foi citada por Pedro de Joel 2, nunca foi completamente cumprida. Ela teve um cumprimento inicial em Atos 2, mas o seu alcance superava em muito o que aquela geração tinha condições de cumprir. Em primeiro lugar, toda a carne não foi envolvida naquele Avivamento. Mas isso ainda vai acontecer. No mover de Deus que está próximo as barreiras sociais serão quebradas, e também as econômicas, sexuais e de idade. O derramamento do Espírito na última geração tocará todas as nações da terra, liberando os dons do Espírito em plena medida, sobre e através do povo de Deus.

Em 1 Coríntios, nos capítulos 12 e 14, temos um maravilhoso ensino sobre a operação dos dons espirituais. Mas é muito mais do que isso. É uma revelação de um corpo de crentes que vivem na esfera do Espírito – o que é essencial para o ministério dos últimos dias. Essas “manifestações do Espírito Santo” os levarão às ruas da sua localidade. É lá que eles alcançarão todo o seu potencial.

Esta geração cumprirá o clamor de Moisés para serem profetas todos os que pertencem ao povo de Deus. Teremos a Unção de Elias no preparo do retorno do Senhor, do mesmo modo como João Batista no passado teve a Unção de Elias e preparou as pessoas para a chegada de Jesus.

OBRAS MAIORES “Em verdade, em verdade vos digo que aquele que crê em Mim fará também as obras que Eu faço, e outras maiores fará, porque Eu vou para junto do Pai.” (João 14:12)

A profecia de Jesus de que nós faríamos obras maiores do que as Dele tem estimulado a Igreja a procurar algum sentido abstrato a esta afirmação tão simples. Muitos teólogos querem honrar as obras de Jesus, dizendo que elas são inatingíveis; mas isso é religiosidade, gerada pela descrença. Ignorar o que Jesus prometeu, sob o disfarce de estar honrando a Sua obra na terra não é algo que agrade a Deus. A declaração de Jesus não é tão difícil assim de entender. “Maiores” significa exatamente isso: “maiores”. E as obras a que Ele se referiu são os Sinais e Maravilhas que realizou. Não será um desserviço a Ele que uma geração O obedeça, indo além do que ele realizou. Jesus demonstrou-nos o que pode fazer uma pessoa que tenha o Espírito sem medida, E o que milhões poderiam fazer? Esse foi o Seu ponto, e tornou-se uma profecia Sua.

Este versículo muitas vezes é explicado de um modo incorreto quando se diz que ele se refere à quantidade de obras, e não à sua qualidade. Como é evidente, milhões de pessoas por certo superariam em obras a quantidade limitada que Jesus realizou, por serem em número tão grande. Mas isso distorce a intenção da declaração de Jesus. A palavra maiores é MEIZON no grego. Ela é encontrada 45 vezes no Novo Testamento, sendo sempre empregada com o sentido comparativo de qualidade, e não de quantidade.

VENHA O TEU REINO “Venha o Teu reino; faça-se a Tua vontade, assim na terra como no Céu.” (Mateus 6:10)

Ele não é o Pai do tipo que nos dá uma ordem para que peçamos alguma coisa mas que, ao mesmo tempo, não está totalmente interessado em nos atender em nosso pedido. Ele nos instrui a fazermos esta oração porque está em Seu coração atendê-la totalmente. As orações mais seguras que podem ser feitas são aquelas que Ele nos diz para fazermos. Suas respostas serão além do que pedimos ou pensamos. E elas são conforme o Seu poder que opera em nós.

Jesus disse que voltaria depois que o Evangelho do Reino fosse pregado em todo o mundo – quando então viria o fim. O entendimento atual do que significa pregar o Evangelho do Reino é pregar uma mensagem que leve o maior número possível de pessoas a se converte- rem. Mas o que pregar o Evangelho do Reino significou para Jesus? Todas as vezes em que Ele pregou e agiu, milagres aconteceram. A mensagem era uma declaração do Seu senhorio e domínio sobre todas as coisas, acompanhada de demonstrações de poder, mostrando que o Seu mundo estava invadindo o nosso mundo através de Sinais e Maravilhas.

Considere o que a Sua promessa significa: haverá uma geração de crentes que pregarão como Ele pregou, e que farão o que ele fez, em todas as nações do mundo, antes da sua vinda! Esta é uma promessa e tanto!

A presente realidade do Reino se manifestará e se realizará na vida diária do crente. O mundo do Espírito invadirá o nosso mundo toda vez que um cristão orar com fé. O senhorio de Jesus será visível, e a generosidade do Seu governo será sentida por todos. Conquanto a plena expressão do Seu Reino possa ser reservada para a eternidade, jamais entrou na mente de nós, cristãos, o que Deus gostaria de fazer no tempo de agora. É hora de explorarmos esta possibilidade.

A IGREJA EXPLOSIVA

Não seria maravilhoso ter igrejas tão explosivas no sobrenatural que teríamos que descobrir maneiras de contê-las um pouco? Foi isso que Paulo teve que fazer com a igreja de Corinto. Suas instruções com respeito aos dons espirituais foram dadas a pessoas que os tinham em tamanha abundância que foi necessário pôr uma certa ordem nas coisas. “Tudo, porém, seja feito com decência e ordem”. Não podemos pôr em ordem o que não temos. Tudo tem que ser feito antes de se estabelecer uma estrutura para que tudo se tome mais eficiente. Ter ordem em lugar de poder é uma substituição muito pobre a se fazer. Mas quando se tem muito poder, é necessário ter uma boa ordem. Somente nessa situação é que a ordem dará uma contribuição ao exercício do poder pela Igreja.

AMANDO AS PESSOAS, NÃO AS IDEIAS QUE ELAS TÊM

Ao discutir o presente mover de Deus com um irmão que acredita que os dons já cessaram desde o primeiro século, ele me disse que eu estava em erro devido à minha busca de um Evangelho de poder. Disse-me ainda que todos os milagres tiveram fim com a morte do último dos doze apóstolos. Ele chegou ainda a afirmar que os milagres de cura, os testemunhos de famílias restauradas, o novo zelo pelas Escrituras e o desejo ardente de testemunhar o amor de Deus provavelmente seriam obras do diabo. Disse-lhe então que o diabo dele era grande demais, e que o Deus dele era muito pequeno.

Para sentir-se à vontade diante da situação atual, a Igreja tem criado doutrinas que pretendem justificar a sua fraqueza. Alguns chegaram até mesmo a fazer com que as deficiências parecessem ser pontos fortes. Essas são doutrinas de demônios! Por mais que eu honre e ame as pessoas que creem dessa forma, não sinto o mínimo desejo de honrar essas tolices sem sentido.

Estaremos entre os mais miseráveis se pensarmos que já alcançamos a plenitude do que Deus pretendeu para a Sua Igreja aqui na terra. Toda a história da Igreja constrói-se com revelações parciais. Tudo o que aconteceu na Igreja nos últimos 2.000 anos foi inferior ao que a Igreja primitiva teve, e que se perdeu. Cada mover de Deus tem sido seguido por um outro mover, apenas para restaurar o que foi perdido e esquecido. E nós ainda não chegamos ao padrão que ela tinha atingido, e muito menos o suplantamos. Entretanto, nem mesmo a Igreja primitiva cumpriu plenamente o plano divino para o povo de Deus. Este privilégio foi reservado para os derradeiros. E o nosso destino.

Por mais maravilhosas que sejam as nossas raízes, elas são insuficientes. O que foi bom para ontem não o é para hoje. Insistir que fiquemos com as coisas pelas quais nossos pais lutaram é insultá-los. Todos eles se arriscaram indo em busca de algo totalmente novo em Deus. Não é que tudo tenha que mudar para fluir em nós o que Deus esteja dizendo e fazendo. O fato é que presumimos serem corretas muitas coisas que presentemente estão ocorrendo. Isso nos impede de ver as revelações ainda contidas nas Escrituras. Na realidade, o que consideramos ser a vida cristã normal está muito aquém do que Deus está por fazer. Nossos odres têm de mudar. E bem pouco do que agora conhecemos como vida cristã é que permanecerá sem alterações dentro dos próximos dez anos.

ALCANÇANDO O MÁXIMO

Jamais entrou em nossa cabeça o que Deus tem preparado para nós no tempo em que estamos aqui na terra. O que Ele pretende é algo grandioso. Em vez de nos limitarmos pela nossa imaginação e pela nossa experiência, forcemo-nos a ter um desejo cada vez mais forte pelas coisas que ainda não vimos. À medida que buscarmos com total desprendimento Àquele que tudo faz com abundância, descobriremos que o nosso maior problema é a resistência que se encontra em nossa própria mente. Mas a fé é superior. E está na hora de fazer com que o Senhor não se preocupe mais quanto a se Ele encontrará, ou não, fé na terra.

O Reino está aqui, agora! Ore por ele, busque-o em primeiro lugar, e receba-o como uma criança. Ele está ao nosso alcance.

UMA LIÇÃO FINAL DADA POR UMA CRIANÇA

Numa recente reunião realizada na costa norte da Califórnia, adentramos no sobrenatural num nível fora do comum, especialmente por ter sido algo que ocorreu na América do Norte. Pessoas com surdez, cegueira, artrite e muitas outras enfermidades foram curadas através da graça salvadora de Deus. Houve de 40 a 50 curas naquela reunião com cerca de 200 participantes, quando Jesus mais uma vez demonstrou o Seu domínio sobre todas as coisas.

Um impressionante milagre aconteceu a um menino de três anos, que se chamava Chris, e que tinha os pés tortos. Ele tinha até ferimentos na parte superior de seus pés, por se esfregarem em suas tentativas de andar. Quando os irmãos foram liberados para orar pelos enfermos, vários da nossa equipe posicionaram-se em torno daquela criança. Deus imediatamente começou a tocar nele. Quando terminaram de orar, colocaram-no no chão, de pé. Pela primeira vez em sua vida seus pés se posicionaram direitinho sobre o piso! Ele arregalou os olhos, totalmente espantado com o que via em seus pés. Ele agachou- se e tocou nas feridas. Um de seus amiguinhos lhe disse: “Corra!”

De repente ele deu um pulo e correu num círculo, exclamando: “Eu posso correr!” Não é preciso nem dizer o quão grande foi a alegria de todos ali naquela noite.

Voltamos para casa e fomos ver o vídeo que tinha sido gravado na reunião. Vimos a gravação várias vezes. Ficamos tão entusiasmados com aquele milagre que levou um certo tempo para notarmos que Chris, naquela hora, estava tentando nos dizer alguma coisa. Minha es- posa, que na hora estava segurando a câmara, tinha lhe perguntado:

  • O que aconteceu com você? Olhando para a câmara, ele respondeu:
  • Jesus, grande! Jesus, grande!

Em nosso entusiasmo, inconscientemente mudamos de assunto e lhe perguntamos como estavam os seus pés. As pessoas que presenciaram o milagre nos deram os detalhes.

Mas quando vimos a gravação, ouvimos o testemunho do menino: “Jesus, grande! Jesus, grande!” De uma coisa estamos certos: de que ele teve um encontro com Jesus, que veio até ele e o curou.

CONCLUSÃO

Esta história, tal como todas as demais contidas neste livro, é sobre a bondade de Deus. É o testemunho de Jesus. O livro do Apocalipse revela este princípio: “O testemunho de Jesus é o espírito da profecia.” Um testemunho faz uma profecia sobre o que ainda é possível. Declara que um outro milagre agora é possível. Revela, a todos que queiram ver, a natureza de Deus e como é a Sua aliança conosco. O Senhor apenas espera por alguém que acrescente sua fé ao testemunho dado. Por não fazer discriminação de pessoas, Ele fará por você o que fez pelos outros. Por ser Ele o mesmo hoje, ontem e eternamente, o Seu desejo é fazer hoje o que Ele fez há tanto tempo.

Duas semanas depois do milagre que ocorreu em Chris, exibi para a nossa igreja o seu vídeo. Todos ficaram entusiasmados. No dia seguinte, dois de nossos jovens foram até um shopping center e viram uma senhora de certa idade que usava uma bengala. Quando eles perguntaram se poderiam orar por ela, a mulher não se mostrou interessada, até que ouviu a história de Chris. O testemunho dele foi uma profecia da bondade de Deus para ela, e ela desejou então ardentemente que orassem. Ao imporem mãos sobre ela, o tumor que havia no seu joelho desapareceu. Através de uma palavra de conhecimento, eles a informaram que Deus estava também curando as suas costas. Quando ela tocou nas costas, ela viu que o tumor – a respeito do qual ela não havia dito nada a eles – tinha desaparecido também!

Num outro domingo, ensinei sobre o poder do testemunho, e usei a história de Chris como ilustração. Havia uma família que nos visitava, vindo de Montana, e que tinha um problema semelhante. Sua filhinha tinha os pés virados para dentro num angulo de 45 graus, fazendo com que ela tropeçasse nos próprios pés quando corria. Quando sua mãe ouviu o testemunho de Jesus curando o menino de pés tortos, ela disse em seu coração: “Vou assumir isso para a minha filha!” Depois do culto ela foi buscar a filha em nossa sala de crianças e descobriu que os pés da menina estavam perfeitamente retos! O testemunho profetizou, a mãe acreditou, e sua filha foi curada. A invasão do Céu continua, e vai continuar, sem parar!

“Para que se aumente o Seu governo, e venha paz sem fim.” (Isaías 9:7)

“O reino do mundo se tornou de nosso Senhor e do Seu Cristo, e Ele reinará pelos séculos dos séculos.” (Apocalipse 11:15)

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DESCANSAR PARA NÃO ADOECER

É quase impossível evitar que as pressões do cotidiano causem problemas de saúde, muitas vezes graves; felizmente podemos diminuir os efeitos negativos, em vez de esperar por alguns dias de férias uma ou duas vezes por ano

Quase todo mundo vive esgotado. E, inevitavelmente, uma hora ou outra, as pessoas constatam o inevitável: as próprias energias estão se esgotando. O que parecia apenas sinal de cansaço muitas vezes se transforma em lapsos de memória e irritação. Nos casos graves de exaustão aparecem sintomas como enxaqueca, dor nas costas e no estômago (e em alguns casos até úlcera), queda acentuada de cabelos e síndrome do intestino irritável. Por trás do desconforto físico está aquela conhecida palavrinha: estresse. Muita gente, porém, ainda torce o nariz quando algum médico ou psicólogo cogita esse diagnóstico. Mas há um fato que não se pode negar: o esgotamento mental está associado a muitos problemas que atacam os órgãos ou regiões específicas do corpo.

Não é segredo que a natureza dotou nossos antepassados pré-históricos com uma ferramenta para ajudá-los a enfrentar ameaças: um sistema rápido de ativação capaz de aguçar a atenção, acelerar as batidas do coração, dilatar os vasos sanguíneos e preparar os músculos para lutar ou fugir de um predador que invadia a caverna. Porém, nós, os humanos modernos, estamos constantemente sujeitos ao estresse decorrente do estilo de vida contemporâneo: excesso de trabalho, barulho, pressão social, doenças físicas e desafios intelectuais. Como resultado, muitos órgãos de nosso corpo são atingidos por uma descarga implacável de sinais de alarme que podem danificá-los e nos fazer adoecer.

Apesar das mudanças no estilo de vida, nosso sistema cerebral ainda excita rapidamente o coração, os pulmões e outros órgãos, preparando-nos para enfrentar o perigo ou fugir dele. Afinal, hoje não são as feras que nos incomodam, mas o trânsito caótico, a sobrecarga de tarefas e informações, a rotina de trabalho, os desgovernos da política, o risco de violência e tantas outras ameaças. Isso sem falar no cansaço emocional inerente aos relacionamentos e nas autocobranças e inseguranças que nos desgastam tanto. Quando enfrentamos estressores da vida moderna, o sistema pode bombardear o corpo com sinais de alarme, capazes de comprometer nossa saúde.

Quando os sentidos como visão, audição, ou mesmo os pensamentos, indicam estresse, o hipotálamo inicia uma reação em cadeia, que envolve a amígdala e as glândulas pituitárias e adrenais, conduzida por impulsos nervosos e uma cascata de hormônios, entre eles o CRH, o ACHT e os glucocorticoides. Cientistas têm se esforçado para determinar exatamente quais células receptoras no cérebro e nas glândulas propagam os sinais de esgotamento, e poderão criar drogas específicas para interferir nesse processo, poupando os órgãos do esforço que o estresse provoca.

O sistema de resposta do organismo produz feedback positivo para fortalecer a própria ação do estresse quando necessário, mas, se situações de tensão ocorrem constantemente (não raro em várias ocasiões por dia), há um acúmulo que pode tornar-se perigosamente intenso. Apropriada ou não, a reação depende, em grande parte, das células que encobrem a glândula pituitária. O CRH envia sinais para essas células por meio de moléculas receptoras tipo 1 na membrana celular. Há alguns anos, os pesquisadores do Instituto Salk e do Instituto Max Planck de Psiquiatria em Munique criaram camundongos nos quais receptores tipo 1 estavam ausentes. Mesmo quando expostos várias vezes a situações estressantes, os níveis sanguíneos de certos hormônios do estresse desses animais nunca se elevaram acima do normal. Eles sentiam-se obviamente menos estressados. É possível que drogas capazes de suprimir os efeitos do CRH nesses receptores possam, também, reduzir os níveis de estresse.

Conhecimentos mais recentes acerca do funcionamento do cérebro oferecem fortes indícios de como a tensão pode nos fazer adoecer e como neutralizar seus efeitos. Seja para um roedor, seja para uma pessoa, qualquer ativação do sistema de estresse é um evento extraordinário – e no momento em que a emergência termina, o sistema deve ser rapidamente desligado, de modo que os órgãos afetados possam se recuperar. Contudo, quando circunstâncias externas estimulam o sistema de estresse repetidamente, ele nunca deixa de reagir, e os órgãos nunca conseguem relaxar. Tal tensão crônica torna muitos tecidos vulneráveis a danos.

LIMITE DELICADO

Mas nem toda reação é igual. Certo nível básico, chamado estresse positivo, é até desejável, porque nos mantém física e mentalmente prontos para agir bem. Porém, quando estamos em risco? Não há resposta consensual a essa pergunta. Não sabemos quanto barulho no ambiente de trabalho ou quantos relacionamentos rompidos nosso sistema de estresse pode suportar. Embora já não enfrentemos o animal faminto na caverna, podemos ter de nos defrontar com dilemas igualmente terríveis, envolvendo diversos estressores mais insidiosos que estão sempre nos agredindo. Então, o que fazer para diminuir a carga que pode nos prejudicar de forma tão grave?

Cada vez mais, psicólogos e médicos alertam para uma providência aparentemente simples, mas que pode fazer grande diferença para o bem-estar físico e mental: criar “brechas de prazer” na rotina, em vez de apenas aguardar, ansiosamente, pelas férias anuais. Ao praticar com frequência atividades prazerosas, de preferência que envolvam movimento ou relaxa- mento do corpo – como caminhadas, esporte, dança, meditação ou massagem –, criamos válvulas de escape para a tensão, ajudando o sistema cerebral a “descansar”. E assim ganhamos fôlego para aguardar as merecidas férias.

O CÉREBRO SOBRECARREGADO

Um conglomerado de neurônios no tronco encefálico, denominado locus ceruleus, coordena o “braço curto” do sistema de estresse ao longo de múltiplos caminhos neurais. Ele ativa o hipotálamo, que contata as fibras nervosas autônomas no tronco encefálico. Outros neurônios do locus ceruleus acionam diretamente as reações de estresse em órgãos e glândulas através das fibras autônomas que se estendem pelo corpo. Ao enviar seus alertas, o locus ceruleus obtém sinais emocionais da amígdala e da estria terminal, que alcançam também o hipotálamo. Ansiedade constante, medo ou agressão frequentes podem estimular os nervos interminavelmente, sobrecarregando o cérebro e o corpo.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

EFEITOS TERAPÊUTICOS DO RISO

Nada como uma boa crise de riso – dessas que deixam os olhos úmidos e a alma leve – para diminuir a tensão. Segundo o filósofo iluminista Immanuel Kant (1724-1804), apenas três coisas podem realmente fortalecer o homem contra as tribulações da vida: a esperança, o sono e o riso.

Encarar a vida com bom humor fortalece a mente e o corpo, tornando-nos mais aptos para enfrentar situações de crise; uma boa gargalhada causa relaxamento, com a liberação de endorfinas na corrente sanguínea.

De forma intuitiva, a maioria das pessoas concorda mesmo que rir pode fazer bem. E recentemente essa percepção está sendo cientificamente comprovada. Embora por muito tempo cientistas tenham enfrentado o desafio de estabelecer a relação entre diversão e saúde, várias descobertas encorajadoras recentes fazem com que psicólogos e médicos passem a considerar o senso de humor como proteção importante contra doenças físicas e psíquicas, além de, em muitos casos, ajudar a curá-las.

O RISO FAZ BEM PARA A SAÚDE

Na Antiguidade, Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.) já via no riso “um exercício corporal de grande valor para a saúde”. Esse reconhecimento geral ainda existe – ainda que os cientistas admitam não saber muito bem como esses benefícios ocorrem e seja difícil comprovar a relação entre diversão e saúde.

O principal empecilho para conhecer mais sobre o assunto é o fato de que as consequências mensuráveis da gargalhada, por exemplo, duram pouco mais que alguns segundos. Os efeitos agudos que se seguem ao riso assemelham-se a sua manifestação física – os músculos contraem-se, os batimentos cardíacos aceleram-se e aumentam a pressão sanguínea, a frequência respiratória e a conversão de oxigênio.

Há mais de 50 anos, testes psicológicos indicaram que o tônus muscular continua reduzido até 45 minutos após o riso. Ou seja: o corpo permanece relaxado. Sabe-se também que a concentração do hormônio do estresse, o cortisol, no sangue é reduzida quando as pessoas estão alegres. Como um nível sempre elevado de cortisol comprovadamente enfraquece a defesa imunológica, é possível considerar que a alegria protege contra doenças. A sensibilidade à dor também é reduzida.

Isso pode ser atribuído à liberação de endorfinas, que desencadeiam sentimentos de prazer no cérebro, bloqueando a transmissão de estímulos dolorosos. Mas pouco tempo depois tudo volta a ser como antes – pelo menos até que surja o próximo ataque de alegria. Mais recentemente, pesquisadores da Universidade de Osaka, no Japão, registraram valores reduzidos da mensageira cromogranina A (CgA) na saliva de pessoas que haviam visto um filme engraçado, em comparação com observadores de um vídeo neutro.

A CgA é liberada principalmente pela medula suprarrenal quando o sistema nervoso vegetativo entra em colapso. Ao que tudo indica, a divertida comédia antagonizou esse processo. Outros estudos, no entanto, não puderam comprovar a influência do riso sobre a reação hormonal ao estresse.

Um motivo possível da falta de conclusão é o fato de as formas de humor serem extremamente variadas – da leitura de um gibi ou audição de um gracejo, passando pela autoironia, sarcasmo, jogo de palavras, riso ou tiradas cômicas por embaraço, inveja ou malícia, até cenas ao estilo de o Gordo e o Magro. Estudiosos do humor, também chamados gelotólogos (do grego gelos – riso), diferenciam até 2.500 dessas expressões. Muitas delas realmente nos divertem ou provocam um leve sorriso, mas não é preciso necessariamente rir em voz alta

PIADA SEM GRAÇA

Por outro lado, nem todo riso implica humor. O psicólogo Robert Provine, da Universidade de Maryland, em Baltimore, Estados Unidos, descobriu que apenas uma em cada cinco das 20 risadas que um adulto dá, em média, em um dia, tem base humorística. A maior parte desses risos mudos e das risadas discretas transmite mensagens como concordância e simpatia, expressam empatia e identificação ou disfarça agressividade, irritação ou tédio e exclui outras pessoas.

Assim, em relação a efeitos medicinais, deve-se diferenciar mais detalhadamente o riso e o humor. Este último indica principalmente um desempenho mental, a capacidade de enxergar situações ou pessoas de formas bastante específicas. Consequentemente, vários pesquisadores buscam a chave para os benefícios da piada mais no pensamento do que nas reações psicológicas imediatas.

OUTROS OLHARES

OUTROS OLHARES

UM SÓBRIO RECUO

Em dez anos o consumo de álcool na Rússia caiu quase 40%, com relevantes mudanças de hábito – é um sucesso parcial que pode ser replicado no Brasil

Na Rússia, a vodca foi sempre uma religião, um regime político e um estado de espírito –   além de, ou especialmente, um problema de saúde pública. Em meados dos anos 2000, a expectativa de vida média dos russos era de apenas 60 anos, próxima à do Haiti, resultado atribuído, sobretudo, ao descontrolado consumo de álcool. Melhorou um pouco, hoje chega a 72 anos – dado estatístico espremido entre Bangladesh e Venezuela. No Brasil, vive-se até os 75 anos. Em Hong Kong e Japão, os líderes de sobrevivência, o pico final é de 84 anos.

O desfilado à base de cereais ultrapassava todas as barreiras ideológicas – o derradeiro czar, Nicolau II, vangloriava-se de encher a cara; Stalin escolhia seus mais próximos assessores depois de maratonas noturnas nas quais era proibido pousar os copos na mesa. Mikhail Gorbachev deu de aplicar a perestroika aos beberrões, movimento que acelerou o colapso do comunismo: em 1985, ele restringiu a venda de bebida alcoólica aos trabalhadores, que abandonavam as linhas de montagem com muita frequência e precocemente. Como os impostos sobre a vodca representavam um quarto de todo o Orçamento soviético, o resultado foi uma queda acelerada nas receitas do governo. O Kremlin tentou tapar buraco imprimindo mais dinheiro, atalho para a hiperinflação e a crise final dos filhos de Lênin. Veio o rosto vermelhão e inchado de Boris Ieltsin, e vachez doróvie, “à sua saúde”, quase uma contradição em termos.

Quem teria coragem de mexer com a vodca? O czar moderno Vladimir Putin teve – e, dizem as más línguas, ele não bebe. A novidade: um recente levantamento da Organização Mundial da Saúde (OMS) revelou o improvável: de 2005 a 2016, o consumo de álcool per capita caiu de 18,7 litros para 11,7 litros anuais, uma subtração de quase 40%. A diferença é do tamanho da ingestão alcoólica dos brasileiros, atualmente na casa dos 7,8 litros a cada doze meses. Mas, afinal de contas, qual foi o milagre? Políticas de governo destinadas a alterar os hábitos. A Rússia definiu um preço mínimo lá em cima para a vodca e outros destilados, como acontece com o cigarro no Brasil. Aumentou gradativamente o imposto sobre bebidas alcoólicas. Proibiu o consumo de álcool na rua e a venda entre as 23 e as 8 horas e determinou restrições de publicidade e propaganda. Deu certo, especialmente com a vodca – mas em grau menor com a cerveja e o vinho. Ressalve-se que até 2013 a cerveja nem era considerada bebida alcoólica na Rússia, condição que a fez popularíssima e, como consequência, perigosa.

O movimento russo, bem-sucedido, impõe uma indagação: funcionaria no Brasil? Em parte, sim, e há bons exemplos. A Lei Seca imposta aos motoristas a partir de 2008 evitou pelo menos 41.000 mortes no trânsito ao longo de dez anos, com queda de 15% no número de fatalidades. Numa boa repercussão paralela, o consumo per capita de bebida no cotidiano também caiu, 11%. “Em comparação com a Rússia, nossas iniciativas são menos robustas, mas igualmente positivas e definitivas”, diz o psiquiatra Arthur Guerra, presidente do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool. Para Pedro de Paula, diretor da Vital Strategies Brasil, organização privada de apoio a estruturas governamentais, “limitar a oferta e dificultar o acesso são iniciativas comprovadamente eficazes”. Sem dúvida, porém a atenção precisa ser permanente – houve, sim, queda no consumo contumaz de álcool no Brasil, mas nos últimos seis anos aumentou em assustadores 53% o hábito de beber pesado de maneira episódica, comum entre os jovens, notícia especialmente preocupante, que pede sobriedade.

GESTÃO E CARREIRA

A MODA DA ROUPA HI-TECH

Empresas do setor têxtil, como a Rhodia e a americana Ministry of Supply, aceleram o desenvolvimento de tecidos recicláveis, biodegradáveis e inteligentes, que não amassam e até controlam a temperatura do corpo. É o futuro da indústria fashion

Não deforma, não tem cheiro e não amassa – e a matéria-prima vem de resíduos industriais. O que antes era restrito aos astronautas e aos filmes de ficção científica começa a se tornar realidade no mundo real. Empresas do setor têxtil estão acelerando o desenvolvimento de materiais de última geração, que não amassam e são capazes até de regular a temperatura do corpo. Isso tem sido possível graças aos “blends”, tecidos que misturam fibras naturais com nanotecnologia. Um dos mais recentes exemplos é o lançamento da fibra Amni Dynamic, que combina fios de poliamida e algodão para secar duas vezes mais rápido do que as fibras sintéticas comuns, e o Amni Soul Cycle, feito a partir de matéria-prima reciclável e biodegradável. Com investimento de R$ 5 milhões e três anos de pesquisa pela Rhodia, do grupo Solvay, o segundo projeto foi costurado em parceria com a Lupo, uma das maiores empresas de “underware”.

O novo tecido promete fazer o fio enrugar menos quando usado no produto final, com o benefício de conter agentes antimicrobianos que afastam o mau cheiro. Além disso, o fio possui características que economizam água e energia no processo produtivo das malharias e tecelagens. “Os ganhos principais estão relacionados à sustentabilidade, tanto do ponto de vista da produção dos nossos clientes diretos, que ganharão mais produtividade em seu processo, com menor consumo de energia e outros insumos, quanto para os consumidores finais dos seus produtos, que terão um artigo têxtil criado com uma produção sustentável”, diz o CEO Renato Boaventura.

Além da Lupo, os fios hi-tech da Rhodia têm sido utilizados por malharias e tecelagens para fabricação de produtos “seamless” (peças sem costura) e meias. A nova poliamida (náilon) da Rhodia está praticamente em todos os segmentos da indústria do vestuário, segundo Boaventura: moda, lingerie e moda íntima, underwear, moda praia, esportiva, fitness, meias, uniformes escolares, acessórios, calçados e outras aplicações. A empresa afirma que marcas como Carmin, Fit e Le Lis Blanc já utilizam esses tecidos em larga escala. “Desde a ideia inicial até o fio ou fibra têxtil chegar às malharias e tecelagens, leva-se em média cerca de quatro anos”, completa Boaventura.

Assim como a Rhodia, a startup americana Ministry of Supply, do indiano Gihan Amarasiriwardena, aposta que o futuro da moda está diretamente relacionado à tecnologia. A empresa decidiu provar a capacidade das peças de sua grife, de modo que elas não sofressem alterações na forma e umidade em condições adversas. “Ainda que os tecidos puros sejam sinônimos de elegância, muitas vezes não resistem ao entra e sai das malas de viagens, reuniões, suor do dia a dia ou até mesmo à falta de um ferro a vapor”, diz Amarasiriwardena.

O empresário conseguiu desenvolver peças a partir de adaptações de tecnologias criadas pela Nasa para vestuário de astronautas. Foi da agência espacial americana que saiu a solução denominada PCMs (sigla em inglês para materiais de mudança de fase), inicialmente usados nas luvas de suas tripulações. Esses materiais respondem, por meio de um tratamento químico na fibra, tanto ao esfriamento quanto ao aquecimento do corpo.

A jogada de marketing do empresário aumentou as vendas das peças que se ajustam à temperatura do corpo, que são à prova de suor e amasso. Ex-aluno do Massachussetts Institute of Technology (MIT), ele teve seu nome registrado no famoso livro dos records, o Guinness Book, por ter concluído a meia maratona de Nova York, vestindo terno e gravata com seu tecido, dentro de 1 hora, 22 minutos e 15 segundos. Atualmente, a patente da inovação pertence à americana Outlast Technologies, que comprou os direitos sobre a pesquisa ainda nos anos 1980 e hoje revende a tecnologia para grandes marcas esportivas e de vestuário. Dados da Organização Mundial do Comércio mostram que o setor têxtil e de confecção mundial movimentou US$ 744 bilhões em 2018, com previsão de aumento para US$ 851 bilhões em 2020. O Brasil detém a quinta maior indústria têxtil do mundo.

ALIMENTO DIÁRIO

QUANDO O CÉU INVADE A TERRA

CAPÍTULO 16 – INFILTRADONOS NO SISTEMA

“A que é semelhante o reino de Deus, e a que o com pararei? É semelhante ao fermento que uma mulher tomou e escondeu em três medidas de farinha, até ficar tudo levedado.” (Lucas 13:20-21 – n v i)

Um dia preguei sobre esta passagem numa pequena conferência para pastores num país da Europa. O título da mensagem foi: “O Poder Infiltrativo do Reino de Deus “. De forma muito   semelhante à luz que faz com que as coisas sejam vistas, ou ao sal que preserva, o fermento influencia tudo o que está ao seu alcance de um modo sutil mas muito poderoso. Assim acontece com o reino de Deus. Falei então sobre algumas estratégias de ordem prática que tínhamos usado, como igreja, para infiltrarmo-nos com a causa de Cristo no sistema social de nossa região.

Tínhamos um rapaz em nossa igreja que estava enfrentando um processo no tribunal de justiça. Ele havia passado algum tempo em prisão, e corria o risco de receber uma sentença de 20 anos. Ele tinha cometido o crime antes de sua recente conversão. Tanto o juiz como o promotor público reconheceram que a vida daquele jovem havia se transformado por Deus. Mas queriam uma certa dose de justiça pelo crime praticado. Assim ele foi sentenciado a seis meses de prisão numa casa de prisão temporária. No domingo anterior à sua ida para aquela casa impusemos mãos sobre ele, enviando-o como nosso missionário a um campo para o qual nenhum de nós poderia ir. Como resultado dessa infiltração, mais de sessenta, dentre os 110 que estavam na prisão, confessaram Cristo no prazo de um ano.

Em seguida à minha mensagem aos pastores, vários líderes reuniram-se para discutir os conceitos que eu tinha apresentado. Eles saíram da sua reunião fechada e informaram-me de que eu estava incorrendo num erro. “O fermento sempre se refere ao pecado” – disseram eles -“e essa parábola mostra que a Igreja será totalmente contaminada pelo pecado e com a permissividade nos últimos dias.” Eles viam a parábola como uma advertência, não como uma promessa. Embora não queira desonrar meus irmãos, rejeito essa sua posição, pois ela nos desarma e nos desvia do verdadeiro desejo de Cristo: que tenhamos um grande triunfo. O erro que meus irmãos cometeram tem dois aspectos:

1. Eles confundiram a Igreja com o Reino. Não são a mesma coisa. A Igreja é para viver na esfera do domínio do rei, mas em si mesma não é o Reino. Se o pecado de fato contamina a Igreja, o Reino é a esfera que está sob o domínio pleno de Deus. O pecado não pode penetrar e afetar essa esfera.

2. Sua predisposição para ver uma Igreja fraca e em conflito nestes últimos dias tem dificultado que se veja a promessa de Deus de um avivamento. É impossível ter fé quando não se tem esperança. Tais formas de entender as Escrituras têm enfraquecido a Igreja.

É A NOSSA VEZ

Sem uma revelação sobre o que Deus pretende fazer com a Sua Igreja, não podemos mover-nos numa fé de conquistas, de vitórias. Quando o principal alvo da nossa fé é manter-nos em segurança em relação ao diabo, a nossa fé toma-se inferior ao que Deus pretendia. Jesus tinha em mente muito mais para nós do que um avivamento. Somos destinados à vitória.

Cada conversão despoja o inferno. Cada milagre destrói as obras do diabo. Todo encontro com Deus é uma invasão do Todo-Poderoso em nossa condição desesperadora. Esta é a nossa alegria.

A chama original do Pentecostes, o próprio Espírito Santo, queima em minha alma. Tenho uma promessa de Deus. Faço parte de um grupo de pessoas destinadas a obras maiores do que as realizadas por Jesus em seu ministério terreno. Por que é tão difícil ver a Igreja com uma significativa influência nos últimos dias? Foi Deus quem determinou que a noiva deveria ser sem manchas e sem rugas. Foi Deus quem declarou: “Eis que as trevas cobrem a terra, e a escuridão, os povos; mas sobre ti aparece resplendente o SENHOR, e a Sua glória se vê sobre ti.” Foi Deus quem chamou a nós, Sua Igreja, de vencedores.

A parábola do fermento é uma figura da influência sutil, mas arrasadora, do Reino em qualquer ambiente em que ele seja colocado. Nestes dias, Deus planejou colocar-nos nas situações mais tenebrosas, para demonstrar o Seu domínio.

Um joalheiro muitas vezes põe um diamante numa peça de fundo escuro. O brilho da pedra torna-se mais forte desse modo. Assim acontece com a Igreja. O ambiente escuro das circunstâncias mundanas torna-se o pano de fundo de onde Ele faz Sua gloriosa Igreja manifestar-se! “Onde abundou o pecado, superabundou a graça.”

Como exemplos do princípio de se infiltrar num sistema de trevas deste mundo, vamos considerar dois heróis do Antigo Testamento que têm uma revelação profética a dar para a Igreja vencedora dos dias de hoje.

DANIEL COMO FERMENTO

Daniel provavelmente estava com seus quinze anos quando se inicia a sua história. Ele foi tomado de sua família, fizeram dele um eunuco e o puseram no exílio a serviço do rei. Ele, ao lado de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, foram escolhidos por serem “jovens sem nenhum defeito, de boa aparência, instruídos em toda a sabedoria, doutos em ciência, versados no conhecimento competentes para assistirem no palácio do rei e lhes ensinasse a cultura e a língua dos caldeus”.

Daniel começou como um estagiário na corte de Nabucodonosor, mas posteriormente foi promovido a um conselheiro de reis do exterior. Ele tornou-se proeminente, dentre todos os outros, e veio a ser conselheiro do rei. Devido à excelência em seu serviço e em poder, o rei o considerou dez vezes melhor do que os outros sábios do reino.

Para melhor compreendermos o ambiente em que ele vivia, lembremo-nos de que Daniel agora fazia parte de um dos reinos mais demoníacos que jamais reinou sobre a terra. Ele foi profundamente inserido naquele sistema. Ele foi considerado um entre os magos, astrólogos e feiticeiros. Se bem que Deus o considerava um homem que Lhe pertencia, para o rei Daniel era apenas mais um de seus magos… pelo menos pensou isso por um certo tempo. Que. Que estranho grupo de pessoas com o qual se achar associado, especialmente se considerarmos que se tratava de Daniel, um profeta sem defeito. Sua disposição para não se corromper era fabulosa, estando entre os níveis mais elevados dos profetas a nos servir de exemplo.

A Babilônia era uma sociedade sofisticada, e que tinha suficientes diversões para fazer com que os hebreus ficassem em constante tensão entre a sua devoção a Deus e um doentio amor para com este mundo. Acrescentando-se a isso uma forte idolatria e a presença demoníaca que ela acarreta, temos uma terrível combinação que acabaria com a fé de qualquer cristão que não fosse muito firme, no dia de hoje. Daniel, ao contrário, era perfeito em sua adoração a Deus, e não fazia concessões no que se referia aos seus propósitos. Ele buscava a excelência em sua posição como fermento. Se você estava à procura de alguém com uma forte razão para ter amargura, você acaba de encontrar tal pessoa: Daniel. Ele foi retirado de sua família, transformado em eunuco, forçado a viver entre os ocultistas.

Ser uma grandeza diante de Deus é, muitas vezes, o outro lado de uma mesma moeda de injustiça e ofensa. Daniel conseguiu superar toda essa difícil situação, mas não por ser grandioso. Ele foi vitorioso devido à sua devoção Aquele que é grande!

O PODER DA SANTIDADE

Daniel descobriu bem cedo o poder que há na santidade. Ele não quis comer as delícias do rei. Sua separação para Deus é demonstrada pelo seu estilo de vida, e não pelas pessoas com quem se associava. Ele não tinha controle sobre o que o cercava. Isso muitas vezes acontece com a Igreja. Muitos na Igreja vivem do mesmo modo que os que estão no mundo, mas não se associarão com incrédulos para não se contaminarem.

Muitos crentes, porém, preferem trabalhar em negócios de cristãos, frequentam reuniões cristãs, e isolam-se das pessoas que são precisamente aquelas que deveriam ser atingidas por todos nós, em Seu nome. Isso é o que decorre logicamente da teologia de sobrevivência.

O Reino está na esfera do Espírito de Deus, demonstrando o Senhorio de Jesus. E é a vida que recebeu o poder do Espírito que atua como fermento num mundo em trevas.

O MAIOR DE TODOS OS DESAFIOS

O maior desafio veio para todos os sábios do rei ao lhes pedir não apenas para interpretarem um sonho que ele tinha tido, mas que também lhe dissessem e que ele tinha sonhado! Uma vez que eles não tiveram condições de atender ao rei, este ordenou que todos os sábios fossem mortos. Nesse processo, foram atrás de Daniel e seus amigos, para os matarem. Daniel pediu uma audiência com o rei. Ele acreditava que Deus lhe habilitaria a trazer a Palavra do Senhor. Antes de revelar ao rei o sonho e a sua interpretação, ele lhe ensinou uma virtude do reino de Deus que se chama humildade. Daniel afirmou: “A mim me foi revelado este mistério, não porque haja em mim mais sabedoria do que em todos os viventes, mas para que a interpretação se fizesse saber ao rei, e para que entendesses as cogitações da tua mente” Em outras palavras, não foi porque eu sou grande, ou por ter muitos talentos; é porque Deus quer que vivamos, e Ele quer que recebas esta mensagem. Então Daniel relatou o sonho e deu sua interpretação, na condição de servo.

Uma grande parte da teologia atual do Reino tem um enfoque principal em nós como dirigentes, no sentido de crentes tornarem-se presidentes de empresa e chefes de governo. E, até certo ponto, isso é correto. Mas o que nos cabe primordialmente, e sempre nos caberá, é servir. Se, ao servirmos, formos promovidos a posições de liderança, temos de nos lembrar que o que nos fez chegar lã nos manterá sendo úteis.

No Reino, o maior é o servo de todos. Faça uso de toda posição que ocupar para servir com maior poder.

UMA PROMOÇÃO DESAFIADA

Os quatro hebreus foram promovidos como resultado do dom profético de Daniel. Observemos que não há menção alguma de Daniel ter operado com esse dom antes daquela crise. Algo semelhante aconteceu com um evangelista amigo meu quando ainda jovem. Ele tinha sido convidado para falar numa igreja no Canadá. Quando ele saiu do avião, o pastor, ao encontrá-lo, com um olhar surpreso em sua face lhe disse: “Você não é Morris Cerullo!”

O pastor tinha uma grande ansiedade por ver Sinais e Maravilhas sendo restaurados em sua igreja, e pensou que tinha convidado Morris Cerullo para uma semana de conferências. O pastor, chocado ainda, perguntou àquele jovem se ele tinha um ministério de Sinais e Maravilhas. Ele respondeu que não. O pastor, olhando para o relógio, disse-lhe então: “Você tem quatro horas para conseguir esse ministério”. E levou-o em seguida para um hotel. Numa situação de desespero, o jovem pastor clamou a Deus, e Ele honrou o seu clamor. Aquela noite foi o começo de um ministério de Sinais e Maravilhas que marcou a sua vida até o dia de Algum tempo depois, o Faraó teve dois sonhos perturbadores. Então o copeiro lembrou-se do dom de José, que foi levado à presença do rei. Quando lhe pediram para interpretar o sonho do rei, José respondeu:

“Não está isso em mim”. Um coração assim humilde nos mantém em condições de sermos usados por Deus.

José interpretou os sonhos e então operou com o dom de sabedoria ao dar ao rei um conselho ao que fazer em seguida. O rei o honrou colocando-o como o segundo em comando sobre todo o império egípcio.

José fornece-nos também um dos maiores exemplos de perdão que há na Bíblia. Seus irmãos vieram até ele (não o sabendo), por causa da fome que grassava em sua terra. Quando por fim José revela quem ele é, demonstrando que seus sonhos haviam se cumprido, diz: “Agora, pois, não vos entristeçais, nem vos irriteis contra vós mesmos por me haverdes vendido para aqui; porque, para conservação da vida, Deus me enviou adiante de nós. Observemos que José não tinha esquecido o que lhe acontecera.

O preceito de que o certo é que temos que perdoar o que os outros fizeram contra nós pode causar-nos mais dano do que um bem. Pois uma simples repressão apenas esconde uma ferida, que permanece inconscientemente em estado latente, e que faz com que a ferida fique pior.

APRENDENDO DESSES EXEMPLOS

Para infiltrarmo-nos no sistema precisamos de pureza e de poder. Vemos pureza no carácter desses homens à medida que eles demonstraram lealdade e perdão, além da razão. O poder lhes foi liberado pelo uso de seus dons.

Para sermos eficazes como fermento no sistema babilónico, temos de repensar o nosso entendimento de todas essas questões. O povo de Deus tem de encontrar em si um coração para ver os outros terem sucesso. É muito fácil para todos nós desejar o bem para alguém que concorde com nossas crenças e instruções. E a condição de expressar lealdade e perdão a alguém, antes de estar salvo, pode ser a chave para se tocar em seu coração.

A integridade pessoal é a base para toda a vida e todo o ministério, e a nossa credibilidade fundamenta-se precisamente nisso. Podemos ter dons sem medida; mas se não formos dignos de confiança, o mundo não dará ouvidos à nossa mensagem. Integridade é santidade, e santidade é ser conforme a natureza de Deus. Submissão ao Espírito Santo é fundamental no que se refere à integridade.

INDO ÀS PRAÇAS

“Onde quer que ele entrasse nas aldeias, cidades ou campos, punham os enfermos nas praças, rogando-lhe que os deixasse tocar ao menos na orla da sua veste; e quantos a tocavam saíam curado”

O Evangelho que não opera nas praças não opera. Jesus invadiu todas as esferas da sociedade. Ele foi para os locais onde as pessoas se reuniam. Elas se tornaram o seu principal foco de atenção, e Ele o delas.

Há homens de negócios que usam os dons do Espírito para identificar as necessidades de seus colaboradores e de seus clientes. Um jovem de nossa igreja, que fazia parte da equipe de futebol do seu colégio, impôs as mãos sobre um jogador de destaque daquela equipe, que teve que sair do jogo por ter tido um sério problema na perna. Assim que ele foi curado, voltou para o jogo reconhecendo que Deus o havia curado!

Uma menina que sofria de diabete estava tendo um choque alérgico com a insulina. Um seu amigo, que era cristão, orou por ela quando estava a caminho da escola. Quando sua mãe foi pegá-la e a levou ao médico, constatou-se que ela não mais estava com diabete.

Uma outra menina de dez anos de idade pediu à sua mãe que a levasse até o shopping center de modo que ela pudesse encontrar-se com pessoas enfermas e orar por elas.

Alguns estudantes colocaram uma tabuleta em sua mesa na nossa lanchonete com as palavras: “Orações de Graça”. Muitos não apenas receberam uma oração, mas receberam uma palavra profética que os levou a uma consciência maior do amor de Deus.

Temos equipes que levam refeições quentes a hotéis da nossa região para alcançar os necessitados. Um proprietário de hotel nos cedeu uma sala por algum tempo para que tivéssemos um lugar para orar pelos seus muitos clientes que estavam enfermos.

Alguns têm invadido os bares, indo atrás de pessoas que precisam ser ministradas. Os dons do Espírito fluem poderosamente nesses ambientes. No ministério do meu irmão, senhoras idosas entram nos bares de San Francisco. Enquanto ele fica ao lado por uma questão de segurança, as mulheres sentam-se em torno de uma mesa, tomam um refrigerante e oram. Um a um, as pessoas vão à mesa delas solicitando orações. Muitas vezes essas pessoas ajoelham-se e choram ao descobrirem o amor de Deus por elas.

Os jardins de comunidades mais pobres têm a grama cortada, e sua limpeza é feita, enquanto outros fazem a faxina dentro das casas.

Alguns vão casa em casa pedindo para orar pelos doentes. Os milagres são normais.

Skateboarders são alcançados por outros skateboarders que levam eles a terem um encontro com o Deus de Poder. Se as pessoas estão lá, nós vamos lá.

Debaixo das pontes, entre os muitos carentes, nós procuramos pelo sem teto.

Nos ônibus, os mais carentes são levados para a igreja para um banquete. Nossas famílias Adotam uma mesa, deixando ela com sua melhor porcelana, cristal, e utensílios prata. Os mais quebrados de nossa comunidade são trazidos para a igreja para serem tratados como Tesouros do Céu. Eles são alimentados, vestidos, e ministrados por suas Necessidades físicas como espirituais. Jesus não gosta somente daqueles de condição inferior, mas Ele também ama os bem-sucedidos. Os ricos estão entre os mais carentes de nossas cidades.

Mas não devemos servir a eles por causa do seu dinheiro! Eles estão acostumados a serem abordados por aqueles que procuram sua amizade com fins interesseiros.

Os pais tornam-se conselheiros das ligas infantis da comunidade. Alguns dirigem programas realizados depois do encerramento das classes em nossas escolas públicas. Outros são voluntários em hospitais. Há também aqueles que recebem um treinamento para serem capelães nas delegacias de polícia e nas escolas secundárias da nossa cidade. Muitos fazem visitas aos seus vizinhos doentes e têm visto Deus realizar o que é impossível para os homens.

Para onde a vida o leva, leitor? Vá para lá na Unção do Espírito e veja que as coisas impossíveis se dobrarão ao nome de Jesus.

NO CORPO DE JURADOS COM O ESPÍRITO SANTO

Buck foi alguém que assumiu de fato a disposição de levar seus dons às praças. Então ele foi escolhido para ser jurado. Quando estava nessa condição, o Senhor disse-lhe: “A justiça tem que prevalecer.” Quando a parte pública do julgamento terminou, e o júri começou a deliberar, eles se dividiram com respeito a uma interpretação da lei. Buck abordou todas as questões envolvidas de um modo tão brilhante que os demais pensaram que ele era formado em direito. Ele usou aquela oportunidade para dar o seu testemunho. No passado ele tinha sido um estudante dedicado ao estudo da ciência, mas sua mente foi afetada por uma vida viciada em drogas. Jesus curou a sua mente quando ele memorizava as Escrituras. Seu testemunho ganhou o coração de alguns dos jurados, mas afastou o de outros.

Quando chegou a hora de decidirem o veredicto, eles estavam ainda divididos. Assim as deliberações foram interrompidas para serem retomadas no dia seguinte. O ponto de discórdia era o conceito de criminoso. O réu enquadrava-se em seis das sete qualificações necessárias para ser considerado culpado. A sétima era questionável. Então Buck levou, no dia seguinte, uma rosa num vaso. Todos pensaram que se tratava de um gesto de simpatia. Ele deixou que os demais se debates- sem por algum tempo, quando então lhes perguntou:

__ Vocês veem todas as partes desta rosa?

__ Sim, responderam eles, vemos tudo menos os espinhos. Então ele perguntou:

__ E ainda uma rosa, apesar de não ter espinhos?

__ Sim! – responderam. Ao que ele completou:

__ Assim, esse homem é um criminoso!

Eles entenderam a mensagem. O dom de sabedoria estava ope- rando, mesmo que eles não se dessem conta disso. Agora, todos, exceto dois deles, concordaram que o réu era culpado. O júri ainda estava sem uma definição. Quando o juiz perguntou aos jurados se eles estavam em condições de entrar em acordo, todos disseram que não, exceto Buck. Em seu coração estavam as palavras: “a justiça tem que prevalecer”. O juiz deu então aos jurados mais trinta minutos para que superassem o seu desacordo. Assim que eles entraram na sala para deliberarem, a palavra do Senhor veio a Buck. Ele dirigiu-se a um dos dois jurados que estavam em contrário à maioria e lhe disse:

__ Você diz que ele é inocente porque… e então expôs um pecado secreto da vida dele.

Em seguida Buck voltou-se para o outro e agiu de igual forma.

Ambos olharam, um para o outro, e disseram:

__ Bem, eu mudo o meu voto se você também mudar o seu! Buck primeiramente trouxe o dom de sabedoria para as deliberações. Isso trouxe uma clareza que beneficiou até mesmo os incrédulos. Então ele fez uso de uma palavra de conhecimento, e disse algo que ele não teria como saber através do mundo natural, ao expor o pecado de duas pessoas que tinham rejeitado a ação de Deus. Por fim a vontade de Deus prevaleceu naquela situação: justiça!

Estar envolvido com o sobrenatural através de dons espirituais é o que faz com que a invasão seja eficaz. O Reino de Deus é um reino de poder! Temos de buscar uma demonstração mais plena do Espírito de Deus. Ore bastante e assuma riscos. O maior exemplo dessa invasão é Jesus. Nele, o sobrenatural invadiu o natural. A visão, definida pelos sonhos de Deus, nos capacita a ter uma coragem imperecível. Este é o tema de nosso próximo capítulo, que é o capítulo final.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A PÍLULA DO ESQUECIMENTO

Admirável e feliz mundo novo: O psiquiatra Roger Pitman está pesquisando um medicamento capaz de remover o pavor associado às lembranças ruins

A pílula do esquecimewnto

Kathleen L. está esperando há horas. Pálida e perturbada, aguarda no pronto­ socorro do Hospital Geral de Masachusetts, em Boston, depois de ser atropelada por um ciclista. Quando uma enfermeira enfim lhe pergunta sobre seu estado, Kathleen explica aquele que é seu grande receio: os arranhões não a incomodam tanto, mas ela teme que o acidente deixe cicatrizes psíquicas – como oito anos antes, quando escapou por pouco de um estupro. Desde então, a lembrança a persegue em pesadelos. A enfermeira sugere que ela participe de um estudo-piloto com uma substância que talvez possa poupá-la de novos estados de angústia.

A auxiliar de advocacia de 29 anos assina uma carta de anuência. Com isso, passa a integrar o grupo de voluntários que participam da investigação do psiquiatra Roger Pitman. O pesquisador da Universidade de Harvard busca há anos uma maneira de ajudar pessoas que, em decorrência de acontecimentos traumáticos, sofrem por um período de tempo demasiado longo. Seus pacientes sobreviveram a acidentes graves, enfermidades críticas, catástrofes naturais, guerras ou mesmo tortura. Estima-se que 25% dessas pessoas desenvolvam o chamado transtorno de stress pós-traumático (TSPT). Seu dia a dia assemelha-se a uma caminhada por campo minado. Às vezes, bastam acontecimentos aparentemente triviais para desencadear uma torrente de lembranças ameaçadoras.

Kathleen sabe o que significa jamais se libertar de uma experiência ruim. Num escritório de advocacia no centro de Boston, ela conta sua história. Somente a muito custo conseguiu superar a tentativa de estupro de que foi vítima. Uma noite, quando estava parada num sinal vermelho, um dependente de drogas invadiu seu carro. Ele a obrigou a dirigir até uma região afastada, e lá, lentou violenta-la. Defendendo-se desesperadamente, acabou por afugentá-lo. Depois disso, Kathleen não conseguiu dormir direito durante meses. Sempre que precisava parar num sinal vermelho, entrava em pânico. Por dois anos, fez psicoterapia, para aprender a dominar o próprio medo, passo a passo. Mas, ainda hoje, ao contar o incidente, sua voz treme e ela evita os olhos do interlocutor.

Roger Pitman quer impedir essas manifestações decorrentes do trauma por intermédio de uma medicação voltada especificamente para isso. Uma substância especial – o betabloqueador propranolol, também empregado em tratamento cardíaco – bloquearia a atuação de determinados hormônios do stress e impediria, assim, que a experiência vivida fincasse raízes profundas na memória. Em seu pequeno laboratório de testes, o pesquisador explica que curso tomou seu experimento, que causou sensação. Depois de recrutados no pronto-socorro, os 40 voluntários tomaram uma pílula azul durante três semanas: metade recebeu propranolol, a outra, um placebo. Três meses depois, Pitman pediu que ouvissem uma gravação – um breve relato sobre suas experiências traumáticas. Ao mesmo tempo que ouviam a gravação, eletrodos fixados nas têmporas, no rosto e nos braços mediam os indicadores clássicos do stress: batimento cardíaco, formação de suor e tensão muscular.

 

MECANISMOS DA MEMÓRIA

Kathleen ouviu de novo a história de seu acidente. Ela acreditava estar no grupo que havia recebido placebo, uma vez que não notara nenhuma modificação significativa nas semanas seguintes ao acidente: “Eu achava que teria de sentir alguma forma de cansaço”. Mas os aparelhos de medição não registraram nela nenhum sinal de stress, nem nos demais voluntários que haviam tomado a pílula. Dormiam tranquilos, mostravam-se serenos e raras vezes pensavam em sua experiência fatídica. Muito diferente do que ocorreu no grupo de controle, em que quase a metade deles apresentou sintomas de stress. “Ao que parece, o propranolol ajuda no combate às lembranças traumáticas”, constata Pitman.

Esses resultados confirmam uma vez mais o papel central que as emoções desempenham no ato de lembrar. Nos anos 90, uma equipe de pesquisadores em tomo do psicólogo James L. McCaugh, da Universidade da Califórnia, em Irvine, Estados Unidos, constatou que as pessoas se lembram muito melhor de uma história dramática que de uma descrição prosaica de acontecimentos cotidianos.

O medo e o pavor cimentam um acontecimento na memória. Por isso é que a maioria das pessoas ainda se lembra de onde estava e o que fazia em 11 de setembro de 2001, quando recebeu a notícia dos atentados às torres gêmeas em Nova York. Papel fundamental desempenha aí a adrenalina, o hormônio do stress que as glândulas supra- renais secretam em abundância em momentos de agitação. Adrenalina adicional eleva o desempenho da memória – essa é a conclusão a que conduziram já há alguns anos experiências com ratos. Quando, porém, McCaugh bloqueou com propranolol os receptores de adrenalina dos animais, o efeito potencializador do aprendizado exercido pelo hormônio de stress não se manifestou.

Enquanto isso, aumentam as comprovações científicas de que a adrenalina ativa de forma indireta a amígdala. Essa estrutura cerebral do sistema límbico, por sua vez, dota as experiências que vivemos de um selo emocional, fincando-as, assim, de modo ainda mais firme na memória.

À primeira vista, essa observação não pareceu ser de grande valia aos estudiosos dos traumas. Talvez, refletiu Pitman, as lembranças traumáticas se aferram com tanta força à memória porque são ali revividas constantemente nos dias que se seguem ao acontecimento. A cada novo jorro de adrenalina, a experiência se finca cada vez mais. Poderia valer a pena intervir nessa fase com uma substância ativa. Seu raciocínio parece correto. Além de seu próprio trabalho, um estudo do psiquiatra francês Guillaume Vaiva do hospital universitário de Lille, na França, comprovou o efeito do propranolol no tratamento de traumas.

Contudo, para aquelas pessoas que já estão sofrendo de transtorno de stress pós-traumático, é tarde demais para a pílula contra o medo – o horror já marcou a fogo seu cérebro. Pitman depara com casos assim todos os dias, sobretudo de veteranos do Vietnã. Alguns têm alucinações, outros entram em pânico diante de pessoas ou de terrenos que não podem divisar com clareza. Na sua cabeça, a guerra nunca acabou. Também essas pessoas podem alcançar o controle sobre seus sentimentos. É certo que o assustador não pode ser esquecido, mas é possível perder o medo – uma meta perseguida pela psicoterapia.

É de supor que, nisso, os médicos poderão algum dia auxiliar com medicamentos. Há dois anos, Mohammed R. Milad, da Faculdade de Medicina de Ponce, em Porto Rico, demonstrou como ratos podem aprender a superar o medo. Ele os submeteu a um experimento que reproduz um estado psíquico comparável ao do transtorno de stress pós-traumático. A um sinal sonoro, fazia suceder sempre um eletrochoque. Passado algum tempo, apenas o sinal os amedrontava: eles reagiam de modo semelhante a uma pessoa que, ao ouvir determinado ruído, recorda uma experiência terrível e entra em pânico.

Então, o pesquisador parou de aplicar os eletrochoques após os sinais. E constatou que, naqueles ratos que haviam superado o medo com mais rapidez, uma determinada região do cérebro apresentava especial atividade. Era a área na qual os neuropsicólogos situam a mais alta instância da consciência dos animais: o prosencéfalo. Nos ratos com traumas renitentes, Milad verificou aí pouca atividade. Se, no entanto, estimulava a região cerebral em questão por intermédio de eletrodos, também eles superavam seu medo. “O medo não desaparece, mas os ratos aprendem a controlá-lo”, explica. Agora, ele quer testar esse mecanismo nos seres humanos. Talvez possa liberá-los de seus traumas estimulando com medicamentos as regiões cerebrais correspondentes.

O pesquisador Beat Lutz, do Instituto Max Planck de Psiquiatria, em Munique, Alemanha, segue estratégia bem diferente com camundongos. Ele busca reprimir a recuperação de lembranças negativas já armazenadas. Como os cientistas sabem, atuam aí os chamados endocanabinóides, substâncias semelhantes droga proveniente do cânhamo, a maconha. Dois anos atrás, Lutz e seu grupo publicaram um estudo sobre camundongos que tinham aprendido a associar um sinal sonoro a uma descarga elétrica. Cessando os eletrochoques, a lembrança aprendida logo se desvanecia. Os roedores sem receptores para endocanabinóides não se libertaram de seu medo, assim como tampouco aqueles animais nos quais os pesquisadores bloquearam o receptor para esse neurotransmissor. A conclusão que se obtém invertendo o raciocínio é a de que os neurotransmissores facilitam o esquecimento de fatos desagradáveis. Tem-se também aí, portanto, um canal promissor de intervenção para medicamentos que auxiliem a apagar da memória as lembranças traumáticas.

A pílula do esquecimento abre possibilidades imprevistas, facilitando em muito a superação não apenas de um acidente de um estupro ou de uma catástrofe, mas até mesmo do combate numa frente de batalha. É por essa razão que aumentam as críticas a ela. Num relatório intitulado “Além da terapia”, Leon Kass – presidente do conselho de bioética de George W. Bush – adverte que o gerenciamento medicamentoso da memória vai acarretar mudanças à sociedade, “Quem assiste a um assassinato deveria guardá-lo na memória como algo terrível quem age de forma repugnante deve sofrer as consequências psíquicas de seu ato”. Para Kass, existe um “dever de se lembrar”, pois somente quem vivencia emocionalmente algo ruim é capaz de se solidarizar com os outros em situações de dificuldade. Assim, mesmo aqueles que viveram o horror puro do Holocausto teriam cumprido, como testemunhas oculares, uma importante tarefa para a comunidade.

Pitman reage indignado a essa objeção, “Considero fora de propósito manter o sofrimento dos indivíduos em prol da comunidade. Dia sim, dia não, deparo com vítimas do transtorno de stress pós-traumático. Não vejo nada de ruim em querer ajuda-las”. Kathleen L concorda: “Queria ter tido um remédio como esse para tomar, oito anos atrás”.

 

DO CHOQUE AO STRESS PÓS-TRAUMÁTICO

Os sintomas são sempre os mesmos: homens traumatizados continuam revivendo o acontecimento terrível em pesadelos ou flashbacks, embora evitem tudo o que possa lembrá-los do que viveram. Por isso mesmo, parecem insensíveis e embrutecidos. O acontecido incomoda a vítima de tal forma que ela mal consegue se concentrar e apresenta lacunas na memória. Além disso, é atormentada por angustiantes sentimentos de culpa. Estados mentais assim tornaram- se mais do que familiares aos médicos após as matanças ocorridas durante a Primeira Guerra Mundial. Com o auxílio das mais grosseiras terapias -como banhos de água gelada ou choques elétricos, por exemplo, – eles tentaram ajudar os milhares de soldados que sofriam do chamado “choque da granada”. A situação não melhorou muito ao longo da Segunda Guerra Mundial. Soldados com distúrbios psíquicos eram despachados para hospitais psiquiátricos civis e, assim, potencialmente entregues à eutanásia. Tampouco os soldados americanos das guerras da Coréia e do Vietnã tiveram facilidade para encontrar reconhecimento médico para seu sofrimento. Muitas vezes, dizia-se que os veteranos apenas simulavam distúrbios para receber apoio estatal. Mas não são apenas as experiências de guerra que provocam tais distúrbios: duros golpes do destino sobre a vida dos indivíduos, tais como assaltos ou estupros, também deflagram os sintomas típicos daquilo que, desde a década de 89, foi agrupado sob o conceito de “transtorno de stress pós-traumático”.

OUTROS OLHARES

CRIPTO TRAMBIQUE

Tradicionais golpes de pirâmides financeiras se modernizam e usam rostos famosos e moedas como bitcoin para escapar da regulamentação e fraudar investidores

Criptotrambique

Fonte de inspiração de milhões de fãs, Ronaldinho Gaúcho tenta repetir no mundo dos negócios os olés que dava em campo. Em uma dessas iniciativas empresariais, o Bruxo, como ficou conhecido na Espanha por causa de seu futebol mágico, tornou-se parceiro de uma empresa chamada 18K Ronaldinho, especializada em fornecer opções de aplicações financeiras que prometem lucros astronômicos. Com um aporte mínimo de 30 dólares, seria possível até quadruplicar o valor em 200 dias. Os depósitos, sempre em bitcoins, garantem ao investidor o direito de virar representante de vendas da marca de relógios 18K Ronaldinho, feitos na China. Essa estranha mistura de negócios é definida pelos responsáveis como “marketing multinível”. No entanto, o toque mágico do craque parece não ter sido suficiente e a empresa, há um mês, não tem liberado o acesso às bitcoins e sua comercialização, mesmo em contratos de investimento já encerrados. Os investidores lesados denunciaram a companhia à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e ao Ministério Público de São Paulo (MP-SP).

Todos os indícios sugerem que a 18K Ronaldinho é na verdade uma versão mais elaborada e tecnológica das antigas pirâmides financeiras baseadas no chamado Esquema Ponzi. Tais   golpes em inúmeras variações recebem o nome de seu criador, o italiano Carlo Ponzi. No esquema, o lucro dos primeiros investidores é pago pelos que chegam depois até o fluxo de entrada bater num teto incompatível com a remuneração de todos os investidores. Quando isso acontece, a pirâmide desaba. Com o estratagema, Ponzi passou para a história como um dos maiores estelionatários do século XX e desde então, fraudes como essas são consideradas crime financeiro. Ronaldinho nega ter conhecimento de qualquer esquema irregular do negócio de propriedade do empresário Manuel Lira. Segundo seu representante, Sérgio Queiroz o jogador assinou contrato com a marca de relógios 18K Watches, e o acordo não dizia nada a respeito de investimentos em criptomoedas. Entretanto, é possível encontrar na internet um vídeo no qual R10 promove a empresa 18K Ronaldinho. “Conto com você para fazer a maior empresa multinível do mundo. Vem pra tribo 18K Ronaldinho”, diz ele na gravação. Arrolado como testemunha no inquérito, Ronaldinho foi chamado para explicar seu envolvimento no negócio. Os procuradores paulistas agora devem ouvir os sócios da empresa, baseados no Rio de Janeiro.

O que chama atenção nas novas pirâmides é o uso das criptomoedas, divisas virtuais criadas para facilitar as transações na internet. As operações irregulares, de maneira geral, utilizam um modelo em que empresas com um volume muito grande de bitcoins negociam em diversas corretoras mundo afora. Como a bitcoin tem cotação variável, as companhias se valem de aplicações em locais onde o valor é mais vantajoso – o que só acontece pelo fato de as criptomoedas serem descentralizadas, sem um banco central para determinar sua cotação. O problema é que se trata de uma operação de altíssimo risco e que acarreta movimentações imprevisíveis, em que corridas aos saques são frequentes. Para piorar os investidores têm pouca informação sobre por onde seus ativos circulam e não costumam declarar seus ganhos à Receita Federal, por isso não há meios para recuperar eventuais desvios. “Um cuidado básico para quem quiser se arriscar nesse negócio é procurar plataformas que deem transparência às transações, afirma Caio Ramalho, pesquisador do assunto na FGV.

Todo negócio que envolve dinheiro virtual tem um risco intrínseco, como comprova a brutal queda no preço da bitcoin ocorrida em 2018, quando a cotação da moeda caiu para um terço do seu valor original – passou de 20.000 pra 6.000 dólares (hoje está em 8.000 dólares). É natural que tal ambiente seja propício a investidores que não se importam em burlar os limites da legalidade em busca de ganhos vultosos – para eles, trata-se apenas de entender em que degrau do esquema da pirâmide estarão. E, neste caso, os desdobramentos podem ser imprevisíveis. Em um episódio investigado pela polícia paulista, um empresário que perdeu o equivalente a 4 milhões de reais em uma operação foi preso sob a acusação de encomendar o sequestro do dono de uma corretora que intermediou a aplicação de seu dinheiro.

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Situações como essa são exceção em um universo em que parcela considerável dos participantes é formada por investidores pouco experientes atraídos pela aparência de seriedade dos operadores. Nesse sentido, a publicidade é crucial para garantir o verniz de respeitabilidade. A Atlas Quantum, cujas operações foram interrompidas em agosto, deixando um rombo estimado em 100 milhões de reais, valia-se dos atores Cauã Reymond e Tatá Werneck como garotos-propaganda em inserções veiculadas na TV com promessas de ganho de 60% sobre os investimentos. Foram justamente os anúncios que chamaram a atenção dos peritos da CVM. Eles determinaram imediatamente a interrupção da propaganda. O órgão entendeu que a operação divulgada pela Atlas era uma oferta pública de contratos de investimentos coletivos CIC), o que exige uma autorização do órgão.

A notícia caiu como uma bomba entre os cotistas, que iniciaram uma corrida para sacar seus recursos. Uma empresa saudável teria condições de honrar os compromissos. Não era o caso. Segundo um ex-diretor o dono da Atlas, Rodrigo Marques mantinha contas em corretoras de criptomoedas no exterior para investir os ativos dos clientes em seu próprio nome, e não conseguiu sacar os recursos por regra contra lavagem de dinheiro. Por meio de nota, a companhia confirma que adotava a prática no passado, mas que agora a Atlas apenas trabalha com contas institucionais. O fato é que mais de 1.200 bitcoins desapareceram: uma soma de 40 milhões de reais. O empresário carioca Sérgio Peçanha Ferreira Jr. tinha 40 bitcoins na Atlas o equivalente a 1.3 milhão de reais. ‘Comecei com pouco 1 bitcoin, mas os ganhos me levaram a renovar a aposta. Com a perda que tive, nem consigo mais dormir’, diz ele. A Atlas prometeu restabelecer os saques a partir de 21 de outubro. As assessorias de Cauã e de Tatá afirmam que os artistas firmaram contrato comercial e que, à época, não havia nada que desabonasse a empresa.

Também escorado em figuras públicas, o Grupo Bitcoin Banco, de propriedade de Claudio Oliveira cresceu a reboque de uma ofensiva de marketing e acabou deixando um rombo de 70 milhões de reais para os investidores. Para impulsionar seu negócio, Oliveira comprou um espaço no programa de Amaury Jr., na RedeTV! aos sábados, e se aproximou do apresentador Ratinho, do SBT. Ambos eram convidados a conferências e jantares para elogiar o empresário, que se vendia como um milionário com negócios e propriedades na   Europa. Em seu programa, Amaury falava sobre sua conta aberta no grupo e em eventos Ratinho discursava sobre a personalidade vencedora de Oliveira. ‘É desagradável”, diz Amaury. “A pessoa me vê falando bem do cara e toma um calote. Suspendemos o acordo desde que a fraude estourou”, justifica. O contrato publicitário com a Rede TV!, de cerca de 500 mil reais, nunca foi pago. “Ele fechou um acordo no qual promete nos pagar em doze parcelas”, conta Amaury. Ratinho diz que foi levado aos encontros por um amigo. “Fui a dois eventos, um no Hotel Unique e o outro em um jantar no Figueira Rubaiyat, ambos em São Paulo”, recorda. Para mim era um dos muitos que usam a imagem de alguém famoso”, argumenta. O Grupo Bitcoin ruiu quando Oliveira fez denúncia de que uma suposta fraude nos sistemas da empresa provocara a perda de 50 milhões de reais. Esse seria o motivo, segundo ele, da falta de liquidez que impediu a retirada de recursos por parte dos clientes. Investigado pela Justiça Federal no Paraná, Oliveira está com seu passaporte retido. Para quem perdeu dinheiro as notícias não são boas. “As chances de reaver os investimentos em criptomoedas é remota. Depois de a pirâmide quebrar, torna-se difícil localizar bens da entidade fraudulenta”, afirma Paulo Brancher, do escritório Mattos Filho. A lição que fica é que, seja no mundo analógico, seja no mundo virtual, a promessa de lucro é sempre proporcional aos riscos de perda.

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GESTÃO E CARREIRA

ESCULPINDO TALENTOS

 O que aprendemos com Michelangelo sobre liderança

Esculpindo talentos

“Eu apenas tirei da pedra de mármore tudo que não era o Davi!”

Essa foi a resposta atribuída a Michelangelo Buonarroti, que tinha 28 anos de idade, quando indagado por ninguém menos que Leonardo Da Vinci, já venerado como um sábio das artes, aos 51 anos, em torno de 1503. O questionamento teria surgido no suposto diálogo sobre como conseguira esculpir com perfeição os 5,17 metros do monumental Davi. A obra de arte emociona até hoje quem se aproxima dela, na Academia de Belas Artes de Florença, na Itália.

Afinal, era sabido que aquele enorme bloco de mármore, com mais de cinco toneladas, estava abandonado durante quase quatro décadas nos fundos da Catedral de Santa Maria del Fiore, conhecida como o Duomo de Florença, após frustradas tentativas feitas por alguns escultores, incluindo dois dos mais respeitados da época: Agostino di Duccio e Antonio Rosselino. Ambos desistiram do trabalho após infrutíferos anos de lapidação da pedra.

Menos de dois anos depois de ser comissionado, com apenas 26 anos, para realizar a tarefa, Michelangelo apresentou ao mundo a emblemática escultura do Davi, no dia 24 de junho de 1503. Além de grandiosa, a obra tem profundo significado emocional, pois simboliza a vitória da inteligência, astúcia, coragem e intuição sobre a força bruta do gigante Golias.

Baseado nessa metáfora, Michelangelo não esculpia o mármore, mas libertava um ser que estava aprisionado no interior da rocha. Tenho perguntado com frequência aos dirigentes de inúmeras empresas qual o legado que pretendem deixar nas suas trajetórias profissionais. Isto porque um dos maiores desafios da Liderança é a identificação e o desenvolvimento de pessoas e equipes. A formação de sucessores tornou-se um lamentável “calcanhar de Aquiles” de muitos líderes. Sabemos que a grande maioria das empresas não sobrevive ao desaparecimento dos seus fundadores.

Esse percalço advém de uma forma equivocada de pensar e praticar a Liderança. Precisamos mudar nosso modelo mental e passar a entender que o líder eficaz é quem forma outros líderes e não apenas seguidores. Os líderes competentes e inspiradores são os que possuem gente em torno de si e não atrás de si.

Porém, a identificação de talentos não é tarefa simples. Exige um genuíno interesse em desenvolvê-los, ajudando a remover os obstáculos e encorajando a libertarem-se das pedras que os aprisionam. Enfim, um dos papéis mais importantes dos líderes é o de investir fortemente na formação de outros líderes e eventuais sucessores. Esse movimento requer muita coragem, perspicácia, determinação, perseverança e altruísmo, além do “toque artístico” de inspirar os outros por meio do exemplo.

O desenvolvimento de uma pessoa pode acontecer de várias formas, desde cursos e educação formal, passando por terapia, mentoria, convivência com amigos, relacionamento social, apetite pelo autodesenvolvimento, experiências no cotidiano e iniciativas além das salas de aula, entre outros fatores. Entretanto, nada substitui a “pedagogia da relação líder-liderado”, seja no ambiente de trabalho, em casa, na escola, no clube ou na comunidade. A relação líder-liderado é a alavanca fundamental para a formação de novos líderes. Todos os outros aspectos complementam a força dessa relação.

Por essas razões, leitor, finalizo com a pergunta que não quer calar: qual Davi você está esculpindo ou qual Monalisa você está pintando? Seja no trabalho, em casa e na comunidade a qual você pertence e atua, qual a “obra de arte” que você pretende deixar como legado?

 

CÉSAR SOUZAé fundador e presidente do Grupo Empreenda, palestrante
e autor do recém-publicado “Seja o Líder que o Momento Exige”

ALIMENTO DIÁRIO

QUANDO O CÉU INVADE A TERRA

Quando o Céu invade a Terra

CAPÍTULO 15 – COMO PERDER UM AVIVAMENTO

O avivamento está bem no centro da mensagem do Reino, pois é num avivamento que vemos com maior clareza como é que Deus exerce o Seu domínio, e como isso afeta a sociedade. Um avivamento, melhor expresso, é a vinda do Reino. De certo modo o avivamento nos mostra como deve ser a vida cristã normal.

 

Antes da chegada do Messias, os líderes religiosos tinham orado e ensinado a respeito da Sua vinda. Havia uma certa agitação, em escala mundial, até mesmo na sociedade secular, diante da perspectiva de que alguma coisa maravilhosa estava por acontecer. Foi então que, numa manjedoura em Belém, Jesus nasceu.

Os magos, que observavam as estrelas, sabiam quem Ele era, e viajaram uma longa distância para adorá-Lo e dar-Lhe presentes. O diabo também sabia disso, e fez com que Herodes matasse os primogênitos, numa tentativa de abortar o plano de redenção da humanidade por Jesus. Não tendo sucesso, nisso, o diabo quis seduzir Jesus ao pecado, no deserto. O que é ainda mais surpreendente é que a presença de Deus entre os homens foi percebida pelos endemoninhados. Assim aconteceu com o geraseno. Quando ele viu a Jesus, caiu aos pés do Senhor em adoração, e logo depois foi liberto da sua vida de tormentos. Não obstante, os líderes religiosos, que tinham orado pela Sua vinda, não O reconheceram quando Ele veio.

Paulo e Silas pregaram o evangelho por toda a Ásia Menor. Os líderes religiosos disseram que eles eram do diabo. Uma moça, porém, que era adivinha e endemoninhada, disse que eles eram de Deus. Como pôde acontecer que aqueles que supostamente estavam cegos espiritualmente tenham tido condições de ver, e aqueles que eram conhecidos por sua sabedoria não tenham reconhecido o que Deus estava fazendo?

A história está repleta de pessoas que oraram para uma visitação de Deus, mas não a reconheceram quando ela veio. E isso aconteceu até mesmo com alguns que tinham um grande relacionamento com Deus.

 

UMA CEGUEIRA DIFERENTE

Muitos crentes têm um tipo de cegueira que o mundo não tem. O mundo sabe qual é a sua necessidade. Mas os cristãos, uma vez tendo nascido de novo, gradualmente vão deixando de reconhecer a sua necessidade. Algo ocorre, quando alguém está desesperado pela presença de Deus, que o faz com que reconheça se algo provém de Deus, ou não. Jesus falou sobre isso, ao dizer: “Eu vim a este mundo para juízo, a fim de que os que não vem vejam, e os que veem se tornem cegos.

O testemunho da história e o registro das Escrituras nos advertem quanto à possibilidade desse erro. “Aquele, pois, que pensa estar em pé veja que não caia.” Mateus diz que é porque “o coração deste povo está endurecido”. O endurecimento do coração foi decorrente de que o povo, tendo tido uma experiência com Deus, não se manteve no que Deus estava fazendo. Nosso coração não está endurecido quando reconhecemos a nossa necessidade e com muito ardor buscamos a Jesus. Esse primeiro amor de algum modo nos mantém em segurança, no centro das atividades de Deus na terra.

A igreja de Éfeso recebeu uma carta de Deus. Nela Jesus referiu-se ao fato de que tinham deixado o seu primeiro amor. O primeiro amor é apaixonado por natureza, e domina todos os demais aspectos da vida. Se eles não corrigissem essa situação, Deus disse que moveria o candeeiro deles do lugar. Embora não haja acordo entre os teólogos sobre o que seja esse candelabro, uma coisa é certa: um candeeiro tem lâmpadas que nos permitem ver. Sem ele a igreja de Éfeso perderia a capacidade de ver. A dureza, ou cegueira, mencionada acima não é do tipo daquelas que levam ao inferno. Essa dureza simplesmente nos impede de alcançarmos a plenitude do que Deus havia planejado para nós, enquanto aqui na terra. Quando a paixão morre, a lâmpada da visão acaba sendo removida.

 

PERMANECENDO NO CAMINHO

Este fenômeno tem sido visto na história da Igreja. Aqueles que rejeitam um mover de Deus geralmente são aqueles que foram os últimos a experimentar um avivamento anterior. Isso não vale para todos, pois sempre há aqueles cujo ardor por receber mais de Deus cada vez aumenta mais, com o passar dos anos. Mas são muitos os que admitem terem chegado, não à perfeição, mas ao ponto pretendido por Deus. Eles pagaram um preço para experimentar o mover de Deus.

Eles questionam: “Por que Deus faria algo novo, sem mostrar primeiro para nós?” Deus é um Deus de novidades. Quando desejamos mais Dele, isso requer de nós que assumamos as mudanças causadas pelas suas novidades. A paixão por Deus nos mantém renovados e nos capacita a reconhecer a mão de Deus, mesmo quando outros estão rejeitando o que está acontecendo. O mover presente de Deus requer isso de nós. O medo do engano é totalmente eliminado pela confiança de que Deus tem condições de nos manter em pé, sem cair.

Sou grato a muitos cristãos bem maduros que consideram este presente mover de Deus uma dádiva do céu. Muitos historiadores da Igreja declararam que este avivamento é genuíno. Viram que ele produz o mesmo fruto, e geram o mesmo entusiasmo na Igreja, tal como aconteceu em avivamentos anteriores. Tem sido um encorajamento ouvir vários teólogos afirmarem que este avivamento é um genuíno mover de Deus. Contudo, não é a aprovação deles que procuro.

Toda vez que grandes líderes da Igreja levantam-se para declarar que este é um avivamento, fico encorajado. Isso aconteceu em minha própria denominação. Mas nem mesmo isso me interessa tanto quanto a verdadeira marca de Deus num avivamento. Em Sua sabedoria, Ele criou as coisas de tal maneira que, quando Ele está se movendo, quem normalmente primeiro observa isso é o mundo. Eu procuro, por exemplo, a reação dos endemoninhados. E também quero ouvir os viciados em drogas, os ex- criminosos e as prostitutas. Quando Deus se move num avivamento de poder, essas pessoas o observam, mas não ficam criticando, e sim como estando em grande necessidade de Deus. E temos ouvido o que muitos deles falam. Eles estão sendo transformados, e dizem: “Somente Deus poderia ter feito esta transformação em minha vida. Isso é de Deus!”

Estando numa situação de grande necessidade é o que dá condições a uma pessoa para detectar quando Deus está fazendo alguma coisa nova. Essa situação de grande necessidade não precisa ser necessariamente ser um viciado em drogas, ou uma prostituta. Todo cristão deve manter um coração ansioso por receber mais de Deus. Estamos em grande necessidade! Jesus referiu-se a isso com as seguintes palavras: “Bem­ aventurados os humildes de espírito, porque deles é o Reino dos céus.”  A condição de se manter humilde de espírito, combinada com a de se ter a paixão do primeiro amor por Jesus são as chaves criadas por Deus para nos manter firmes no centro da Sua obra.

 

COMO OS SANTOS DEIXAM DE PERCEBER O MOVER DE DEUS

Andrew Murray é um dos grandes santos de Deus do início do século vinte. Foi conhecido como um grande mestre, que tinha uma paixão pela oração. Seus clamores por um avivamento eram fabulosos. Quando visitou o país de Gales para conhecer o avivamento de 1904, ele foi tocado pela impressionante presença de Deus. Mas ele deixou o país de Gales com o pensamento de que, se permanecesse ali, mesmo não intencionalmente ele contaminaria a pureza da obra que Deus estava fazendo. Ele não participou do avivamento pelo qual havia orado tanto.

Um mover de Deus geralmente vem com um estigma, algo que não é nada convidativo e que é considerado até mesmo repugnante por alguns. Línguas estranhas foram o estigma do século vinte que muitos não tiveram condições de suportar. G. Campbell Morgan, um grande homem de Deus e expositor da Bíblia, rejeitou o Avivamento Pentecostal, chamando-o de “o último vômito do inferno!” Suportar reprovações é, com frequência, um requisito para se permanecer num avivamento.

 

SUPORTANDO A REPREENSÃO DO SENHOR

Maria recebeu a anunciação mais surpreendente que jamais foi dada a alguém. Ela daria à luz a criança que seria o Messias. Ela havia sido escolhida por Deus para essa missão, e o anjo chamou-lhe de “favorecida; o Senhor é contigo”.

Essa condição de favorecida começou com a visitação do anjo. Foi uma experiência atemorizante! Ela recebeu uma palavra que era incompreensível e impossível de se explicar. Depois do choque inicial, ela ficou com o dever de ter que relatar tudo isso a José, aquele que seria o seu esposo. Sua reação, diante dessa notícia, foi que ele “resolveu deixá­la secretamente”. Em outras palavras, ele não acreditou que aquilo era de Deus, e achou melhor não prosseguir com os planos que tinha de se casar com ela. Afinal de contas, que capítulo e versículo das Escrituras diz que Deus se manifesta desse modo perante seu povo? Isso nunca havia acontecido antes. Não há precedente bíblico de uma virgem dar à luz um filho. Não bastasse esse óbvio conflito com José, Maria teria ainda que suportar o estigma de ser a mãe de um filho “ilegítimo” durante toda a sua vida. Um favor segundo a perspectiva de Deus nem sempre é muito agradável sob o nosso ponto de vista.

Tal como Maria, aqueles que passam por um avivamento têm um encontro com Deus que vai além da razão. Poucas são as vezes em que temos uma compreensão imediata sobre o que Deus está fazendo e por quê. Às vezes nossos amigos mais queridos nos abandonam, declarando que o mover em que estamos é do diabo. E ainda ocorre que somos considerados como um elemento estranho pelo restante do Corpo de Cristo. A disposição para suportarmos a rep ovação de nossos irmãos e irmãs faz parte do custo que temos que pagar para o mover do Espírito. “Por isso, foi que também Jesus sofreu fora da porta. Saiamos, pois, a ele, fora do arraial, levando o seu vitupério.” O avivamento geralmente nos leva para fora do arraial – da comunidade religiosa. E muitas vezes é fora do arraial que Ele está!

Estar com um estigma não é uma garantia de que estamos passando por um verdadeiro mover de Deus. Algumas pessoas podem sofrer uma repreensão por causa de uma heresia, ou impureza, ou legalismo. E a tensão decorrente de sermos confundidos com tais situações é que toma o verdadeiro estigma muito mais difícil de suportar. Daniel passou por esse conflito interior. Ele permaneceu fiel ao seu chamado, apesar de ser considerado apenas mais um dos magos da Babilônia, pelo rei e por sua corte.

 

O CÉU AGORA, OU O CÉU AQUI

Como foi dito, quando se extingue o Espírito, isso se torna provavelmente a causa mais frequente do fim de um avivamento, em relação a todas as outras possíveis causas. Até mesmo aqueles que abraçaram o mover de Deus muitas vezes chegam a um ponto em que a sua zona de conforto estendeu-se até um ponto em que não dá mais para aguentarem. Então passam a procurar um lugar para se situarem, um lugar em que possam ter compreensão e exercer o controle.

A segunda maior razão para o fim de um avivamento é quando a Igreja começa a esperar a volta do Senhor em vez de dedicar-se a buscar um maior irrompimento nas linhas do inimigo no desempenho da Grande Comissão. Tal postura não é incentivada nas Escrituras. Ela transforma a bendita esperança num bendito escape. Querer que Jesus volte agora é o mesmo que sentenciar bilhões de pessoas ao inferno por toda a eternidade. Não é que não devamos ansiar pelo céu. Paulo disse que essa esperança é um conforto para o cristão. Mas querer o fim de todas as coisas é pronunciar um juízo sobre toda a humanidade que está fora da Igreja. Até mesmo Paulo não quis voltar a Corinto até que a obediência deles fosse total. Será que Jesus, Aquele que pagou o preço por todo pecado, está ansioso para voltar sem que a grande colheita final tenha ocorrido? Creio que não. Desejar que a Igreja esteja no céu agora é de fato a contrafação de se buscar primeiramente o reino. Há uma diferença entre clamar pelo céu agora, e clamar pelo céu aqui! Se um avivamento nos levar para o fim de nossos sonhos, será que isso significa que alcançamos o fim dos sonhos do Senhor? Um avivamento tem de ir para um ponto muito além de tudo o que possamos imaginar. Se ficar aquém, ficou sem cumprir todo o seu propósito.

Muitos avivalistas tiveram irrompimentos tão significativos nas linhas inimigas que tiveram visões de que a vinda do Senhor estava próxima. E eles falharam em sua missão, recebida de Deus, de habilitar a Igreja para fazer o que eles haviam recebido do Senhor. Em consequência, eles alcançaram multidões, em vez de nações e gerações. Temos de planejar como se tivéssemos uma vida inteira para viver, mas trabalhar e orar como se tivéssemos bem pouco tempo à nossa frente.

 

ENCONTROS FECHADOS

Os discípulos, que estavam acostumados a ver Jesus surpreendendo-os a toda hora, viram-se ainda numa outra situação totalmente fora do comum: tiveram que esperar pelo cumprimento da promessa do Pai – fosse isso o que fosse. Os dez dias que passaram juntos sem dúvida lhes deu uma oportunidade para expressar seu pesar por terem discutido quem seria o maior entre eles, e quem nunca abandonaria o Senhor. Alguma coisa havia acontecido, pois eles permaneciam juntos, sem a presença de Jesus para os manter em paz.

Eles estavam perto de terem um encontro que tornaria insignificantes todas as outras experiências anteriores, em comparação com o que estava para acontecer. Deus em breve iria enchê-los por completo com a Sua própria pessoa, dando-lhes o poder que eles tinham visto fluir através de Jesus, de forma a explodir dentro deles. Seria a culminação dos esforços de Deus para a restauração e para o comissionamento do homem, o que estava interrompido desde que o homem deixou de cumprir o seu chamado para dominar sobre a terra, conforme narrado em Génesis. O que estava por acontecer seria um marco de extrema importância para toda a humanidade, para todo o sempre. Dez dias haviam se passado, o Pentecostes tinha chegado, e eles ainda estavam orando como vinham fazendo nos nove dias anteriores. “De repente…” … o salão em que estavam cento e vinte pessoas agora se encheu de som e de vento, de fogo e de manifestações extáticas de louvor expressas através de línguas conhecidas e desconhecidas. Não importando como se possa interpretar as instruções de Paulo sobre os dons espirituais, há um ponto importante com o qual todos temos de concordar: é que aquela reunião de Atos 2 foi totalmente dirigida pelo Espírito Santo. Aquela Igreja recém-nascida não tinha ainda aprendido o suficiente para querer controlar Deus. Os crentes não tinham ainda desenvolvido preconceitos sobre que práticas seriam aceitáveis e quais as que não seriam aceitáveis. Eles não tinham uma base na Bíblia nem na experiência para entender o que estava acontecendo.

Observemos as características desse culto dirigido pelo Espírito:

 1. Estavam orando.

2. Estavam em unidade.

3. Todos falaram em línguas.

4. Incrédulos ouviram aquelas línguas.

5. Pessoas foram salvas.

Considere em que situação difícil aqueles 120 homens de Atos 2 estavam: eles haviam acabado de ter um encontro com Deus, sem que um capítulo ou versículo tenha sido escrito para explicar o que tinha acontecido. Pedro, sob a direção do Espírito Santo, usou Joel 2 como o texto para dar respaldo à experiência pela qual estavam passando. Joel 2 declara que haveria um derramar do Espírito Santo, com profecias, sonhos e visões. O derramar do Espírito aconteceu em Atos 2 tal como prometido, mas não teve nenhum dos complementos mencionados por Joel. Em vez disso, foi com o som de um vento, e com fogo e com línguas. Foi Deus que usou aquela passagem para dar suporte a essa nova experiência.

O próprio fato de que aqui parece haver uma interpretação imprópria das Escrituras serve para nos mostrar que somos nós que muitas vezes temos uma abordagem incorreta da Bíblia. Ela não é um livro de listas que confinem ou encurralem a ação de Deus. A Palavra não contém Deus – ela O revela. Joel 2 revelou a natureza da obra de Deus entre os homens. Atos 2 é uma ilustração do que Deus pretendia através da profecia.

 

SER OU NÃO SER OFENSIVO

Muitos cultos cristãos pretendem ser tão não-ofensivos quanto possível. O que tomam como verdade é que qualquer uso dos dons do Espírito dispersará as pessoas, desviando-as do evangelho. Contudo eles já se desviaram.

Para a maioria das pessoas, um culto muito expressivo, a ministração de dons espirituais, e coisas semelhantes apenas fazem com que se desviem os crentes que tenham tido a infeliz experiência de terem sido ensinados contra elas. Mas muitas dessas pessoas acabam voltando para quem tem essas experiências quando estão enfrentando uma situação impossível e precisam da ajuda de alguém experimentado no evangelho de poder.

A Igreja tem o vício nada saudável da perfeição: aquela do tipo que não dá espaço para desordens. Tal padrão somente pode ser alcançado restringindo-se ou rejeitando os dons do Espírito. “Tudo, porém, seja feito com decência e ordem”. O “tudo” desse versículo refere­ se às manifestações do Espírito Santo. Portanto, tudo seja feito antes de termos o direito de discutir quanto à ordem.

Manter tudo em ordem tem se tornado a nossa grande comissão. Os dons do Espírito interferem no conduzir as coisas em ordem, e a ordem torna-se a coisa de maior valor. Assim, por que dar valor a uma desordem ocasional? “Não havendo bois, o celeiro fica limpo, mas pela força do boi há abundância de colheitas.” Desordens são necessárias para o crescimento.

Quão importante é o crescimento para Deus? Jesus certa vez amaldiçoou uma figueira por não ter frutos fora da estação! Numa de Suas parábolas um homem foi lançado para fora, nas trevas, por ter enterrado o seu talento, não tendo obtido um aumento para o seu Senhor.

Há uma enorme diferença entre um cemitério e uma creche. O primeiro está em perfeita ordem, mas o segundo tem vida. Uma pessoa que não tenha filhos pode entrar na creche de uma igreja e, vendo as crianças alegres, movendo-se em suas brincadeiras, talvez diga, erroneamente, que está tudo em desordem. Em comparação com a sala de estar da sua casa, por certo está tudo em desordem. Mas quando um dos pais entra na sala das crianças e vê que o seu filhinho está brincando com seus coleguinhas, para ele está tudo perfeito! É uma questão de perspectiva. A ordem tem o propósito de promover a vida. Além desse ponto ela trabalha em sentido contrário ao que consideramos de valor.

 

NA IMAGEM DELE

Não chegamos a Deus quando vivemos com a nossa imagem de quem Ele é. Temos o hábito de fazer com que Ele se pareça conosco. De fato, se pensamos que O entendemos, provavelmente nós O conformamos à nossa própria imagem. Têm de haver ainda alguns aspectos misteriosos em nosso relacionamento com Aquele que se propôs a operar além da nossa imaginação.280 Empenharmo-nos a conhecê-Lo significa lançarmo­nos numa aventura em que muitas questões surgirão. Nosso desejo, nascido de Deus, de um avivamento tem de nos tornar totalmente ansiosos de reconhecê-lo, quando ele vier. Sem essa ansiedade, ficamos satisfeitos com o nosso status atual, e tornamo-nos nossos piores inimigos na mudança da história. A história não pode ser mudada eficazmente até que estejamos dispostos a sujar as mãos. Isso acontece quando aceitamos o chamado de nos infiltrarmos no sistema babilônico.

Disso, porém, vamos tratar no próximo capítulo.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

QUANDO A VIRTUDE DESVIRTUA

Reafirmação do bom caráter moral do ser humano (nas redes sociais e fora delas) é a mais nova virose contemporânea

Quando a virtude desvirtua

Greta Thunberg tem sido elogiada por chefes de Estado, foi recebida pelo papa e discursou na abertura da Cúpula de Ação Climática da Organização das Nações Unidas (ONU), em setembro. São distinções raras, se não inéditas, para uma adolescente de 16 anos. A jovem sueca tornou-se um símbolo global e, como todo símbolo, evoca reações diversas e contraditórias: para os admiradores, a face limpa e as tranças que conferem um ar de inocência pueril à líder das greves estudantis pelo clima representam a pureza de um movimento internacional que deseja salvar o planeta; para os críticos, o ricto que contorceu o rosto de Thunberg nos momentos mais passionais do discurso na ONU – “Tudo que vocês fazem é falar em dinheiro e no conto da carochinha do crescimento econômico eterno. Como vocês se atrevem? (…) A mudança está chegando, quer vocês queiram, quer não” – é a expressão radical de um catastrofismo cego. A personalidade de Thunberg e suas fragilidades – em especial, o fato de ela ser portadora da síndrome de Asperger – são arrastadas para a disputa. Fatalmente, levantou-se a acusação de que ela seria uma jovem mimada praticando a “sinalização de virtude”. Em anos recentes, essa expressão pejorativa – “virtue signaling”, em inglês – tornou-se corrente na guerra cultural entre a esquerda e a direita americanas. Designa uma forma de exibicionismo público: aqueles que alardeiam sua adesão a uma causa, mas não se comprometem efetivamente com ela, estariam apenas dando sinais de sua própria virtude, sem que isso lhes custasse qualquer esforço ou dispêndio. A dedicação integral que Thunberg demonstra ao ambientalismo a princípio descartaria a possibilidade de que ela esteja apenas propagandeando os próprios méritos. Mas a admiração quase sagrada e, de outro lado, a repulsa visceral que sua figura inspira indicam a presença dessa virose contemporânea. Greta Thunberg, como qualquer um de nós que já tenha feito declarações políticas exaltadas no Twitter, está imersa no que o psicólogo americano Geoffrey Miller chamou, em um livro recente, de “cultura da sinalização de virtude”.

Não é só Greta Thunberg: qualquer tema ou figura controversas convidam à sinalização de virtude. Quando consideramos que apenas nosso ponto de vista está “do lado certo da história”, o simples fato de anunciá­lo se torna uma afirmação de nosso bom caráter moral. As queimadas na Amazônia e o aborto, a liberação das armas e os protestos no Chile, o Brexit e a reforma da Previdência: quantos posts em redes sociais sobre esses temas você, leitor, já encontrou (ou escreveu) que incluíssem informação sólida e argumentação ponderada – e não apenas adesão passional ou rejeição rápida?

A sinalização de virtude, porém, não foi criada pela polarização política ou pela pulverização informativa das redes sociais. Nos ensaios reunidos em Virtue signaling, Miller ensina que a espécie humana desde sempre se dedicou a sinalizar virtude. E isso não é tão ruim assim.

Professor do departamento de psicologia da Universidade do Novo México, Miller segue a linha teórica conhecida como “psicologia evolutiva”, que busca entender o comportamento humano a partir da biologia darwinista. Suas pesquisas centram-se na seleção sexual, um mecanismo da evolução proposto por Charles Darwin na obra posterior ao seminal. A evolução das espécies. Sob os imperativos draconianos da seleção natural, os seres vivos devem se adaptar às pressões cambiantes do ambiente – ou morrerão sem propagar seus genes para futuras gerações. Mas os animais também precisam adaptar-se para atrair parceiros sexuais – ou, mais uma vez, morrerão sem deixar herança genética. Danças de acasalamento e o canto dos pássaros estão entre os produtos mais vistosos da seleção natural, e o ser humano de ambos os gêneros também segue certos rituais de sedução. Miller argumenta que a seleção sexual teve parte importante na evolução da moral humana – e, por extensão, da sinalização de virtude.

Na fase do flerte, parceiros avaliam-se mutuamente, selecionando valores como honestidade, generosidade, altruísmo. E até a ideologia política tem seu papel nos ritos da seleção sexual. Em um dos ensaios mais provocativos de Virtue signaling, Miller recorda uma greve estudantil contra o apartheid na Universidade Columbia, em Nova York, onde ele estudava em 1985. Os manifestantes exigiam que a universidade se desfizesse de todos os investimentos em empresas que apoiavam o governo da África do Sul – medida que exerceria uma pressão pouco significativa sobre o regime racista. Miller recorda que muitos participantes acharam parceiros sexuais durante as manifestações. Surgiram daí até algumas relações estáveis, que duraram mais do que o interesse dos estudantes pela África do Sul. A exibição mútua de boas intenções político ­ ideológicas propiciou condições ideais para a seleção sexual. A participação no protesto teria, portanto, uma função análoga à cauda multicolorida do pavão, um apêndice sem função outra que dar sinais de vigor e saúde genética para a fêmea da espécie.

O autor admite que considerar expressões ideológicas como estratégias para levar parceiros para a cama pode “trivializar todo o discurso político”, mas acredita que essa perspectiva também confere uma visão mais acurada da irracionalidade que move as paixões políticas. Nessa perspectiva, qualquer profissão de fé em uma causa ou partido seria uma sinalização de virtude – com o fim último de seduzir o objeto do desejo que por acaso compartilha das mesmas crenças (também há, claro, ganhos sociais: professar as ideias mais aceitas em determinado grupo traz prestígio). Não haveria nada de errado, porém, em ostentar bons sentimentos para, inconscientemente, perseguir a satisfação erótica ou o sucesso social. Sempre fizemos isso, diz Miller. A expressão “virtue signaling” só teria se popularizado na conversa sobre política a partir da campanha presidencial americana de 2016, da qual Donald Trump saiu vencedor. Mas desde tempos perdidos na memória da espécie humana já gostávamos de propagar nossos valores morais, nossas concepções éticas, nossas crenças religiosas. A generosidade é quase sempre ostensiva: o voluntário que limpa o óleo nas praias do Nordeste e o profissional do Médico sem Fronteiras que administra vacinas em áreas conflagradas do Congo gostam de ser reconhecidos pelo que fazem, e é bom que seja assim, pois seus exemplos incentivam mais pessoas a doarem tempo e dinheiro para as causas que julgam importantes.

Há sinais de virtude que custam tempo, esforço, dinheiro. E há a camiseta com slogan, o adesivo do candidato político no vidro do carro, o post no Facebook. Cara ou barata, a sinalização de virtude responde pelo melhor e pelo pior do ser humano, diz Miller: combinada a uma mentalidade aberta e tolerante, à curiosidade científica e à racionalidade, a sinalização de virtude já nos deu o abolicionismo, o sufragismo, os movimentos pela liberdade de expressão. Quando carece desses atributos, a sinalização de virtude gera monstros como “o Reino de Terror de Robespierre, o Holodomor de Stálio, o Holocausto de Hitler, a Revolução Cultural de Mao e o Twitter”.

Equiparar o Twitter aos maiores genocídios do século XX, deve ser óbvio, é uma blague de Miller. O autor, aliás, é bem ativo na rede social – e já teve problemas por lá, quando fez uma piada desastrada sobre obesidade. Mas é claro que a sinalização de virtude só ganhou conotações pejorativas porque, graças às redes sociais, nunca foi tão fácil e barato emitir sinais de nossa elevada moralidade: menos de um minuto no celular, e você já demonstra a todos os seus amigos que está indignado com o novo governo, cujas reformas roubam os direitos do trabalhador, ou com a hipocrisia dos “vermelhos” que passaram anos envolvidos em esquemas de corrupção bilionária e hoje reclamam de triviais rachadinhas. Miller, porém, não chega a discutir as novas oportunidades que a comunicação virtual oferece à informação duvidosa e à opinião inconsequente. Não é a única lacuna de seu novo livro: coletânea de ensaios cuja relação com o tema anunciado no título nem sempre é direta, Virtue signaling acaba não entregando tudo que seu instigante prefácio promete – e não explica exatamente o que é a tal “cultura da sinalização de virtude” em que vivemos hoje.

Um bom ponto de partida para entender o alcance dessa cultura pode ser “A horrenda ascensão da sinalização de virtude”, breve ensaio que o jornalista britânico James Bartholomew publicou na revista The Spectator, em 2015 – esse texto, aliás, tem sido creditado como o pioneiro na popularização do termo “sinalização da virtude”. Bartholomew comenta sobretudo casos de sinalização na política britânica, mas abre o ensaio com um exemplo da publicidade: os anúncios da rede americana Whole Foods, que vende comida orgânica, apregoam uma nova “consciência” abraçada pela empresa – uma consciência que “defende o que é bom”. É uma tendência clara da publicidade contemporânea, que já não se contenta em afirmar que o produto anunciado é melhor que os concorrentes: o suco em caixa afirma que é “do bem”, a rede de lanchonetes garante que seu hambúrguer toma o mundo melhor e inúmeras empresas vangloriam-se de suas práticas “sustentáveis” e “inclusivas”.

O artigo é especialmente acurado ao notar que a virtude pode ser sinalizada até por declarações de ódio ou repulsa. Dizer “eu detesto SUVs” é uma forma de se mostrar preocupado com o meio ambiente. Figuras políticas divisivas servem bem a esse jogo: declarações de ódio a Bolsonaro ou Lula garantem acolhida fácil à esquerda ou à direita. O ódio, no entanto, não é um sentimento dos mais virtuosos. Em sua modalidade contemporânea, a sinalização de virtude tem, a rigor, pouco a ver com virtude.

A bondade de um indivíduo, lamenta Bartholomew, não se prova mais com gestos simples como ajudar um idoso a atravessar a rua ou doar dinheiro para caridade. “Ninguém precisa mais fazer coisa alguma. A virtude vem de meras palavras ou até de crenças cultivadas em silêncio”, diz o jornalista. Este é o cerne da cultura de sinalização de virtude: a retórica auto celebratória conta mais que a ação altruísta.

O filósofo australiano Peter Singer, conhecido por sua defesa dos direitos dos animais, certa vez propôs que a doação de sangue seria um exemplo de gesto altruísta inteiramente desinteressado: em geral, o doador não é pago e nem terá tratamento privilegiado na eventualidade de um dia precisar de uma transfusão. O biólogo Richard Alexander contestou a ideia generosa de Singer: o doador é pago não em dinheiro, mas em reconhecimento social. “Quem entre nós não tem certa reverência pela pessoa que nos diz casualmente que acabou de doar sangue?”, pergunta Alexander. A sinalização de virtude – nesse caso, virtude real, exercida em um ato efetivo – vem na forma do esparadrapo no braço, atestando para vizinhos e colegas de trabalho que a doação foi realizada naquele mesmo dia. Pode-se dizer que a vazia sinalização de virtude hoje praticada nas redes sociais consiste em aumentar o esparadrapo até que, de tão grande e chamativo, ele torne dispensável a doação de sangue Mas qual seria o problema de fazer alarde em torno de causas pelas quais nada se fez se a causa é justa? Quando a virtude certa é sinalizada, no fim das contas algum bem não pode sair daí? Talvez. Mas há custos para a vida política, que abandona a discussão de ideias para se centrar sobre a exaltação – ou o achincalhe – de personalidades públicas. E há custo talvez maiores para a vida social, para a mais básica civilidade cotidiana: se uma opinião ligeira expressa no Twitter ou até uma hashtag – #Lulalivre, #BolsonaroMito – valem por uma afirmação de virtude, então opiniões memes divergentes só poderão ser o Mal encarnado. Abre-se a porta para a intolerância, o sectarismo, a ignorância, a propagação da mentira, que tomam tóxico o debate público.

Na guerra de vaidades dos sinalizadores da virtude, os problemas cada vez mais complexos que nos afetam são reduzidos a expressões de narcisismo exacerbado. É assim com aquecimento global. Em sua fala na ONU Greta Thunberg até citou números do relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) órgão internacional que monitora a temperatura do planeta. Ninguém deu atenção a esses dados: estavam todos comovidos com o drama da estudante sueca cujos sonhos se perderam porque os gananciosos líderes mundiais não querem ouvir sua mensagem virtuosa.

Quando a virtude desvirtua. 2

OUTROS OLHARES

OS SONS DO PASSADO

Levantamento de mercado mostra que, pela primeira vez desde 1986, os vinis vão superar os CDs – ambos ainda resistem apenas pelo fervor de alguns apaixonados

Os sons do passado

exatos 38 anos, celebrava-se o estrondoso lançamento: “O mercado de discos não recebia uma novidade tão grande desde que a Columbia Records anunciou, em 1948, o long-play de 30 centímetros de diâmetro e cinquenta minutos de gravação. Em conjunto, a Philips holandesa e a Sony japonesa lançam agora o disco compacto, de apenas 12 centímetros de diâmetro e que, nessa superfície exígua, contêm, em sua única face gravada, sessenta minutos de som”. A notícia ecoava o primeiro grande sucesso mundial em CD, o álbum The Visitors, da banda sueca Abba, levado às lojas em novembro de 1981 – embora algumas pequenas gravadoras de música clássica tivessem testado a plataforma algum tempo antes. No Brasil, o CD inaugural foi uma antologia gravada por Nara Leão e Roberto Menescal, Garota de Ipanema, em 1986.

Em setembro, um relatório da associação americana de gravadoras – a RIAA, na sigla em inglês – revelou o impensável: ainda neste ano a venda de vinis deve superar a de CDs nos Estados Unidos, algo que não acontecia desde 1986. O disco compacto terá vivido quatro décadas – pouca coisa menos que o LP de vinil, que começou a minguar já cinquentão, a despeito de, ressalve-se, ainda respirar, firme e forte, com o típico chiado analógico, em nichos. Para o guitarrista Jack White, o mais notório defensor da permanência das bolachas, há um novo tempo atrás da porta. “Na próxima década, teremos a coexistência do streaming com o vinil – o streaming no carro e na cozinha, o vinil na sala de estar e no quarto de dormir”, diz ele, aparentemente esquecido do apogeu dos fones de ouvidos plugados aos smartphones, com ou sem fio.

Mas, afinal de contas, quem ainda ouve LPs e, logo mais, quem ainda ouvirá CDs, para além do prazer tátil de pôr as mãos em produtos vintage? Os nostálgicos do vinil costumam dizer que as nuances das músicas, como eventuais acordes dissonantes, são suprimidas nas produções digitais, que dominam 80% do mercado – daí o apego ao passado. “Mas o revival está mais relacionado à busca pela autenticidade, ao interesse por todo o processo de criação deum LP, que vai da gravação ao encarte”, diz o pesquisador Marco Resende Rapeli, mestre em ciências sociais aplicadas da ESPM. O prazer, para alguns, é literalmente físico. “Tem gente que até aproxima o nariz do LP e exulta: “Que cheiro de disco antigo”, afirma Caio Figueiroa, que trabalha na Sonzera, uma das lojas dedicadas aos LPs da Galeria Nova Barão, recanto clássico da cultura paulistana dedicado à indústria fonográfica dos velhos tempos.

O CD, embora seja mais jovem, também atrai colecionadores, e uma categoria em especial: os amantes de música clássica. Um levantamento feito ao Reino Unido pela Royal Philharmonic Orchestra mostra que 39% dos compradores das peças de Bach, Brahms, Mozart, Beethoven e cia. querem o produto físico, devidamente catalogado e exposto nas prateleiras – uma minoria vai de streaming. Essa turma reticente, apaixonada pelos compactos, também defende a qualidade do som em comparação com a das versões mais modernas, mas trata-se de uma diferença que um ouvido comum não identifica.

 Tudo somado, o ocaso do CD, agora novamente ultrapassado pelo vinil, faz parte do inexorável progresso da indústria da música, uma revolução que começou na tecnologia MP3, ganhou força com o iPod de Steve Jobs e provocou o nascimento de serviços práticos e incontornáveis como o Spotify. E certamente outras inovações surgirão no horizonte. Mas, para os fiéis amantes de vinis e CDs, toda essa modernidade ainda não superou a qualidade e o prazer dos sons do passado.

Os sons do passado. 2

GESTÃO E CARREIRA

PARE DE PROCRASTINAR

O que é necessário fazer para sua vida deslanchar? É essa pergunta que Christian Barbosa, especialista em gestão do tempo e produtividade, busca responder em seu novo livro, Por Que as Pessoas Não Fazem o Que Deveriam Fazer? Na obra, recém-lançada, ele se debruça sobre o tema da procrastinação e apresenta ferramentas para que as pessoas organizem as ideias e vençam a dicotomia “quem se quer ser”, versus “o que se quer ter”. Leia, a seguir, trecho Inédito no qual o autor ensina a otimizar nossos pensamentos.

Pare de procrastinar

TRECHO DO LIVRO

 

1.  ESCREVA SUAS IDEIAS

Imagine que você está com um grupo de amigos, em carros e motos, descendo uma serra que desconhece. De repente surge uma neblina bastante densa que dificulta muito a visibilidade. Nesse momento você não consegue ver seus amigos, seu senso de localização fica comprometido, seu nível de estresse aumenta em função do risco imposto pela condição da estrada, seus amigos aparecem e desaparecem no meio da neblina. Eu moro em Santos, no litoral de São Paulo. Em alguns períodos do ano, quando desço a serra de São Paulo para Santos, é essa situação que encontro. Essas condições climáticas são muito comuns nessa região e o risco de acidente aumenta consideravelmente, pois é impossível, por mais que você conheça a estrada, ter segurança e visibilidade. O que a concessionária da rodovia costuma fazer nessas condições é fechar o pedágio até juntar uma certa quantidade de veículos e fazê-los descer em comboio, com a polícia rodoviária na frente a uma velocidade média de 50 quilômetros por hora. Com isso, o efeito da neblina é minimizado, você começa a ver os carros, que agora estão próximos, em quantidade e a uma velocidade constante.

Parece que nem existe neblina, o que faz com que muitos motoristas reclamem do que consideram um excesso de precaução. A neblina na serra e a sua mente cheia de ideias são muito parecidas. Enquanto estão na cabeça, as ideias se encontram de certa forma envolvidas por uma “névoa”, elas podem escapar rapidamente da sua visão, e você pode nunca mais encontrá-las. Sem que possam ser vistas com clareza de detalhes, elas acabam se perdendo.

A forma de começar a limpar a neblina é tirar as ideias da cabeça e colocá-las em outro lugar. Assim como recomendo que você organize suas tarefas a fim de gerenciar seu tempo, é necessário tirar as ideias da cabeça se quiser filtrá-las e executá-las.

Tirar ideias da cabeça significa escrevê-las (ou gravar em áudio, se preferir) para que possamos passar para outras etapas da seleção. Pode parecer simples, mas, quando perguntei às pessoas do teste se tinham o costume de escrever ideias, apenas 38% disseram que faziam isso com regularidade.

Escrever também estimula o cérebro (existem diversos estudos publicados sobre isso). Um deles define inclusive que as crianças precisam do movimento da escrita para desenvolvimento cerebral pois, sem isso, teríamos algumas deficiência em nossa fase adulta.

Virgínia Berninger, psicóloga da Universidade de Wisconsin, testou estudantes e descobriu que, ao fazer redações escritas a mão, eles geravam mais ideias do que quando faziam usando o computador. Em outra pesquisa, Berninger mostra que a sequência de movimentos dos dedos, necessária para escrever, ativa regiões do cérebro envolvidos com pensamento, linguagem e memória de curta duração. O mesmo efeito acontece se você escrever com uma caneta em um tablet.

Eu, particularmente, considero o resultado da pesquisa bastante concludente. Quando estou travado de ideias, gosto de escrever a mão ou no tablet. Quando já tenho a ideia e preciso apenas tirá-la da cabeça para destrinchá-la melhor eu gosto de usar um software de mapas mentais – um tipo de apresentação de ideias em forma de neurônio, desenvolvido por Buzan, que facilita a geração, a classificação, a estruturação e a visualização de ideias, desde as simples até textos bem complexos em um único gráfico.

Nessa primeira etapa do processo de seleção de ideias, o objetivo é escrever todas as ideias que rondam a cabeça. Não se preocupe se são viáveis nem se são muito importantes para você. Também não ligue para o que os outros vão pensar. Apenas escreva tudo o que lhe vai na cabeça (.,)

 

2. AGRUPE SUAS IDEIAS EM EQUILÍBRIO E RESULTADO

Antes de selecionar suas ideias é necessário verificar se você tem clareza do que realmente necessita neste momento da sua vida. Sem saber o que precisa, tudo vai servir, você ficará sem foco e mais e mais ideias vão brotar em sua cabeça (.,)

Agrupar ideias permite identificar essa deficiência e o ajuda a reforçar aquelas de que realmente necessita e a não ficar na mesma para sempre. Existem milhares de exemplos de ideias em cada uma dessas áreas. Vou citar alguns, para reforçar o que foi discutido anteriormente:

IDEIAS DE EQUILÍBRIO: tempo para a família; melhorar a saúde; descobrir meus hobbies; achar o verdadeiro amor; descobrir minha missão pessoal; emagrecer; reduzir o estresse; desenvolver meu lado espiritual; melhorar minha capacidade de feedback; viver intensamente; melhorar meu relacionamento com fulano; sair do sedentarismo; parar de fumar; aceitar minha autoimagem; adquirir mais cultura; aproveitar o que já tenho; aprimorar minha capacidade de dizer não a algo que não me agrade etc.

IDEIAS DE RESULTADO: falar inglês fluente; MBA em gestão empresarial desenvolver carreira de consultoria; fazer dinheiro na minha profissão; comprar casa própria; viajar para Disney; obter cargo de diretor; criar meu próprio negócio; aprender a investir meu dinheiro; correr a maratona São Paulo; ganhar o prêmio profissional do ano; escrever um livro etc.

Claro que são apenas exemplos, não ideias, que você precisa usar. Dificilmente alguém além de você é capaz de entender suas mais profundas necessidades e, quando tentam, você pode até aceitar, mas, se não for algo que queira, a ideia vai ser bloqueada na fase de procrastinação. Repare que essas ideias são bem vagas, portanto, este não é o momento de julgá-la, apenas de agrupá-las. (.,)

 

3.DEFINA O QUE É PRIORITÁRIO

Agora que já ternos as ideias e sabemos a que grupo pertencem, é o momento de ver quais delas vamos levar adiante. Se o problema de ter ideias é o excesso, a solução é ter poucas ideias, mas ideias que realmente nos ajudem a obter aquilo de que precisamos (equilíbrio e resultado). (..)

Priorizar é a chave para você filtrar suas ideias para saber o que precisa ser feito e o que deve se posto de lado no momento ou mesmo apagado de vez da sua vida. Quem tenta fazer tudo não faz nada, só gasta energia, tempo e perde a oportunidades. (.,)

O primeiro passo para priorizar é definir as variáveis que servirão para avaliar todas as ideias. Você pode criar suas próprias variáveis, critérios (desde que sejam poucos), mas sugiro como início estes três:

NECESSIDADE: esta, sem dúvida, é a variável mais importante. Se você não precisa, para que investir tempo e energia? Entendendo a relação entre resultado e equilíbrio, aquilo em que você pensou é realmente o que você mais precisa? A ideia é extremamente necessária para sua vida. Conseguirá viver sem essa ideia feliz?

VIABILIDADE: eu adoraria fazer uma campanha nacional para mudar os dispositivos do código penal brasileiro, que considero um dos maiores problemas do país, mas infelizmente não é uma ideia viável neste momento da minha vida. No mínimo seria um esforço hercúleo que poderia comprometer outras prioridades. Sua ideia é viável? Você é capaz de executa-la ou ela é apenas um sonho distante?

PAIXÃO: ideias não podem ser apenas racionais, precisamos do nosso cérebro emocional para apoiar a persistência no caminho. Você está apaixonado a ponto de querer se dedicar à sua ideia? Sem paixão nada acontece; se você não vai se apaixonar pela sua ideia, para que insistir em algo que vai se dissolver em pouco tempo? Essas variáveis precisam ter peso, uma nota que permita classificar nossas ideias. Eu sugiro um peso maior para necessidade, algo como uma nota 3, depois para viabilidade (nota 2) e, em seguida, para paixão (nota 1). Fique à vontade para montar sua própria escala. Se não tiver uma, experimente esta que testamos e veja se funciona. (.,)

 

4. FILTRE DE FORMA RACIONAL E EMOCIONAL

Com as ideias escritas, classificadas na variável da matriz que indica o que você mais precisa no momento e já com o devido peso atribuído ao momento final de seleção. Para dar seguimento, selecione as cinco ideias (caso não tenha cinco ideias não há problema, melhor ainda) que tiveram maior pontuação na fase anterior(…).

Se você chegou até aqui é porque conseguiu limitar seu número de opções, de informação e tem alguns critérios que podem ajudá-lo a decidir. O que fizemos até agora foi preparar o terreno para ajudar seu cérebro a decidir melhor o que deve ser feito. Nós filtramos suas ideias e deixamos apenas aquelas mais coerentes com o seu propósito de conseguir mais resultados e equilíbrio na vida.

Se as ideias selecionadas ainda não são totalmente satisfatórias para você, sugiro que espere alguns dias ou até algumas semanas e repita todo o processo a fim de verificar se as ideias se confirmam ou são alteradas. Dê tempo ao tempo: às vezes, você precisa esperar um pouco para que as ideias assentem na sua cabeça.

O processo de escolha do nosso cérebro é extremamente complexo, tem muitas áreas envolvidas, não permite ter uma fórmula única de tomada de decisões. Agora é o momento de pensar racionalmente e também emocionalmente; é o momento do feeling, pois na escuridão da incerteza humana é que na maioria das vezes, lá no fundo, sabemos o que vai dar certo.

Pare de procrastinar. 2

ALIMENTO DIÁRIO

QUANDO O CÉU INVADE A TERRA

Quando o Céu invade a Terra

CAPÍTULO 14 – GUERREANDO PARA INVADIR!

O verdadeiro cristão é um guerreiro do rei. Somente ele tem enorme prazer em entrar na batalha com toda a sua alma, fazendo com que toda situação se torne cativa do Senhor Jesus Cristo.

 

“Por muito tempo a Igreja tem atuado na defensiva, na batalha pelas almas. Quando ouvimos falar sobre o que uma determinada seita, ou um outro ramo das trevas, está planejando fazer, reagimos criando estratégias para confrontar os planos do inimigo. Criamos comissões; líderes discutem; e os pastores pregam contra o que possa estar o diabo fazendo, ou que esteja próximo de o fazer.

Talvez você se surpreenda com o que vou dizer: não dou a mínima importância para o que o diabo possa estar planejando fazer. A Grande Comissão coloca-me na ofensiva. Eu estou com a bola. E se eu a levar para a frente, sabendo jogar, os planos dele não terão importância.

Num jogo de futebol, vence o time que se preocupa com o seu jogo, e não se intimida com o adversário. O técnico do adversário, muitas vezes, faz declarações antes da partida, procurando criar um clima de superioridade e levar o seu oponente a jogar na defesa. E, por causa disso, preocupando-se com o adversário, o time ameaçado acaba não fazendo o seu jogo, mas sim o jogo do time contrário, e acaba sofrendo uma derrota.

Por mais tolo que seja esse tipo de comportamento, esta é a condição de uma grande parte da Igreja nos dias atuais. Satanás revela seus planos para nos colocar na defensiva. Ele ruge, procura impor-se, e nós agimos como se estivéssemos sob o seu controle. Paremos com essa tolice, e deixemos de ficar louvando o diabo com discussões intermináveis sobre o que há de errado no mundo por causa dele. Nós temos o nosso jogo, e estamos com a bola.

O potencial da presente geração, que é maior do que o das anteriores, não tem nada a ver com a nossa própria piedade, mas tem tudo a ver como plano mestre de nosso Senhor de nos colocar neste ponto da história. Temos que nos tornar o pior pesadelo do diabo.

 

POR QUE O DIABO DEIXA VAZAR OS SEUS SEGREDOS

Creio honestamente que satanás permite que suas estratégias se tornem conhecidas de modo que venhamos a reagir a elas. Ele adora ficar no controle. E, sempre que nós não estamos no controle, ele fica. E, quando reagimos, nossas reações são decorrentes do medo.

Não temos que ficar aguentando a situação até a volta de Jesus! Somos um corpo de pessoas vencedoras, corpo esse que foi comprado por sangue, foi cheio do Espírito, e foi comissionado pelo próprio Deus, de forma que tudo o que Ele falou no passado viesse a acontecer. Quando planejamos segundo os planos de satanás, automaticamente ficamos com uma postura mental errada. E nossas atitudes incorretas podem tornar­ se verdadeiras fortalezas em nosso pensamento, provocando assim uma investida legal do inferno contra nós. Desse modo, nossos temores acabam se tornando profecias que por si mesmas se cumprem.

 

SEGREDOS BÍBLICOS ACERCA DA GUERRA

A guerra espiritual é inevitável, e ignorá-la não fará com que ela não aconteça. Portanto, temos de aprender a batalhar com uma autoridade sobrenatural! Os seguintes princípios são verdades muitas vezes esquecidas:

 

  1. “Tendo Faraó deixado ir o povo, Deus não o levou pelo caminho da terra dos filisteus, posto que mais perto, pois disse: Para que, porventura, o povo não se arrependa, vendo a guerra, e torne ao Egito.” (Êxodo 13:17)

Deus tem plena convicção sobre até que ponto poderemos atuar na presente situação. Ele nos faz desviar de qualquer batalha que possa nos fazer dar meia volta e abandonar o nosso chamado. E assim concluímos que Ele nos encaminha apenas para as batalhas em que podemos derrotar o inimigo.

O lugar de maior segurança nesta guerra acha-se na obediência.

Quando estamos no centro da vontade de Deus, enfrentamos apenas aquelas situações em que estejamos em condições de vencer. Mas, por estarem afastados da Sua vontade, muitos cristãos caem, tendo que enfrentar uma excessiva pressão, por eles mesmos engendrada. É na Sua vontade que se encontra o lugar mais seguro para se ficar.

 

  1. “Preparas-me uma mesa na presença dos meus adversários.”(Salmo 23:5}

Deus de modo algum Se intimida com as táticas do inimigo. De fato Ele quer ter comunhão conosco bem diante dos olhos do diabo. É na intimidade com Deus que temos a nossa postura mais forte. Nunca permita que nada o faça sair dela. Muitos são os que se tornam “intensivos batalhadores” para o seu próprio bem. Tal intensidade frequentemente exibe a força humana, não a graça. Quando optamos por essa condição de ser “intensivos batalhadores”, isso nos afasta da alegria e da intimidade com Deus. É uma indicação de que nos desviamos do nosso primeiro amor. No caso de Paulo, a intimidade que ele tinha com Deus fez com que ele dissesse, lá daquela prisão infestada de demônios em que se encontrava: “Alegrai-vos sempre no Senhor; outra vez digo: alegrai­ vos!”

 

  1. “…e que em nada estais intimidados pelos adversários. Pois o que é para eles prova evidente de perdição é, para vós outros, de salvação, e isto da parte de Deus.” (Filipenses 1:28}

Quando rejeitamos o medo, o inimigo é que fica aterrorizado. Um coração confiante é um sinal seguro da destruição final dele e da nossa vitória no dia de hoje! Não tenha medo, nunca! Volte-se para as promessas de Deus, passe tempo com pessoas de fé, e que cada um encoraje o outro com os testemunhos do Senhor. Louve a Deus por quem Ele é, até que o medo não mais bata à sua porta. Isto não é uma opção, pois na verdade o medo convida o inimigo a vir para matar, roubar e destruir.

 

  1. “Sujeitai-vos, portanto, a Deus; mas resisti ao diabo, e ele fugirá de vós.” (Tiago 4:7)

 A submissão a Deus é a chave para o sucesso pessoal. Nossa principal batalha na guerra espiritual não é contra o diabo. É contra a carne. Sujeitando-nos ao Senhor é o que coloca os recursos de Deus à nossa disposição para uma permanente vitória, para executarmos o que Jesus já conquistou para nós no Calvário.

 

  1. “…e as portas do inferno não prevalecerão contra ela (a Igreja).” (Mateus 16:18)

Eu não fui deixado no planeta terra para ficar escondido, esperando a volta de Jesus. Aqui estou como um representante militar do céu. A Igreja está no ataque. É por isso que as portas do inferno – o lugar do poderio e do domínio dos demônios – NÃO PREVALECERÃO contra a Igreja.

 

  1. “Deus fez sobremodo fecundo o Seu povo e o tornou mais forte do que os seus opressores. Mudou-lhes o coração para que odiassem o Seu povo e usassem de astúcia para com os Seus servos.” (Salmo 105:24-25)

Primeiramente Deus nos fortalece, mas também instiga o ódio do diabo contra nós. Por quê? Não é porque Ele queira criar problemas para a Sua Igreja. É porque Ele gosta de ver o diabo derrotado por aqueles que foram feitos à Sua imagem, por aqueles que, por sua livre escolha, têm com Ele um relacionamento de amor. Deus nos delegou a Sua autoridade. É um grande prazer para o Senhor quando exercemos o triunfo de Jesus sobre os demônios, quando nos dispomos a “executar contra eles a sentença escrita, e que será honra para todos os santos.” (Salmo 149:9)

 

  1. ” …exultem os que habitam nas rochas e clamem do cimo dos montes; deem honra ao SENHOR e anunciem a Sua glória nas terras do mar. O SENHOR sairá como valente, despertará o Seu zelo como homem de guerra; clamará, lançará forte grito de guerra e mostrará Sua força contra os Seus inimigos.” (Isaías 42: 12-13)

O nosso culto a Deus é um dos maiores privilégios da nossa vida. O louvor honra a Deus. Mas também nos edifica e destrói os poderes do inferno! É algo estupendo pensar que posso louvar ao Senhor, ter a Sua paz enchendo a minha alma, e ouvi-Lo dizer que sou um homem poderoso e de valor. Tudo o que fiz foi adorá-Lo. Ele destruiu os poderes do inferno para me favorecer e me deu os “gols” da vitória.

Tudo isso, porém, não é tudo. É apenas o necessário para fazer com que a nossa perspectiva se volte para a guerra espiritual, para que ela não mais contemple o que é religioso e carnal, mas para firmá-la na visão do Reino. Arrependa-se, mude o seu modo de pensar, e você verá quão “próximo” de você o Reino de Deus de fato está.

Nascemos numa guerra. Não há tréguas, não há períodos de férias, e nenhuma folga. O lugar mais seguro é estarmos no centro da vontade de Deus, onde estamos em profunda intimidade com Ele. Neste lugar Ele somente permite que enfrentemos as batalhas que estamos plenamente capacitados a vencer.

Não somente este lugar é o mais seguro, é também o lugar de maior regozijo para o crente. Fora da intimidade com Deus provavelmente estaríamos desperdiçando a oportunidade de participarmos do acontecimento mais grandioso na terra. Mas esse é o assunto de nosso próximo capítulo.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DE FRENTE COM A RAIVA

A raiva é claramente oposta à paciência, essa habilidade de se manter emocionalmente estável e tolerante, diante de incômodos e dificuldades. Apesar dos estragos que pode causar, cientistas apostam que é possível usar esse sentimento de forma saudável.

Alguns autores argumentam que a raiva tem seu lado positivo, desde que seja usada de maneira adequada. “Qualquer um pode irritar-se, isso é fácil; difícil é zangar-se com a pessoa certa, na medida certa, no momento certo, com o propósito certo”, escreveu Aristóteles, há mais de 2000 anos, em sua obra clássica A arte da retórica. Ter essa medida, entretanto, não é fácil. Justamente por isso tendemos a associar a ira ou mesmo a irritação à destrutividade – o que é bastante compreensível, já que essa emoção realmente pode destruir relacionamentos e carreiras profissionais. O segredo para reverter esse quadro pouco promissor parece estar na clareza a respeito de quando, onde, como e por que dar vazão a essa emoção – sem que ela nos controle.

Um estudo particularmente interessante sobre a raiva veio na esteira dos ataques terroristas de 11 se setembro de 2001, nos Estados Unidos. A psicóloga Jennifer Lerner, atualmente na Universidade de Harvard, reuniu informações sobre as emoções e atitudes de aproximadamente mil americanos adultos e adolescentes apenas nove dias após os atentados e continuou o acompanhamento nos anos subsequentes. Ela descobriu que as pessoas que se sentiram irritadas com o terrorismo foram mais otimistas sobre o futuro do que aqueles que simplesmente tinham medo de novos ataques. Os homens do estudo se mostravam mais irritados que as mulheres, e eram geralmente mais otimistas.

ESTUDOS SOBRE A RAIVA

Em um estudo de laboratório, publicado no periódico científico Biological Psychiatry, Jennifer Lerner descobriu que aqueles que sentem raiva em vez de medo numa situação estressante têm resposta biológica menos intensa, com menor variação da pressão arterial e dos níveis de hormônios do estresse. Isso mostra que quando você está em uma situação enlouquecedora e sua raiva é contextualizada, a emoção não é necessariamente ruim – desde que fique restrita a aquela situação.

“Por sua natureza, a raiva tende a ser uma emoção bastante energizante, e desde que bem encaminhada pode ajudar promover mudanças na vida pessoal e social”, diz o psicólogo Brett Ford, na Universidade da Califórnia, em Berkeley. Por exemplo: sentir raiva da própria preguiça ou impulsividade, que constantemente trazem problemas à própria pessoa, pode impulsionar a mudança desses comportamentos.

Nesse caso, a raiva tem o importante papel de criar uma separação psíquica entre o eu e aquilo que incomoda – no caso, a preguiça ou impulsividade. Essas características não “são” a pessoa e, dessa maneira, podem ser arrefecidas, transformadas. É como se a ira estivesse direcionada para curar em vez de ferir. Mas é importante respeitar o “prazo de validade” da raiva. Remoer a irritação (ainda que seja consigo mesmo, com atitudes depreciativas e autopunitivas), sem se direcionar para alterar aquilo que incomoda costuma ser meramente autodestrutivo.

A raiva também pode ser de vital importância para mobilizar apoio para um movimento social. A psicóloga Nicole Tausch, professora da Escola de Neurociência e Psicologia da Universidade de St. Andrews, no Reino Unido, afirma que em contextos políticos, principalmente quando as pessoas se engajam de manifestações pacíficas na esperança de convencer o adversário a corrigir injustiças sociais, a raiva pode sinalizar que os participantes se sentem ligados e representados pelo sistema político. “Expressões de raiva durante os protestos, podem ser vistas não como ameaças ao sistema, mas como sinais de uma democracia saudável”, afirma.

Um estudo recente conduzido pelo psicólogo Andrew Livingstone, da Universidade de Stirling, no Reino Unido, enfatiza a ideia de que, em caso de ameaça, a raiva pode ter efeito protetor, fazendo com que as pessoas se mobilizem para se protegerem não só a si mesmas, mas também umas às outras. Para chegar a essa conclusão sua equipe trabalhou com dois grupos de pessoas: no primeiro deles os participantes tinham em comum a procedência do sul do País de Gales; no segundo a formação era aleatória. Nos dois casos foram medidas as reações emocionais desencadeadas nos participantes ao ser dito aos voluntários que o governo retiraria o apoio oferecido a moradores do sul do País de Gales. Irritadas, as pessoas passaram a se articular buscando formas de reverter esse quadro.

CONQUISTA DA PACIÊNCIA

É possível adotar práticas que ajudam a manter a serenidade e o relaxamento, nos momentos mais críticos. O diferencial está no treino: exercitar conscientemente uma atitude calma quando estamos tranquilos é fundamental para enfrentar as tormentas com maior equilíbrio

ASSUMA – Não adianta negar, esconder ou disfarçar a irritação. Simplesmente admitir o que está sentindo e aceitar que isso às acontece, sem fazer julgamentos, em muitos casos é suficiente para acalmar-se.

CHEGUE “PERTO” – Entre em contato com a sensação incômoda. Mesmo em meio ao caos emocional, tome alguns minutos para você. Sente-se em silêncio, preste atenção à sua respiração, deixe que a sensação de raiva ou tensão se manifeste e apenas a “observe” o que sente por alguns minutos.

DEIXE A POEIRA ABAIXAR -Tente não pensar sobre a raiva nem falar dela na hora da irritação, isso só vai deixá-lo ainda mais enfurecido.

AFASTE-SE – Se acha que pode fazer algo de que possa se arrepender no futuro, fique longe do objeto de raiva. Tenha em mente que a fúria passa, mas os estragos feitos podem permanecer por muito tempo.

CUIDADO COM A METRALHADORA – Em geral, evitamos despejar a ira sobre as figuras de autoridade que nos incomodam, mas podem promover alguma retaliação. Parece mais fácil descontar o mau humor sobre aqueles que não podem se defender, como os que ocupam cargos subalternos, ou pessoas próximas, que sabemos que nos amam (filho, pais, amigos ou cônjuges).

NÃO JUSTIFIQUE – Passado o auge da raiva, é comum buscarmos estratégias para culpabilizar o outro, mas a verdade é que somos responsáveis por nossas escolhas e atitudes. Não importa o que o outro fez – ele não obrigou você a fazer o quer que fosse.

RESPIRE – A primeira pista da perda de controle é a alteração da respiração. Por isso, quando se sentir irritado, preste atenção na cadência com que inspira e expira e no percurso que o ar faz dentro do seu corpo.

FAÇA O QUE LHE FAZ BEM – Em vez de continuar sob o efeito desgastante da situação que provocou tanto estresse, mude o foco. Desligue-se conscientemente do que o incomoda e dedique-se a fazer algo que lhe traga bem-estar: fique perto da natureza, leia um livro ou assista a um filme, de preferência divertido

CONSIDERE OUTRO JEITO DE AGIR – Passado o momento irritação, pense na situação que provocou o descontrole e imagine-se exatamente no mesmo contexto agindo de outra forma com mais serenidade, escolhendo as palavras e o tom que realmente gostaria de usar.

PROCURE AJUDA – Falar sobre o que o aborrece com amigos ou colegas não costuma trazer grandes benefícios, principalmente se a irritação acontece com frequência. O mais indicado é tratar do assunto numa sessão de psicoterapia, num ambiente protegido, em que a situação possa ser ressignificada com a ajuda de um psicólogo.

OUTROS OLHARES

A VIDA ENTRE MUROS

Como é a rotina dos internos da instituição para doentes psiquiátricos, localizada em Niterói

Quando chegou ao Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico Henrique Roxo, em Niterói, Rio de Janeiro, Daniel Coutinho, então com 41 anos, era recluso, não gostava de conversar e, sobretudo, era obcecado pela leitura de livros de espiritismo. Nunca apresentou sinal de agressividade. Seu laudo de sanidade mental informava que ele era portador de um transtorno de personalidade esquizotípica, caracterizado pela dificuldade de manter relacionamentos. Fora internado em abril de 2015 depois de cometer um crime atroz: matara o pai, o cineasta Eduardo Coutinho, a golpes de faca. Com a mesma arma, feriu a mãe, Maria das Dores, que sobreviveu. Ao seguir a rotina do hospital — que previa o tratamento psiquiátrico e a medicação que jamais tomara antes da tragédia —, Daniel Coutinho começou a apresentar melhora. Tocava violão nas horas livres e, jornalista de formação, se dispôs a confeccionar os convites para as festas de Carnaval no hospital. Não demorou até se tornar o “repórter” da unidade.

Houve um dia em que, espontaneamente, Coutinho falou sobre o crime que cometera. Disse que se arrependia. No segundo ano de tratamento, passou a ter direito às chamadas “saídas terapêuticas”. Visitava o Centro de Atenção Psicossocial (Caps) e passou a frequentar o Shopping Rio Sul, em Botafogo, parada obrigatória para comer pizza, seu prato predileto. Em maio último, foi autorizado a deixar o Henrique Roxo e mudar-se para uma residência terapêutica, onde tem uma vida praticamente independente. No hospital em que vivia encarcerado, é lembrado como um “filho” ou um “passarinho que precisava voar”. Deixou saudade.

Outros 97 internos (80 homens e 17 mulheres) que cumprem medidas de segurança no Henrique Roxo aguardam o dia em que, assim como Coutinho, deixarão o encarceramento. O hospital, sediado em Niterói desde 1968, é o que restou do Heitor Carrilho, o mais antigo hospital do sistema prisional brasileiro, inaugurado em 1921, no centro do Rio de Janeiro. Em 1975, fundiu-se ao Henrique Roxo, mantido pelo governo do Rio e conveniado ao Sistema Único de Saúde (SUS). Em 2016, a unidade do centro do Rio foi desativada. Esta equipe de reportagem foi a primeira autorizada a visitar as instalações do local, fotografar e entrevistar seus funcionários desde sua inauguração, há mais de 50 anos. Além de pioneiro no atendimento de custódia, o hospital também foi o primeiro a colocar em prática o sistema de saídas terapêuticas, como aquelas a que Coutinho teve direito antes de deixar a internação.

Os internos do Henrique Roxo são considerados inimputáveis — ou seja, sem a plena capacidade de entender os crimes que cometeram por padecerem de doenças psiquiátricas. Ao serem admitidos, cumprem a chamada “medida de segurança”, em que se recomenda o tratamento compulsório em hospital psiquiátrico sob custódia ou em ambulatórios, a depender da gravidade do delito. O tempo mínimo de internação é de um ano. O máximo, depende do juiz.

Cada paciente tem um relatório psicossocial que contempla informações colhidas pela equipe com parentes, além da rede de saúde mental que vai atendê-lo depois que deixar o hospital de custódia. Um denominador comum entre a maior parte dos internos é o fato de terem apresentado, ao longo da vida, sintomas de doença psiquiátrica não captados pela família ou por pessoas próximas. Por isso, não recebiam tratamento adequado. “Mais de 90% dos pacientes cometeram delitos porque não estavam inseridos nas unidades de saúde mental. Para piorar, a crise contribuiu para o desabastecimento de medicamentos em centros de atenção psicossocial. Há alguns casos em que o paciente vai morar na rua, tornando-se agressivo”, contou a psicóloga Fernanda de Oliveira Guimarães Santos. No Henrique Roxo, 22% dos internos não têm referência ou vínculo familiar. A equipe do hospital sai então em busca de um padrinho para o paciente. Se não encontra, requer o benefício do INSS para o interno. O valor ajuda a pagar por uma vaga em residência terapêutica.

As mulheres são menos numerosas — apenas 17 entre 90 internos — e ficam em alas separadas dos homens.

Vinte e cinco passos separam o pavilhão hospitalar de dois andares do Henrique Roxo do acesso à Rua Heitor Carrilho, que leva esse nome em homenagem ao psiquiatra que dirigiu o primeiro manicômio judiciário do país. Depois de passar por dois portões de ferro, o primeiro de quase 5 metros e outro de 4 metros de altura, permanentemente fechados, há dois amplos corredores com azulejos brancos. O pé-direito dos cômodos tem cerca de 4 metros. Os locais são limpos, pelo menos, duas vezes ao dia. Neles, há várias portas acopladas com um visor em acrílico que permite ver o que acontece no ambiente interior, medida adotada há dez anos. A ideia foi do inspetor penitenciário Márcio Felipe Pombo, de 46 anos, atual diretor da unidade. Há outras portas de ferro vazadas, fechadas apenas à noite, por motivos de segurança.

Tudo deve ser pensado para que nada sirva como instrumento para ferir ou matar. As escovas de dente têm de ser cortadas pela metade, pois, se afiadas, podem virar uma faca improvisada. Os vasos sanitários não chegam a ser os “bois”, os buracos no chão comuns em presídios, mas uma pequena parede de cimento, a cerca de 25 centímetros do piso. A justificativa é similar à das escovas: qualquer pedaço de louça pode servir como arma. Apesar de raros, há casos de suicídio. Não houve nenhum nos últimos três anos, segundo a direção, mas, em 2016, foram dois. Certa vez, um paciente chegou a desfiar uma parte da costura da bermuda e tecer uma linha mais resistente para tentar se enforcar. Ele fazia isso no quarto, na hora de dormir. Foi pego durante uma revista.

Na ala masculina, os internos que têm bom comportamento e melhor controle mental são designados “olheiros”. Dormem nas enfermarias e avisam ao menor sinal de problema. Do toque de recolher, às 20 horas, quando os portões das galerias são trancados e a circulação pelos corredores é proibida, até as 7 horas da manhã do dia seguinte, eles se transformam em auxiliares da direção. Um dos pacientes, apelidado de Naval, chega a prestar continência aos inspetores penitenciários ao informar que está tudo sob controle.

Pombo, o diretor, é conhecido pelo talento para acalmar os internos mais agitados. Um, em especial, lhe desperta saudade. Com 120 quilos distribuídos em 2,05 metros de altura, Bebezão, como foi apelidado no local, deu entrada na emergência da unidade numa tarde de 30 de dezembro de 2015, véspera de Ano-Novo. “Ele chegou aqui em surto. Gritava que iam jogar uma bomba. Tentou agredir um servidor e, por ser grandão, ninguém queria tocar nele”, contou Pombo, que, à época, era chefe da segurança. Na confraternização de Ano-Novo, Pombo se encheu de coragem e abriu a grade onde estava o interno, ainda alterado. Ofereceu-lhe uma Coca-Cola. “Ele se sentou e cruzou as pernas. Pegou a garrafa e a segurou com as duas mãos. Parecia uma mamadeira para um bebê tamanho família. Daí o apelido: Bebezão. Ele passou a confiar em mim e, com o apoio de cinco colegas, tomou a injeção com tranquilizantes”, relembrou o diretor, ao sacar o celular e mostrar as fotos da despedida de Bebezão. Pombo se emocionou ao ver as imagens. “Ele faz falta aqui dentro. Era uma pessoa pura. Comia à beça! Dava o maior prejuízo.”

Bebezão chegou ao Henrique Roxo vindo do Instituto Philippe Pinel, no Rio. Lá, ao receber a visita de uma tia, que teria gritado com ele, ficou irritado e surtou. Acabou empurrando a senhora, que caiu e bateu a cabeça. Sem perceber a força que empregara, matou a tia.

Mas nem todos os casos são acidentais. Há aqueles maquinados por mentes consideradas perigosas e que requerem atenção redobrada. No banho de sol de uma manhã de agosto, durante uma visita à unidade, o clima de vigilância sobre determinados internos é visível. Um, em específico, é alvo de maior atenção: Marcelo Costa de Andrade, conhecido como o Vampiro de Niterói. O apelido lhe foi dado na década de 1990, quando confessou ter matado 13 meninos. Hoje, aos 52 anos, está há 28 no Henrique Roxo. Um funcionário revelou à reportagem que ele ainda sente atração por crianças. “Ele ficou louco em um dia de visita quando viu o filho de um interno. Tivemos de tirá-lo do pátio”, contou o servidor, que pediu para não ser identificado, ao relatar a ida de um adolescente ao local.

Com olhar intimidador, Andrade fica atento aos movimentos dos guardas o tempo todo. Na visita feita pela reportagem, ele chegou a se aproximar para fazer perguntas. Por determinação da direção, não estava autorizado a dar entrevistas. Depois de suas dúvidas serem sanadas, Andrade voltou ao lugar onde estava sentado, sempre sozinho. Não fez amigos. Recentemente, chegou ao hospital uma carta endereçada a ele. Como de praxe, a correspondência foi aberta. Estava escrita em inglês. O remetente dizia ser um serial killer americano admirador do brasileiro.

Qualquer surto psicótico de um interno pode servir como faísca para um desarranjo coletivo. Pombo contou que, certa vez, um paciente teve uma crise e agrediu outro, que revidou. “Quando fomos separá-los, o que reagiu disse: ‘Seu Márcio, não tive culpa. Eu surtei no surto dele’. É realmente isso que acontece. Um pode instigar o outro. Cada um foi para uma enfermaria individual, ter um tratamento especial da enfermagem, que reforça a medicação de acordo com as recomendações do psiquiatra de plantão. Não é castigo. Ficam lá até se estabilizarem”, explicou o diretor, negando se tratar de uma solitária.

Há duas atividades de tensão no hospital: a barbearia e as refeições. Há dois internos “barbeiros”, que têm habilidades mínimas para o ofício e estão estabilizados mentalmente a ponto de poderem usar uma lâmina ou a máquina de cortar cabelo, sempre sob supervisão da segurança. Há um ano e dois meses no Henrique Roxo, o barbeiro Cabeludo se gabou: “A maioria quer cortar cabelo comigo. Gosto do que faço. Quero até fazer curso de cabeleireiro quando sair daqui”. Cada paciente tem um aparelho separado em uma caixa com seu nome escrito. Cabeludo foi internado depois de uma tentativa de homicídio. Mas se justificou: “Ouço vozes pedindo que eu faça coisas erradas”. Disse que gosta do hospital, principalmente da comida, e “mantém o cabelo longo por ser homossexual”.

Entre a cozinha e o refeitório existe uma grade. Mesmo com a divisória, a cozinheira Lídia Maria Borges Franklin, de 67 anos, confessou sentir medo, embora esteja há oito meses no lugar. Ela sabe que ali há pessoas que mataram algum dia e isso a assusta. “Até que me obedecem direitinho, elogiam minha comida. Me chamam de tia. Sempre me pedem frango assado. Faço duas vezes por mês. Não querem que eu vá embora porque dizem que minha comida é a melhor que eles já comeram”, contou ela, que entrou para cobrir uma licença de quatro meses, mas acabou contratada porque a outra cozinheira não quis voltar.

Apenas o fornecimento de comida é terceirizado. Os serviços de limpeza, jardinagem e pequenos reparos são feitos pelos próprios pacientes. Foi uma forma de resolver a escassez de recursos na unidade. Com o dinheiro da venda de camisetas pintadas pelos internos, são compradas tintas, produtos de beleza e de limpeza para as atividades. Quando há sobras, compram-se fumo de rolo e cigarros. “Tentamos proibir o fumo, mas a equipe percebeu que eles ficavam ainda mais ansiosos. O jeito foi liberar, de acordo com a recomendação médica, e vigiar”, justificou o diretor.

As mulheres são as que mais gostam de fumar. Apesar de minoria, também são as mais agitadas e barulhentas. Algumas falam pelos cotovelos. Mas há aquelas que, afetadas pelos sedativos, guardam um olhar distante. Uma delas gosta de pintar o cabelo de uma cor diferente a cada semana. Ela se aproxima de “Seu Márcio”, o diretor, e o toca no braço para pedir tinta nova quando as madeixas ainda estão pintadas de roxo. Um subdiretor já foi repreendido pela esposa que encontrou uma nota fiscal com o valor da compra de uma tintura.

A fuga da realidade é comum nos transtornos. Clark Kent, um paciente que dizia morar na Lua, marcou a carreira da psicóloga Fernanda Santos. Ele deu entrada na unidade em 26 de agosto do ano passado. “Ele tinha linguagem rebuscada. Comecei, com a ajuda da assistência social, a procurar informações sobre sua identidade. Ele falava sempre do ‘Boneco’ que, na verdade, seria o dono do corpo dele. Reclamava que ‘Boneco’ tomava muita barrigudinha (cachaça) com guaraná. Por isso, estava com cirrose. Ele dizia que, como Clark Kent, moraríamos na Lua. Criou uma realidade paralela”, lembrou a psicóloga.

Em agosto, William Augusto da Silva sequestrou um ônibus na Ponte Rio-Niterói e foi morto por um sniper do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope). Antes do fim trágico, contou a parentes que ouvia “vozes dentro da cabeça”. Na madrugada do crime, mandou uma mensagem aos pais avisando que atentaria contra a própria vida. A família percebeu que o jovem andava deprimido, mas não imaginou que precisasse de tratamento psiquiátrico. “Ele tinha depressão, e a mãe relata que passou a ter um comportamento estranho. Mas não tiveram a iniciativa de levá-lo ao médico”, disse a assistente social Tânia Dahmer, da equipe de perícia forense do Instituto de Perícias Heitor Carrilho, ligado à Secretaria de Administração Penitenciária (Seap). A psiquiatra Cristina Erthal, que trabalha na Seap desde 2001, disse que a conscientização das famílias sobre os transtornos mentais poderia evitar a maioria dos crimes. “As famílias precisam prestar atenção aos sinais. Quem tem algum tipo de problema mostra os sintomas, mas há quem finja não ver. Qualquer um pode surtar, mas desenvolver a doença é outra coisa”, explicou. Segundo ela, o hospital de custódia não é um “depósito de pacientes irreversíveis”.

GESTÃO E CARREIRA

PROMOÇÃO OU CILADA?

O que fazer quando a empresa quer aumentar suas responsabilidades, mas não oferece nenhum tipo de contrapartida financeira no curto prazo?

Ser promovido com direito a aumento de salário e novo cargo é sonho de muitos funcionários, mas nem sempre, as oportunidades de crescimento aparecem embrulhada nesse tipo de papel de presente. Em muitos casos, os profissionais passam a acumular responsabilidades sem receber uma contrapartida imediata, seja porque a liderança quer testar sua capacidade antes oficializar o aumento, seja porque os recursos financeiros estão limitados naquele momento. Essa realidade se torna ainda mais comum em um cenário de crise econômica, devido ao enxugamento das equipes. Isso não é um privilégio do mercado brasileiro. Segundo uma pesquisa feita pela consultoria Robert Half nos Estados Unidos em 2018, 39 dos empregadores admitiram que essa é uma prática comum e 649 dos profissionais disseram estar dispostos a passar por essa situação.

O grande desafio para quem recebe uma “promoção fantasma” é saber diferenciar se a movimentação trará chances de subir a escada corporativa ou se será um mero acúmulo de funções com um gostinho amargo de não ser reconhecido. Movimentações sem contrapartida financeira podem ser uma excelente oportunidade de mostrar comprometimento com a empresa e conquistar a confiança da liderança, mas não devem ser aceitas pelos funcionários a qualquer custo. “Se a empresa mantém a pessoa no mesmo lugar, e ela apenas acumula responsabilidades, aí não é tão interessante”, afirma João Villa, especialista em gestão de pessoas e processo da consultoria especializada e pequenas empresas Blue Number.

ALÉM DE DINHEIRO

Para valer a pena, a proposta deve atender a, pelo menos, os seguintes benefícios: autonomia para toma decisões, exposição a diferentes círculos de relacionamento e novos aprendizados alinhados com os objetivos profissionais. Se houver essas experiências, será mais provável que o profissional impulsione sua carreira e consiga melhorar seu currículo, mesmo sem ter uma mudança de cargo. Com isso, ficará mais fácil conseguir uma contrapartida dentro da empresa ou até mesmo em outra posição no mercado no futuro.

Thaís Barreto de Souza, de 24 anos, enfrentou esse desafio. Formada em ciências contábeis, ela entrou em uma empresa importadora de utilidades domésticas como auxiliar de cobrança em fevereiro de 2018. Apenas um ano depois conseguiu um cargo de líder do setor financeiro, com um aumento de 40% no salário. Mas o processo para chegar lá não foi fácil. Primeiro, foi promovida a analista, mas com função de coordenação da área de cobrança, comandando uma equipe de cinco pessoas. “Eu sabia fazer todo o serviço, e a empresa disse que eu teria a oportunidade de coordenar o departamento. Se desse certo, havia a possibilidade de um aumento, mas não era certeza”, diz Thaís. Nesse processo, ela contou com o apoio de um consultor de gestão contratado pela empresa, que oferecia sessões

semanais de mentoria. Seis meses depois, Thaís assumiu também a coordenação da área de contas a pagar, passando a liderar uma equipe de nove pessoas. Com um ano completo na posição de coordenação, veio o esperado aumento salarial e o crachá de líder. “Em um período curto tive muitas oportunidades e o total suporte da empresa, e isso eu não teria em qualquer lugar”, diz Thaís. O dinheiro fez falta, mas não chegou a atrapalhar a vida pessoal, porque ela mora com os pais e conta com o apoio financeiro da família.

PERÍODO LIMITADO

Para quem está vivendo uma situação parecida, um ponto importante é avaliar o tempo de duração dessa experiência. De acordo com os especialistas em carreira, o ideal é que a empresa se posicione em relação ao desempenho do profissional até seis meses depois da promoção fantasma. Nessa conversa, o funcionário deve saber se está correspondendo às expectativas, o que é esperado dele e como poderia melhorar.

Mesmo que a companhia não consiga dar um aumento após seis meses, a situação não deve passar de um ano sem uma definição. “Pode ser que a empresa não enxergue que a pessoa tem as habilidades necessárias ou pode haver outra restrição. É fundamental ter uma conversa transparente”, diz Roberto Picino, diretor executivo da consultoria recrutamento Michael Page.

Embora falar sobre remuneração ainda seja um tabu, os especialistas recomendam que o profissional traga o assunto à tona na hora que for convidado para assumir a nova função e mantenha um diálogo aberto nos meses seguintes. O ideal é mostrar que está disposto a aceitar o desafio, mas deixar claro que gostaria de ter uma conversa sobre seu crescimento profissional no futuro. “A pessoa deve questionar se existe a perspectiva de receber um aumento no médio prazo ou não. Senão o gestor vai pensar que ela está feliz e não está esperando nada”, diz Bruno Andrade, líder de soluções digitais de RH da Mercer.

Na hora de conversar sobre assunto, evite apelar para o senso de justiça da companhia. O melhor é levantar dados concretos sobre seu desempenho para demonstrar que você está fazendo um bom trabalho. “Fica mais fácil convencer a liderança quando o profissional mostra indicadores positivos, como número de novos clientes, melhorias no clima e redução nas reclamações”, diz Costabile Matarazzo, consultor de liderança da How2do.

CONTINUAR OU SAIR?

Levar em conta os objetivos pessoais e profissionais é fundamental na hora de decidir aceitar ou não uma promoção sem contrapartida. Foi o que aconteceu com Alexandre Abdalla, de 34 anos, formado em engenharia da computação. No início da carreira, ele já havia ficado dois anos em um cargo de gestão sem receber aumento, em uma consultoria de tecnologia. Depois de trabalhar em um grande banco vivenciou a mesma situação. Contratado como analista de sistemas, passou a atuar num cargo de gerente de projetos, liderando equipes sem nenhuma compensação financeira ou mudança de cargo.

Na ocasião, o banco havia acabado de passar por uma fusão com outra instituição financeira e deixou claro que não faria nenhum tipo promoção nos dois anos seguintes. Como Alexandre era recém-casado e sua esposa estava empreendendo na área de comércio, ainda sem ter retorno do negócio, ele avaliou que seria mais interessante deixar o banco para buscar uma posição com a remuneração adequada em outra empresa. “Eu já havia trabalhado pela filosofia de crescimento e isso me trouxe ganhos, mas naquele momento eu precisava cuidar do lado financeiro também”, afirma. Com a mudança para uma consultoria, ele conseguiu um cargo de gerente para exercer a mesma função que tinha no banco, com aumento salarial de 80%.

SINAIS DE ALERTA

Depois de avaliar as prioridades as emoções também devem ser levadas em conta. “O mais importante é não fique uma sensação de injustiça ou exploração, até porque isso pode impactar o desempenho do profissional e prejudicar sua carreira no futuro”, diz Maria Elisa Moreira, psicóloga especialista em liderança nas organizações e professora no Insper. Nessa hora, vale a pena fazer uma leitura do contexto para avaliar se existe uma boa razão para a falta de contrapartida. Se a empregadora está vivendo um momento de restrição financeira ou testando um nova frente de atuação, pode ser interessante aceitar responsabilidades sem um retorno imediato, “Nesses casos a empresa pode não conseguir reconhecer no ato, mas vê o potencial daquele profissional e pode reconhecer no futuro”, afirma Cristina Fortes, diretora da consultoria Lee Hecht Harrison.

Agora, caso a companhia tenha um histórico de não cumprir promessas e não esteja promovendo ninguém no último ano, é preciso acender o sinal vermelho. A lei trabalhista prevê que o funcionário contratado deve realizar todas as funções compatíveis com seu preparo técnico, mas as empresas não devem gerar um acúmulo de tarefas nem colocar o empregado em uma área incompatível com o contrato de trabalho estabelecido.Quando isso ocorre, é possível buscar a Justiça do Trabalho para obter uma compensação financeira. Para isso, é necessário comprovar que existia outra pessoa na empresa realizando exatamente as mesmas funções com um salário superior para conseguir uma equiparação salarial, o que nem sempre é fácil. “Quando a empresa tem um plano de cargos e salários definido, é mais fácil verificar, mas na maioria das vezes isso não acontece”, diz Beatriz Tilkian, advogada trabalhista do escritório Gaia Silva Gaede Advogados. Os trabalhadores que conseguem ganhar na Justiça obtêm a correção do salário e de todos os benefícios, como 13°salário, férias e horas extras. Em casos de má-fé por parte da empresa, é possível ainda buscar compensação por danos psicológicos e morais.

5 ATITUDES PARA LIDAR COM UMA PROMOÇÃO FANTASMA

1. Avalie o contexto interno para verificar se existe uma boa razão para não receber aumento

2. Descubra se terá mais autonomia, networking e aprendizado com a nova posição

3. Converse claramente sobre as expectativas da empresa e a possibilidade de aumento no futuro

4. Verifique se o ganho de aprendizado está alinhado com seu plano de carreira e momento de vida

ALIMENTO DIÁRIO

QUANDO O CÉU INVADE A TERRA

CAPÍTULO 13 – NOSSA IDENTIDADE NESTE MUNDO

Enquanto a maior parte da Igreja ainda está procurando tornar-se tal como Jesus era, a Bíblia declara: “segundo Ele é, também nós somos neste mundo.” (1 João 4:17)

Jesus foi o servo sofredor, cujo destino foi a cruz. Mas Jesus ressuscitou triunfantemente, ascendeu aos céus, e foi glorificado.

Na revelação de Jesus Cristo, isto é, no livro de Apocalipse, João O descreveu da seguinte maneira: “A Sua cabeça e cabelos eram brancos como alva lã, como neve; os olhos, como chama de fogo; os pés, semelhantes ao bronze polido, como que refinado numa fornalha; a voz, como voz de muitas águas.

A declaração: “segundo Ele é, também nós somos neste mundo” está bem distante do que qualquer um de nós possa imaginar, especialmente à luz dessa descrição de Jesus glorificado feita no Apocalipse. Contudo, o Espírito Santo foi enviado especificamente com este propósito, ou seja, para que alcançássemos a “medida da estatura da plenitude de Cristo”.

O Espírito Santo veio com uma missão fundamental e no tempo certo. Durante o ministério de Jesus foi dito que: “O Espirito até aquele momento não fora dado, porque Jesus não havia sido ainda glorificado.” O Espírito Santo nos conforta, nos dá os dons espirituais, nos faz lembrar do que Jesus disse, e nos reveste com poder. E Ele faz tudo isso para que sejamos tal como Jesus. Esse é o seu principal objetivo. Assim, por que o Pai não O enviou antes de Jesus ser glorificado? Porque antes de Jesus estar em seu estado glorificado não havia um modelo celestial para nós! Assim como um escultor olha para um modelo e trabalha com a pedra para produzir uma semelhança, assim o Espírito Santo olha para o Filho glorificado e nos molda segundo a Sua imagem. Segundo Ele é, também nós somos neste mundo.

VIDA CRISTÃ

A vida cristã não se encontra na Cruz. Ela é encontrada por causa da Cruz. É a ressurreição do Senhor que traz energia para o crente. Será que isso diminui o valor da Cruz? Não! O sangue derramado do Cordeiro sem máculas acabou com o poder da presença do pecado em nossa vida. NÃO TEMOS NADA SEM A CRUZ! Contudo, a Cruz não é um fim, é um início, é a entrada para a vida cristã. Até para Jesus a cruz foi algo que Ele teve que suportar para que pudesse obter a alegria do outro lado! “Os cristãos, em sua grande maioria, ainda estão chorando aos pés da cruz. A consciência da humanidade permanece fixada no Cristo que morreu, não no Cristo que vive. As pessoas estão se voltando para o Redentor que era, não ao Redentor que é.”

Suponha que eu tivesse sido perdoado de uma dívida financeira. Poder-se-ia dizer que eu fui tirado “do vermelho”. Entretanto, depois de minhas dívidas terem sido perdoadas, eu ainda “não estou no preto”. Não tenho nada ainda, até que aquele que perdoou a minha dívida me dê algum dinheiro que eu possa chamar de meu dinheiro. Foi isso que Cristo fez por você e por mim. O seu sangue eliminou a minha dívida do pecado. Mas a sua ressurreição levou-me “para o preto”.

Por que isto é importante? Porque isto altera profundamente o nosso senso de identidade e propósito.

Jesus tornou-se pobre para que eu me tornasse rico. Ele sofreu com as chibatadas que lhe causaram as pisaduras para que eu me libertasse de toda aflição, e Ele tornou-se pecado para que eu me tornasse a justiça de Deus. 252 Por que, então, deveria eu procurar tornar-me como Ele era, uma vez que Ele sofreu para que eu pudesse tornar-me como Ele é? Em algum ponto a realidade da ressurreição de Jesus tem de vir a fazer parte da nossa vida; temos de descobrir o poder da ressurreição que há para todo aquele que Nele crê.253

A CONTRAFAÇÃO DA CRUZ

Jesus disse: “Se alguém quer vir após Mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-Me.” O não entendimento desse chamado tem levado muitos a seguir a sua vida de negação a si mesmo, mas param por aí, não prosseguindo para a Sua vida de poder. Para tais pessoas a caminhada para a cruz resume-se em procurar crucificar a sua natureza pecaminosa assumindo um quebrantamento desprovido de alegria como evidência da cruz. Mas temos que seguir o Senhor por todo o caminho que Ele percorreu, até alcançarmos um estilo de vida cheio do poder da ressurreição!

Quase toda religião tem uma cópia da caminhada para a cruz. Negação de si mesmo, humilhar-se e outras posturas semelhantes são copiadas pelas seitas deste mundo. As pessoas do mundo admiram aqueles que têm disciplinas religiosas. Elas aplaudem o jejum e respeitam aqueles que assumem a pobreza ou suportam enfermidades para o bem da sua espiritualidade. Mostre-lhes, porém, uma vida plena de alegria por causa do poder transformador de Deus, e elas não apenas aplaudirão, mas também desejarão ser como você. A religião não tem como imitar a vida de ressurreição com a sua vitória sobre o pecado e o inferno.

Quem toma uma cruz inferior fica constantemente com muita introspeção e com um sofrimento por si mesmo induzido. Mas a cruz não é auto aplicada; Jesus não se encravou a Si mesmo na cruz – ele foi crucificado. Os cristãos que caem na armadilha dessa contrafação constantemente ficam falando de sua fraqueza. Se o diabo nos encontra sem nenhum interesse pelo mal, então ele procura fazer com que ponhamos a nossa atenção em nossa indignidade e em nossa falta de capacidade. Isso se nota, em especial, em reuniões de oração em que as pessoas procuram apresentar um grande quebrantamento diante de Deus, esperando assim conseguir um avivamento. Chegam até mesmo a confessar de novo velhos pecados já confessados, “em busca de uma real humildade”…

Em minha busca por Deus, muitas vezes fiquei preocupado comigo mesmo! Era-me fácil pensar que a condição de humildade seria estar sempre consciente de minhas próprias falhas e fraquezas. Mas não é nada disso! Se eu me torno o principal enfoque da minha atenção, falando incessantemente da minha fraqueza, então o que fiz foi entrar na forma mais sutil de orgulho. A repetição de frases, tais como, “não sou digno” torna-se uma repugnante substituição das declarações sobre a dignidade de Deus. Por estar totalmente voltado para a minha própria condição de iniquidade, de falta de retidão, o inimigo conseguiu fazer com que eu deixasse de prestar um eficaz serviço ao Senhor. É uma perversão da verdadeira santificação a situação em que, por um processo de introspeção, aumento a minha auto estima espiritual, mas faço com que a minha eficácia na demonstração do poder do evangelho diminua.

O verdadeiro quebrantamento causa uma completa dependência a Deus, movendo-nos a uma radical obediência que libera o poder do evangelho ao mundo ao nosso redor.’

MOTIVAÇÕES IMPURAS

Lutei muitos anos com a auto avaliação. O principal problema era que eu nunca encontrava nada que fosse bom em mim. Isso sempre me causava desânimo, o que me levava à dúvida, que acabava se transformando em incredulidade. De algum modo eu havia desenvolvido a noção de que era assim que eu me santificaria – demonstrando uma tremenda atenção às minhas próprias motivações.

Pode soar um tanto estranho, mas eu não mais analiso as minhas motivações. Isso não compete a mim. Procuro dar duro para obedecer a Deus em tudo que tenho que fazer. Se me afastei em algum ponto, compete ao Senhor mostrar-me isso. Depois de muitos anos em que procurei fazer o que somente Ele poderia fazer, descobri que eu não era o Espírito Santo. Não posso convencer-me e libertar-me, eu mesmo, do pecado. Será que isso então significa que eu nunca deva considerar minhas motivações impuras? Não. Ele, com muito ímpeto, tem me mostrado a minha necessidade de arrependimento e mudança. Mas é Ele que tem a luz, e somente Ele pode dar-me a graça para mudar.

Há uma grande diferença entre o crente que está sendo tratado por Deus, e aquele que se tomou introspectivo. Quando Deus sonda o coração, Ele sempre encontra algo que Ele quer mudar. Ele traz convicção porque Ele se dispôs a nos libertar. Esta revelação me fez orar da seguinte maneira:

Pai, Tu sabes que não é muito bom quando volto os olhos para o meu interior, e assim vou parar com isso. Confio em Ti que Tu me mostrarás tudo o que for necessário que eu veja. Prometo permanecer em Tua Palavra. Tu disseste que a Tua Palavra é uma espada assim, peço-Te que a uses para cortar-me profundamente. Traze à luz todas as coisas que em mim não estejam Te agradando. Mas, ao fazer isso, dá-me a graça de abandoná-las. Também prometo ir à Tua presença a cada dia. Tua presença é como o fogo. Queima em mim tudo o que esteja Te desagradando. Derreta o meu coração até que se torne semelhante ao coração de Jesus. Sê misericordioso para comigo, apesar de eu ter Te entristecido com essas coisas que Te desagradaram. Prometo ainda permanecer em comunhão com o Teu povo; Tu disseste que o ferro afia o ferro. Venhas ungir-me nas “feridas feitas pelo amigo” para que eu venha a quebrantar-me sempre que tenha resistido à Tua vontade. Usa essas ferramentas para moldar a minha vida, até que Jesus, e apenas Ele, seja visto em mim. Creio que Tu me deste o Teu coração e a Tua mente. Pela Tua graça sou uma nova criação. Quero que esta realidade seja vista e que o nome de Jesus seja tido na mais alta honra.

CONTRAPONDO-SE À CONTRAFAÇÃO

Creio que, na maioria das vezes, as pessoas deixam-se levar por essa contrafação da caminhada para a cruz porque isso não requer fé. É fácil ver a minha fraqueza, a minha propensão para o pecado, minha incapacidade para ser como Jesus. Para confessar esta verdade não é necessário ter fé, absolutamente. Mas o contrário acontece quando se trata de ter que considerar-me morto para o pecado: tenho que ter fé, tenho que crer em Deus!

Portanto, quando você estiver fraco, declare: “Sou FORTE!” Concorde com Deus, não importando como você se sinta, e descubra o poder da ressurreição. Sem fé é impossível agradá-Lo. E o meu primeiro exercício da fé tem de ser com respeito à minha postura perante Deus.

Quando Deus conferiu a Moisés um nobre encargo, o de tirar o povo do Egito, sua resposta foi: “Quem sou eu?” Deus mudou de assunto, dizendo: “Eu serei contigo.” Quando a nossa atenção concentra-se no que nos falta, o Pai pro=a mudar de assunto para algo que nos leve para a fonte e o fundamento da fé: a Ele mesmo. O nobre chamado com que somos chamados sempre revela a nobreza Daquele que nos chamou.

Sem Cristo, somos indignos. E é verdade que, sem Ele, nada somos. Mas eu não estou sem Ele, e nunca mais estarei! Quando começaremos a pensar sobre o quanto valemos diante de Deus? O valor de alguma coisa é medido pelo quanto as pessoas pagarão por tal coisa; isso é uma verdade que todos nós aceitamos. Assim, temos que repensar qual é o nosso valor. Será que já reconhecemos quem somos aos olhos de Deus? Não me entenda mal; não estou incentivando a arrogância ou o atrevimento. Mas não seria uma honra bem maior para Ele se acreditássemos que o Senhor um dia de fato fez uma grande e suficiente obra, ao salvar-nos, e que assim realmente estamos salvos? Jesus pagou um preço supremo para possibilitar uma mudança em nossa identidade. Não está na hora de crermos e recebermos os benefícios? Se assim não fizermos nós, aqui neste mundo dos últimos dias, vamos sucumbir em nossa confiança. A ousadia de que necessitamos não é uma autoconfiança, mas a confiança que o Pai tem na obra do Seu Filho por nós. Não é mais uma questão de céu ou inferno. É apenas uma questão de o quanto do pensamento do inferno permitirei que entre em minha mente celestial.

Deus não é muito mais honrado quando Seus filhos não mais se veem apenas como pecadores salvos pela graça, mas agora como herdeiros de Deus? Não é uma postura de humildade bem maior crer Nele quando Ele diz que somos preciosos a Seus olhos, mesmo quando não nos sentimos preciosos? Não O honra muito mais quando consideramo-nos livres do pecado porque Ele diz que assim somos? Em algum momento temos de nos erguer ao nível elevado do chamado de Deus, deixando de dizer tudo aquilo a nosso respeito que não mais é verdade. Para que alcancemos tudo que Deus tem para nós neste avivamento dos últimos dias, temos que nos aferrar totalmente com a condição de que somos muito mais do que pecadores salvos pela graça. A maturidade vem a partir da fé na suficiência da obra redentora de Deus, que nos estabelece como filhos e filhas do Altíssimo.

TORNANDO-NOS COMO ELE

Segundo Ele é, também nós somos neste mundo. A revelação de Jesus em Seu estado glorificado tem pelo menos quatro características que de um modo predominante afetam diretamente a transformação da Igreja, o que em breve acontecerá; estas características têm de ser por nós assumidas como parte do plano de Deus nesta hora final.

GLÓRIA

A glória é a presença manifesta de Jesus. A história do avivamento está repleta de situações em que a Sua presença manifestou-se e veio sobre o Seu povo. Ele vive em todo crente, mas a glória da Sua presença vem repousar em apenas uns poucos. Isto às vezes é visto, mas com frequência é sentido. Ele está voltando para uma Igreja gloriosa. Não se trata de uma opção.

Línguas de fogo foram vistas sobre a cabeça dos apóstolos no dia de pentecostes. Nos dias da atualidade, tem-se visto labaredas de fogo flamejando no teto dos templos quando o povo de Deus se reúne em Seu nome. No avivamento da Rua Azuza, o corpo de bombeiros chegou a ser chamado para extinguir chamas de fogo, mas o que eles encontraram foi uma congregação louvando a Jesus. Aquele fogo não pôde ser extinguido com água, uma vez que não era um fogo natural. Todos os poderes do inferno também não o podem extinguir. Somente podem fazer isso aqueles a quem aquele fogo tinha sido dado. Crentes bem

intencionados muitas vezes valem-se do controle como um meio para produzir esse fogo, pensando que estão servindo a Deus. Ocorre também haver aqueles que de um modo enganoso tentam despertar uma chama emocional, quando o fogo não se acha mais presente. São duas expressões do homem carnal. E quando o homem carnal está em cena, a glória de Deus vai embora.

Se o Pai preencheu as casas do Antigo Testamento com a sua glória, embora elas tenham sido construídas por mãos humanas, quanto mais Ele preencherá o que Ele construiu com Suas próprias mãos! Ele está nos construindo para sermos o Seu lugar de eterna habitação.

PODER

Ser tal como Ele – isso significa ser uma permanente expressão de poder. O batismo no Espírito Santo reveste-nos com algo celestial. Assim como a roupa fica do lado de fora do corpo, de igual modo o poder de Deus tem de ser a parte mais visível da Igreja que crê. É o poder de salvação – para o corpo, para a alma e para o espírito.

Muitos no mundo ao nosso redor procuram ajuda no baixo e no alto espiritismo, e também em todas as formas de ocultismo, antes de virem para a Igreja. Também buscam a ajuda médica, tanto a legítima como a da medicina alternativa, antes de virem pedir nossas orações. Por quê? Porque a maioria de nós ainda não está revestida com o poder celestial. Se estivéssemos, eles o veriam. E, se o vissem, viriam até nós.

A falta de poder na Igreja dá condições, para que as seitas e os falsos dons proféticos floresçam. Mas quando essas contrafações se insurgem contra esta geração de Elias, que se reveste do poder celestial contra todo raciocínio humano no monte Carmelo, elas não têm nenhuma chance.

TRIUNFO

Jesus foi vencedor sobre todas as coisas: sobre o poder do inferno, sobre a morte, sobre o pecado e sobre o diabo. Ele ressuscitou dos mortos, ascendeu à mão direita do Pai, e foi glorificado sobre todas as coisas. Todo nome e todo poder foram postos sob Seus pés. Ele nos chama de Seu corpo – e este corpo tem pés. De um modo figurado, Jesus está dizendo que a parte mais baixa do Seu corpo tem autoridade sobre a parte mais elevada de tudo o mais. Esta vitória não significa que vivemos sem batalhas; simplesmente significa que a nossa vitória está assegurada.

A atitude dos que vivem a partir da vitória de Cristo é diferente da atitude dos que vivem sob a influência do seu passado. A única parte do passado que temos o direito legal de acessar são os testemunhos do Senhor. O restante está enterrado, esquecido, e coberto sob o sangue do Cordeiro. O passado não é para ter nenhum efeito negativo sobre o modo de vivermos, pois este sangue é mais do que suficiente. Viver a partir da vitória de Jesus é o privilégio de todo crente. Entender isso é um fundamento da Igreja que será vencedora tal como Ele venceu.

SANTIDADE

Jesus é perfeitamente santo, separado de tudo que é mau, para estar com tudo que é bom. A santidade é a linguagem através da qual a natureza de Deus se revela. O salmista escreveu a frase: “na beleza da santidade”. A santidade na Igreja revela a beleza de Deus.

Nosso entendimento de santidade, mesmo em certas épocas de avivamento, muitas vezes tem se centralizado em torno do nosso comportamento – o que podemos ou que não podemos fazer. Entretanto, o que no passado foi incorretamente reduzido a uma lista das coisas “que podem” e das “que não podem”, em breve se tornará a maior de todas as revelações de Deus, jamais vista neste mundo. Se o poder demonstra o coração de Deus, a santidade revela a beleza da sua natureza. Esta é a hora da grandiosa revelação da beleza da santidade.

CONCLUSÃO

Zacarias recebeu uma promessa de Deus que estava além da sua compreensão: ele teria um filho em sua idade avançada. Era difícil de acreditar; então ele pediu a Deus que lhe desse uma confirmação. Aparentemente, um anjo ter falado com ele não foi um sinal suficiente! Deus o fez ficar mudo por nove meses. Quando Deus silencia a voz do descrente, geralmente é porque a voz do descrente poderia afetar o cumprimento de uma promessa. Quando Zacarias viu cumprir-se a promessa de Deus, tendo decidido dar ao seu filho o nome ordenado pelo Senhor, indo de encontro com o que desejavam todos os seus parentes, Deus liberou a sua língua. A obediência a Deus, contrariando o desejo dos outros, muitas vezes leva a pessoa a ter fé. E é uma fé contra todo o entendimento.

A Maria também foi feita uma promessa que ultrapassava toda a compreensão: ela daria à luz o Filho de Deus. Não entendendo o que isso significava, ela perguntou como aquilo seria possível, uma vez que era virgem e não tinha marido. Mas entender uma promessa de Deus nunca foi um pré-requisito para o seu cumprimento. A ignorância pede entendimento; a descrença pede uma prova. Com Maria foi diferente de Zacarias porque, mesmo não entendendo, ela submeteu-se à promessa. Sua resposta permanece sendo uma das mais importantes expressões que a Igreja pode aprender no dia de hoje: “que se cumpra em mim conforme a Tua palavra”.

Há pouco analisamos uma promessa de grande importância para a Igreja. Poucas são as coisas que ultrapassam o nosso entendimento mais do que a afirmação: “Segundo Ele é, também nós somos neste mundo,” citada no início deste capítulo. E assim temos que decidir entre duas alternativas: agir como Zacarias, e ficar sem voz; ou fazer como Maria, convidando Deus para restaurar em nós as promessas que estão fora do nosso controle.

A identidade que temos em Cristo estabelece uma segurança em nosso carácter ao nos engajarmos na batalha espiritual. No próximo capítulo veremos alguns pontos que temos que compreender para sermos bem-sucedidos na guerra!

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

QUANDO O CÉREBRO VAI ÀS COMPRAS

Ao vermos numa vitrine ou na tela do celular algo que nos agrada muito, as regiões cerebrais responsáveis pelas ponderações com base na cognição são momentaneamente desativadas e as emoções assumem o controle

Você se lembra qual foi o último produto que comprou? É bastante provável que, embora justificada (“o preço está bom”, “eu mereço” etc.), a aquisição não tenha sido pautada pela lógica. O fato é que nossas compras costumam ser mais marcadas pela emoção do que pela racionalidade. Duvida? Pense no que desperta em você a imagem de um objeto (um sapato, um aparelho eletrônico ou até um carro, talvez) que chama sua atenção numa vitrine ou na tela do computador. Diante da visão do objeto desejado, é possível que seu coração acelere e seu cérebro comece imediatamente a buscar uma estratégia para conseguir obter aquilo que quer. Ou, quem sabe, mecanismos de repressão do desejo entrem em cena e você se convença de que é melhor esquecer essa ideia e, assim, evitar fazer dívidas.

Na tentativa de entender como nossa mente funciona quando se trata de lidar com dinheiro, economistas criaram um modelo fictício, denominado Homo economicus, para descrever um administrador eficiente, que não se deixa dominar pelos sentimentos. Psicólogos garantem, porém, que essa proposta pautada pelo objetivo de fazer boas escolhas, sem levar em conta nossa história de vida, o valor simbólico dos bens materiais e as representações psíquicas ligadas a eles, está fadada ao fracasso.

Os cientistas Michael Deppe, da Universidade de Münster, e Peter Kenning, da Universidade de Zeppelin, ambas na Alemanha, fizeram um experimento interessante. Enquanto 22 voluntários eram submetidos a uma tomografia, os pesquisadores apresentavam a eles vários objetos. A tarefa dos participantes era escolher um dos artigos. As mulheres precisavam decidir entre 15 tipos de café e os homens, optar entre 20 cervejas. De forma aleatória, a marca preferida dos voluntários sempre voltava a compor as duplas, o que facilitava a escolha.

Durante as decisões simples, a tomografia mostrou que a região do córtex pré-frontal dorsolateral (CPFDL) se reduzia e, em compensação, a do córtex pré-frontal ventromedial se mostrava mais intensa. Na prática, o resultado indica que o centro do controle racional do CPFDL é exigido quando o ato de escolher não provoca grandes emoções. Mas, se avistamos aquilo que mais nos agrada, as regiões cerebrais de controle cognitivo são desativadas e aliviadas – e aí, as emoções falam mais alto.