A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O VALOR DO RITUAL RELIGIOSO

Os rituais promovem a coesão do grupo ao exigir que seus membros gastem energia e recursos em atividades difíceis de ser simuladas

Eu tinha 15 anos quando estive pela primeira vez na Cidade Velha de Jerusalém, e visitei as ruínas de 2 mil anos do Segundo Templo, conhecidas como o Muro das Lamentações. Talvez fosse um prenúncio de meu futuro como antropólogo. Nesse primeiro contato com a edificação sagrada, o que mais me impressionou foram as pessoas diante dela. Mulheres, com a cabeça coberta, vestindo blusas de mangas longas e saias que roçavam no chão, suportavam o sol intenso e contemplavam a parede em solene adoração. Homens, com barbas espessas e casacos negros, também pareciam esquecer o calor enquanto reverenciavam e louvavam a Deus olhando para o muro. Perguntei a um amigo: “Porque alguém, em sã consciência, vestiria roupas de inverno e passaria a tarde rezando neste calor?”. Na época, pensei não haver resposta racional e concluí que essas pessoas poderiam bem ser loucas.

É óbvio que o comportamento “estranho” não é exclusivo dos judeus ultra ortodoxos. Várias atitudes religiosas parecem esquisitas a quem é de fora. Muitos devotos em todo o mundo diferenciam-se fisicamente enquanto moonistas raspam a cabeça, os jainas a cobrem e varrem o chão antes de pisar para não matar insetos, e clérigos em geral usam roupas que os distinguem do resto da sociedade. Muitos povos também recorrem a alguma forma de intervenção cirúrgica que altera características físicas. Entre os aborígines australianos, uma pedra ou osso é inserido no pênis dos adolescentes, mediante incisão na uretra. Os judeus e muçulmanos submetem seus filhos à circuncisão e, em algumas sociedades islâmicas, as meninas são também circuncidadas ou sofrem outras formas de mutilação genital. Grupos tão diversos quanto os nuer, do Sudão, e os iatmul, da Nova Guiné, obrigam os jovens a escarificações rituais. Ascerimônias de iniciação, conhecidas como ritos de passagem, costumam ser bonitas. Entre os nativos americanos, os meninos apaches eram forçados a se banhar em águas glaciais, os luisenos que se iniciavam pressionados a permanecer deitados e imóveis enquanto eram picados por formigas, enquanto as garotas tukunas tinham os cabelos arrancados.

Como entender tais comportamentos? Se os seres humanos são racionais, por que dedicam tanto tempo, energia e recursos a atividades dolorosas ou, no mínimo, desconfortáveis? Segundo os arqueólogos, nossa espécie adotou rituais há pelo menos 100 mil anos e todas as culturas conhecidas cultuam alguma forma de religião. Há até mesmo práticas espirituais que sobreviveram a governos que tentaram eliminá-las. E apesar do triunfo do racionalismo científico no século XX, a religião continuou a florescer. Nos Estados Unidos, 40% da população frequentou regularmente a igreja ao longo do século. As crenças em Deus (cerca de 96%), na vida após a morte (cerca de 72%), no Céu (cerca de 72%) e no Inferno (cerca de 58%) permaneceram, de forma notável, constantes. Mas por que afinal crenças, práticas e instituições religiosas continuam a ser um componente essencial da vida social humana?

Durante anos, essas questões me intrigaram. Minha formação em antropologia não forneceu, inicialmente, resposta. De fato, meus estudos apenas acentuaram o espanto da adolescência. Especializei-me em um campo conhecido como ecologia humana comportamental, que investiga o plano adaptativo do comportamento, levando em conta sua situação ambiental. Os ecólogos comportamentais supõem que a seleção natural moldou o sistema nervoso de forma a que este responda com êxito às várias circunstâncias do meio. Todos os organismos têm de equilibrar alternativas, o tempo dedicado a uma atividade impede a realização de outras que talvez auxiliassem na sobrevivência e no êxito reprodutivo. Os animais que maximizam a taxa de aquisição de recursos, tais como alimento e parceiros sexuais, podem aumentar o número de descendentes, objetivo essencial do jogo da seleção natural.

OS SIGNIFICADOS DOS SINAIS DISPENDIOSOS

Os ecólogos comportamentais supõem que a seleção natural formou nossos mecanismos de tomada de decisão de modo a otimizar o modo com que obtemos recursos sob diversas condições do ambiente – uma previsão da teoria do forrageamento ótimo. Os modelos dessa teoria oferecem previsões da resposta comportamental “perfeitamente adaptada”, dado um conjunto de limitações do meio. A perfeita adaptação ao ambiente quase nunca é alcançada, já que este está sempre mudando e dificilmente os organismos têm informação completa. Ainda assim, essa suposição proporciona um poderoso quadro conceitual para analisar várias decisões: a maioria das pesquisas (realizadas, em grande parte, em populações forrageadoras) mostrou que nossa espécie conforma-se a tais expectativas.

Mas se nossa espécie está constituída de forma a otimizar o modo como extrai energia do meio, porque nos dedicamos a práticas religiosas que parecem tão contraproducentes? De fato, algumas delas, como por exemplo os sacrifícios rituais, são notáveis exibições de recursos desperdiçados. Os antropólogos explicam porque os forrageadores dividem comida com o grupo, mas porque partilhá-la com ancestrais mortos, queimando-a no altar? Muitos responderiam que as pessoas acreditam na eficácia dos rituais e nos artigos de fé que dão significado a tais cerimônias. Essa afirmativa, porém, pressupõe solucionada a questão fundamental. O que realmente devemos saber e porque a seleção natural favoreceu o surgimento de uma psicologia que acredita no sobrenatural e se dedica a dispendiosas manifestações dessa crença?

O SACRIFÍCIO RITUAL

Apenas recentemente a ecologia comportamental passou a considerar as peculiaridades das atividades religiosas. Assim, tive de recorrer inicialmente a outras disciplinas para entender essas práticas. A literatura especializada indicava que eu não era o único a suspeitar que o comportamento religioso intenso era sinal de loucura. Grandes pensadores dos últimos 200 anos, entre eles Karl Marx e Sigmund Freud, apoiavam minha tese. Os primeiros teóricos da antropologia também sustentaram que crenças em espíritos eram próprias de mentes primitivas e simples. No século XIX, Edward B. Tylor, um dos fundadores da antropologia, defendeu que a religião surgiu do equívoco, cometido pelos “primitivos”, de tomar os sonhos como realidade. Sonhos com ancestrais mortos os teriam feito a acreditar na sobrevivência dos espíritos à morte.

Desde então, a antropologia amadureceu e seus praticantes abandonaram a ideia de que o primitivo é equivalente ao irracional. Surgiram, no início do século XX, as explicações funcionalistas da religião. Um dos teóricos mais importantes dessa tendência foi o polonês Bronislaw Malinowski. Ele argumentou que a religião surge “das tragédias reais da vida humana, do conflito entre os anseios humanos e a realidade”. Embora a religião atenue nosso medo da morte e proporcione alguma satisfação à incessante busca por respostas, a tese de Malinowski não explicava a origem dos rituais. Permanecer no deserto, sob o sol do meio-dia, com pesadas roupas pretas parece mais uma receita para aumentar a ansiedade do que para mitigá-la. Os antropólogos clássicos não tinham as respostas corretas às minhas questões. Foi preciso procurá-las em outra parte.

Felizmente, um a nova geração de antropólogos começou a fornecer algumas explicações. Segundo eles, a estranheza das práticas religiosas e seus custos inerentes são de fato as características que contribuem para o êxito da religião como estratégia cultural universal. Isso explicaria porque a seleção natural favoreceu tal comportamento na espécie humana. Para entender esse benefício inesperado, é preciso reconhecer o problema adaptativo que o comportamento ritual soluciona. William Irons, ecólogo comportamental da Universidade de Northwestern, Estados Unidos, sugeriu que o dilema universal é a promoção da cooperação na comunidade. Para ele, o principal benefício adaptativo da religião é sua capacidade de facilitar a colaboração no interior do grupo em relação a atividades fundamentais em nossa história evolutiva, como caça, divisão do alimento, defesa contra ataques e organização para a guerra. Mas, embora todos ganhem com a cooperação, este ideal é difícil de ser coordenado e alcançado. O problema é que o indivíduo ganhará ainda mais se todos colaborarem e ele ficar em casa descansando. A cooperação exige mecanismos sociais que impeçam as pessoas de tirar proveito sem participar (free-riding) dos esforços dos outros. Irons argumenta que a religião é um desses mecanismos.

Para compreender como isso se dá, devemos considerar que os rituais religiosos são uma forma de comunicação, algo que os antropólogos sustentam há muito tempo. Essa ideia foi emprestada dos etólogos, que salientaram o fato de muitas espécies apresentarem um comportamento padronizado, chamando-o de “ritual”.  Os etólogos apontaram que os comportamentos ritualizados serviriam como forma de comunicação entre membros da mesma espécie e, muitas vezes, de outras. Machos de várias espécies de aves, por exemplo, empenham-se em certos rituais – como mesuras, meneios de cabeça, acenos de asas, saltos e outros gestos – para sinalizar suas intenções amorosas a uma fêmea. Além disso, a vibração da cauda, imitando cobra, constitui poderosa demonstração de ameaça às outras espécies que entram em seu espaço pessoal.

A ideia de Irons é que as atividades religiosas sinalizam, aos outros membros, a adesão ao conjunto. Ao se empenhar no ritual, o indivíduo está dizendo, “Identifico-me com o grupo e acredito naquilo que lhe é caro”. O comportamento religioso, mediante essa capacidade de sinalizar adesão, supera o problema dos aproveitadores e promove a cooperação. Isso porque a confiança está no centro desse problema, um membro deve assegurar a todos que participará das atividades de aquisição de alimento ou de defesa do grupo. Caçadores e guerreiros podem fazer promessas – “dou minha palavra, mostrarei a você amanhã – mas, a menos que a confiança esteja estabelecida, tais declarações não são críveis.

Há uma forma especialmente vigorosa de assegurar a confiança. O biólogo israelense Amotz Zahavi observou que muitas vezes é do interesse do animal enviar sinais desonestos, como falsear seu tamanho, força, agilidade, saúde ou beleza. O único sinal crível seria aquele dispendioso demais para ser simulado, algo que chamou de handicap. Segundo Zahavi, a seleção natural favoreceu a evolução de handicaps. Quando o antílope localiza o predador, começa muitas vezes a pular.

Esse comportamento intrigou os biólogos durante anos. Por que o antílope desperdiçaria a preciosa energia que poderia ser usada para escapar? E porque o animal se faz assim mais visível ao predador? A razão é que o antílope está revelando suas habilidades para fugir, como se estivesse dizendo ao predador: “Não vale a pena me perseguir. Veja como minhas pernas são fortes, você não conseguiria me alcançar”. E por que o predador acredita no antílope? Porque o sinal que este emite é dispendioso demais para ser fingido. O antílope que não é rápido o suficiente para fugir não pode imitar o sinal, já que não é forte o bastante para saltar repetidamente a certa altura. Assim, a exibição pode proporcionar informação honesta quando os sinais são tão dispendiosos que organismos de qualidade inferior não se beneficiariam ao imitá-los.

Da mesma forma, o comportamento religioso é um sinal dispendioso. Ao vestir pesadas roupas sob o sol intenso, os ultra ortodoxos estão sinalizando aos outros: “Sou judeu baredi. Se você também é parte desse grupo pode confiar em mim. Afinal, por que outra razão eu estaria vestido assim? Ninguém faz isso, a menos que acredite nos ensinamentos do judaísmo ultra ortodoxo e esteja comprometido com seus ideais e objetivos. O que esses homens estão indicando é o nível de adesão a um grupo religioso específico.

Esse comprometimento envolve várias crenças e rituais. Embora benefícios físicos ou psicológicos possam estar associados a certas práticas rituais, o tempo, a energia e os custos financeiros envolvidos constituem uma barreira para os que não acreditam nos ensinamentos da religião. Nada estimula os que não creem a se juntar ou permanecer no grupo religioso, já que os custos envolvidos são elevados (pensemos no dever de orar três vezes por dia, comer apenas os alimentos preparados de acordo com a lei judaica ou doar parte dos rendimentos a obras de caridade).

Os que cumprem as exigências rituais impostas por uma religião acreditam sinceramente nas doutrinas da comunidade religiosa, e os outros podem confiar nisso. Ao aumentar os níveis de confiança e adesão entre seus membros, os grupos religiosos minimizam os custosos mecanismos de controle, necessários quando é preciso enfrentar o problema dos aproveitadores que prejudicam a obtenção dos objetivos comuns. Assim, a vantagem adaptativa do comportamento ritual é sua capacidade de promover e manter a cooperação, desafio que, provavelmente, nossos ancestrais enfrentaram ao longo da evolução.

DEDICAÇÃO AO GRUPO

AS VANTAGENS DA ADESÃO

Conforme essa teoria do ritual como “sinais dispendiosos”, os grupos que impõem as maiores exigências obterão altos níveis de devoção e adesão. Apenas os membros comprometidos estarão dispostos a se vestir e se comportar de forma distinta. Os grupos cujos membros sejam mais comprometidos podem também oferecer mais, já que atingem com menor dificuldade os objetivos coletivos. Isso ajuda a explicar um paradoxo no mercado religioso, as igrejas que mais exigem de seus adeptos exibem os índices mais altos de crescimento. Por exemplo, os mórmons, os adventistas do sétimo dia e os testemunhas- de-jeová, que proíbem, respectivamente, cafeína, carne e transfusão de sangue (entre outras coisas), estão crescendo a ritmos excepcionais. Em contraste, as seitas liberais protestantes, como as metodistas, presbiterianas e episcopalianas, estão perdendo adeptos.

O economista Lawrence Iannaccone, da Universidade George Mason, observou que a maioria dos grupos exigentes têm o maior número de membros fervorosos. Ele descobriu ainda que quanto mais distinto o grupo religioso – quanto mais seu estilo de vida diferia do estilo da sociedade americana – maiores os níveis de frequência aos serviços religiosos. Os sociólogos Roger Finke e Rodney Starn, das universidades Penn State e de Washington, respectivamente, argumentaram que, quando o Concílio Vaticano lI revogou, em 1962, várias proibições da Igreja Católica e reduziu o nível de rigor das práticas, caíram o número de candidatos aos seminários assim como a frequência dos católicos americanos à igreja. De fato, no final dos anos 50, quase 75% destes assistiam à missa semanalmente, mas, desde as ações do Vaticano lI, essa taxa despencou para 45%.

A teoria dos sinais dispendiosos prevê que também a maior adesão será traduzida em cooperação mais forte no grupo. Eric Bressler, da Universidade McMaster e eu tratamos dessa questão, examinando dados de comunas do século XIX, Todas elas enfrentavam o problema de promover e sustentar a cooperação, já que os indivíduos tendem a se aproveitar sem participar dos esforços dos outros. Sendo a cooperação fundamental para a sobrevivência da comunidade, empregamos a longevidade desta como medida da cooperação. Comparadas às comunas seculares, as religiosas exigiam mais de seus membros – celibato, renúncia a bens materiais e vegetarianismo. Foram justamente elas que sobreviveram tempo maior, superando os desafios fundamentais da cooperação. Ao exigir mais, provavelmente obtinham maior grau de crença e adesão à ideologia e às metas comuns.

Para testar a hipótese dos sinais dispendiosos em grupos modernos, escolhi os kibutzim que visitei em Israel quando adolescente. Durante grande parte de sua história de cem anos, essas comunidades se orientaram pela máxima “De cada um de acordo com suas capacidades, para cada um de acordo com suas necessidades”.

A maioria dos mais de 2720 kibutzim é secular e, muitas vezes, ideologicamente anti -religiosa; pouco mais de 20 se orientam pela religião. Nos últimos anos, em decorrência de uma crise econômica, essas comunidades começaram a ser privatizadas. Quando, no final dos anos 80, veio à tona a dívida coletiva de mais de US$4 bilhões, passou despercebido o fato de que as comunidades religiosas eram financeiramente estáveis. Nas palavras da Federação dos Kibutzim Religiosos, “sua situação econômica é sólida e eles não foram atingidos pela crise.”

O êxito desses kibutzim é ainda mais notável quando se leva em conta que vários de seus rituais inibem a produtividade econômica. A lei judaica proíbe, por exemplo, que as vacas sejam ordenhadas no sabá. Embora as regras rabínicas não mais endossem essa proibição, para evitar assim o sofrimento dos animais, inicialmente esse leite não era usado comercialmente. Havia ainda limites impostos pela lei judaica à produtividade na agricultura. Os frutos gerados nos primeiros anos não podiam ser consumidos, a terra deveria permanecer inculta a cada sete anos e a colheita não podia ser feita nas extremidades do campo, região reservada aos mais pobres. Embora essas restrições pareçam prejudicar a produtividade, a teoria do ritual como sinais dispendiosos indica que elas foram cruciais ao êxito econômico dos kibutzim religiosos.

Decidi assim estudar a questão com o economista Bradley Rufle, da Universidade Ben Gurion, em Israel. Desenvolvemos um jogo, na forma de cooperação, para decidir se havia diferenças entre as comunidades seculares e as religiosas. O jogo envolve dois membros da mesma comunidade, que permanecem anônimos entre si. Ambos são informados de que há 100 moedas em um envelope e devem decidir quantas retirar e quantas deixar. Se a soma das retiradas dos dois ultrapassar 100 moedas, nenhum recebe dinheiro e o jogo é encerrado. Mas se for inferior ou igual a 100 moedas, o remanescente é acrescido em 50% e dividido igualmente entre os participantes. Nesse caso, cada membro mantém também a quantidade original retirada. O jogo é um exemplo do dilema dos recursos comuns, em que bens publicamente acessíveis deixam de estar disponíveis quando são consumidos. Dado que os bens estão disponíveis a mais de uma pessoa, a manutenção dos recursos exige que os próprios indivíduos se limitem, isto é, exige cooperação.

Após controlarmos algumas variáveis, como idade, tamanho e dimensão da privatização dessas comunidades, descobrimos não só que os kibutzim religiosos cooperavam mais entre si que os seculares, mas que os homens das comunidades religiosas cooperavam mais que as mulheres, ao contrário das seculares, onde não havia diferença entre os sexos. Esse resultado é compreensível à luz dos tipos de rituais e exigências impostas aos judeus religiosos. Embora várias exigências refiram-se igualmente a homens e mulheres, como as alimentares e a abstenção do trabalho aos sábados, os rituais masculinos são em geral realizados em público, enquanto os femininos são privados. Nenhuma das três principais exigências impostas apenas às mulheres – ritual do banho, separar parte da farinha ao preparar o pão e acender as velas do sabá – é efetuada publicamente. Não são rituais que sinalizam a adesão ao grupo mais amplo, mas à família. Os homens, porém, dedicam-se à rituais bem visíveis, como a prece pública, realizada três vezes ao dia. Nas comunidades religiosas, a frequência à sinagoga está relacionada positivamente ao comportamento cooperativo. Não há correlação similar entre as mulheres, algo que não surpreende, já que não se espera delas o comparecimento aos rituais: sua presença não sinaliza adesão ao grupo. A teoria do ritual como sinais dispendiosos explica essas descobertas. Esperamos que novas pesquisas iluminem ainda mais o modo como os rituais promovem a confiança, a adesão e a cooperação.

Sabemos que muitas outras espécies exibem comportamentos rituais que parecem fomentar a confiança e a cooperação. John Watanabe, da Universidade de Dartmouth, e Barbara Smuts, da Universidade de Michigan, mostraram, por exemplo, que, para antigos rivais babuínos, as saudações trocadas sinalizam confiança. Assim, por que os rituais humanos muitas vezes se dissimulam sob o misterioso e o sobrenatural?

Os antropólogos cognitivos Scott Atran, da Universidade de Michigan, e Pascal Boyer, da Universidade de Washington, apontaram que a natureza contra intuitiva dos conceitos sobrenaturais torna-os mais fáceis de ser recordados que as ideias mundanas, algo que facilita também sua transmissão cultural. A crença em agentes sobrenaturais como deuses e espíritos parece ser crucial à capacidade da religião de promover cooperação a longo prazo. Ao estudarmos sociedades do século XIX, Bressler e eu percebemos que a forte correlação entre o número de exigências dispendiosas impostas aos membros e a longevidade da comunidade só valia para os grupos religiosos, não para os seculares. Ficamos surpresos com esse resultado, pois grupos seculares como exércitos e fraternidades empregam, com êxito, dispendiosos rituais para manter a cooperação.

Mas o ecólogo cultural Roy Rappaport explicou que, embora tanto rituais religiosos como seculares possam fomentar a cooperação, os religiosos geram, ironicamente, crenças mais firmes e maior adesão, já que santificam proposições que não são falseáveis e estão além da possibilidade de investigação crítica. Dado que proposições contendo elementos sobrenaturais, como “Jesus é filho de Deus”, não podem ser confirmadas ou refutadas, os crentes verificam-nas emocionalmente”. Ao contrário das proposições religiosas, máxima dos kibutzim citada acima, inspirada em Marx, não está além do exame crítico, ela pode ser avaliada vivendo-se de acordo com suas diretivas de distribuição do trabalho e dos recursos. De fato, como a situação econômica dos kibutzim piorou, essa proposição foi desafiada e é agora desconsiderada por muitas comunidades, que tendem a adotar outros critérios de distribuição. A capacidade dos rituais religiosos de evocar experiências emocionais que podem ser associadas a conceitos sobrenaturais diferencia-os dos rituais animais e seculares e está na base de sua eficácia para promover e manter a cooperação de longo prazo.

A pesquisa evolutiva sobre o comportamento religioso está apenas começando, e muitos problemas ainda têm de ser abordados. A teoria do ritual como sinal dispendioso parece fornecer algumas respostas e compreender melhor as questões que me preocupavam durante a adolescência. O valor real dessa teoria será estabelecido pela sua capacidade de explicar fenômenos religiosos em diferentes sociedades. A maioria de nós, inclusive os judeus ultra ortodoxos, não vive em agrupamentos. Apesar disso, as congregações religiosas contemporâneas que exigem muito de seus membros conseguem alcançar uma intensa comunidade social, fato notável no mundo individualista de hoje.A religião, provavelmente, sempre serviu para fomentar a união entre seus praticantes. Infelizmente, há também o lado sombrio dessa comunhão. Se a solidariedade intragrupo, proporcionada pela religião, é uma de suas mais importantes vantagens adaptativas, então, desde o início, a religião provavelmente desempenhou um papel nos conflitos intergrupais. Em outras palavras, uma das vantagens, para os indivíduos, da solidariedade intragrupo é a capacidade dos grupos unificados de se defender e competir com outros. Isso parece tão verdadeiro hoje quanto antes, e é evidente na região que visitei quando adolescente e na qual realizei minha pesquisa. Enquanto estive no centro dessa zona de guerra, esperava que, ao avaliar a intensa necessidade religiosa da psique humana e ao compreender sua poderosa adaptação, poderíamos aprender a promover a cooperação e não o conflito.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.