A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SORTE EM QUESTÃO

Atribuir acontecimentos ao acaso é um álibi cômodo, mas nos impede de assumir responsabilidades e enfrentar as situações racionalmente. Afinal, é possível “aprender” a ser sortudo

A sorte é realmente cega? Os psicólogos que trataram do tema explicam que, por trás da convicção de que somos “sortudos” ou “azarados”, há o desejo de manter os acontecimentos sob controle, sobretudo os que nos inquietam. A explicação tem um antecedente histórico: já na década de 20 o antropólogo Bronislaw Malinowski observou, estudando os nativos da Melanésia, que os pescadores recorriam a magias propiciatórias nos momentos em que tinham de explorar águas desconhecidas. Porém, quando permaneciam em regiões vizinhas, confiavam apenas nas próprias habilidades. “As superstições oferecem uma sensação (ilusória) de controle sobre os eventos, que pode ajudar a aplacar nossas ansiedades”, sustenta o psicólogo americano Stuart Vyse. “Por isso, elas nos são necessárias nos momentos em que nos sentimos vulneráveis”.

Esses argumentos são válidos, mas insuficientes, pelo menos segundo Richard Wiseman, psicólogo da Universidade de Hertfordshire, Inglaterra. Ex- ilusionista e interessado em fenômenos paranormais, Wiseman realizou um complexo projeto de pesquisa para estudar a sorte e os mecanismos que a provocam. O projeto, financiado por várias instituições, entre as quais a Associação Britânica para o Avanço da Ciência, gerou um manual, O fator sorte, traduzido em mais de 20 idiomas.

Não é a primeira vez que aciência tenta revelar as leis da sorte e do azar. Há alguns anos, o físico Richard A. J. Matthews estudou as chamadas leis de Murphy, a irônica suma do pessimismo resumida na máxima “se alguma coisa pode dar errado, dará”. Matthews investigou, em particular, porque uma fatia de pão com manteiga cai geralmente com o lado da manteiga para baixo. O fato foi confirmado por um estudo experimental, patrocinado por um fabricante de manteiga, o aparente “azar” deve-se simplesmente à relação física entre as dimensões da fatia e a altura em que estava colocada. São também explicáveis outros tipos de “azar”, como o fato de que quando retiramos duas meias da gaveta geralmente elas não são do mesmo par.

Além disso, a certos fatos – como a chegada do ônibus assim que acendemos um cigarro – só damos atenção quando ocorrem, o que contribui para reforçar nossos preconceitos e nos fazer ignorar as leis da probabilidade. “A diferença entre eventos ordinários e extraordinários é subjetiva”, explica Lorenzo Montali, pesquisador do Departamento de Psicologia da Universidade de Milão – Bicocca. “Estar atrasado, por exemplo, é um fato comum, mas certamente será recordado como um golpe de sorte se graças a ele fomos salvos de um desastre.”

FÓRMULA DA SORTE

Ao estudar o pensamento não racional, Michael Wohl, psicólogo da Universidade Carleton, em Ontário, verificou que muitos jogadores obstinados estão convencidos de que podem influenciar o andamento de um jogo de azar graças à própria “sorte”, ignorando as leis da probabilidade e superestimando as possibilidades de vitória. Montali acrescenta, “Muitas vezes não nos damos conta de que certos eventos, como acertar na loteria são raros, mas não impossíveis. Quando ganhamos em um cassino, não pensamos no fato de que alguém tinha, necessariamente, de ganhar”.

A mesma conclusão foi obtida pelo estudo realizado por Paola Bressan, professora de psicologia da Universidade de Pádua, e publicado em 2002 na revista Applied Cognitive  Psychology. Ao pesquisar pessoas que acreditam em eventos paranormais, Bressan mostrou que certos acontecimentos parecem extraordinários porque não se leva em conta a probabilidade de que ocorram.

Os pesquisadores interessados nesses temas, porém, tendem a analisar comportamentos específicos e não a nossa relação com a sorte enquanto tal. Segundo Wiseman, isso ocorre porque “o conceito de sorte é difícil de definir, ou porque muitos psicólogos não gostam de enfrentar temas ligados à superstição ou à magia”.

Em 1994, para traduzir esse conceito tão evasivo em termos concretos, Wiseman publicou um anúncio no jornal solicitando que pessoas particularmente sortudas ou azaradas entrassem em contato com ele para que seus comportamentos fossem analisados. Descobriu que cerca de 9% dessas pessoas podiam ser consideradas azaradas e 12 % favorecidas pela sorte. Todos os outros entravam na média. A análise experimental dos traços de personalidade que distinguiam as duas categorias permitiu concluir que os azarados são mais tensos e concentrados, ao passo que os felizardos tendem a considerar as coisas de forma mais relaxada, mas sem perder de vista o contexto geral.

Wiseman deu aos participantes um jornal, solicitando que contassem as fotos impressas e prometendo um prêmio aos que o fizessem corretamente. Ora, o número solicitado estava gravado de forma evidente sobre uma das páginas, algo que muitos “azarados” não perceberam, pois estavam concentrados demais na tarefa.

Conforme os dados coletados, ser sortudo quer dizer saber escolher ou criar as oportunidades e as ocasiões mais vantajosas. “Estamos fazendo uma pesquisa estatística sobre o mecanismo que poderíamos definir com a expressão ‘como o mundo é pequeno’ (esse mecanismo nos leva a encontrar frequentemente pessoas que ‘por acaso’ conhecem outras pessoas ligadas a nós”, explica o psicólogo. “Sabemos que os ‘felizardos’ são também hábeis para estabelecer ligações entre diversos grupos de indivíduos, aumentando assim a possibilidade de encontros úteis”.

Os outros “fatores” da sorte consistem, segundo Wiseman, em seguir a própria intuição, ser otimista quanto ao futuro, não capitular diante das dificuldades e tentar, até onde possível, enfatizar aspectos positivos, inclusive dos eventos negativos. Em suma, trata­ se de aprender a considerar as coisas de outra forma. Wiseman observa que “dependendo do ponto de vista, a pessoa pode se considerar sortuda ou azarada. Em minha pesquisa, vários ‘felizardos’ se consideravam como tal mesmo que tivessem experimentado fatos dramáticos, doenças ou lutos”. O que pensa uma pessoa que foi envolvida, involuntariamente, em incidente  grave e “infeliz”, que saiu dele seriamente ferida mas, “felizmente”, viva) Em geral, assinala o psicólogo, “os pessimistas se julgam simplesmente realistas, mas os otimistas, ainda que vivam numa espécie de ilusão, desfrutam dos efeitos positivos dessa atitude”. O mesmo ocorre com pessoas que têm fé – tema de outra pesquisa de Wiseman -, algo que lhes permite dar um sentido aos eventos que marcam a vida.

Confiar na sorte é algo que, embora banal, está na base de nossa visão de mundo. Paola Bressan recorda que “a tendência a dar ordem e significado ao que acontece a nossa volta, criando rapidamente relações entre eventos simultâneos ou sucessivos – como o trovão e a tempestade ou a ingestão de comida estragada e mal-estar – é indispensável para a sobrevivência”. As pessoas mais inclinadas a essa atitude, os “perseguidores de significado”, conforme a expressão de Paola, tendem a subestimar as leis da probabilidade e a encontrar um maior número de “coincidências”, que atribuem à sorte ou a experiências paranormais. “Trata-se de ilusões cognitivas, que, porém, nos ajudam a viver melhor”, explica a psicóloga.

Atribuir os acontecimentos à sorte permite que a pessoa seja mais indulgente consigo mesma. “Segundo a teoria da atribuição, proposta em 1958 pelo psicólogo Fritz Heider, quando analisamos a causa de um fato, podemos nos basear em uma dimensão interna ou externa em relação a nós mesmos e estável ou instável quanto ao tempo”, explica Montali. Em suma, podemos atribuir o mau desempenho em um exame ao nosso despreparo, à má vontade do professor ou à constante antipatia deste em relação a nós.

Nessa perspectiva, sorte e azar são causas externas instáveis, que conferem sentido a um evento que até então não tinha, para nós, sentido algum e que reduzem a ansiedade causada pela incerteza. Ao mesmo tempo, isso nos absolve de qualquer culpa. ”É um erro que protege o eu”, explica Montali, “tanto mais tendemos a atribuir os êxitos aos nossos talentos e os fracassos ao azar”. Esse erro pode alimentar preconceitos. “Um estudo realizado em 1974 mostrou que indivíduos de ambos os sexos, interrogados sobre as causas do êxito profissional de pessoas famosas, tendem a atribuir o sucesso dos homens à capacidade destes e o das mulheres à sorte”.

A superstição e o pensamento mágico são instrumentos para enfrentarmos a incerteza: quando nos consideramos azarados estamos dizendo que não somos responsáveis por nossos fracassos”, resume Wiseman, que hoje oferece verdadeiras “lições de sorte” a gerentes e outros interessados, “Alguns dos meus alunos ‘azarados’ conseguem mudar radicalmente a vida quando assimilam as regras que sugiro. Ser sortudo quer dizer enfrentar os problemas de forma criativa “.

Isso quer dizer também que é preciso livrar-se das superstições, crenças que podem se auto confirmar, já que a convicção de que algo de errado está para acontecer coma a pessoa ansiosa e insegura e, portanto, mais vulnerável a incidentes. Uma pesquisa publicada em 1993 no British Medical Journal – e confirmada por um estudo publicado em 2002 no American Journal of Psychiatry – mostrou que a sexta-feira 13 é um dia particularmente arriscado nas estradas. A causa é o nervosismo dos motoristas, devido ao fato de que na Grã-Bretanha e em muitos outros países, o número 13 é considerado mau agouro.

Recorrer a “bruxos” e videntes também é uma forma de afastar a incerteza, confiando aos outros o nosso destino. Wiseman explica: “Essas pessoas, muitas vezes, levantam problemas que nem sequer existem, oferecendo­ nos então uma solução custosa. E são bastante astutas para nos convencer de que sua intervenção afastou uma ameaça na verdade inexistente. Já aqueles que procuram videntes tendem a ignorar as predições negativas, concentrando-se nas positivas. É uma atitude típica de quem não gosta da incerteza. Minha experiência sugere que são justamente as situações indeterminadas que nos permitem assumir o controle sobre nossa vida”.

Muitas pessoas confiam ainda em amuletos, como, por exemplo, um objeto que carregavam consigo em um momento particularmente favorável da vida. “Os talismãs nos dão a sensação de que retomamos o controle da situação e não constituem algo negativo, já que não se tornam uma desculpa para não se enfrentar as situações, aliás, algumas pessoas ‘sortudas’ que estudamos carregavam um”, conclui o psicólogo. Wiseman está preparando um “amuleto científico”, isto é, um medalhão no qual serão inscritos os princípios que inspiram a “escola da sorte”. Ele pretende testar experimentalmente a eficácia desse objeto com seus alunos.

A SORTE EM QUADRINHOS

Quem é mais simpático: Gastão ou o Pato Donald? Intérpretes do imaginário coletivo, os personagens de Walt Disney resumem também nossa atitude diante da sorte. Gastão é a tal ponto sortudo que às vezes é obrigado a se defender da sorte que o brinda constantemente com honrarias e prêmios. Pode nos fazer rir, mas a simpatia do leitor – e de Margarida, que Gastão tenta, em vão, conquistar – vai para o azarado Donald. Gastão é irritante porque não faz esforço para ganhar dinheiro e prestígio, enquanto o Pato Donald tenta, inutilmente, lutar contra o azar que o persegue. Tio Patinhas, por sua vez, obteve êxito financeiro com muito trabalho.

Em suma, a sorte nos agrada, mas os sortudos nem tanto. “Em parte porque”, comenta Wiseman, “é sempre mais consolador encontrar alguém mais tolo ou azarado que nós. “E talvez também porque as cômicas desventuras dos personagens dos quadrinhos – catastróficas, mas sem consequências permanentes – nos ajudam a tornar mais leve acontecimentos graves. Torcemos pelo Coiote em suas tentativas, sempre fracassadas, de capturar Beep Beep. E gostamos da ironia com que Charlie Brown comenta os pequenos desastres cotidianos que marcam sua vida. A simpatia desses personagens nasce da energia com que enfrentam as dificuldades cotidianas. Assim, no mundo dos quadrinhos e do cinema, são poucos os personagens afortunados, como Lucky Luke, o imbatível pistoleiro criado pelo belga Morris. Além disso, muitas vezes um super-herói deve suas características a um evento dramático que o tornou diferente das pessoas normais e tem, assim, um “calcanhar -de- aquiles” que nos faz temer por seu destino. O próprio mecanismo da narrativa, que precisa ser alimentado por infortúnios e contrastes, torna a sorte algo pouco atraente. Parafraseando Tolstoi, poderíamos dizer que todos os personagens sortudos são afortunados do mesmo modo e, portanto, um pouco tediosos. Isso foi explorado magistralmente por Pirandello ao retratar, no conto “O diploma”, o maléfico anti-herói Rosário Chiárchiaro, que solicita e obtém um reconhecimento oficial de seus poderes funestos. Assim, ele consegue ao menos extrair alguma vantagem da superstição de seus compatriotas, que condenaram sua família e ele próprio, à marginalidade.

OUTROS OLHARES

O COLAPSO DAS UNIVERSIDADES

As instituições federais devem parar atividades essenciais em setembro por absoluta carência de recursos. É o resultado das sucessivas tesouradas do governo nas verbas

As universidades federais brasileiras estão à beira de um colapso. Sem recursos financeiros suficientes para manter atividades básicas, em setembro elas devem parar. Após o bloqueio pelo Ministério da Educação (MEC), em abril, de 30% das verbas previstas para custear as instituições, a conta não fecha. Com R$ 1,8 bilhão em recursos barrados pelo Executivo, não há dinheiro suficiente para pagar serviços essenciais de manutenção das instituições. É o caso da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que está com as contas de água, luz e gás atrasadas há dois meses e não sabe se conseguirá estender o atraso por mais um mês. Se não lograr êxito, as empresas fornecedoras de transporte, limpeza, alimentação e vigilância podem suspender os serviços em agosto. E sem a mínima condição para receber os alunos no Campus, as aulas devem ser suspensas.
O momento da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) também é alarmante. As contas da instituição já vinham sofrendo com a falta de correção inflacionária nos contratos, mas a situação ficou insustentável após os cortes do governo. Não há recursos suficientes para a conta de luz e o ar-condicionado foi desligado em algumas unidades, ficando restrito aos locais cujo equipamento é essencial, como laboratórios de pesquisa. A Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), assim como a Universidade Federal da Bahia (UFBA), também não vão conseguir seguir suas atividades se o ritmo de liberação de recursos continuar o mesmo.

A crise atual na área se agravou com a política do governo de Jair Bolsonaro que usa a educação como um meio para implementar a sua ideologia de controle moral das escolas e universidades. O erro, aqui, é misturar o público com o privado. Por público entende-se oferecer uma educação de qualidade que atenda as necessidades da população, e por privado a visão pessoal e militar do presidente sobre as instituições. Porém, é preciso ser justo. A situação catastrófica do Ministério da Educação não foi criada pelo governo Bolsonaro. O problema fiscal é uma realidade que se arrasta no País há anos e decorre da política econômica dos governos anteriores, principalmente na era petista. Na época, os gastos foram maiores que a receita,
o que gerou uma bola de neve fiscal.

MENOS BOLSAS DE PESQUISA

Isso não legitima, no entanto, as recorrentes manifestações de incompetência do governo para lidar com a crise. Exemplo de ineficácia é a escolha dos responsáveis pela pasta da Educação. O filósofo Ricardo Vélez, que assumiu o ministério logo após a posse de Bolsonaro, se mostrou uma péssima escolha, a ver pelas suas propostas autoritárias e afirmações sobre ser “constitucional” o golpe de 1964. Demitido em abril, sua substituição também não foi uma escolha feliz. O atual ministro da Educação, o economista Abraham Weintraub, especialista em administração e finanças, também deixa a desejar. “O cérebro dele está direcionado para fazer cortes. Ele é competente, mas não tem uma visão ampla sobre a educação”, diz Francisco Borges, consultor da Fundação de Amparo à Tecnologia (FAT). Outra área que está com o sinal amarelo é a de bolsas de pesquisa, que afetam diretamente a rotina universitária. O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnólogico (CNPq), ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) suspendeu a concessão de novas bolsas por causa do contingenciamento de verbas federais. De acordo com o órgão, o orçamento para 2019 não paga nem as 84 mil bolsas já concedidas aos pesquisadores.

Apesar de o governo Bolsonaro afirmar a necessidade de o País crescer economicamente com uma política liberal, ele ignora que a produção acadêmica é fundamental para que esse caminho seja percorrido, afinal, as pesquisas são indispensáveis para uma nação deixar o status de “país subdesenvolvido”. Em vez de lidar com a crise atual, o governo quer reinventar a roda lançando uma proposta que está sendo criticada por especialistas e pelo meio acadêmico. O programa “Future-se”, anunciado pelo Ministério e que permanecerá em consulta pública até quinta-feira 15, é exemplo disso. Entre as medidas que propõe, está a venda dos “naming rights” de prédios de universidades para patrocinadores. Além disso, pretende comercializar imóveis da União ociosos e incluir a participação de Organizações Sociais (OS) na gestão de gastos. “Não chamo isso de programa, é uma proposta constrangedoramente rasa”, diz Fernando Cássio, professor de política educacional da Universidade Federal do ABC e colaborador da Campanha Nacional de Direito à Educação. “Tecnicamente é de baixíssima eficácia”, diz ele.

Entre os problemas do projeto apontados pelos estudiosos está o fato de que o arranjo proposto para a participação das Organizações Sociais é questionável. Por lei, cada OS pode administrar somente um contrato, mas a proposta abre brecha para que elas possam gerir vários deles. Outro problema seriam os litígios judiciais dos imóveis pertencentes às universidades. O “Future-se” prevê que eles sejam colocados em fundos imobiliários, mas na prática isso levaria tempo e não resolveria o caráter emergencial orçamentário enfrentado hoje pelas instituições. Outra questão seriam os Fundos Patrimoniais, que poderiam financiar pesquisas ou investimentos de longo prazo a partir de doações de empresas. “Isso não acontece da noite para o dia. Além disso, é errado defender essa proposta comparando-nos com os Estados Unidos porque lá a maior parte do dinheiro para pesquisa vem do Estado, não de instituições privadas”, diz Cássio.

BAIXA PRODUTIVIDADE

Apesar das trapalhadas do Ministério da Educação, algumas medidas levantadas pelo “Future-se” são legítimas. Conectar universidade e mercado, por exemplo, é uma delas. Um estudo apresentado esse ano pelo MEC mostrou que na Coreia do Norte um aluno sai da graduação com a produtividade nove vezes maior que a apresentada quando entrou, enquanto em outros países da Ásia, a proporção é de quatro vezes. No Brasil esse índice é nulo. “Somos o único país em que o ganho é zero depois da graduação. Ou formamos muito mal ou não temos valor para o mercado”, diz Francisco Borges. Para ele, repensar o modelo é necessário, assim como criar uma política melhor de patentes. O problema, porém, é a maneira como o modelo está sendo proposto. “Ocorreu de uma forma extremada e essa é uma postura desse governo. O Future-se é uma grande nuvem de fumaça, não é de um dia para o outro que se articula universidade e mercado. Vai levar uns três ou quatro anos para que isso aconteça”, diz ele

Outra crítica ao programa é o fato dele não respeitar a autonomia da universidade e o fato de que as medidas propostas já estão sendo desenvolvidas nas instituições. “O Programa foi elaborado pelo MEC sem a necessária interlocução com os reitores ou a comunidade acadêmica”, disse a reitoria da UFRJ em nota, que, assim como outras instituições, se incomodou com o fato do programa ter sido criado sem que reitores ou a comunidade científica tenham sido consultados. Para Cláudia Costin, diretora do Centro de Excelência e Inovação e Políticas Educacionais da FGV, a crise econômica do País é grave e é legítimo repensaros recursos educacionais com criatividade. A forma, no entanto, teria de ser revista.“A ideia de colocar Organizações Sociais para dialogar com as universidades é positiva, mas não está claro como isso vai acontecer. Essas organizações vão poder contratar professores sem estabilidade?”, questiona ela. “A comunicação do governo é desastrada e muito agressiva.”

As medidas desencadearam na semana passada protestos por todo o País. Na terça-feira 13, 204 cidades foram palco de manifestantes que foram às ruas protestar contra as políticas educacionais do governo. De acordo com a UNE, estiveram presentes 900 mil pessoas. Entre os participantes, o que se viu foram faixas críticas como “Exterminador do futuro ou enganos do Future-se”. Tratou-se do terceiro ato contra a educação do atual governo. Desta vez, no entanto, diversas bandeiras, não ligadas à educação, se misturaram ao movimento e enfraqueceram o discurso. Como foi o caso da presença da CUT e dos pedidos por “Lula Livre”. Isso nada tem a ver com a pauta da educação. Interesses políticos à parte, a agenda das Universidades é urgente e afeta esquerda e direita. Por isso, urge um discurso menos politizado e mais concreto.

O governo ignora a importância da produção acadêmica para que o difícil caminho do crescimento econômico seja percorrido

GESTÃO E CARREIRA

QUANDO O TRABALHO VIRA DOENÇA

Ao reconhecer os sintomas da síndrome Burnout como um novo distúrbio psiquiátrico, a OMS lança um alerta contra os excessos na vida profissional

O termo “burnout” ainda não é popular, mas seus sintomas são bem conhecidos na vida contemporânea. Por isso, a inclusão dessa síndrome na revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID), da Organização Mundial da Saúde (OMS), anunciada na segunda-feira 27, se fez necessária. Por estar fora até agora, ficava difícil estabelecer diagnósticos, tratamentos, pesquisas e até decisões judiciais relacionadas ao distúrbio. O documento começa a valer a partir de 2022.

Resultado do estresse crônico no trabalho, a síndrome de burnout não é uma doença, no sentido clássico, mas um conjunto de sintomas cujas características são a “sensação de esgotamento, cinismo ou sentimentos negativos relacionados a trabalho e à eficiência profissional”, informa a OMS. O mal é desencadeado por uma mescla de fatores internos, como personalidade, e externos, como ambiente profissional, que tornado tóxico, deixa de ser fonte de subsistência e autonomia, para se transformar em um fator de comprometimento da saúde.

Foi o que aconteceu com Jenifer Guimarães, de 28 anos. Durante seis anos ela ocupou um cargo de liderança em uma grande livraria paulistana. Com a crise econômica, veio a demissão de funcionários. Os que ficaram acabaram sobrecarregados. No ano e meio posterior, ela sentiu os primeiros sintomas, como negligência das próprias necessidades, isolamento social e mudança de comportamento. “Eu ignorava, achava que era cansaço, até que um dia estava no ônibus e não sabia onde descer”, diz ela. Era o apagão, denominação da última fase da síndrome. Em tratamento, Jenifer passa por sessões de psicoterapia, toma medicamentos psiquiátricos e, claro, trocou de emprego.

É um caso comum. De acordo com Wagner Gattaz, psiquiatria da Medicina da USP, as pesquisas recentes mostram que o burnout atinge 27 milhões de brasileiros (13% da população). Nas empresas, as variações são amplas, indo de 5% a 35%, de acordo com o departamento ou função. “Quando os funcionários estão doentes, a produtividade cai e os reajustes dos planos de saúde ficam cada vez mais altos”, diz. Há quatro anos ele dá consultoria para empresas, que descobriram que podem economizar até 500% a cada ano em seus planos empresariais com diagnósticos precoces do novo distúrbio.

ALIMENTO DIÁRIO

A HISTÓRIA DO CASAMENTO

DIA 25 – AS ESTAÇÕES DO SEXO

Para tudo há uma ocasião certa; há um tempo certo para cada propósito debaixo do Céu… Eclesiastes 3:1

Em muitas áreas da vida, o momento certo não é apenas importante – ele é tudo. Se tudo na vida é sazonal e o tempo está ligado a todo propósito, então nossa expressão sexual não é exceção. Cada ano é formado por quatro estações, e acreditamos que cada casamento também obedece a essa regra. Portanto, vamos examinar o sexo à luz desse conceito.

PRIMAVERA: A PRIMEIRA DÉCADA

Para criar uma ilustração que nos ajudará a entender esse conceito, assemelharemos cada estação do sexo a uma década do casamento. Para explicar melhor esse exemplo, vamos escolher um casal que se casou quando ambos tinham cerca de vinte e oito anos de idade – a média atual em que as pessoas se casam. Então vamos designar os dez primeiros anos do casamento (dos 28 aos 38 anos) como a estação da inocência e dos novos começos, que conhecemos como a primavera. Citando Alexander Pope, esse é momento no qual “a esperança brota eternamente”. Na primavera, sua vida está desabrochando de possibilidades.

Essa primeira década é uma estação de expectativa e descoberta, quando vocês entram na vida com uma nova perspectiva sexual. O que estava dormente no seu tempo de espera apaixonada agora é despertado na primavera do seu casamento. Ambos ainda estão descobrindo quem são como indivíduos e como é viver a vida juntos. Cada aspecto de sua vida sexual juntos é novo e fresco.

Se vocês estão planejando criar uma família, muito provavelmente esta será a estação na qual vocês experimentarão as alegrias e os desafios da gravidez. A vida sexual de vocês parecerá diferente e vocês a sentirão de maneira diferente com filhos em suas vidas. Vocês não são mais apenas amantes; vocês são pais e mães também. Talvez tenham filhos interrompendo seu descanso ou até dormindo no seu quarto.

Essa pode ser uma fase de desafios empolgantes. Eu (Lisa) amava ser uma jovem mãe. Amava cuidar de meus filhos e amamentei cada um de meus quatro meninos durante um a dois anos. O que nos leva à seguinte questão: em meu zelo por amamentá-los, descobri que era muito mais fácil negligenciar John. As jovens mães nunca deveriam ser obrigadas a escolher entre seus filhos e seus cônjuges, mas tome cuidado para que o bebê que você está carregando nos braços não tire o lugar de seu marido.

Eu me sentia tão preenchida amamentando e tendo meus bebês adoráveis nos meus braços que não deixava espaço suficiente para meu marido. Eu me esquecia de que embora ele amasse nossos filhos, não estava tendo a mesma conexão íntima com eles que eu tinha. Ele precisava de mim, mas as necessidades das crianças nascidas do nosso amor eram muito mais óbvias que as dele. No sentido oposto, alguns maridos cuidam de suas filhas, e enquanto se desdobram em elogios a elas, se esquecem de incluir suas esposas.

Sejam dedicados aos seus filhos e ao mesmo tempo cuidem da sua intimidade um com o outro. Invistam um no outro. Ponham as crianças para dormir cedo o bastante para terem tempo juntos. Compartilhem o fardo para que vocês possam compartilhar mais do que apenas o sono em sua cama. Converse abertamente com seu cônjuge sobre suas necessidades e preocupações. Às vezes, simplesmente dizer “Sinto falta do nosso tempo de intimidade juntos. Como podemos fazer isso acontecer?” fará um grande bem para eliminar qualquer frustração.

Sejam intencionais na sua primeira década para descobrir as necessidades íntimas um do outro. Não permitam que nenhum padrão sexual se desenvolva fazendo com que qualquer um de vocês possa vir a se ressentir mais tarde.

Conversem um com o outro. Nessa primeira década ou estação do casamento, é importante pensar na sua intimidade como um jardim no qual vocês plantam na primavera para desfrutar dos frutos no verão e no outono.

VERÃO: A SEGUNDA DÉCADA

O verão é sempre melhor do que poderia ser. — Charles Bowden

Se a primavera personifica a esperança, o verão simboliza a visão em todo o seu esplendor. Essa é uma estação sempre cheia de vida. Os planos de carreira já estão bem definidos agora, e vocês provavelmente já sabem se vão ser pais. Os filhos que já chegaram estão crescendo para serem o melhor que poderiam ser e, enquanto os filhos crescem, os pais também estão realizando seu próprio destino.

Você não quer perder um único momento dourado do verão! Vocês terão de criar tempo para a intimidade acontecer em meio à intensa rotina escolar, das atividades extracurriculares e das carreiras. Se sua década de primavera foi bem plantada, vocês desfrutarão dessa década ainda mais do que da última estação. E se o seu jardim não foi bem cuidado na primeira década, não é tarde demais para plantar.

O verão é uma estação na qual tudo pode crescer rapidamente, inclusive as ervas daninhas. Trabalhem para manter seus canteiros livres das ervas daninhas que podem ser fruto da familiaridade. Continuem a regar o que é saudável na sua intimidade e ela crescerá ainda mais depressa porque vocês já têm uma década de confiança adubando seu solo.

O verão significa dias longos, risos, piqueniques e tempestades à tarde. Descobrimos na nossa década de verão que se queríamos fazer amor, o melhor era fazê-lo à tarde. Estávamos sempre cansados demais à noite, por isso ter intimidade durante o dia, quando os meninos estavam fora ou na escola, era melhor do que esperar para ver se teríamos alguma chance à noite.

OUTONO: A TERCEIRA DÉCADA

Em seguida vem a década que chamamos de outono. Até agora, esse é a nossa estação favorita. Amamos a combinação de dias brilhantes de sol e noites frescas. Somos muito mais relaxados agora, quando nossos corpos também tem uma aparência mais “relaxada”.

O outono é uma segunda primavera, quando cada folha é uma flor. — Albert Camus

Amamos essa época! Em vez de tentar recuperar sua juventude, celebre seu outono. Descobrimos que nesta estação a intimidade volta a ter mais espaço em nossas vidas. Na casa dos cinquenta anos, nossos dias passaram a ter um ritmo diferente. Não estamos mais fazendo dever de casa com as crianças ou levando-os à escola ou a eventos esportivos. Temos mais tempo um para o outro.

Estamos até escrevendo as coisas que queremos fazer nesta década outonal para que o inverno não nos pegue de surpresa. Uma dessas coisas é cuidar da nossa saúde sexual cuidando dos nossos corpos com uma dieta saudável, ar fresco e exercícios regulares. Estamos intencionalmente fazendo mais caminhadas juntos. Era isso que amávamos fazer quando estávamos namorando.

Muitos casais se desconectam no outono da vida. Quando seus filhos saem de casa, os cônjuges descobrem que estão vivendo com um estranho. Nessa década, todos nós temos uma escolha. Podemos chorar a perda do que tínhamos ou escolher ficar empolgados com o que virá. Nós o encorajamos a ver essa estação como uma chance de refazer seu casamento. Vocês podem se tornar como recém-casados novamente, com a diferença de que, dessa vez, vocês serão ambos mais velhos e mais sábios.

INVERNO: OS ANOS QUE RESTAM

Nas profundezas do inverno, finalmente aprendi que havia dentro de mim um verão invencível. — Albert Camus

Não vamos mentir, envelhecer parece difícil e extremamente injusto. Os pais de John fizeram isso bem. Eles enfrentaram alguns desafios na saúde, mas seu compromisso em caminhar, se exercitar e fazer refeições regulares com amigos os manteve ativos, e os dois lindinhos ainda dormem juntos em uma cama de casal – por opção. É melhor envelhecer juntos, e o sexo é maravilhosamente lindo quando é feito de acordo com cada estação.

O autor do versículo sobre as estações em Eclesiastes também diz: “Tudo fez Deus formoso no seu devido tempo” (Eclesiastes 3:11, ARA). A coisa certa na estação certa é formosa. Queremos envelhecer bem juntos e dançar ao ritmo da nossa estação.

Um último exemplo para reflexão. As sungas são ótimas para as Olimpíadas, mas eu (Lisa) olho para o outro lado quando vejo homens velhos usando-as. O que um dia serviu ao propósito de impulsionar você dentro da água com velocidade é desnecessário na estação em que você nada e boia relaxadamente. O ponto é nunca parar de nadar. Você não deixa de amar a água só porque não fica mais bem de biquíni. A natação e o sexo são divertidos em todas as estações; eles apenas parecem diferentes com o passar do tempo.

Comecei na primavera do nosso casamento usando um biquíni, depois passei para o nosso verão como mãe usando maiô inteiro. Na nossa estação atual, o outono, sou adepta dos shorts de surfista e tops. Quem sabe, quando a próxima estação, o inverno, se aproximar, eu decida simplesmente usar um maiô daqueles com saia embutida. Mas não vou parar de nadar.

Talvez não nademos com tanta frequência quanto na nossa primavera, nem nademos atentos à presença dos nossos filhos como fazíamos no nosso verão. Mas vamos nadar no outono e no inverno da nossa vida. De muitas formas diferentes, o sexo é nosso eterno verão.

SUGESTÕES PRÁTICAS

Não importa em qual estação da vida você esteja, fale. Se você é solteiro, compartilhe seus desejos e anseios com Deus. Fale com um amigo que compartilhe da sua busca por andar em virtude e encorajem um ao outro. Se você é casado, falem um com o outro. Compartilhem suas preocupações.

A verdade é que todos podem se tornar melhores amantes – mas somente se forem ensinados. Os homens podem ser metódicos. Eles pensam: Se isto funcionou nas últimas dez vezes, por que mudar algo bom? Mulheres, digam aos seus maridos se vocês quiserem mudar as coisas. Digam coisas do tipo: “Adoro quando você beija o meu pescoço”. Não faça seu marido ter que adivinhar. Compartilhe abertamente seus desejos.

Abracem um ao outro durante o dia quando não puderem fazer sexo para que vocês se sintam confortáveis quando puderem. Acariciem um ao outro. Façam caminhadas quando precisarem conversar sobre sexo para que ninguém sinta que está cometendo um erro no momento. Não acreditem no que as revistas dizem; vocês têm o direito de personalizar sua vida sexual tanto quanto qualquer outra parte do seu casamento.

Se vocês precisarem de ajuda, busquem ajuda. Não deixem uma área tão sagrada do seu casamento ao acaso. Incluímos uma lista de recursos sugeridos no final deste livro, e sua igreja pode dar a vocês maiores orientações.

Por não ser esta uma área na qual somos especialistas, mas na qual temos experiência limitada, nossas percepções se aplicam principalmente a casais que desejam intimidade em lugar de simples gratificação. Entendemos que há vezes em que um cônjuge não tem qualquer interesse pelo outro. Sabemos que esse tipo de rejeição íntima é extremamente doloroso, mas não se volte para outra pessoa; volte-se para Deus. Derrame seu coração perante Ele e creia que Ele curará a sua união. Exigir sexo um do outro nunca funciona.

Também sabemos que existem estações desafiadoras quando um cônjuge está doente, desanimado ou passando por uma condição médica que impede ou dificulta sua intimidade. Converse com seu médico para ver o que pode ser feito.

Nossa oração por vocês é que descubram a paixão para toda a vida e criem seu próprio legado sexual, estabelecido com base no projeto santo de Deus, não algemado pelas feridas ou fracassos do passado. Que vocês possam estar sempre “embriagados” no amor um do outro!