A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O HOMEM QUE NÃO ESQUECE

O savantismo oferece lima janela singular para o interior da mente. Só quando conseguirmos explicar a síndrome poderemos dizer que conhecemos de fato o funcionamento do cérebro humano

J. Langdon Down descreveu pela primeira vez a síndrome do sábio em 1887, quando cunhou o nome do distúrbio. O médico associou o “savantismo” ou “síndrome de savant” à capacidade impressionante de memória. Em seu relato, mencionou um paciente que recitava de cor A ascensão e queda do Império Romano, de Edward Gibbon. Desde então, em quase todos os casos, a memória dos portadores dessa síndrome refere-se a uma área específica como música, artes ou matemática. Mas o dom de um homem de 54 anos, chamado Kim Peek, é a memória fenomenal em si. Seus amigos o apelidaram de “Kimputador”.

Sua surpreendente memória chamou a atenção do escritor Barry Morrow, num encontro casual em 1984, inspirando-o a escrever o roteiro de Rain Man, cujo personagem principal, Raymond Babbitt, interpretado por Dustin Hoffman, é portador de savantismo. O filme é puramente ficcional e nem de longe conta a história de Kim. Ele consegue encontrar um fato em sua biblioteca mental com a rapidez de um mecanismo de busca na internet. Levou uma hora e 25 minutos para ler Caçada ao outubro vermelho, de Tom Clancy.

Quatro meses depois, quando indagado, citou o nome de um personagem, a página que o descreve e recitou passagens textualmente. Kim começou a memorizar livros aos 18 meses, quando eram lidos para ele. Até agora, decorou 9 mil obras. Ele leva de oito a dez segundos para ler uma página e guarda o livro memorizado de cabeça para baixo na estante para indicar que está armazenado no seu ”disco rígido” mental.

A memória de Kim abrange pelo menos 15 áreas de interesse – entre elas, história geral e americana, esportes, cinema, geografia, programas espaciais, atores e atrizes, a Bíblia, história da Igreja, literatura, Shakespeare e música clássica. Ele sabe todos os códigos postais e de área dos Estados Unidos, além dos canais de televisão que cobrem esses locais. Decora os mapas no início das listas telefônicas e consegue fornecer informações de localização sobre qualquer cidade grande dos Estados Unidos ou sobre a distância entre elas. Identifica centenas de peças de música clássica, diz quando e onde foram compostas e estrearam, dá o nome do compositor e muitos detalhes biográficos, e até discute os componentes formais e tonais de músicas. O mais intrigante é que uma habilidade nova parece estar surgindo na meia idade. Enquanto no passado só sabia falar sobre música, nos últimos dois anos ele vem aprendendo a tocar.

Trata-se de uma façanha surpreendente à luz de seus graves problemas de desenvolvimento, características compartilhadas, em graus variáveis, por todos os portadores do savanrismo. Kim anda meio de lado, não abotoa as roupas nem consegue realizar tarefas cotidianas e em grandes dificuldades com abstrações. Contra o pano de fundo de todas essas deficiências, seus talentos – que seriam extraordinários em qualquer pessoa – brilham ainda mais. Uma explicação de como consegue fazer tanta coisa permitiria compreender melhor por que certas habilidades, inclusive a de calcular datas, sempre associada à memória volumosa ocorrem com tamanha regularidade entre os portadores dessa síndrome. Recentemente, quando um jornalista contou a Kim que nasceu em 31 de março de 1956, ele observou, em menos de um segundo, que era um sábado, véspera da Páscoa.

Estudos de imagens do cérebro de Kim de fato revelam alterações estruturais consideráveis. Contudo, ainda não é possível associar essas descobertas a nenhuma de suas habilidades. Técnicas novas de tomografia que mapeiam as funções do cérebro – não apenas sua estrutura – devem fornecer dados adicionais. Enquanto isso, acreditamos que vale a pena documentar as coisas incríveis de que Kim é capaz. Não é fácil encontrar gente como ele, e é útil registrar suas características para pesquisas futuras. O savantismo oferece uma janela singular para o interior da mente. Só quando conseguirmos explicá-la poderemos dizer que conhecemos de fato o funcionamento do cérebro humano.

CÉREBRO INCOMUM

Kim nasceu em 11 de novembro de 1951 (um domingo, ele dirá). Tinha cabeça grande, em cuja parte posterior havia uma encefalocele (uma “bolha”, do tamanho de uma bola de beisebol), que desapareceu. Havia também outras anormalidades, incluindo deformação do cerebelo. Um de nós (Christensen) realizou as tomografias por ressonância magnética de Kim em 1988 e acompanha seu desenvolvimento desde então.

As descobertas em relação ao cerebelo talvez expliquem os problemas de coordenação e mobilidade de Kim. Ainda mais impressionante é a ausência do corpo caloso, a grande placa de tecido nervoso que normalmente interliga os hemisférios cerebrais. Não sabemos como interpretar essa falha, porque, embora rara, ela nem sempre vem acompanhada de distúrbios funcionais.  Descobriu-se que algumas pessoas sem essa estrutura não sofrem nenhum problema detectável. No entanto, quando o corpo caloso é removido na vida adulta, na tentativa de impedir que ataques epiléticos se transmitam de um hemisfério para o outro, surge a síndrome do “cérebro dividido”, em que os hemisférios separados começam a funcionar quase independentemente um do outro.

É provável que pessoas que nascem sem corpo caloso consigam desenvolver canais de comunicação na parte posterior dos hemisférios e que as estruturas resultantes permitam aos dois hemisférios funcionar, de certo modo, como um “hemisfério gigante”, reunindo sob o mesmo teto funções que saiam separadas. Talvez Kim deva alguns de seus talentos a essa anormalidade específica. De qualquer modo, o fato de a ausência do corpo caloso não implicar nenhuma deficiência em algumas pessoas, enquanto outras desenvolvem o savantismo, torna sua finalidade mais obscura do que se imaginava. A piada entre os neurologistas é que as duas únicas funções conhecidas do corpo caloso são propagar ataques epiléticos e manter o cérebro unido.

A teoria orienta-nos em um aspecto. O cérebro de Kim mostra anormalidades no hemisfério esquerdo, padrão encontrado em muitos portadores de savantismo. Além disso, lesões nesse lado do cérebro podem explicar por que os homens são mais propensos a desenvolver não apenas savantismo, mas também dislexia, gagueira e autismo. O mecanismo proposto divide-se em duas partes: fetos masculinos têm nível maior de testosterona, que pode ser tóxica ao desenvolvimento de tecido cerebral, e o hemisfério esquerdo desenvolve-se mais lentamente, portanto, permanece vulnerável por um período maior. Vários casos relatados de “savantismo adquirido” em que crianças e adultos subitamente desenvolvem habilidades da síndrome após lesão no hemisfério esquerdo, reforçam o papel das lesões.

O que indicam esses dados? Uma possibilidade é que, quando o hemisfério esquerdo não consegue funcionar bem, o direito compensa a deficiência desenvolvendo habilidades novas, talvez recriando tecido cerebral normalmente destinado a outros propósitos. Outra possibilidade é que a lesão no hemisfério esquerdo revele habilidades antes latentes no direito desde o princípio, fenômeno que alguns interpretam como libertação da “tirania” do lado esquerdo dominante.

Kim submeteu-se a testes psicológicos em 1988. Seu Q l geral foi 87, mas os sub testes verbais e de desempenho variaram muito, alguns resultados situam-se na faixa superior de inteligência e outros, na dos retardados mentais. O relatório psicológico concluiu, portanto, que “a classificação do Q I de Kim não é uma descrição válida de sua capacidade intelectual”. O debate “inteligência geral” versus ”várias inteligências” continua a pleno vapor na psicologia. Acreditamos que o caso de Kim reforce o último ponto de vista.

O diagnóstico geral foi “distúrbio de desenvolvimento sem maiores especificações”, sem menção a autismo. De fato, embora os autistas estejam mais comumente associados ao savantismo que a qualquer outro distúrbio, somente cerca de metade dos savants tem autismo. Contrastando com os autistas, Kim é sociável e bem sensato. Um fator que parece necessário para o pleno desenvolvimento das habilidades dos portadores de savantismo é um forte interesse pelo assunto no qual sobressaem.

MEMÓRIA E MÚSICA

No caso de Kim, todos os interesses começaram na memorização automática, mas depois progrediram para algo mais. Embora sua capacidade de pensamento abstrato ou conceitual seja limitada – não consegue, por exemplo, explicar vários provérbios corriqueiros – Kim compreende grande parte do material memorizado. Esse grau de compreensão é incomum entre portadores do savantismo. O próprio Down criou a interessante expressão “adesão verbal” para descrever a capacidade dessas pessoas de lembrar quantidades enormes de palavras sem compreendê-las. Sarah Parker, estudante de pós-graduação de psicologia da Universidade da Pensilvânia, ao rever um portador da síndrome chamado Gordon, observou metaforicamente que “ter um forno para tijolos não o transforma em pedreiro”. Kim, além de possuir um grande forno de tijolos, também se tornou pedreiro de palavras extremamente criativo e versátil dentro de suas áreas de interesse.

Às vezes, suas respostas a perguntas ou pedidos são bem concretas e literais. Certa vez, em um restaurante, quando seu pai pediu que “baixasse a voz”, Kim escorregou para baixo na cadeira, abaixando sua boca. Em outros casos, suas respostas podem parecer bem engenhosas. Numa de suas apresentações, respondeu a uma pergunta sobre o discurso de Abraham Lincoln em Gettysburg, “Casa de Will, 227 North West Front Street. Mas permaneceu só uma noite ali – ele fez o discurso no dia seguinte”. (Em inglês, address “endereço” significa também discurso, Kim não pretendia fazer uma piada, mas quando seu entrevistador riu, ele entendeu por quê. Desde que isso aconteceu, ele conta a história com toques bem-humorados.

Kim possui inegável capacidade de fazer associações inteligentes. Certa vez, compareceu a um festival de Shakespeare patrocinado por um filantropo conhecido pelas iniciais O.C, cuja laringite ameaçava impedi-lo de agradecer a homenagem. Kim- fã de Shakespeare e, como o bardo, incorrigível trocadilhista – brincou, “0. C., can you sayf (em inglês, frase homófona de “Oh see, can you say?

– Oh veja, você pode falar? -).

Tal uso criativo de material memorizado maquinalmente pode ser visto como o equivalente verbal da improvisação musical. Assim como o músico, Kim pensa rápido, tão rápido que pode ser difícil acompanhar suas intricadas associações. “Às vezes, ele parece, em suas respostas, dois ou três passos à frente de seu interlocutor.

Uma dimensão nova e surpreendente das habilidades de Kim surgiu recentemente. Em 2002, ele conheceu April Greenan, professora de música da Universidade de Utah. Com sua ajuda e encorajamento, logo começou a tocar piano e a aprimorar a discussão das composições tocando passagens, interpretando no teclado muitas das peças que lembrava de sua biblioteca mental gigantesca. Kim também possui uma notável memória de longo prazo para tonalidades, lembrando o tom original de cada composição.

Ele tem conhecimento completo dos instrumentos da orquestra sinfônica tradicional e identifica prontamente o timbre de qualquer passagem instrumental. Por exemplo, apresentou a abertura do poema sinfônico O rio Moldavia, de Bedrich Smetana, adaptando a melodia da flauta e da clarineta para um arpejo na mão esquerda. Enquanto isso, os oboés e fagotes entrariam com o tema principal, que ele então adaptou com tons tocados separadamente e depois em terças com a mão direita (a mão esquerda continuava a tocar o que indicava a partitura). Sua compreensão dos estilos musicais é demonstrada pela capacidade de identificar compositores de peças que nunca ouviu, avaliando o estilo musical da obra e traduzindo quem poderia ser aquele compositor.

Embora ainda fisicamente desajeitado, a destreza manual de Kim vem aumentando. Ao piano, consegue tocar a peça que deseja discutir, cantar a passagem de interesse ou descrever a música verbalmente, mudando com naturalidade de um modo para outro. Kim presta atenção também ao ritmo, marcando o compasso no peito com a mão direita ou, ao tocar, batendo o pé direito.

Greenan, estudiosa de Mozart, faz três observações: “o conhecimento musical de Kim é considerável. Sua capacidade de lembrar cada detalhe de uma composição que ouviu – em muitos casos, uma só vez e mais de 40 anos atrás – é espantosa. As associações que faz entre composições, vida dos compositores, eventos históricos, trilhas de filmes e milhares de fatos armazenados em seu banco de dados revelam enorme capacidade intelectual”. A professora chega a compará-lo a Mozart, que também tinha cabeça grande, fascínio por números e habilidades sociais irregulares. E se pergunta se Kim chegará a aprender a compor.

A VIDA APÓS RAIN MAN

Numa cena visionária do filme Rain Man, Raymond Babbit calcula de cabeça, em instantes, raízes quadradas, e seu irmão, Charlie, interpretado por Tom Cruise, observa: “Ele deveria trabalhar na Nasa ou coisa semelhante”. Para Kim, tal colaboração pode vir a se concretizar.

A agência espacial americana propôs-se a criar um modelo anatômico de alta resolução da arquitetura do cérebro de  Kim em 3-D. Richard Boyle, diretor do Centro de Tecnologia  BioVIS, da Nasa, descreve o projeto como parte de um esforço maior de sobrepor e fundir imagens da mais ampla variedade possível de cérebros – daí o valor especial da mente  incomum de Kim. Os dados, estáticos e funcionais, devem ajudar pesquisadores a localizar   e identificar mudanças no cérebro que acompanham o pensamento e o comportamento. A Nasa espera que esse modelo melhore a capacidade de interpretação feita pelos médicos do resultado de sistemas de imagens de ultrassom bem menos potentes, o único tipo capaz atualmente de ser transportado para o espaço a fim de monitorar astronautas.

O sucesso de Rain Man constituiu um divisor de águas na vida de Kim. Antes disso, ele era solitário e enfiava­se no seu quarto quando chegavam pessoas. A confiança adquirida nos contatos com a equipe de filmagem e a celebridade resultante do sucesso do filme inspiraram a ele e seu pai, Fran Peek, a compartilhar os talentos de Kim com vários públicos. Eles se tornaram emissários entusiasmados dos portadores de deficiências, e compartilharam sua história com mais de 2 milhões de pessoas.

Acreditamos que a transformação de Kim tem aplicabilidade geral. Grande parte daquilo que os cientistas sabem sobre a saúde vem do estudo das doenças, e certamente grande parte do que se aprenderá sobre a memória normal virá do estudo da memória incomum. Neste ínterim, tiramos algumas conclusões práticas para o cuidado com outras pessoas com necessidades especiais e algumas habilidades da síndrome do sábio. Recomendamos que a família e outros profissionais da saúde “Treinem o talento”, em vez de desprezar essas habilidades como fúteis, de modo a conectar o portador com outras pessoas e mitigar os efeitos da deficiência. Não é um caminho fácil, porque deficiências e limitações ainda exigem grande dose de dedicação, paciência e trabalho duro – como o pai de Kim demonstra de forma tão convincente.

Investigações futuras sobre o savantismo proporcionarão descobertas científicas e histórias de imenso interesse humano. Kim Peck fornece amplos indícios de ambas as coisas.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.