A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O HOMEM QUE NÃO ESQUECE

O savantismo oferece lima janela singular para o interior da mente. Só quando conseguirmos explicar a síndrome poderemos dizer que conhecemos de fato o funcionamento do cérebro humano

J. Langdon Down descreveu pela primeira vez a síndrome do sábio em 1887, quando cunhou o nome do distúrbio. O médico associou o “savantismo” ou “síndrome de savant” à capacidade impressionante de memória. Em seu relato, mencionou um paciente que recitava de cor A ascensão e queda do Império Romano, de Edward Gibbon. Desde então, em quase todos os casos, a memória dos portadores dessa síndrome refere-se a uma área específica como música, artes ou matemática. Mas o dom de um homem de 54 anos, chamado Kim Peek, é a memória fenomenal em si. Seus amigos o apelidaram de “Kimputador”.

Sua surpreendente memória chamou a atenção do escritor Barry Morrow, num encontro casual em 1984, inspirando-o a escrever o roteiro de Rain Man, cujo personagem principal, Raymond Babbitt, interpretado por Dustin Hoffman, é portador de savantismo. O filme é puramente ficcional e nem de longe conta a história de Kim. Ele consegue encontrar um fato em sua biblioteca mental com a rapidez de um mecanismo de busca na internet. Levou uma hora e 25 minutos para ler Caçada ao outubro vermelho, de Tom Clancy.

Quatro meses depois, quando indagado, citou o nome de um personagem, a página que o descreve e recitou passagens textualmente. Kim começou a memorizar livros aos 18 meses, quando eram lidos para ele. Até agora, decorou 9 mil obras. Ele leva de oito a dez segundos para ler uma página e guarda o livro memorizado de cabeça para baixo na estante para indicar que está armazenado no seu ”disco rígido” mental.

A memória de Kim abrange pelo menos 15 áreas de interesse – entre elas, história geral e americana, esportes, cinema, geografia, programas espaciais, atores e atrizes, a Bíblia, história da Igreja, literatura, Shakespeare e música clássica. Ele sabe todos os códigos postais e de área dos Estados Unidos, além dos canais de televisão que cobrem esses locais. Decora os mapas no início das listas telefônicas e consegue fornecer informações de localização sobre qualquer cidade grande dos Estados Unidos ou sobre a distância entre elas. Identifica centenas de peças de música clássica, diz quando e onde foram compostas e estrearam, dá o nome do compositor e muitos detalhes biográficos, e até discute os componentes formais e tonais de músicas. O mais intrigante é que uma habilidade nova parece estar surgindo na meia idade. Enquanto no passado só sabia falar sobre música, nos últimos dois anos ele vem aprendendo a tocar.

Trata-se de uma façanha surpreendente à luz de seus graves problemas de desenvolvimento, características compartilhadas, em graus variáveis, por todos os portadores do savanrismo. Kim anda meio de lado, não abotoa as roupas nem consegue realizar tarefas cotidianas e em grandes dificuldades com abstrações. Contra o pano de fundo de todas essas deficiências, seus talentos – que seriam extraordinários em qualquer pessoa – brilham ainda mais. Uma explicação de como consegue fazer tanta coisa permitiria compreender melhor por que certas habilidades, inclusive a de calcular datas, sempre associada à memória volumosa ocorrem com tamanha regularidade entre os portadores dessa síndrome. Recentemente, quando um jornalista contou a Kim que nasceu em 31 de março de 1956, ele observou, em menos de um segundo, que era um sábado, véspera da Páscoa.

Estudos de imagens do cérebro de Kim de fato revelam alterações estruturais consideráveis. Contudo, ainda não é possível associar essas descobertas a nenhuma de suas habilidades. Técnicas novas de tomografia que mapeiam as funções do cérebro – não apenas sua estrutura – devem fornecer dados adicionais. Enquanto isso, acreditamos que vale a pena documentar as coisas incríveis de que Kim é capaz. Não é fácil encontrar gente como ele, e é útil registrar suas características para pesquisas futuras. O savantismo oferece uma janela singular para o interior da mente. Só quando conseguirmos explicá-la poderemos dizer que conhecemos de fato o funcionamento do cérebro humano.

CÉREBRO INCOMUM

Kim nasceu em 11 de novembro de 1951 (um domingo, ele dirá). Tinha cabeça grande, em cuja parte posterior havia uma encefalocele (uma “bolha”, do tamanho de uma bola de beisebol), que desapareceu. Havia também outras anormalidades, incluindo deformação do cerebelo. Um de nós (Christensen) realizou as tomografias por ressonância magnética de Kim em 1988 e acompanha seu desenvolvimento desde então.

As descobertas em relação ao cerebelo talvez expliquem os problemas de coordenação e mobilidade de Kim. Ainda mais impressionante é a ausência do corpo caloso, a grande placa de tecido nervoso que normalmente interliga os hemisférios cerebrais. Não sabemos como interpretar essa falha, porque, embora rara, ela nem sempre vem acompanhada de distúrbios funcionais.  Descobriu-se que algumas pessoas sem essa estrutura não sofrem nenhum problema detectável. No entanto, quando o corpo caloso é removido na vida adulta, na tentativa de impedir que ataques epiléticos se transmitam de um hemisfério para o outro, surge a síndrome do “cérebro dividido”, em que os hemisférios separados começam a funcionar quase independentemente um do outro.

É provável que pessoas que nascem sem corpo caloso consigam desenvolver canais de comunicação na parte posterior dos hemisférios e que as estruturas resultantes permitam aos dois hemisférios funcionar, de certo modo, como um “hemisfério gigante”, reunindo sob o mesmo teto funções que saiam separadas. Talvez Kim deva alguns de seus talentos a essa anormalidade específica. De qualquer modo, o fato de a ausência do corpo caloso não implicar nenhuma deficiência em algumas pessoas, enquanto outras desenvolvem o savantismo, torna sua finalidade mais obscura do que se imaginava. A piada entre os neurologistas é que as duas únicas funções conhecidas do corpo caloso são propagar ataques epiléticos e manter o cérebro unido.

A teoria orienta-nos em um aspecto. O cérebro de Kim mostra anormalidades no hemisfério esquerdo, padrão encontrado em muitos portadores de savantismo. Além disso, lesões nesse lado do cérebro podem explicar por que os homens são mais propensos a desenvolver não apenas savantismo, mas também dislexia, gagueira e autismo. O mecanismo proposto divide-se em duas partes: fetos masculinos têm nível maior de testosterona, que pode ser tóxica ao desenvolvimento de tecido cerebral, e o hemisfério esquerdo desenvolve-se mais lentamente, portanto, permanece vulnerável por um período maior. Vários casos relatados de “savantismo adquirido” em que crianças e adultos subitamente desenvolvem habilidades da síndrome após lesão no hemisfério esquerdo, reforçam o papel das lesões.

O que indicam esses dados? Uma possibilidade é que, quando o hemisfério esquerdo não consegue funcionar bem, o direito compensa a deficiência desenvolvendo habilidades novas, talvez recriando tecido cerebral normalmente destinado a outros propósitos. Outra possibilidade é que a lesão no hemisfério esquerdo revele habilidades antes latentes no direito desde o princípio, fenômeno que alguns interpretam como libertação da “tirania” do lado esquerdo dominante.

Kim submeteu-se a testes psicológicos em 1988. Seu Q l geral foi 87, mas os sub testes verbais e de desempenho variaram muito, alguns resultados situam-se na faixa superior de inteligência e outros, na dos retardados mentais. O relatório psicológico concluiu, portanto, que “a classificação do Q I de Kim não é uma descrição válida de sua capacidade intelectual”. O debate “inteligência geral” versus ”várias inteligências” continua a pleno vapor na psicologia. Acreditamos que o caso de Kim reforce o último ponto de vista.

O diagnóstico geral foi “distúrbio de desenvolvimento sem maiores especificações”, sem menção a autismo. De fato, embora os autistas estejam mais comumente associados ao savantismo que a qualquer outro distúrbio, somente cerca de metade dos savants tem autismo. Contrastando com os autistas, Kim é sociável e bem sensato. Um fator que parece necessário para o pleno desenvolvimento das habilidades dos portadores de savantismo é um forte interesse pelo assunto no qual sobressaem.

MEMÓRIA E MÚSICA

No caso de Kim, todos os interesses começaram na memorização automática, mas depois progrediram para algo mais. Embora sua capacidade de pensamento abstrato ou conceitual seja limitada – não consegue, por exemplo, explicar vários provérbios corriqueiros – Kim compreende grande parte do material memorizado. Esse grau de compreensão é incomum entre portadores do savantismo. O próprio Down criou a interessante expressão “adesão verbal” para descrever a capacidade dessas pessoas de lembrar quantidades enormes de palavras sem compreendê-las. Sarah Parker, estudante de pós-graduação de psicologia da Universidade da Pensilvânia, ao rever um portador da síndrome chamado Gordon, observou metaforicamente que “ter um forno para tijolos não o transforma em pedreiro”. Kim, além de possuir um grande forno de tijolos, também se tornou pedreiro de palavras extremamente criativo e versátil dentro de suas áreas de interesse.

Às vezes, suas respostas a perguntas ou pedidos são bem concretas e literais. Certa vez, em um restaurante, quando seu pai pediu que “baixasse a voz”, Kim escorregou para baixo na cadeira, abaixando sua boca. Em outros casos, suas respostas podem parecer bem engenhosas. Numa de suas apresentações, respondeu a uma pergunta sobre o discurso de Abraham Lincoln em Gettysburg, “Casa de Will, 227 North West Front Street. Mas permaneceu só uma noite ali – ele fez o discurso no dia seguinte”. (Em inglês, address “endereço” significa também discurso, Kim não pretendia fazer uma piada, mas quando seu entrevistador riu, ele entendeu por quê. Desde que isso aconteceu, ele conta a história com toques bem-humorados.

Kim possui inegável capacidade de fazer associações inteligentes. Certa vez, compareceu a um festival de Shakespeare patrocinado por um filantropo conhecido pelas iniciais O.C, cuja laringite ameaçava impedi-lo de agradecer a homenagem. Kim- fã de Shakespeare e, como o bardo, incorrigível trocadilhista – brincou, “0. C., can you sayf (em inglês, frase homófona de “Oh see, can you say?

– Oh veja, você pode falar? -).

Tal uso criativo de material memorizado maquinalmente pode ser visto como o equivalente verbal da improvisação musical. Assim como o músico, Kim pensa rápido, tão rápido que pode ser difícil acompanhar suas intricadas associações. “Às vezes, ele parece, em suas respostas, dois ou três passos à frente de seu interlocutor.

Uma dimensão nova e surpreendente das habilidades de Kim surgiu recentemente. Em 2002, ele conheceu April Greenan, professora de música da Universidade de Utah. Com sua ajuda e encorajamento, logo começou a tocar piano e a aprimorar a discussão das composições tocando passagens, interpretando no teclado muitas das peças que lembrava de sua biblioteca mental gigantesca. Kim também possui uma notável memória de longo prazo para tonalidades, lembrando o tom original de cada composição.

Ele tem conhecimento completo dos instrumentos da orquestra sinfônica tradicional e identifica prontamente o timbre de qualquer passagem instrumental. Por exemplo, apresentou a abertura do poema sinfônico O rio Moldavia, de Bedrich Smetana, adaptando a melodia da flauta e da clarineta para um arpejo na mão esquerda. Enquanto isso, os oboés e fagotes entrariam com o tema principal, que ele então adaptou com tons tocados separadamente e depois em terças com a mão direita (a mão esquerda continuava a tocar o que indicava a partitura). Sua compreensão dos estilos musicais é demonstrada pela capacidade de identificar compositores de peças que nunca ouviu, avaliando o estilo musical da obra e traduzindo quem poderia ser aquele compositor.

Embora ainda fisicamente desajeitado, a destreza manual de Kim vem aumentando. Ao piano, consegue tocar a peça que deseja discutir, cantar a passagem de interesse ou descrever a música verbalmente, mudando com naturalidade de um modo para outro. Kim presta atenção também ao ritmo, marcando o compasso no peito com a mão direita ou, ao tocar, batendo o pé direito.

Greenan, estudiosa de Mozart, faz três observações: “o conhecimento musical de Kim é considerável. Sua capacidade de lembrar cada detalhe de uma composição que ouviu – em muitos casos, uma só vez e mais de 40 anos atrás – é espantosa. As associações que faz entre composições, vida dos compositores, eventos históricos, trilhas de filmes e milhares de fatos armazenados em seu banco de dados revelam enorme capacidade intelectual”. A professora chega a compará-lo a Mozart, que também tinha cabeça grande, fascínio por números e habilidades sociais irregulares. E se pergunta se Kim chegará a aprender a compor.

A VIDA APÓS RAIN MAN

Numa cena visionária do filme Rain Man, Raymond Babbit calcula de cabeça, em instantes, raízes quadradas, e seu irmão, Charlie, interpretado por Tom Cruise, observa: “Ele deveria trabalhar na Nasa ou coisa semelhante”. Para Kim, tal colaboração pode vir a se concretizar.

A agência espacial americana propôs-se a criar um modelo anatômico de alta resolução da arquitetura do cérebro de  Kim em 3-D. Richard Boyle, diretor do Centro de Tecnologia  BioVIS, da Nasa, descreve o projeto como parte de um esforço maior de sobrepor e fundir imagens da mais ampla variedade possível de cérebros – daí o valor especial da mente  incomum de Kim. Os dados, estáticos e funcionais, devem ajudar pesquisadores a localizar   e identificar mudanças no cérebro que acompanham o pensamento e o comportamento. A Nasa espera que esse modelo melhore a capacidade de interpretação feita pelos médicos do resultado de sistemas de imagens de ultrassom bem menos potentes, o único tipo capaz atualmente de ser transportado para o espaço a fim de monitorar astronautas.

O sucesso de Rain Man constituiu um divisor de águas na vida de Kim. Antes disso, ele era solitário e enfiava­se no seu quarto quando chegavam pessoas. A confiança adquirida nos contatos com a equipe de filmagem e a celebridade resultante do sucesso do filme inspiraram a ele e seu pai, Fran Peek, a compartilhar os talentos de Kim com vários públicos. Eles se tornaram emissários entusiasmados dos portadores de deficiências, e compartilharam sua história com mais de 2 milhões de pessoas.

Acreditamos que a transformação de Kim tem aplicabilidade geral. Grande parte daquilo que os cientistas sabem sobre a saúde vem do estudo das doenças, e certamente grande parte do que se aprenderá sobre a memória normal virá do estudo da memória incomum. Neste ínterim, tiramos algumas conclusões práticas para o cuidado com outras pessoas com necessidades especiais e algumas habilidades da síndrome do sábio. Recomendamos que a família e outros profissionais da saúde “Treinem o talento”, em vez de desprezar essas habilidades como fúteis, de modo a conectar o portador com outras pessoas e mitigar os efeitos da deficiência. Não é um caminho fácil, porque deficiências e limitações ainda exigem grande dose de dedicação, paciência e trabalho duro – como o pai de Kim demonstra de forma tão convincente.

Investigações futuras sobre o savantismo proporcionarão descobertas científicas e histórias de imenso interesse humano. Kim Peck fornece amplos indícios de ambas as coisas.

OUTROS OLHARES

CIGARRO ELETRÔNICO NA BERLINDA

Estudo conclui que o dispositivo não ajuda os fumantes a largarem o vício e órgãos reguladores de saúde pretendem endurecer as regras sobre ele

Moda no Brasil e no Exterior, o cigarro eletrônico tem atraído adeptos com a promessa de ajudar fumantes a largarem o vício. No dispositivo, que lembra o modelo tradicional, uma bateria esquenta um líquido que pode ou não conter nicotina, produzindo o vapor que será tragado pelo usuário. A fama de aliado, porém, pode estar com os dias contados. Um estudo divulgado recentemente na publicação médica “Jama Pediatrics” concluiu que o uso do aparelho pode atrapalhar na recuperação dos dependentes da nicotina. Segundo a pesquisa, que acompanhou 949 pessoas durante um ano, 10,2% dos fumantes de e-cigs, como também são conhecidos, conseguiram deixar o vício. Entre os que não usam o dispositivo, o índice foi maior: 13,8%. Na quinta-feira 24, a agência reguladora de medicamentos dos Estados Unidos (FDA) deu outro golpe nessa indústria ao propor ampliar aos cigarros eletrônicos as regras existentes para outros produtos de tabaco – como proibição da venda para menores de idade e obrigatoriedade de aviso sobre danos à saúde. A Organização Mundial da Saúde (OMS) planeja tomar medida parecida. Isso significa que os signatários de uma convenção para o controle do fumo deverão aumentar impostos e restringir propagandas dos e-cigs. A maioria das nações, incluindo o Brasil, assinou o documento.

No País a comercialização é proibida. Isso faz com que muitos entusiastas, como a blogueira Juliana Ali, 32 anos, busquem a engenhoca no Exterior. Seus preferidos custam US$ 20. Há seis meses, Juliana adotou o dispositivo para largar o cigarro tradicional. “É óbvio que o eletrônico também faz mal, mas muito menos que o normal”, diz.  Especialista em dependência de drogas pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Ana Cecília Marques afirma que o fato de o produto se parecer muito com o cigarro comum pode fazer com que dependentes não consigam largar rotinas associadas ao vício. “O tratamento adequado é psicológico, biológico e social”, diz. De acordo com Jaqueline Issa, diretora do Programa de Tratamento de Tabagismo do Instituto do Coração (Incor), com a onda de regulamentações ficará mais fácil promover um uso mais seguro em casos especiais. “Se o cigarro eletrônico possui menos substâncias químicas que o tradicional, fumá-lo poderia ser uma vantagem para um paciente fazendo quimioterapia que se recusa a parar de fumar, por exemplo.”

GESTÃO E CARREIRA

VENDO SEU CARRO. TRATAR NO APP

A forma de comprar e vender carros usados está mudando, e startups como Volanty, Mobiauto e Instacarro estão surfando nessa onda criada pelas novas tecnologias

Não foram poucas as vezes em que os sócios e vizinhos Sant Clair de Castro Júnior e Guilherme Braga passaram noites em claro para trabalhar num projeto que facilitaria a compra e venda de automóveis seminovos e usados no País. Entre 2017 e 2018, a rota traçada no caminho da dupla envolveu dias de trabalho no corpo diretivo do iCarros, e-commerce controlado pelo banco Itaú, e madrugadas voltadas ao embrião de um novo negócio que ganhou tração no início deste ano. Batizada como Mobiauto, a startup não demorou para decolar.

Se em janeiro eram apenas sete funcionários numa apertada sala de coworking, hoje já são 64 pessoas instaladas em um dos principais arranha-céus corporativos da cidade de São Paulo. A largada para a plataforma da marca só veio em julho, mas os executivos garantem que, apesar do pouco tempo de operação, já contam com 140 mil veículos anunciados no sistema. “Em pouco mais de um mês, já firmamos contratos com 5,5 mil concessionárias de todo o Brasil”, afirma Castro Jr., CEO da Mobiauto. “Mas esse número de clientes tende a aumentar em, pelo menos, 1.300 no próximo mês.”

A evolução rápida só foi possível graças aos relacionamentos que o executivo construiu em seus quase sete anos na iCarros, mas sobretudo ao fundo de private equity americano Zion, que em junho adquiriu uma participação do negócio por R$ 40 milhões. Parte do aporte, no entanto, está atrelado a metas de desenvolvimento nos próximos dois anos. Na primeira fase do modelo de negócios, a principal fonte de renda será a venda de pacotes de anúncios das ofertas. A Mobiauto garante que o veículo esteja presente em todos os meios possíveis.

A empresa, porém, ainda não participa da parte transacional, diferentemente do que já acontece com suas principais concorrentes. “A ideia é oferecer essa etapa do processo no futuro”, diz Castro Jr. “Mas isso só vai acontecer quando tivermos protocolos de segurança com geolocalização para mapearmos a transação”. Até pouco tempo atrás, a Mobiauto atuava em duas etapas do processo de compra e venda de automóveis: B2C e C2C.

Em 13 de agosto, a empresa comprou a PasseCarros – segunda maior plataforma de repasse de veículos entre concessionárias e lojistas no País – e agora marca presença em todas as etapas. “Estamos preocupados em conseguir ajudar a concessionária a vender o estoque dela. Com esse serviço, agora eu consigo ajudar ela a vender para outra empresa”, comenta. As ações devem impulsionar os ganhos da operação, que pretende faturar R$ 18,6 milhões em 2020.

Não deve demorar muito para que o destino da Mobiauto passe por outros países. A empresa pretende escalar o modelo de negócios na América Latina e já iniciou negociações com possíveis parceiros na Argentina. Hoje, o negócio atende, principalmente, quem quer vender ou comprar carros de passeio ou utilitários pequenos. Em 2020, a empresa deve inserir motocicletas no catálogo e, no ano seguinte, caminhões. Quando questionado sobre os motivos que o levou a investir nesse mercado, o executivo é claro: “Nós somos a primeira plataforma de automóveis com expressão nacional que não é vinculada a bancos”, diz. “Quando um classificado pertence a um banco, ele automaticamente privilegia a si próprio em relação ao financiamento”. Virou comum ver essa ligação no e-commerce de automóveis brasileiro. A Webmotors, por exemplo, pertence ao banco Santander. O iCarros é ligado ao Itaú. A Autoline, por sua vez, é controlada pelo Bradesco. E o Meu Carro Novo é um braço do Banco Votorantim.

A RIVAL

Se a Mobiauto ainda aquece os motores para dar passos mais largos em busca de desenvolver esse mercado, o mesmo não pode se dizer da Volanty. Criada em 2017, pelos amigos Mauricio Feldman e Antonio Avellar, a empresa tem evoluído de forma contínua e, no início de agosto, atraiu os olhares do SoftBank, conglomerado japonês que é dono do maior fundo de investimentos em  startups do mundo. A rodada ainda contou com aporte do fundo argentino KaszeK Ventures, que foi criado por executivos do Mercado Livre e já apoiou projetos como Nubank e Quinto Andar; e rendeu um investimento total de R$ 70 milhões para a conta da Volanty. “Esse aporte vai ajudar bastante o nosso processo de expansão”, diz Feldman, cofundador e CEO da Volanty.

O modelo de negócio da empresa é um marketplace de seminovos e usados, com 11 centros de inspeção em São Paulo e 3 no Rio de Janeiro. “Ainda dá para crescer muito nos estados em que atuamos. Mas não tenha dúvidas que o nosso objetivo final, daqui a dez anos, é estar no Brasil inteiro, talvez na América Latina”, complementa. Feldman ainda não definiu os próximos passos no roteiro, mas garante que as cidades de Curitiba (PR), Belo Horizonte (MG), Porto Alegre (RS) e Brasília (DF) estão no radar.

Esse foi o terceiro aporte conquistado pela Volanty. No início de 2017, um investimento semente de R$ 2,5 milhões, realizado pelo fundo brasileiro Canary, ajudou a transformar o que era apenas uma ideia em empresa formalizada. Não demorou para que outro fundo nacional, o Monashees, aportasse R$ 20 milhões, em 2018. Os investimentos demonstram como o modelo de negócios da empresa é tida como inovador pelo mercado. Quem nunca teve uma dor de cabeça na hora de vender ou negociar a compra de um veículo seminovo que atire a primeira pedra. Na Volanty, o modelo de negócios é simples, mas funcional. Para vender o automóvel, a pessoa acessa o site e realiza um cadastro.

Em seguida, o interessado agenda uma visita aos pontos de inspeção da empresa. No horário marcado, a startup checa 150 pontos do automóvel em até 30 minutos. Quando aprovado, o veículo passa por uma sessão de fotos. Depois disso, o solicitante assina um contrato em que aceita que a Volanty tome conta do processo para a venda em troca de 7% da comissão sobre o valor final. “Como meu objetivo é vender o carro da forma mais rápida possível, o anúncio vai para todos os sites: OLX, Webmotors, Mercado Livre. E também para o nosso próprio portal”, diz Feldman. “Nós tiramos as fotos, inspecionamos o carro e ficamos responsáveis por toda a negociação. As ligações, os e-mails e as mensagens no WhatsApp ficam por nossa conta. Enquanto isso, você pode usar o carro à vontade”.

Segundo Feldman, a Volanty consegue vender o automóvel em até três dias após o anúncio. Em média, quem usa o serviço da startup embolsa 18% a mais que nas negociações realizadas por meio do método tradicional. Uma das próximas etapas da empresa será introduzir um serviço que garanta a opção de desistência do veículo mesmo até sete dias após a compra efetuada. “Se você comprar um carro e não gostar, nós compraremos de volta. Esse serviço, que nós vamos criar em breve, vai ajudar a fazer com que as compras sejam efetuadas diretamente pela internet. Hoje, apenas uma pequena parte disso é feita sem que a pessoa veja o carro pessoalmente na loja”, afirma o CEO da Volanty. “Nos Estados Unidos, mais de 100 mil carros são vendidos 100% on-line a cada ano. Aqui no Brasil, menos de 5% das nossas vendas são efetuadas desta forma.”

A Federação Nacional das Associações dos Revendedores de Veículos Automotores (Fenauto) estima que o mercado de compra e venda de veículos seminovos e usados movimente cerca de R$ 380 bilhões ao ano. Para Ilídio dos Santos, presidente da entidade, é preciso apoiar esse movimento capitaneado pelas startups: “Hoje, a tecnologia é importante para tudo. Ninguém sai de casa para comprar um carro sem ter pesquisado as condições técnicas dele pela internet antes”. De janeiro a julho, a venda de carros seminovos e usados avançou 2,2%, de acordo com a Fenauto. Um estudo da plataforma AutoAvaliar mostra que o comércio eletrônico de automóveis seminovos movimentou R$ 30 bilhões em 2018, resultado 66% acima do verificado no ano anterior. “Essas startups estão criando uma rede para cobrir todo o mercado. A tecnologia possibilitou essas novas formas de se fazer negócios”, diz José Caporal, presidente da Auto Avaliar.

Outra empresa que tem ajudado a modificar os rumos da compra e venda com auxílio da tecnologia é a InstaCarro, startup fundada em 2015, pelo argentino Luca Cafici e pelo engenheiro brasileiro Diego Fischer. O negócio conecta consumidores ávidos para se desfazerem de seus veículos a concessionárias e lojistas. Foi inspirado, inclusive, em uma startup europeia, a Auto1. Assim como suas coirmãs, a InstaCarro recebeu aportes

ALIMENTO DIÁRIO

A HISTÓRIA DO CASAMENTO

DIA 24 – GUARDANDO NOSSO CORAÇÃO

Até muito recentemente, os sites pornográficos eram os destinos mais populares da Internet. (Eles foram superados apenas pelos sites de mídia social.) Mais de um entre dez sites são de natureza pornográfica. Mais de 40 milhões de norte-americanos visitam regularmente esses sites, e a cada segundo 28.258 usuários da Internet estão assistindo pornografia. Nunca antes o apetite sexual foi tão perversamente desenvolvido e alimentado.

Com o predomínio da falsificação do estímulo sexual, muito do que deveria ser destinado ao ato de fazer amor foi substituído pela luxúria. O sexo virtual está destruindo a intimidade e arruinando os casamentos. Até mesmo os jovens têm agora problemas de disfunção erétil porque seu impulso sexual foi deturpado pelo vício em pornografia pela Internet. Mulheres de verdade não os satisfazem mais; suas experiências virtuais frequentes são diferentes demais dos encontros carnais reais.

Esse não é um problema exclusivamente dos homens, e o conteúdo pornográfico se prolifera além da rede. Cerca de uma em cada cinco mulheres assistem pornografia on-line semanalmente. Tanto os homens quanto as mulheres alimentam seus vícios fora da internet com coisas como revistas ou livros eróticos, sendo esses últimos especialmente populares entre as mulheres.

A pornografia e todas as outras formas de pecado sexual oferecem um prazer diluído, fora do projeto original de Deus. Mas o comportamento sexual ilícito, ainda que seja apenas na mente ou diante de uma tela, tem consequências muito mais profundas do que a perversão da gratificação. Jesus disse: “Mas Eu lhes digo: qualquer que olhar para uma mulher e desejá-la, já cometeu adultério com ela no seu coração” (Mateus 5:28).

Essa forma de infidelidade inerente a quem assiste pornografia é uma ameaça ao casamento, pois qualquer perversão da intenção de Deus para a sexualidade ataca nosso coração. “Acima de tudo, guarde o seu coração”, diz Provérbios, “pois dele depende toda a sua vida” (4:23). O pecado sexual polui nosso coração e pode consequentemente destruir nossas vidas e nosso casamento. Como uma triste confirmação dessa verdade, foi relatado que em cinquenta e seis por cento dos casos de divórcio uma das partes tinha “um interesse obsessivo por sites pornográficos”.

No fim das contas, todo pecado é um ataque à nossa vitalidade. Por sermos cristãos, o inimigo perdeu a batalha pelo nosso espírito – de modo que ele está guerreando contra as nossas almas. Ele quer que fiquemos atolados, presos às consequências do pecado porque ele não quer que experimentemos a vida em sua plenitude (ver João 10:10).

Cristo nos libertou do pecado, mas deixamos de experimentar essa liberdade quando permitimos que o pecado controle nossas vidas. Por esse motivo, Paulo escreveu:

Portanto, não permitam que o pecado continue dominando os seus corpos mortais, fazendo que vocês obedeçam aos seus desejos. Não ofereçam os membros do corpo de vocês ao pecado, como instrumentos de injustiça; antes ofereçam-se a Deus como quem voltou da morte para a vida; e ofereçam os membros do corpo de vocês a ele, como instrumentos de justiça. Romanos 6:12-13, grifo do autor

Oferecer “os membros do corpo” inclui nossa sexualidade. Glorificamos a Deus quando nos entregamos completamente a Ele e permitimos que o Seu Espírito guie nossas escolhas sexuais. Ele nos libertará do que nos prende e rouba de nós a vida que pretendeu nos dar. Ele nos levará a expressões sexuais que tragam liberdade, intimidade e prazer.

Não estamos dizendo que é fácil vencer a tirania do pecado sexual habitual. “Continuem trabalhando com respeito de temor a Deus”, Paulo escreveu, “para completar a salvação de vocês” (Filipenses 2:12, NTLH). Crucificar a carne é um processo doloroso, embora a santificação seja uma obra da graça de Deus. Às vezes a jornada que nos leva à santidade – e a integridade – requer de nós resistir firmemente à tentação e ao orgulho. Mas se permitirmos que o Espírito faça Sua obra de santificação em nós, encontraremos uma alegria espiritual que excede em muito a dor da luta.

UMA VISÃO DA PUREZA

O zelo que tenho por vocês é um zelo que vem de Deus. Eu os prometi a um único marido, Cristo, querendo apresentá-los a Ele como uma virgem pura. O que receio, e quero evitar, é que assim como a serpente enganou Eva com astúcia, a mente de vocês seja corrompida e se desvie da sua sincera e pura devoção a Cristo. 2 Coríntios 11:2-3

A pureza no nosso casamento tem a ver com mais do que apenas nós. Ela tem a ver com a visão de Cristo para uma noiva pura.

Atualmente, a luxúria está desenfreada dentro da Igreja. Pesquisas recentes mostram que cinquenta por cento dos homens cristãos e vinte por cento das mulheres cristãs são viciados em pornografia. Para combater esse problema, muitos homens e mulheres recorreram a métodos de prestação de contas e de modificação de comportamento para restringir seus vícios sexuais. Esse é um sinal valioso de um desejo de mudança, e esses métodos certamente têm seu lugar, mas a prestação de contas e a disciplina por si só não são fortes o suficiente para vencer a natureza pecaminosa. Se alguém quer se envolver em imoralidade sexual, nenhuma forma de contenção natural irá detê-lo. Ainda que seu comportamento exterior seja temporariamente controlado, sua vida interior continuará sendo governada pela luxúria e pela condenação.

Nossos padrões comportamentais só mudarão de fato quando nossas mentes forem renovadas. “Não se amoldem ao padrão deste mundo”, Paulo implorou “mas transformem-se pela renovação da sua mente” (Romanos 12:2). Como filhos de Deus, somos livres do poder do pecado (ver Romanos 6:19-23). Para desfrutar dessa liberdade, entretanto, precisamos primeiramente permitir que Deus santifique nosso comportamento renovando nossa mente.

Para ter nossa mente renovada precisamos passar tempo com a Palavra de Deus e na Sua Presença. Não existe outra maneira. A Palavra de Deus plantada em nossos corações e estabelecida pelo Seu Espírito nos liberta do pecado (ver Salmos 119:11 e Tiago 1:21). Muitos cristãos lamentam sua vergonha sexual, mas deixam de levar essa vergonha à presença Daquele que nos conduz à liberdade.

Muitas instituições religiosas tentaram empregar táticas que infligem o medo e mecanismos de controle na tentativa de corrigir a imoralidade. Mas esses esforços não funcionaram e levaram a muita hipocrisia e pecado. O fato é que a vergonha empurra o pecado para as sombras, onde ele floresce.

As leis religiosas e as regras feitas por homens não podem nos libertar do pecado. Na verdade, as leis e regras criam um solo fértil para a iniquidade (ver Romanos 7 e 2 Coríntios 3:6). Deus não quer que sejamos apaixonados por regras; Ele quer que sejamos apaixonados por Ele. Somos aperfeiçoados na experiência do amor do nosso Pai e somos curados através do nosso relacionamento com Ele. A Bíblia diz:

Vocês sabem que Ele se manifestou para tirar os nossos pecados, e Nele não há pecado. Todo aquele que Nele permanece não está no pecado. Todo aquele que está no pecado não O viu nem O conheceu. 1 João 3:5-6, grifo do autor

A palavra grega ginosko, traduzida aqui apenas como conhecer, na verdade significa “conhecer uma pessoa através da experiência pessoal direta, que implica em um relacionamento contínuo”. A libertação da natureza pecaminosa acontece quando temos um relacionamento pessoal com Deus, e não apenas por conhecê-Lo pelo que ouvimos alguém falar Dele.

O apóstolo João, pela inspiração do Espírito Santo, declarou que um cristão que se envolve habitualmente com o pecado não está experimentando um relacionamento íntimo e pessoal com Cristo. Portanto, a solução para os problemas e pecados que ameaçam a intimidade no casamento é crescer em intimidade com o Senhor.

Se o pecado está controlando sua vida, corra para Deus. Apenas através do conhecimento adquirido através da experiência do amor e da graça de Cristo você será liberto do pecado. Quando você se voltar para Deus em humildade, Ele renovará sua mente e removerá os véus que obstruem o conhecimento da sua liberdade em Cristo.

Mas quando alguém se converte ao Senhor, o véu é retirado. Ora, o Senhor é o Espírito e, onde está o Espírito do Senhor, ali há liberdade. E todos nós, que com a face descoberta contemplamos a glória do Senhor, segundo a Sua imagem estamos sendo transformados com glória cada vez maior, a qual vem do Senhor, que é o Espírito. 2 Coríntios 3:16-18

Deus não quer que você tenha problemas com o pecado sexual – ou com qualquer tipo de pecado. Ele quer que você ande em santidade e integridade. Quando seu amor por Deus aumenta – um amor que surge em resposta à descoberta do amor Dele por você – sua vida se enche de uma perspectiva renovada e de um desejo de honrá-Lo. Ao submeter-se à Sua vontade e aos Seus caminhos, você descobrirá o poder para viver como Jesus. Assim como Paulo orou pelos crentes de Filipos, oramos por você:

… Que o amor de vocês aumente cada vez mais em conhecimento e em toda a percepção, para discernirem o que é melhor, a fim de serem puros e irrepreensíveis até o dia de Cristo, cheios do fruto da justiça, fruto que vem por meio de Jesus Cristo, para glória e louvor de Deus. Filipenses 1:9-11

Quando abordamos o sexo com o desejo ardente de agradar a Cristo, podemos aprender a desfrutar da intimidade com nosso cônjuge em todas as fases da vida.