A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

AS MÁSCARAS DA TIMIDEZ

Ao contrário do que normalmente se pensa, os tímidos se esforçam para resolver o que consideram ser um problema. Ainda assim, nem sempre conseguem vencer a dificuldade de manter relações sociais e criar vínculos

“Todas as vezes que tenho de me relacionar com estranhos, ainda mais se forem pessoas de condição socioeconômica superior à minha, sinto-me bloqueado: tenho medo de fazer feio, de não exprimir os conceitos corretamente, de parecer pouco culto e inteligente, revelando minha falta de cultura universitária”. Assim se explica André, um bancário de 27anos.

Em tais contextos, o rapaz fala de forma atrapalhada, por mais ainda nos primeiros minutos da conversa. Para quem o observa, ele parece alguém que se esforça para animar a conversa, mas que, em contrapartida, se mostra rígido, fechado e inibido.

“Sinto-me confuso, e nesses momentos sempre me pergunto o que devo dizer, o que devo responder para que não pensem que sou um idiota. Além de não ser nada agradável, isso faz com que eu perca o fio da conversa. O resultado é que, como não acompanho alguns trechos do que está sendo dito, minhas respostas não são de fato muito inteligentes e originais…”

Nada disso, porém, ocorre diante das pessoas que André considera mais semelhantes a ele ou com as quais, apesar da diferença de condição e de educação, adquiriu com o tempo uma certa familiaridade. Em tais casos, ele se exprime com facilidade e consegue elaborar discursos articulados sobre vários temas. Por isso, podemos definir sua timidez como “situacional”, para diferenciá-la de um tipo mais profundo e generalizado.

Definida como sentimento de embaraço ou de inibição em situações sociais, a timidez faz o sujeito focar a atenção quase exclusivamente em si mesmo e ficar preocupado com o que o interlocutor poderá pensar sobre aquilo que diz ou sobre o que está sentindo (por exemplo, ansiedade e embaraço revelados pelo rubor).Em geral a timidez e a introversão são consideradas sinônimas, mas não é exatamente assim: o introvertido procura a solidão, mas, ao contrário do tímido, não teme o contato social. O tímido deseja a companhia de outros, porém considera-se incapaz de manter uma relação.

Alguns componentes podem ser reconhecidos na timidez. O afetivo refere-se às emoções típicas experimentadas pelos tímidos nas situações sociais: ansiedade, confusão, embaraço e vergonha, acompanhadas por sensações psicofisiológicas como tensão muscular, batimento cardíaco acelerado e um “aperto” no estômago. O cognitivo refere-se à excessiva atenção dada aos julgamentos dos outros (“Todos estão me olhando e me avaliando”), à avaliação negativa de si mesmo (“Só disse bobagens”)e a um sistema irracional de convicções (“Esta noite, na festa, ninguém me notará ou me achará interessante”):estes são os modos típicos de raciocinar das pessoas tímidas.

O resultado é uma acentuada inibição do comportamento, que consiste em evitar ativamente os contextos sociais e se manifesta no olhar que se desvia, na sistemática recusa a encontros sociais e no isolamento em geral. Tudo isso pode, evidentemente, prejudicar a formação de relacionamentos e a obtenção de objetivos acadêmicos e profissionais.

Mas o que os próprios tímidos pensam de sua timidez? Uma pesquisa realizada por Bernardo J. Carducci, pelo Shyness Research Institute da Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, avaliou 240 explicações dadas por pessoas tímidas sobre quais seriam as causas de seu modo de ser.

ONDE ESTÃO AS CAUSAS

Quase metade indicou como causa “fatores familiares”, que incluem, por um lado, o divórcio dos pais, violências familiares e adoção por uma nova família e, por outro, aspectos ligados à relação entre pais e filhos, como uma atitude superprotetora ou excessivamente severa por parte dos pais (ou de um dos pais) ou a ausência destes.

Um quarto dos participantes apontou “fatores psicofísicos, raciais e culturais”. Exemplos seriam a inexorabilidade da própria timidez (“Sou assim mesmo, sempre fui tímido”), a falta de uma cultura adequada, o  pertencimento a uma etnia minoritária, problemas físicos reais ou imaginários (como acne ou obesidade), uma suposta carência de dotes atléticos ou sexuais, ou ainda o fato de haver sido vítima de sistemáticas violências verbais, psicológicas, físicas ou sexuais.

Cerca de 20% assinalaram “fatores intrapessoais ou interpessoais”. Os primeiros se referem aos estilos de pensamento que tendem a fazer com que a pessoa crie uma imagem negativa de si: ela se culpa por tudo que não dá certo, ou se sente ‘estúpida’, nervosa ou deprimida quando emcompanhia, ainda que sem motivos. Os “fatores interpessoais” dizem respeito à dificuldade de interagir ou manter conversas com outros: a pessoa fica embaraçada e envergonhada em situações sociais e acaba por evitá-las totalmente.

Carducci observa que “a tendência é indicar as experiências precoces vividas em família ou com os coetâneos como explicativas do modo de ser. Os fatores externos são mais enfatizados (cerca de 64% dos participantes da pesquisa) do que o reconhecimento de uma cota de responsabilidade própria (somente 20%)”.

No caso de André, como ele mesmo diz, sua timidez se deve a um sentimento de insegurança e inadequação no plano sociocultural. Isso gera, segundo ele, sua atitude atrapalhada nas circunstâncias descritas. “Certamente tento remediar minha timidez. No ano passado frequentei um curso de teatro para adquirir mais desembaraço ao me apresentar e exprimir emoções, aprender a improvisar e enfrentar situações sociais difíceis, que exigem tomadas de posição. A estratégia que uso nas conversas, por outro lado, é a de evitar assuntos nos quais não me sinto seguro (política, história, literatura) e deslocar a discussão para temas que me são mais familiares, como economia, finanças e informática”.

Mas quais procedimentos são normalmente empregados pelos tímidos para enfrentar a timidez? O que a pesquisa revela, observa Carducci, “é que cerca de 87% dos tímidos estão efetivamente empenhados em superar a timidez. A estratégia mais utilizada é a ‘extroversão forçada’ (escolhida por dois entre três tímidos), que consiste em obrigar-se a frequentar locais públicos e procurar a presença de outros. Um a cada quatro tenta superar o problema minimizando a suposta periculosidade das situações sociais e procurando tornar mais positiva a visão dos outros (extroversão cognitiva auto induzida). Uma terceira alternativa é buscar informações sobre o embaraço que sentem, lendo manuais de autoajuda ou frequentando seminários sobre o tema. A procura de ajuda profissional assemelha-se, conceitualmente, a essa estratégia: terapia individual, de grupo ou seminários sobre como reforçar a autoestima.

Menos saudável e mais perigosa é a chamada ‘extroversão líquida”, obtida mediante o consumo de remédios não receitados, drogas ou álcool para reduzir a tensão nas situações sociais e tornar a pessoa mais desenvolta. Os 50% restantes dos indivíduos pesquisados se subdividem entre os que declaram praticar exercício físico para sentir-se melhor e, assim, aprimorar a relação com os outros, os que tentam emagrecer, influir na própria aparência física e se tornar mais atraentes; e os que nada fazem para aumentar sua sociabilidade “.

ESFORÇO PARA MUDAR

Tais estatísticas revelam que, contrariamente ao que se pensa, os tímidos não são passivos e indolentes, mas se esforçam para resolver o que consideram ser um problema, ainda que nem sempre os resultados sejam os esperados. Carducci lembra que essas estatísticas não são um fim em si mesmas. “Esses dados podem ter implicações teóricas e práticas para os profissionais da área da saúde mental. Será possível utilizá-los para antecipar e compreender melhor a natureza da dificuldade experimentada pelos tímidos e para desenvolver programas de apoio.”

Mateus é um menino de 7 anos que prefere brincar sozinho em seu quarto a ir para a praça com a mãe, onde pode encontrar dezenas de pessoas desconhecidas. Lucas, seu colega de classe, é exatamente o oposto, fala e ri com crianças e adultos que não conhece e poderia passar todo o tempo fora de casa, em meio às pessoas.

DESDE A INFÂNCIA

Qual seria a razão de tais diferenças? Segundo estudo recente, realizado por um grupo da Harvard Medical School, o fato de uma pessoa evitar coisas, pessoas ou situações novas pode depender, ao menos em parte, de diferenças cerebrais existentes desde a infância.

De fato, quando imagens de rostos desconhecidos são apresentadas a tímidos, é possível observar neles um nível de ativação mais elevado na amígdala, uma pequena formação que regula alguns dos processos emotivos mais importantes e integra o sistema límbico.

Nas pessoas extrovertidas, ao contrário, a ativação da amígdala é menos acentuada. “Nossos dados mostram como as diferenças em aspectos particulares do temperamento – os que levam alguém a evitar estímulos desconhecidos em vez de procurá-los espontaneamente – estão correlacionados a diferenças no funcionamento da amígdala”, explica Carl Schwartz, responsável pela pesquisa. “Graças a novos recursos tecnológicos, como a ressonância magnética funcional (fMRI), pudemos observar que as mesmas diferenças de temperamento e os mesmos padrões de ativação neurofisiológica observados em um indivíduo muito jovem estarão presentes nele anos mais tarde.”

A psicologia entende por temperamento um perfil afetivo e comportamental estável, que caracteriza um indivíduo desde a infância e que é controlado, ao menos em parte, por fatores genéticos. Um dos critérios mais utilizados para caracterizar o temperamento é justamente a reação da criança diante de pessoas, objetos ou situações não familiares. Dependendo da reação, fala-se de crianças “tímidas” ou “sociáveis”.

A pesquisa longitudinal realizada por Schwartz e seus colaboradores pode ser assim resumida. Um primeiro experimento subdividiu em duas categorias uma mesma amostra de crianças, todas com 2 anos, conforme seu grau de inibição ou de inibição diante de tímidos desconhecidos. Dezesseis anos mais tarde essa mesma amostra, agora adolescente, foi submetida a uma ressonância magnética que “registrou” imagens das áreas cerebrais ativadas durante a visão de seis fotografias de rostos desconhecidos (com expressão neutra) apresentadas várias vezes. Na fase de controle experimental, os jovens observavam, sucessivamente, um número maior de imagens, algumas novas e outras que faziam parte do grupo de fotos vistas antes. Se um aumento da atividade da amígdala em resposta a rostos novos é de fato natural, as pessoas classificadas como “inibidas” revelaram uma reação significativamente mais intensa que a do resto da amostra.

“Somos levados a pensar”, conclui Schwartz, “que frequentemente alguns traços de personalidade permanecem quase imutáveis ao longo da vida, a despeito do contexto de desenvolvimento e da experiência acumulada. Constatamos, além disso, a existência de uma relação entre a timidez precoce e o desenvolvimento sucessivo de fobia social (como ocorreu em dois casos de nossa amostra), ainda que o elo não seja automático, ser tímido não deve ser considerado, por si só, patológico.”

O SEGREDO? APRENDER A SE ACEITAR

O que é possível fazer quando a timidez se toma excessiva e perturbadora? Intervir com uma terapia? E quais resultados esperar? Fazemos estas perguntas a Bruno G. Bata, diretor do Centro de Ciência Cognitiva da Universidade e Politécnica de Turim e psicoterapeuta cognitivo em Milão. “Com o termo timidez patológica nos referimos a uma forma leve de fobia social que consiste na dificuldade de se apresentar diante de pessoas ou contextos desconhecidos. A fobia social pode se manifestar em situações que são arriscadas para todos, como falar a um público composto por dezenas ou centenas de pessoas desconhecidas, mas, em suas formas mais graves, pode bloquear a pessoa inclusive em contextos mais familiares e ‘protegidos’: no limite, ela não consegue nem mesmo fazer um comentário em uma reunião de amigos”

Como essa condição pode ser enfrentada? Bara considera que é preciso “enfatizar mais a aceitação do que a mudança. Tais formas de timidez podem e devem ter a sua gravidade social minimizada. Os que enrubescem pensam que isso tem uma conotação negativa. Mas, em geral, nenhum grupo social vê de forma particularmente negativa a pessoa que fica vermelha quando fala. Apenas os que enrubescem se veem como portadores de sinais que os outros interpretariam de forma negativa”. A pessoa deve então ser levada a “descentrar-se” e a perceber de forma muito menos grave esse seu comportamento involuntário.

“Um caso interessante, prossegue Bara, é o de um psicoterapeuta tímido que supervisionei. Ele percebia que ficava vermelho ou visivelmente alterado quando um paciente discorria sobre um tema grave, como a atividade sexual, ou muito tocante, como o luto por uma pessoa querida. O terapeuta se fixava então em suas próprias reações fisiológicas, percebendo o próprio rubor e imaginando que o paciente acharia que ele não era capaz de conduzir uma terapia. Ele acabava por perder o fio do discurso e abandonava a atitude de escuta, voltando-se para si mesmo de forma confusa e descontrolada. O resultado era que se sentia inadequado para desempenhar seu papel. A estratégia foi tentar fazê-lo aceitar seu próprio modo de ser. No seu caso, as emoções que experimentava não eram sinal de inadequação ou de falta de preparo: eram, sim, um indício de que o terapeuta é um ser humano diante de outro ser humano.”

Intervenções mais estruturadas são feitas quando a pessoa mostra verdadeiras dificuldades existenciais. Nesses casos, uma psicoterapia pode focar os problemas fundamentais que desencadeiam a ansiedade. Bara conta o caso de uma jornalista de televisão que, após ser promovida de redatora a apresentadora de telejornal, percebeu que sua forma de timidez fora acentuada de forma dramática. “Avaliamos então juntos quais eram para ela os principais elementos da ansiedade e procedemos a uma dessensibilização voltada a esses componentes específicos do transtorno. Em outros casos, como o dos profissionais que apresentam trabalhos em público, pode bastar ensiná-los a iniciar um discurso partindo de uma frase divertida, o que permite ao orador estabelecer uma relação com as pessoas e não com um público anônimo. Um gracejo permite de fato fragmentar o auditório em várias pessoas de carne e osso e a não percebê-lo mais como uma única entidade hostil e julgadora. O orador que consegue, graças a essa pequena estratégia, superar o momento inicial – os primeiros três ou quatro segundos – prossegue depois sem grandes dificuldades. Bara conclui que “a intervenção do terapeuta consiste em treinar a pessoa a descentrar-se, a não se ver com os próprios olhos, mas com os olhos dos outros, que são, paradoxalmente, muito menos severos”.

INDUÇÃO À TIMIDEZ

Qual o peso dos fatores sociais na geração, incremento ou manutenção da timidez na sociedade ocidental contemporânea? “Maior do que normalmente pensamos”, sustenta Karen S. Payne, pesquisadora do Califórnia Institute of Technology. “Observamos um aumento de jovens adultos tímidos. O fenômeno deve-se, em parte, à crescente dependência das novas gerações em relação a meios de comunicação que limitam consideravelmente a relação face a face entre os interlocutores.”

Pensemos, por exemplo, na quantidade de horas que as crianças, adolescentes e jovens adultos passam fechados em seus quartos em companhia de videogames ou navegando na internet e enviando mensagens aos amigos. O resultado é que se perde assim a confiança e o desembaraço necessários nos momentos em que se está diante de uma pessoa real e não virtual, quando olhamos nos olhos e experimentamos emoções que não podem ser ocultadas atrás de uma tela. Payne afirma que “se alguns tímidos podem se beneficiar e se abrir graças ao anonimato oferecido por essas novas tecnologias, é verdade também que esse tipo de comunicação pode se tornar o único, substituindo inteiramente o contato com o outro e criando uma verdadeira dependência. Consideremos a crescente automação em nossa sociedade, com bancos e pedágios automáticos ou bombas de gasolina manejadas pela própria pessoa: é cada vez mais raro entrarmos em contato com indivíduos de carne e osso”. A pergunta, difícil de responder, é quais os efeitos a médio e longo prazo que tudo isso pode ter sobre a nossa capacidade de desenvolver e manter relações humanas.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.