A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

EU SOU PORQUE NÓS SOMOS

Como o bem-estar comunitário pode contribuir para uma vida mais feliz em sociedade, com influência direta sobre o bem- próprias vidas estar subjetivo, ou seja, a forma como avaliamos as nossas

Há uma expressão na sabedoria africana do ubuntu que diz “eu sou porque nós somos”, ou estamos todos conectados, não podemos ser nós mesmos sem comunidade, ou ainda, em um sentido mais filosófico, “a crença em um vínculo universal de compartilhamento que conecta toda a humanidade”. Esse jogo de palavras traduz de maneira muito precisa a necessidade humana de nos relacionarmos com outras pessoas desde que nascemos e por toda a nossa existência, assim como a interdependência do florescimento e do bem-estar comunitário.

Com base nas pesquisas do Instituto Gallup, os autores Tom Rath e Jim Harter elencaram os cinco elementos essenciais do bem-estar, entre os quais figura o bem-estar das comunidades. Mas a que exatamente se refere essa categoria? Segundo eles, o bem-estar comunitário está ligado ao senso de envolvimento com o ambiente social no qual vivemos, à habilidade de interagirmos com as pessoas ao nosso redor, saber comunicar-nos com elas e criar relacionamentos significativos baseados no respeito e na harmonia. De forma ampla, o bem-estar comunitário se refere à qualidade dos nossos relacionamentos e à coesão entre os cidadãos, afetando as diversas esferas da existência. Em outras palavras, o florescimento concomitante de indivíduos e comunidades, nutrindo-se mutuamente.

Sob esse aspecto, o bem-estar comunitário tem influência direta sobre o bem-estar subjetivo, ou seja, a forma como avaliamos as nossas próprias vidas. De acordo com os pesquisadores Ed Diener e Robert Biswas-Diener, no livro Happiness: Understandzng the True Health (Felicidade: entendendo a verdadeira saúde, em tradução livre), os seres humanos precisam de outras pessoas para florescer, porque funcionamos melhor quando somos apoiados por uma rede de conexões significativas, verdadeiramente preocupadas   com o que somos e desempenhamos. À parte as pesquisas científicas, essa constatação pode ser averiguada ordinariamente no nosso próprio cotidiano, mais especificamente no uso quase ininterrupto que fazemos dos smartphones. Basta observar o horário de pico no transporte público: mesmo em meio ao estresse e às de­ mandas do dia a dia, estamos sempre em busca de um outro rosto, um comentário, alguém que valide o que somos, que reconheça nossa existência no mundo. Essa necessidade de contato, de apego, de nos sentirmos íntimos de alguém é o que impulsiona a maior parte de nossas atitudes, mesmo quando preferimos acreditar que não. Trata-se de um mecanismo biológico determinante para a sobrevivência humana.

De fato, segundo vários pesquisadores, a quantidade e a qualidade de relacionamentos próximos estão intimamente relacionadas à felicidade. Os pesquisadores James Fowler e Nicholas Christakis, autores de Connected: the Surprzsz’ng Power of our Social Networks and how they Shape our Lives (Conectado: o poder surpreendente de nossas redes sociais e como formam nossas vidas, em tradução livre), validam esse conceito ao afirmarem que, entre outros fatores, a felicidade de uma pessoa está ligada à felicidade das pessoas emocionalmente próximas. Isso significa que, quanto mais conectados estamos a uma rede de amigos ou família, maiores são as chances de alcançarmos a felicidade no futuro – uma afirmação especialmente poderosa quando inserida no contexto de promoção de uma infância saudável e próspera, por exemplo. Quanto mais apoio social nós recebemos, mais temos bem-estar; por isso, é perceptível que quanto mais uma pessoa aprecia a convivência social, mais feliz ela parece ser, e mais engajada se mantém em seus relacionamentos, assim como mais força ela demonstra ter para lidar com questões prementes do mundo moderno, como violência, crises e demais vulnerabilidades.

A Psicologia Positiva, nesse sentido, traz em seus diversos enfoques o poder de transformação e florescimento que emana do indivíduo para o grupo – e vice-versa. Segundo o professor Christopher Peterson, conhecido mundialmente por seu trabalho a respeito das forças de caráter, a Psicologia Positiva poderia, inclusive, ser resumida em três palavras: “os outros importam”. Isso quer dizer que a ciência do bem-estar tem como um dos seus pilares fundamentais o fato de que não podemos atingir a felicidade autêntica isoladamente. Nas palavras do poeta inglês John Donne, “nenhum homem é uma ilha”.

De acordo com Peterson, a função dos nossos relacionamentos, por um ponto de vista biológico, ultrapassa a de ser um mero veículo para a obtenção de alimentos, sexo ou outros elementos primários. Essa função, na verdade, é essencial: interações sociais consistentes e construtivas fortalecem o sistema imunológico, aceleram a recuperação do organismo (após cirurgias, por exemplo), reduzem os riscos de depressão e transtornos de ansiedade e são diretamente relacionadas à felicidade e à satisfação. Por outro lado, lacunas no campo dos relacionamentos interpessoais estão ligadas a um impacto negativo no tocante à saúde.

Assim, nas relações direcionadas à valorização da alteridade, ou seja, a concepção que parte do pressuposto básico de que todo ser humano social interage e interdepende do outro, prezar pela empatia ao próximo e agir para tornar a vida comunitária mais empoderada são o caminho para transformar e impactar positivamente a sua vida e a das pessoas ao seu redor.

FLORA VICTORIA – é presidente da SBCoaching Training, mestre em Psicologia Positiva Aplicada pela Universidade da Pensilvânia, especialista em Psicologia Positiva aplicada ao coaching. Autora de obras acadêmicas de referência. Ganhou o título de embaixadora oficial da Felicidade no Brasil por Martin Seligman. É fundadora da SBCoaching Social.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.